Produtores rurais buscam cada vez mais soluções high-tech

Se o agronegócio brasileiro é hoje uma potência mundial, isso se deve justamente ao investimento em tecnologia, que tem sido cada vez maior por parte dos produtores rurais. Uma pesquisa feita em parceria entre a Embrapa, o Sebrae e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelou que 84% dos agricultores brasileiros já utilizam ao menos uma tecnologia digital como ferramenta de apoio na produção. O estudo foi realizado entre abril e junho de 2020 e contou com 750 participantes entre produtores rurais, empresas e prestadores de serviços.

De acordo com José Henrique Castro Gross, gerente corporativo de agricultura de precisão da Pivot Máquinas Agrícolas e Irrigação, marca líder no Brasil em sistemas de pivôs centrais, o grande diferencial tecnológico no campo é a possibilidade de conectividade entre as soluções digitais de gestão e as tecnologias embarcadas nos modernos maquinários agrícolas e de irrigação.

“Além dos equipamentos de irrigação e maquinário agrícolas (tratores, colheitadeiras, pulverizadores), hoje nós também oferecemos várias soluções digitais que auxiliam o produtor rural na gestão da fazenda, especialmente no que diz respeito ao plantio, colheita e pulverização de defensivos e nutrientes”, explica o gerente da Pivot.

Entre as soluções disponíveis oferecidas pela Pivot, José Henrique cita duas plataformas digitais exclusivas da marca no Brasil: a Fieldnet fornecida pela Lindsay, empresa líder mundial em tecnologias de irrigação; e a AFS Connect, da Case IH, outra marca líder no desenvolvimento de maquinário agrícola e tecnologias para o campo.

“Essas plataformas, que estão disponíveis para sistemas operacionais de qualquer smartphone ou tablet, oferecem inúmeras ferramentas digitais voltadas para a gestão da propriedade rural, em especial para planejamento de plantio e colheita e manutenção de produtividade e de maquinário agrícolas, e podem ser adquiridas por qualquer produtor rural, mesmo aqueles que não são usuários de equipamentos comercializados pela Pivot”, afirma José Henrique.

Entre os recursos disponíveis por essas plataformas existem as ferramentas de monitoramento meteorológicos que possibilitam um planejamento cada vez mais preciso da safra de variadas culturas. “Hoje temos equipamentos de irrigação, por exemplo, que funcionam integrados a plataformas digitais de monitoramento meteorológico, possibilitando previsões climáticas para daqui 10, 15 ou 20 dias. Isso é determinante para a definição da melhor data do plantio, do planejamento de suas colheitas e distribuição”, destaca o gerente de agricultura de precisão da Pivot.

Irrigação digital

Só a Pivot tem instalados cerca de 1.200 pivôs conectados 24 horas com a internet. Isso permite um controle total do sistema, seja para a operacionalização, ou monitoramento do que está sendo produzido na área irrigada ou do quanto está sendo gasto de água e energia. Todo esse controle pode ser feito de forma 100% remota, seja de um computador, smartphone ou tablet.

“É possível, através das ferramentas que temos, ajustar remotamente a pressão e vazão do sistema. Emitir, a qualquer momento, relatórios personalizados sobre os gatos de energia e de água, o que é importante para atender os requisitos de conformidade legal, que muitas vezes são exigidos numa propriedade, especialmente em relação ao bombeamento de água”, explica José Henrique ao falar sobre o Fieldnet.

De acordo com o gerente da Pivot, uma das grandes vantagens dessas soluções digitais voltadas para o campo é que a maioria está preparada com interface e conectividade com as várias tecnologias embarcadas nos maquinários. “As tecnologias presentes nos maquinários agrícolas modernos conseguem, por exemplo, monitorar produtividade, condições meteorológicas e do solo. Por isso hoje, praticamente 100% dos equipamentos da Case IH, marca com a qual trabalhamos, já vem com alguma tecnologia digital embarcada”, salienta o gerente de agricultura de precisão.

Acessível

A tecnologia no campo é bastante acessível, segundo José Henrique. Qualquer produtor, do pequeno ao grande, pode investir e aumentar a rentabilidade. “Hoje, essas tecnologias são buscadas por clientes de pequeno, médio ou grande, até pela enorme variedade disponível de soluções tecnológicas. Na verdade, o pequeno e o médio produtor tem até usado mais a tecnologia, pelo fato de muitas vezes não poderem contratar tantos colaboradores e a necessidade de produzir mais numa área menor”, avalia José Henrique.

Ministério da Agricultura lança portal sobre ecossistema de inovação agro no país

Informações sobre o ecossistema de inovação da agropecuária brasileira e principais iniciativas em curso no país agora estão reunidas no Agro Hub Brasil. O novo portal traz números de agtechs – startups do setor agropecuário- de hubs de inovação, além de informações sobre parques tecnológicos, incubadoras e aceleradoras de empresas.

“O Agro Hub Brasil vem preencher uma lacuna, pois muito já se sabia do que estava acontecendo no campo referente à transformação digital, mas não havia um espaço que desse a visibilidade da grandeza desse processo. Para o futuro, a ideia é lançar chamadas online para que startups apresentem soluções para os desafios do Agro brasileiro, entre outras evoluções que devem acontecer ainda este ano”, disse o coordenador-geral de Inovação do Ministério da Agricultura, Pecurária e Abastecimento (Mapa), Daniel Trento.

Ainda segundo Trento, o Agro Hub Brasil contribui para uma maior coordenação das ações em curso, sejam elas promovidas pelo ministério ou por outras instituições, além de integrar o compromisso do Mapa de promover e potencializar iniciativas de inovação que fortaleçam a aceleração da transformação digital no campo.

No Agro Hub Brasil, o usuário tem acesso a um calendário com as principais iniciativas do agro que acontecem no país, além de espaço dedicado ao produtor rural que deseja conhecer um pouco mais sobre a agricultura digital. Nesse espaço também estão disponíveis informações sobre conectividade em áreas rurais e aplicativos de celular com soluções para o dia a dia no campo e exemplos de uso das tecnologias digitas na agropecuária, além de explicações sobre linhas de apoio e fomento público e privado para as startups.

Para a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, a ferramenta será uma referência para o produtor acompanhar as ações de inovação em andamento no país, servindo, como exemplo, para aproximar os empreendedores do agro da captação de recursos para os projetos. “Vamos incluir nosso produtor rural na efervescência dos ambientes de inovação para que tenhamos mais e mais soluções para os desafios reais do nosso agro”, explicou.

