Acordo Mercosul-EFTA abre novas oportunidades para exportações do agronegócio brasileiro à Noruega

O agronegócio brasileiro terá novas oportunidades de acesso ao mercado norueguês a partir de hoje (01/11), com a entrada em vigor dos benefícios tarifários previstos no acordo entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA). A regulamentação estabelece os procedimentos para utilização das cotas de exportação de produtos agropecuários, entre eles carne bovina, carne de aves, mel natural, milho, trigo duro, maçãs frescas e farinha de soja.

A medida abre espaço para ampliar a presença de produtos brasileiros em um mercado de elevado poder aquisitivo, com condições tarifárias preferenciais que podem aumentar a competitividade frente a fornecedores de países que não possuem acordos semelhantes. Entretanto, o aproveitamento das oportunidades dependerá do cumprimento de exigências comerciais, sanitárias e documentais, além da disponibilidade dos volumes estabelecidos para cada produto.

Segundo a advogada Anna Dolores Sá Malta, especialista em comércio exterior e ex-conselheira do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), a entrada em vigor das novas condições representa uma oportunidade estratégica para empresas que pretendem diversificar seus destinos de exportação. “A Noruega é um mercado de alto poder aquisitivo e a preferência tarifária pode tornar o produto brasileiro mais competitivo. Além do potencial de ampliar as vendas, a presença nesse mercado também pode funcionar como uma vitrine para outros destinos europeus”, explica.

Entre os segmentos com maior potencial de aproveitamento estão as cadeias de carnes, mel e milho. Para produtores e exportadores do Nordeste, a especialista também identifica oportunidades relacionadas ao mel, às frutas e aos seus derivados, desde que as mercadorias estejam contempladas nas condições preferenciais e atendam às exigências de entrada no país.

Disputa por cotas exige planejamento dos exportadores

Um dos principais pontos de atenção é o funcionamento das cotas tarifárias. Em 2026, não haverá distribuição prévia dos volumes entre os países integrantes do Mercosul. A alocação seguirá a ordem de apresentação dos pedidos, o que coloca exportadores brasileiros em concorrência direta com empresas dos demais países do bloco.

“Na prática, é uma disputa em que quem chega primeiro tem mais chances de garantir o benefício. Como não existe uma divisão antecipada das cotas entre os países do Mercosul, há risco de os volumes disponíveis serem rapidamente preenchidos, especialmente nos produtos mais atrativos. As empresas que estiverem com documentação, origem e logística organizadas terão vantagem”, alerta Anna Dolores.

Para solicitar o benefício, o exportador deverá registrar o pedido de licença no módulo de Licenças, Permissões, Certificados e Outros Documentos (LPCO), disponível no Portal Único Siscomex. A Secretaria de Comércio Exterior (Secex) será responsável por verificar a disponibilidade da cota, reservar o volume solicitado e analisar a licença.

Após o deferimento, a empresa terá até 60 dias para vincular a licença à Declaração Única de Exportação (DU-E). Com a conclusão do desembaraço aduaneiro, será disponibilizado o Certificado de Autorização de Cotas Mercosul, documento necessário para a utilização da preferência tarifária na Noruega.

O descumprimento dos prazos pode comprometer a operação. Caso a licença não seja vinculada à declaração de exportação dentro do período estabelecido, a autorização perde a validade e o volume reservado retorna à cota disponível.

Além da disputa pelos volumes, os exportadores precisarão observar as regras sanitárias e fitossanitárias exigidas pelo mercado norueguês. Para produtos de origem animal, como carnes e mel, a habilitação dos estabelecimentos, a certificação sanitária e os mecanismos de rastreabilidade estão entre os pontos que exigem maior atenção. Também será necessário comprovar a origem das mercadorias e cumprir os padrões de qualidade e rotulagem aplicáveis ao produto.

“A redução tarifária, por si só, não garante a entrada da mercadoria. É necessário verificar se o estabelecimento está habilitado, se o produto atende às exigências sanitárias e se toda a documentação está adequada. Uma falha nesse processo pode impedir o embarque ou comprometer o acesso ao benefício”, destaca a advogada.

O cenário também impõe desafios aos pequenos e médios exportadores. Embora possam participar das operações, essas empresas tendem a enfrentar maiores dificuldades diante dos custos de certificação, das exigências regulatórias e da necessidade de organização logística. Para Anna Dolores, alternativas como cooperativas, consórcios de exportação e parcerias com empresas comerciais exportadoras podem facilitar o acesso ao mercado.

A especialista também aponta a importância do apoio de entidades setoriais e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), especialmente para empresas que ainda não possuem experiência em operações internacionais.

A orientação é que os exportadores revisem seus cadastros e habilitações no Siscomex, confiram a documentação de origem, verifiquem as condições sanitárias e ajustem os contratos comerciais com os importadores noruegueses. Questões como responsabilidades pelo transporte, prazos de entrega, condições de pagamento e utilização da preferência tarifária devem estar previamente definidas. “O exportador precisa olhar para toda a operação, não apenas para a redução do imposto. É fundamental revisar os contratos, conferir a origem da mercadoria, verificar as habilitações e planejar a produção e o embarque dentro do prazo de 60 dias. O acompanhamento jurídico e comercial ajuda a evitar a perda de cotas e problemas que podem comprometer a rentabilidade da exportação”, conclui Anna Dolores Sá Malta.

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Doença de Newcastle: quebra de contrato entre produtores e exportadores pode gerar até pedidos de recuperação judicial

A suspensão da exportação de frango para o México, China após a confirmação de um foco de Doença de Newcastle em uma granja comercial de perus em Santa Catarina desperta uma discussão jurídica que pode mudar o panorama da crise para produtores, importadores e outros membros da cadeia. A dúvida é se nos contratos entre produtor e importador, a doença se enquadra ou não como força maior para efeitos de multas e penalidades.

A advogada Ieda Queiroz, coordenadora do setor de agronegócios do CSA Advogados, explica que em condições normais a não entrega da carne de frango e derivados para importadores dentro dos prazos e condições estabelecidas no contrato geram multa, mas pelos produtores estarem diante de uma condição extraordinária, as penalidades podem não ser exigíveis.

