Controle precoce de plantas daninhas ajuda a preservar o potencial produtivo da lavoura

O controle de plantas daninhas nas fases iniciais da lavoura influencia o estabelecimento da cultura e a construção do potencial produtivo ao longo da safra. A disputa por água, luz e nutrientes ocorre justamente quando as plantas estão formando raízes, expandindo a área foliar e desenvolvendo estruturas essenciais ao crescimento. Quando essa interferência se prolonga, parte das perdas pode ser irreversível, mesmo após a eliminação das invasoras.

O momento da intervenção é determinante para o resultado do manejo. De acordo com Jéssica Souza, head de Conteúdo e Estratégia e coordenadora de Marketing da Sell Agro, especialista em agronegócio, a decisão não deve considerar apenas a disponibilidade de máquinas ou a conveniência operacional, mas também o monitoramento do talhão, o estádio de desenvolvimento das infestantes e as condições ambientais.

Segundo ela, um dos erros mais comuns é esperar que as plantas daninhas atinjam estágios avançados para realizar o controle. “Dependendo da espécie, do herbicida e das condições de campo, plantas maiores podem apresentar maior dificuldade de controle. A competição prolongada também pode limitar o crescimento da cultura e provocar perdas que não são recuperadas com uma intervenção posterior”, explica.

Período crítico exige manejo oportuno

A interferência das espécies infestantes varia conforme a composição da comunidade de plantas daninhas, a densidade populacional, a cultura implantada e o ambiente de produção. Na agronomia, conceitos como Período Anterior à Interferência (PAI), Período Total de Prevenção da Interferência (PTPI) e Período Crítico de Prevenção da Interferência (PCPI) ajudam a determinar quando a presença dessas plantas pode causar prejuízos relevantes.

O período crítico corresponde ao intervalo em que a lavoura precisa permanecer suficientemente livre da competição para evitar perdas de produtividade acima de um limite considerado aceitável. “Não existe, porém, uma janela única válida para todas as situações. A definição depende das características da espécie agrícola, da comunidade infestante e das condições de cultivo”, destaca a especialista da Sell Agro.

A disputa por água pode limitar a expansão celular e o crescimento das raízes. Já a concorrência por nutrientes afeta o desenvolvimento vegetativo, enquanto a restrição de luz provoca sombreamento e pode alterar a arquitetura das plantas cultivadas. Por isso, identificar as espécies presentes e conhecer o histórico do talhão são etapas importantes para definir a estratégia de manejo.

Segundo Jéssica, o planejamento começa antes da semeadura, com a dessecação pré-plantio quando indicada, e prossegue com o acompanhamento dos fluxos de emergência e a realização das intervenções nos estádios recomendados. Práticas preventivas complementam essa estratégia e ajudam a diminuir a necessidade de medidas corretivas durante a safra.

Tecnologia de aplicação influencia o controle

Além da escolha do herbicida e da janela de intervenção, a qualidade da pulverização interfere no resultado do manejo. Características como tamanho das gotas, cobertura foliar, retenção da calda e condições meteorológicas afetam a deposição e a absorção dos produtos.

Temperaturas elevadas e baixa umidade relativa do ar favorecem a evaporação das gotas e reduzem o tempo disponível para a absorção foliar. Ventos intensos aumentam o risco de deriva, enquanto chuvas ocorridas antes do período necessário para absorção de determinados herbicidas podem prejudicar o resultado. A resposta também depende do produto utilizado, da espécie infestante e do estado fisiológico das plantas.

Nesse contexto, os adjuvantes auxiliam na adequação das propriedades físicas e físico-químicas da calda, desde que sejam compatíveis com o herbicida e utilizados conforme as recomendações técnicas.

A Sell Agro conta com o Ophion 4.0, adjuvante multitarefa desenvolvido para potencializar a ação dos herbicidas, favorecendo a padronização da operação e a redução do tempo necessário para a dessecação. Já o Oleum, à base de óleo, favorece a mistura e a homogeneidade da calda. Quando há compatibilidade entre os produtos e indicação técnica para o uso conjunto, ambos podem favorecer a eficiência do processo.

Outra opção é o Teiken, adjuvante antideriva com propriedades espalhantes e adesivas, que auxilia na cobertura foliar e pode ser utilizado em aplicações terrestres ou aéreas, conforme as recomendações de uso. A seleção dessas tecnologias deve levar em conta as características do alvo, o equipamento utilizado, o herbicida e o ambiente no momento da operação.

Segundo a especialista da Sell Agro, não existe um adjuvante que resolva, isoladamente, todos os desafios da pulverização. “A escolha precisa partir da necessidade identificada em campo, considerando o herbicida, a espécie daninha, o estádio de desenvolvimento e as condições de aplicação. O produto adequado pode favorecer o desempenho da operação, mas não substitui a regulagem do pulverizador nem o planejamento do manejo”, ressalta.

Monitoramento e planejamento reduzem falhas

Entre os fatores que comprometem o controle inicial estão a identificação incorreta das espécies, a dessecação inadequada, a regulagem deficiente dos equipamentos e a repetição de herbicidas com o mesmo mecanismo de ação. Essas práticas podem provocar falhas, exigir reaplicações, elevar os custos operacionais e aumentar a pressão de seleção de plantas daninhas resistentes.

Para evitar esses problemas, o produtor deve conhecer o histórico de infestação, verificar a qualidade da água utilizada na calda, selecionar pontas e volumes de pulverização compatíveis com o alvo e acompanhar as condições meteorológicas.

Após a operação, a avaliação dos resultados permite identificar possíveis falhas e orientar as decisões seguintes. “Acompanhar o que aconteceu após a pulverização é fundamental para entender a resposta do manejo e identificar a necessidade de ajustes”, ressalta Jéssica.