As dimensões da água

por Pedro Gerhard, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente

Dia 22 de março é o Dia Mundial da Água. Tal sua importância, que a ONU dedicou inteiramente dois dos seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: o ODS-6, dedicado ao fornecimento de água potável e ao saneamento, e o ODS-14, tratando da vida na água dos mares e oceanos. Mais do que isso, outros ODS incluem metas diretas e indiretamente ligadas à água: da produção de alimentos, ação sobre as mudanças climáticas até a proteção de ambientes aquáticos.

Pode-se concluir que a água está conectada a todos os 17 ODS: ela é um recurso, um mediador e um meio. Sua presença, para além de quando abrimos a torneira, está na energia usada para escrever este texto e no alimento que comemos.

Uma forma de entender o complexo papel do líquido está no conceito “nexo água-energia-alimento”. Cunhado pela Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) em 2014, o conceito sublinha seu papel no bem-estar humano, na redução de pobreza e no desenvolvimento sustentável. Água é usada para produzir energia. Água é usada para produzir alimento. Energia é usada para coletar, transportar e tratar água, demandada nas cidades por pessoas e indústrias. O nexo aponta com clareza para as demandas setoriais pela água. Para assegurar que a água continue disponível em qualidade e quantidade, fluindo de rios e poços, seu uso deve ser feito racionalmente, de forma sustentável.

Em termos globais, a água não se consome em definitivo, ela é ingerida e transpirada, ela escoa, infiltra, evapora, precipita, permeia e viaja pelo planeta. É aí que o papel da agropecuária se destaca. Ela ocupa porções consideráveis da superfície dos continentes e também é a atividade que usa a maior parte da água doce extraída de rios e de poços. Porém, no Brasil, a maior parte da atividade agropecuária é dependente da água das chuvas, e grande parte da água retorna ao meio ambiente localmente, por infiltração, evaporação ou transpiração. E na agricultura irrigada, ainda que as magnitudes sejam outras, ocorre o mesmo. Apenas uma fração da água total que passa no sistema produtivo é exportada como alimento.

Permanece uma questão e um desafio. A questão é entender quanto, quando, como e onde essa água retorna ao meio. O desafio é melhorar continuamente os sistemas de produção para serem mais eficientes no consumo de água e que seus efluentes sejam livre de contaminantes.

A indagação é, de forma nada abstrata, enfrentada diariamente pelo produtor rural – quanta água o gado precisa, quando é melhor plantar, como evitar as enxurradas e proteger o solo, onde guardar a água em excesso, quando a terra não pode absorver mais? A provocação é, também de forma nada abstrata, motivação diária para pesquisadores que trabalham nas ciências agrárias, florestais, ambientais e outras afins. Quais plantas são mais eficientes no uso da água, ou toleram secas mais extensas? Quanta água pode ser retida no solo se técnicas inovadoras de plantio forem desenvolvidas? Onde e quando irrigar cada cultura, para incrementar o aproveitamento da água pela cultura e minimizar o consumo de energia?

Notem-se as questões impostas pelas mudanças climáticas. Em primeiro lugar é preciso reduzir as emissões ou aumentar o sequestro de gases do efeito estufa dos sistemas de produção utilizados atualmente. Segundo, é preciso adaptar os sistemas de produção de alimentos às alterações no regime de chuvas, na intensidade de eventos de precipitação e estiagem e das temperaturas médias; essas alterações já são observadas atualmente.

Respondida a questão, enfrentado o desafio, outra dimensão da água pede consideração. É a dimensão espacial, sua dispersão, movimentação, transporte e armazenamento entre ecossistemas (agroecossistemas para floresta), entre paisagens rurais (pecuária extensiva para pecuária leiteira) e entre regiões geográficas (Norte para o Centro-Oeste). Dado que a agricultura ocupa porções significativas do Brasil (e em muitos outros países), considerar esta dimensão espacial coloca novas questões para a Ciência.

Compreender os sistemas produtivos como áreas inter-relacionadas com seu entorno, com seus ecossistemas vizinhos. Estudar o papel da propriedade rural no contexto das bacias hidrográficas e outras áreas especiais, como áreas úmidas e de recarga de aquífero. Elucidar como os padrões de uso da terra afetam as taxas de evaporação, transpiração e precipitação em uma região, para então afetar outra que pode estar a milhares de quilômetros. Mas é aqui que se tornam necessários outros atores: gestores públicos, legisladores, agentes técnicos e a sociedade organizada.

A pesquisa pode nortear políticas públicas e auxiliar sua instrumentação, mas ainda será preciso escrever leis, criar ferramentas para sua execução, criar planos de governo, orientar e fiscalizar as atividades dos diversos setores da sociedade.

“Todos moram em uma bacia hidrográfica”. Este bordão de educação ambiental, já bem repetido em outros países, é verdadeiro também para nós, no Brasil. Ele aponta para o fato de que nossas ações (e inações) influenciam a água, seja a consumindo diretamente, como energia ou como alimento. Esta água atua em um espaço geográfico, um sistema hidrológico. Não difere no contexto da propriedade rural, que abriga ecossistemas de produção agrícola e, outros, naturais.

O objetivo primeiro da propriedade rural é claro – produzir alimentos e outros insumos úteis. Isto pode, e deve, cada vez mais considerar as diversas dimensões da água. Seja água como recurso de uso direto, seja como um mediador, que transporta e transfere energia e nutrientes entre os componentes do sistema solo-planta-atmosfera, seja como um meio, que propicia a criação de ambientes aquáticos e áreas úmidas.

Esses espaços naturais conservados também podem ser uma fonte de renda direta ou indireta, pois oferecem diversos benefícios (materiais e imateriais) para as pessoas, mesmo as que estão distantes do meio rural. Isto é, só temos a ganhar quando entendemos que a água não é apenas um recurso, um insumo indispensável para a geração de produtos, mas também um elemento atuando em várias dimensões, capaz de permear, conectar, criar e transformar o planeta e seus habitantes.

Dia Mundial da Água: irrigação na produção de alimentos

Comemorado em 22 de março, o Dia Mundial da Água foi criado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1993. Como forma de celebrar a data e aumentar a conscientização sobre seu uso consciente, a RENAI (Rede Nacional de Irrigantes) destaca a importância da gestão responsável da água e da produção de alimentos de forma sustentável.

A técnica de agricultura irrigada tem crescido de forma sólida no Brasil nos últimos anos. De acordo com o Atlas da Irrigação, a área irrigada no país chega atualmente a 8,2 milhões de hectares, apenas 3% da área produtiva ocupada pela agropecuária no Brasil. “É possível irrigar cerca de 55 milhões de hectares no Brasil, sendo esse o maior potencial de crescimento de área irrigada do mundo”, destaca Lineu Rodrigues, fundador e coordenador da RENAI.