“No Direito Internacional existe o conceito de force majeure, em português traduzido como ‘força maior’, que estabelece que, nesse caso, o fornecedor não pode pedir pagamento antecipado e os compradores não podem exigir penalidades, já que o problema afeta os dois lados, e não permite uma rescisão enquanto durar a crise”, afirma.

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Em breve o Judiciário precisará discutir se vai enquadrar ou não a Doença de Newcastle e Gripe Aviária como força maior, derivando disso uma situação ainda mais grave, que é a reação em cadeia da quebra desses contratos. “A situação é crítica pois impacta todo o entorno do produtor, que terá de renegociar diversos outros acordos para que também nesses contratos seja reconhecido o evento de força maior, para suspender outras obrigações”, alerta Ieda Queiroz.

Frederico Favacho, advogado especialista em agronegócios do Santos Neto Advogados, lembra do impacto em cadeia dos contratos do setor avícola também para os exportadores. “Não sabemos ainda a extensão do embargo à exportação brasileira de carne de frango, que pode se resolver em torno de 20 dias, se nenhum outro caso for identificado. De toda forma, considerando os contratos de exportação estarão suspensos ou rescindidos, é esperado um impacto econômico no fluxo do caixa das empresas exportadoras, que poderá ser menor ou maior a depender dos desdobramentos”, afirma Favacho.

Para Ieda Queiroz, com o controle do surto e retomada das exportações, a diminuição de matrizes para reprodução deve impactar com aumento dos preços, afetando principalmente os produtores que tiveram que sacrificar integralmente determinadas áreas de produção. “Avicultores da região Sul já têm sofrido por causa dos eventos climáticos. Essa reação em cadeia chegará não só para produtores, abatedouros e exportadores, mas também ao ecossistema da região com a possibilidade de processos de recuperação judicial”, conclui.

Embrapa and Chinese institutions cooperate to strengthen AI for family farming

Embrapa and four Chinese institutions signed a Memorandum of Understanding (MoU) to expand scientific and technological cooperation between the two countries, focusing on the development and application of artificial intelligence (AI) for family farming. The agreement was signed during a mission to China in September. It provides for the establishment of the Brazil-China Cooperation Center for AI Application, as well as for joint research, the exchange of researchers and technicians, capacity-building, and the setup of pilot centers on smart agricultural machinery in Brazil.

The MoU signed by Embrapa, Nanjing Agricultural University (NAU), Jiangsu Academy of Agricultural Sciences (JAAS), Sinomach Digital Technology Corporation, and the International Association for People’s Cooperation (IAPC) establishes a framework to organize projects of common interest and bring the scientific, technological, and institutional expertise of the two countries closer. It is valid for five years.

For the president of Embrapa, Silvia Massruhá, the partnership responds to a strategic challenge for Brazilian agriculture: “If we don’t digitally include smallholders and mid-scale farmers in family agriculture, the gap between them and large-scale farmers will grow”, she explains.

Technology with adaptations to Brazilian conditions

The partnership stems from the understanding that digital technologies need to be adapted to different agricultural realities. The goal is not only to transfer solutions from one country to another, but to establish a process in which knowledge and technologies are assessed, adapted, and validated according to the conditions in each production system.

“More than just technology transfer, the agreement is about co-development, about adapting solutions to our reality”, Silvia Massruhá explains. The president stresses that such adaptation is particularly important in Brazil, which combines different production systems and six biomes.

The Memorandum comprises that very own diversity. The technologies can be applied to several agricultural chains and crops, including fruit, vegetables, corn, soybeans, rice, and other family farming activities. The solutions include smart agricultural machines, digital platforms, the Internet of Things (IoT), big data, artificial intelligence, socialized agricultural services, and crop models, as well as equipment and devices aimed at small and medium-sized properties.

Pilot centers and scientific exchange

One of the main fronts the agreement stipulates is the joint establishment of Smart Agricultural Machinery Service Centers in family farming settlements in Brazil. The pilot areas will allow for the demonstration of smart machines and platforms and for technology assessment under real production conditions. Sensors, IoT devices, big data, and artificial intelligence can be combined and used in those locations for monitoring, analysis, and decision-making support.

Integrating demonstration units into the National Program for Technical Assistance and Rural Extension (PNater) is also being considered, as well as the possibility of replicating the experiences in other settlements.

The agreement also provides for the exchange of researchers, technicians and graduate students, technical missions, workshops, seminars, training courses, and remote collaboration between the institutions. The cooperative unions involved in the pilot areas will also participate in the collection and management of data the activities generate

Chinese experience in digital agriculture and smart mechanization will be one of the bases to assess technologies that can be applied to Brazilian pilot projects. Sinomach Digital Technology Corporation is part of the digital technology front. Embrapa’s mission to China visited initiatives using robotics, automation, and artificial intelligence in agricultural production.

For instance, the Brazilian delegation learned about robotic arms used not only to harvest strawberries, tomatoes, grapes, and other fruits, but also to monitor systems that integrate different sensors and allow for real-time tracking of field information.

“The closer ties with Sinomach pave the way to bring those innovations to Brazil and adapt them to our reality”, explains Luciana Alvim Santos Romani, a researcher at Embrapa Digital Agriculture. Alongside Silvia Massruhá, she is one of the coordinators of Semear Digital, a project that aims to broaden smallholder and mid-scale farmer access to new technologies.

According to the researcher, the proposal is to “tropicalize” those solutions, combining them with knowledge already being generated in Brazil and adapting equipment and technologies to Brazilian conditions.

As an example, she mentions robots to monitor plants, count fruits, and estimate yield; or smaller tractors that are considered potentially suited for Brazilian smallholdings and medium-sized farms.

