Expansão do etanol de cereais abre fronteiras para milho e sorgo no Brasil

A expansão do etanol produzido a partir de cereais começa a desenhar uma nova geografia para a indústria de biocombustíveis no Brasil. Depois de se consolidar principalmente em regiões com grande disponibilidade de milho, como Mato Grosso, o setor passa a avançar para novas fronteiras agrícolas, aproximando as usinas de áreas com potencial de crescimento na produção de grãos e abrindo espaço para matérias-primas alternativas, especialmente o sorgo.

Estima-se que o país possui atualmente 29 usinas de etanol de milho em operação, com capacidade para processar aproximadamente 20,9 milhões de toneladas de milho por ano e produzir cerca de 10,6 bilhões de litros de etanol. A expansão, entretanto, deve continuar, levantamentos setoriais de 2026 apontam 27 novos projetos em desenvolvimento para os próximos anos.

Segundo Enilson Nogueira, engenheiro agrônomo e consultor de mercado da Céleres, a origem do etanol de milho está diretamente ligada à necessidade de reduzir os impactos da logística sobre o preço do grão. “O etanol de milho surgiu como uma estratégia de agregação de valor ao cereal produzido localmente. Em vez de simplesmente exportar o grão, passou-se a transformá-lo em etanol, fortalecendo as cadeias produtivas internas e criando novas oportunidades econômicas na própria região”, explica.

O modelo ganhou força inicialmente no interior de Mato Grosso, em regiões como Campo Novo do Parecis, e posteriormente avançou para o eixo da BR-163, onde estão algumas das maiores unidades produtoras do país. A instalação das usinas permitiu transformar parte do excedente de milho da segunda safra em combustível, reduzindo a necessidade de transportar grandes volumes do cereal para outros mercados.

Além da agregação de valor, a proximidade com os centros consumidores também se tornou uma vantagem competitiva. Regiões do Centro-Oeste e do Centro-Norte, que anteriormente dependiam do etanol produzido em estados como São Paulo, Goiás e Minas Gerais, passaram a contar com oferta mais próxima. “O ganho de eficiência industrial ampliou ainda mais a competitividade. Atualmente, o etanol produzido em Mato Grosso chega, por exemplo, ao mercado paulista e disputa espaço diretamente com o combustível produzido a partir da cana-de-açúcar”, destacou o consultor.

Raio-x do MATOPIBA

Com a consolidação do modelo em MT e a busca por novas fontes de matéria-prima, a indústria começa a olhar para regiões que ainda apresentam espaço para expansão da produção de cereais. O MATOPIBA, formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, ganha destaque nesse cenário. A Bahia já conta com uma usina em operação, enquanto o Maranhão também passou a integrar o movimento de expansão do etanol de cereais.

Para Nogueira, a dinâmica dessas novas fronteiras é diferente daquela observada nas regiões mais tradicionais do Centro-Oeste. Em determinados locais, as condições climáticas e a maior instabilidade da janela de plantio tornam mais arriscado apostar exclusivamente no milho de segunda safra.

É justamente nesse ambiente que o sorgo pode ganhar espaço. “O MATOPIBA reúne dois fatores importantes: demanda industrial e um calendário produtivo mais arriscado. Nesse cenário, o sorgo se encaixa muito bem”, afirma.

Além de apresentar maior tolerância a condições de déficit hídrico e altas temperaturas, o sorgo pode ser processado utilizando uma lógica industrial semelhante à do milho. Discussões técnicas e estudos recentes indicam que o cereal pode apresentar rendimento de etanol próximo ao do cereal por tonelada, com ajustes no processo industrial, enquanto os coprodutos resultantes também apresentam características adequadas para utilização na nutrição animal.

O especialista acrescenta ainda que o mesmo raciocínio pode ser aplicado ao Vale do Araguaia, no leste de Mato Grosso, especialmente em áreas entre Água Boa e Querência. Enquanto regiões como Campo Novo do Parecis, Lucas do Rio Verde, Sinop e Sorriso possuem uma cadeia de milho consolidada, com mercado e formação de preços bem estruturados, o leste do estado apresenta características mais próximas às novas fronteiras agrícolas.

Nessas áreas, o sorgo pode funcionar como alternativa para produtores que enfrentam maior risco climático e dificuldades para estabelecer uma segunda safra de milho dentro da janela ideal.

Uma indústria que vai além do etanol

Foto: Bruno Kraler / Pexels.com

Outro fator que contribuiu para a consolidação do modelo foi o aproveitamento dos coprodutos. O DDG (grãos secos de destilaria) passou a ter papel relevante na composição da receita das usinas e na integração com outras cadeias do agronegócio.

Dependendo do modelo de negócio, os coprodutos podem representar entre 20% e 30% da receita das unidades, além de serem utilizados na alimentação de bovinos, aves e suínos. “O DDG passou a integrar de forma muito direta outras cadeias do agronegócio. A usina compra o milho, produz etanol e DDG, e esse coproduto é utilizado na alimentação de bovinos, aves e suínos da própria região. Criou-se uma verdadeira engrenagem de economia circular, que fortalece a economia regional e agrega valor ao milho produzido localmente”, destaca Nogueira.

Esse modelo ajuda a explicar por que a instalação de uma usina pode provocar efeitos que vão além da indústria de biocombustíveis. Ao criar um mercado consumidor local para os grãos, a planta também pode estimular investimentos na produção agrícola, melhorar a estrutura de comercialização e fortalecer atividades pecuárias que utilizam os coprodutos.

Nova era do etanol de cereais

A mudança de perspectiva é estratégica para a indústria. Como o processo de produção utiliza o amido dos grãos, as usinas podem trabalhar com diferentes matérias-primas, desde que sejam adequadas ao processo industrial.

Isso permite pensar em uma nova geração de unidades mais flexíveis, capazes de ajustar o mix de matérias-primas de acordo com preço, disponibilidade regional, produtividade, condições climáticas e logística. “O mais adequado hoje é falar em etanol de cereais. Seja milho, trigo ou sorgo, todos possuem amido e podem ser utilizados para a produção de etanol e de coprodutos. A indústria ganha flexibilidade e pode adaptar sua matéria-prima às características de cada região”, ressalta o consultor.

