Rastreabilidade amplia competitividade da pecuária brasileira e fortalece posicionamento do produtor no mercado

A pecuária brasileira passa por um cenário de transformação marcado pelo aumento das exigências relacionadas à origem, segurança e transparência nas cadeias produtivas. Em meio a mudanças regulatórias e novas demandas de mercado, a rastreabilidade ganha espaço como uma ferramenta estratégica para fortalecer a competitividade do setor e ampliar oportunidades para o produtor rural. Nesse contexto, a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável destaca a importância do tema em um momento decisivo para a cadeia nacional, marcado pelo avanço da implementação do Programa Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB).

“Mais do que atender exigências específicas de exportação, a rastreabilidade permite acompanhar a trajetória dos animais ao longo da cadeia, reunindo informações relacionadas à identificação, movimentação, histórico sanitário e manejo. Na prática, o sistema pode auxiliar produtores na mitigação de riscos sanitários, na gestão da propriedade e no acesso a mercados e programas que valorizam práticas sustentáveis”, frisa a presidente da instituição, Ana Doralina.

O avanço de discussões regulatórias internacionais também sinaliza mudanças na dinâmica comercial da cadeia pecuária. Debates recentes envolvendo Brasil e União Europeia reforçam uma tendência de ampliação das demandas por mecanismos capazes de comprovar informações produtivas, sanitárias e socioambientais.

“Nesse contexto, ferramentas como a rastreabilidade passam a representar não apenas um mecanismo de adequação, mas também uma oportunidade de diferenciação e fortalecimento da posição do produtor no mercado”, explica a profissional, ao ressaltar que a ferramenta vem deixando de ser percebida apenas como uma obrigação operacional para assumir um papel estratégico dentro da cadeia produtiva.

Segundo Ana, durante muitos anos, a competitividade esteve fortemente associada à capacidade produtiva e ao volume ofertado. Esse continua sendo um fator relevante, mas hoje existe uma demanda crescente por transparência, previsibilidade, qualidade e capacidade de comprovação. A rastreabilidade permite demonstrar origem, fortalecer a confiança entre os diferentes elos da cadeia e criar condições para que o produtor amplie suas oportunidades comerciais. Não se trata apenas de atender exigências de mercado, mas de posicionar a propriedade em um ambiente cada vez mais orientado por dados e relações construídas com base na confiança.

Ampliando valor e abrindo novas oportunidades ao produtor

Além do acesso a mercados, a ferramenta também pode gerar impactos diretos na rotina das propriedades rurais. Informações individuais dos animais ajudam a melhorar processos de gestão, apoiar decisões produtivas e aumentar a eficiência da atividade.

A rastreabilidade, como complementa o vice-presidente da Mesa, Delair Bolis, também pode contribuir para ampliar o acesso a programas ligados à sustentabilidade, linhas de crédito e iniciativas que demandam comprovação de práticas produtivas.

“A rastreabilidade precisa ser vista como um investimento na capacidade futura da propriedade e não apenas como uma adequação às exigências externas. Quando o produtor organiza seus dados e estrutura informações sobre seu rebanho, ele fortalece sua gestão, amplia sua capacidade de resposta diante de desafios sanitários e cria condições para acessar novas oportunidades econômicas. O mercado passa por mudanças importantes e quem consegue demonstrar conformidade, organização e credibilidade tende a construir uma posição mais sólida e resiliente”, detalha Bolis.

Para isso, a ampliação da rastreabilidade deve ocorrer acompanhada de mecanismos que favoreçam a adesão dos produtores, incluindo acesso à assistência técnica, financiamento, integração de sistemas e segurança jurídica.

“É preciso, ao falarmos sobre essa nova dinâmica do setor, considerar não apenas aspectos tecnológicos, mas também condições que permitam a inclusão produtiva e a construção de uma transição estruturada para toda a cadeia. Nesse contexto, a rastreabilidade deixa de representar apenas uma exigência regulatória e passa a integrar uma agenda mais ampla de competitividade, eficiência e fortalecimento da pecuária nacional”, finaliza o vice-presidente.

Diálogos na prática

Ao reforçar a importância da rastreabilidade para o futuro do setor, a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável participou, na última semana, do encontro regional da Mesa Global de Carne Sustentável (GRSB), realizado em São Paulo. Representando a organização na abertura do evento, a presidente Ana Doralina Menezes destacou a necessidade de avançar em uma agenda alinhada à transparência, sustentabilidade, competitividade e fortalecimento da confiança nas cadeias produtivas.

A participação em eventos como este evidencia o papel da Mesa na construção de pautas estratégicas para o setor, ampliando o diálogo entre diferentes elos da cadeia produtiva e fortalecendo a presença do Brasil nos debates internacionais sobre pecuária sustentável.

Dia do Hambúrguer: carne bovina sobe 12,8% e encarece o lanche dos brasileiros

No Dia Mundial do Hambúrguer, comemorado hoje (28/05), um levantamento exclusivo da Neogrid – empresa que conecta indústria, varejo e distribuidores para transformar dados em decisões na cadeia de consumo e abastecimento – revela que o lanche favorito dos brasileiros ficou com uma conta mais salgada nos últimos doze meses. A análise cobre os pequenos varejos, super/hipermercados e atacarejos, com dados de maio de 2025 à primeira semana de maio de 2026. A alta, porém, não é uniforme: enquanto o hambúrguer de carne bovina subiu 12,8%, os de salmão e os vegetarianos/veganos ficaram mais baratos.

