Safra 2026/27 começa antes do plantio e coloca margem no centro das decisões do produtor

A safra brasileira de grãos 2026/27 começa a ser definida antes mesmo da entrada das plantadeiras no campo. Para o produtor de soja, uma parcela relevante da margem já está contratada, enquanto a comercialização ainda está abaixo da média histórica e o clima começa a ganhar importância nas decisões para os próximos meses. Nesse cenário, o desafio passa a ser equilibrar proteção de receita, custos já assumidos e flexibilidade para aproveitar novas oportunidades de mercado.

As primeiras projeções apontam para uma área de soja entre 49,0 milhões e 49,5 milhões de hectares, crescimento de apenas 0,3% a 1,2% em relação ao ciclo anterior. Com uma expansão limitada da área, a produtividade passa a ter peso ainda maior para determinar o tamanho da próxima safra. Para que a produção brasileira continue avançando, será necessário obter ganhos de rendimento por hectare.

De acordo com Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, a configuração da nova temporada exige que o produtor olhe para a margem antes mesmo do início efetivo do plantio. “Uma parte importante da estrutura de custos já está definida, então as decisões comerciais passam a ter um peso maior sobre a margem. O produtor precisa avaliar quanto da receita pode ser protegida agora sem perder a flexibilidade necessária para o restante do ciclo”.

Fertilizantes já representam uma parcela definida do custo

A compra de insumos é um dos pontos que ajudam a explicar por que a margem da safra começa a ser construída antecipadamente. Até o fim de julho, cerca de 82% das necessidades de fertilizantes para a soja 2026/27 já estavam contratadas no país.

Na relação de troca, o MAP exigia 45,3 sacas de soja por tonelada em Sorriso, patamar 27,7% acima da média de quatro anos. Já o KCl estava praticamente em linha com a referência histórica. Com isso, parte relevante do custo por hectare já está definida antes do plantio, fazendo com que o preço de venda e a produtividade efetivamente alcançada ganhem importância na formação da margem.

“O momento de compra dos insumos e o momento de venda da produção precisam ser analisados em conjunto. Quando uma parcela do custo já está contratada, movimentos favoráveis de preço podem ser utilizados para proteger parte da margem e reduzir a exposição da operação”, explica Isabella.

Soja encontra janela para avançar na comercialização

A comercialização da soja 2026/27 está próxima de 15% da produção nacional, ligeiramente acima dos 14,5% registrados no mesmo período do ciclo anterior, mas ainda abaixo da média histórica de aproximadamente 21%.

O cenário atual, porém, abre espaço para uma postura mais ativa. Chicago opera acima dos US$ 13,00, enquanto os prêmios nos portos ajudam a sustentar referências consideradas favoráveis mesmo diante das oscilações da bolsa e do câmbio.

Para os produtores que ainda estão pouco vendidos, a Biond Agro avalia que o momento permite avançar gradualmente nas travas, chegando perto de 45% de uma produção conservadora. A estratégia busca proteger parte da margem antes que o risco climático brasileiro tenha maior influência sobre as cotações.

“O produtor não precisa tomar uma decisão de uma única vez. A construção de margem pode ser feita por etapas, aproveitando momentos em que a relação entre preço de venda e custo contratado seja favorável”, afirma Isabella.

Calendário de plantio coloca clima no centro das atenções

A largada da safra também será diferente entre os estados brasileiros devido ao calendário do vazio sanitário. No Paraná, Norte, Noroeste, Centro-Oeste e Oeste, o plantio está liberado desde 1º de setembro. Em Mato Grosso, a abertura ocorreu em 7 de setembro. Já outras regiões do Paraná e Goiás terão liberações ao longo de setembro, com Goiás iniciando apenas no dia 25.

Em Mato Grosso, por exemplo, uma melhora da umidade antes da abertura oficial não é suficiente para antecipar o início da semeadura. Depois da liberação, o ritmo dependerá da combinação entre água disponível no solo e continuidade das precipitações. Em Goiás, a abertura mais tardia concentra parte dessa decisão no fim de setembro e aumenta a importância das condições de outubro para o avanço da safra.

El Niño aumenta o peso da produtividade

O clima ganha ainda mais relevância em uma temporada de pouca expansão de área. Segundo o boletim, há probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte entre setembro e novembro, com possibilidade de permanência do fenômeno até o início de 2027.

No Brasil Central, eventuais atrasos ou interrupções na reposição de umidade podem reduzir o ritmo de plantio, aumentar a necessidade de replantio e comprometer o potencial produtivo. No Sul, por outro lado, o excesso de chuva pode reduzir os dias disponíveis para operação e aumentar a pressão de doenças.

“Quando a expansão de área é pequena, qualquer desvio de produtividade passa a ter um impacto maior sobre a produção nacional. Por isso, o clima precisa ser acompanhado não apenas pelo efeito que pode ter sobre os preços, mas também pela capacidade de alterar o potencial produtivo da safra”, avalia Isabella.

Milho ainda deixa espaço para novas decisões

O mesmo princípio de construção gradual de margem aparece no milho, mas em um estágio diferente. Enquanto cerca de 60% da safra atual já foi comercializada, apenas 10% da produção de milho 2026/27 havia sido negociada, deixando grande parte do volume futuro exposta às oscilações do mercado.

A relação entre milho e ureia voltou para perto da média dos últimos cinco anos, ao redor de 57 sacas por tonelada de fertilizante. Ao mesmo tempo, a ureia no Brasil voltou a ganhar firmeza, com referências próximas de US$ 430 a US$ 445 por tonelada CFR.

O clima também pode criar novas oportunidades. Um aumento do risco sobre a soja e, consequentemente, sobre a janela de plantio da segunda safra tende a elevar a volatilidade do milho 2027. Nesse contexto, construir margem em etapas ganha importância.

Safra começa com menos espaço para erro

A combinação entre pouca expansão de área, custos parcialmente definidos, comercialização abaixo da média histórica e incertezas climáticas faz com que o timing das decisões tenha um papel maior na safra 2026/27. Na soja, o ambiente atual permite antecipar parte da receita antes que o clima brasileiro ganhe ainda mais peso sobre os preços. No milho, a baixa comercialização da próxima temporada mantém aberta a possibilidade de aproveitar novas janelas de preço ao longo dos próximos meses.