Na prática, isso abre espaço para um novo conceito: a transformação das atuais usinas de etanol de milho em biorrefinarias de grãos, capazes de trabalhar com diferentes cereais de acordo com a oferta regional. “Hoje, o sorgo reúne dois fatores importantes: produtividade e margem. Para a indústria, é uma matéria-prima competitiva, principalmente em regiões onde seu preço tende a ser inferior ao do milho. E, para o produtor, pode representar uma alternativa interessante justamente onde o risco de estabelecer uma segunda safra de milho é maior”, conclui Nogueira.

Inteligência artificial e tendências globais desafiam o futuro da comunicação no agronegócio brasileiro

Em um cenário marcado pelo avanço da inteligência artificial, pela fragmentação da atenção, pelo crescimento da influência dos creators e por consumidores cada vez mais exigentes, acompanhar tendências já não é suficiente. O desafio das empresas está em interpretar esses movimentos e transformá-los em decisões capazes de gerar diferenciação, relevância e resultado.

Essa foi uma das principais discussões do Make Wave 2026, encontro promovido pela Make ID, em São Paulo (SP). O evento reuniu executivos de grandes empresas do agronegócio e de outros setores, além de profissionais de marketing, comunicação, inovação e imprensa especializada, para discutir como movimentos globais de comportamento, tecnologia e criatividade estão chegando à realidade dos negócios.

Com mais de três décadas de atuação e uma trajetória construída ao lado de algumas das principais marcas do agronegócio, a Make ID consolidou-se como uma das agências de referência em comunicação e estratégia para o setor no Brasil. Mais do que conhecer a dinâmica do agro, a agência acompanha suas transformações e conecta esse repertório a movimentos de comportamento, tecnologia, criatividade e negócios que estão redesenhando mercados no mundo.

A partir de uma curadoria construída pela Make ID ao longo de alguns dos principais fóruns de inovação e criatividade do mundo — entre eles SXSW Austin, SXSW London, Web Summit Rio e São Paulo Innovation Week (SPIW) —, o encontro trouxe para o contexto brasileiro discussões sobre inteligência artificial, comportamento, criatividade, estratégia, dados, performance, mídia, influência, confiança, creators e experiência do cliente.

Mais do que tendências isoladas, esses movimentos mostram uma transformação na maneira como empresas constroem marcas, se relacionam com seus públicos e tomam decisões de negócio.

Simone Rodrigues, CEO da Make ID, durante o Make Wave 2026 (Foto: Divulgação)

Para a CEO da Make ID, Simone Rodrigues, o diferencial das organizações estará cada vez mais na capacidade de interpretar essas mudanças e transformá-las em estratégia, combinando tecnologia, dados e, sobretudo, capital humano.

“Temos uma história profundamente conectada ao agronegócio e crescemos acompanhando a transformação desse mercado. Isso nos deu repertório e conhecimento para entender suas particularidades, mas também a responsabilidade de provocar novas discussões e trazer novas perspectivas para nossos clientes. Nosso papel hoje é conectar o agro ao que há de mais relevante em criatividade, tecnologia, comportamento e negócios no mundo e transformar essa leitura em estratégia e valor”, afirma Simone Rodrigues, CEO da Make ID.

Da tecnologia à aplicação nos negócios

Ao longo da programação, representantes de empresas como Bayer, Scania, John Deere, Mosaic, MSD Saúde Animal, Kyra Pesquisa e Trends on Influence discutiram como criatividade, tecnologia, dados e visão estratégica podem ampliar a diferenciação e a geração de valor dentro e fora do agronegócio.

Para o diretor de Inteligência de Mercado e Comunicação da Bayer, Celso Batistella, iniciativas como o Make Wave ajudam a aproximar o setor das discussões que estão acontecendo nos principais centros de inovação do mundo.

“A Make tem essa capacidade de provocar discussões relevantes e conectar clientes ao que está acontecendo de mais inovador no mundo. Poder acessar os principais debates do SXSW e trocar experiências com outras empresas ajuda a entender como usar tecnologia e inovação a favor dos negócios”, explica Batistella.

Na avaliação do executivo, a troca entre empresas e diferentes setores amplia a capacidade das organizações de interpretar mudanças e acelerar a adoção de soluções capazes de fortalecer sua competitividade.

Essa capacidade de selecionar o que realmente importa em meio ao grande volume de informações disponível também foi destacada pelo diretor de Marketing, Comunicação e Experiência do Cliente da Scania no Brasil, Márcio Furlan.

“Nem todo mundo consegue participar dos principais fóruns de inovação. O diferencial da Make é fazer essa curadoria, filtrar os temas mais relevantes e direcionar a discussão para aquilo que realmente faz sentido para as empresas. Isso provoca novas formas de pensar e leva insights que podem ser aplicados no dia a dia dos negócios”, afirma Furlan.

Estratégia e criatividade como ferramenta de negócio

Outro ponto presente nas discussões foi o papel da estratégia e da criatividade em um ambiente no qual tecnologias e ferramentas se tornam cada vez mais acessíveis. Nesse cenário, a diferenciação tende a depender menos do acesso à tecnologia em si e mais da capacidade humana de fazer perguntas, interpretar contextos e construir respostas relevantes.

Para o diretor de Estratégia da Make ID, José Francisco Barbosa, criar espaços de troca entre diferentes empresas e perspectivas também é uma maneira de ampliar esse repertório. “Reunimos grandes marcas, clientes e especialistas para oxigenar estratégias de marketing e comunicação e olhar para o futuro dos negócios. Mais do que discutir tendências, queremos ampliar perspectivas e estimular novas formas de pensar os desafios que já estão na mesa das empresas”, afirma.

Segundo o executivo, em um setor que passa por transformações cada vez mais rápidas, construir diferenciação exige criatividade, repertório e disposição para rever modelos tradicionais de relacionamento entre marcas, produtores e demais públicos da cadeia.

Ao conectar aprendizados dos principais fóruns globais às particularidades do agronegócio brasileiro, o Make Wave 2026 reforça uma discussão que tende a ganhar espaço nas agendas das empresas: tecnologia, dados e inteligência artificial continuarão ampliando as possibilidades dos negócios, mas a capacidade de interpretar esses recursos, conectá-los ao contexto e transformá-los em estratégia seguirá essencialmente humana.

Para a Make ID, é justamente nesse encontro entre inteligência, criatividade, tecnologia e capital humano que estão algumas das principais oportunidades para construir marcas mais relevantes e negócios mais competitivos.

