Crise da AgroGalaxy expõe riscos financeiros que atravessam toda a cadeia do agronegócio

O pedido de Recuperação Judicial da AgroGalaxy, uma das maiores plataformas de distribuição de insumos agrícolas e originação de grãos do país, trouxe para o centro do debate um problema que vai além das dificuldades financeiras de uma única empresa. Com dívidas declaradas superiores a R$ 3,7 bilhões, a crise da companhia atingiu diferentes participantes do agronegócio e mostrou como produtores rurais, fornecedores, instituições financeiras e investidores estão conectados por operações de crédito que movimentam bilhões de reais.

O impacto ocorre porque a distribuidora ocupa uma posição estratégica na cadeia agrícola. Empresas desse segmento não apenas comercializam sementes, fertilizantes e defensivos, mas também participam do financiamento da produção, oferecem prazos para pagamento e estruturam operações que dependem da colheita e da comercialização dos grãos. Quando uma companhia desse porte enfrenta dificuldades para honrar seus compromissos, os efeitos podem alcançar outros agentes envolvidos nessas transações.

Uma das operações que ajudam a explicar essa relação é o modelo de negociação em que o produtor recebe os insumos necessários para o plantio e assume o compromisso de realizar o pagamento posteriormente, muitas vezes com parte da própria produção. A modalidade permite antecipar recursos para a lavoura, mas também cria uma relação direta entre o resultado da safra e a capacidade de pagamento do produtor.

O advogado Eliseu Silveira, especialista em recuperação judicial, explica que, quando os preços das commodities caem, essa equação pode se tornar mais difícil de sustentar. “Uma produção que parecia suficiente para quitar determinada obrigação pode passar a representar um valor menor no mercado. Se a redução dos preços ocorre ao mesmo tempo em que há problemas climáticos, queda de produtividade ou aumento da inadimplência, a pressão financeira se intensifica”, observa.

O advogado destaca que foi nesse ambiente que a crise da AgroGalaxy ganhou maiores proporções. Segundo ele, conforme os documentos apresentados pela própria companhia no processo de recuperação judicial, a deterioração financeira esteve relacionada a uma combinação de fatores, entre eles a queda nos preços de commodities como soja e milho, a redução das margens dos produtores e o aumento do custo de capital em um período de juros elevados.

“A combinação desses fatores afeta diretamente o fluxo de caixa. A empresa havia realizado compras de insumos em um cenário anterior, quando os preços estavam elevados, e mantinha operações de financiamento com produtores. Com a mudança das condições de mercado, a capacidade de pagamento de parte dos clientes foi reduzida, enquanto o custo para manter e renovar o capital de giro permaneceu elevado”, pontua.

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Eliseu Silveira lembra que o agronegócio apresenta outra característica que amplia a exposição financeira do produtor rural: o intervalo entre o investimento realizado na lavoura e a geração da receita. Os insumos precisam ser adquiridos antes do plantio, enquanto diversas despesas são acumuladas durante o ciclo agrícola. A produção só se transforma em receita depois da colheita e da comercialização.

“Empresas que fornecem crédito ou prazo de pagamento precisam, portanto, administrar riscos que podem se materializar meses depois da contratação da operação. Culturas como a soja, o milho e outras commodities estão sujeitas a alterações na oferta e na demanda mundial, condições climáticas em grandes regiões produtoras, variações cambiais e decisões de grandes países consumidores. Uma mudança significativa nos preços pode alterar as projeções de receita de produtores e empresas que dependem dessas atividades”, salienta.

Para o especialista, nesse contexto, a recuperação judicial passa a ter uma função importante para a continuidade das atividades, por ser um mecanismo que permite suspender determinadas cobranças e organizar a negociação das dívidas dentro de um processo supervisionado pela Justiça.

“A empresa busca, dessa maneira, manter a operação enquanto apresenta uma proposta para reorganizar seus compromissos financeiros. O instrumento não significa que os credores receberão necessariamente a totalidade dos valores devidos. Também não elimina os riscos ou garante a recuperação da empresa. O resultado depende da situação financeira, da capacidade de geração de caixa, das negociações com os credores e das condições estabelecidas no plano de recuperação judicial”, enfatiza.

Eliseu Silveira acrescenta que, no caso de uma grande distribuidora de insumos, a continuidade da operação também tem impacto sobre a própria atividade agrícola. A interrupção dos negócios pode dificultar o acesso dos produtores aos produtos necessários para o plantio e afetar fornecedores que dependem dos pagamentos realizados pela empresa.

“Essa crise financeira de um elo importante pode provocar consequências em outros pontos da cadeia. O episódio da AgroGalaxy representa mais um exemplo da necessidade de avaliar com atenção os riscos associados às operações de crédito do agronegócio. Ela ultrapassa, portanto, os números apresentados no processo de recuperação judicial e expõe a relação existente entre crédito, produção agrícola e mercado financeiro, comprovando que mudanças nas condições econômicas podem atingir diferentes participantes de uma mesma cadeia e transformar um problema financeiro localizado em uma questão com efeitos mais amplos sobre a atividade agrícola”, assinala.

Ranking Global de Inovação: Brasil cai pelo terceiro ano consecutivo e acende alerta sobre ambiente institucional

por Alexandre Pierro*

O Brasil voltou a perder espaço no cenário mundial de inovação. Segundo o Global Innovation Index (GII) 2026, divulgado nesta terça-feira pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO/OMPI), ficamos na 53ª posição entre 139 economias, uma posição abaixo do 52º lugar registrado em 2025. É o terceiro recuo consecutivo desde 2023, quando alcançamos a 49ª colocação – com destaque negativo para o índice de ambiente institucional, o qual teve uma deterioração expressiva. 

O movimento merece uma leitura cuidadosa. Por um lado, a posição atual ainda é consideravelmente melhor do que a registrada no início desta década: em 2020, o Brasil ocupava o 62º lugar. A própria WIPO inclui o país entre as economias que mais avançaram desde 2019. O sinal de alerta está, portanto, menos no desempenho de longo prazo, e mais na inversão da trajetória observada nos últimos três anos.  

Isso porque, depois de sucessivos avanços até 2023, parece que encontramos dificuldade para sustentar o ritmo de aproximação das economias mais inovadoras. A WIPO chama justamente a atenção para o desafio de transformar os ganhos recentes em desempenho mais amplo e sustentado.