O manejo integrado complementa essas medidas por meio da rotação de culturas, do uso de plantas de cobertura, de práticas culturais e da alternância planejada de mecanismos de ação dos herbicidas, sempre conforme as recomendações técnicas. A assistência técnica e o acompanhamento das atividades de campo ajudam a transformar o diagnóstico do talhão em decisões mais precisas.

O cérebro do empreendedor também pode sabotar o negócio

Empresas ampliam o uso de inteligência artificial, automação e análise de dados para ganhar produtividade, reduzir custos e tomar decisões mais rápidas. Mas a tecnologia não elimina uma variável capaz de interferir diretamente no crescimento da empresa: o cérebro do empreendedor. Vieses cognitivos, respostas emocionais e padrões de comportamento podem afetar desde a contratação de profissionais até investimentos, definição de prioridades e mudanças de estratégia.

Para Thiago Shimada, bacharel em Comunicação Social, com pós graduação em Neurociência e especialista em neuromodulação aplicada ao mecanismo decisório de donos de negócio e profissionais da alta liderança, parte dos obstáculos ao crescimento surge quando a empresa evolui mais rapidamente do que a forma de pensar de quem está no comando. “O cérebro do empreendedor pode se tornar o principal gargalo da empresa quando decisões que funcionaram no passado passam a ser repetidas automaticamente. O negócio muda de tamanho, aumenta a complexidade, mas o líder continua respondendo aos problemas com as mesmas referências”, afirma Shimada.

Quando a experiência começa a atrapalhar

Uma das explicações está nos vieses cognitivos, atalhos utilizados pelo cérebro para processar informações e fazer escolhas. O mecanismo faz parte do comportamento humano, mas pode distorcer a percepção sobre riscos, oportunidades e resultados quando não é reconhecido por quem decide.

O viés de confirmação é um exemplo. Ele leva uma pessoa a valorizar informações que reforçam aquilo em que já acredita e a dar menos peso às evidências contrárias. Na gestão empresarial, isso pode fazer um empreendedor insistir em uma estratégia porque procura dados que confirmem sua decisão, mesmo quando outros indicadores apontam a necessidade de mudança.

A aversão à perda também pode levar empresários a manter projetos e estratégias que já não entregam o retorno esperado. “A experiência ajuda a reconhecer padrões, mas também pode criar certezas difíceis de questionar. Quando o líder acredita que já sabe como uma situação vai terminar, aumenta o risco de interpretar os fatos pelas experiências anteriores”, explica o estrategista de Business Performance.

A discussão ganha relevância à medida que a inteligência artificial ocupa mais espaço na gestão das empresas. Segundo o AlixPartners Disruption Index 2026, realizado com 3.200 CEOs e executivos seniores de 11 países, 45% dos CEOs afirmam ter ficado para trás em conhecimentos e competências, enquanto 80% dos executivos estão otimistas com o impacto da inteligência artificial nas companhias. O contraste expõe um desafio para a liderança: as ferramentas conseguem cruzar dados, identificar padrões e produzir projeções rapidamente, mas a decisão sobre como interpretar essas informações e quais caminhos seguir continua nas mãos dos gestores.

Inteligência artificial não elimina decisões ruins

Para o especialista em neuromodulação, adotar ferramentas mais sofisticadas não garante melhores decisões se o comportamento de quem está no comando continuar fora da análise. Um gestor pode receber indicadores contrários à própria percepção e, ainda assim, ignorar esses dados ou buscar justificativas para manter uma escolha anterior.

“A inteligência artificial pode entregar uma análise sofisticada, mas não obriga ninguém a aceitá-la. Se o empresário procura apenas informações que confirmem aquilo em que já acredita, pode usar uma tecnologia nova para continuar tomando decisões antigas. O cérebro do empreendedor continua sendo parte central dessa equação”, ressalta o especialista em neuromodulação.

Na prática, melhorar a tomada de decisão empresarial passa por estabelecer critérios objetivos antes de escolhas importantes, confrontar percepções com indicadores, ouvir opiniões divergentes e identificar comportamentos que costumam se repetir diante de pressão, risco ou necessidade de mudança.

A dificuldade tende a ficar mais evidente conforme a companhia cresce. Uma escolha que antes afetava poucas pessoas passa a envolver equipes maiores, investimentos, fornecedores, clientes e planejamento financeiro. A capacidade do empresário de revisar convicções deixa de ser apenas uma característica individual e passa a interferir diretamente na estratégia e na performance da organização.

“O comportamento que levou uma empresa até determinado patamar não necessariamente será o mesmo que permitirá chegar ao próximo. Existe um momento em que o empresário precisa deixar de perguntar apenas o que deve mudar no negócio e começar a observar o que precisa mudar na própria forma de decidir”, aponta Shimada.

Foto: Vitaly Gariev / Pexels.com

ApexBrasil encerra semana de planejamento em Bruxelas com estratégias para transformar Acordo Mercosul–UE em negócios

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) encerrou, em Bruxelas, a agenda “Planejamento Setorial Brasil–UE: do acordo ao mercado”. Representantes do setor produtivo, dos Setores de Promoção Comercial (SECOMs) do Ministério das Relações Exteriores, adidos agrícolas do Ministério da Agricultura e Pecuária e especialistas europeus trabalharam para transformar as oportunidades do Acordo Mercosul–União Europeia em estratégias setoriais e planos de ação concretos.

A programação reuniu oito setores produtivos, 20 entidades setoriais brasileiras, 12 SECOMs de oito países e 20 especialistas europeus, em 16 sessões de trabalho. A semana incluiu ainda um encontro com membros do Parlamento Europeu, em 13 de outubro, e o EU-Brazil Industrial Partnership Forum, realizado com a BusinessEurope, no dia 15.