Relatório da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), no entanto, indica que a irrigação no país pode crescer 45% até 2030. “É muito pouco, frente às necessidades. Temos o desafio de produzir alimentos de forma sustentável e em quantidade suficiente, em um mundo cada vez mais complexo, com uma população que em 2050 será em torno de 9,1 bilhões de pessoas”, ressalta o especialista.

Conforme estudo realizado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), uma em cada nove pessoas no mundo não tem comida suficiente para levar uma vida saudável e ativa. E, para atender a esta demanda mundial de alimentos em uma janela de tempo de menos de três décadas, há a necessidade de um aumento real na produção de alimentos de cerca de 70%.

“O Brasil é um dos poucos países capazes de elevar a sua produção agrícola sem comprometer o meio ambiente. Temos mais de 12% das reservas de água doce e algumas das maiores bacias hidrográficas do mundo”, reitera Rodrigues.

Segundo ele, o uso da água via irrigação para produção de alimentos ainda é discreto, uma vez que a quantidade utilizada para este fim representa menos de 0,6% do que existe nos rios brasileiros.

Entre os benefícios da agricultura irrigada, conforme especialistas, destaca-se, principalmente, o desenvolvimento social e econômico do país e a possibilidade de uma produtividade até três vezes maior do que em áreas de sequeiro – no caso da soja, esse número tende a ser ainda maior. Além disso, a prática reduz a possibilidade de impacto climático na produção; viabiliza diversidade nas culturas e uso do solo durante todo o ano; estimula a modernização no campo; contribui à geração de emprego e renda; e reduz a demanda por abertura de novas áreas de produção.

Para entender o sistema de agricultura irrigada, no entanto, é necessário compreender também o ciclo da água, ou o ciclo hidrológico, que nada mais é do que o caminho percorrido por ela na Terra e na atmosfera.

A água, no seu estado gasoso, proveniente da evaporação e da transpiração das plantas, sobe. Levada por correntes de ar, o vapor esfria e condensa. Neste momento, a água assume a forma líquida novamente, formando nuvens – conjuntos de partículas que, com o tempo, deixam as nuvens carregadas e, consequentemente, geram a chuva. Dessa forma, a água retorna ao ciclo, e seu movimento é recomeçado.

Terceiro setor

A escassez de água para o manejo do cultivo de alimentos tem feito os produtores rurais procurarem técnicas de agricultura irrigada que garantam um desenvolvimento sustentável e mitiguem os problemas de estiagem.

“Em períodos de abundância hídrica, o volume de água autorizado por outorga é represado para uso em momentos de baixos níveis. Dessa forma, aproveita-se o recurso da melhor forma possível na continuidade de produção de alimentos, como feijão, soja e milho”, explica Celso Lopes, presidente da Associação dos Produtores do Vale do Araguaia (APROVA).

Lopes destaca que a irrigação ainda abre oportunidade para geração de segurança alimentar, econômica e ambiental no Brasil. “Em algumas áreas do nosso país, torna-se totalmente impossível produzir sem irrigação devido aos longos períodos de seca, como observamos no semiárido brasileiro. Não é possível haver geração de emprego, desenvolvimento social e sustentável ou estabilidade na produção sem que haja uma estratégia sólida de irrigação do cultivo”, complementa.

Nos picos da seca, entre agosto e setembro, os equipamentos de irrigação, como, por exemplo, os pivôs centrais são usados pontualmente, ficando ligados com mais intensidade entre abril e junho, voltando à carga em outubro e deixados de lado, novamente, com as chuvas de verão.

“A conta é a seguinte: pegar o volume de água que o pivô utiliza diariamente e calcular isso sobre o período máximo que ele pode ficar sem captar água. Assim, você conseguirá dimensionar o volume útil de água necessário no reservatório. Além disso, a tecnologia de gerenciamento remota possibilita o monitoramento constante da irrigação, aumentando, assim, a produtividade e utilizando melhor os recursos naturais”, finaliza o presidente da APROVA.

Por meio da ONG Araguaia Sustentável e em parceria com a APROVA, a Mitre Agropecuária tem investido em ações à comunidade local, contribuindo para o desenvolvimento social e econômico do país, biodiversidade, produção de alimentos e geração de emprego e renda na região do Vale do Araguaia.

Sobre a RENAI

A Rede Nacional de Irrigantes (RENAI) é uma entidade sem fins lucrativos composta por 13 Associações de Irrigantes, seis Polos de Irrigação e 12 dos principais nichos da agricultura que utilizam a irrigação. Lançada em dezembro de 2021, a Rede visa através do incentivo ao desenvolvimento sustentável da agricultura irrigada, contribuir para que a segurança alimentar e ambiental, a sustentabilidade do agronegócio e a redução da fome e da pobreza seja atingida no Brasil.

A importância da gestão de recursos hídricos e da agricultura irrigada no nexo água e alimento

Lineu Neiva Rodrigues, pesquisador da Embrapa Cerrados | Paulo Estevão Cruvinel, pesquisador da Embrapa Instrumentação

No dia 22 de março, celebra-se o Dia Mundial da Água, estabelecido em 1992 pela Organização das Nações Unidas (ONU). A data é fruto de um esforço da comunidade internacional para colocar em pauta questões essenciais que envolvem os recursos hídricos. A água deve ser vista como um bem jurídico, econômico e social, é um recurso natural limitado e dotado de valor econômico, que requer gestão adequada para que possa suprir, de maneira satisfatória, além das demandas ambientais, os demais usos.

Tal celebração se contextualiza como oportunidade para se discutir sobre a importância desse recurso para a vida e para o desenvolvimento econômico e social. É fundamental que essa oportunidade seja analisada dentro de uma visão temática e em várias dimensões. Assim, torna-se preponderante a adoção de estratégias relacionadas ao manejo, que considerem os recursos hídricos de forma integrada, ou seja, que almejem uma alocação equitativa dos mesmos, considerando não somente os usos múltiplos da água, como também a bacia hidrográfica como unidade de referência para a gestão.

A água no planeta sempre foi considerada de vital importância para a vida. Ao se buscar reconstruir a sua trajetória histórica, desde os primórdios dos tempos até o presente, se faz necessário buscar analogias com as diversas sociedades que foram sendo estabelecidas, tanto as urbanas como as rurais. Estudos antropológicos modernos têm desempenhado um importante papel para o estabelecimento dessas analogias, as quais atualmente também contam com praticamente todas as outras grandes áreas do conhecimento – daí a água apresentar dimensão temática, o que também encontra significativa importância para as relações humanas.

