Geopolítica redefine relações comerciais e abre oportunidades para o agro brasileiro

O Brasil precisa se preparar para um novo ambiente geopolítico sem abrir mão de sua capacidade de dialogar pragmaticamente com diferentes parceiros. Para o agronegócio, isso significa transformar a atual reorganização econômica global em uma oportunidade para ampliar mercados, diversificar destinos e agregar valor à produção brasileira, reduzindo vulnerabilidades diante de eventuais mudanças na demanda ou nas relações comerciais entre as grandes potências.

“A estrutura multilateral criada no pós-guerra, incluindo instituições como a OMC, perdeu parte de sua capacidade de refletir a atual distribuição de poder. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam sendo uma potência central, enquanto a China mantém sua trajetória de expansão. Índia e Rússia também integram esse complexo quadro de disputas e alianças”, explicou Alexandre Parola, embaixador do Brasil no Reino do Marrocos, durante a Mesa Redonda “O Agro na Geopolítica”, da edição histórica de 25 anos do Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA), promovida pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), em parceria com a B3, nesta segunda-feira (10/08), em São Paulo.

Ele avaliou que o Brasil precisa abandonar uma postura de planejamento apenas de curto prazo e construir uma estratégia de médio e longo prazo, considerando que terminou o período de relativa “negligência benigna” em relação ao país. “A segurança estratégica passou a influenciar cada vez mais as decisões econômicas e comerciais das grandes potências. Para o Brasil e o agronegócio, essa realidade abre oportunidades, mas também exige adaptação”, afirmou.

Para Braz Baracuhy, diplomata e especialista em geopolítica, o Brasil mantém interesses comuns com diferentes potências e também oportunidades de relacionamento com outras regiões do mundo. Ele defendeu uma combinação entre a capacidade da iniciativa privada e uma política de Estado de longo prazo, principalmente nas áreas de segurança alimentar e energética, e chamou a atenção para a dependência de rotas internacionais estratégicas, especialmente o Estreito de Ormuz. “O centro de gravidade da economia rural está no Estreito de Ormuz. Do ponto de vista geopolítico, isso é assustador, mas minha impressão é de que existem incentivos para a diplomacia”.

Safra 2026/27: entenda como fósforo acumulado no solo pode reduzir os custos com fertilizantes

O produtor brasileiro inicia o planejamento da safra 2026/27 em meio à instabilidade do mercado global de fertilizantes. As restrições impostas pela China às exportações de fertilizantes fosfatados, somadas aos impactos das tensões geopolíticas sobre a logística internacional e o comércio de insumos agrícolas, mantêm o mercado sob forte pressão e elevam a preocupação do setor com os custos de produção da próxima temporada.

Diante do risco de estrangulamento das margens financeiras, o engenheiro agrônomo e consultor Leandro Barcelos, afirma que a resposta para enfrentar o cenário de escassez global não está em gastar mais, mas em acionar o estoque invisível que muitas fazendas já possuem no solo. 

O Brasil importa mais de 75% dos fertilizantes fosfatados que consome, o que torna o país altamente dependente das oscilações do mercado internacional. As recentes restrições chinesas às exportações, aliadas às dificuldades logísticas provocadas pelas tensões geopolíticas, reduziram a oferta global e reforçaram essa vulnerabilidade. No entanto, por trás dessa dependência externa existe uma característica pouco explorada dos solos tropicais brasileiros. Estudos da Embrapa mostram que, devido à alta capacidade de fixação do solo brasileiro, a maior parte do fósforo aplicado nas últimas décadas acabou se acumulando na terra em formas não disponíveis para as plantas, criando uma espécie de reserva invisível no perfil do solo.

Análises de campo mostram que, em muitas áreas comerciais de produção de grãos, os níveis de fósforo disponível superam aproximadamente 30 ppm (partes por milhão) em resina. Quando associados ao equilíbrio químico do solo e às condições adequadas de manejo, esses níveis permitem ao produtor revisar, com respaldo técnico, a estratégia de adubação fosfatada, o que reduz desperdícios sem comprometer o potencial produtivo.

“O produtor precisa parar de comprar fertilizante por hábito ou pelo pacote engessado que o mercado comercial empurra na mesa. Se a sua análise de solo mostra um nível de fósforo acima de 30 ppm em resina, a planta tem o que comer. O fertilizante mais barato na crise é aquele que você já tem retido na sua terra. Se o solo está equilibrado quimicamente, reduzir a dose de adubação fosfatada na safra 2026/27 não vai derrubar sua produtividade; vai salvar a sua margem de lucro”, afirmou Leandro Barcelos.

Construção do perfil do solo e desenvolvimento radicular

Em um cenário de fertilizantes mais caros e maior pressão sobre os custos de produção, cada quilo de adubo aplicado na safra 2026/27 precisa entregar o máximo de eficiência. Para Barcelos, o aproveitamento do fósforo e do nitrogênio importados depende diretamente da estrutura profunda da terra. De nada adianta investir em formulações caras se o sistema radicular da cultura ficar limitado aos primeiros centímetros de profundidade, impedido de explorar o solo e dissolver o nutriente retido.