Os dados analisam os principais segmentos de hambúrguer e uma ampla cesta de ingredientes – do pão brioche ao queijo muçarela, da batata à mostarda — para mapear o que puxou o preço do lanche de ponta a ponta.

Os números do hambúrguer

SegmentoMai/25 (R$/kg)1ª sem. Mai/26 (R$/kg)Variação 12m
Hambúrguer de CarneR$ 36.64R$ 41.34▲ 12.8%
Hambúrguer SuínoR$ 35.54R$ 36.14▲ 1.7%
Hambúrguer MistoR$ 26.83R$ 27.94▲ 4.2%
Hambúrguer de FrangoR$ 30.46R$ 32.17▲ 5.6%
Hambúrguer de SalmãoR$ 99.93R$ 86.42▼ 13.5%
Hambúrguer Vegano/VegetarianoR$ 84.38R$ 81.60▼ 3.3%

Carne bovina: o principal vilão da alta

O hambúrguer de carne bovina é o que mais pesou no bolso do consumidor. Na primeira semana de maio de 2026, o preço médio chegou a R$ 41,34/kg — alta de 12,8% sobre os R$ 36,64/kg registrados em maio de 2025. O pico foi em janeiro de 2026, quando o produto atingiu R$ 46,33/kg, influenciado pela pressão nos cortes bovinos ao longo do segundo semestre de 2025.

Os cortes que compõem o hambúrguer de carne também subiram. O acém bovino liderou a alta entre os ingredientes: +14,3%, saindo de R$ 35,35/kg para R$ 40,39/kg. A costela bovina seguiu de perto, com +12,9%, e a fraldinha acumulou +7,7%. Na prática, toda a cadeia de cortes bovinos ficou mais cara para o fabricante e, por consequência, para o consumidor final.

O pão brioche surpreende: +13,3% em um ano

Quem apostou no hambúrguer artesanal com pão brioche sentiu mais do que a alta da carne. O pão brioche acumulou valorização de 13,3% no período — de R$ 35,57/kg para R$ 40,31/kg —, tornando-se um dos ingredientes que mais encareceu a experiência do hambúrguer premium. O pão de hambúrguer tradicional teve alta mais moderada, de 4,1%, chegando a R$ 32,77/kg.

Batata inglesa dispara +20,2%

O acompanhamento clássico do hambúrguer registrou a maior alta entre todos os ingredientes monitorados. A batata inglesa subiu 20,2% em doze meses, de R$ 6,43/kg para R$ 7,73/kg. Já a batata congelada — muito usada pelo foodservice — ficou praticamente estável, com queda simbólica de 0,5%, passando de R$ 21,64/kg para R$ 21,53/kg.

Exceções: salmão e vegano ficaram mais baratos

Nem tudo encareceu. O hambúrguer de salmão registrou a maior queda do período: -13,5%, saindo de R$ 99,93/kg para R$ 86,42/kg. O hambúrguer vegetariano/vegano também recuou, -3,3%, de R$ 84,38/kg para R$ 81,60/kg — embora ambas as categorias ainda sejam as mais caras por quilo entre todos os segmentos.

A cesta completa do hambúrguer

IngredienteMai/25 (R$/kg)1ª sem. Mai/26 (R$/kg)Variação 12m
Acém BovinoR$ 35.35R$ 40.39▲ 14.3%
Costela BovinaR$ 30.92R$ 34.90▲ 12.9%
Pão BriocheR$ 35.57R$ 40.31▲ 13.3%
Batata InglesaR$ 6.43R$ 7.73▲ 20.2%
MostardaR$ 43.48R$ 47.30▲ 8.8%
MaioneseR$ 28.79R$ 30.60▲ 6.3%
Queijo MuçarelaR$ 71.93R$ 74.96▲ 4.2%
Queijo PratoR$ 73.21R$ 76.19▲ 4.1%
CatchupR$ 24.28R$ 25.49▲ 5.0%
Pão de HambúrguerR$ 31.49R$ 32.77▲ 4.1%
Batata CongeladaR$ 21.64R$ 21.53▼ 0.5%
Fraldinha BovinaR$ 41.01R$ 44.16▲ 7.7%
Foto: Pedro Furtado / Pexels.com

Planejamento de promoções e abastecimento correto 

O abastecimento bem planejado é o que separa o varejista que aproveita uma data sazonal do que simplesmente a deixa passar. Em datas como o Dia do Hambúrguer, a demanda por itens específicos — da carne ao pão brioche, do catchup à batata — sobe de forma previsível, e o consumidor que não encontra o produto na gôndola não espera: vai ao concorrente. Mas o desafio vai além de ter estoque: quando os preços estão pressionados, como acontece agora com a carne bovina (+12,8% em doze meses) e o pão brioche (+13,3%), o planejamento antecipado permite ao varejista identificar o momento certo para comprar, negociar volumes antes dos picos sazonais e ainda desenhar ações promocionais que protejam a margem — oferecendo, por exemplo, cortes ou categorias que estejam em queda de preço, como o hambúrguer de salmão (-13,5%) ou o vegano (-3,3%), como alternativa ao consumidor mais sensível ao preço. Dados de preço e comportamento de mercado, quando usados com antecedência, transformam a gestão de categoria de uma reação a uma estratégia.