Do diagnóstico ao plano de ação

A agenda contemplou oito setores: café, moda, frutas frescas e processadas, sociobioeconomia, móveis e madeira, rochas naturais, máquinas e equipamentos e bioenergia. A seleção considerou as oportunidades decorrentes da redução ou eliminação de tarifas prevista no acordo, bem como a necessidade de diversificação de mercados para setores afetados pelo aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos.

Cada setor participou de uma mesa técnica e de uma plenária. Nas mesas, representantes empresariais, especialistas europeus, SECOMs e adidos agrícolas analisaram tarifas, regulamentações, tendências de consumo e barreiras comerciais. Nas plenárias, as propostas foram debatidas e validadas com a ApexBrasil e parceiros institucionais, resultando na definição de prioridades, mercados estratégicos e planos de trabalho setoriais.

Ao mesmo tempo, as discussões evidenciaram oportunidades para diversos setores brasileiros, especialmente pela capacidade de seus produtos complementarem a produção europeia, diversificarem a oferta disponível e ampliarem as alternativas para consumidores e empresas.

“Foi um trabalho enorme de planejamento, organização e agora de atuação setorial para que empresas, cooperativas e produtores consigam transformar as oportunidades do Acordo Mercosul–UE em negócios.  Foi um evento inédito, que nos permitiu reunir diferentes atores para conversas longas e produtivas”, afirmou Laudemir Müller, presidente da ApexBrasil.

A diretora de Negócios da ApexBrasil, Maria Paula Velloso, destacou o trabalho de preparação que antecedeu a agenda e a importância dos resultados alcançados. “Trouxemos várias entidades, após um trabalho prévio que envolveu mais de 30 reuniões. Durante esta semana, realizamos 16 sessões entre mesas temáticas e plenárias, nas quais especialistas compartilharam suas experiências e contribuíram para os debates. Saímos de Bruxelas com planos de trabalho para transformar as oportunidades identificadas em negócios para as empresas brasileiras no mercado europeu”, afirmou.

“Cumprimos nosso objetivo de construir uma estratégia unificada e validada pelo setor privado, pelos diplomatas, pela ApexBrasil e pelos adidos agrícolas. Este foi um passo importante para ampliar e aproveitar as oportunidades de negócios no âmbito do Acordo Mercosul–EU”, destacou Alex de Figueiredo, gerente da ApexBrasil para a Europa.

Sustentabilidade e integração das cadeias de valor

A ApexBrasil reuniu-se com membros do Parlamento Europeu, incluindo eurodeputados, em um encontro que contou com a participação do presidente da Agência. O diálogo abordou preocupações europeias relacionadas à rastreabilidade, aos compromissos ambientais e aos potenciais beneficiários do Acordo.

Foi um momento que permitiu destacar o Brasil como parceiro comercial estável e previsível, com capacidade de fornecimento de minerais críticos e produção de energia limpa. “Foi um passo muito importante para a implementação do Acordo, que será vantajoso para as empresas brasileiras e europeias”, afirmou Müller.

A ApexBrasil e a BusinessEurope realizaram, no Concert Noble, o “EU-Brazil Industrial Partnership Forum – Building Competitive, Resilient and Sustainable Value Chains”, reunindo autoridades e lideranças empresariais dos dois mercados. Em três painéis, representantes de empresas como WEG, Siemens, Vale, Embraer, Airbus e Bayer debateram a integração das cadeias de valor, as matérias-primas críticas, a energia sustentável, a inovação e a competitividade industrial.

Com as prioridades definidas, a ApexBrasil dará continuidade à implementação dos planos de trabalho, em articulação com as entidades setoriais e parceiros institucionais, para ampliar a presença de empresas e produtos brasileiros no mercado europeu.

Foto: ApexBrasil / Divulgação

Espécie nativa de árvore melhora saúde do solo ao ser integrada a pastagens

Pesquisa da Embrapa e do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena/USP) demonstrou que a árvore bordão-de-velho (Samanea tubulosa) apresenta várias vantagens ao ser usada em sistemas silvipastoris (SSP), que integram a produção pecuária com a florestal. Um dos ganhos é o aumento da qualidade biológica do solo, o qual estoca mais carbono, mantém comunidades de microrganismos mais estáveis e com maior número de espécies.

O estudo faz parte da tese de doutorado de Henrique Nery Cipriani, pesquisador da Embrapa Florestas (PR), sob a orientação da professora Tsai Siu Mui, do Cena/USP, campus de Piracicaba.

Leguminosa nativa da América Tropical, a árvore ocorre em quase todas as regiões do Brasil; por isso, tem ampla adaptabilidade no País.”Ela já era considerada uma das melhores espécies de árvore para a integração com pastagens, pois além da sombra proporcionada ao gado, ela é capaz de fixar nitrogênio no solo e ainda produz frutos apreciados pelos animais”, conta Cipriani. O pesquisador ressalta que, apesar de o aproveitamento madeireiro do bordão-de-velho não ser tão vantajoso —  diferentemente do eucalipto, por exemplo —, os vários benefícios promovidos pela leguminosa a tornam interessante para pecuaristas.

Estudo realizado na Amazônia

Realizado no campo experimental da Embrapa Rondônia (RO), o trabalho começou em 2018 e analisou amostras de solo coletadas em 2022 e 2024. No início, uma área de 14 hectares com capim-marandu foi dividida em duas parcelas iguais, uma delas recebeu 156 mudas de bordão-de-velho e a outra, 172 mudas de eucalipto. Em dois momentos, quatro anos e seis anos após o início do experimento, foram realizadas coletas de amostras de solos em diferentes profundidades.

