A nova dependência das empresas brasileiras à conectividade crítica

por Heber Lopes*

A conectividade passou a ocupar um papel que, até pouco tempo, era reservado a sistemas internos. Hoje, em muitas empresas brasileiras, a disponibilidade de rede determina diretamente a capacidade de operar. Esse movimento se intensificou com a adoção de cloud, SaaS e aplicações em tempo real, que transferiram para fora do ambiente local processos que antes eram controlados internamente.

Os dados ajudam a dimensionar essa mudança. A pesquisa TIC Empresas realizada pelo Cetic em 2024 indica que 92% das organizações no Brasil já utilizam fibra óptica e que cresce o uso de aplicações digitais em processos centrais. O avanço da infraestrutura foi acompanhado por uma transformação mais profunda: a dependência operacional da conectividade. Ainda assim, a forma como essa infraestrutura é contratada e gerida continua, em muitos casos, baseada em critérios de custo e capacidade nominal.

Essa diferença entre dependência e gestão fica mais evidente em cenários de indisponibilidade. Quando a conectividade falha, o impacto não se limita ao acesso à internet. Sistemas deixam de autenticar, integrações são interrompidas e fluxos operacionais passam a depender de processos manuais ou simplesmente param. Em operações distribuídas, esse efeito se propaga rapidamente, afetando atendimento, vendas e logística de forma simultânea.

O impacto financeiro acompanha essa dinâmica. Levantamentos internacionais mostram que o custo médio de downtime pode ultrapassar US$ 300 mil por hora em empresas de médio e grande porte, com valores significativamente maiores em ambientes industriais, onde processos são contínuos e altamente integrados. Mesmo considerando diferenças entre setores, a indisponibilidade deixou de ser um problema técnico isolado e passou a representar risco direto para o negócio.

O papel da infraestrutura e da regulação

No Brasil, esse cenário é influenciado também por fatores estruturais. A Agência Nacional de Telecomunicações estabelece critérios objetivos para caracterizar interrupções de serviço, considerando eventos superiores a 10 minutos com impacto sobre usuários. A existência desse tipo de parâmetro reforça que indisponibilidade não é exceção, mas uma condição prevista e mensurável.

Há ainda fatores externos que ampliam a exposição. Dados da Conexis Brasil Digital mostram que mais de 5,4 milhões de metros de cabos foram roubados ou furtados em 2023, afetando milhões de usuários. Esse tipo de ocorrência evidencia um ponto recorrente em ambientes corporativos: a ausência de diversidade real de rotas.

A contratação de múltiplos links não garante resiliência quando a infraestrutura compartilhada permanece a mesma em parte do trajeto. Em situações desse tipo, a interrupção de um trecho físico pode comprometer simultaneamente todas as conexões disponíveis.

Eventos de maior escala reforçam essa leitura. Durante as enchentes no Sul em 2024, municípios tiveram a conectividade severamente afetada, exigindo medidas emergenciais para restabelecimento do serviço. Esse tipo de cenário expõe a dependência de infraestrutura física e a necessidade de planejamento para contingências que vão além de falhas pontuais.

Outro vetor relevante está na dependência de plataformas digitais. A interrupção global dos serviços da Meta em 2021 mostrou como falhas em infraestrutura de backbone podem afetar simultaneamente comunicação, autenticação e operação em escala global. No contexto brasileiro, onde aplicações de mensageria são frequentemente utilizadas como canal de vendas e atendimento, esse tipo de indisponibilidade tem efeito imediato.

Esses diferentes cenários apontam para um mesmo desafio: a conectividade passou a ser um componente estrutural da operação, mas ainda não é tratada dessa forma em muitas organizações.

Foto: Tara Winstead / Pexels.com

O desafio é crescer com resiliência

A resposta, no entanto, não está em simplesmente contratar mais banda. Está em construir arquitetura de conectividade. Isso significa links redundantes em caminhos físicos distintos, para que o rompimento de um cabo ou a falha de um provedor não paralise a operação. Significa adotar SD-WAN para orquestrar o tráfego entre múltiplos links e executar failover inteligente, uma tecnologia cujo mercado na América Latina, segundo a Meticulous Research, deve saltar de US$ 157 milhões em 2024 para US$ 2,77 bilhões até 2035.

Também significa implementar observabilidade de rede, que vai além do monitoramento reativo para identificar causas-raiz e antecipar falhas antes que afetem o negócio. E também demanda, em muitos casos, contar com gestão contínua por equipes especializadas, porque a complexidade de ambientes multicloud com múltiplos links e políticas de segurança convergentes ultrapassa a capacidade da maioria dos times internos.

Para operações distribuídas em áreas remotas, em segmentos tais como agronegócio, mineração, logística e energia, a conectividade satelital de baixa órbita adicionou uma camada de resiliência antes inexistente. O Brasil já soma mais de 1 milhão de clientes Starlink ativos, e operadoras como Algar Telecom e Arqia lançaram soluções corporativas voltadas a setores que operam fora dos grandes centros.