A chave para destravar esse potencial passa por corrigir o perfil do solo por meio do equilíbrio de bases (relação cálcio, magnésio e potássio) e da descompactação física. Essa abordagem foi a base para que projetos sob sua assessoria técnica quebrassem tetos produtivos históricos, como o case da fazenda AgroMallon, campeã do CESB com 135,49 sacas por hectare.

“A planta só vai extrair eficiência do adubo caro se tiver raiz para buscar. O foco na safra 2026/27 tem que ser a construção de perfil de solo em profundidade e o equilíbrio químico. Quando você corrige a saturação de bases e condiciona o solo de forma racional, a planta expande o sistema radicular e acessa nutrientes que antes estavam bloqueados. É assim que a gente rompe o teto das 100 sacas por hectare gastando menos por saca produzida. A crise dos fertilizantes é um chamado forçado para o produtor se tornar um gestor técnico da sua própria terra,” explicou Barcelos.

Foto: Nayla Charo / Pexels.com

Autoridades defendem Política de Estado para fortalecer o agro no contexto global

A solenidade de abertura da edição histórica de 25 anos do Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA), realizada nesta segunda-feira (10/08), em São Paulo, reuniu autoridades e lideranças do setor, que destacaram a necessidade de uma política de Estado para impulsionar a competitividade do agro brasileiro e fortalecer o papel do país em uma economia global cada vez mais voltada à segurança alimentar, à energia sustentável e à proteção ambiental. Promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), em parceria com a B3, o evento tem como tema “Agro & Indústria – integrando e transformando o Brasil”.

“Chegar a um quarto de século representa a maturidade de uma instituição que tem como missão antecipar tendências, compreender os grandes movimentos globais e contribuir para a construção de uma visão estratégica de longo prazo para o Brasil”, disse Ingo Plöger, presidente da ABAG. Ele destacou que o Brasil construiu, nas últimas décadas, um agronegócio pujante e protagonista e o próximo passo é participar da construção das novas regras internacionais, agregando valor, criando mercados e contribuindo para um mundo mais sustentável.

Com essa visão, a ABAG entregou ao vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, uma Agenda Estratégica da Agroindústria Brasileira, resultado de um amplo estudo que avaliou mais de 80 fatores, priorizados segundo sua urgência, impacto e horizonte de implementação. O documento reúne propostas para ações de curto, médio e longo prazo e representa uma contribuição da sociedade civil para a construção de uma verdadeira agenda de Estado.

Na solenidade de abertura, Alckmin reiterou a importância desta agenda para a agroindústria. “Estamos avançando para nos tornarmos o maior exportador de alimentos do mundo, superando os Estados Unidos”, pontuou. Sobre os acordos comerciais, relembrou que o acordo entre União Europeia e Mercosul resultou em crescimento de 4% nas exportações nos primeiros 60 dias de vigência e que o governo continua empenhado nas negociações com os Estados Unidos. Também trouxe dados do Ipea, que mostram que a reforma tributária poderá elevar o PIB em 12% em 15 anos, os investimentos em 14% e as exportações em 17%.

Luiz Masagão, vice-presidente de Produtos e Clientes da B3, reiterou que o mercado de capitais tem a proposta de apoiar o avanço do agronegócio brasileiro, conectando produtores e empresas aos recursos necessários para o setor. Até junho, as emissões de CPR somavam R$ 470 bilhões, enquanto as LCA alcançavam R$ 560 bilhões, os CRA, R$ 170 bilhões, e os CDCA ultrapassavam R$ 30 bilhões. Sobre a gestão de riscos, destacou a necessidade de avanço na precificação de commodities no mercado brasileiro, hoje fortemente influenciada por referências internacionais.

O Ministério da Agricultura e Pecuária vem trabalhando para ampliar o acesso a mercados e garantir o fornecimento de insumos estratégicos. “Já conquistamos 674 novos mercados para os produtos brasileiros e devemos superar a casa dos 700 mercados até o final do ano”, afirmou André de Paula, ministro da Agricultura e Pecuária, que ponderou que o país possui uma posição de destaque no agronegócio mundial, mas essa posição precisa ser consolidada todos os dias. “Quanto mais integrada estiver a cadeia, maior será nossa capacidade de competir no mundo e contribuir para o desenvolvimento do país”.

Para a senadora Tereza Cristina, o próximo governo precisa priorizar o agronegócio como política de Estado, garantindo previsibilidade e segurança jurídica para que o setor possa continuar exercendo seu papel de motor da economia e protagonista na segurança alimentar mundial. Na mesma linha, o deputado federal Arnaldo Jardim avaliou que é necessário transformar a resiliência do agro em uma estratégia de longo prazo, sustentada por políticas de Estado.