“A estratégia para a nova safra passa por entrar no plantio com parte da margem já protegida, mas mantendo flexibilidade para aproveitar as oportunidades que podem surgir durante o ciclo. O equilíbrio entre proteção e exposição é o que vai permitir ao produtor administrar melhor os riscos da temporada”, conclui Isabella.

Mais do que buscar o melhor preço ou antecipar todas as decisões, a safra 2026/27 exige uma visão integrada entre custos, comercialização, produtividade e clima. Com parte da margem podendo ser definida antes mesmo do plantio, o produtor que acompanhar esses fatores de forma conjunta terá mais espaço para ajustar sua estratégia ao longo do ciclo.

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Crescimento da empresa exige liderança preparada para a próxima fase

Oito em cada dez empregadores brasileiros relatam dificuldade para encontrar profissionais com as competências necessárias em 2026, segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos do ManpowerGroup. Diante desse desafio, 44% das empresas no país priorizam a capacitação e a requalificação dos funcionários que já fazem parte da organização. A estratégia ganha importância à medida que os negócios crescem e novas equipes, clientes, áreas e unidades passam a exigir lideranças preparadas para administrar uma operação mais complexa.

Para Marcelo Simonato, administrador, sócio e vice-presidente da Board Academy, edtech global especializada na formação de conselheiros, executivos e empresários, o crescimento modifica não apenas o tamanho da companhia, mas também a forma como as decisões precisam ser distribuídas. Maurício França, psicólogo e diretor de Recursos Humanos da Board Academy, acrescenta que esse momento pode ser aproveitado para desenvolver profissionais que já conhecem a cultura e a estratégia do negócio.

“Uma empresa que cresceu não pode necessariamente continuar tomando decisões da mesma maneira de quando tinha uma estrutura menor. Chega um momento em que é preciso ampliar a autonomia, distribuir responsabilidades e preparar mais pessoas para participar das decisões”, afirma Simonato.

Crescer também muda o papel dos gestores

A transformação pode ser percebida quando profissionais que antes estavam concentrados na execução passam a coordenar equipes, responder por resultados e tomar decisões com impacto sobre outras áreas. O Global Leadership Forecast 2025, da consultoria DDI, que ouviu 10.796 líderes, aponta estratégia e gestão da mudança entre as principais competências que precisam ser fortalecidas pelas organizações. Outro levantamento da consultoria mostrou que 81% dos líderes em ascensão ainda não demonstram domínio consistente da delegação.

Na avaliação de Simonato, o desenvolvimento de novas lideranças permite que a própria empresa amplie sua capacidade de execução. “Um excelente profissional técnico pode se tornar um ótimo gestor, mas essa passagem precisa ser construída. Liderar envolve estabelecer prioridades, desenvolver pessoas, acompanhar resultados e entender quando decidir sozinho e quando envolver outras áreas”, explica.

A discussão também chegou à agenda dos CEOs. Na 29ª CEO Survey da PwC, divulgada em 2026, 33% dos presidentes de empresas brasileiras afirmaram enfrentar dificuldades para contratar profissionais necessários às transformações de seus negócios. Outros 36% disseram que desafios relacionados à retenção de talentos já afetam o desempenho operacional.

Para Maurício França, o desenvolvimento funciona melhor quando está conectado aos planos concretos da organização. “Capacitação precisa responder a uma necessidade real do negócio. Se a empresa pretende abrir unidades, ampliar uma operação ou preparar uma sucessão, é possível identificar quais competências serão necessárias e desenvolver essas pessoas antes que as novas responsabilidades cheguem”, afirma.

Formação acompanha a estratégia

Esse diagnóstico permite transformar treinamento em parte da estratégia empresarial. Uma companhia que pretende avançar para novos mercados, incorporar operações ou preparar uma troca de comando pode mapear previamente quem tem potencial para assumir funções maiores, quais competências precisam ser desenvolvidas e quais decisões podem ganhar mais autonomia.

O movimento também abre espaço para valorizar profissionais internos. Pessoas que conhecem clientes, processos e a cultura da organização podem assumir responsabilidades maiores quando recebem preparação adequada e critérios claros de atuação.

“Desenvolver lideranças não significa simplesmente descentralizar tudo. Significa criar níveis de responsabilidade compatíveis com cada função e dar condições para que os gestores tomem boas decisões dentro desses limites”, diz Simonato.

O que fazer quando a estrutura precisa acompanhar o crescimento

Para empresas que identificam essa mudança, Simonato e França recomendam começar pela própria operação, antes de contratar treinamentos ou redesenhar o organograma.

Descobrir onde as decisões estão concentradas: O primeiro passo é observar quais assuntos continuam chegando ao fundador, aos sócios ou a poucos diretores. Se aprovações comerciais, contratação de pessoas, negociação com clientes e decisões operacionais dependem sempre das mesmas lideranças, é preciso avaliar quais responsabilidades já podem ser assumidas por outros gestores.

Mapear quem pode assumir responsabilidades maiores: Em vez de olhar apenas para o cargo atual, a empresa pode identificar profissionais com capacidade de liderar equipes, tomar decisões e responder por resultados no futuro. Para França, esse mapeamento precisa considerar também o plano de crescimento da companhia. Não basta saber quem apresenta bom desempenho hoje, mas quem pode ocupar as funções que o negócio precisará criar amanhã.

Definir autonomia antes de cobrar iniciativa: Delegar exige estabelecer até onde cada gestor pode decidir, quais indicadores devem acompanhar suas escolhas e em quais situações a diretoria precisa ser envolvida. Sem essa definição, a empresa corre o risco de pedir protagonismo às lideranças e, ao mesmo tempo, manter todas as aprovações no topo.

Desenvolver competências ligadas a desafios reais: A capacitação deve partir das situações que o gestor enfrentará. Uma liderança que assumirá uma nova unidade pode precisar desenvolver gestão financeira e formação de equipes. Um executivo envolvido na sucessão pode demandar preparação para estratégia e relacionamento com sócios. Mentorias e educação executiva, nesse sentido, devem responder às responsabilidades concretas de cada função.

Preparar sucessores antes que a troca seja necessária: Mesmo quando não há mudança de comando prevista, os especialistas defendem que funções importantes tenham profissionais em desenvolvimento para assumi-las no futuro. A prática reduz a dependência de pessoas específicas e permite que expansão, afastamentos ou mudanças de estrutura ocorram com maior continuidade.