Mineração, energia e agronegócio aceleram demanda por comunicação via satélite em áreas críticas

A expansão de operações em regiões remotas, a digitalização da infraestrutura crítica e a necessidade crescente de monitoramento em tempo real vêm impulsionando a demanda por comunicação via satélite no país. Setores como mineração, energia e agronegócio, cada vez mais dependentes de conectividade para garantir segurança, eficiência e continuidade operacional, lideram esse movimento, ampliando o papel estratégico das redes satelitais no mundo todo.

Essa demanda ganha relevância no país diante de suas características territoriais e de seus desafios logísticos. Na mineração, operações instaladas em regiões remotas de estados como Pará e Minas Gerais dependem de comunicação contínua para monitoramento operacional, gestão de riscos e transmissão de dados de sensores em tempo real. Já no setor de energia, a expansão de parques solares e eólicos no Nordeste, além de linhas de transmissão em áreas isoladas, aumenta a necessidade de conectividade confiável para monitoramento remoto, automação e manutenção preventiva.

No agronegócio, a digitalização das operações no campo também acelera a adoção de tecnologias de conectividade crítica. Em regiões como Centro-Oeste e as novas fronteiras agrícolas do Norte do país, soluções via satélite vêm sendo utilizadas para apoiar aplicações de agricultura de precisão, rastreabilidade, monitoramento de ativos, gestão hídrica e integração de dispositivos IoT em fazendas localizadas longe dos grandes centros urbanos.

Segundo projeções internacionais do setor, o mercado global de comunicação via satélite deve manter crescimento consistente nos próximos anos, impulsionado principalmente pela expansão do IoT industrial, pela necessidade de redes mais resilientes e pelo avanço de arquiteturas híbridas que combinam múltiplas órbitas satelitais (LEO e GEO) com infraestrutura terrestre. Paralelamente, o avanço da inteligência artificial e da computação em nuvem vem ampliando a capacidade de processamento, automação e análise de dados em operações remotas.

Além da expansão econômica, fatores climáticos e territoriais também ampliam a relevância da conectividade satelital no país. Eventos extremos, como enchentes, queimadas e interrupções de infraestrutura em regiões isoladas, reforçam a necessidade de sistemas capazes de assegurar continuidade operacional e comunicação em cenários críticos.

“Os próximos anos devem consolidar uma nova fase da conectividade satelital, cada vez mais integrada às operações de setores estratégicos da economia. Há um potencial muito relevante principalmente em mineração, energia e agricultura, segmentos que avançam rapidamente na digitalização e exigem comunicação confiável, inclusive em regiões remotas. Queremos fortalecer ainda mais nossa atuação nesses mercados, apoiando clientes com soluções resilientes, inteligentes e que garantem continuidade operacional”, afirma Flávio Franklin, diretor da Globalsat Group Brasil, empresa que desenvolve soluções voltadas à continuidade da comunicação em áreas sem cobertura terrestre ou sujeitas a falhas de infraestrutura, combinando redes satelitais e terrestres para garantir disponibilidade de dados em tempo real.

Foto: Divulgação Globalsat Group / Case BioEspeleo

Regulamentação da CBS exige novos processos e redefine a gestão fiscal no agronegócio 

A regulamentação da Contribuição sobre Bens e Serviços por meio do Decreto nº 12.955/2026 marca a transição da reforma tributária do consumo para a prática das empresas. Ainda que a cobrança plena não tenha começado, o texto já redefine como operações serão tributadas, como os créditos serão gerados e, principalmente, como o dinheiro circula dentro das empresas. O efeito imediato recai sobre sistemas fiscais, contratos e fluxo de caixa. Embora a CBS ainda esteja em fase de implementação, a regulamentação já antecipa mudanças estruturais que exigem adaptação imediata das empresas.

Altair Heitor, contador, especialista em gestão tributário no agronegócio e CFO da consultoria Palin & Martins, afirma que a mudança vai além da substituição de tributos federais. “A CBS amplia a não cumulatividade, o que na teoria permite mais créditos. Mas, na prática, só consegue aproveitar quem tiver dados corretos e um processo bem estruturado. Quem não se preparar pode pagar mais imposto e ainda perder crédito”, diz.

Nova lógica tributária muda cálculo e exige revisão de contratos

O novo modelo parte de uma lógica diferente. A CBS incide sobre qualquer operação com cobrança, independentemente do formato jurídico, e considera praticamente todos os valores envolvidos na transação como base de cálculo. Isso obriga empresas a revisarem contratos, políticas comerciais e a forma como registram receitas e encargos.

Outro ponto central é a tributação no destino. Em vez de concentrar a apuração na origem da operação, o imposto passa a ser direcionado ao local do consumo. Na prática, isso altera a parametrização de sistemas, exige revisão cadastral e muda a forma de apuração por estabelecimento, especialmente em operações interestaduais e cadeias longas como as do agronegócio.