Foto: Gerardo Lazzari

Alta temporada pressiona fretes com demanda acima da capacidade na América Latina

Os mais recentes relatórios Ocean Freight Market Update e Air Freight State of the Industry da DHL Global Forwarding mostram que o mercado de cargas na América Latina enfrenta uma alta temporada precoce devido ao crescimento mais rápido que a capacidade logística disponível. O aumento das tarifas marítimas e as restrições de espaço nos navios, somados às contínuas disrupções nas cadeias de suprimentos globais têm redefinido as condições do transporte em toda a região, enquanto a carga aérea segue desempenhando um papel fundamental para envios de alto valor agregado e de temperatura controlada.

“A América Latina atravessa um dos cenários mais dinâmicos dos últimos anos para o transporte internacional de cargas, com uma demanda que cresce em ritmo superior à capacidade disponível”, afirma Erik Meade, CEO da DHL Global Forwarding para a América Latina.

Rotas entre Ásia e América Latina são as mais pressionadas, devido à taxa de ocupação das embarcações próxima de 98%, o que reduz a flexibilidade operacional das companhias marítimas. Paralelamente, o Índice de Frete de Contêineres de Xangai (Shanghai Containerized Freight Index – SCFI) está 84% acima do registrado no mesmo período do ano passado, enquanto as tarifas para a Costa Oeste da América Latina acumulam alta de 126%, desempenho superior ao observado na média das demais rotas globais. A oferta enfrenta, ainda, restrições relacionadas aos congestionamentos portuários, à falta de equipe qualificada em Xangai e Ningbo e a uma gestão mais disciplinada da capacidade pelas armadoras.

Foto: Drinu Cutajar / Pexels.com

No transporte aéreo, por sua vez, a demanda entre Ásia e América Latina segue aquecida, com crescimento de 20% nos volumes transportados em relação a maio de 2025 e com um aumento de 27% na média tarifária. A estabilidade na capacidade de transporte acentua os gargalos nas rotas provenientes da América do Norte e da Europa, especialmente com destino a São Paulo, Santiago e Buenos Aires.

Na contrapartida, a expansão da oferta de serviços de carga aérea amplia a conectividade entre a América Latina e a Europa. Para Meade, o movimento fortalece a resiliência da da cadeia logística regional. “Resiliência, hoje, significa ampliar as alternativas disponíveis. Empresas que diversificam suas fontes de suprimento, adotam estratégias logísticas mais flexíveis e antecipam o planejamento de suas operações estão mais bem posicionadas para manter seus níveis de serviço diante da volatilidade do mercado”, afirma.

Na avaliação da DHL Global Forwarding, o mercado de carga na América Latina atravessa um dos períodos de maior restrição de capacidade dos últimos anos. À medida que a demanda supera o espaço disponível e se mantém a tendência de alta tarifária, o planejamento antecipado e as estratégias logísticas diversificadas serão cada vez mais importantes para fortalecer a resiliência das cadeias de suprimentos.

Embrapa advises farmers on how to reduce the impacts of El Niño in southern Brazil

Given the 97% to 99% probability that the El Niño climate phenomenon will persist through early 2027, seven Embrapa units — Temperate Climate (RS), Forestry (PR), Southern Livestock (RS), Soybean (PR), Swine & Poultry (SC), Wheat (RS), and Grapes and Wine (RS) — have prepared a technical note with recommendations to reduce risks to crop and livestock in the Brazilian Southern Region. The material provides guidance to farmers on preventive measures to minimize losses caused by heavy rains, an increase in the incidence of crop diseases, and other impacts expected for different production systems.

This scenario is highlighted by the U.S. National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), which also estimates a 63% probability that the phenomenon will reach very strong intensity between November 2026 and January 2027. For the Southern region, the forecast calls for increased rainfall, more cloud cover, and above-average temperatures during the winter — conditions that could affect various agricultural systems.

The Embrapa research centers responsible for the technical note are part of the Collaborative Platform for Mitigating Adverse Climate Effects on Agriculture and Livestock in Southern Brazil. More than just warning of the risks, the document aims to provide technical information that will enable advance planning of field activities, thereby reducing losses and preventing alarmist interpretations of the effects of El Niño.

According to researcher Gilberto Cunha, an agrometeorologist at Embrapa Wheat, the knowledge gathered over the past few decades enables farmers, technicians, and institutions to take preventive action. The document emphasizes that the inherent uncertainty of weather phenomena should not be a reason for inaction, but rather a reason to strengthen risk management based on scientific evidence and constant monitoring. “Today we know much more about El Niño than we did in the 1980s. The challenge isn’t predicting the phenomenon, but turning that knowledge into decisions in the field”, he adds.

He also points out that the impacts of El Niño are not inevitable. “The knowledge we’ve gained from past events allows us to reduce risks and, in some cases, even take advantage of favorable environmental conditions for certain crops”, Cunha notes.

The strategy proposed by Embrapa combines prevention, mitigation, and risk transfer measures. In addition to good management practices, the technical note emphasizes the importance of agricultural insurance and of making decisions based on official weather forecasts.