Photo: Jayme Barbedo

Mercado global do pescado movimenta US$ 184 bilhões e abre oportunidades para o Brasil

O consumo mundial de pescado alcançou 21,3 quilos por pessoa ao ano, de acordo com o relatório The State of World Fisheries and Aquaculture 2026 (SOFIA), da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), enquanto no Brasil o indicador está em 12,6 quilos (Anuário Seafood Brasil) e segue em crescimento. Com a ampliação da produção e as exportações ganhando novas perspectivas, o país ganha maior relevância no mercado internacional de pescado. Esse cenário foi apresentado por Ricardo Torres, head de portfólio da Seafood Show Latin America. A feira, que está em sua quinta edição e é considerada a maior plataforma de negócios do pescado da América Latina, acontece até hoje (22/10), em São Paulo (SP).

O relatório da FAO aponta que a produção mundial de animais aquáticos e algas atingiu 235 milhões de toneladas. Desse total, 195 milhões de toneladas corresponderam a animais aquáticos. Pela primeira vez, a aquicultura superou 100 milhões de toneladas de animais aquáticos produzidos, enquanto a pesca extrativa permaneceu relativamente estável, limitada pela disponibilidade dos estoques e pelas condições ambientais. A FAO também estima que o comércio internacional de produtos de animais aquáticos movimentou US$ 184 bilhões.

“O mercado de pescado é global e interconectado. A produção, o consumo e o comércio dependem de relações entre países, fornecedores e compradores, e o Brasil tem condições de ampliar sua participação nesse cenário. A aquicultura vem contribuindo para dar mais estabilidade à oferta, enquanto o crescimento da demanda abre espaço para novos produtos, investimentos e negócios”, afirma Ricardo Torres.

No Brasil, segundo o Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026, da Peixe BR, a produção de piscicultura alcançou 1,011 milhão de toneladas em 2025, alta de 4,41% em relação ao ano anterior e um marco para a atividade. A tilápia liderou o resultado, com 707.495 toneladas, aproximadamente 70% da produção nacional de peixes cultivados. O levantamento também contempla espécies nativas, como tambaqui e pirarucu, e outras espécies de cultivo.

O crescimento da produção, porém, não elimina a necessidade de importações, ou seja, a disponibilidade de pescado no mercado brasileiro resulta da combinação entre pesca extrativa, aquicultura e produtos importados. “O Brasil está se consolidando como um produtor relevante, mas também é um grande mercado consumidor. Para crescer, as empresas precisam olhar para os dois lados: desenvolver a produção nacional e, ao mesmo tempo, estabelecer relações comerciais capazes de garantir variedade, regularidade e competitividade na oferta”, destacou Torres.

Em relação ao comércio exterior, o Chile é um dos principais países fornecedores para o Brasil, especialmente do salmão, ao lado de Vietnã, Argentina e Equador. Nas exportações, os Estados Unidos permanecem como um mercado importante para produtos como filés frescos de tilápia, lagosta e peixes capturados na costa brasileira, a exemplo do pargo. A China, por sua vez, compra produtos como pescada-amarela, lagosta e bexiga natatória, com participação relevante de fornecedores do Pará.

Torres comentou sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos no ano passado, que afetaram as exportações de pescado, com a receita recuando 39% e queda de 41% no volume exportado no primeiro trimestre deste ano. A posterior isenção de determinados produtos, entre eles filés frescos e tilápia inteira, contribuiu para recuperar a competitividade de parte das exportações brasileiras. Com isso, a Abipesca projeta uma retomada das exportações do setor, com expectativa de alcançar cerca de US$ 600 milhões.

Varejo e food service ampliam oportunidades

Dados do Ranking ABRAS 2025, da Associação Brasileira de Supermercados, mostram que o faturamento da seção de peixaria dos supermercados respondentes passou de R$ 4,44 bilhões, em 2020, para R$ 12,33 bilhões, em 2024 — crescimento de 178%. No mesmo período, o faturamento total do setor supermercadista avançou 48,3%, evidenciando o desempenho expressivo da categoria.

O food service, por sua vez, concentra uma parcela importante do consumo de pescado e apresenta oportunidades relacionadas à diversificação de cardápios e à eficiência operacional. O Raio-X do Pescado no Food Service do Brasil 2026–2027, realizado pela Seafood Brasil em parceria com a American Seafoods, identificou que 43% das operações consultadas registram perdas superiores a 12% do pescado adquirido. “A expansão do consumo depende também de resolver questões práticas do mercado. No varejo, há espaço para ampliar a oferta e diversificar os formatos de produtos. No food service, rendimento, padronização e controle de perdas são fundamentais para a rentabilidade. Aproximar fornecedores e compradores é uma forma de acelerar essas conexões e transformar oportunidades em negócios”, avalia Torres.

Seafood Show Latin America conecta empresas e compradores

É nesse ambiente de expansão, concorrência internacional e transformação dos canais de venda que acontece a Seafood Show Latin America 2026. O evento reúne indústrias nacionais e internacionais de pescado, frigoríficos, distribuidores, importadores, exportadores, atacadistas, varejistas, operadores de food service e fornecedores de máquinas, tecnologias, insumos e serviços especializados.

A feira, organizada pela Francal em parceria com a Seafood Brasil, apresenta uma área de exposição 43% maior que a edição anerior, com 120 marcas expositoras nacionais e internacionais, dispostas em quatro setores para facilitar a jornada dos visitantes e aproximar empresas de públicos estratégicos para seus negócios.

A qualificação das conexões comerciais é um dos focos desta edição. O Seafood Buyers Program trouxe à feira 140 compradores do varejo e do food service, incluindo representantes de redes regionais. A feira também tem a participação de compradores internacionais por meio do Exporta Mais Brasil, iniciativa vinculada à ApexBrasil. “A Seafood Show Latin America acompanha o amadurecimento do mercado e busca aproximar quem produz de quem compra, no Brasil e no exterior. Queremos facilitar o acesso a fornecedores, apresentar soluções e estimular relações comerciais que possam gerar resultados concretos para as empresas”, afirma Torres.