Foto: Pavel Danilyuk / Pexels.com

A liderança precisa acompanhar a nova estrutura 

Para Simonato, a mudança não significa retirar fundadores e diretores das decisões, mas reposicioná-los. À medida que novos gestores ganham condições de conduzir a operação, a alta liderança pode concentrar mais tempo em estratégia, novos negócios, investimentos e decisões de longo prazo.

Dependendo da etapa da empresa, esse processo pode envolver educação executiva, mentorias, definição de responsabilidades, planejamento sucessório e acompanhamento por indicadores. Com o aumento da complexidade, fóruns de decisão, comitês e conselhos também podem ser incorporados para organizar temas estratégicos e ampliar a participação das lideranças.

Para França, a vantagem está em preparar as pessoas enquanto o negócio avança. “Quando a empresa desenvolve suas lideranças junto com a expansão, ela aumenta sua capacidade de assumir novos projetos, distribuir responsabilidades e criar oportunidades para que mais profissionais cresçam junto com a organização”, afirma.

Na ONU, discurso sobre soberania, guerras e tecnologia acende alerta para a diplomacia e o mercado global

A abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) colocou no centro das atenções o acirramento das tensões geopolíticas, o avanço dos conflitos armados e os reflexos dessas disputas na estabilidade econômica global.

Durante as declarações iniciais, o presidente Lula enfatizou a importância da autonomia nacional diante de sanções, tarifas e pressões externas. Em tom direto em relação às grandes potências, o presidente reiterou que a soberania brasileira é inegociável e que o país manterá sua independência na condução da política externa e das relações comerciais. “A ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa”, afirmou.

Crise institucional e os reflexos nas cadeias de suprimento

A avaliação apresentada durante o encontro aponta que a ONU vive seu momento mais crítico em décadas, evidenciado pela incapacidade do Conselho de Segurança em conter a escalada de conflitos pelo mundo. Para os países exportadores e para o setor produtivo, essa paralisia diplomática se traduz em insegurança jurídica, oscilação nos preços das commodities e avanço de medidas protecionistas unilaterais por parte de blocos econômicos.

Diante desse cenário, a posição do Brasil focou na rejeição a restrições comerciais arbitrárias, na defesa do fortalecimento das rotas de exportação e na necessidade de reformas estruturais nas instituições multilaterais. No âmbito da segurança interna e da integridade territorial, enfatizou-se o combate ao crime organizado por meio da inteligência e da cooperação internacional, rechaçando propostas de ingerência externa ou intervenção militar nas decisões do país.

Tensões geopolíticas e os desafios da tecnologia

O secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou a gravidade do panorama ao sinalizar que a diplomacia perde espaço de forma acelerada para a imposição da força militar. Além dos embates geopolíticos tradicionais, Guterres destacou o avanço acelerado de novas tecnologias, como a inteligência artificial, como um fator inédito de instabilidade quando desenvolvidas sem regulamentação clara ou controle institucional.

O encerramento do primeiro dia de trabalhos deixou evidente que a previsibilidade do comércio global e o crescimento do setor produtivo dependem diretamente do resgate da cooperação entre as nações e da construção de um ambiente internacional menos propenso a sobressaltos políticos.

Foto: Hugo Magalhaes / Pexels.com

A era do cruzamento de dados chegou ao campo: produtor rural precisa transformar informação em ferramenta de gestão

por Gustavo Venâncio*

A transformação digital do sistema tributário brasileiro está mudando a forma como o produtor rural precisa lidar com suas informações fiscais. O campo, que por muito tempo esteve associado a processos mais manuais e controles descentralizados, passou a fazer parte de uma estrutura de fiscalização cada vez mais integrada, na qual dados de diferentes fontes são cruzados para verificar a consistência das operações.

Nesse novo cenário, a gestão das informações deixou de ser apenas uma obrigação burocrática e passou a ser uma ferramenta estratégica para a segurança do negócio rural. A Receita Federal não analisa somente os dados declarados pelo produtor, mas também informações fornecidas por compradores, fornecedores e outros participantes da cadeia produtiva.

Essa evolução dos mecanismos de fiscalização reduz o espaço para inconsistências e exige que o produtor tenha maior domínio sobre sua própria operação. Mais do que entregar documentos, é necessário compreender quais informações estão sendo registradas, se elas representam a realidade da atividade e se existe coerência entre receitas, despesas, contratos e movimentações financeiras.

Um dos exemplos mais comuns dessa necessidade de atenção aparece na declaração da atividade rural. A omissão de receitas continua sendo um dos principais fatores que levam produtores a problemas com o Fisco. Muitas vezes, o produtor deixa de informar uma venda porque ainda não recebeu o pagamento, porque a negociação ocorreu a prazo ou porque houve inadimplência por parte do comprador.

No entanto, essas situações possuem tratamento previsto na legislação e precisam ser registradas corretamente. A ausência do lançamento não elimina a existência da operação, já que os compradores também prestam informações à Receita Federal. Dessa forma, uma divergência entre os dados informados pelas partes pode gerar questionamentos.

Outro ponto de atenção é a tentativa de reduzir a carga tributária por meio do lançamento de despesas sem relação comprovada com a atividade rural. Quando o produtor identifica um valor elevado de imposto, pode surgir a ideia de incluir gastos que não possuem respaldo legal. Além de não representar uma estratégia tributária eficiente, essa prática aumenta os riscos fiscais.

A organização também deve envolver contratos e relações que fazem parte da rotina do campo, como arrendamentos e parcerias rurais. As informações declaradas precisam ser compatíveis entre si. Se um imóvel é utilizado por meio de arrendamento, por exemplo, os pagamentos realizados e os registros correspondentes devem estar devidamente informados.

A digitalização das obrigações fiscais também ampliou a necessidade de controles mais estruturados. Produtores que ultrapassam o limite de R$ 4,8 milhões de receita bruta anual na atividade rural devem observar a obrigatoriedade de apresentação do Livro Caixa Digital do Produtor Rural (LCDPR), ferramenta que permite maior detalhamento das movimentações financeiras e amplia a capacidade de análise do Fisco.

Esse movimento mostra que a relação entre produtor rural e Receita Federal está passando por uma mudança de cultura. A fiscalização deixa de depender exclusivamente de verificações pontuais e passa a ser baseada em grandes volumes de informações, analisadas por sistemas capazes de identificar divergências.