A análise dos sete pilares que compõem o índice ajuda a explicar esse quadro. Comparando 2020 com 2025, o comportamento brasileiro foi bastante desigual. Em 2020, o país ocupava a 82ª posição mundial em Instituições; em 2025, caiu para a 107ª. São 25 posições perdidas, o pior movimento entre os sete pilares. Na edição do ano passado, este pilar de instituições já era, com grande diferença, a dimensão mais mal posicionada do Brasil.

Essa deterioração contrasta fortemente com os resultados obtidos em outras dimensões. Em Capital humano e pesquisa, o Brasil passou da 49ª posição em 2020 para a 48ª em 2025, uma pequena melhora. Em Infraestrutura, passou de 61º para 60º, também praticamente estável. Os números indicam que essas duas dimensões não foram responsáveis por grandes mudanças na posição relativa do país durante o período.

Em Sofisticação de mercado, porém, ocorreu uma transformação importante. O Brasil estava na 91ª posição em 2020 e chegou à 71ª em 2025. Mesmo permanecendo atrás de sua posição geral no índice, o movimento indica uma melhora significativa na capacidade do ambiente econômico de oferecer condições de mercado e financiamento associadas à inovação. 

A Sofisticação de negócios seguiu a direção contrária. Estávamos na 35ª posição em 2020, e passamos para 39º em 2025. Apesar do recuo, continua sendo o pilar brasileiro mais bem colocado internacionalmente. Em 2025, a WIPO destacava aspectos como trabalhadores do conhecimento, conexões para inovação e absorção de conhecimento dentro desse conjunto de indicadores.

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Nos pilares relacionados aos resultados da inovação, o desempenho é mais positivo. Em Conhecimento e tecnologia, passamos da 56ª para a 50ª entre 2020 e 2025. O resultado é coerente com a avaliação da WIPO de que o país mantém uma base relevante de pesquisa, investimento em P&D e capacidades acadêmicas e empresariais.

O maior avanço ocorreu em Criatividade: saímos da 77ª posição em 2020 à 50ª em 2025 – mesmo ano em que Conhecimento e Tecnologia e Criatividade colocaram o Brasil na 50ª posição mundial em ambos os pilares, evidenciando que os resultados gerados pelo ecossistema nacional estavam melhor posicionados do que parte das condições estruturais que deveriam sustentá-los.

O resultado revela um aparente paradoxo. Entre 2020 e 2025, avançamos 10 posições no ranking geral, de 62º para 52º, e melhoramos em cinco dos sete pilares. Ao mesmo tempo, a perda de 25 posições em Instituições criou um desequilíbrio crescente dentro do próprio sistema nacional de inovação.

A fotografia regional reforça a necessidade de acompanhar essa perda de ritmo. Em 2026, o Chile permanece como a economia mais bem posicionada da América Latina; o Caribe, em 51º lugar, seguido pelo Brasil, em 53º. O Uruguai avançou do 68º lugar em 2025 para o 66º em 2026, enquanto a Costa Rica passou de 72º para 70º. Portanto, enquanto o Brasil perdeu mais uma posição, essas duas economias latino-americanas avançaram duas posições cada.

Este movimento, contudo, é heterogêneo. O México, por exemplo, caiu de 58º em 2025 para 65º em 2026. A WIPO também destaca que os ativos de inovação latino-americanos continuam concentrados em poucas economias e que pesquisa, empreendedorismo e acesso ao mercado ainda não estão suficientemente conectados para formar um motor regional de inovação.

Apesar disso, ainda mantivemos ativos relevantes. A WIPO destaca a profundidade da base científica e de P&D brasileira, a atividade de marcas e o mercado de venture capital em estágios mais avançados. São Paulo permanece entre os 100 maiores clusters mundiais de inovação, ocupando a 49ª posição em 2026. Além disso, continuamos sendo a única economia da América Latina e Caribe cujo desempenho em inovação está acima do esperado para seu nível de desenvolvimento, condição mantida pelo sexto ano consecutivo.  

Os dados dos últimos cinco anos sugerem, entretanto, que o desafio brasileiro deixou de ser apenas gerar conhecimento ou resultados criativos, já que apesar de demonstramos capacidade para produzir resultados de inovação, convivemos com um ambiente institucional que se distancia, em termos relativos, de outras economias avaliadas pelo índice.

O resultado de 2026, portanto, não elimina os avanços acumulados pelo país desde o início da década, mas sinaliza que o ciclo de ascensão perdeu impulso. Para voltar a avançar, os dados sugerem que teremos de preservar os ganhos em criatividade, conhecimento, tecnologia e sofisticação empresarial, ao mesmo tempo em que enfrentamos nosso principal desequilíbrio estrutural: a distância entre a capacidade de produzir inovação e a qualidade relativa do ambiente institucional que sustenta esse processo

*Doutorando em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação. Engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.

Eleições 2026: o agro sai mais forte das urnas? O Congresso pode ser a resposta

A eleição presidencial ainda não terminou, mas o agronegócio brasileiro já sabe que terá um Congresso Nacional diferente a partir de 2027.

O primeiro turno das eleições de 2026 colocou Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. Flávio terminou a primeira rodada na liderança, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. A decisão sobre quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos ficou para 25 de outubro.

Para o campo, porém, existe uma segunda eleição que merece tanta atenção quanto a disputa presidencial: a composição do Congresso. E foi justamente ali que o mapa político brasileiro sofreu uma mudança importante.

O PL elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Câmara na próxima legislatura. No Senado, o partido também ampliou sua presença. O resultado fortalece o grupo político que, nos últimos anos, manteve uma relação próxima com parte expressiva das entidades e lideranças do agronegócio.

Isso não significa que o Congresso será simplesmente um “Congresso do agro”. A realidade é mais complexa. Mas significa que produtores rurais, cooperativas, agroindústrias e entidades representativas do setor chegam a 2027 com uma estrutura política relevante para disputar espaço nas principais decisões econômicas do país.

E há muito em jogo. O próximo governo terá de discutir o futuro do Plano Safra, crédito rural, seguro agrícola, infraestrutura, armazenagem, endividamento rural, tributação, licenciamento ambiental, regularização fundiária e comércio exterior.