Nesse contexto, a água pode ser considerada um elemento de conexão para o dialogar, o compartilhar e o integrar. Não deve ser vista como geradora de conflitos, mas sim de oportunidades para ganhos em qualidade de vida, produção e geração de desenvolvimento.

Como ocorrido historicamente, há clara evidência de que a água continuará sendo de fundamental importância para o desenvolvimento da vida, da humanidade, da sustentabilidade, bem como – e de forma mais abrangente – da própria biodiversidade no planeta.

No ambiente urbano, os recursos hídricos são predominantemente destinados ao abastecimento público e esgotamento sanitário. Entretanto, há também uso industrial e em atividades de lazer e recreação. Nesses ambientes, os principais desafios envolvem, atualmente, o monitoramento de nascentes para abastecimento urbano e o uso da água para as gerações futuras.

No ambiente rural, não se pode pensar em agricultura e desenvolvimento sustentável sem que haja um equilíbrio entre oferta e demanda de água. Para tanto, cuidados devem ser tomados para que seu uso seja racional, o que implica vencer desafios para o estabelecimento adequado das técnicas de manejo que envolvem seus múltiplos usos e também esforços em minimização de riscos, principalmente para evitar contaminações e a eutrofização – surgimento excessivo de organismos como algas e cianobactérias – desses recursos.

O Brasil é um país de dimensões continentais e apresenta grandes diferenças sociais, ambientais e econômicas, o que faz da gestão de recursos hídricos uma atividade ainda mais desafiadora. De fato, utilizar as mesmas premissas para a gestão de recursos hídricos em todo o País se configura como um grande equívoco. Ações dessa natureza podem levar a conflitos em bacias hidrográficas que já se encontram em estado crítico em termos de disponibilidade hídrica. A gestão deve ser adaptativa às realidades regionais, de forma a considerar suas características, incluindo um olhar diferenciado para as bacias hidrográficas críticas, onde a disponibilidade hídrica já se encontra comprometida, assim como onde já é realidade a ocorrência de conflitos pelo uso da água.

Adicionalmente, é importante relacionar a água como principal fator da produção agrícola. Nesse sentido, água e alimento é um binômio fundamental para a sobrevivência do ser humano no planeta. Entretanto, ainda persiste o desafio de se buscar integrar de forma efetiva e estratégica as políticas de segurança hídrica e alimentar, de forma a se trazer estabilidade para a produção de alimentos. Essa integração é ainda mais importante quando se considera que aproximadamente metade da produção global de grãos poderá, em curto período de tempo, estar em risco devido ao estresse hídrico. Esse risco é ainda mais preocupante quando se considera o efeito das mudanças climáticas, cujos cenários vêm indicando aumento nas incertezas das chuvas em várias regiões do planeta, incluindo regiões do Brasil.

Como solução a esse grande desafio, figura a agricultura irrigada, que se apresenta como base tecnológica essencial para a segurança alimentar. A irrigação atua como um seguro para a falta de água, reduzindo as incertezas do clima, cada vez maiores. É a água utilizada pela irrigação – a chamada água azul, existente nos rios ou aquíferos –, que deve ser olhada na gestão de recursos hídricos. Deve-se ter em mente, entretanto, que parte da água utilizada pela planta vem da chuva – água verde. Essa água não entra na contabilidade da gestão, mas para maximizar a sua disponibilidade é importante se fazer um bom trabalho de conservação do solo, pois é no solo que a água cumpri a fase terrestre do ciclo hidrológico. O objetivo é sempre reduzir o escoamento superficial e aumentar a infiltração.

Assim, ao se pensar no nexo água-alimento, é fundamental considerar o papel da agricultura irrigada. A complexidade inerente a essa interação é um dos motivos dos debates e disputas, muitas vezes desnecessárias, entre os setores usuários. Mantidas as condições atuais, o aumento na produção de alimentos demandará mais água e poderá aumentar ainda mais as disputas pelo uso da água, reduzindo a qualidade de vida da população rural. É nesse sentido que a ciência tem papel fundamental. As inovações modificam o panorama atual, possibilitando produzir mais sem aumentar as demandas hídricas.

Na maioria das vezes, os problemas hídricos estão relacionados à dinâmica da água e sua temporariedade, fato mais evidente nos países tropicais, como o Brasil, principalmente na agricultura. O excesso de água ocorre durante os meses chuvosos, quando a demanda hídrica das culturas é pequena. Ou seja, quando se tem muita água azul no sistema hídrico, ela é menos demandada. Por exemplo, em escala global, de todo o conteúdo que se precipita, 61% fica armazenado no solo para ser utilizado pelas plantas e 39% se transforma em água azul. Da água azul, 36% vai para os oceanos, ou seja, apenas 3% é utilizado pelos diferentes usos.

No contexto da gestão de recursos hídricos, é importante entender a água e sua função nas diferentes regiões (territórios). Existem regiões com forte aptidão para indústria, outras são necessárias para o abastecimento urbano e outras para a produção de alimentos.

Considerando os territórios, algumas regiões só existem devido à agricultura, enquanto outras só são economicamente viáveis devido a existência da agricultura irrigada, e se tornaram sinônimo de segurança alimentar, apresentando grande desenvolvimento de tecnologia, embasamento científico e de melhoria nos indicadores de IDH. É importante ressaltar que embora não seja diretamente entendido pela população local, todo o comércio nessas regiões é movimentado pela população que trabalha na agricultura. Assim, é cada vez mais importante mudarmos os questionamentos. Em vez de se questionar que a agricultura irrigada utiliza muita água e o que deve ser feito para dificultar esse uso, deve-se perguntar: como aumentar a eficiência do uso e melhorar a comunicação de forma a se ter mais segurança hídrica para as áreas irrigadas sem comprometer o meio ambiente?

Nas regiões com maior aptidão para uma determinada atividade, é natural que a maior parte da água outorgada seja destinada para aquela atividade (setor). Em outras palavras, em uma região com aptidão para a agricultura irrigada, não existe problema legal nem conflitos se 80% ou mais da água outorgada forem destinados para a agricultura irrigada.

De hoje para o futuro, deve-se buscar atenção ainda maior às atividades relacionadas aos múltiplos usos da água e sua associação à produção de alimentos, tão importantes para a vida. Não menos importante, também maior atenção à sustentabilidade e à resiliência dos ecossistemas naturais deve fazer parte da agenda de prioridades. Cenários indicam que em 2050 a população mundial poderá chegar a 9,1 bilhões de pessoas, 34% a mais que a atual. Quase todo esse aumento populacional ocorrerá nos países em desenvolvimento. A urbanização continuará em ritmo acelerado e cerca de 70% da população mundial deverá ser urbana.