Foto: Gustavo Fring / Pexels.com

Nesse contexto, acreditar que o simples pagamento de um valor maior de imposto evita uma fiscalização é um equívoco. O Fisco não avalia apenas quanto foi recolhido, mas principalmente se os dados apresentados são compatíveis com a realidade da atividade.

Por isso, o produtor precisa assumir uma postura mais participativa na gestão tributária do negócio. O apoio de profissionais especializados continua sendo fundamental, mas o conhecimento sobre receitas, despesas, contratos e documentos deve fazer parte da rotina da propriedade.

Planejamento tributário não significa esconder informações ou buscar caminhos fora da legislação. Pelo contrário, uma estratégia eficiente é construída a partir de organização, conhecimento das regras e aproveitamento adequado dos mecanismos permitidos.

Em um ambiente no qual a informação se tornou um dos principais instrumentos de fiscalização, a conformidade passa a ser também uma vantagem competitiva. Produtores que conhecem seus números e mantêm seus registros organizados estão mais preparados para tomar decisões, reduzir riscos e garantir a sustentabilidade do negócio no longo prazo.

*Advogado e sócio-proprietário da Lastro – Soluções Tributárias para o Agro.

Expansão do etanol de cereais abre fronteiras para milho e sorgo no Brasil

A expansão do etanol produzido a partir de cereais começa a desenhar uma nova geografia para a indústria de biocombustíveis no Brasil. Depois de se consolidar principalmente em regiões com grande disponibilidade de milho, como Mato Grosso, o setor passa a avançar para novas fronteiras agrícolas, aproximando as usinas de áreas com potencial de crescimento na produção de grãos e abrindo espaço para matérias-primas alternativas, especialmente o sorgo.

Estima-se que o país possui atualmente 29 usinas de etanol de milho em operação, com capacidade para processar aproximadamente 20,9 milhões de toneladas de milho por ano e produzir cerca de 10,6 bilhões de litros de etanol. A expansão, entretanto, deve continuar, levantamentos setoriais de 2026 apontam 27 novos projetos em desenvolvimento para os próximos anos.

Segundo Enilson Nogueira, engenheiro agrônomo e consultor de mercado da Céleres, a origem do etanol de milho está diretamente ligada à necessidade de reduzir os impactos da logística sobre o preço do grão. “O etanol de milho surgiu como uma estratégia de agregação de valor ao cereal produzido localmente. Em vez de simplesmente exportar o grão, passou-se a transformá-lo em etanol, fortalecendo as cadeias produtivas internas e criando novas oportunidades econômicas na própria região”, explica.

O modelo ganhou força inicialmente no interior de Mato Grosso, em regiões como Campo Novo do Parecis, e posteriormente avançou para o eixo da BR-163, onde estão algumas das maiores unidades produtoras do país. A instalação das usinas permitiu transformar parte do excedente de milho da segunda safra em combustível, reduzindo a necessidade de transportar grandes volumes do cereal para outros mercados.

Além da agregação de valor, a proximidade com os centros consumidores também se tornou uma vantagem competitiva. Regiões do Centro-Oeste e do Centro-Norte, que anteriormente dependiam do etanol produzido em estados como São Paulo, Goiás e Minas Gerais, passaram a contar com oferta mais próxima. “O ganho de eficiência industrial ampliou ainda mais a competitividade. Atualmente, o etanol produzido em Mato Grosso chega, por exemplo, ao mercado paulista e disputa espaço diretamente com o combustível produzido a partir da cana-de-açúcar”, destacou o consultor.

Raio-x do MATOPIBA

Com a consolidação do modelo em MT e a busca por novas fontes de matéria-prima, a indústria começa a olhar para regiões que ainda apresentam espaço para expansão da produção de cereais. O MATOPIBA, formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, ganha destaque nesse cenário. A Bahia já conta com uma usina em operação, enquanto o Maranhão também passou a integrar o movimento de expansão do etanol de cereais.

Para Nogueira, a dinâmica dessas novas fronteiras é diferente daquela observada nas regiões mais tradicionais do Centro-Oeste. Em determinados locais, as condições climáticas e a maior instabilidade da janela de plantio tornam mais arriscado apostar exclusivamente no milho de segunda safra.

É justamente nesse ambiente que o sorgo pode ganhar espaço. “O MATOPIBA reúne dois fatores importantes: demanda industrial e um calendário produtivo mais arriscado. Nesse cenário, o sorgo se encaixa muito bem”, afirma.

Além de apresentar maior tolerância a condições de déficit hídrico e altas temperaturas, o sorgo pode ser processado utilizando uma lógica industrial semelhante à do milho. Discussões técnicas e estudos recentes indicam que o cereal pode apresentar rendimento de etanol próximo ao do cereal por tonelada, com ajustes no processo industrial, enquanto os coprodutos resultantes também apresentam características adequadas para utilização na nutrição animal.

O especialista acrescenta ainda que o mesmo raciocínio pode ser aplicado ao Vale do Araguaia, no leste de Mato Grosso, especialmente em áreas entre Água Boa e Querência. Enquanto regiões como Campo Novo do Parecis, Lucas do Rio Verde, Sinop e Sorriso possuem uma cadeia de milho consolidada, com mercado e formação de preços bem estruturados, o leste do estado apresenta características mais próximas às novas fronteiras agrícolas.

Nessas áreas, o sorgo pode funcionar como alternativa para produtores que enfrentam maior risco climático e dificuldades para estabelecer uma segunda safra de milho dentro da janela ideal.

Uma indústria que vai além do etanol

Foto: Bruno Kraler / Pexels.com

Outro fator que contribuiu para a consolidação do modelo foi o aproveitamento dos coprodutos. O DDG (grãos secos de destilaria) passou a ter papel relevante na composição da receita das usinas e na integração com outras cadeias do agronegócio.

Dependendo do modelo de negócio, os coprodutos podem representar entre 20% e 30% da receita das unidades, além de serem utilizados na alimentação de bovinos, aves e suínos. “O DDG passou a integrar de forma muito direta outras cadeias do agronegócio. A usina compra o milho, produz etanol e DDG, e esse coproduto é utilizado na alimentação de bovinos, aves e suínos da própria região. Criou-se uma verdadeira engrenagem de economia circular, que fortalece a economia regional e agrega valor ao milho produzido localmente”, destaca Nogueira.