Planning is the Main Tool

General recommendations include complying with the Agricultural Climate Risk Zoning (ZARC) regulations, monitoring forecasts issued by official agencies, carefully planning investments, and participating in rural insurance programs. At the same time, it provides specific guidelines for each production chain, recognizing that the impacts of El Niño vary depending on the characteristics of each crop.

The publication also recommends that farmers adjust their investments and yield expectations to the conditions expected during El Niño years, avoiding decisions based on scenarios of exceptional productivity and tailoring the use of inputs to the crops’ actual potential.

For winter grains, such as wheat, barley, and oats, the guidelines focus on disease prevention, fertilizer management, and harvest planning. As for soybeans, corn, and irrigated rice, the document introduces strategies to reduce losses caused by excessive rainfall, improve drainage in these areas, protect the soil from erosion, and step up phytosanitary monitoring.

In fruit growing, the guidelines cover crops such as grapevines, apple trees, peach trees, olive trees, and pecan trees, with measures focused on orchard drainage, plant health management, soil conservation, and agricultural operations planning. The technical note also devotes specific chapters to forestry, horticulture, pastures, and cover crops, reaffirming specific strategies to adapt to projected climate conditions.

According to researcher Alex Mayer from Embrapa Temperate Agriculture, fruit growing is among the agricultural activities most affected by the impacts associated with El Niño, especially due to excessive rainfall and extreme weather events. “Fruit production is very sensitive. In addition to soil flooding, which can compromise the root system and lead to plant death, losses can also result from strong winds, hail, and erosion, damaging orchards, farming structures, and productivity itself”, he explains.

In addition to technical recommendations for rural properties, the document proposes a broader approach to environmental planning, encouraging actions at the micro-watershed level, soil conservation, strengthening of natural infrastructure, and the adoption of more resilient production systems, such as Agroforestry Systems (AFSs) and Integrated Crop-Livestock-Forestry Systems (ICLFS).

Technology Transfer and Communication

Another key point in the technical note is the importance of technology transfer and communication with farmers. The Collaborative Platform provides for the ongoing training of technical assistance professionals and the production of easily accessible digital content, apps, and materials to broaden the dissemination of the recommendations.

According to José Reinaldo Moraes, a researcher at Embrapa Temperate Agriculture, “the important message is that, although El Niño requires attention, it is a predictable event and is not synonymous with guaranteed problems, but rather with a shift in risk patterns. Their impacts can be reduced through advance planning, the adoption of good agricultural practices, and access to reliable technical information. These measures are essential for increasing the resilience of production systems in the face of projected climate events”, he notes. 

Cunha states: “We can no longer passively accept the inability to deal with adverse impacts”. In the researcher’s opinion, the lessons learned from past climate events cannot be ignored. On the contrary, they should help us cope with adversity and remain alert and vigilant for any obstacles that may arise during the period of heightened El Niño activity.

Foto: Frederic Hancke / Pexels.com

Excesso de chuvas compromete o acúmulo de ATR e desafia a colheita da cana-de-açúcar

As condições climáticas têm imposto um novo desafio ao setor sucroenergético brasileiro. Em um período tradicionalmente marcado por temperaturas mais amenas e redução das chuvas, favoráveis ao acúmulo de sacarose na cana-de-açúcar, a safra 2026/27 vem sendo marcada por um volume de chuvas acima do esperado para a época e elevada umidade do solo. O cenário prolonga o crescimento vegetativo da cultura, retarda a maturação e limita o acúmulo de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), principal indicador da qualidade da matéria-prima destinada à produção de açúcar e etanol.

Segundo o engenheiro agrônomo e gerente de Marketing Regional da IHARA, Michel Tomazela, a instabilidade climática tornou a definição da janela ideal de colheita um dos principais desafios da safra. “Antes era mais fácil prever como a lavoura iria evoluir. Hoje, a cada previsão de chuva, aumento da umidade ou mudança nas condições do tempo, aumenta a incerteza sobre o comportamento da maturação. Quando essa previsibilidade diminui, cresce o risco de perder parte do potencial de ATR que a cana construiu ao longo da safra. Nesse cenário, identificar o momento que entrega mais valor para a operação é fundamental. Essa decisão deve considerar o comportamento da lavoura, as condições climáticas e uma estratégia de colheita bem planejada”, afirma.

Previsão climática mantém o setor em alerta e impacta diretamente a rentabilidade

As perspectivas para as próximas semanas indicam que o desafio deve continuar. De acordo com informações da Rural Clima, a segunda quinzena de julho marcou o retorno das chuvas em importantes regiões produtoras de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. A tendência é que esse padrão também se estenda ao Centro-Oeste no início de agosto, sob influência do El Niño.

Embora a disponibilidade hídrica seja importante para o desenvolvimento da cultura, a manutenção da umidade durante um período em que normalmente predomina o clima seco retarda a concentração natural de açúcares e exige ainda mais atenção ao planejamento da colheita.