No campo, onde há grande volume de operações e diversidade de atividades, o impacto tende a ser mais intenso. Produtores e agroindústrias dependem diretamente do aproveitamento de créditos tributários para sustentar margens. Qualquer falha no registro pode travar esse crédito e comprometer o caixa.

Erros fiscais passam a ter impacto direto no caixa das empresas

Dados da Confederação Nacional dos Contadores mostram que mais de 70% das empresas já tiveram problemas com erros em documentos fiscais, como classificação incorreta ou ausência de informações obrigatórias, falhas que podem impedir a recuperação de tributos.

Na avaliação do especialista, esse tipo de erro ganha peso maior com a CBS porque o crédito passa a depender não apenas da existência da nota, mas da consistência entre operação, pagamento e apuração do imposto. “O aproveitamento do crédito passa a depender da consistência entre operação, documentação e pagamento. Se houver divergência entre o que foi faturado e o que foi pago, a empresa pode ficar sem acesso ao crédito. Isso afeta diretamente o capital de giro”, afirma.

A possibilidade de adoção do split payment reforça essa mudança. Em determinados modelos, o imposto pode ser recolhido antes da disponibilidade integral do recurso. Para as empresas, isso significa que parte do valor da venda não passa mais integralmente pelo caixa, o que altera a dinâmica financeira e exige integração entre áreas fiscal, financeira e tecnologia.

No agronegócio, onde vendas parceladas, operações com tradings e diferentes formas de pagamento são comuns, essa mudança exige atenção redobrada. “O produtor está acostumado a receber e depois organizar a parte tributária. Com o split payment, essa lógica muda. O imposto pode ser recolhido antes mesmo de o recurso estar disponível para a operação”, explica.

Agro enfrenta maior exposição a riscos e precisa antecipar ajustes

Além disso, o novo modelo exige controle rigoroso da qualidade das informações fiscais. Cadastro incorreto de clientes, erros de classificação de produtos ou inconsistências entre documentos podem impedir o reconhecimento de créditos ou atrasar ressarcimentos.

Foto: Wellington Cruz / Pexels.com

“Hoje, um erro pode gerar retrabalho. Com a CBS, pode significar perda financeira direta. Já vimos operações em que falhas simples travam valores relevantes. No agro, isso impacta a margem e limita a capacidade de reinvestimento”, diz.

O tema ganha ainda mais relevância diante do papel do crédito tributário no setor. Em cadeias longas, como grãos, proteína animal e insumos, o crédito funciona como mecanismo de equilíbrio financeiro. Sem ele, o custo efetivo da operação aumenta.

A regulamentação também traz novas regras para ressarcimento, com prazos definidos que podem variar conforme o nível de conformidade da empresa. Embora exista previsão de devolução mais rápida em alguns casos, o acesso a esse benefício depende de organização fiscal e consistência de dados.

Para Heitor o momento exige ação imediata. “Não dá para tratar a reforma como algo futuro. As empresas precisam revisar cadastros, testar sistemas, mapear operações e entender onde estão os riscos. Quem não fizer isso agora pode começar o novo modelo já perdendo dinheiro”, afirma.

Ele recomenda que produtores e empresas do agro iniciem uma revisão dos últimos anos fiscais, avaliem a qualidade das notas emitidas e integrem as áreas responsáveis por faturamento, pagamento e apuração tributária. “A CBS exige conexão entre todas as pontas da operação. Se cada área trabalhar isoladamente, o erro aparece no caixa”, conclui.

Sucesso solitário não se sustenta e líderes que dividem decisões fortalecem empresas

A concentração de decisões em uma única pessoa, modelo ainda comum em parte do empresariado brasileiro, tem se mostrado um dos principais limitadores de crescimento sustentável das empresas. Negócios que dependem exclusivamente do fundador tendem a enfrentar gargalos operacionais, perda de agilidade e maior exposição a erros estratégicos, especialmente à medida que crescem e aumentam sua complexidade.

Carla Martins, vice-presidente do SERAC, hub de soluções corporativas que atende mais de 10.000 clientes em todo o país, afirma que o avanço das empresas exige estruturas mais colaborativas e menos centralizadas . “Existe um mito de que o líder precisa dar conta de tudo sozinho. Na prática, isso gera sobrecarga e decisões menos consistentes”, diz. 

O tema ganha relevância diante do aumento da complexidade dos negócios. Relatório do Fórum Econômico Mundial aponta que a necessidade de habilidades como pensamento analítico, colaboração e liderança tende a crescer de forma significativa até 2027, refletindo a demanda por decisões mais estruturadas e coletivas. 

Já análises da Harvard Business Review indicam que organizações com maior distribuição de liderança apresentam melhor capacidade de adaptação a mudanças e ambientes incertos.

A solidão da liderança se intensifica conforme o negócio cresce. “Quanto maior a empresa, maior o impacto das decisões. Quando o líder está sozinho, ele assume riscos maiores sem perceber”, afirma. Segundo a executiva, dividir decisões não enfraquece a autoridade, mas fortalece a consistência estratégica.