Em praticamente todas essas áreas, uma palavra será decisiva: Congresso. A força parlamentar do agro pode fazer diferença especialmente porque o próximo presidente não terá liberdade para governar ignorando a correlação de forças construída nas urnas.

Se Lula vencer o segundo turno, encontrará um Legislativo com uma composição política significativamente diferente da orientação de seu partido. Se Flávio Bolsonaro vencer, terá maior proximidade ideológica com uma parcela expressiva do Congresso, mas também precisará negociar com diferentes partidos e interesses.

Em ambos os casos, o agro estará sentado à mesa. E essa talvez seja a principal mensagem das eleições de 2026 para o setor.

O poder não estará apenas no Palácio do Planalto

Durante décadas, boa parte da análise política brasileira ficou concentrada na disputa presidencial. Para o agronegócio, essa lógica é insuficiente. Uma medida provisória pode ser editada pelo Executivo, mas precisa sobreviver ao Congresso. Uma mudança tributária precisa passar pelo Legislativo. O orçamento depende de deputados e senadores. Comissões podem alterar profundamente o conteúdo de projetos. Relatorias podem decidir o rumo de uma proposta.

É nesse espaço que a Frente Parlamentar da Agropecuária, a FPA, ganha importância. A bancada reúne parlamentares de diferentes partidos e representa uma das principais estruturas de articulação política do setor produtivo rural em Brasília.

O desafio agora será transformar força eleitoral em resultado concreto. Ter parlamentares alinhados às pautas do agro não garante, por si só, políticas melhores para o produtor. É preciso construir maioria, negociar textos, disputar relatorias e encontrar pontos de convergência com outros setores da economia.

A política do campo, portanto, não termina na porteira. Em 2027, ela continuará sendo decidida também nos corredores do Congresso.

Crédito rural será uma das primeiras batalhas

Poucos temas afetam tanto o produtor quanto o dinheiro disponível para financiar a produção. Plano Safra, taxas de juros, seguro rural, investimentos em máquinas, armazenagem e infraestrutura estarão entre as prioridades do setor. O problema é que o próximo governo encontrará uma disputa cada vez maior por recursos públicos.

A pressão do agronegócio por mais crédito terá de conviver com a necessidade de controlar as contas públicas. Essa equação não será simples. O Congresso poderá pressionar por recursos e programas específicos, mas também terá de lidar com o limite fiscal do governo federal. Para o produtor, a discussão terá efeito direto no custo da próxima safra.

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Reforma tributária entra no radar do campo

Outra batalha será travada no sistema tributário. A reforma tributária continuará produzindo efeitos sobre produtores rurais, cooperativas, agroindústrias, fornecedores de insumos e toda a cadeia de alimentos.

A discussão não será apenas sobre quanto o setor pagará. Será também sobre como os impostos serão cobrados, como funcionarão os créditos tributários e qual será o impacto sobre o custo de produção e a competitividade das exportações brasileiras.

Para um país que se tornou uma potência mundial na produção e exportação de alimentos, qualquer aumento de custo pode repercutir muito além da propriedade rural. Pode chegar ao supermercado e ao mercado internacional.

Meio ambiente pode virar campo de batalha

Se existe um tema capaz de produzir conflitos entre Congresso, governo e agronegócio, ele continuará sendo o meio ambiente. Licenciamento, regularização fundiária, rastreabilidade, preservação, crédito condicionado a critérios ambientais e mercado de carbono estarão entre os assuntos mais sensíveis.

Mas existe uma questão que o setor não poderá ignorar. O mercado internacional está mudando. Grandes compradores querem saber cada vez mais de onde vem o produto, como ele foi produzido e qual é sua pegada ambiental. Isso coloca o Brasil diante de uma equação delicada.

O produtor precisa de segurança jurídica e regras claras. Ao mesmo tempo, o país precisa manter acesso aos mercados que compram bilhões de dólares em produtos agropecuários brasileiros. A discussão ambiental, portanto, deixou de ser apenas ideológica. Ela também é econômica.

A próxima disputa pode acontecer fora do Brasil

O cenário internacional será outro teste para o próximo governo. O agronegócio brasileiro entra em 2027 como um dos principais pilares da balança comercial do país, mas também em um mundo marcado por disputas comerciais, protecionismo, conflitos geopolíticos e mudanças nas cadeias globais de produção.

China, Estados Unidos, União Europeia e Oriente Médio continuarão no radar. Soja, carnes, café, açúcar, milho, algodão, celulose e outros produtos brasileiros dependem de mercados externos cada vez mais exigentes.

Nesse ambiente, infraestrutura, diplomacia comercial, defesa sanitária e abertura de novos mercados terão o mesmo peso que decisões tomadas dentro das fazendas.

O agro terá de escolher como quer exercer seu poder

Existe, porém, uma questão política que o resultado de 2026 coloca diante do próprio agronegócio. O setor será capaz de atuar para além da polarização? Essa pode ser uma das decisões estratégicas mais importantes dos próximos anos.

O agro possui interesses que atravessam governos e partidos. Seguro rural não é uma pauta de esquerda ou direita. Infraestrutura também não. Pesquisa, logística, defesa sanitária, crédito e abertura de mercados tampouco. São políticas de Estado.

Quanto maior a capacidade do setor de negociar com diferentes governos e bancadas, maior tende a ser sua capacidade de proteger interesses de longo prazo. A eleição de 2026 mostrou que a força política do agro não estará concentrada em um único gabinete. Ela estará espalhada por Brasília. No Palácio do Planalto, no Senado, na Câmara, nas comissões, nas negociações do orçamento e, principalmente, na capacidade de articulação de suas entidades e representantes.

Por isso, a pergunta que interessa ao produtor rural talvez não seja apenas quem será o próximo presidente. A pergunta é outra: quem terá força para negociar com ele?

E, depois das eleições de 2026, o agronegócio chega a Brasília com uma resposta bastante clara: terá uma bancada numerosa, uma estrutura de articulação consolidada e quatro anos de decisões estratégicas pela frente.

O tamanho dessa influência, porém, dependerá menos do número de parlamentares eleitos e mais da capacidade de transformar votos em políticas públicas capazes de aumentar a produtividade, reduzir custos e manter o Brasil competitivo no mercado mundial de alimentos.