O excesso de umidade altera o comportamento fisiológico da planta. Em vez de concentrar seus recursos no acúmulo de sacarose nos colmos, a cana mantém o crescimento vegetativo, atrasando a maturação. “Como consequência, a concentração de açúcar diminui justamente no período em que o setor espera obter os maiores índices de ATR, impedindo que a cana atinja o ponto ideal de colheita no tempo esperado. Se a colheita for antecipada para atender ao cronograma industrial, a matéria-prima pode chegar à usina com menor teor de sacarose e menor potencial de ATR”, explica Tomazela.

Além dessa redução, o encharcamento do solo dificulta a oxigenação das raízes, favorece a ocorrência de doenças e compromete as operações no campo. Nessas condições, o tráfego de máquinas torna-se mais difícil, provocando atrasos na colheita, aumento dos custos operacionais e interferindo diretamente no planejamento das usinas.

Os impactos se estendem por toda a cadeia produtiva. Como o ATR determina a quantidade de açúcar recuperável por tonelada de cana, sua redução afeta diretamente a rentabilidade da operação, o rendimento industrial e a competitividade do setor.

“Produzir grande volume de cana já não é suficiente. O que determina o retorno econômico é a qualidade da matéria-prima. O ATR é o indicador que transforma produtividade em rentabilidade”, explica Tomazela.

Quando a concentração de sacarose é menor, a indústria precisa processar um volume maior de cana para produzir a mesma quantidade de açúcar ou etanol. Isso aumenta os custos industriais, reduz a eficiência operacional e pode comprometer os resultados econômicos tanto das usinas quanto dos produtores.

Manejo da maturação ganha importância diante da variabilidade climática

Diante desse cenário, cresce a importância de estratégias capazes de reduzir os efeitos da variabilidade climática sobre a maturação da cana e preservar o potencial de ATR.

No Centro-Sul, a maturação ocorre naturalmente entre o outono e o inverno, quando temperaturas mais amenas e menor disponibilidade hídrica favorecem o acúmulo de sacarose. Nesta safra, no entanto, as chuvas frequentes e a elevada umidade alteraram esse padrão, dificultando a evolução da maturação e, consequentemente, o acúmulo de ATR, tornando a definição da janela de colheita ainda mais complexa.

Para enfrentar esse desafio, o consultor da MS Fernandes Consultoria Agrícola, Michel da Silva Fernandes, destaca que o manejo da maturação deve fazer parte de uma estratégia integrada de produção, associada ao controle de plantas daninhas, pragas e doenças, ao manejo nutricional e à escolha adequada das variedades, com o objetivo de favorecer o acúmulo de sacarose e preservar o potencial de ATR.

Os maturadores podem ser utilizados em diferentes fases da safra. No início do ciclo, ajudam a reduzir o crescimento vegetativo. No meio da safra, favorecem a maturação em regiões com outono e inverno chuvosos. Já no final, contribuem para inibir a retomada do desenvolvimento da planta, preservando níveis elevados de sacarose por mais tempo e ampliando a flexibilidade para definir a melhor janela de colheita, mesmo em cenários de maior instabilidade climática.

Entre as tecnologias utilizadas nesse manejo está o maturador sistêmico RIPER, da IHARA, desenvolvido para auxiliar produtores e usinas no planejamento da maturação ao longo da safra. Utilizado no início, no meio ou no final do ciclo, o produto permite maior flexibilidade na definição da janela de colheita, possibilitando adequar a estratégia às condições climáticas e ao potencial de maturação dos canaviais.

Em condições favoráveis de manejo, o RIPER pode proporcionar incrementos de 4% a 8% no teor de ATR, elevando a produção de toneladas de açúcar por hectare (TAH) e a rentabilidade da operação.

Para Tomazela, em um cenário de maior variabilidade climática, preservar a qualidade da matéria-prima tornou-se tão importante quanto alcançar elevados índices de produtividade. “Hoje, o desafio não é apenas produzir mais cana, mas colher no momento certo. O planejamento da maturação, aliado ao uso estratégico de tecnologias, permite aproveitar melhor o potencial da lavoura, aumentar o rendimento industrial e reduzir os impactos provocados pelas oscilações do clima”, conclui.

Varejo brasileiro sobe 4,2% no segundo trimestre de 2026

O comércio varejista brasileiro registrou uma alta de 4,2% no segundo trimestre de 2026 em comparação ao mesmo período do ano anterior. O resultado, impulsionado por uma reação expressiva no mês de junho, foi divulgado pelo Índice do Varejo Stone (IVS). Após dois meses consecutivos de retração, as vendas de junho avançaram 1,1% frente a maio e expressivos 5,7% no confronto anual, sinalizando que o mercado de trabalho aquecido e o nível de renda começam a blindar o setor contra os impactos do crédito caro.

A recuperação observada em junho interrompe uma sequência incômoda de quedas que vinha acendendo o alerta no setor. Segundo o levantamento, a melhora nas condições de emprego e a resiliência da renda das famílias foram os grandes pilares para este fechamento de trimestre positivo.

Contudo, o cenário macroeconômico ainda exige cautela. O endividamento persistente das famílias e as taxas de juros elevadas continuam a funcionar como um freio para uma arrancada mais vigorosa do consumo de bens duráveis.