“Um dos resultados que mais chamou a atenção foi a elevada fertilidade do solo na área com bordão-de-velho”, relata Cipriani. Nessa parcela foi encontrada quantidade mais expressiva de matéria orgânica e menor acidez. A análise da microbiota, que avaliou bactérias e arqueias, também revelou maior diversidade do que a observada no solo com eucalipto.

Além disso, a pesquisa mostrou que o bordão-de-velho tem um alcance mais abrangente de modulação da microbiota, como é chamada a influência da árvore ao favorecer a presença desses microrganismos. “Encontramos essa influência a até cinco metros de distância da árvore e em profundidades maiores, o que mostra uma ampla área de modulação. Esse alcance não ocorreu com os eucaliptos”, conta o pesquisador.

O perfil das bactérias identificadas na área com bordão-de-velho também foi distinto, com mais alta proporção de microrganismos associados a processos envolvendo nitrogênio e à decomposição de compostos aromáticos. Essa característica indica potencial para degradar moléculas tóxicas, segundo explica o cientista da Embrapa.

“Cada espécie de planta recruta microrganismos de forma diferente, atraindo aqueles mais favoráveis ao seu desenvolvimento. No caso do bordão-de-velho, foi comum encontrar bactérias e arqueias associadas ao nitrogênio, o que está relacionado à capacidade da árvore de fixar esse nutriente”, detalha Cipriani.

Foto: Nina Machado Suzigan

A agricultura pode ajudar a reflorestar? Pesquisadores brasileiros de nanotecnologia mostram que sim

O Brasil assumiu o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, área equivalente a quase três vezes o território do estado do Rio de Janeiro. A dimensão da meta, prevista no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), ajuda a revelar um desafio que vai além de plantar árvores: para que uma área seja efetivamente restaurada, as mudas precisam sobreviver e se desenvolver em ambientes que muitas vezes já perderam parte das condições que sustentavam a vegetação original.

Solos degradados, períodos de baixa disponibilidade de água, temperaturas elevadas e exposição intensa à radiação solar estão entre os fatores que podem dificultar o estabelecimento das plantas após o transplante. É nesse período inicial que uma tecnologia originalmente investigada em diferentes frentes da agricultura começa a ganhar espaço também na restauração ambiental.

Pesquisas desenvolvidas na Amazônia e na Mata Atlântica estão avaliando o uso de nanotecnologia para produzir mudas mais preparadas para enfrentar as condições encontradas depois que deixam o viveiro. Nanoformulações, nanopartículas e pontos quânticos de carbono são estudados por sua capacidade de interferir em processos fisiológicos das plantas, favorecendo características relacionadas à fotossíntese, ao uso da água, ao crescimento e à resposta a estresses ambientais.

A aproximação entre nanoagricultura e restauração florestal também mobiliza pesquisadores ligados ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro). Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), uma das frentes coordenadas pelo professor Halley Caixeta de Oliveira, vice coordenador do INCT NanoAgro, investiga como ferramentas semelhantes às estudadas para tornar plantas agrícolas mais resistentes podem ser empregadas na preparação de espécies nativas destinadas à recuperação da Mata Atlântica.

Da lavoura para a floresta

Na agricultura, diferentes aplicações da nanotecnologia vêm sendo estudadas para melhorar a eficiência no uso de insumos e modular respostas das plantas diante de condições adversas. No reflorestamento, parte dessa lógica pode ganhar uma nova finalidade. Em vez de aumentar a capacidade de uma cultura agrícola atravessar um período de déficit hídrico ou outro estresse, por exemplo, a tecnologia pode ser utilizada para preparar uma muda nativa para o momento crítico em que ela deixa as condições controladas do viveiro e passa a enfrentar o ambiente de uma área em restauração.

O grupo coordenado por Halley investiga nanopartículas capazes de liberar moléculas doadoras de óxido nítrico e pontos quânticos de carbono. Os estudos realizados até agora indicam efeitos sobre processos como fotossíntese, eficiência no uso da água, adaptação ao sol pleno e desenvolvimento inicial das mudas. Essas respostas são particularmente importantes porque uma muda produzida em viveiro encontra condições bastante diferentes depois do plantio. A disponibilidade de água deixa de ser controlada, a incidência de luz pode aumentar significativamente e o sistema radicular precisa se estabelecer em um solo que pode apresentar limitações físicas, químicas e biológicas.

A proposta, portanto, não é utilizar nanotecnologia para substituir as estratégias ecológicas necessárias à restauração de uma área, mas investigar se ela pode aumentar a qualidade fisiológica das mudas que serão levadas ao campo e ajudá-las a atravessar uma das etapas mais vulneráveis do processo de reflorestamento.

Na Amazônia, tecnologia acompanha a muda depois do plantio

A possibilidade de aplicação ganhou novas perspectivas a partir de uma visita de Halley ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), onde conheceu uma iniciativa que utiliza nanotecnologia em espécies amazônicas destinadas ao reflorestamento. No projeto, os pesquisadores avaliam os efeitos de uma nanoformulação sobre o crescimento e a fisiologia das plantas, sua resistência a estresses ambientais e a captura de carbono. Um dos diferenciais é acompanhar a tecnologia para além da produção das mudas.

Os testes incluem plantas inseridas em diferentes sistemas de cultivo, como áreas com uma única espécie, plantios mistos e sistemas agroflorestais. As aplicações também podem continuar depois do transplante, permitindo acompanhar a resposta das árvores durante sua adaptação às condições de campo. Essa passagem do viveiro para a área de restauração é essencial para determinar se benefícios observados durante a produção das mudas permanecem quando fatores ambientais deixam de ser controlados.