Esse modelo ajuda a explicar por que a instalação de uma usina pode provocar efeitos que vão além da indústria de biocombustíveis. Ao criar um mercado consumidor local para os grãos, a planta também pode estimular investimentos na produção agrícola, melhorar a estrutura de comercialização e fortalecer atividades pecuárias que utilizam os coprodutos.

Nova era do etanol de cereais

A mudança de perspectiva é estratégica para a indústria. Como o processo de produção utiliza o amido dos grãos, as usinas podem trabalhar com diferentes matérias-primas, desde que sejam adequadas ao processo industrial.

Isso permite pensar em uma nova geração de unidades mais flexíveis, capazes de ajustar o mix de matérias-primas de acordo com preço, disponibilidade regional, produtividade, condições climáticas e logística. “O mais adequado hoje é falar em etanol de cereais. Seja milho, trigo ou sorgo, todos possuem amido e podem ser utilizados para a produção de etanol e de coprodutos. A indústria ganha flexibilidade e pode adaptar sua matéria-prima às características de cada região”, ressalta o consultor.

Na prática, isso abre espaço para um novo conceito: a transformação das atuais usinas de etanol de milho em biorrefinarias de grãos, capazes de trabalhar com diferentes cereais de acordo com a oferta regional. “Hoje, o sorgo reúne dois fatores importantes: produtividade e margem. Para a indústria, é uma matéria-prima competitiva, principalmente em regiões onde seu preço tende a ser inferior ao do milho. E, para o produtor, pode representar uma alternativa interessante justamente onde o risco de estabelecer uma segunda safra de milho é maior”, conclui Nogueira.

Inteligência artificial e tendências globais desafiam o futuro da comunicação no agronegócio brasileiro

Em um cenário marcado pelo avanço da inteligência artificial, pela fragmentação da atenção, pelo crescimento da influência dos creators e por consumidores cada vez mais exigentes, acompanhar tendências já não é suficiente. O desafio das empresas está em interpretar esses movimentos e transformá-los em decisões capazes de gerar diferenciação, relevância e resultado.

Essa foi uma das principais discussões do Make Wave 2026, encontro promovido pela Make ID, em São Paulo (SP). O evento reuniu executivos de grandes empresas do agronegócio e de outros setores, além de profissionais de marketing, comunicação, inovação e imprensa especializada, para discutir como movimentos globais de comportamento, tecnologia e criatividade estão chegando à realidade dos negócios.

Com mais de três décadas de atuação e uma trajetória construída ao lado de algumas das principais marcas do agronegócio, a Make ID consolidou-se como uma das agências de referência em comunicação e estratégia para o setor no Brasil. Mais do que conhecer a dinâmica do agro, a agência acompanha suas transformações e conecta esse repertório a movimentos de comportamento, tecnologia, criatividade e negócios que estão redesenhando mercados no mundo.

A partir de uma curadoria construída pela Make ID ao longo de alguns dos principais fóruns de inovação e criatividade do mundo — entre eles SXSW Austin, SXSW London, Web Summit Rio e São Paulo Innovation Week (SPIW) —, o encontro trouxe para o contexto brasileiro discussões sobre inteligência artificial, comportamento, criatividade, estratégia, dados, performance, mídia, influência, confiança, creators e experiência do cliente.

Mais do que tendências isoladas, esses movimentos mostram uma transformação na maneira como empresas constroem marcas, se relacionam com seus públicos e tomam decisões de negócio.

Simone Rodrigues, CEO da Make ID, durante o Make Wave 2026 (Foto: Divulgação)

Para a CEO da Make ID, Simone Rodrigues, o diferencial das organizações estará cada vez mais na capacidade de interpretar essas mudanças e transformá-las em estratégia, combinando tecnologia, dados e, sobretudo, capital humano.

“Temos uma história profundamente conectada ao agronegócio e crescemos acompanhando a transformação desse mercado. Isso nos deu repertório e conhecimento para entender suas particularidades, mas também a responsabilidade de provocar novas discussões e trazer novas perspectivas para nossos clientes. Nosso papel hoje é conectar o agro ao que há de mais relevante em criatividade, tecnologia, comportamento e negócios no mundo e transformar essa leitura em estratégia e valor”, afirma Simone Rodrigues, CEO da Make ID.

Da tecnologia à aplicação nos negócios

Ao longo da programação, representantes de empresas como Bayer, Scania, John Deere, Mosaic, MSD Saúde Animal, Kyra Pesquisa e Trends on Influence discutiram como criatividade, tecnologia, dados e visão estratégica podem ampliar a diferenciação e a geração de valor dentro e fora do agronegócio.

Para o diretor de Inteligência de Mercado e Comunicação da Bayer, Celso Batistella, iniciativas como o Make Wave ajudam a aproximar o setor das discussões que estão acontecendo nos principais centros de inovação do mundo.

“A Make tem essa capacidade de provocar discussões relevantes e conectar clientes ao que está acontecendo de mais inovador no mundo. Poder acessar os principais debates do SXSW e trocar experiências com outras empresas ajuda a entender como usar tecnologia e inovação a favor dos negócios”, explica Batistella.

Na avaliação do executivo, a troca entre empresas e diferentes setores amplia a capacidade das organizações de interpretar mudanças e acelerar a adoção de soluções capazes de fortalecer sua competitividade.

Essa capacidade de selecionar o que realmente importa em meio ao grande volume de informações disponível também foi destacada pelo diretor de Marketing, Comunicação e Experiência do Cliente da Scania no Brasil, Márcio Furlan.

“Nem todo mundo consegue participar dos principais fóruns de inovação. O diferencial da Make é fazer essa curadoria, filtrar os temas mais relevantes e direcionar a discussão para aquilo que realmente faz sentido para as empresas. Isso provoca novas formas de pensar e leva insights que podem ser aplicados no dia a dia dos negócios”, afirma Furlan.

Estratégia e criatividade como ferramenta de negócio

Outro ponto presente nas discussões foi o papel da estratégia e da criatividade em um ambiente no qual tecnologias e ferramentas se tornam cada vez mais acessíveis. Nesse cenário, a diferenciação tende a depender menos do acesso à tecnologia em si e mais da capacidade humana de fazer perguntas, interpretar contextos e construir respostas relevantes.