Diante desse cenário de crédito restrito e necessidade de máxima eficiência, muitas empresas do setor têm recorrido à inteligência de dados para reter clientes e otimizar vendas. Ferramentas de tecnologia focadas em hiperpersonalização, como a Customer Data Platform, têm se tornado essenciais para que os varejistas consigam unificar as informações de seus consumidores, prevendo comportamentos de compra e melhorando a conversão mesmo em períodos de maior cautela no consumo.

Os números apurados em junho indicam um resgate importante do ritmo de vendas do comércio após a perda de tração nos dois meses anteriores. Esse movimento de ajuste permitiu que o varejo finalizasse o período entre abril e junho com um desempenho consolidado acima do patamar registrado no mesmo intervalo do ano anterior.

A expectativa é que o início de um ciclo de corte de juros traga um alívio gradual ao comércio, embora os reflexos práticos na economia real costumem demorar alguns meses para serem sentidos pelo consumidor final.

O crescimento de junho foi disseminado, com cinco dos oito segmentos pesquisados registrando taxas positivas na comparação com o mês anterior:

Material de Construção: +2,1%

Outros Artigos de Uso Pessoal e Doméstico: +2,0%

Móveis e Eletrodomésticos: +1,3%

Supermercados, Alimentos, Bebidas e Fumo: +1,0%

Artigos Farmacêuticos: +0,6%

Em contrapartida, o setor de Livros, Jornais, Revistas e Papelaria amargou a maior queda mensal, despencando 6,7%, seguido por recuos em Combustíveis (-1,8%) e no setor de Tecidos, Vestuário e Calçados (-1,1%).

O cenário na comparação anual (Junho 2026 vs. Junho 2025)

Quando o retrovisor aponta para o mesmo mês do ano anterior, o cenário é de otimismo generalizado: todos os segmentos avaliados registraram expansão. O destaque ficou com o setor de Combustíveis e Lubrificantes (+7,6%) e o canal de Supermercados e Alimentos (+7,4%), seguidos de perto por Material de Construção (+6,8%), Livros, Jornais, Revistas e Papelaria (+6,3%) e Móveis e Eletrodomésticos (+5,9%). Completando a lista, o setor de Outros Artigos de Uso Pessoal e Doméstico subiu 5,1%, Artigos Farmacêuticos cresceram 3,2% e Tecidos, Vestuário e Calçados avançaram 2,6%.

Um dos dados mais robustos do levantamento indica que todas as 27 unidades da federação registraram crescimento nas vendas em junho na comparação anual. No entanto, a intensidade dessa retomada varia drasticamente conforme a região geográfica.

O desempenho regional destacou-se pela força das economias nortistas, que dominaram o topo do ranking de crescimento anual. Roraima figurou como o principal expoente do varejo no período, registrando uma expressiva alta de 13,2%, seguido de perto pelo Pará, que alcançou 10,3%. O vigor da região Norte manteve-se consistente com as marcas de Rondônia (10,0%) e Amapá (9,9%), enquanto Sergipe, representando o Nordeste, completou o grupo de maior ascensão com um avanço de 9,6% nas vendas. O crescimento na região Norte ainda foi reforçado pelos desempenhos do Acre (+8,4%) e do Amazonas (+7,2%).

Nos estados que concentram o maior PIB do país, os números mostraram solidez: Minas Gerais cresceu 6,4%, seguido por São Paulo (+5,4%), Rio de Janeiro (+4,8%) e Paraná (+4,3%).

Na ponta oposta, o menor ritmo de expansão foi registrado no Distrito Federal, que beirou a estabilidade com apenas 0,1% de alta. Piauí (+1,4%), Rio Grande do Sul (+2,3%) e Rio Grande do Norte (+3%) também caminharam abaixo da média nacional de crescimento.

De acordo com a análise do índice, esse mapeamento revela como as desigualdades estruturais brasileiras influenciam o consumo direto nas pontas. A velocidade com que cada unidade federativa retoma o ritmo de vendas permanece intimamente ligada a fatores locais, como as taxas de emprego locais, o acesso a linhas de financiamento regionais e a capacidade financeira das famílias em cada estado.

Foto: Reprodução / Freepik

Mercosul volta ao radar de empresas brasileiras e pode ampliar exportações de indústrias do interior

O Mercosul voltou a ganhar espaço nas estratégias de internacionalização de empresas brasileiras. Dados da Secretaria de Comércio Exterior indicam que o bloco respondeu por cerca de 7% a 8% das exportações do país em 2025, com corrente de comércio superior a US$ 40 bilhões anuais. A retomada ocorre em meio à busca por diversificação de mercados diante de tensões geopolíticas e disputas comerciais globais.

Além da proximidade geográfica, o perfil da pauta exportadora ajuda a explicar o movimento. Diferentemente de mercados como China, que concentram compras em commodities, os países do Mercosul são importantes compradores de produtos industrializados brasileiros, como veículos, máquinas, equipamentos e bens de maior valor agregado.