Além dos impactos operacionais, a centralização também afeta a sustentabilidade do negócio. “Quando tudo depende de uma única pessoa, a empresa se torna frágil. O crescimento fica limitado e a operação perde eficiência”, completa.

Para mudar esse cenário, a especialista destaca que é necessário estruturar a empresa para funcionar de forma menos dependente do fundador. Ela lista cinco estratégias para transformar liderança solitária em gestão estratégica e fortalecer as empresas:

Construir uma rede de apoio estratégico: A criação de conselhos consultivos, grupos de mentoria ou redes de empresários permite acesso a diferentes visões de mercado. Essa troca amplia a capacidade de análise e reduz decisões baseadas apenas na experiência individual. “Quando o empresário compartilha desafios com outras lideranças, ele enxerga caminhos que sozinho não veria”, afirma.

Delegar com método e responsabilidade: A descentralização exige clareza de papéis, metas e processos. Delegar de forma estruturada libera o líder para atuar em decisões estratégicas, enquanto a operação ganha agilidade. Sem método, a delegação tende a gerar ruído e retrabalho.

Estruturar governança e processos: Empresas com rotinas, indicadores e níveis de decisão bem definidos conseguem crescer com mais consistência. A governança reduz a dependência de uma única pessoa e aumenta a previsibilidade dos resultados. “Negócio saudável é aquele que funciona mesmo quando o líder não está presente”, diz.

Buscar mentoria e aconselhamento especializado: O apoio de consultores e mentores traz visão externa e repertório técnico. Esse suporte contribui para decisões mais embasadas e reduz erros estratégicos, especialmente em momentos de crescimento ou mudança.

Desenvolver uma cultura de troca interna: Ambientes que incentivam a participação das equipes tendem a gerar soluções mais completas e inovadoras. A escuta ativa fortalece o engajamento e transforma o conhecimento coletivo em vantagem competitiva.

A especialista destaca que a mudança começa pela mentalidade da liderança. “Não se trata de perder controle, mas de ampliar a capacidade de decisão. Liderar não é carregar tudo sozinho, é construir um sistema que funcione com inteligência”, afirma.

A adoção de uma gestão mais compartilhada impacta diretamente os resultados. Entre os principais ganhos estão maior qualidade nas decisões, redução de riscos, aumento da velocidade de resposta ao mercado e fortalecimento da cultura organizacional. Empresas com esse modelo também tendem a reter talentos com mais facilidade, ao criar ambientes mais participativos.

Por outro lado, a escolha de parceiros exige critérios claros. É fundamental avaliar experiência prática, histórico de resultados e alinhamento com os valores da empresa. “Buscar apoio sem critério pode gerar mais confusão do que solução. O empresário precisa saber quem está trazendo para perto do negócio”, alerta.

Outro ponto de atenção é evitar a descentralização apenas formal, quando tarefas são distribuídas, mas as decisões continuam concentradas. Esse modelo tende a comprometer a autonomia das equipes e não resolve o problema estrutural.

Para a executiva, o futuro da liderança está diretamente ligado à capacidade de construir redes e compartilhar decisões. “O sucesso solitário pode até acontecer no curto prazo, mas não se sustenta. Empresas fortes são construídas com apoio, troca e visão compartilhada”, conclui.

Foto: Vlada Karpovich / Pexels.com

Mato Grosso deve ampliar produção de etanol em 16% na safra 2026/27, aponta Bioind-MT

Mato Grosso deve consolidar sua posição entre os principais polos de biocombustíveis do país na safra 2026/27. Levantamento do Bioind-MT, com elaboração do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), projeta crescimento de 16,08% na produção total de etanol no estado, que deverá atingir 8,44 milhões de metros cúbicos no próximo ciclo.

“Nossa estimativa mostra que o avanço será sustentado principalmente pela expansão do etanol de milho, segmento no qual Mato Grosso já responde por 62% da produção nacional de etanol de cereais”, explica Silvio Rangel, presidente do Bioind-MT e da Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt). “Além de fortalecer a segurança energética e a economia do país, o setor se posiciona como estratégico para o futuro da descarbonização dos transportes, com potencial crescente no fornecimento de combustíveis renováveis para aviação e navegação marítima.” 

Antes da projeção para o próximo ciclo, o levantamento aponta que a safra 2025/26 já deverá encerrar com crescimento de 8,52% na produção estadual de etanol, alcançando 7,27 milhões de m³, enquanto a produção nacional deverá permanecer praticamente estável, com alta de 0,22%. O desempenho mantém Mato Grosso na segunda posição do ranking brasileiro de produção de etanol, atrás apenas de São Paulo.  

Na safra atual, a produção de etanol de milho deverá atingir 6,18 milhões de m³, avanço de 9,89% em relação ao ciclo anterior. Já o etanol de cana-de-açúcar deve alcançar 1,09 milhão de m³, crescimento de 1,37%.

Para 2026/27, a expectativa é de aceleração ainda maior do segmento de milho. A produção deverá avançar 18,67%, chegando a 7,33 milhões de m³, enquanto o etanol de cana deverá crescer 1,42%, atingindo 1,11 milhão de m³.  