A programação inclui ainda o seminário “O futuro do bacalhau no Brasil”, organizado pelo Conselho Norueguês da Pesca e pela iniciativa Seafood from Norway, além de atrações dedicadas à inovação, à gastronomia, à qualificação profissional e ao relacionamento entre empresas. Entre os destaques estão o Seafood Innovation Show, que reconhece produtos e soluções inovadoras; o Seafood Service Show, com demonstrações culinárias e técnicas de preparo; o concurso Melhores Peixeir@s do Brasil; o Campeonato Brasileiro de Sushi; o Seafood Talk Show; e o Seafood Celebration Show.

Foto: WTF / Divulgação

Eleições 2026: o agro sai mais forte das urnas? O Congresso pode ser a resposta

A eleição presidencial ainda não terminou, mas o agronegócio brasileiro já sabe que terá um Congresso Nacional diferente a partir de 2027.

O primeiro turno das eleições de 2026 colocou Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. Flávio terminou a primeira rodada na liderança, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. A decisão sobre quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos ficou para 25 de outubro.

Para o campo, porém, existe uma segunda eleição que merece tanta atenção quanto a disputa presidencial: a composição do Congresso. E foi justamente ali que o mapa político brasileiro sofreu uma mudança importante.

O PL elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Câmara na próxima legislatura. No Senado, o partido também ampliou sua presença. O resultado fortalece o grupo político que, nos últimos anos, manteve uma relação próxima com parte expressiva das entidades e lideranças do agronegócio.

Isso não significa que o Congresso será simplesmente um “Congresso do agro”. A realidade é mais complexa. Mas significa que produtores rurais, cooperativas, agroindústrias e entidades representativas do setor chegam a 2027 com uma estrutura política relevante para disputar espaço nas principais decisões econômicas do país.

E há muito em jogo. O próximo governo terá de discutir o futuro do Plano Safra, crédito rural, seguro agrícola, infraestrutura, armazenagem, endividamento rural, tributação, licenciamento ambiental, regularização fundiária e comércio exterior.

Em praticamente todas essas áreas, uma palavra será decisiva: Congresso. A força parlamentar do agro pode fazer diferença especialmente porque o próximo presidente não terá liberdade para governar ignorando a correlação de forças construída nas urnas.

Se Lula vencer o segundo turno, encontrará um Legislativo com uma composição política significativamente diferente da orientação de seu partido. Se Flávio Bolsonaro vencer, terá maior proximidade ideológica com uma parcela expressiva do Congresso, mas também precisará negociar com diferentes partidos e interesses.

Em ambos os casos, o agro estará sentado à mesa. E essa talvez seja a principal mensagem das eleições de 2026 para o setor.

O poder não estará apenas no Palácio do Planalto

Durante décadas, boa parte da análise política brasileira ficou concentrada na disputa presidencial. Para o agronegócio, essa lógica é insuficiente. Uma medida provisória pode ser editada pelo Executivo, mas precisa sobreviver ao Congresso. Uma mudança tributária precisa passar pelo Legislativo. O orçamento depende de deputados e senadores. Comissões podem alterar profundamente o conteúdo de projetos. Relatorias podem decidir o rumo de uma proposta.

É nesse espaço que a Frente Parlamentar da Agropecuária, a FPA, ganha importância. A bancada reúne parlamentares de diferentes partidos e representa uma das principais estruturas de articulação política do setor produtivo rural em Brasília.

O desafio agora será transformar força eleitoral em resultado concreto. Ter parlamentares alinhados às pautas do agro não garante, por si só, políticas melhores para o produtor. É preciso construir maioria, negociar textos, disputar relatorias e encontrar pontos de convergência com outros setores da economia.

A política do campo, portanto, não termina na porteira. Em 2027, ela continuará sendo decidida também nos corredores do Congresso.

Crédito rural será uma das primeiras batalhas

Poucos temas afetam tanto o produtor quanto o dinheiro disponível para financiar a produção. Plano Safra, taxas de juros, seguro rural, investimentos em máquinas, armazenagem e infraestrutura estarão entre as prioridades do setor. O problema é que o próximo governo encontrará uma disputa cada vez maior por recursos públicos.

A pressão do agronegócio por mais crédito terá de conviver com a necessidade de controlar as contas públicas. Essa equação não será simples. O Congresso poderá pressionar por recursos e programas específicos, mas também terá de lidar com o limite fiscal do governo federal. Para o produtor, a discussão terá efeito direto no custo da próxima safra.

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Reforma tributária entra no radar do campo

Outra batalha será travada no sistema tributário. A reforma tributária continuará produzindo efeitos sobre produtores rurais, cooperativas, agroindústrias, fornecedores de insumos e toda a cadeia de alimentos.

A discussão não será apenas sobre quanto o setor pagará. Será também sobre como os impostos serão cobrados, como funcionarão os créditos tributários e qual será o impacto sobre o custo de produção e a competitividade das exportações brasileiras.

Para um país que se tornou uma potência mundial na produção e exportação de alimentos, qualquer aumento de custo pode repercutir muito além da propriedade rural. Pode chegar ao supermercado e ao mercado internacional.

Meio ambiente pode virar campo de batalha

Se existe um tema capaz de produzir conflitos entre Congresso, governo e agronegócio, ele continuará sendo o meio ambiente. Licenciamento, regularização fundiária, rastreabilidade, preservação, crédito condicionado a critérios ambientais e mercado de carbono estarão entre os assuntos mais sensíveis.

Mas existe uma questão que o setor não poderá ignorar. O mercado internacional está mudando. Grandes compradores querem saber cada vez mais de onde vem o produto, como ele foi produzido e qual é sua pegada ambiental. Isso coloca o Brasil diante de uma equação delicada.

O produtor precisa de segurança jurídica e regras claras. Ao mesmo tempo, o país precisa manter acesso aos mercados que compram bilhões de dólares em produtos agropecuários brasileiros. A discussão ambiental, portanto, deixou de ser apenas ideológica. Ela também é econômica.

A próxima disputa pode acontecer fora do Brasil

O cenário internacional será outro teste para o próximo governo. O agronegócio brasileiro entra em 2027 como um dos principais pilares da balança comercial do país, mas também em um mundo marcado por disputas comerciais, protecionismo, conflitos geopolíticos e mudanças nas cadeias globais de produção.