Logo, no Brasil, a ponte rural-urbano fundamentada no nexo água-alimento precisará ser robusta e sólida, de forma que a economia circular venha a ser praticada integralmente, com foco no ajuste do cenário de negócios como de costume para novos cenários baseados em inovações tecnológicas e também alternativos para que, de fato, viabilizem os direitos para o uso da água e o acesso pleno aos alimentos, tanto para consumo interno como para a exportação, conectados e baseados nos novos conceitos da bioeconomia e fundamentados em uma Política Pública de Estado (PPE).

O Brasil tem grande aptidão para agricultura. Isso deve ser entendido pela sociedade como um dos nossos mais importantes ativos. Para que o nosso papel estratégico de produtor de alimentos possa ser consolidado, é importante que os nossos agricultores tenham segurança hídrica. Isto é, ao se pautar questões essenciais que envolvam os recursos hídricos, deve-se colocar nessa pauta, como política de estado, de maneira estratégica, a irrigação como a principal tecnologia para garantir estabilidade e sustentabilidade à produção de alimentos.

Guerra na Ucrânia: risco de desabastecimento antecipa lançamento do Plano Nacional de Fertilizantes

Como estratégia para reduzir a dependência do Brasil das importações de fertilizantes, o Governo Federal lançou o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF). A iniciativa é uma referência para o planejamento do setor de fertilizantes para os próximos 28 anos (até 2050), promovendo o desenvolvimento do agronegócio nacional e considerando a complexidade do setor, com foco nos principais elos da cadeia: indústria tradicional, produtores rurais, cadeias emergentes, novas tecnologias, uso de insumos minerais, inovação e sustentabilidade ambiental.

Em um contexto mundial de incertezas, a elaboração do plano foi iniciada em 2021 e formalizada por Decreto. O documento também institui o Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas, órgão consultivo e deliberativo que coordena e acompanha a implementação do Plano Nacional de Fertilizantes.

Atualmente, o Brasil ocupa a 4ª posição mundial com cerca de 8% do consumo global de fertilizantes, sendo o potássio o principal nutriente utilizado pelos produtores nacionais (38%). Na sequência, aparecem o fósforo com 33% do consumo total de fertilizantes, e o nitrogênio, com 29%. Juntos, formam a sigla NPK, tão utilizada no meio rural. Dentre as culturas que mais demandam o uso de fertilizantes estão a soja, o milho e a cana-de-açúcar, somando mais de 73% do consumo nacional.

Segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos, mais de 85% dos fertilizantes utilizados no país são importados, evidenciando um elevado nível de dependência de importações em um mercado dominado por poucos fornecedores. Essa dependência crescente deixa a economia brasileira, fortemente apoiada no agronegócio, vulnerável às oscilações do mercado internacional de fertilizantes.

Maiores consumidores de fertilizantes em 2020

A implantação das ações do PNF poderá minimizar a dependência externa desses nutrientes, que chegam ao país principalmente da Rússia, da China, do Canadá, do Marrocos e da Bielorússia. Estados Unidos, Catar, Israel, Egito e Alemanha completam a lista dos dez maiores exportadores de fertilizantes para o Brasil em 2021, de acordo com dados do Ministério da Economia (Figura 2).

O PNF buscará readequar o equilíbrio entre a produção nacional e a importação ao atender sua crescente demanda por produtos e tecnologias de fertilizantes. Pretende-se diminuir a dependência de importações, em 2050, de 85% para 45%, mesmo que dobre a demanda por fertilizantes.

A ministra Tereza Cristina explicou que não se trata de o país alcançar a autossuficiência, mas sim de se ter autonomia, com um percentual reduzido de dependência externa para o fornecimento dos fertilizantes ao produtor. Segundo ela, é preciso reforçar a “diplomacia dos fertilizantes”, expandindo as relações de compra desses nutrientes em escala global.

“Não estamos buscando a autossuficiência, mas sim, a capacidade de superar desafios e manter nossa maior riqueza, o agronegócio, pujante e competitivo, que faz a segurança alimentar do brasil e do mundo. Nossa demanda por nutrientes para as plantas é proporcional à grandeza de nossa agricultura. Mas teremos nossa dependência externa bastante reduzida”, disse, reforçando que o Plano não é apenas para reagir a uma crise, mas para tratar de um problema estrutural, de longo prazo.  

No próximo dia 12, a ministra viaja ao Canadá para tratar do tema, após ter visitado o Irã recentemente, e a Rússia, no ano passado.

Objetivos do PNF

Além da redução da dependência externa, o PNF ainda apresenta oportunidades em relação a produtos emergentes como os fertilizantes organominerais e orgânicos (adubos orgânicos enriquecidos com minerais, por exemplo) e os subprodutos com potencial de uso agrícola, os bioinsumos e biomoléculas, os remineralizadores (exemplo, pó de rocha), nanomateriais, entre outros.

Plano Nacional de Fertilizantes 2022-2050

O desenvolvimento de tecnologias apropriadas ao ambiente tropical de produção brasileiro e a formação de redes de apoio tecnológico ao produtor rural e aos técnicos também compõem o Plano e integram a Caravana Embrapa FertBrasil.

A ação, realizada pela Embrapa, prevê visitas técnicas aos principais polos agrícolas. Ao abordar questões práticas relacionadas ao aumento da eficiência dos fertilizantes, a Caravana terá impacto imediato capaz de promover uma economia de até 20% no uso dos fertilizantes no Brasil já na safra 2022/23, o que pode resultar em até um US$ 1 bilhão de economia para o produtor rural brasileiro.

As diretrizes do PNF também abordam uma política fiscal favorável ao setor, incremento de linhas de fomento ao produtor, incentivos a ações privadas, expansão da capacidade instalada de produção, melhorias na infraestrutura e logística nacionais. Tudo isso para ampliar a produção competitiva de fertilizantes (abrangendo adubos, corretivos e condicionadores) no Brasil.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, destacou que o plano possibilitará ampliação da cadeia produtiva. “O Brasil é uma potência mineral, agroambiental e vai fazer, na verdade, do ponto de vista econômico, um aprofundamento da cadeia produtiva”.