Expansão da pecuária brasileira exige rastreabilidade no centro da agenda setorial

A pecuária brasileira encerrou o primeiro semestre de 2026 em um cenário de expansão, marcado pelo crescimento das exportações de carne bovina e pelo aumento no volume de animais abatidos. Ao mesmo tempo, os mercados ampliam as exigências relacionadas à origem, sanidade, conformidade socioambiental e, sobretudo, à capacidade de comprovar essas informações. Nesse contexto, avançar em mecanismos que assegurem a rastreabilidade dos animais e permitam construir evidências sobre sua trajetória passa a ser estratégico para a competitividade e a proteção de valor da cadeia produtiva.

Novas exigências internacionais reforçam esse movimento. A partir de setembro, entraram em aplicação requisitos europeus relacionados à comprovação do uso de antimicrobianos, enquanto, em dezembro, começa a valer a European Union Deforestation Regulation (EUDR), que estabelece requisitos de rastreabilidade e comprovação de origem para produtos associados ao desmatamento. Embora sejam agendas regulatórias distintas, ambas evidenciam uma tendência comum: os mercados não demandam apenas informações, mas a capacidade de demonstrar sua origem, consistência e conformidade.

“O contínuo desenvolvimento do setor amplia também a responsabilidade sobre a qualidade das informações que sustentam essa produção. A rastreabilidade deixa de ser apenas uma ferramenta de controle e passa a ser um ativo estratégico para a cadeia, porque permite gerar evidências, dar mais transparência aos processos, atender às novas demandas dos mercados e apoiar decisões mais qualificadas. Para que esse avanço seja consistente, precisamos construir sistemas integrados, acessíveis e que considerem a realidade dos produtores”, afirma a presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, Ana Doralina.

Entre janeiro e junho, o Brasil exportou 1,705 milhão de toneladas de carne bovina, alta de 15,5% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), com base em informações da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC). A receita alcançou US$ 9,85 bilhões, crescimento de 36,2%. No mercado interno, o primeiro trimestre também registrou recorde no abate de bovinos para o período, com 10,29 milhões de animais sob inspeção sanitária, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Mais do que acompanhar o crescimento da atividade, a rastreabilidade passa a ser uma condição para que o setor consiga responder a um ambiente comercial cada vez mais orientado por informações verificáveis. A dificuldade de comprovar origem, trajetória e conformidade pode resultar em restrições de mercado, risco reputacional para a carne brasileira e perda de oportunidades de diferenciação e de valorização”, ressalta Ana, ao pontuar que, em um cenário de perda de mercados ou redução de valor, os impactos podem alcançar toda a cadeia e exercer pressão sobre os preços, inclusive sobre a arroba recebida pelo produtor que não atua diretamente no mercado externo.

No país, 2026 também representa uma etapa importante para a implementação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB). O cronograma estabelece, neste ano, a adequação dos sistemas estaduais e a integração das bases de dados, preparando o setor para o avanço gradual da identificação individual dos animais a partir de 2027 e para a obrigatoriedade antes da primeira movimentação, prevista para 2032.

Embora a identificação individual seja uma base fundamental para a rastreabilidade, sua efetividade dependerá da capacidade de conectar as informações geradas nos diferentes pontos da cadeia. Interoperabilidade entre sistemas, qualidade e padronização dos dados, integração das bases existentes e definição clara das responsabilidades são elementos necessários para transformar registros dispersos em informações confiáveis e, principalmente, em evidências que possam ser utilizadas pelos diferentes elos.

“Esse processo precisa ser conduzido de forma coordenada, evitando a criação de estruturas paralelas e pouco integradas. Não basta identificar o animal: é preciso garantir que as informações acompanhem sua trajetória, possam ser compartilhadas entre os sistemas e tenham qualidade suficiente para comprovar os atributos exigidos pelos mercados. A interoperabilidade entre sistemas, a qualidade dos dados e a definição clara das responsabilidades de cada elo são pontos fundamentais para que a identificação individual seja incorporada à rotina produtiva e gere valor para além do cumprimento das exigências regulatórias”, reforça a presidente.

Esse é um dos temas que vêm sendo acompanhados pela Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável por meio do GT de Rastreabilidade e de sua participação nas discussões relacionadas à implementação do PNIB. A entidade tem contribuído para o debate sobre a integração de bases, a interoperabilidade entre sistemas e a construção de soluções junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), com o objetivo de apoiar uma implementação capaz de conectar informações ao longo da cadeia e gerar evidências confiáveis.

Outro aspecto considerado estratégico por ela é a inclusão dos produtores nesse processo. “A rastreabilidade pode contribuir para a regularização, a permanência na cadeia formal e o acesso a diferentes mercados, mas sua implementação precisa ser acompanhada de orientação, capacitação e condições para que os pecuaristas compreendam e percebam os benefícios associados à geração e ao compartilhamento de informações”, complementa.

Para o segundo semestre, a presidente reforça que o avanço da rastreabilidade deve ser compreendido não apenas como resposta a uma agenda regulatória, mas como parte de uma estratégia de competitividade e proteção de valor para a pecuária brasileira. “Juntos, é possível que ela seja mais conectada, transparente e preparada para responder às demandas de mercados cada vez mais orientados por informações confiáveis”, finaliza.

Foto: FreePik

Sobre a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável

A Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável é uma associação multissetorial sem fins lucrativos que reúne representantes de toda a cadeia de valor da pecuária brasileira para promover práticas produtivas, socioambientais e econômicas responsáveis. Com 19 anos de atuação, a entidade articula debates, desenvolve iniciativas de melhoria contínua e incentiva a transparência no setor. Sua missão é fortalecer uma pecuária cada vez mais sustentável, inclusiva, eficiente e reconhecida globalmente.

Mercosul precisa agir como bloco para preservar competitividade do agro, avaliam especialistas no GAFFFF

O principal risco para o agronegócio do Mercosul pode estar menos na competição externa do que na incapacidade de os próprios países do bloco atuarem de forma coordenada. Essa foi uma das principais conclusões do painel “Mercosul no Cenário Global: Estratégias para Manter a Competitividade e a Produtividade”, realizado durante o GAFFFF, em São Paulo.