Da floresta ao crédito, a tokenização pode transformar ativos ambientais em valor para o agronegócio

por Sergio Rocha*

Por muito tempo, a floresta em pé e a conservação de áreas nativas foram tratadas pelo agronegócio principalmente sob a ótica da obrigação legal. Essa lógica começa a mudar à medida que o sistema financeiro passa a incorporar dados ambientais, territoriais e climáticos à avaliação de risco e à concessão de crédito. Ao mesmo tempo, uma transformação mais ampla está em curso no mercado financeiro global: a digitalização e a tokenização de ativos reais. O conceito permite que ativos físicos e financeiros sejam representados digitalmente, fracionados e, em determinadas estruturas, negociados de forma mais ágil, com o uso de contratos inteligentes e novas infraestruturas.

O debate ganhou força no Brasil com o avanço da digitalização do sistema financeiro e de iniciativas relacionadas ao Drex (moeda digital oficial do Brasil, criada e emitida pelo Banco Central). Mais do que uma evolução tecnológica, esse movimento aponta para uma mudança na forma como ativos reais podem ser identificados, comprovados, representados e conectados ao capital. Para o agro brasileiro, essa transformação abre uma discussão particularmente relevante: o território e seus ativos naturais podem deixar de ser elementos de risco ou conformidade e passar a representar também valor econômico?

O Brasil possui um dos maiores estoques de recursos naturais do planeta. Além da produção agrícola e pecuária, as propriedades rurais concentram áreas de vegetação nativa, recursos hídricos, potencial de geração de créditos de carbono, biodiversidade e espaços que podem ser destinados à restauração. Estudos recentes estimam que a recuperação de áreas degradadas no país possa gerar até US$ 141 bilhões em valor econômico nas próximas três décadas, considerando receitas associadas a carbono, produtos florestais, bioeconomia e outros usos produtivos.

A realidade começa a mudar

O avanço das exigências ambientais e de rastreabilidade faz com que as informações sobre o território passem a ter impacto direto sobre decisões financeiras. Para bancos, seguradoras, tradings e grandes empresas compradoras, saber onde uma propriedade está, qual é seu histórico ambiental, se existem embargos ou sobreposições e quais são seus riscos climáticos deixou de ser uma informação secundária. Esses dados passaram a fazer parte da avaliação do negócio.

Essa mudança cria uma situação que pode parecer contraditória. O mesmo ativo ambiental que hoje pode contribuir para restringir o acesso a determinadas linhas de crédito, quando associado a irregularidades ou riscos, pode no futuro ajudar a demonstrar menor exposição a riscos e sustentar novas formas de financiamento.

Para isso, entretanto, não basta afirmar que uma propriedade é sustentável ou que determinada área está preservada. É necessário comprovar essa condição por meio de dados confiáveis, monitoramento contínuo e mecanismos de auditoria. É nesse ponto que o território começa a assumir uma nova função. Além de espaço de produção, passa a ser também uma fonte de informação capaz de influenciar decisões financeiras.

O capital está mais caro e as exigências são maiores

Essa discussão ganha ainda mais relevância diante da realidade financeira enfrentada pelo agro. O setor convive com cerca de R$ 180 bilhões em endividamento, juros entre 18% e 20% ao ano e gargalos históricos de infraestrutura e escoamento, incluindo limitações no Arco Norte e nos portos tradicionais. Ao mesmo tempo, as regras de acesso ao capital estão mudando.

No mercado internacional, o acordo Mercosul-União Europeia e a regulamentação europeia antidesmatamento (EUDR) ampliam as exigências de rastreabilidade das cadeias que acessam aquele mercado. No ambiente doméstico, as regras do Conselho Monetário Nacional (CMN) também aumentam a importância da regularidade ambiental para o acesso ao crédito rural, com exigências relacionadas ao monitoramento do desmatamento e aplicação escalonada de novas restrições a partir de 2027.

Nesse cenário, comprovar a regularidade e o perfil de risco de uma propriedade passa a ser também uma questão financeira. É justamente nesse ponto que a inteligência territorial ganha importância. O cruzamento de informações de sensoriamento remoto, dados climáticos, registros ambientais, histórico de uso do solo, informações financeiras e dados de mercado permite construir uma visão mais completa do risco associado a uma propriedade ou a uma cadeia de fornecimento. Essa inteligência também pode ampliar a utilização de instrumentos como os seguros paramétricos. O objetivo passa a ser compreender como as características ambientais e territoriais daquela propriedade interferem em seu risco financeiro e operacional.

Tokenização

É nesse ambiente que a tokenização torna-se relevante para o agronegócio. A ideia não é transformar toda propriedade rural ou toda floresta em um token. O ponto central é outro. Ativos reais e ambientais que possam ser mensurados, comprovados e auditados podem, em determinadas estruturas, ser representados digitalmente e conectados a instrumentos financeiros. Créditos de carbono, projetos de restauração, ativos relacionados à geração de energia renovável e outros instrumentos ambientais são exemplos de mercados que podem se beneficiar dessa infraestrutura.

Mas existe uma condição fundamental, a confiança. Um ativo digital só terá valor financeiro se houver segurança sobre aquilo que ele representa. No caso dos ativos ambientais, isso significa comprovar sua existência, localização, integridade, titularidade, adicionalidade, quando aplicável, e ausência de dupla contagem ou de outros riscos que comprometam sua qualidade.

Em outras palavras, não basta criar o token. É preciso garantir o lastro. Essa é uma das razões pelas quais a inteligência territorial tende a ganhar importância na próxima etapa da transformação financeira. Quanto maior a capacidade de comprovar o que existe em determinado território, maior será a possibilidade de transformar essa informação em confiança e, potencialmente, em valor econômico.

O território como nova camada de informação financeira

Um banco precisa avaliar riscos para conceder crédito. Uma seguradora precisa precificar uma operação. Uma trading precisa comprovar a origem de uma commodity. Uma indústria precisa monitorar sua cadeia de fornecedores. Um investidor precisa saber se determinado ativo ambiental possui lastro e integridade. Em todos esses casos, existe uma pergunta em comum. O que, de fato, existe naquele território e qual é o risco associado a ele?