“O levantamento mostra que Mato Grosso segue ampliando sua relevância estratégica para a matriz energética brasileira. O crescimento do etanol de milho demonstra a capacidade de integração entre produção agrícola, indústria e geração de energia renovável”, afirma Rangel. 

O estudo também destaca a expansão da moagem de milho destinada à produção de etanol. Na safra 2025/26, o volume processado deverá atingir 13,81 milhões de toneladas, alta de 10,45%. Para 2026/27, a projeção é de crescimento de 18,52%, alcançando 16,36 milhões de toneladas, impulsionado pela entrada de duas novas plantas industriais no estado.  

Geração de Coprodutos 

Além da produção de combustível, a cadeia industrial do etanol de milho segue ampliando a geração de coprodutos. A produção de DDG (Grãos Secos de Destilaria) e DDGS (Grãos Secos de Destilaria com Solúveis) deverá crescer 16,14% em 2026/27, chegando a 3,41 milhões de toneladas, enquanto o óleo de milho deverá avançar 12,9%, atingindo 338,9 mil toneladas.  

No segmento sucroenergético, a moagem de cana-de-açúcar deve permanecer estável no próximo ciclo, com previsão de 18,61 milhões de toneladas, alta de 0,39%. Já a produção de açúcar deverá registrar leve retração de 1,42%, para 579,7 mil toneladas.  

As projeções de longo prazo do levantamento indicam continuidade da expansão da indústria de biocombustíveis no estado. Segundo o Imea, Mato Grosso poderá produzir 15,02 milhões de m³ de etanol até 2033/34, mais que o dobro do volume estimado para a safra atual.  

“O setor de bioenergia em Mato Grosso vem ampliando sua participação não apenas na produção de combustíveis renováveis, mas também na geração de coprodutos para nutrição animal, óleo vegetal, bioenergia e créditos de descarbonização, consolidando uma cadeia industrial de grande relevância econômica para o estado”, afirma Cleiton Gauer, superintendente do IMEA. 

O levantamento também destaca a contribuição ambiental do setor. Segundo o estudo, os Créditos de Descarbonização (CBIOs), já representaram mitigação equivalente a 189,64 milhões de toneladas de CO₂ desde o início do programa, sendo 40,06 milhões apenas em 2025. 

Somadas a produção de etanol e a geração de coprodutos, a cadeia de bioenergia em Mato Grosso amplia sua relevância econômica e social, com mais de 12 mil empregos diretos gerados e arrecadação superior a R$ 2,5 bilhões em ICMS para o estado.  

Somadas a produção de etanol e a geração de coprodutos, a cadeia de bioenergia em Mato Grosso amplia sua relevância econômica e social, com mais de 12 mil empregos diretos gerados e arrecadação superior a R$ 2,5 bilhões em ICMS para o estado.

Foto: Vadym Alyekseyenko / Pexels.com

2026 e o protagonismo das mulheres na agricultura global

por Talita Cury*

A decisão da Organização das Nações Unidas de instituir 2026 como o Ano Internacional da Mulher na Agricultura evidencia um movimento que já vem se consolidando no campo, ainda que nem sempre com a mesma visibilidade de sua relevância.

As mulheres ampliam sua presença em diferentes etapas do agronegócio, da produção às funções técnicas e estratégicas. Esse avanço reflete uma transformação estrutural, com impacto direto na forma como o setor se organiza e toma decisões.

Persistem, no entanto, desafios importantes relacionados ao acesso à terra, crédito, tecnologia e assistência técnica, que impactam o setor como um todo. No contexto da ampliação da participação feminina, contudo, a superação dessas barreiras ganha relevância adicional, ao contribuir para o fortalecimento da produtividade, da diversidade e da eficiência no agronegócio.

O reconhecimento internacional tende a acelerar essa agenda, estimulando maior articulação entre políticas públicas, financiamento e capacitação. Esse movimento contribui para consolidar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento de lideranças femininas no agro.

Iniciativas voltadas à formação e inclusão ganham relevância nesse contexto, especialmente aquelas que atuam no fortalecimento de lideranças e na aproximação de novas gerações com o setor. A criação de projetos como Damas do Agro e Crianças no Agro reflete esse esforço de longo prazo, ao ampliar o acesso, desenvolver competências e estimular maior diversidade no ambiente produtivo.

No Brasil, onde o agronegócio tem papel central na economia, esse avanço se traduz em ganhos concretos de governança, resiliência e capacidade de adaptação, especialmente diante de um ambiente cada vez mais desafiador do ponto de vista regulatório e climático.

A agenda de 2026 aponta para uma direção clara. Ampliar a participação feminina na agricultura não se limita a uma pauta social, mas se consolida como uma escolha estratégica para a sustentabilidade e a competitividade do setor.

*Conselheira de Administração e Relações Institucionais do Grupo Santa Clara.

Startup nordestina usa inteligência artificial para proteger agricultura das emergências climáticas

Uma tecnologia de inteligência climática desenvolvida pela startup brasileira i4sea, já aplicada em operações portuárias no litoral, começa a ser levada pela empresa ao interior do país, para a agricultura. A solução, que capta informações de estações meteorológicas, radares e sensores em geral, transformando-as em dados hiperlocais (em raios de um quilômetro), oferece previsões do tempo mais específicas para o território monitorado e para intervalos cronológicos que vão de algumas horas a 15 dias próximos.