China, Estados Unidos, União Europeia e Oriente Médio continuarão no radar. Soja, carnes, café, açúcar, milho, algodão, celulose e outros produtos brasileiros dependem de mercados externos cada vez mais exigentes.

Nesse ambiente, infraestrutura, diplomacia comercial, defesa sanitária e abertura de novos mercados terão o mesmo peso que decisões tomadas dentro das fazendas.

O agro terá de escolher como quer exercer seu poder

Existe, porém, uma questão política que o resultado de 2026 coloca diante do próprio agronegócio. O setor será capaz de atuar para além da polarização? Essa pode ser uma das decisões estratégicas mais importantes dos próximos anos.

O agro possui interesses que atravessam governos e partidos. Seguro rural não é uma pauta de esquerda ou direita. Infraestrutura também não. Pesquisa, logística, defesa sanitária, crédito e abertura de mercados tampouco. São políticas de Estado.

Quanto maior a capacidade do setor de negociar com diferentes governos e bancadas, maior tende a ser sua capacidade de proteger interesses de longo prazo. A eleição de 2026 mostrou que a força política do agro não estará concentrada em um único gabinete. Ela estará espalhada por Brasília. No Palácio do Planalto, no Senado, na Câmara, nas comissões, nas negociações do orçamento e, principalmente, na capacidade de articulação de suas entidades e representantes.

Por isso, a pergunta que interessa ao produtor rural talvez não seja apenas quem será o próximo presidente. A pergunta é outra: quem terá força para negociar com ele?

E, depois das eleições de 2026, o agronegócio chega a Brasília com uma resposta bastante clara: terá uma bancada numerosa, uma estrutura de articulação consolidada e quatro anos de decisões estratégicas pela frente.

O tamanho dessa influência, porém, dependerá menos do número de parlamentares eleitos e mais da capacidade de transformar votos em políticas públicas capazes de aumentar a produtividade, reduzir custos e manter o Brasil competitivo no mercado mundial de alimentos.

Mercosul precisa agir como bloco para preservar competitividade do agro, avaliam especialistas no GAFFFF

O principal risco para o agronegócio do Mercosul pode estar menos na competição externa do que na incapacidade de os próprios países do bloco atuarem de forma coordenada. Essa foi uma das principais conclusões do painel “Mercosul no Cenário Global: Estratégias para Manter a Competitividade e a Produtividade”, realizado durante o GAFFFF, em São Paulo.

O debate foi moderado por Glauber Silveira, diretor executivo da Abramilho, e reuniu os plaestrantes Bernhard Kiep, diretor da Abramilho e membro do conselho da Maizall; Federico Zerboni, presidente da Maizar; e Maciel Silva, diretor técnico adjunto da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Conforme apontado durante a conversa, o cenário de preços e custos aumenta a pressão sobre os produtores. Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontam que o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária brasileira deve recuar 4% em 2026, para R$ 1,45 trilhão. No caso do milho, a queda projetada é de 6,1%, reflexo principalmente da desvalorização dos preços reais.

“Nós temos que tomar cuidado em não brigar entre nós”

Para Bernhard Kiep, o ambiente macroeconômico internacional tornou-se mais complexo justamente em um momento de pressão sobre a rentabilidade do produtor. Ele considera que a combinação de estoques elevados e demanda insuficiente reduz o incentivo à produção e prolonga o período de preços pressionados.

“Os desafios para o agronegócio são muito grandes. O mundo não está olhando muito para o agronegócio porque a gente acabou produzindo talvez além da demanda nos últimos anos. Isso gerou estoques”, afirma.

Kiep destaca ainda o impacto dos custos de produção, citando o preço do diesel na Europa como exemplo da pressão enfrentada pelo setor. Ao tratar especificamente do Mercosul, o executivo defende que Brasil, Argentina e Uruguai evitem disputas internas e construam uma estratégia conjunta para negociar com mercados mais organizados.

“Nós, argentinos, uruguaios, brasileiros, temos que tomar cuidado em não brigar entre nós, e sim nos unir. Esse é o maior desafio que eu vejo para o Mercosul, porque nós não temos um histórico de nos unir e pensar em bloco. É muito fácil nos dividir”, diz.

Segundo Kiep, a integração europeia criou ao longo de décadas mecanismos de coordenação que os países do Mercosul ainda precisam desenvolver. O acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, em aplicação provisória desde maio de 2026, estabelece regras para tratamento tarifário preferencial, origem dos produtos e outras condições de acesso aos mercados.

Argentina enfrenta custos elevados e busca uma virada econômica

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Federico Zerboni apresenta um panorama da agricultura argentina e destacou o peso da estrutura tributária sobre a renda dos produtores. Em sua avaliação, país ainda convive com impostos de exportação e custos elevados. Zerboni afirmou que, no caso da soja, os tributos representam parcela significativa do valor recebido pelo produtor e que o governo argentino fica com mais de 60% do rendimento da atividade, em sua estimativa.

Ao mesmo tempo, apontou sinais positivos na economia argentina, especialmente relacionados à expansão da produção de energia em Vaca Muerta e da mineração, que podem ampliar a entrada de dólares no país.

Para o setor agrícola, porém, a eficiência continua sendo determinante. “O que te faz sobreviver é seres muito eficiente. Sobrevive quem tem a melhor tecnologia, quem usa a melhor inovação e quem é mais eficiente”, pontua.

Zerboni também citou riscos climáticos e sanitários para a próxima temporada, incluindo o comportamento das chuvas e do El Niño e a presença da cigarrinha-do-milho, cuja importância aumentou nos últimos anos com a elevação das temperaturas.

Crédito e custos ainda deixam produtor exposto

Maciel Silva, da CNA, destacou que o produtor brasileiro continua enfrentando um ambiente de incerteza, no qual medidas estruturais têm efeito de médio e longo prazo, enquanto os problemas de renda e custo são imediatos.