A resposta dependerá cada vez mais da capacidade de transformar dados dispersos em informações verificáveis e economicamente úteis. A Inteligência Artificial (IA) pode acelerar esse processo ao cruzar grandes volumes de dados territoriais, climáticos, ambientais, mercadológicos e financeiros. O avanço mais importante, portanto, não está apenas em utilizar IA para aumentar a produtividade da lavoura, mas também em empregá-la para compreender, monitorar e precificar os riscos associados ao território. O grande movimento, portanto, não é apenas tecnológico, mas econômico. O território começa a produzir uma nova camada de informação capaz de influenciar risco, crédito, seguro, rastreabilidade e, potencialmente, o próprio valor dos ativos.

Para o agronegócio brasileiro, que reúne uma das maiores capacidades produtivas do mundo e um dos maiores estoques de capital natural do planeta, essa mudança pode representar uma nova fronteira ao transformar informação ambiental confiável em infraestrutura para acesso ao capital. A floresta em pé pode continuar sendo patrimônio ambiental. Mas, em um sistema financeiro cada vez mais orientado por dados, ela também poderá ser reconhecida como parte de um patrimônio econômico, desde que seu valor seja comprovado, mensurado e sustentado por dados confiáveis.

*CEO e fundador da Agrotools.

Empresas têm até dezembro para se adaptar a novas regras sobre benefícios fiscais

Entrou em vigor neste mês de setembro um novo modelo de acompanhamento dos incentivos e benefícios fiscais utilizados pelas empresas. As novas regras da Receita Federal ampliam o controle sobre o cumprimento dos requisitos exigidos para a manutenção desses benefícios e abrem, até o fim do ano, uma janela para revisão e regularização de eventuais inconsistências.

Durante o período de adaptação, que segue até dezembro de 2026, o acompanhamento tem caráter orientativo e eventuais irregularidades podem ser comunicadas às empresas para que sejam corrigidas antes do início dos procedimentos formais previstos para 2027.

A medida pode alcançar empresas de diferentes portes e segmentos que usufruem de incentivos, renúncias ou benefícios tributários federais. Para Nicholas Coppi, advogado da Coppi Advogados Associados e especialista em Direito Tributário, a principal recomendação é aproveitar esse intervalo para verificar se todos os requisitos vinculados aos benefícios utilizados continuam sendo cumpridos. “Para muitas empresas, o benefício fiscal já faz parte da rotina e acaba sendo tratado como uma condição consolidada. A nova sistemática reforça que não basta ter obtido o direito ao incentivo. É necessário continuar atendendo às condições exigidas para sua utilização”, afirma Coppi.

Entre os requisitos que podem ser objeto de acompanhamento estão a regularidade fiscal, a situação perante o FGTS e o Cadin, a regularidade cadastral no CNPJ e a adesão ao Domicílio Tributário Eletrônico (DTE), além das condições específicas previstas na legislação de cada benefício.

Na avaliação do especialista, a mudança interessa especialmente às empresas que utilizam incentivos há mais tempo e que não mantêm uma rotina periódica de revisão das condições necessárias à sua manutenção. “É um bom momento para fazer uma checagem relativamente objetiva: quais benefícios a empresa utiliza, quais são os requisitos para cada um deles e se existe documentação atualizada que demonstre o cumprimento dessas condições. Dependendo do caso, uma pendência cadastral ou de regularidade pode gerar consequências relevantes”, explica.

A regulamentação também ampliou de 20 para 30 dias úteis o prazo para regularização após eventual intimação e prevê situações em que esse período poderá ser prorrogado quando a solução depender da atuação de outro órgão público.

O caráter orientativo previsto até 31 de dezembro é um dos pontos que tornam o momento particularmente relevante para as empresas. A partir de janeiro de 2027, passam a ser adotados os procedimentos formais estabelecidos pela nova sistemática. Para Coppi, a existência desse intervalo deve ser entendida como uma oportunidade para antecipar a revisão, e não como motivo para postergá-la. “Se existe uma janela em que a própria sistemática privilegia a orientação e a regularização, faz sentido utilizá-la preventivamente. A empresa pode revisar cadastros, certidões, habilitações e controles antes de eventualmente ser chamada a prestar esclarecimentos”, aponta o especialista.

O novo modelo também reforça uma tendência de maior utilização de informações eletrônicas e cruzamento de dados pela administração tributária. Nesse ambiente, empresas que se beneficiam de incentivos precisam incorporar a revisão dessas condições às práticas de governança fiscal. “Benefícios tributários podem representar valores importantes para o resultado de uma companhia. Por isso, o controle sobre os requisitos necessários para mantê-los precisa ter a mesma relevância. A recomendação é não esperar janeiro para descobrir se existe alguma pendência que poderia ter sido identificada antes”, diz o advogado.

Para as empresas, o caminho inicial passa por identificar os benefícios fiscais utilizados, levantar os requisitos vinculados a cada um, verificar a situação fiscal e cadastral e corrigir eventuais inconsistências ainda durante o período de adaptação. “Os próximos meses oferecem uma oportunidade de revisão. Mais do que uma nova obrigação, é um momento para a empresa verificar se aquilo que já utiliza está juridicamente e documentalmente bem sustentado”, conclui Coppi.

Foto: Olia Danilevich / Pexels.com

Digitalização transforma a gestão das fazendas e amplia a rentabilidade do agronegócio brasileiro

A transformação digital tem ganhado espaço nas propriedades rurais brasileiras e redefinido a forma como os produtores planejam suas compras, acessam crédito e tomam decisões estratégicas para a safra. Mais do que simplificar processos, a tecnologia vem contribuindo diretamente para a eficiência operacional e para o aumento da rentabilidade no campo.

A evolução dos marketplaces agrícolas e dos ecossistemas digitais criou um novo cenário para os produtores rurais. Em um mercado altamente influenciado por fatores externos, como oscilações climáticas e preços internacionais das commodities, a gestão eficiente dos custos de produção tornou-se uma das principais ferramentas para preservar margens e garantir competitividade.

Nesse contexto, plataformas digitais especializadas permitem que agricultores comparem ofertas, condições comerciais, prazos de pagamento e fornecedores em um único ambiente, ampliando seu poder de negociação e proporcionando mais transparência ao processo de compra de insumos.

“A digitalização trouxe um novo patamar de autonomia para o produtor rural. Hoje ele tem acesso a informações que antes estavam dispersas, consegue comparar alternativas de forma rápida e tomar decisões mais embasadas. Isso fortalece sua capacidade de gestão e contribui diretamente para a rentabilidade da propriedade”, afirma Ivan Moreno, CEO da Orbia.