Reflorestamento também pode gerar renda

A experiência amazônica acrescenta outra dimensão à discussão: a escolha das espécies pode aproximar recuperação ambiental, captura de carbono e geração de renda para populações locais. A castanheira está entre as espécies estudadas. Além de integrar estratégias de recomposição da vegetação amazônica, a árvore produz um recurso florestal de valor econômico que pode ser explorado sem a necessidade de derrubá-la.

Em sistemas agroflorestais, essa lógica pode ser combinada a espécies que começam a produzir em períodos mais curtos. Culturas como banana e cacau podem integrar os arranjos enquanto as árvores de maior porte se desenvolvem, criando possibilidades de geração de renda durante um processo de restauração que naturalmente ocorre em horizonte de longo prazo. Nesse contexto, aumentar a capacidade das mudas de se estabelecerem no campo interessa não apenas à recuperação ecológica. A sobrevivência e o desenvolvimento das plantas também são condições para que os modelos produtivos associados à floresta consigam se sustentar economicamente.

Testes avançam para condições reais de restauração

Na Mata Atlântica, as pesquisas coordenadas por Halley também começam a ultrapassar as condições de laboratório e viveiro. Além dos experimentos conduzidos nas fazendas escola da UEL e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), uma nova frente está sendo iniciada em parceria com a RPPN Monte Sinai e o Criadouro Onça Pintada. A etapa permitirá observar como mudas tratadas com nanotecnologia respondem às condições encontradas efetivamente em áreas de restauração. É uma transição importante porque fatores que podem ser controlados experimentalmente passam a interagir simultaneamente no campo.

Seca, temperatura, radiação, características do solo e competição com outras plantas, por exemplo, podem influenciar o estabelecimento das espécies. Avaliar a tecnologia nesse cenário permite verificar se as respostas fisiológicas observadas anteriormente se traduzem em vantagens durante o desenvolvimento das mudas.

A aproximação entre essas pesquisas mostra como conhecimentos produzidos para a agricultura podem encontrar aplicações em outros desafios ambientais. Processos fisiológicos que determinam a capacidade de uma cultura agrícola enfrentar falta de água ou temperaturas elevadas também estão presentes em uma árvore recém-plantada em uma área degradada. A diferença está no objetivo. Na lavoura, busca-se proteger a produtividade de uma cultura. Na restauração, a mesma base de conhecimento pode ser utilizada para aumentar as chances de uma muda sobreviver, crescer e participar da reconstrução de um ecossistema.

Ainda há etapas importantes antes que essas tecnologias possam ser incorporadas em larga escala a programas de reflorestamento. Os estudos precisam avaliar, entre outros aspectos, desempenho em campo, duração dos efeitos, doses adequadas para diferentes espécies e segurança ambiental das aplicações. Os experimentos conduzidos na Amazônia e na Mata Atlântica, porém, começam a aproximar essas perguntas das condições reais de restauração.

Para o INCT NanoAgro, essa conexão também amplia as possibilidades de aplicação da nanotecnologia desenvolvida no país. A rede reúne pesquisadores de diferentes instituições em oito frentes de atuação voltadas à agricultura e à sustentabilidade, trabalhando em parceria com instituições científicas, startups e empresas. Ao levar parte desse conhecimento para espécies nativas, a pesquisa adiciona uma nova possibilidade à nanotecnologia agrícola brasileira, em que, além de ajudar plantas cultivadas a enfrentar ambientes adversos, preparar árvores para voltar a ocupar áreas onde a floresta precisa ser reconstruída.

Foto: Mikhail Nilov / Pexels.com

Finados: data continua importante para a floricultura, apesar das mudanças nos hábitos de consumo

Embora o hábito de levar flores aos cemitérios venha perdendo força ao longo dos anos, o Dia de Finados continua sendo uma data importante para o mercado brasileiro de flores e plantas ornamentais, mantendo sua relevância para produtores, atacadistas e varejistas de todo o País.

No Ceaflor, maior mercado atacadista brasileiro de flores, plantas, insumos e acessórios para floricultura e decoração, a preparação para a data envolve planejamento antecipado, atenção às oscilações da demanda e estratégias para enfrentar os desafios da produção. Crisântemos, kalanchoes e kalandivas permanecem entre as variedades tradicionalmente associadas à data, mas há espaço para as violetas e outras flores envasadas.

O cenário, no entanto, exige decisões cada vez mais criteriosas dos produtores. O aumento dos custos de produção, somado à dificuldade de contratação de trabalhadores no campo e às oscilações climáticas, torna ainda mais complexa a definição dos volumes a serem cultivados para uma data sazonal.

É o caso de Yasuaki Shimano, da Flora Shimano, que reduziu em 30% a produção de crisântemos e em 10% a de kalandivas em relação ao ano passado. A decisão foi motivada principalmente pela elevação dos custos e pela incerteza na comercialização. “Para este ano, disponibilizamos 90 mil vasos apenas”, comenta.

A estratégia contrasta com a adotada pelo engenheiro agrônomo e produtor rural Caio Shiroto, da Flora Shiroto, que ampliou a produção de crisântemos para fazer jus ao elevado número de pedidos por parte dos clientes. A decisão acompanha a percepção de crescimento da procura por esses produtos e a oportunidade de suprir o mercado em uma data tradicional da floricultura.

“Mantemos sempre uma postura otimista. Ano a ano, aprimoramos o manejo para entregar um produto de qualidade superior. A filosofia do nosso negócio é garantir um excelente produto para que nossos clientes tenham sucesso nas vendas, gerando, como consequência, crescimento de demanda para o próximo ano”, afirma.

Shiroto ressalta, entretanto, que o cultivo de crisântemos destinados a Finados requer planejamento e controle rigoroso do calendário de produção.