Fábio Nascimento, contador e CEO do Grupo FN, afirma que o bloco regional costuma ser um primeiro passo natural para empresas que pretendem iniciar operações no comércio exterior. “O Mercosul reúne condições que facilitam a entrada de empresas brasileiras no comércio internacional. Há acordos tarifários, proximidade logística e uma demanda relevante por produtos industrializados”, afirma.

Entre os destinos regionais, a Argentina segue como um dos principais parceiros industriais do Brasil. Dados da Secretaria de Comércio Exterior mostram que mais de 85% das exportações brasileiras para o país são produtos manufaturados, incluindo automóveis, autopeças, máquinas e equipamentos industriais. O fluxo comercial tem peso relevante para cadeias produtivas brasileiras ligadas à indústria automotiva, metalmecânica e de tecnologia.

Esse cenário também abre espaço para empresas localizadas fora dos grandes centros industriais. Regiões como o Vale do Paraíba, que reúne polos de manufatura avançada, tecnologia e indústria aeroespacial, têm potencial para ampliar presença no comércio regional. Empresas instaladas na região produzem componentes, equipamentos e soluções tecnológicas que podem encontrar demanda crescente em países vizinhos.

Segundo o especialista, muitas companhias de médio porte ainda não exploram o mercado regional por acreditarem que exportar exige uma estrutura complexa. “A internacionalização costuma ser vista como algo distante da realidade de empresas médias, mas o Mercosul pode ser um caminho mais acessível para iniciar esse processo”, aponta.

O avanço do comércio exterior também tem ampliado a presença de pequenas e médias empresas brasileiras nas exportações. Levantamento da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e do Ministério do Desenvolvimento mostra que mais de 40% das empresas exportadoras do país são pequenas ou médias, embora ainda representem uma parcela menor do valor total exportado.

Para o executivo, esse dado mostra que o comércio internacional deixou de ser exclusivo de grandes companhias. “Hoje existem programas de apoio, linhas de financiamento e estruturas de consultoria que ajudam pequenas e médias empresas a acessar mercados internacionais”, explica. 

Vantagens e alertas para empresas que pretendem exportar

A expansão para mercados regionais pode trazer ganhos relevantes para companhias brasileiras. Entre os benefícios estão a ampliação de mercado consumidor, diversificação de receitas e possibilidade de ganho de escala na produção.

Ao mesmo tempo, especialistas alertam que a internacionalização exige atenção a fatores como variações cambiais, diferenças regulatórias e gestão de contratos internacionais. Avaliar capacidade produtiva, logística e estrutura financeira antes de assumir novos compromissos comerciais é considerado essencial.

Segundo o executivo, empresas que adotam uma estratégia gradual de internacionalização tendem a consolidar presença regional e ampliar competitividade. “Começar pelo Mercosul permite que a empresa aprenda a operar no comércio exterior, desenvolva processos internos e construa experiência para acessar mercados mais distantes no futuro”, conclui.

Em um cenário global marcado por instabilidade geopolítica e reorganização das cadeias produtivas, a integração regional volta a ganhar importância estratégica. Para indústrias instaladas fora dos grandes centros econômicos, o fortalecimento do comércio dentro do Mercosul pode representar uma oportunidade concreta de ampliar exportações e reduzir a dependência de poucos mercados internacionais.

Foto: Beate Vogl / Pexels.com

Tensões no Mar Negro elevam incertezas para o mercado global de trigo

O aumento das tensões no Mar Negro trouxe novas incertezas para o mercado global de trigo, em um momento marcado por um balanço de oferta menos confortável entre os principais países exportadores. A escalada do conflito entre Rússia e Ucrânia voltou a colocar a logística de escoamento dos grãos da região no centro das preocupações, com impactos potenciais não apenas para o trigo, mas também para outros produtos agrícolas, como o milho.

De acordo com o Itaú BBA, a atenção do mercado se concentra especialmente no Mar de Azov, corredor estratégico para a exportação de trigo russo. A região possui papel fundamental no fluxo de embarques do país, e qualquer restrição à navegação, aumento dos custos de frete e seguro ou elevação da percepção de risco tende a ampliar a volatilidade das cotações internacionais.

O movimento ganhou relevância porque ocorre em um cenário de menor disponibilidade entre importantes exportadores. Nos Estados Unidos, a safra de trigo de inverno foi fortemente impactada pela seca registrada durante o ciclo produtivo. As projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam uma das menores colheitas desde 1970, estimada em cerca de 42 milhões de toneladas, uma redução significativa em relação à temporada anterior, com reflexos sobre os estoques finais. Apesar da melhora recente nas condições do trigo de primavera, essa recuperação não compensa integralmente as perdas observadas na produção de inverno.

Na União Europeia, o cenário também apresentou deterioração ao longo da temporada. Ondas de calor em importantes regiões produtoras reduziram o potencial das lavouras e levaram a revisões negativas para a safra. Países como França, Alemanha, Espanha e nações do Leste Europeu registraram perdas de produtividade, reduzindo a capacidade exportadora do bloco em relação às expectativas iniciais.