Os resultados desse movimento já podem ser observados na prática. Um estudo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), apontou que propriedades que adotaram tecnologias digitais registraram aumento médio de 18,7% na produtividade, além de uma redução de 12,3% no consumo de insumos agrícolas, como fertilizantes e defensivos. O levantamento também revelou que fazendas com alto grau de digitalização apresentam rentabilidade 23% superior em comparação àquelas que ainda operam com modelos tradicionais de gestão.

Além da comparação de preços, a digitalização vem promovendo maior transparência em toda a cadeia de suprimentos. Com informações mais acessíveis e reputações de fornecedores visíveis, fatores como assistência técnica, logística e pós-venda passaram a ter peso cada vez maior na decisão de compra.

Outro avanço importante está na integração de soluções financeiras às plataformas digitais. A partir do histórico de transações e do comportamento de compra dos produtores, torna-se possível oferecer condições de crédito mais aderentes à realidade de cada operação, contribuindo para o planejamento financeiro da safra.

“O futuro do agro digital vai muito além da compra online de insumos. Estamos caminhando para ecossistemas integrados, nos quais produtores, distribuidores, cooperativas, indústrias e instituições financeiras atuam conectados. Essa integração gera mais eficiência para toda a cadeia e cria oportunidades para que o agricultor tenha acesso a soluções cada vez mais completas”, destaca Moreno.

Esse modelo já faz parte da realidade da Orbia, que nasceu como um programa de fidelidade e hoje reúne soluções completas para a cadeia agrícola. A plataforma conecta produtores, revendas, distribuidores, cooperativas e instituições financeiras em um ambiente digital onde é possível cotar, comprar e pagar por insumos, além de acessar benefícios, soluções financeiras e ferramentas de gestão.

À medida que a transformação digital avança, especialistas apontam que a tendência é de consolidação de ecossistemas cada vez mais robustos, capazes de integrar dados, serviços, crédito e inteligência de mercado. Para o produtor rural, isso representa mais previsibilidade, maior controle sobre os custos e melhores condições para enfrentar os desafios de um setor cada vez mais dinâmico e competitivo.

Foto: Magnific

Operações da Polícia Federal miram garimpo ilegal e desmatamento na Amazônia

A Polícia Federal (PF) deflagrou duas operações direcionadas ao combate de crimes ambientais e à preservação dos recursos naturais na Região Amazônica. As ofensivas — batizadas de Operação Aurum Tapajós e Operação Guardião Infiel — têm como foco estancar a exploração ilegal de ouro e o desmatamento clandestino de madeira nativa em territórios protegidos pela União.

As ações reforçam a intensificação da fiscalização contra atividades ilegais que impactam a biodiversidade, a regularidade fundiária e a reputação produtiva do setor agroflorestal brasileiro.

Garimpo clandestino afeta APA do Tapajós no Pará

Na Operação Aurum Tapajós, os agentes buscaram aprofundar as investigações sobre a extração irregular de ouro na Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós, localizada no município de Novo Progresso, no sudoeste do Pará.

A ação cumpriu dois mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal, distribuídos entre os municípios de Belém e Santarém. A finalidade é recolher documentos, equipamentos eletrônicos e mídias digitais que ajudem a identificar os financiadores e responsáveis pela atividade ilegal.

A investigação teve início após fiscalizações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) no âmbito da Operação Garimpo Zero. Na ocasião, os fiscais constataram a extração mineral sem licença ambiental em uma área de floresta nativa estimada em 40 hectares. Além do dano ambiental, a prática configura usurpação de bens e recursos minerais pertencentes à União.

Extração e venda ilegal de madeira em Rondônia e Goiás

Simultaneamente, a Polícia Federal deflagrou a Operação Guardião Infiel, voltada ao combate ao desmatamento e à comercialização clandestina de madeira nativa retirada de território protegido.

A operação cumpriu sete mandados de busca e apreensão expedidos pela 7ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária de Rondônia: seis mandados em aldeias situadas na Terra Indígena Igarapé-Lage, em Guajará-Mirim (RO), e um mandado no município de Goiânia (GO).

Segundo a PF, o esquema apura a retirada e comercialização ilegal de madeira de floresta nativa. Há indícios de que os próprios investigados que atuavam na região facilitavam a entrada de terceiros e a logística para a exploração clandestina dentro do território indígena.

Foto: Pok Rie / Pexels.com

Impactos para o setor agroflorestal e o mercado nacional

A repressão ao garimpo e ao desmatamento ilegal é peça-chave para garantir a integridade dos ecossistemas amazônicos e fortalecer o agronegócio sustentável no Brasil. Atividades clandestinas geram concorrência desleal com o setor florestal manejado e legalizado, além de trazer prejuízos à reputação internacional do país na pauta socioambiental.

A Polícia Federal e os órgãos de fiscalização seguem com a análise do material apreendido para delimitar a responsabilidade penal dos envolvidos e calcular a extensão total dos danos causados.

Methodology assesses the potential for success of digital technologies in agriculture

Digital agriculture keeps advancing with sensors, drones, and artificial intelligence, promising more accurate decisions. However, those technologies are not always actually adopted. Some, for example, do not address farmers’ most urgent needs or lack digital infrastructure that is not yet fully accessible. Researchers from Embrapa and the University of Campinas (Unicamp) working on the Center for Science for Development in Digital Agriculture (Semear Digital) project have developed a methodology that evaluates digital technologies that are currently under development, aiming to predict whether they have a realistic chance of being successfully adopted in a given agricultural context. The results were published in June 2026 in the journal Smart Agricultural Technology.

“The tool was designed to support decision-making, whether by farmers, developers of agricultural technologies, or investors in the sector. Once they have a feasibility assessment of the technology for that context, farmers and extension workers can evaluate whether it will, in fact, be useful for the farm. Such report can also help in evaluating private or public investments and in the very process of developing those technologies in the laboratory”, explains Luciana Romani, a researcher at Embrapa Digital Agriculture and partnerships coordinator at the Semear Digital center.