Adaptação às novas demandas

As mudanças no comportamento dos consumidores também influenciam o planejamento do setor. A tradição de levar flores aos cemitérios permanece mais presente entre as gerações mais velhas, enquanto a redução desse hábito entre os mais jovens e o crescimento da opção pela cremação contribuem para transformar o perfil da demanda.

Diante desse cenário, produtores e comerciantes buscam ampliar as possibilidades de comercialização, tanto pela diversificação das variedades oferecidas quanto pela exploração de outros mercados e ocasiões de consumo. Violetas, antúrios e plantas verdes, por exemplo, ajudam a ampliar o portfólio associado à data.

Para o presidente do Ceaflor, Antônio Carlos Rodrigues, a capacidade de adaptação dos produtores é fundamental para manter a competitividade e atender às diferentes demandas do mercado. “Finados continua sendo uma data relevante para o setor e mobiliza produtores de diferentes regiões do País. Ao mesmo tempo, acompanhamos mudanças nos hábitos de consumo e a busca por alternativas que permitam ampliar as oportunidades de venda. Nossos produtores trabalham para oferecer variedade e qualidade, conciliando as exigências do mercado com os desafios da produção”, afirma.

Mesmo diante das transformações culturais e dos custos crescentes, Finados permanece no planejamento anual da floricultura brasileira e o Ceaflor busca manter a oferta produtos que ajudam as famílias a expressar carinho, saudade e homenagem aos que já partiram.

Acordo Mercosul-EFTA abre novas oportunidades para exportações do agronegócio brasileiro à Noruega

O agronegócio brasileiro terá novas oportunidades de acesso ao mercado norueguês a partir de hoje (01/11), com a entrada em vigor dos benefícios tarifários previstos no acordo entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA). A regulamentação estabelece os procedimentos para utilização das cotas de exportação de produtos agropecuários, entre eles carne bovina, carne de aves, mel natural, milho, trigo duro, maçãs frescas e farinha de soja.

A medida abre espaço para ampliar a presença de produtos brasileiros em um mercado de elevado poder aquisitivo, com condições tarifárias preferenciais que podem aumentar a competitividade frente a fornecedores de países que não possuem acordos semelhantes. Entretanto, o aproveitamento das oportunidades dependerá do cumprimento de exigências comerciais, sanitárias e documentais, além da disponibilidade dos volumes estabelecidos para cada produto.

Segundo a advogada Anna Dolores Sá Malta, especialista em comércio exterior e ex-conselheira do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), a entrada em vigor das novas condições representa uma oportunidade estratégica para empresas que pretendem diversificar seus destinos de exportação. “A Noruega é um mercado de alto poder aquisitivo e a preferência tarifária pode tornar o produto brasileiro mais competitivo. Além do potencial de ampliar as vendas, a presença nesse mercado também pode funcionar como uma vitrine para outros destinos europeus”, explica.

Entre os segmentos com maior potencial de aproveitamento estão as cadeias de carnes, mel e milho. Para produtores e exportadores do Nordeste, a especialista também identifica oportunidades relacionadas ao mel, às frutas e aos seus derivados, desde que as mercadorias estejam contempladas nas condições preferenciais e atendam às exigências de entrada no país.

Disputa por cotas exige planejamento dos exportadores

Um dos principais pontos de atenção é o funcionamento das cotas tarifárias. Em 2026, não haverá distribuição prévia dos volumes entre os países integrantes do Mercosul. A alocação seguirá a ordem de apresentação dos pedidos, o que coloca exportadores brasileiros em concorrência direta com empresas dos demais países do bloco.

“Na prática, é uma disputa em que quem chega primeiro tem mais chances de garantir o benefício. Como não existe uma divisão antecipada das cotas entre os países do Mercosul, há risco de os volumes disponíveis serem rapidamente preenchidos, especialmente nos produtos mais atrativos. As empresas que estiverem com documentação, origem e logística organizadas terão vantagem”, alerta Anna Dolores.

Para solicitar o benefício, o exportador deverá registrar o pedido de licença no módulo de Licenças, Permissões, Certificados e Outros Documentos (LPCO), disponível no Portal Único Siscomex. A Secretaria de Comércio Exterior (Secex) será responsável por verificar a disponibilidade da cota, reservar o volume solicitado e analisar a licença.

Após o deferimento, a empresa terá até 60 dias para vincular a licença à Declaração Única de Exportação (DU-E). Com a conclusão do desembaraço aduaneiro, será disponibilizado o Certificado de Autorização de Cotas Mercosul, documento necessário para a utilização da preferência tarifária na Noruega.

O descumprimento dos prazos pode comprometer a operação. Caso a licença não seja vinculada à declaração de exportação dentro do período estabelecido, a autorização perde a validade e o volume reservado retorna à cota disponível.

Além da disputa pelos volumes, os exportadores precisarão observar as regras sanitárias e fitossanitárias exigidas pelo mercado norueguês. Para produtos de origem animal, como carnes e mel, a habilitação dos estabelecimentos, a certificação sanitária e os mecanismos de rastreabilidade estão entre os pontos que exigem maior atenção. Também será necessário comprovar a origem das mercadorias e cumprir os padrões de qualidade e rotulagem aplicáveis ao produto.

“A redução tarifária, por si só, não garante a entrada da mercadoria. É necessário verificar se o estabelecimento está habilitado, se o produto atende às exigências sanitárias e se toda a documentação está adequada. Uma falha nesse processo pode impedir o embarque ou comprometer o acesso ao benefício”, destaca a advogada.