Silva analisa que alternativas como fertilizantes e produtos biológicos fazem parte de uma agenda necessária para o futuro, mas não resolvem a pressão sobre a safra atual. Na mesma linha, citou o Profet como uma alternativa de crédito que, na avaliação da CNA, ainda apresenta limitações para produzir efeitos imediatos.

“O que nos cabe ainda fica muito na mão. É muito mais pensando nas medidas de socorro do que tomadas de decisão estruturada”, ressalta. Para ele, a incerteza sobre o cenário econômico e institucional também dificulta decisões de investimento por parte dos produtores.

Competitividade depende de coordenação

As falas convergiram para um ponto central: a competitividade do agronegócio sul-americano dependerá não apenas da produtividade dentro das propriedades, mas também da capacidade dos países do Mercosul de coordenar interesses, reduzir vulnerabilidades e negociar em conjunto.

O desafio ganha peso com a entrada em vigor provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia e com a manutenção de padrões sanitários e fitossanitários exigentes para o acesso ao mercado europeu. Para Kiep, o bloco precisa acelerar essa construção. “Nós não vamos ter quase 30 anos, como a Europa teve, já de treinar e trabalhar junto e apertar a gente”, conclui.

GAFFFF 2026 inicia agenda de debates sobre os rumos do agronegócio brasileiro

A força econômica do agronegócio brasileiro e seu protagonismo na produção mundial de alimentos e energia foram os principais temas abordados durante a cerimônia de abertura da terceira edição do Global Agribusiness Festival (GAFFFF), realizada em São Paulo. Com mais de 81 sessões de conteúdo distribuídas em seis palcos simultâneos, o evento da DATAGRO reúne autoridades e líderes em torno das perspectivas e desafios do setor, que movimenta cerca de R$ 3,2 trilhões por ano, representa aproximadamente 25% do PIB brasileiro e responde por quase metade das exportações do país.

Plinio Nastari, presidente da DATAGRO destacou a relevância da contribuição do GAFFFF para o desenvolvimento do agronegócio no país. “É uma oportunidade valiosa para disseminar conceitos fundamentais e debater como o setor agropecuário pode enfrentar os desafios do futuro”, afirmou.

Geraldo Melo Filho, secretário estadual de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, reforçou a importância da ciência e da tecnologia para que o setor alcançasse sua posição atual. “O Brasil que nós conhecemos nasce no agro. Mas nunca foi só terra. Seria impossível, sem pesquisa, sem tecnologia, sem conhecimento, termos chegado aonde chegamos”, destacou. “E, com o avanço de áreas como biocombustíveis, bioenergia e produção de proteínas, esse Brasil agro é quem vai garantir, nas próximas décadas, segurança alimentar e energética para o mundo”.

Foto: Divulgação – GAFFFF / DATAGRO

Alei Fernandes, prefeito de Sorriso (MT), lembrou que hoje a região é um dos motores do agro, registrando grande expansão nos últimos anos. “O setor realmente tem seu grau de importância na economia e vivemos um momento de muita expectativa e relevância ao mesmo tempo. É uma satisfação ver que nós, lá em Sorriso, nos transformamos no epicentro da produção agrícola do Mato Grosso e, talvez, do Brasil”, disse.

Já o deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania/SP), que também é presidente da Comissão de Transição Energética e Hidrogênio Verde da Câmara dos Deputados, abordou a coexistência estratégica entre produção e preservação ambiental. “O agro brasileiro escolheu o caminho da sustentabilidade. Também celebramos a sinergia entre a segurança alimentar, garantida pelo Brasil ao mundo, e a segurança energética, por meio de biocombustíveis como etanol, biodiesel, biogás e biometano, além do avanço no combustível sustentável de aviação. O agro busca respeito, segurança jurídica e valorização do trabalho. Agradeço ao DATAGRO por este encontro, que reafirma nosso compromisso em manter o protagonismo do agronegócio na economia nacional. Vida longa ao GAFFFF”, concluiu.

Do porto ao talhão, logística e dados entram na conta da eficiência dos fertilizantes

por Sérgio Rocha*

O Brasil importa 93% dos fertilizantes que consome, somente em 2025, foram 45,5 milhões de toneladas trazidas do exterior, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em um cenário marcado por conflitos geopolíticos, restrições comerciais, oscilações de preços e gargalos logísticos, essa dependência deixou de ser apenas uma questão de comércio exterior e passou a representar um fator de risco para o planejamento da safra, o custo de produção e, consequentemente, a rentabilidade do produtor.

O problema é que o risco não termina quando o navio chega ao porto. Ele continua no transporte, na armazenagem, na distribuição e, principalmente, dentro da propriedade. Garantir que o fertilizante chegue ao Brasil é apenas uma parte da equação. É preciso que ele esteja disponível no momento adequado, pelo menor custo possível e seja utilizado de maneira eficiente.

Os números mais recentes mostram como essa vulnerabilidade pode se materializar rapidamente. Entre janeiro e maio de 2026, as importações brasileiras de fertilizantes nitrogenados e fosfatados recuaram 8,7%, passando de 7,69 milhões para 7,02 milhões de toneladas. No mesmo período, porém, o preço médio de internalização aumentou 14,4%. Como consequência, o valor desembolsado pelo país com essas importações cresceu 4,4%, mesmo diante da entrada de um volume menor. Em outras palavras: o Brasil pagou mais por menos produto.

Esse movimento expõe uma vulnerabilidade que vai além da formação do preço internacional. Quando o insumo fica mais caro na origem, frete, armazenagem e atrasos na entrega podem pesar ainda mais sobre a conta final. É por isso que a gestão dos fertilizantes precisa começar antes mesmo de a carga chegar ao porto.

Logística, nesse contexto, também é uma variável agrícola. O fertilizante precisa estar disponível quando a lavoura demanda determinado nutriente. Um produto que chega tarde pode comprometer o planejamento, aumentar custos e reduzir a previsibilidade da operação.