The methodology combines the requirements of a technology—whether software or hardware—with the characteristics of the property and its geographic context, the readiness of existing digital infrastructure, the profile of the farmer and their ability to use the proposed technology, and economic viability. “The idea was precisely to address the need to determine whether applying a given digital technology in a specific agricultural context works”, Thais Dibbern, a professor at Unicamp and a researcher affiliated with Semear Digital, asserts.

Stages of the study

The study was conducted in five methodological stages. Firstly, a bibliometric analysis evaluated 814 scientific publications on the adoption of digital technologies, out of which 20 case studies were examined in more depth. Next, the researchers identified ten indices and indicators that are already used by national and international institutions, such as the World Bank’s Agriculture Digitalization Index and Embrapa’s Ambitec-Agro. The mapping aimed both to identify variables relevant to the methodology developed and to demonstrate its originality. “This comparative analysis showed that, until now, there was no methodology that resembled the one we were proposing”, Thais Dibbern says.

Among the features that set it apart from other indices, the tool incorporates variables that are often overlooked in traditional assessments, such as relief, generation of polluting waste, increased water consumption, and even legal issues. “Land ownership, for example, ultimately influences whether or not a farmer chooses to adopt digital technology. It’s not only the cost, it’s not just the ability to understand how it works, but also the trust he places in this type of tool”, the researcher explains.

In addition to those indices and indicators, the researchers also analyzed the literature on barriers to and factors influencing the adoption of technologies in the field. “Based on the barriers and variables of the indicators studied, we developed this new tool to evaluate digital technologies”, Dibbern explains. “After that, we began the validation stage with experts from various fields, followed by a proof of concept using two actual technologies”.

The assessment tool was submitted for validation to 22 agronomy, engineering, computer science, and statistics experts, who helped to assign weights and develop the final assessment scale, which ranges from 1 to 5. “They contributed a great deal to the weight-adjustment process. It was based on that exchange that we developed the formulas and our scale”, the researcher explains.

The proof of concept tested the methodology using two contrasting technologies developed within the Embrapa ecosystem: the Aquicultura Certa software, designed for fish farm management, and a hardware device that, when attached to a harvest bag, automatically counts the number of fruits picked and identifies the most productive trees. The results revealed distinct behavior patterns.

In the case of Aquicultura Certa, the scores differed between the two profiles analyzed. The developers of the technology rated its viability as moderate, giving it a score of 3. As for potential adopters (farmers who were testing the system), the score rose to 4. According to the paper, such discrepancy does not indicate a measurement error, but rather provides a useful insight: by considering the entire range of possible properties—including those with poor connectivity infrastructure—,the developer identifies barriers that the actual user, who is already living in a place with electricity and internet, considers to have been overcome. “Perhaps the developer doesn’t fully grasp the transformation that technology brings about or its impact on the farmer’s life. They never imagined it would have such a big impact in the field, and the results have been very positive”, Thais Dibbern notes.

The fruit-counting hardware, on the other hand, received a score of 4 in both profiles—developer and adopter. Because it requires few infrastructure prerequisites and operates using autonomous Bluetooth-based communication, the technology garnered widespread consensus regarding its high viability. “The results indicate that the proposed model is consistent and reliable for both profiles”, the researchers conclude.

From research to innovation and public policy

Currently, the methodology operates in a spreadsheet, and the goal is to transform it into an app or a widely accessible digital platform. To that end, a second round of validation is planned, since, at the end of the first cycle, the team realized that new issues had arisen that needed to be incorporated and tested—such as the technology’s ease of use and impacts on animal welfare, for example. “We need to conduct a new validation process so that the choice of technologies becomes increasingly precise, to avoid unnecessary costs, and even to help developers gain a clearer understanding of the target audience they want to reach”, Thais Dibbern says.

In addition to direct application in the field, the researchers see potential for the tool to influence the development of technologies at startups and the formulation of public policies. “In the case of startups, it works for a change of course—or a pivot—if you apply the assessment right at the beginning of the idea generation stage”, Luciana Romani explains. “It is especially useful when you don’t have a deep understanding of your audience yet and are in the process of exploring the possibilities to apply the new technology”.

As for public policy, the rationale is that by systematically mapping the barriers to adoption, such as connectivity infrastructure, the need to train, and technical support, the government can target investments more precisely. “Translating the process of adopting technology into public policies, particularly those that relate to government support and funding, while taking those barriers into account, is what catches my attention the most”, Thais Dibbern concludes.

The full paper was authored by Thais Dibbern, Luciana Alvim Santos Romani, Silvio Roberto Medeiros Evangelista, Vagner Azarias Martins, Silvia Maria Fonseca Silveira Massruhá: Diagnostic framework for assessing Smart Agricultural Technology adoption. Smart Agricultural Technology, Volume 14, 2026, 102359, ISSN 2772-3755. Access: https://doi.org/10.1016/j.atech.2026.102359.

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Entre recorde de produção e atraso nas compras, produtor rural corre contra o tempo na safra 2026/27

O agronegócio brasileiro fecha a safra 2025/26 com números recordes, mas entra no planejamento do ciclo 2026/27 sob um cenário de custos mais voláteis, crédito delimitado, câmbio pressionado e exigências internacionais mais rígidas. Segundo o mais recente levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o país deve colher cerca de 360 milhões de toneladas de grãos na safra que se encerra, puxado por uma produção recorde de soja, próxima de 180 milhões de toneladas, e por uma safra de milho que soma 141,7 milhões de toneladas somadas as três safras. O café também caminha para um novo recorde em 2026/27, com estimativas de diferentes consultorias variando entre 66 milhões e mais de 75 milhões de sacas.

Apesar do otimismo com a produção, o custo dos insumos segue no centro das atenções. O mercado internacional de fertilizantes voltou a ficar tenso neste ano, pressionado pela instabilidade geopolítica no Oriente Médio e por gargalos logísticos que encareceram fretes e o gás natural, matéria-prima essencial para os nitrogenados. Ainda que o Índice de Poder de Compra de Fertilizantes tenha recuado em junho, refletindo a queda nas commodities agrícolas e nos preços médios de insumos, o produtor segue mais cauteloso nas negociações para 2026/27. Dados do setor apontam que pouco mais da metade do volume de fertilizantes necessário para a próxima safra havia sido contratada até o momento, patamar abaixo do histórico para a época, o que acende o alerta para uma possível concentração de compras no gargalo logístico próximo ao plantio.