O debate foi moderado por Glauber Silveira, diretor executivo da Abramilho, e reuniu os plaestrantes Bernhard Kiep, diretor da Abramilho e membro do conselho da Maizall; Federico Zerboni, presidente da Maizar; e Maciel Silva, diretor técnico adjunto da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Conforme apontado durante a conversa, o cenário de preços e custos aumenta a pressão sobre os produtores. Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontam que o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária brasileira deve recuar 4% em 2026, para R$ 1,45 trilhão. No caso do milho, a queda projetada é de 6,1%, reflexo principalmente da desvalorização dos preços reais.

“Nós temos que tomar cuidado em não brigar entre nós”

Para Bernhard Kiep, o ambiente macroeconômico internacional tornou-se mais complexo justamente em um momento de pressão sobre a rentabilidade do produtor. Ele considera que a combinação de estoques elevados e demanda insuficiente reduz o incentivo à produção e prolonga o período de preços pressionados.

“Os desafios para o agronegócio são muito grandes. O mundo não está olhando muito para o agronegócio porque a gente acabou produzindo talvez além da demanda nos últimos anos. Isso gerou estoques”, afirma.

Kiep destaca ainda o impacto dos custos de produção, citando o preço do diesel na Europa como exemplo da pressão enfrentada pelo setor. Ao tratar especificamente do Mercosul, o executivo defende que Brasil, Argentina e Uruguai evitem disputas internas e construam uma estratégia conjunta para negociar com mercados mais organizados.

“Nós, argentinos, uruguaios, brasileiros, temos que tomar cuidado em não brigar entre nós, e sim nos unir. Esse é o maior desafio que eu vejo para o Mercosul, porque nós não temos um histórico de nos unir e pensar em bloco. É muito fácil nos dividir”, diz.

Segundo Kiep, a integração europeia criou ao longo de décadas mecanismos de coordenação que os países do Mercosul ainda precisam desenvolver. O acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, em aplicação provisória desde maio de 2026, estabelece regras para tratamento tarifário preferencial, origem dos produtos e outras condições de acesso aos mercados.

Argentina enfrenta custos elevados e busca uma virada econômica

Foto: Julian Leonel / Pexels.com

Federico Zerboni apresenta um panorama da agricultura argentina e destacou o peso da estrutura tributária sobre a renda dos produtores. Em sua avaliação, país ainda convive com impostos de exportação e custos elevados. Zerboni afirmou que, no caso da soja, os tributos representam parcela significativa do valor recebido pelo produtor e que o governo argentino fica com mais de 60% do rendimento da atividade, em sua estimativa.

Ao mesmo tempo, apontou sinais positivos na economia argentina, especialmente relacionados à expansão da produção de energia em Vaca Muerta e da mineração, que podem ampliar a entrada de dólares no país.

Para o setor agrícola, porém, a eficiência continua sendo determinante. “O que te faz sobreviver é seres muito eficiente. Sobrevive quem tem a melhor tecnologia, quem usa a melhor inovação e quem é mais eficiente”, pontua.

Zerboni também citou riscos climáticos e sanitários para a próxima temporada, incluindo o comportamento das chuvas e do El Niño e a presença da cigarrinha-do-milho, cuja importância aumentou nos últimos anos com a elevação das temperaturas.

Crédito e custos ainda deixam produtor exposto

Maciel Silva, da CNA, destacou que o produtor brasileiro continua enfrentando um ambiente de incerteza, no qual medidas estruturais têm efeito de médio e longo prazo, enquanto os problemas de renda e custo são imediatos.

Silva analisa que alternativas como fertilizantes e produtos biológicos fazem parte de uma agenda necessária para o futuro, mas não resolvem a pressão sobre a safra atual. Na mesma linha, citou o Profet como uma alternativa de crédito que, na avaliação da CNA, ainda apresenta limitações para produzir efeitos imediatos.

“O que nos cabe ainda fica muito na mão. É muito mais pensando nas medidas de socorro do que tomadas de decisão estruturada”, ressalta. Para ele, a incerteza sobre o cenário econômico e institucional também dificulta decisões de investimento por parte dos produtores.

Competitividade depende de coordenação

As falas convergiram para um ponto central: a competitividade do agronegócio sul-americano dependerá não apenas da produtividade dentro das propriedades, mas também da capacidade dos países do Mercosul de coordenar interesses, reduzir vulnerabilidades e negociar em conjunto.

O desafio ganha peso com a entrada em vigor provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia e com a manutenção de padrões sanitários e fitossanitários exigentes para o acesso ao mercado europeu. Para Kiep, o bloco precisa acelerar essa construção. “Nós não vamos ter quase 30 anos, como a Europa teve, já de treinar e trabalhar junto e apertar a gente”, conclui.

Mulheres já representam 40% dos decisores rurais e ampliam presença na gestão do agronegócio

A participação das mulheres na gestão do agronegócio brasileiro avançou nos últimos dez anos, acompanhada por maior qualificação profissional, presença na propriedade, adoção de tecnologias e desempenho consistente nas relações de crédito. É o que mostra o estudo “Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro: 10 anos de transformação e avanços”, lançado pela ABAG – Associação Brasileira do Agronegócio, durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF). A pesquisa conta com correalização da Serasa Experian, pesquisa da Fran6 Pesquisa e patrocínio do Sistema FAESP/SENAR.

O levantamento combina dados nacionais de mercado, com uma pesquisa quantitativa e uma etapa qualitativa, com gestoras e produtoras de diferentes regiões do País. O conjunto de informações permite traçar um retrato da evolução da participação feminina na produção e na gestão rural.

“Nos últimos dez anos, a mulher ampliou sua presença nas decisões estratégicas do agronegócio e conquistou maior espaço na propriedade e na condução dos negócios. Os dados mostram uma transformação que envolve formação, tecnologia, gestão e acesso ao crédito. A presença feminina passa a ser cada vez mais parte da própria dinâmica de modernização do agro brasileiro. Homens e mulheres não competem no campo; eles se complementam”, destaca Gislaine Balbinot, diretora executiva da ABAG.

A dimensão nacional feita pela Serasa Experian, primeira e maior datatech do país, mostra que as mulheres representam 40% dos 10,7 milhões de produtores rurais decisores do Brasil. Em relação ao acesso e ao comportamento de crédito, as produtoras rurais apresentaram taxas de inadimplência inferiores às dos homens, com destaque para as grandes proprietárias, cuja taxa registrada foi de 6,85%, e para as mulheres da Região Sul, com 5,4%.