Importância dos fertilizantes

Responsáveis por fornecer um ou mais nutrientes para as plantas, os fertilizantes são insumos essenciais na produção brasileira e associam-se à implementação de novas fontes e tecnologias em nutrição de plantas para permitir melhores padrões de produtividade por hectare cultivado. Considerado celeiro do mundo, o Brasil é o quarto maior produtor mundial de grãos (arroz, cevada, soja, milho e trigo), sendo responsável por 7,8% da produção total mundial.

Por isso, o PNF considera que, para o Brasil atingir as expectativas nacionais e mundiais de produção de alimentos, é preciso melhorar o ambiente de negócios, investir em ciência e tecnologia para o ambiente tropical e garantir investimentos na produção nacional, de forma a reduzir a dependência de insumos importados.

De acordo com previsões do Department of Economic and Social Affairs Population da Organização das Nações Unidas (United Nations, 2019), a população mundial deve alcançar cerca de 9,6 bilhões de indivíduos em 2050, tornando imprescindível a utilização de terras cultiváveis com a maior produtividade possível e de forma agroecológica.

A cadeia de fertilizantes é de alta complexidade, interagindo com o setor de produção de alimentos, de energia, com as indústrias química, de mineração, de óleo e gás, além do comércio exterior.

Foto: Reprodução / Таисия Воронцова / ТАСС / TASS

Safra 2021/22 de grãos cresce 4% em relação ao ciclo anterior e está estimada em 265,7 milhões de toneladas

Com crescimento superior a 10 milhões de toneladas em relação ao ciclo anterior, a produção de grãos deve chegar a 265,7 milhões de toneladas, conforme aponta o 6º Levantamento da Safra 2021/22 realizado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O documento mostra ainda um incremento de 4,3% na área a ser plantada, estimada em 72,7 milhões de hectares – o que corresponde à incorporação de 3 milhões de hectares, influenciados, sobretudo, pelo crescimento da área de soja e de milho.

Apesar da expectativa de aumento na colheita quando comparada com o resultado obtido no período 2020/21, observa-se uma leve perda na produção de 0,9% sobre o volume divulgado no último mês, quando eram esperadas 268,2 milhões de toneladas. A queda é reflexo da forte estiagem verificada, sobretudo, nos estados da Região Sul do país e no centro-sul de Mato Grosso do Sul. O clima adverso impactou de maneira expressiva as produtividades das lavouras de soja e milho 1ª safra, principalmente.

Com o plantio encerrado da soja em 40,7 milhões de hectares, acréscimo de 3,8% na área plantada em relação à safra 2021/22, as atenções se voltam para o andamento da colheita da oleaginosa, que já ultrapassa 50% em todo país. Segundo observado pelos técnicos da Companhia, as produtividades obtidas refletem o cenário climático durante o ciclo da cultura. A expectativa é que a produção alcance 122,76 milhões de toneladas.

O avanço da colheita da soja dita o ritmo do plantio do milho segunda safra. Atualmente, a Conab estima 74,8% da área já semeada. Destaque para Mato Grosso com 94% plantado. A previsão é de um plantio em uma área aproximada de 16 milhões de hectares, o que representa um acréscimo de 6,7% à safra anterior. A atual expectativa da Conab é que a produção total do cereal cresça 29% , podendo chegar a 112,3 milhões de toneladas. O incremento é impulsionado pelo melhor desempenho principalmente da segunda safra do grão, que tende passar de 60,7 milhões de toneladas no período 2020/21 para 86,2 milhões de toneladas na atual temporada.

Expectativa de crescimento também para o algodão. No atual levantamento da Companhia, é esperado um incremento de 19,7% na produção da fibra, podendo chegar a aproximadamente 6,9 milhões de toneladas, sendo 2,82 milhões de toneladas apenas da pluma. Para o feijão, o primeiro ciclo desta cultura foi parcialmente comprometido pelas perdas de rendimento em decorrência, principalmente, das adversidades climáticas registradas. Já as lavouras de segunda safra da leguminosa estão em implantação ou em pleno desenvolvimento, com perspectiva de alcançar um bom resultado, garantindo o abastecimento do mercado consumidor e equilibrando a oferta do grão. No caso do arroz, a Conab prevê redução tanto na área cultivada quanto de produtividade. Com isso a produção estimada é de 10,3 milhões, queda de 12,1% em relação à safra 2020/21.

A ministra Tereza Cristina (Agricultura, Pecuária e Abastecimento) participou do anúncio dos dados e destacou o investimento em tecnologia e capital humano para melhorar o tratamento e qualificação dos dados. “O trabalho da Conab é essencial para o país, sem dados e sem informações as decisões são tomadas sem precisão. Todos os agricultores brasileiros, todo o setor é beneficiado”, ressaltou.

Custos de produção

Durante o webinar do 6º levantamento, a Conab apresentou o percentual de participação dos fertilizantes nos custos para as culturas de soja, milho e trigo. De acordo com o estudo, atualmente a participação destes produtos fica dentro de uma margem entre 30% a 40% nos custos variáveis, a depender da região produtora e do produto analisado. “Vale ressaltar, no entanto, que este percentual contempla os valores praticados até fevereiro deste ano. O conflito entre Rússia e Ucrânia, por sua vez, teve início no final do mês passado. Com isso, o impacto, tanto nos preços recebidos pelos produtores como nos valores pagos pelos insumos, será melhor mensurado a partir das apurações a serem realizadas ao longo deste mês”, pondera o gerente de Custos de Produção da Conab, Rodrigo Souza.

No caso do trigo, os fertilizantes representam cerca de 33% dos custos variáveis em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, enquanto que no município paranaense de Cascavel o percentual chega a 38%. Para o milho 2ª safra, o peso destes insumos chega a 33% em Sorriso (MT). Já no cultivo de soja no município mato-grossense o percentual de participação dos fertilizantes atinge um índice de 37%.

“Qualquer aumento nos preços de fertilizantes impacta de maneira significativa nos custos para os produtores, que tende a influenciar as cotações dos produtos finais disponibilizados ao consumidor”, reforça Rodrigo Souza. “Mesmo com essa elevação nos valores de comercialização do grão, as margens bruta e líquida para os agricultores seguem uma tendência de queda, dada a dificuldade de repasse entre a produção e o varejo”.

De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior, cerca de 22% dos fertilizantes importados no último ano tiveram como origem a Rússia, seguido da China com 15% e do Canadá com 10%.

Nesta sexta-feira (11/03), o Governo Federal lançou o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), que será uma referência para o planejamento do setor de fertilizantes nas próximas décadas, promovendo o desenvolvimento do agronegócio nacional, com foco nos principais elos da cadeia: indústria tradicional, produtores rurais, cadeias emergentes, novas tecnologias, uso de insumos minerais, inovação e sustentabilidade ambiental. O plano é também uma importante ferramenta para reduzir a dependência do Brasil em relação aos fertilizantes importados.