O cenário também impõe desafios aos pequenos e médios exportadores. Embora possam participar das operações, essas empresas tendem a enfrentar maiores dificuldades diante dos custos de certificação, das exigências regulatórias e da necessidade de organização logística. Para Anna Dolores, alternativas como cooperativas, consórcios de exportação e parcerias com empresas comerciais exportadoras podem facilitar o acesso ao mercado.

A especialista também aponta a importância do apoio de entidades setoriais e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), especialmente para empresas que ainda não possuem experiência em operações internacionais.

A orientação é que os exportadores revisem seus cadastros e habilitações no Siscomex, confiram a documentação de origem, verifiquem as condições sanitárias e ajustem os contratos comerciais com os importadores noruegueses. Questões como responsabilidades pelo transporte, prazos de entrega, condições de pagamento e utilização da preferência tarifária devem estar previamente definidas. “O exportador precisa olhar para toda a operação, não apenas para a redução do imposto. É fundamental revisar os contratos, conferir a origem da mercadoria, verificar as habilitações e planejar a produção e o embarque dentro do prazo de 60 dias. O acompanhamento jurídico e comercial ajuda a evitar a perda de cotas e problemas que podem comprometer a rentabilidade da exportação”, conclui Anna Dolores Sá Malta.

Foto: Magnifc

A virada de chave no campo: como a gestão programada de insumos protege a rentabilidade da lavoura

por Ivan Moreno*

Garantir margem de lucro no agronegócio exige olhar além do volume colhido por hectare. Em um mercado onde a cotação das commodities oscila pelas bolsas internacionais, do câmbio e das tensões geopolíticas, o produtor rural praticamente não interfere no preço final do seu produto. Diante dessa realidade, o controle rigoroso das despesas operacionais tornou-se o principal motor de sustentabilidade financeira dentro da porteira.

Sementes, fertilizantes, defensivos e combustível representam a fatia do orçamento sobre a qual o agricultor exerce poder direto de decisão. Com isso, determinar o instante exato da compra, o volume ideal e os termos de pagamento deixou de ser um ato meramente operacional para assumir papel decisivo no planejamento estratégico e na saúde do caixa da fazenda.

A previsibilidade de custos ganha força ao permitir o fracionamento das aquisições ao longo de todo o ano agrícola. Esse modelo mitiga a exposição aos picos de preços no mercado à vista e amplia a eficácia de mecanismos como as operações de barter e os contratos de entrega futura, alinhando as despesas à expectativa real de faturamento.

Nesse processo de tomada de decisão, o acervo de informações da própria propriedade funciona como um guia indispensável. O cruzamento de dados de safras anteriores, como produtividade por talhão, histórico de pragas e resposta das cultivares, auxilia no dimensionamento preciso das demandas de cada fase da lavoura, coibindo desperdícios com estoques parados ou compras feitas às pressas. Do mesmo modo, o raio-x financeiro dos ciclos passados revela parâmetros essenciais para avaliar se uma oferta comercial é realmente vantajosa para a saúde da operação.

Na contramão dessa eficiência, adiar a compra de insumos para a véspera do plantio sujeita o produtor a turbulências do mercado e a entraves logísticos. A pressa sufoca a capacidade de negociar valores, comparar fornecedores e organizar os recebimentos, estrangulando o fluxo de caixa. A alternativa inteligente é diluir as aquisições em janelas estratégicas ao longo do calendário, acompanhando o comportamento do mercado para fechar negócio no momento em que as condições atendam às metas da fazenda. A finalidade não é adivinhar o ponto mínimo da cotação, mas evitar flutuações bruscas e consolidar um custo médio equilibrado.

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O papel da tecnologia na transformação das compras agrícolas

A expansão dos ecossistemas e marketplaces digitais no campo acelerou essa transição na gestão de suprimentos. Ao integrar distribuidores e indústrias em um único ambiente, essas ferramentas trazem transparência às cotações e agilizam a verificação de prazos e estoques em tempo real.

O histórico registrado nessas plataformas permite antever necessidades e identificar padrões de consumo com base em inteligência de dados. Essa integração transforma a relação comercial com a cadeia produtiva: o modelo reativo de compras isoladas dá lugar a parcerias contínuas. Recursos como a entrega programada, por exemplo, viabilizam a fixação de preços atrativos com antecedência, sem exigir a recepção imediata ou o armazenamento antecipado dos insumos na fazenda.

Frente a um mercado repleto de incertezas externas, a previsibilidade na aquisição de insumos firma-se como um diferencial competitivo indispensável. Apostar em compras recorrentes e planejadas significa substituir a reatividade pela gestão de dados, usando a tecnologia para mitigar riscos, otimizar recursos e proteger a rentabilidade do negócio agrícola.

*CEO da Orbia, plataforma digital integrada do agronegócio.

Energia já pesa no custo por hectare, mas ainda é gerida apenas pela conta de luz

A energia elétrica deixou de representar apenas uma despesa operacional nas propriedades rurais. Com o avanço da irrigação, da armazenagem, da refrigeração e da automação, o consumo passou a influenciar diretamente o custo por hectare, a produtividade e a margem do produtor.

Mesmo assim, em muitas propriedades, a gestão energética ainda se resume à comparação entre a conta atual e a do mês anterior. O valor final da fatura, porém, não mostra se a energia está sendo utilizada nos horários mais adequados, se a demanda contratada corresponde à necessidade da operação ou se o contrato acompanha a sazonalidade da produção.

O tema ganha importância diante da expansão da agricultura irrigada. O Brasil possui cerca de 8,5 milhões de hectares irrigados e potencial para alcançar 55 milhões. A disponibilidade de energia confiável e acessível, no entanto, ainda é apontada como um dos obstáculos ao crescimento desse modelo de produção.