A tecnologia da i4sea é utilizada por operadores em portos brasileiros, como o de Santos (SP), maior da América Latina, e do Açu (RJ); ainda, do Porto de Roterdã (Holanda), o maior da Europa. Mineradoras, como a Vale, e empreendimentos de energia eólica offshore (no mar) também são usuárias da inteligência climática desenvolvida pela startup, fundada em 2015 em Salvador (BA), onde mantém sua sede.

Todas essas operações marítimas e de mineração, bem como as agrícolas, estão expostas às condições do tempo. Com a previsão mais específica e precisa proporcionada pela tecnologia da i4sea, os operadores conseguem planejar seu funcionamento, prevenindo-se de eventuais riscos meteorológicos e tomando decisões como suspender ou retomar as atividades na hora e na medida certas, conforme ressalta o cofundador e CEO da i4sea, Mateus Lima.

Para o agro, a solução tem impacto positivo ainda mais significativo. Ocorre que a atividade é uma das mais afetadas pelas emergências climáticas, como adverte a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Segundo a Embrapa, apenas 5% das áreas agrícolas do Brasil dispõem de sistemas de irrigação – ou seja, os outros 95% delas são dependentes do regime de chuvas, cada vez mais instável e sujeito a eventos extremos.

“O setor agropecuário é diretamente influenciado por fatores climáticos como chuva, umidade do solo e do ar, ventos, temperatura e radiação solar. As mudanças climáticas têm provocado alterações na incidência e frequência de eventos extremos, como alagamentos, secas e geadas, bem como modificado o ciclo de pragas e doenças na lavoura, que impactam diretamente a produção”, assinala a instituição.

Foto: Adem Percem / Pexels.com

Por isso, além da inteligência climática hiperlocal, para o agro a startup entende a necessidade de fornecimento de dados e informações que tracem um cenário em médio e longo prazo. Afinal, explica o CEO da i4sea, diferentemente de operações em que as ações dizem respeito às condições de momento (paralisar ou retomar um embarque ou desembarque portuário, por exemplo), nas atividades agrícolas as decisões são mais estruturais – como a opção por uma ou outra cultura de plantio.

A i4sea é um dos empreendimentos que estão tornando o Nordeste do Brasil referência quando o assunto são polos de inovação. Segundo dados do Sebrae Startups Report, o Nordeste já concentra cerca de 25% das startups brasileiras; uma em cada quatro startups está em um dos estados nordestinos.

Investidora da i4sea, a casa de investimentos Lighthouse tem foco justamente no Nordeste do país. Especializada em Venture Capital, em menos de dez anos estruturou fundo de investimento direcionado à região, o qual soma R$ 100 milhões de capital autorizado. Para os sócios fundadores da Lighthouse, a casa de investimentos constatou na startup de inteligência climática potencial empresarial e de forte impacto socioambiental.

“Trata-se de uma solução que concilia conhecimento científico, das áreas de Oceanografia e Climatologia, com inovação tecnológica”, sublinha um dos sócios da Lighthouse, Gustavo Menezes. “Ela tem proporcionado a players dos principais portos do Brasil e do mundo realizarem suas operações, antecipando-se a eventos climáticos. Isso é segurança e eficiência operacional. Com ocorrências climáticas cada vez mais extremas, é uma solução indispensável”, afirma.

Pesquisadores combinam IoT e inteligência artificial para aprimorar a irrigação agrícola

Os Centros de Competência da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), Future Grid e Center for Embedded Devices and Research in Digital Agriculture (Cedra) estão desenvolvendo uma solução inédita em hardware para o gerenciamento inteligente de energia elétrica em sistemas de irrigação com pivô central.

A tecnologia combina monitoramento em tempo real, inteligência artificial na borda (Edge IA), geração distribuída e armazenamento de energia em um único equipamento, capaz de reduzir custos operacionais e minimizar o consumo de água e de eletricidade no campo.

O projeto compõe a Rede Agrointeligente e se encontra em fase de pesquisa aplicada, visando resolver um dos gargalos da agricultura irrigada moderna: a alta demanda de energia elétrica aliada à sazonalidade hídrica e energética. “A previsão de conclusão dos trabalhos é 2027, com expectativa de que os resultados sejam transferidos tanto para o setor produtivo quanto para a formulação de políticas públicas. A expectativa é que, ao final do projeto, exista um modelo de hardware e software pronto para comercialização e replicável em diferentes culturas e regiões do país”, informa Luciano Carstens, gerente sênior do Future Grid.

O Future Grid é o Centro de Competência Embrapii para promoção de conhecimentos em Smart Grid e Eletromobilidade que conta com toda a expertise e infraestrutura do Lactec, um dos maiores centros de pesquisa, tecnologia e inovação do Brasil. O Cedra é um Centro de Competência em agronegócio digital, credenciado pela Embrapii e apoiado pelo Sistema Fiergs. 