Em agosto, a Comissão Nacional das Autoridades nos Portos (Conaportos) recomendou prioridade para o desembarque de fertilizantes minerais e demais insumos nutricionais destinados à safra 2026/27 nos portos públicos organizados. A medida ocorreu em um cenário de disrupções logísticas associadas ao ambiente geopolítico internacional.

Paranaguá, Santos e os portos do Arco Norte são pontos estratégicos dessa cadeia. Um atraso na descarga não termina no cais: pode resultar em filas de caminhões, maior necessidade de armazenagem, fretes mais caros e menor previsibilidade para a chegada do produto à propriedade. No campo, a previsibilidade também tem valor econômico. O produtor precisa comprar o insumo, programar sua distribuição e posicioná-lo de acordo com o planejamento da lavoura. Quanto maior a incerteza, maior a necessidade de capital e maior a exposição ao risco.

O Profert é estratégico, mas ainda não resolve

O Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert) representa um passo importante na tentativa de reduzir a dependência externa. Em agosto, o Senado aprovou o projeto que prevê até R$ 10 bilhões em incentivos para estimular investimentos em novas plantas e na expansão e modernização da produção nacional. O texto foi encaminhado à Presidência da República para sanção.

A iniciativa é necessária. Ampliar e modernizar a capacidade brasileira de produção de fertilizantes significa reduzir a vulnerabilidade diante de choques externos e criar condições para uma cadeia de suprimentos mais resiliente. Mas é importante separar o horizonte estratégico da necessidade imediata.

Uma nova planta industrial não é construída da noite para o dia. Projetos de fertilizantes demandam capital, infraestrutura, disponibilidade de matérias-primas, energia e gás natural em condições competitivas, além de planejamento e tempo para implantação. O Profert pode ajudar a transformar a estrutura da oferta brasileira nos próximos anos. A safra que está sendo planejada, porém, precisa lidar com os preços, estoques, fretes e disponibilidade de produto existentes hoje. É justamente nesse intervalo que a eficiência ganha importância.

Mais fertilizante, não significa mais produtividade

Existe também um problema dentro da porteira: saber exatamente onde, quanto e quando aplicar. Um estudo do Instituto Escolhas mostra que o uso de fertilizantes químicos na produção brasileira de soja passou de 728 mil toneladas, em 1993, para 6 milhões de toneladas, em 2022, um crescimento de 734%. No mesmo período, a quantidade de soja produzida por tonelada de fertilizantes caiu de 517 para 333 sacas.

Os números não significam que o fertilizante deixou de ser essencial à produtividade. Mostram que a relação entre quantidade aplicada e resultado obtido precisa ser analisada com mais precisão. Fertilizante não deve ser tratado como uma variável uniforme dentro de uma propriedade. A necessidade de nutrientes varia conforme características do solo, histórico de cultivo, produtividade esperada, cultura, clima e manejo.

Aplicar uma dose única em toda a área, quando existe variabilidade significativa dentro do talhão, pode levar a dois problemas simultâneos: aplicação abaixo da necessidade em determinados pontos e excesso em outros. A consequência é econômica antes de ser tecnológica. O produtor pode estar colocando dinheiro no solo sem necessariamente transformar esse investimento em produtividade.

O valor dos dados

É nesse ponto que os dados passam a ter valor estratégico. A agricultura já produz uma quantidade enorme de informações: análises de solo, mapas de produtividade, imagens de satélite, dados climáticos, histórico de aplicações, relevo, disponibilidade hídrica, preços de insumos, localização de armazéns e rotas de transporte. O desafio, portanto, não é simplesmente ter mais dados. É conectar essas informações para transformar variáveis dispersas em decisões melhores.

A inteligência espacial permite, por exemplo, identificar a variabilidade dentro da propriedade e apoiar estratégias de aplicação em taxa variável, sempre a partir de critérios agronômicos e de análises que indiquem a necessidade de cada área. Mas essa inteligência também pode ultrapassar os limites da fazenda. Ao cruzar localização da propriedade, origem do fertilizante, disponibilidade regional, distância, modal de transporte e frete, é possível estimar o custo efetivo do insumo entregue no destino, e não apenas observar o preço anunciado na origem. Essa diferença é relevante.

A mesma lógica pode ser aplicada à gestão financeira e de risco. Informações territoriais e produtivas podem contribuir para que instituições financeiras e seguradoras avaliem melhor a exposição de uma operação agrícola, considerando características específicas da propriedade e de sua região.

A próxima fronteira da eficiência está na informação

A discussão sobre fertilizantes costuma terminar quando se fala em produção nacional. Precisamos ampliar essa visão. Reduzir a dependência externa é fundamental. Melhorar a eficiência dos portos também. Mas existe uma terceira frente, dentro da propriedade: fazer cada tonelada de fertilizante gerar o máximo possível de retorno agronômico e econômico. Isso exige planejamento, conhecimento do solo, manejo adequado e capacidade de interpretar a variabilidade da produção.

Também exige uma mudança de perspectiva. O dado não deve ser encarado como mais uma camada de tecnologia sobre a agricultura, mas como uma ferramenta capaz de conectar decisões que muitas vezes ainda são tomadas de forma isolada.

O Brasil precisa continuar investindo na produção nacional de fertilizantes e na infraestrutura logística. Mas não se pode esperar que essas soluções, sozinhas, eliminem o risco. Enquanto novas fábricas são construídas e a infraestrutura é ampliada, existe uma medida que pode começar imediatamente: reduzir desperdícios, melhorar a tomada de decisão e aumentar a eficiência do insumo que já está chegando ao campo.

Do porto ao talhão, a segurança dos fertilizantes não depende apenas de quanto o Brasil consegue importar ou produzir. Depende também de quanto consegue transformar cada tonelada em produtividade, margem e segurança para quem produz.

Nessa equação, informação de qualidade deixou de ser diferencial. É infraestrutura para a agricultura.

*Fundador e CEO da Agrotools.

Na ONU, discurso sobre soberania, guerras e tecnologia acende alerta para a diplomacia e o mercado global

A abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) colocou no centro das atenções o acirramento das tensões geopolíticas, o avanço dos conflitos armados e os reflexos dessas disputas na estabilidade econômica global.