A partir de abril, pesquisadores e técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) iniciam a Caravana FertBrasil, quando irão visitar cerca de 30 polos produtivos de nove macrorregiões agrícolas do Brasil, com o objetivo de promover o aumento da eficiência de uso dos fertilizantes e insumos no campo, diminuir custos de produção dos produtores rurais e estimular a adoção de novas tecnologias e de boas práticas de manejo de solo, água e plantas.

Mercado

Neste levantamento, em relação ao mercado externo, a Conab manteve a estimativa de exportações de algodão com crescimento de 2,5%, em relação ao último ano, esperando que seja alcançado um volume de 2,05 milhões de toneladas. Para soja, milho e feijão, a previsão para os volumes a serem exportados permaneceram estáveis em 80 milhões de toneladas, 35 milhões de toneladas e 200 mil toneladas, respectivamente.

No caso do trigo, os embarques permanecem acima da média histórica, tendo sido comercializadas mais de 800 mil toneladas do produto em fevereiro, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior. Diante disso, houve uma nova elevação das estimativas para exportações da safra 2021, cujo ano comercial vai até julho deste ano. A nova previsão é que sejam embarcadas 2,1 milhões de toneladas ao final desse período. Por fim, foi reduzida a expectativa de venda para o mercado externo de arroz, passando de 1,4 milhão de toneladas para 1,3 milhão de toneladas, dada a diminuição da estimativa de produção e considerando o cenário do mercado internacional do grão.

Quanto aos estoques finais esperados, para o milho as alterações não foram significativas, sendo o estoque de passagem previsto para a safra 2021/22 em 10,3 milhões de toneladas, aumento de 32,15% em relação ao período passado. Já para a soja é esperado que os estoques ao final de dezembro de 2022 sejam de 2,41 milhões de toneladas, redução de 9,1% em relação ao levantamento de fevereiro. A queda é explicada pela nova redução na estimativa de produção para o ano de 2022.

Quanto ao trigo, nesse levantamento, apesar do aumento da previsão de exportações de 1,9 milhão de toneladas para 2,1 milhões de toneladas, os estoques de passagem fechem a safra 2021 em 180 mil toneladas, volume estável em relação ao levantamento de fevereiro. O maior volume exportado tende a ser compensado pela elevação das importações de 6,8 milhões de toneladas para 7 milhões de toneladas.

Uso intensivo de máquinas traz riscos durante a colheita

O período de janeiro a abril de cada ano geralmente é marcado pela colheita da soja. Há uma intensificação no uso de colheitadeiras no campo e as operações ficam suscetíveis a alguns riscos. Embora o agricultor geralmente invista em preparo de solo antes da semeadura da soja, no decorrer da safra, podem surgir alterações na área. Chuvas em excesso podem provocar erosão, criando buracos indesejáveis no terreno, por exemplo, além de transportar objetos tais quais pedras e pedaços de madeira.

Já que a soja apresenta uma altura em torno de 1,5 metro no momento da colheita, não é possível visualizar as ameaças que porventura estejam presentes no solo. E é aí que mora o perigo: terrenos acidentados e objetos podem prejudicar as operações das máquinas agrícolas. “Colher uma pedra” pode amassar a plataforma da colheitadeira, por exemplo.

Esse tipo de ocorrência é preocupante porque, além de danificar a máquina, pode inviabilizar o uso da colheitadeira por um período. A possível interrupção da operação gera outros prejuízos indiretos, já que qualquer atraso na colheita significa deixar a soja mais tempo à mercê do clima no campo, impactando na qualidade da oleaginosa. “A ausência do maquinário no campo pode ser mais crítica que o dano à máquina”, diz Guilherme Frezzarin, superintendente de agronegócios da FF Seguros.

Para proteger as operações, é aconselhável contratar um seguro patrimonial na modalidade de máquinas agrícolas, que indeniza o produtor quando ocorrem esses acidentes com o maquinário. “Já tivemos um sinistro em que uma pedra com cerca de 20 centímetros entrou no sistema da colheitadeira e causou danos de proporções elevadas, com um prejuízo em torno de R$ 150 mil”, conta Frezzarin. “Com o equipamento em uso, o risco é sempre maior. A maioria dos acidentes e eventos de incêndio ocorrem com o maquinário em operação.”

Além de indenizar em caso de acidentes, roubo e furto mediante arrombamento, o seguro patrimonial para máquinas agrícolas pode contar com coberturas adicionais contra furto simples, danos elétricos, quebra de vidros, incêndio, raio e explosão, entre outras opções. “A palha da soja, quando está muito seca, pode pegar fogo rapidamente. De repente, uma faísca pode ocasionar um incêndio e, com isso, o produtor pode perder uma máquina”, exemplifica Frezzarin.

O seguro pode até mesmo incluir cobertura para bancar a necessidade de alugar uma máquina agrícola e cobrir prejuízos financeiros (cobertura adicional de lucros cessantes). Levando em conta que as máquinas agrícolas representam um investimento milionário e são essenciais no campo, a contratação de um seguro vale a pena. “O custo-benefício do seguro é elevado, na FF Seguros temos taxas competitivas para assegurar máquinas agrícolas”, diz Diego Caputo, gerente comercial de agronegócio na FF Seguros.

Flexibilidade para preservar o patrimônio

A proteção das operações de uma colheitadeira foi apenas um exemplo diante do vasto leque de oportunidades que o seguro patrimonial rural oferece para atender as demandas da atividade agrícola e pecuária, assegurando bens que não tenham sido oferecidos em garantia de operações de crédito rural.

A modalidade de seguro patrimonial rural se subdivide em três segmentos: máquinas e equipamentos, benfeitorias e mercadorias. Cada uma delas oferece variadas coberturas. No caso das máquinas e equipamentos, é possível assegurar tratores, pulverizadores, colheitadeiras, implementos agrícolas, equipamentos estacionários e equipamentos portáteis. As apólices voltadas para benfeitorias visam proteger estruturas como silos, armazéns e moradias (sede e casa de funcionários), enquanto o segmento de mercadorias pode assegurar produtos agrícolas e criações de animais.

Além disso, o seguro de patrimônio rural proporciona uma contratação bastante flexível. O produtor pode optar pela contratação “item a item”, escolhendo exatamente aquilo que deseja proteger e até mesmo estabelecer o percentual assegurado em contrato, com pelo menos 40% do preço do bem definido na cláusula de rateio, que fixa a relação entre a importância segurada (IS) e o valor em risco (VR).