Segundo Marcos Dallagnese, diretor Comercial da Orbia, plataforma digital integrada do agronegócio, cada cultura vive um momento distinto de mercado, o que exige estratégias diferentes de compra e gestão de insumos ao longo da safra. “A soja segue em ritmo de recuperação de preços de olho na demanda e safra americana, mas isso também exige do produtor atenção redobrada ao câmbio e ao timing entre a venda do grão e a compra de insumos. Já o milho vive uma transformação estrutural, com a expansão acelerada das usinas de etanol ampliando a disputa pelo grão e tornando o planejamento logístico ainda mais estratégico. O café, por sua vez, segue em um bom momento de preços e volatilidade, mesmo diante da expectativa de safra recorde, o que exige acompanhamento constante do mercado por parte do produtor”, afirma.

De fato, o etanol de milho deve consumir cerca de 37,7 milhões de toneladas do cereal na safra 2026/27, avanço de 36% sobre o ciclo anterior, elevando a participação do biocombustível para cerca de 34% da demanda doméstica por milho, segundo levantamento do Itaú BBA. O movimento amplia a disputa pelo grão entre indústria de biocombustíveis, exportação e proteína animal, e tende a aumentar a sensibilidade dos preços domésticos em momentos de menor oferta.

Já no café, apesar da previsão de colheita recorde para 2026/27, o mercado físico segue pressionado: praças produtoras de Minas Gerais, como Guaxupé e Varginha, acumularam valorização importantes em julho, reflexo de estoques certificados apertados e do ritmo ainda lento de comercialização antecipada da nova safra, hoje bem abaixo da média histórica para a época.

Foto: Ebahir / Pexels.com

Ainda de acordo com Dallagnese, o produtor rural brasileiro vem adotando um perfil cada vez mais estratégico na tomada de decisão, deixando de comprar apenas com base em oportunidade pontual para analisar timing, condições comerciais, crédito e previsibilidade operacional. “Hoje, o produtor precisa olhar para a compra de insumos como parte da gestão financeira da propriedade. Não basta apenas garantir produto, é preciso buscar eficiência, previsibilidade com parceiros confiáveis e ferramentas que ajudem na tomada de decisão ao longo da safra”, explica.

Nesse movimento, as plataformas digitais vêm ganhando espaço dentro do agro brasileiro. A Orbia, que nasceu como um programa de fidelidade e hoje reúne soluções completas para a cadeia agrícola, conecta produtores rurais a uma ampla rede de revendas, distribuidores e cooperativas em todo o país, permitindo cotação, compra e pagamento online de insumos agrícolas.

“A digitalização trouxe mais agilidade e transparência para o mercado. Na Orbia, o produtor consegue comparar ofertas, acompanhar condições comerciais e acessar diferentes fornecedores em um só lugar, o que contribui diretamente para um planejamento mais eficiente das compras”, destaca Dallagnese.

Além das questões operacionais, o mercado agrícola também passa por uma transformação ligada às exigências globais de rastreabilidade, sustentabilidade e conformidade regulatória. Um dos temas que mais deve pautar 2026 e 2027 é o Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR), que passa a valer de forma gradual a partir de dezembro de 2026 para grandes e médios produtores, e a partir de junho de 2027 para pequenos produtores. 

Entre as commodities mais expostas à nova regra está justamente o café, uma vez que mais da metade da safra brasileira segue para a União Europeia, mas a soja também figura entre os produtos citados como relevantes pela regulação, reforçando a necessidade de sistemas robustos de rastreabilidade e comprovação de origem ao longo de toda a cadeia produtiva.

“O agro brasileiro continua extremamente forte e competitivo, mas o cenário atual exige cada vez mais profissionalização. Quem conseguir unir planejamento, tecnologia e gestão, terá mais capacidade de enfrentar um ambiente de margens apertadas e maior pressão do mercado global”, finaliza Dallagnese.

Forrageiras: o investimento mais estratégico para a agricultura moderna

por Marcelo Ayres Carvalho*

A eficiência no uso da terra e o controle dos custos de produção são fatores essenciais para a gestão das propriedades rurais. Em um cenário de variações nos preços das commodities agrícolas, do custo dos insumos e das taxas de juros, a eficiência do sistema produtivo impacta diretamente a estabilidade financeira das atividades rurais. 

Neste contexto, as plantas forrageiras deixam de ser apenas um componente da pecuária para assumir um papel estratégico na agricultura moderna. Mais do que culturas de cobertura, elas contribuem para a saúde do solo, reduzem riscos de produção, aumentam a produtividade e fortalecem a rentabilidade das lavouras, especialmente em períodos de instabilidade econômica e climática.

O risco da safrinha e a armadilha do custo fixo

Historicamente, a “safrinha” de grãos (em geral, com milho ou sorgo) foi utilizada para diluir os custos fixos da propriedade. No entanto, em anos de crise financeira e instabilidade climática, essa estratégia pode se transformar em uma perigosa armadilha. Implantar uma segunda safra de grãos exige investimentos elevados em sementes, fertilizantes e defensivos. Quando o clima ou os preços forem desfavoráveis, a safrinha deixa de gerar receita e passa a representar um passivo financeiro.

A busca por eficiência operacional exige que o produtor repense o uso da terra. A exposição ao risco em janelas marginais de plantio tem levado à adoção de alternativas que demandam menor desembolso inicial e oferecem maior proteção ao sistema produtivo.

No entanto, a redução da dependência de safrinhas de alto risco não significa deixar a terra em pousio — o que seria um erro agronômico grave no Sistema Plantio Direto (SPD). A opção é a adoção de culturas que preparem o sistema para a safra principal com um custo significativamente menor.

As forrageiras como ferramentas estratégicas

O cultivo de espécies forrageiras, especialmente gramíneas e leguminosas tropicais, representa uma estratégia eficiente para aumentar a resiliência dos sistemas produtivos. Ao contrário de uma cultura de grãos, a forrageira implantada após a safra de verão, atua como um “seguro biológico”. Ela não exige os mesmos investimentos em operações agrícolas, insumos e gestão, e entrega um retorno para o sistema que poucas tecnologias conseguem superar.

As forrageiras vão além da cobertura do solo. Seus sistemas radiculares promovem descompactação, infiltração de água, oxigenação do perfil, ciclagem de nutrientes, supressão de plantas invasoras, nematoides, pragas e doenças, além de favorecer o sequestro de carbono.