Durante as declarações iniciais, o presidente Lula enfatizou a importância da autonomia nacional diante de sanções, tarifas e pressões externas. Em tom direto em relação às grandes potências, o presidente reiterou que a soberania brasileira é inegociável e que o país manterá sua independência na condução da política externa e das relações comerciais. “A ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa”, afirmou.

Crise institucional e os reflexos nas cadeias de suprimento

A avaliação apresentada durante o encontro aponta que a ONU vive seu momento mais crítico em décadas, evidenciado pela incapacidade do Conselho de Segurança em conter a escalada de conflitos pelo mundo. Para os países exportadores e para o setor produtivo, essa paralisia diplomática se traduz em insegurança jurídica, oscilação nos preços das commodities e avanço de medidas protecionistas unilaterais por parte de blocos econômicos.

Diante desse cenário, a posição do Brasil focou na rejeição a restrições comerciais arbitrárias, na defesa do fortalecimento das rotas de exportação e na necessidade de reformas estruturais nas instituições multilaterais. No âmbito da segurança interna e da integridade territorial, enfatizou-se o combate ao crime organizado por meio da inteligência e da cooperação internacional, rechaçando propostas de ingerência externa ou intervenção militar nas decisões do país.

Tensões geopolíticas e os desafios da tecnologia

O secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou a gravidade do panorama ao sinalizar que a diplomacia perde espaço de forma acelerada para a imposição da força militar. Além dos embates geopolíticos tradicionais, Guterres destacou o avanço acelerado de novas tecnologias, como a inteligência artificial, como um fator inédito de instabilidade quando desenvolvidas sem regulamentação clara ou controle institucional.

O encerramento do primeiro dia de trabalhos deixou evidente que a previsibilidade do comércio global e o crescimento do setor produtivo dependem diretamente do resgate da cooperação entre as nações e da construção de um ambiente internacional menos propenso a sobressaltos políticos.

Foto: Hugo Magalhaes / Pexels.com

Empresas têm até dezembro para se adaptar a novas regras sobre benefícios fiscais

Entrou em vigor neste mês de setembro um novo modelo de acompanhamento dos incentivos e benefícios fiscais utilizados pelas empresas. As novas regras da Receita Federal ampliam o controle sobre o cumprimento dos requisitos exigidos para a manutenção desses benefícios e abrem, até o fim do ano, uma janela para revisão e regularização de eventuais inconsistências.

Durante o período de adaptação, que segue até dezembro de 2026, o acompanhamento tem caráter orientativo e eventuais irregularidades podem ser comunicadas às empresas para que sejam corrigidas antes do início dos procedimentos formais previstos para 2027.

A medida pode alcançar empresas de diferentes portes e segmentos que usufruem de incentivos, renúncias ou benefícios tributários federais. Para Nicholas Coppi, advogado da Coppi Advogados Associados e especialista em Direito Tributário, a principal recomendação é aproveitar esse intervalo para verificar se todos os requisitos vinculados aos benefícios utilizados continuam sendo cumpridos. “Para muitas empresas, o benefício fiscal já faz parte da rotina e acaba sendo tratado como uma condição consolidada. A nova sistemática reforça que não basta ter obtido o direito ao incentivo. É necessário continuar atendendo às condições exigidas para sua utilização”, afirma Coppi.

Entre os requisitos que podem ser objeto de acompanhamento estão a regularidade fiscal, a situação perante o FGTS e o Cadin, a regularidade cadastral no CNPJ e a adesão ao Domicílio Tributário Eletrônico (DTE), além das condições específicas previstas na legislação de cada benefício.

Na avaliação do especialista, a mudança interessa especialmente às empresas que utilizam incentivos há mais tempo e que não mantêm uma rotina periódica de revisão das condições necessárias à sua manutenção. “É um bom momento para fazer uma checagem relativamente objetiva: quais benefícios a empresa utiliza, quais são os requisitos para cada um deles e se existe documentação atualizada que demonstre o cumprimento dessas condições. Dependendo do caso, uma pendência cadastral ou de regularidade pode gerar consequências relevantes”, explica.

A regulamentação também ampliou de 20 para 30 dias úteis o prazo para regularização após eventual intimação e prevê situações em que esse período poderá ser prorrogado quando a solução depender da atuação de outro órgão público.

O caráter orientativo previsto até 31 de dezembro é um dos pontos que tornam o momento particularmente relevante para as empresas. A partir de janeiro de 2027, passam a ser adotados os procedimentos formais estabelecidos pela nova sistemática. Para Coppi, a existência desse intervalo deve ser entendida como uma oportunidade para antecipar a revisão, e não como motivo para postergá-la. “Se existe uma janela em que a própria sistemática privilegia a orientação e a regularização, faz sentido utilizá-la preventivamente. A empresa pode revisar cadastros, certidões, habilitações e controles antes de eventualmente ser chamada a prestar esclarecimentos”, aponta o especialista.

O novo modelo também reforça uma tendência de maior utilização de informações eletrônicas e cruzamento de dados pela administração tributária. Nesse ambiente, empresas que se beneficiam de incentivos precisam incorporar a revisão dessas condições às práticas de governança fiscal. “Benefícios tributários podem representar valores importantes para o resultado de uma companhia. Por isso, o controle sobre os requisitos necessários para mantê-los precisa ter a mesma relevância. A recomendação é não esperar janeiro para descobrir se existe alguma pendência que poderia ter sido identificada antes”, diz o advogado.

Para as empresas, o caminho inicial passa por identificar os benefícios fiscais utilizados, levantar os requisitos vinculados a cada um, verificar a situação fiscal e cadastral e corrigir eventuais inconsistências ainda durante o período de adaptação. “Os próximos meses oferecem uma oportunidade de revisão. Mais do que uma nova obrigação, é um momento para a empresa verificar se aquilo que já utiliza está juridicamente e documentalmente bem sustentado”, conclui Coppi.

Foto: Olia Danilevich / Pexels.com