Como exemplo, um agricultor pode contratar um seguro patrimonial para assegurar um trator e optar por considerar apenas 40% do preço dessa máquina. Desse modo, o valor do prêmio será menor mas, em caso de sinistro, a indenização será proporcional às condições definidas no contrato de seguro.

Em outro caso hipotético, o agricultor pode desejar guardar sacas de soja em um silo e esse produto ficaria armazenado durante um período de um ano, por exemplo, correndo alguns riscos. “Uma solução pode ser contratar o seguro patrimonial rural de benfeitorias e mercadorias, protegendo o silo e a soja armazenada”, exemplifica Frezzarin.

A vantagem da “porteira fechada”

Outra possibilidade é contratar a apólice “porteira fechada”, que visa preservar tudo aquilo que estiver na fazenda. “Um dos grandes diferenciais é que esse produto é bastante completo. Dessa forma, conseguimos abranger toda a estrutura da propriedade. Além disso, nossa precificação é baseada na atividade que é desenvolvida na fazenda. Por isso, conseguimos ser mais assertivos, cobrando o que é justo”, explica Caputo.

Além disso, o produtor ou pecuarista pode escolher diferentes prazos para a vigência da apólice. Há a opção pró-rata, com duração que varia entre 6 e 12 meses; existe a apólice de vigência anual, que é a mais popular; e há ainda a opção plurianual, que abrange contratações com prazos de 13 meses a cinco anos. “Uma vantagem das apólices plurianuais é que elas oferecem condições mais competitivas e a seguradora concede um desconto no valor do prêmio”, conta Caputo.

Foto: Luiz Henrique Magnante

Guerra na Ucrânia: agricultores locais destroem sistema de mísseis russo de US$ 15 milhões

Um grupo de agricultores ucranianos apreendeu e incendiou um sistema de mísseis antiaéreos russo Pantsir-C1 avaliado em US$ 15 milhões. Segundo relatos, o caso aconteceu perto da cidade Bashtanka.

Os sistemas de mísseis e canhões antiaéreos Pantsir são capazes de atingir alvos aéreos, terrestres e marítimos com munição de mísseis a várias distâncias a uma altitude de até 15 km. O alcance efetivo de tiro da artilharia chega a 4 km. A cadência de tiro do canhão antiaéreo de 30 mm é de até 5 mil tiros por minuto. Os equipamentos foram utilizados nos conflitos na Síria, na Líbia e, agora, na Ucrânia.

Guerra na Ucrânia: Brasil tem fertilizantes suficientes até o início da próxima safra, diz ministra

A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, disse que o Brasil tem fertilizantes suficientes para o plantio até outubro e que o governo já trabalha desde o ano passado com alternativas para garantir o suprimento para o setor, no caso de escassez provocada pelo conflito entre Rússia e Ucrânia.

“A safrinha de milho já está acontecendo, então o que precisava de fertilizantes já está garantido. A safra de verão, que será no final de setembro, outubro, é uma preocupação, mas também temos do setor privado a confirmação de que há um estoque de passagem suficiente para chegar até outubro”, disse a ministra, em conversa com jornalistas.

O Brasil já trabalha na busca de novos parceiros para o caso de diminuir o recebimento de fertilizantes da Rússia e da Bielorrusia. Segundo a ministra, o Mapa tem um grupo de acompanhamento que conversa constantemente com as indústrias, com os produtores, com a parte de logística e de infraestrutura. “Temos que ter tranquilidade neste momento e estudar todos os cenários que podem acontecer”, disse.

Além disso, a Embrapa estuda alternativas para aumentar a eficiência do plantio com o menor uso de fertilizantes. Também estão sendo trabalhadas estratégias de fomento e financiamento para aumento da produção de bioinsumos, fertilizantes organominerais, nanotecnologia e agricultura digital. “A agricultura brasileira é forte, vai continuar forte, e temos que dar as alternativas para ela continuar trabalhando”, ressaltou a ministra.

O governo deve lançar nos próximos dias o Plano Nacional de Fertilizantes, elaborado desde o ano passado em parceria com outros ministérios e com a iniciativa privada, para reduzir a dependência do Brasil da importação de fertilizantes. “O Brasil precisa tratar esse assunto como segurança nacional e segurança alimentar. Então, esse Plano, que fizemos lá atrás, há um ano, sem prever nada disso, era que o governo pensava que nós deveríamos ter para que o Brasil, que é uma potência agroalimentar, tivesse um plano de pelo menos 50% a 60% de produção própria dos seus fertilizantes”, disse a ministra sobre o plano que deve ser apresentado ainda este mês. 

Importação

Atualmente, o Brasil é o quarto consumidor global de fertilizantes, responsável por cerca de 8% deste volume e é o maior importador mundial.  O Brasil importa cerca de 80% de todo o fertilizante usado na produção agrícola nacional. No caso do potássio, o percentual importado é de cerca de 95%. A Rússia é responsável por fornecer cerca de 25% dos fertilizantes para o Brasil.

A Rússia é a maior exportadora mundial de fertilizantes, com praticamente US$ 7,0 bilhões exportados em 2020. É também a maior fornecedora do Brasil, com US$ 1,79 bilhão dos US$ 8,03 bilhões que importamos (2020).

Em relação aos fertilizantes potássicos, a Rússia é responsável por cerca de 20% da produção global e é origem de 28% das importações brasileiras. Já para os nitrogenados, o país é o segundo maior produtor global. Como fornecedor para o Brasil a Rússia participa com 21% dos nitrogenados e, no caso específico do nitrato de amônio, o país é praticamente o único fornecedor para o Brasil, segundo dados da Conab.

Bielorrussia

As exportações de fertilizantes da Bielorrussia para o Brasil estão suspensas desde o início de fevereiro por causa do fechamento dos portos da Lituânia para o escoamento desse produto. Desde que soube que a Bielorrusia sofreria sanções econômicas dos Estados Unidos e da União Europeia, o governo brasileiro vem buscando alternativas para suprir a demanda do setor.

A ministra Tereza Cristina esteve na Rússia no ano passado e no Irã em fevereiro deste ano negociando o aumento de exportações de fertilizantes para o Brasil. A estatal iraniana National Petrochemical Company (NPC) afirmou que o Irã poderá triplicar as exportações de ureia para o Brasil, chegando a 2 milhões de toneladas ao ano. Ainda em março está prevista uma viagem da ministra para o Canadá para negociar o aumento das exportações de potássio para o Brasil.

Foto: Russian Defence Ministry / TASS