A dependência energética também está presente no bombeamento de água, na secagem e armazenagem de grãos, na climatização de granjas, na ordenha mecanizada e na refrigeração de leite, carnes, frutas e hortaliças.

Para Gustavo Sozzi, CEO da Lux Energia, esse cenário exige uma mudança na forma como o produtor acompanha o consumo. “A energia deixou de ser apenas uma conta que chega no fim do mês. Em propriedades com irrigação, refrigeração ou armazenagem, ela está diretamente ligada ao volume produzido, à conservação dos alimentos e à rentabilidade da operação. Por isso, precisa ser administrada como um insumo”, afirma.

Em atividades intensivas, uma redução indiscriminada do consumo pode provocar perdas superiores à economia obtida. Limitar a irrigação em um período crítico da cultura, reduzir a refrigeração ou adiar a secagem de grãos pode comprometer produtividade, qualidade e segurança da produção.

O desafio, portanto, não é alcançar o menor consumo possível, mas utilizar a energia de maneira mais eficiente. Entre os fatores que podem elevar os gastos estão a contratação de uma demanda superior à necessidade da propriedade, o funcionamento simultâneo de equipamentos, a concentração de atividades em horários mais caros e a manutenção de contratos que não consideram as diferenças entre os períodos de safra e entressafra.

“Uma propriedade pode ter um consumo elevado porque está produzindo mais, o que não representa necessariamente um problema. A ineficiência aparece quando a conta cresce sem que exista aumento proporcional da produção ou quando custos poderiam ser evitados com ajustes operacionais e contratuais”, explica Sozzi.

A sazonalidade torna essa análise especialmente importante no campo. O consumo pode variar conforme o regime de chuvas, a temperatura e as etapas de plantio, colheita, processamento e armazenagem. Um contrato adequado ao período de maior atividade pode ficar superdimensionado durante os meses de menor operação.

Custo energético pode virar indicador de produtividade

Com a profissionalização da gestão rural, a tendência é que o gasto com energia seja relacionado aos indicadores de produção. Em vez de acompanhar apenas o total da fatura, o produtor pode analisar o custo por hectare irrigado, tonelada armazenada, litro de leite refrigerado ou volume processado.

Esse acompanhamento permite identificar se o aumento da despesa está associado ao crescimento da produção ou à perda de eficiência.

A energia também precisa entrar na gestão de risco. Falhas ou oscilações no fornecimento podem interromper sistemas de irrigação, comprometer câmaras frias, afetar granjas automatizadas e provocar perdas em produtos que dependem de temperatura controlada.

Segundo Sozzi, não existe uma solução única para todas as propriedades. Ajustes contratuais, eficiência energética, geração distribuída, autoprodução e entrada no mercado livre podem ser alternativas, dependendo do perfil de consumo e da estrutura da operação.

“O ponto de partida deve ser conhecer como, quando e onde a energia é consumida. Sem esse diagnóstico, o produtor corre o risco de contratar uma solução que parece econômica, mas não corresponde às necessidades da propriedade”, ressalta.

Para o executivo, a evolução tecnológica do agronegócio precisa ser acompanhada pela gestão energética. “O campo incorporou máquinas, sensores e sistemas cada vez mais sofisticados. A energia que sustenta essa estrutura também precisa ser planejada. Quem conhece o próprio perfil de consumo consegue controlar custos e proteger a produtividade sem tomar decisões apenas pela fatura”, conclui.

Seguro rural: nova lei que regulamenta o direito do banco de receber a indenização do seguro antes do produtor completa um mês

Produtores que financiam a safra com empréstimo bancário atrelado a seguro agrícola passam a ter, a partir de agora, uma resposta clara em lei: quando o banco exige a cessão da apólice como garantia do crédito, é ele, não o produtor, quem recebe primeiro o dinheiro da indenização, se a lavoura se perder. Essa possibilidade, que a Lei nº 15.526/2026 agora formaliza, já era prática comum nas operações de custeio rural, segundo o advogado Maurício Gewehr, especialista em contratos e negociações complexas: o seguro pode quitar a dívida e não deixar recursos para recomeçar.

“A lei não obriga isso em todo seguro rural, ela permite, de forma expressa, que o banco exija essa prioridade como condição do crédito. Na prática, isso já acontecia nos empréstimos para custeio da safra, e agora está escrito na lei. O que o produtor precisa entender é que, quando essa cláusula existe no contrato, o dinheiro do seguro vai primeiro para pagar a dívida, e pode não sobrar o suficiente para começar a próxima safra”, explica Gewehr, mestre em Direito da Empresa e dos Negócios.

A nova lei também passou a exigir prazos da seguradora depois de uma perda: até 15 dias para decidir e pagar quando basta analisar os documentos enviados pelo produtor, e até 30 dias quando é preciso visitar a lavoura ou esperar o fim da colheita para calcular o prejuízo. Antes, não havia prazo definido em lei, e o pagamento podia se arrastar sem data certa.

Para Gewehr, a mudança reforça a necessidade de olhar financiamento e seguro como uma coisa só, não dois papéis separados. “Sabemos que, na prática, o contrato de financiamento já chega praticamente pronto, com pouco espaço para discutir cláusula por cláusula. Ainda assim, vale a pena perguntar e deixar por escrito se essa condição está no contrato, quem recebe o dinheiro do seguro primeiro, e o que acontece com o valor que sobrar, se sobrar. Essa resposta muda o planejamento de quem vai plantar de novo”, orienta o advogado.

Essa clareza também interessa a quem está do outro lado da mesa. Para fornecedores e instituições que financiam o agro, deixar essa condição explícita desde a assinatura evita discussão e desgaste caso a lavoura seja perdida, todas as partes já sabem, de antemão, como o dinheiro será dividido.