Foto: Pedro Furtado / Pexels.com

A análise dos dados de conformidade ambiental do CAR mostra que propriedades sob comando exclusivo feminino concentra uma parcela mínima de restrições legais e passivos ambientais. Os registros de trabalho escravo e desmatamento do Prodes estão majoritariamente associados a CPFs masculinos, que concentram, respectivamente, 77% e 67% das ocorrências. Entre as mulheres, os percentuais correspondem a 5% e 20%.

“Ao cruzarmos diferentes bases de dados, conseguimos observar com clareza a solidez econômica da mulher no campo. A prudência financeira aliada a um rigor exemplar em práticas de compliance socioambiental e ESG coloca a gestão feminina em um patamar de altíssima confiabilidade para o mercado de crédito e para o desenvolvimento de um agronegócio sustentável”, afirma Sabrina Muñoz, Gerente Executiva de GeoData e Analytics – Agronegócio da Serasa Experian.

Para capturar a essência dessa transformação, o estudo conduzido pela Fran6 Pesquisa combinou uma ampla radiografia quantitativa com 25 entrevistas qualitativas em profundidade com produtoras, pecuaristas e agroindustriais de todas as regiões do país. O levantamento deu voz aos desafios cotidianos das gestoras — como a superação de barreiras culturais, a gestão da dupla jornada e a força das redes de apoio e do cooperativismo —, revelando que a liderança feminina no campo é marcada por uma visão holística e por uma gestão profundamente humanizada.

Entre as mulheres entrevistadas na pesquisa quantitativa, a qualificação profissional avançou de forma expressiva, com a presença feminina mais presente na propriedade e na condução dos negócios: 91% das entrevistadas são proprietárias, total ou parcialmente, do negócio rural, um crescimento de 10 pontos percentuais do resultado registrado dez anos antes. O avanço ocorre paralelamente à elevação da escolaridade: o percentual de gestoras com pós-graduação passou de 24%, em 2015, para 46%, em 2026, enquanto 77% possuem ensino superior completo.

A incorporação de tecnologias ao cotidiano das propriedades também aparece como um dos fatores que ampliaram a autonomia das produtoras. Ferramentas como drones, telemetria, sistemas de gestão e outras soluções digitais fazem parte da rotina de 71% das gestoras, que afirmam operar de forma independente ou parcialmente independente essas tecnologias.

O estudo identifica ainda uma forma de liderança marcada pela valorização do diálogo, planejamento e visão holística do negócio. O apoio familiar aparece como um elemento relevante para a permanência e a atuação das mulheres na gestão dos negócios rurais. A sustentabilidade também está presente na rotina das gestoras, associada à eficiência da operação e à preservação do patrimônio e do legado. Entre as práticas identificadas estão o uso de bioinsumos, biodigestores, manejo hídrico, bem-estar animal e genômica.

“A presença das mulheres no campo se fortalece quando conhecimento, autonomia e capacidade de decisão caminham juntos. O acesso à capacitação técnica e à informação amplia as condições para que elas assumam novas responsabilidades, desenvolvam seus negócios e participem de forma ainda mais ativa das organizações do setor. O Sistema FAESP/SENAR tem muito orgulho de apoiar este estudo”, afirma Juliana Farah, presidente da Comissão Semeadoras do Agro da FAESP.

GAFFFF 2026 inicia agenda de debates sobre os rumos do agronegócio brasileiro

A força econômica do agronegócio brasileiro e seu protagonismo na produção mundial de alimentos e energia foram os principais temas abordados durante a cerimônia de abertura da terceira edição do Global Agribusiness Festival (GAFFFF), realizada em São Paulo. Com mais de 81 sessões de conteúdo distribuídas em seis palcos simultâneos, o evento da DATAGRO reúne autoridades e líderes em torno das perspectivas e desafios do setor, que movimenta cerca de R$ 3,2 trilhões por ano, representa aproximadamente 25% do PIB brasileiro e responde por quase metade das exportações do país.

Plinio Nastari, presidente da DATAGRO destacou a relevância da contribuição do GAFFFF para o desenvolvimento do agronegócio no país. “É uma oportunidade valiosa para disseminar conceitos fundamentais e debater como o setor agropecuário pode enfrentar os desafios do futuro”, afirmou.

Geraldo Melo Filho, secretário estadual de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, reforçou a importância da ciência e da tecnologia para que o setor alcançasse sua posição atual. “O Brasil que nós conhecemos nasce no agro. Mas nunca foi só terra. Seria impossível, sem pesquisa, sem tecnologia, sem conhecimento, termos chegado aonde chegamos”, destacou. “E, com o avanço de áreas como biocombustíveis, bioenergia e produção de proteínas, esse Brasil agro é quem vai garantir, nas próximas décadas, segurança alimentar e energética para o mundo”.

Foto: Divulgação – GAFFFF / DATAGRO

Alei Fernandes, prefeito de Sorriso (MT), lembrou que hoje a região é um dos motores do agro, registrando grande expansão nos últimos anos. “O setor realmente tem seu grau de importância na economia e vivemos um momento de muita expectativa e relevância ao mesmo tempo. É uma satisfação ver que nós, lá em Sorriso, nos transformamos no epicentro da produção agrícola do Mato Grosso e, talvez, do Brasil”, disse.

Já o deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania/SP), que também é presidente da Comissão de Transição Energética e Hidrogênio Verde da Câmara dos Deputados, abordou a coexistência estratégica entre produção e preservação ambiental. “O agro brasileiro escolheu o caminho da sustentabilidade. Também celebramos a sinergia entre a segurança alimentar, garantida pelo Brasil ao mundo, e a segurança energética, por meio de biocombustíveis como etanol, biodiesel, biogás e biometano, além do avanço no combustível sustentável de aviação. O agro busca respeito, segurança jurídica e valorização do trabalho. Agradeço ao DATAGRO por este encontro, que reafirma nosso compromisso em manter o protagonismo do agronegócio na economia nacional. Vida longa ao GAFFFF”, concluiu.