Para o diretor de Estratégia da Make ID, José Francisco Barbosa, criar espaços de troca entre diferentes empresas e perspectivas também é uma maneira de ampliar esse repertório. “Reunimos grandes marcas, clientes e especialistas para oxigenar estratégias de marketing e comunicação e olhar para o futuro dos negócios. Mais do que discutir tendências, queremos ampliar perspectivas e estimular novas formas de pensar os desafios que já estão na mesa das empresas”, afirma.

Segundo o executivo, em um setor que passa por transformações cada vez mais rápidas, construir diferenciação exige criatividade, repertório e disposição para rever modelos tradicionais de relacionamento entre marcas, produtores e demais públicos da cadeia.

Ao conectar aprendizados dos principais fóruns globais às particularidades do agronegócio brasileiro, o Make Wave 2026 reforça uma discussão que tende a ganhar espaço nas agendas das empresas: tecnologia, dados e inteligência artificial continuarão ampliando as possibilidades dos negócios, mas a capacidade de interpretar esses recursos, conectá-los ao contexto e transformá-los em estratégia seguirá essencialmente humana.

Para a Make ID, é justamente nesse encontro entre inteligência, criatividade, tecnologia e capital humano que estão algumas das principais oportunidades para construir marcas mais relevantes e negócios mais competitivos.

Da floresta ao crédito, a tokenização pode transformar ativos ambientais em valor para o agronegócio

por Sergio Rocha*

Por muito tempo, a floresta em pé e a conservação de áreas nativas foram tratadas pelo agronegócio principalmente sob a ótica da obrigação legal. Essa lógica começa a mudar à medida que o sistema financeiro passa a incorporar dados ambientais, territoriais e climáticos à avaliação de risco e à concessão de crédito. Ao mesmo tempo, uma transformação mais ampla está em curso no mercado financeiro global: a digitalização e a tokenização de ativos reais. O conceito permite que ativos físicos e financeiros sejam representados digitalmente, fracionados e, em determinadas estruturas, negociados de forma mais ágil, com o uso de contratos inteligentes e novas infraestruturas.

O debate ganhou força no Brasil com o avanço da digitalização do sistema financeiro e de iniciativas relacionadas ao Drex (moeda digital oficial do Brasil, criada e emitida pelo Banco Central). Mais do que uma evolução tecnológica, esse movimento aponta para uma mudança na forma como ativos reais podem ser identificados, comprovados, representados e conectados ao capital. Para o agro brasileiro, essa transformação abre uma discussão particularmente relevante: o território e seus ativos naturais podem deixar de ser elementos de risco ou conformidade e passar a representar também valor econômico?

O Brasil possui um dos maiores estoques de recursos naturais do planeta. Além da produção agrícola e pecuária, as propriedades rurais concentram áreas de vegetação nativa, recursos hídricos, potencial de geração de créditos de carbono, biodiversidade e espaços que podem ser destinados à restauração. Estudos recentes estimam que a recuperação de áreas degradadas no país possa gerar até US$ 141 bilhões em valor econômico nas próximas três décadas, considerando receitas associadas a carbono, produtos florestais, bioeconomia e outros usos produtivos.

A realidade começa a mudar

O avanço das exigências ambientais e de rastreabilidade faz com que as informações sobre o território passem a ter impacto direto sobre decisões financeiras. Para bancos, seguradoras, tradings e grandes empresas compradoras, saber onde uma propriedade está, qual é seu histórico ambiental, se existem embargos ou sobreposições e quais são seus riscos climáticos deixou de ser uma informação secundária. Esses dados passaram a fazer parte da avaliação do negócio.

Essa mudança cria uma situação que pode parecer contraditória. O mesmo ativo ambiental que hoje pode contribuir para restringir o acesso a determinadas linhas de crédito, quando associado a irregularidades ou riscos, pode no futuro ajudar a demonstrar menor exposição a riscos e sustentar novas formas de financiamento.

Para isso, entretanto, não basta afirmar que uma propriedade é sustentável ou que determinada área está preservada. É necessário comprovar essa condição por meio de dados confiáveis, monitoramento contínuo e mecanismos de auditoria. É nesse ponto que o território começa a assumir uma nova função. Além de espaço de produção, passa a ser também uma fonte de informação capaz de influenciar decisões financeiras.

O capital está mais caro e as exigências são maiores

Essa discussão ganha ainda mais relevância diante da realidade financeira enfrentada pelo agro. O setor convive com cerca de R$ 180 bilhões em endividamento, juros entre 18% e 20% ao ano e gargalos históricos de infraestrutura e escoamento, incluindo limitações no Arco Norte e nos portos tradicionais. Ao mesmo tempo, as regras de acesso ao capital estão mudando.

No mercado internacional, o acordo Mercosul-União Europeia e a regulamentação europeia antidesmatamento (EUDR) ampliam as exigências de rastreabilidade das cadeias que acessam aquele mercado. No ambiente doméstico, as regras do Conselho Monetário Nacional (CMN) também aumentam a importância da regularidade ambiental para o acesso ao crédito rural, com exigências relacionadas ao monitoramento do desmatamento e aplicação escalonada de novas restrições a partir de 2027.

Nesse cenário, comprovar a regularidade e o perfil de risco de uma propriedade passa a ser também uma questão financeira. É justamente nesse ponto que a inteligência territorial ganha importância. O cruzamento de informações de sensoriamento remoto, dados climáticos, registros ambientais, histórico de uso do solo, informações financeiras e dados de mercado permite construir uma visão mais completa do risco associado a uma propriedade ou a uma cadeia de fornecimento. Essa inteligência também pode ampliar a utilização de instrumentos como os seguros paramétricos. O objetivo passa a ser compreender como as características ambientais e territoriais daquela propriedade interferem em seu risco financeiro e operacional.

Tokenização

É nesse ambiente que a tokenização torna-se relevante para o agronegócio. A ideia não é transformar toda propriedade rural ou toda floresta em um token. O ponto central é outro. Ativos reais e ambientais que possam ser mensurados, comprovados e auditados podem, em determinadas estruturas, ser representados digitalmente e conectados a instrumentos financeiros. Créditos de carbono, projetos de restauração, ativos relacionados à geração de energia renovável e outros instrumentos ambientais são exemplos de mercados que podem se beneficiar dessa infraestrutura.