Em um cenário de crise, onde o produtor precisa extrair o máximo de cada quilo de fertilizante aplicado, ter um solo estruturado e saudável é fundamental para evitar perdas de produtividade e aumento de custos de produção.

Evidências técnicas e econômicas: o valor da saúde do solo

Estudos científicos demonstram que substituir a safrinha de grãos por forrageiras melhora o desempenho do sistema produtivo. Pesquisas têm demonstrado que a soja cultivada após o uso de forrageiras apresenta um incremento médio de 15% na produtividade, o que representa cerca de 515 quilos por hectare adicionais (ou mais de 8,5 sacas por hectare). O ganho está associado à melhora dos bioindicadores da saúde do solo, com aumento da atividade enzimática e da ciclagem de nutrientes.

Do ponto de vista financeiro, o retorno sobre o investimento (ROI) é bastante expressivo. Enquanto o custo de implantação de uma cobertura forrageira varia entre US$ 9 e US$ 30 por hectare em sementes, o retorno financeiro apenas em ganho de produtividade da soja subsequente é estimado em US$ 198 por hectare. 

Forrageiras, uma poupança para o solo e para o produtor 

Em tempos de insumos caros, as forrageiras funcionam como uma poupança de nutrientes. Cultivares de Brachiaria recuperam potássio e fósforo das camadas profundas do solo e os devolvem à superfície por meio da biomassa. Após a dessecação da forragem, esses nutrientes são liberados de forma gradual, reduzindo a dependência imediata de fertilizantes químicos de alta solubilidade e custo elevado.

Além disso, a palhada persistente sobre o solo reduz a temperatura superficial e mantém a umidade, mitigando os efeitos do estresse hídrico — um problema recorrente que tem dizimado margens de lucro em diversas regiões. 

O uso de leguminosas forrageiras contribui também para a melhoria dos atributos físicos e biológicos do solo, promovendo o aporte de nitrogênio no sistema pela fixação biológica. Estudos mostram que leguminosas forrageiras podem fixar entre 50 e mais de 250 quilos de nitrogênio por hectare ao ano. 

Elas podem ser utilizadas isoladamente ou em consórcio com gramíneas. As forrageiras também podem ser pastejadas, diversificando a renda. Estudos em fazendas mostram aumento de 18% na produtividade da soja em áreas pastejadas.

Essa estratégia amplia a competitividade do produtor brasileiro. A sustentabilidade aqui não é um conceito abstrato, mas uma ferramenta de resiliência econômica que permite produzir mais com menos interferência externa.

A maturidade do sistema de produção

O crescimento do mercado de sementes forrageiras mostra que investir na saúde do solo reduz riscos e aumenta a eficiência da safra principal. A adoção de sistemas integrados – a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) – ou o uso estratégico de forrageiras como plantas de cobertura para o sistema de plantio direto marca a maturidade do sistema de produção brasileiro. 

O produtor que compreende a forrageira como um investimento em infraestrutura biológica estará, ao final dessa crise, em uma posição de liderança, com custos de produção mais baixos, solos mais férteis e uma operação significativamente menos vulnerável às oscilações climáticas e do mercado de commodities e insumos.

*Pesquisador da Embrapa Cerrados.

Alta dos juros é apontada como principal fator para avanço de consórcios no agronegócio

O aumento do custo do crédito rural e a necessidade constante de investir em produtividade têm impulsionado o consórcio como uma das principais alternativas para pequenos e médios produtores rurais adquirirem tratores, colheitadeiras, implementos e outros equipamentos agrícolas. A avaliação é da Multimarcas Consórcios, que observa uma mudança no perfil do produtor, cada vez mais voltado ao planejamento financeiro e à busca por soluções que reduzam o impacto dos juros sobre os investimentos no campo.

A tendência é confirmada pelos números da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC). O segmento de máquinas agrícolas reúne atualmente 463,3 mil participantes ativos, crescimento de 2,9% em relação ao ano anterior. Apenas entre janeiro e abril deste ano, foram disponibilizados R$ 4,36 bilhões em créditos, alta de 15% na comparação com o mesmo período de 2025, demonstrando que mais produtores estão utilizando o consórcio para renovar seus maquinários e ampliar a capacidade produtiva.

Segundo Guilherme Lamounier, gerente nacional de vendas da Multimarcas Consórcios, o cenário reforça uma mudança que já vinha sendo observada pela empresa desde o ano passado e que se intensificou diante das condições do mercado de crédito. “Os juros elevados fizeram com que muitos produtores reavaliassem a forma de investir. Hoje, o consórcio deixou de ser apenas uma alternativa e passou a fazer parte do planejamento financeiro de muitos pequenos e médios produtores. Eles conseguem programar a renovação da frota, preservar o capital de giro da propriedade e investir sem os custos do financiamento tradicional”, afirma.

Para Lamounier, o crescimento da modalidade está diretamente ligado ao papel estratégico que a mecanização exerce na competitividade do agronegócio. “O produtor precisa investir continuamente em tecnologia para aumentar a produtividade, reduzir custos operacionais e ganhar eficiência. O consórcio permite que esse investimento aconteça de forma planejada, respeitando o fluxo de caixa da atividade rural e oferecendo mais previsibilidade para quem administra o negócio”, explica.

Os dados da ABAC também mostram que as máquinas agrícolas já representam 51% de todo o segmento de consórcios de veículos pesados, superando os caminhões. Outro indicador relevante é o perfil dos participantes: aproximadamente dois terços dos consorciados são pessoas físicas, público formado majoritariamente por pequenos e médios produtores rurais, o que evidencia a importância da modalidade para ampliar o acesso à mecanização no campo.

Embora o início de 2026 tenha registrado uma desaceleração na comercialização de novas cotas, reflexo da cautela do mercado diante do cenário econômico, a Multimarcas avalia que o aumento do volume de créditos disponibilizados demonstra a maturidade do setor e a consolidação do consórcio como uma ferramenta de investimento de longo prazo.

“O produtor rural está cada vez mais consciente de que planejamento também é um diferencial competitivo. Quem consegue organizar seus investimentos com antecedência reduz riscos, preserva recursos para a operação e mantém a propriedade preparada para crescer. O consórcio atende exatamente essa necessidade e, por isso, deve continuar ampliando sua participação no agronegócio brasileiro”, conclui Lamounier.