Cafezais podem produzir mais e o segredo pode estar debaixo da terra

Celebrado hoje, 1º de outubro, o Dia Internacional do Café traz uma oportunidade para olhar além dos grãos e descobrir o que pode influenciar o resultado da próxima safra. Para o produtor, parte dessa resposta está debaixo da terra: nas condições que permitem às raízes crescerem e acessar água e nutrientes de forma mais igualitária.

Uma pesquisa brasileira publicada em 2025 na revista científica Scientia Agrícola registrou ganho de até 30% na produtividade acumulada do café conilon com a combinação de preparo profundo do solo e adubação mineral e orgânica. Realizado em São Gabriel da Palha, no Espírito Santo, o experimento acompanhou cinco colheitas consecutivas.

Foto: Rodrigo Pereira / Pexels.com

Os pesquisadores compararam cinco tratamentos, com preparo do solo a 60 centímetros e a 1,5 metro de profundidade, associados a diferentes combinações de fertilizantes minerais, esterco de frango e biochar, material carbonizado utilizado como condicionador do solo. Nas condições avaliadas, o manejo integrado melhorou as características químicas do perfil do solo e favoreceu a produção. 

O estudo ajuda a explicar um problema que pode ficar escondido na lavoura. Camadas naturalmente adensadas dificultavam o desenvolvimento das raízes, limitando o acesso à água e aos nutrientes. O ganho observado corresponde à produção acumulada nas cinco colheitas e depende das condições específicas do experimento.

“É hora de diversificar e construir novos parceiros comerciais, intensificar parcerias e renegociar contratos. Essa tarifa não é o fim da lavoura, mas o sinal para defender nossa produção com estratégia”, afirma Leonardo Sodré, engenheiro agrônomo, produtor de café e CEO do Grupo GIROAgro.

Mas o produtor rural, entre a colheita e o plantio da nova safra, sempre se questiona: o solo está preparado para que a planta aproveite o fertilizante? Essa pergunta pode orientar o planejamento do produtor. A Embrapa recomenda, na preparação da área para o cafezal, analisar diferentes profundidades, incluindo as camadas de 0 a 20 e de 20 a 40 centímetros. O diagnóstico permite identificar limitações que não aparecem ao observar apenas a superfície.

Para quem produz café, os resultados reforçam a importância de avaliar o preparo do solo e a nutrição da planta em conjunto. Conhecer o que acontece abaixo da superfície pode ajudar a direcionar o investimento e identificar oportunidades de melhorar o desempenho da lavoura.

A data também antecede uma decisão importante para muitos produtores: o plantio de novos cafezais com a chegada das chuvas. É nesse momento que o diagnóstico e o preparo do solo ajudam a construir as condições para o desenvolvimento das raízes e o desempenho das futuras safras.

“Estamos comprometidos em levar tecnologia e inovação para o campo, oferecendo soluções que impulsionam o trabalho do produtor rural e fortalecem a economia rural. Acreditamos que o investimento em pesquisa e desenvolvimento, aliado à paixão e ao conhecimento do produtor, é o caminho para uma agricultura cada vez mais sustentável e produtiva”, conclui Leonardo Sodré.

Conhecimentos tradicionais da Amazônia podem ser “motor” da agricultura regenerativa

Enquanto a agricultura regenerativa ganha espaço nas discussões sobre o futuro da produção de alimentos, cresce também o interesse por sistemas produtivos desenvolvidos há gerações por povos indígenas e comunidades tradicionais.

Na Amazônia, experiências que combinam espécies agrícolas e florestais oferecem referências para pensar modelos mais adaptados às características dos territórios — sem que isso signifique substituir conhecimento científico ou transformar práticas tradicionais em soluções universais.

A própria Embrapa registra que diferentes sistemas agroflorestais desenvolvidos por comunidades indígenas, caboclas e ribeirinhas na Amazônia serviram de base para que pesquisadores sistematizassem conhecimentos agronômicos, ecológicos e econômicos e desenvolvessem novos arranjos adaptados às necessidades das comunidades rurais.

O conceito também encontra respaldo em iniciativas internacionais. A FAO define a agrofloresta como a integração deliberada de árvores, cultivos agrícolas e/ou animais e aponta benefícios como diversificação da produção e da renda, melhoria da saúde do solo e da gestão da água e maior resiliência às mudanças climáticas.

Para a Verthic, que atua há mais de uma década na Amazônia e já implantou mais de 110 Sistemas Agroflorestais (SAFs), o ponto central está em entender as características de cada território e construir projetos a partir da combinação entre conhecimento local, capacidade técnica e planejamento.

“O conhecimento das comunidades não deve ser tratado como uma receita pronta, mas como uma fonte importante de informação sobre o território. Temos o desafio de criar projetos que consigam integrar esse conhecimento à ciência e às necessidades econômicas e ambientais de cada região, sempre com participação efetiva das comunidades”, afirma Fernando Vincenti, fundador da Verthic.

Essa abordagem já aparece em iniciativas recentes. Em 2024, a Embrapa iniciou, em parceria com o Fundo Vale e outras instituições, um projeto em território indígena no Maranhão para conhecer experiências locais de sistemas agropecuários e conservação florestal e identificar desafios de produção a partir também do conhecimento tradicional.

Em 2025, outra iniciativa envolvendo FAO, MCTI e Instituto Mamirauá passou a desenvolver, junto às comunidades locais, metodologias para a recuperação de cerca de 26 mil hectares de florestas alagáveis da Amazônia. O projeto prevê ainda capacitação das comunidades e desenvolvimento de iniciativas relacionadas à cadeia produtiva da restauração.

Para a Verthic, experiências como essas reforçam que o desenvolvimento sustentável na Amazônia precisa dispor da capacidade de conectar conhecimento territorial, ciência, políticas públicas, financiamento e execução em campo.

“Quando um projeto é construído com participação de quem vive no território, aumentam as possibilidades de que ele seja adequado à realidade local e tenha continuidade. O objetivo não é romantizar o conhecimento tradicional, mas reconhecê-lo como um dos elementos que podem contribuir para projetos tecnicamente consistentes e economicamente viáveis”, completa Vincenti.