Mas existe uma condição fundamental, a confiança. Um ativo digital só terá valor financeiro se houver segurança sobre aquilo que ele representa. No caso dos ativos ambientais, isso significa comprovar sua existência, localização, integridade, titularidade, adicionalidade, quando aplicável, e ausência de dupla contagem ou de outros riscos que comprometam sua qualidade.

Em outras palavras, não basta criar o token. É preciso garantir o lastro. Essa é uma das razões pelas quais a inteligência territorial tende a ganhar importância na próxima etapa da transformação financeira. Quanto maior a capacidade de comprovar o que existe em determinado território, maior será a possibilidade de transformar essa informação em confiança e, potencialmente, em valor econômico.

O território como nova camada de informação financeira

Um banco precisa avaliar riscos para conceder crédito. Uma seguradora precisa precificar uma operação. Uma trading precisa comprovar a origem de uma commodity. Uma indústria precisa monitorar sua cadeia de fornecedores. Um investidor precisa saber se determinado ativo ambiental possui lastro e integridade. Em todos esses casos, existe uma pergunta em comum. O que, de fato, existe naquele território e qual é o risco associado a ele?

A resposta dependerá cada vez mais da capacidade de transformar dados dispersos em informações verificáveis e economicamente úteis. A Inteligência Artificial (IA) pode acelerar esse processo ao cruzar grandes volumes de dados territoriais, climáticos, ambientais, mercadológicos e financeiros. O avanço mais importante, portanto, não está apenas em utilizar IA para aumentar a produtividade da lavoura, mas também em empregá-la para compreender, monitorar e precificar os riscos associados ao território. O grande movimento, portanto, não é apenas tecnológico, mas econômico. O território começa a produzir uma nova camada de informação capaz de influenciar risco, crédito, seguro, rastreabilidade e, potencialmente, o próprio valor dos ativos.

Para o agronegócio brasileiro, que reúne uma das maiores capacidades produtivas do mundo e um dos maiores estoques de capital natural do planeta, essa mudança pode representar uma nova fronteira ao transformar informação ambiental confiável em infraestrutura para acesso ao capital. A floresta em pé pode continuar sendo patrimônio ambiental. Mas, em um sistema financeiro cada vez mais orientado por dados, ela também poderá ser reconhecida como parte de um patrimônio econômico, desde que seu valor seja comprovado, mensurado e sustentado por dados confiáveis.

*CEO e fundador da Agrotools.

Empresas têm até dezembro para se adaptar a novas regras sobre benefícios fiscais

Entrou em vigor neste mês de setembro um novo modelo de acompanhamento dos incentivos e benefícios fiscais utilizados pelas empresas. As novas regras da Receita Federal ampliam o controle sobre o cumprimento dos requisitos exigidos para a manutenção desses benefícios e abrem, até o fim do ano, uma janela para revisão e regularização de eventuais inconsistências.

Durante o período de adaptação, que segue até dezembro de 2026, o acompanhamento tem caráter orientativo e eventuais irregularidades podem ser comunicadas às empresas para que sejam corrigidas antes do início dos procedimentos formais previstos para 2027.

A medida pode alcançar empresas de diferentes portes e segmentos que usufruem de incentivos, renúncias ou benefícios tributários federais. Para Nicholas Coppi, advogado da Coppi Advogados Associados e especialista em Direito Tributário, a principal recomendação é aproveitar esse intervalo para verificar se todos os requisitos vinculados aos benefícios utilizados continuam sendo cumpridos. “Para muitas empresas, o benefício fiscal já faz parte da rotina e acaba sendo tratado como uma condição consolidada. A nova sistemática reforça que não basta ter obtido o direito ao incentivo. É necessário continuar atendendo às condições exigidas para sua utilização”, afirma Coppi.

Entre os requisitos que podem ser objeto de acompanhamento estão a regularidade fiscal, a situação perante o FGTS e o Cadin, a regularidade cadastral no CNPJ e a adesão ao Domicílio Tributário Eletrônico (DTE), além das condições específicas previstas na legislação de cada benefício.

Na avaliação do especialista, a mudança interessa especialmente às empresas que utilizam incentivos há mais tempo e que não mantêm uma rotina periódica de revisão das condições necessárias à sua manutenção. “É um bom momento para fazer uma checagem relativamente objetiva: quais benefícios a empresa utiliza, quais são os requisitos para cada um deles e se existe documentação atualizada que demonstre o cumprimento dessas condições. Dependendo do caso, uma pendência cadastral ou de regularidade pode gerar consequências relevantes”, explica.

A regulamentação também ampliou de 20 para 30 dias úteis o prazo para regularização após eventual intimação e prevê situações em que esse período poderá ser prorrogado quando a solução depender da atuação de outro órgão público.

O caráter orientativo previsto até 31 de dezembro é um dos pontos que tornam o momento particularmente relevante para as empresas. A partir de janeiro de 2027, passam a ser adotados os procedimentos formais estabelecidos pela nova sistemática. Para Coppi, a existência desse intervalo deve ser entendida como uma oportunidade para antecipar a revisão, e não como motivo para postergá-la. “Se existe uma janela em que a própria sistemática privilegia a orientação e a regularização, faz sentido utilizá-la preventivamente. A empresa pode revisar cadastros, certidões, habilitações e controles antes de eventualmente ser chamada a prestar esclarecimentos”, aponta o especialista.

O novo modelo também reforça uma tendência de maior utilização de informações eletrônicas e cruzamento de dados pela administração tributária. Nesse ambiente, empresas que se beneficiam de incentivos precisam incorporar a revisão dessas condições às práticas de governança fiscal. “Benefícios tributários podem representar valores importantes para o resultado de uma companhia. Por isso, o controle sobre os requisitos necessários para mantê-los precisa ter a mesma relevância. A recomendação é não esperar janeiro para descobrir se existe alguma pendência que poderia ter sido identificada antes”, diz o advogado.

Para as empresas, o caminho inicial passa por identificar os benefícios fiscais utilizados, levantar os requisitos vinculados a cada um, verificar a situação fiscal e cadastral e corrigir eventuais inconsistências ainda durante o período de adaptação. “Os próximos meses oferecem uma oportunidade de revisão. Mais do que uma nova obrigação, é um momento para a empresa verificar se aquilo que já utiliza está juridicamente e documentalmente bem sustentado”, conclui Coppi.