Funcionamento

O hardware projetado pelo Future Grid, em parceria com o Cedra, contará com eletrônica embarcada para a aquisição de dados de sensores instalados no campo, processamento de algoritmos de gestão hídrica e energética e apoio à tomada de decisão em tempo real. A grande inovação está na integração: o sistema combina fontes renováveis (como energia solar fotovoltaica), sistemas de armazenamento (baterias, ou BESS) e controle inteligente da demanda.

O pesquisador do Lactec, Bruno Knevitz Hammerschmitt, explica que “na prática, a solução em desenvolvimento será capaz de caracterizar o perfil de consumo elétrico dos pivôs, cruzar informações com sensores de irrigação e realizar o agendamento do acionamento de motobombas nos momentos de real necessidade de irrigação e de menor custo de energia, ou de maior disponibilidade de geração local”, antecipa.

Entre os desafios técnicos apontados pelos Centros de Competência estão a medição confiável em tempo real com sensores em campo, a sazonalidade do uso da energia e da disponibilidade hídrica, a integração dos dados para decisão imediata, a escalabilidade da solução e o correto dimensionamento do sistema de geração distribuída (BESS e painéis solares), considerando os ciclos de irrigação da região-piloto.

Parceria 

No acordo, o Future Grid ficou responsável por projetar e validar o hardware com eletrônica embarcada para aquisição de dados, além de desenvolver os algoritmos de gestão e tomada de decisão. Entre outras contribuições, o Cedra compartilha a expertise em sistemas de irrigação, sensoriamento de campo e conhecimento em agricultura digital. 

Juntos, os Centros de Competência conduzirão o dimensionamento do sistema de energia com base nos ciclos reais de irrigação da área de testes. “Estamos criando uma ferramenta que não só proporcionará a gestão efetiva do consumo de energia elétrica e a redução de custos, mas também preservará um recurso cada vez mais escasso: a água. A inteligência embarcada decide quando, quanto e como irrigar, usando a melhor composição de energia disponível”, resume Bruno Knevitz Hammerschmitt.

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A era do Retorno sobre Energia (ROE): por que a produtividade da IA exige uma nova gestão da energia humana

por Mário Soma*

A Inteligência Artificial (IA) entregou o que prometeu: uma escala de produtividade sem precedentes. No entanto, ao observar as discussões do SXSW deste ano, ficou claro que essa evolução trouxe um efeito colateral silencioso que as empresas não podem mais ignorar. 

A tecnologia elevou a capacidade operacional, mas expôs um custo invisível: o esgotamento da carga mental humana. Estamos vivendo o paradoxo da eficiência. De acordo com dados de mercado, o cenário é alarmante:

  • 68% dos profissionais admitem que não têm tempo para pensar estrategicamente, segundo relatório da Microsoft
  • 60% do esforço das equipes é drenado pela coordenação de tarefas, não pela execução, segundo relatório da Asana
  • O volume de decisões executivas explodiu, mas a nossa capacidade cognitiva para processá-las continua a mesma,  segundo relatório do Gartner

Na prática, as respostas estão mais rápidas, mas a profundidade está minguando. A produtividade cresce, mas a dependência da IA cria um ciclo de estímulos ininterruptos. 

É neste cenário de “infoxicação” que o Return on Energy (ROE) — ou Retorno sobre Energia — deixa de ser um conceito de bem-estar para se tornar uma prioridade estratégica de negócios.

O ROE não substitui o ROI; ele o protege

É fundamental entender que o ROE não invalida o tradicional Return on Investment (ROI). Na verdade, ele é o que garante a sustentabilidade do lucro a longo prazo. 

Se o ROI mede o quanto ganhamos financeiramente, o ROE mede o custo de atenção e o esforço cognitivo necessários para sustentar esses resultados. 

Sem um ROE equilibrado, o ROI de hoje se torna o burnout de amanhã.

A grande virada de chave do SXSW foi justamente o deslocamento do foco da tecnologia pura para o contexto humano e emocional. A IA agora “conversa”, “escuta” e “emula sentimentos”. Esse excesso de interfaces que exigem decisões contínuas gerou um desafio econômico real: o consumo desenfreado de energia cognitiva.

A gestão de atenção como ativo financeiro

Quando o desgaste mental atinge o limite, a qualidade das decisões despenca, o engajamento das equipes evapora e a experiência do cliente é comprometida. Problemas que antes eram vistos como “sociais” ou “de RH” foram definitivamente transpostos para o centro da estratégia financeira.

Para reverter esse quadro e gerar satisfação real, as empresas precisam migrar do excesso para a intencionalidade. Se o bombardeio de estímulos prejudica a conexão com a marca e a eficiência da operação, a “recuperação de energia” passa a ser o valor percebido mais escasso e desejado.

Foto: Daniil Komov / Pexels.com

O próximo passo: maturidade tecnológica

Já sabemos que a IA aumenta a produtividade. Agora, o desafio das lideranças é identificar o nível de maturidade necessário para gerir o impacto dessa tecnologia sobre as pessoas.

A gestão da energia cognitiva e a responsabilidade sobre como a tecnologia afeta a operação já são pautas obrigatórias entre os executivos C-Level. No mundo corporativo moderno, ignorar o ROE não é apenas uma falha de gestão de pessoas; é um risco financeiro e estratégico que pode custar a longevidade do negócio.

*CEO e Head B2B da Pólvora Comunicação.