Outros fornecedores relevantes também enfrentam limitações. O Canadá apresenta redução de área plantada e expectativa de menor produção, enquanto a Argentina deve registrar retração em relação à temporada anterior. Dessa forma, embora os estoques globais ainda permaneçam elevados em termos absolutos, a disponibilidade efetiva de trigo entre os principais exportadores vem diminuindo gradualmente.

Nesse ambiente, a Rússia passou a ocupar uma posição ainda mais estratégica no abastecimento mundial. A expectativa segue sendo de uma safra robusta, favorecida pelas condições climáticas em importantes regiões produtoras. No entanto, o principal ponto de atenção do mercado deixou de ser a disponibilidade do cereal e passou a ser a capacidade logística de exportação. A dúvida central é se o país conseguirá escoar seus volumes de forma eficiente durante o período de maior concentração dos embarques, entre agosto e dezembro.

No Brasil, a nova safra de trigo avança para a reta final do plantio, com o mercado acompanhando de perto a evolução das condições climáticas e os impactos sobre produtividade e qualidade do cereal. O clima no Sul continuará sendo determinante para o desempenho das lavouras nos próximos meses, enquanto o cenário internacional seguirá influenciando as expectativas de preços e oportunidades de comercialização.

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STF fecha cerco sobre compra de terras por empresas controladas por estrangeiros

por Henrique Costa de Seabra*

A aquisição de terras rurais por estrangeiros no Brasil voltou ao centro do debate jurídico e econômico após recente decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o tema. A questão, no entanto, deve partir de uma premissa fundamental: a legislação brasileira não estabelece uma proibição absoluta à compra ou ao arrendamento de imóveis rurais por estrangeiros. O que existe é um regime jurídico de controle, com limites e condições específicas.

A Constituição Federal autoriza que a lei discipline e restrinja a aquisição e o arrendamento de propriedade rural por pessoas físicas ou jurídicas estrangeiras. Essa previsão decorre da natureza estratégica da terra rural, considerada um ativo sensível por sua relação direta com a soberania territorial, a segurança alimentar, a política agrária e o desenvolvimento nacional.

Na prática, a legislação brasileira admite a participação estrangeira em operações envolvendo imóveis rurais, mas impõe uma série de exigências. Entre elas estão autorizações prévias, limites de área, restrições em determinadas regiões, controles por município e obrigações específicas atribuídas aos cartórios de registro de imóveis.

Um dos pontos mais relevantes está na Lei nº 5.709/1971, que prevê a possibilidade de equiparação de empresas brasileiras controladas majoritariamente por capital estrangeiro a empresas estrangeiras. Isso significa que a simples constituição de uma pessoa jurídica no Brasil não afasta, por si só, a incidência das restrições legais aplicáveis à aquisição ou ao arrendamento de terras rurais por estrangeiros.

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Esse foi justamente o núcleo das controvérsias analisadas pelo Supremo Tribunal Federal. Em abril de 2026, o STF concluiu o julgamento conjunto da ADPF 342 e da ACO 2.463 e, por unanimidade, confirmou a validade das restrições previstas na Lei nº 5.709/1971. Com isso, o Tribunal manteve o entendimento de que empresas brasileiras controladas por capital estrangeiro devem observar o mesmo regime jurídico aplicável às empresas estrangeiras quando pretendem adquirir ou arrendar imóveis rurais no país.

A decisão não criou um novo modelo regulatório. Seu principal efeito foi consolidar a interpretação de que o regime atualmente em vigor é compatível com a Constituição Federal. Além disso, o Supremo anulou parecer da Corregedoria-Geral da Justiça de São Paulo que dispensava cartórios paulistas de observar essas restrições em determinadas operações envolvendo capital estrangeiro, contribuindo para a uniformização nacional do tema.

Do ponto de vista prático, a decisão reforça a necessidade de cautela em operações imobiliárias rurais que envolvam capital estrangeiro. Investidores, empresas, advogados, cartórios e demais agentes do mercado devem avaliar previamente aspectos como a composição societária do comprador, a localização do imóvel, a extensão da área, os limites municipais, a eventual incidência de regras relativas à faixa de fronteira e a necessidade de autorização administrativa ou legislativa.

Assim, o julgamento pode ser compreendido como uma reafirmação de que o investimento estrangeiro em terras rurais é permitido no Brasil, desde que submetido a controles públicos. O STF adotou uma leitura que procura equilibrar abertura econômica e proteção de interesses estratégicos do Estado brasileiro, especialmente soberania nacional, segurança territorial, segurança alimentar e prevenção da concentração fundiária.

Em um cenário de crescente interesse global por ativos ligados à produção agrícola, energia, mineração e recursos naturais, a decisão oferece maior previsibilidade jurídica. Ao mesmo tempo, sinaliza que a entrada de capital estrangeiro no mercado de terras rurais continuará sujeita a limites, fiscalização e observância rigorosa da legislação brasileira.

*Advogado e doutorando em Direito Minerário e Ambiental pela PUC/SP.