Foto: Freepik

Baixo engajamento: 5 atitudes para reorganizar as prioridades na reta final de 2026

Com pouco mais de três meses até o fim de dezembro, empresas entram no desafio de recuperar foco e execução sem ampliar o desgaste das equipes. Segundo o State of the Global Workplace 2026, da Gallup, apenas 32% dos profissionais brasileiros estão engajados no trabalho, enquanto 57% aparecem como não engajados e 11% como ativamente desengajados. O dado ajuda a dimensionar a pressão sobre lideranças que precisam decidir o que ainda é prioridade, onde concentrar esforços e como transformar metas anuais em ações concretas até o fechamento do ano.

Alexandre Slivnik, diretor do IBEX, instituto de formação empresarial voltado ao desenvolvimento de lideranças, gestão de pessoas e experiência do cliente, e vice-presidente da Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento, considera setembro um ponto de inflexão para revisar o que ainda é viável e reorganizar as prioridades. Para o especialista em excelência de serviços, a resposta não está simplesmente em cobrar mais. “Quando as metas de 2026 perdem sentido para a equipe, as pessoas podem continuar executando tarefas sem enxergar a contribuição delas para o resultado. O papel do líder é mostrar o que realmente importa e onde cada profissional pode fazer diferença”, afirma Slivnik.

Com a diferença entre o planejamento feito no início do ano e aquilo que efetivamente foi realizado mais evidente, surge uma pergunta importante para os líderes: o que realmente precisa acontecer até o final do ano? Para o diretor executivo do IBEX, a reta final exige menos dispersão e mais clareza. Cinco atitudes podem ajudar líderes e equipes a transformar os últimos meses de 2026 em um período de foco, mobilização e resultado.

1. Escolha o que realmente importa até dezembro

O primeiro passo é aceitar que nem tudo aquilo que parecia prioridade em janeiro continua sendo prioridade em setembro. Mercado, clientes, custos, concorrência e até a própria estratégia da empresa podem ter mudado ao longo do ano. Por isso, tentar recuperar simultaneamente todos os objetivos que ficaram para trás pode gerar exatamente o efeito contrário: muita atividade e pouco resultado.

A pergunta que o líder precisa fazer é simples: se pudéssemos entregar apenas três grandes resultados até dezembro, quais realmente fariam diferença para o negócio? “Priorizar também significa ter coragem de dizer não. Quando tudo é urgente, nada é realmente prioridade. A equipe precisa saber onde colocar sua energia”, afirma o vice-presidente da ABTD.

2. Transforme grandes metas em pequenas entregas

Uma meta anual pode parecer distante demais para quem está envolvido nas decisões do dia a dia. Por isso, depois de escolher as prioridades, o líder precisa dividi-las em etapas menores e mais concretas. Em vez de simplesmente repetir “precisamos atingir a meta do ano”, é mais eficiente definir o que precisa acontecer neste mês, nesta semana e, em alguns casos, naquele dia.

Cada etapa deve ter responsáveis definidos, indicadores compreensíveis e prazos claros. Isso permite identificar desvios antes do encerramento do exercício e reduz a distância entre o planejamento apresentado pela liderança e aquilo que efetivamente acontece na operação.

Foto: Alena Darmel / Pexels.com

3. Explique o “porquê” antes de cobrar o “quanto”

Indicadores são importantes, mas números sozinhos dificilmente mobilizam pessoas. Se o líder entra na reta final do ano falando apenas sobre quanto ainda falta para atingir determinado resultado, pode aumentar a pressão sem necessariamente melhorar a performance.

A equipe precisa compreender por que aquela meta importa, qual impacto ela gera para o negócio e como cada profissional participa desse resultado. “Uma das principais responsabilidades da liderança é transformar estratégia em significado. Quando a pessoa entende por que aquilo importa e percebe a sua contribuição, deixa de simplesmente cumprir uma tarefa e passa a participar de um objetivo”, ressalta Slivnik.

4. Acompanhe mais, mas cobre melhor

A reta final do ano exige acompanhamento. Isso, porém, não significa aumentar reuniões, mensagens e cobranças.  Significa criar momentos frequentes e objetivos para responder a três perguntas: onde estamos, o que está funcionando e o que precisamos corrigir? 

O acompanhamento precisa servir para remover obstáculos e corrigir rotas, e não apenas para apontar o que está atrasado. Esse cuidado se torna ainda mais importante porque o próprio engajamento das lideranças enfrenta dificuldades. Segundo a Gallup, globalmente, o percentual de gestores engajados caiu de 27% em 2024 para 22% em 2025. Entre os trabalhadores em geral, o índice global ficou em 20%.

Quando o próprio gestor perde conexão com o propósito e com as prioridades, essa desconexão tende a chegar rapidamente à equipe.

5. Reconheça os avanços durante o caminho

Um dos erros mais comuns na gestão de metas é falar sobre elas apenas quando alguma coisa está errada. Se o profissional só recebe notícias sobre o objetivo quando existe atraso ou problema, a meta passa a ser associada exclusivamente à cobrança.

Reconhecer pequenas conquistas, mostrar avanços e celebrar etapas concluídas ajuda a construir a percepção de progresso. “As metas de 2026 não podem ser lembradas somente quando algo está atrasado. O profissional precisa saber o que está dando resultado, onde corrigir a rota e como sua contribuição interfere no objetivo da empresa”, aponta o especialista em excelência de serviços.

Isso não significa diminuir a exigência. Pelo contrário. Reconhecimento e alta performance podem e devem caminhar juntos.

A reta final exige escolhas

Os últimos meses do ano não precisam ser uma corrida desesperada para recuperar tudo aquilo que não aconteceu. Podem ser uma oportunidade para fazer escolhas melhores. Revisar prioridades não significa desistir de metas. Significa entender quais entregas ainda podem gerar maior impacto, concentrar recursos nelas e garantir que cada profissional compreenda sua responsabilidade.

No fim, talvez a principal pergunta para um líder nesta reta final de 2026 não seja apenas “quanto ainda falta para chegarmos à meta?”, mas também: “Minha equipe sabe exatamente o que precisa fazer amanhã para nos aproximar dela?”.

“Uma equipe pode trabalhar muito e continuar na direção errada. Quando as prioridades ficam claras e cada pessoa entende sua participação no resultado, a meta deixa de ser apenas um número corporativo e passa a orientar o trabalho diário”, conclui o diretor executivo do IBEX.