Foto: Olia Danilevich / Pexels.com

Digitalização transforma a gestão das fazendas e amplia a rentabilidade do agronegócio brasileiro

A transformação digital tem ganhado espaço nas propriedades rurais brasileiras e redefinido a forma como os produtores planejam suas compras, acessam crédito e tomam decisões estratégicas para a safra. Mais do que simplificar processos, a tecnologia vem contribuindo diretamente para a eficiência operacional e para o aumento da rentabilidade no campo.

A evolução dos marketplaces agrícolas e dos ecossistemas digitais criou um novo cenário para os produtores rurais. Em um mercado altamente influenciado por fatores externos, como oscilações climáticas e preços internacionais das commodities, a gestão eficiente dos custos de produção tornou-se uma das principais ferramentas para preservar margens e garantir competitividade.

Nesse contexto, plataformas digitais especializadas permitem que agricultores comparem ofertas, condições comerciais, prazos de pagamento e fornecedores em um único ambiente, ampliando seu poder de negociação e proporcionando mais transparência ao processo de compra de insumos.

“A digitalização trouxe um novo patamar de autonomia para o produtor rural. Hoje ele tem acesso a informações que antes estavam dispersas, consegue comparar alternativas de forma rápida e tomar decisões mais embasadas. Isso fortalece sua capacidade de gestão e contribui diretamente para a rentabilidade da propriedade”, afirma Ivan Moreno, CEO da Orbia.

Os resultados desse movimento já podem ser observados na prática. Um estudo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), apontou que propriedades que adotaram tecnologias digitais registraram aumento médio de 18,7% na produtividade, além de uma redução de 12,3% no consumo de insumos agrícolas, como fertilizantes e defensivos. O levantamento também revelou que fazendas com alto grau de digitalização apresentam rentabilidade 23% superior em comparação àquelas que ainda operam com modelos tradicionais de gestão.

Além da comparação de preços, a digitalização vem promovendo maior transparência em toda a cadeia de suprimentos. Com informações mais acessíveis e reputações de fornecedores visíveis, fatores como assistência técnica, logística e pós-venda passaram a ter peso cada vez maior na decisão de compra.

Outro avanço importante está na integração de soluções financeiras às plataformas digitais. A partir do histórico de transações e do comportamento de compra dos produtores, torna-se possível oferecer condições de crédito mais aderentes à realidade de cada operação, contribuindo para o planejamento financeiro da safra.

“O futuro do agro digital vai muito além da compra online de insumos. Estamos caminhando para ecossistemas integrados, nos quais produtores, distribuidores, cooperativas, indústrias e instituições financeiras atuam conectados. Essa integração gera mais eficiência para toda a cadeia e cria oportunidades para que o agricultor tenha acesso a soluções cada vez mais completas”, destaca Moreno.

Esse modelo já faz parte da realidade da Orbia, que nasceu como um programa de fidelidade e hoje reúne soluções completas para a cadeia agrícola. A plataforma conecta produtores, revendas, distribuidores, cooperativas e instituições financeiras em um ambiente digital onde é possível cotar, comprar e pagar por insumos, além de acessar benefícios, soluções financeiras e ferramentas de gestão.

À medida que a transformação digital avança, especialistas apontam que a tendência é de consolidação de ecossistemas cada vez mais robustos, capazes de integrar dados, serviços, crédito e inteligência de mercado. Para o produtor rural, isso representa mais previsibilidade, maior controle sobre os custos e melhores condições para enfrentar os desafios de um setor cada vez mais dinâmico e competitivo.

Foto: Magnific

Operações da Polícia Federal miram garimpo ilegal e desmatamento na Amazônia

A Polícia Federal (PF) deflagrou duas operações direcionadas ao combate de crimes ambientais e à preservação dos recursos naturais na Região Amazônica. As ofensivas — batizadas de Operação Aurum Tapajós e Operação Guardião Infiel — têm como foco estancar a exploração ilegal de ouro e o desmatamento clandestino de madeira nativa em territórios protegidos pela União.

As ações reforçam a intensificação da fiscalização contra atividades ilegais que impactam a biodiversidade, a regularidade fundiária e a reputação produtiva do setor agroflorestal brasileiro.

Garimpo clandestino afeta APA do Tapajós no Pará

Na Operação Aurum Tapajós, os agentes buscaram aprofundar as investigações sobre a extração irregular de ouro na Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós, localizada no município de Novo Progresso, no sudoeste do Pará.

A ação cumpriu dois mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal, distribuídos entre os municípios de Belém e Santarém. A finalidade é recolher documentos, equipamentos eletrônicos e mídias digitais que ajudem a identificar os financiadores e responsáveis pela atividade ilegal.

A investigação teve início após fiscalizações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) no âmbito da Operação Garimpo Zero. Na ocasião, os fiscais constataram a extração mineral sem licença ambiental em uma área de floresta nativa estimada em 40 hectares. Além do dano ambiental, a prática configura usurpação de bens e recursos minerais pertencentes à União.

Extração e venda ilegal de madeira em Rondônia e Goiás

Simultaneamente, a Polícia Federal deflagrou a Operação Guardião Infiel, voltada ao combate ao desmatamento e à comercialização clandestina de madeira nativa retirada de território protegido.

A operação cumpriu sete mandados de busca e apreensão expedidos pela 7ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária de Rondônia: seis mandados em aldeias situadas na Terra Indígena Igarapé-Lage, em Guajará-Mirim (RO), e um mandado no município de Goiânia (GO).

Segundo a PF, o esquema apura a retirada e comercialização ilegal de madeira de floresta nativa. Há indícios de que os próprios investigados que atuavam na região facilitavam a entrada de terceiros e a logística para a exploração clandestina dentro do território indígena.

Foto: Pok Rie / Pexels.com

Impactos para o setor agroflorestal e o mercado nacional

A repressão ao garimpo e ao desmatamento ilegal é peça-chave para garantir a integridade dos ecossistemas amazônicos e fortalecer o agronegócio sustentável no Brasil. Atividades clandestinas geram concorrência desleal com o setor florestal manejado e legalizado, além de trazer prejuízos à reputação internacional do país na pauta socioambiental.

A Polícia Federal e os órgãos de fiscalização seguem com a análise do material apreendido para delimitar a responsabilidade penal dos envolvidos e calcular a extensão total dos danos causados.