Um estudo realizado pela pela Oxford Economics em 2024 identificou que as empresas no topo em capacidade de recuperação – o que os pesquisadores chamaram de “líderes em resiliência”, se recuperam 28% mais rápido de incidentes do que as demais. A diferença não é de orçamento; é de abordagem. Essas empresas entenderam que conectividade é um ativo estratégico que precisa ser gerenciado, monitorado e protegido com o mesmo rigor aplicado à segurança cibernética ou à continuidade financeira.

Toda empresa que migrou para a nuvem, digitalizou processos e conectou operações em tempo real fez, quer tenha percebido ou não, uma aposta na disponibilidade da sua rede. A pergunta que a liderança executiva precisa se fazer hoje não é quanto custa melhorar a arquitetura de conectividade. É quanto custa continuar sem fazê-lo.

*Head de Produtos e Marketing na Faiston.

Holding rural ajuda a evitar conflitos familiares e garante continuidade das atividades

Quando o patriarca falece sem planejamento, a briga pela fazenda pode acabar com o que levou décadas para construir. Para evitar esse cenário, famílias rurais de todo o Brasil têm adotado a holding rural como estratégia de proteção e organização do patrimônio. Essa ferramenta não serve apenas para gestão patrimonial e tributária, mas, sobretudo, para prevenir conflitos familiares e garantir a continuidade da atividade produtiva.

No contexto rural, o patrimônio raramente se limita à propriedade da terra. Trata-se, em regra, de um conjunto integrado que envolve ativos produtivos, receitas, passivos, relações familiares e expectativas sucessórias. A ausência de planejamento adequado sobre essa estrutura pode resultar em disputas, fragmentação de bens e perda de eficiência econômica.

A constituição de uma holding rural permite reorganizar esse cenário de forma estruturada. “Ao invés da divisão direta da propriedade entre herdeiros, o que frequentemente leva à fragmentação das áreas produtivas, os sucessores passam a deter participação societária na empresa, preservando a integridade do patrimônio e garantindo uma sucessão mais equilibrada”, explica Camille Trentin, advogada especialista em Direito de Família e Sucessões do escritório Álvaro Santos Advocacia e Consultoria no Agro.

Um dos principais benefícios da holding rural reside na possibilidade de antecipação do planejamento de sucessão. Por meio da estrutura societária, é viável organizar, ainda em vida, a transferência de participação aos herdeiros, evitando processos de inventário prolongados e, muitas vezes, litigiosos. “Outro aspecto relevante é a centralização patrimonial, que confere maior transparência, controle e governança, especialmente em propriedades familiares que atravessam gerações”, reforça a especialista.

Organização societária e governança familiar

holding rural permite a formalização de regras claras de administração e sucessão por meio de contrato social. Nesse instrumento, podem ser definidos critérios objetivos para a tomada de decisões, distribuição de resultados, ingresso de novos membros e responsabilidades de cada integrante da família. Essa previsibilidade jurídica reduz significativamente o risco de conflitos em momentos sensíveis, como o falecimento dos patriarcas, quando, na ausência de planejamento, as divergências tendem a se intensificar.

A estrutura também viabiliza a separação entre propriedade e gestão. Nem todos os herdeiros possuem vocação ou interesse na condução da atividade rural, e a holding permite distinguir aqueles que atuarão na administração do negócio daqueles que permanecerão apenas como sócios. “Trata-se de uma transição de um modelo estritamente familiar para uma lógica empresarial, mais profissionalizada e orientada à continuidade do negócio”, destaca a especialista.

Quando a holding rural é mais indicada?

De acordo com Camille, a adoção da holding, apesar das vantagens, não constitui solução universal. A sua implementação exige análise criteriosa das particularidades de cada núcleo familiar, incluindo perfil dos herdeiros, objetivos patrimoniais, viabilidade econômica e planejamento tributário.

“Não existe um modelo padrão como uma receita de bolo. O planejamento sucessório deve considerar a realidade de cada família. Não se trata de definir se holding, testamento ou doação são melhores de forma genérica, mas sim de identificar a solução mais adequada para cada caso concreto”, ressalta a especialista.

Assessoria jurídica especializada é fundamental

A constituição de uma holding rural demanda acompanhamento técnico qualificado, desde o diagnóstico patrimonial até a implementação da estrutura societária. O escritório Álvaro Santos Advocacia e Consultoria no Agro, com sede em Jataí (GO), atua há mais de uma década exclusivamente no setor agropecuário, oferecendo assessoria jurídica completa em áreas como Direito Agrário, Planejamento Patrimonial e Sucessório, Direito Ambiental, Tributação Rural, Direito Trabalhista e Previdenciário.

Com ampla experiência e profundo conhecimento das particularidades do setor, o escritório acompanha o produtor antes, dentro e depois da porteira, oferecendo suporte jurídico completo. “Sempre reforçamos que mais do que constituir uma empresa, é necessário estruturar um modelo que garanta segurança jurídica, equilíbrio nas relações e continuidade da atividade rural e tudo isso requer conhecimento específico”, conclui Camille.

Negócios em zonas de conflito expõem o custo da instabilidade global

por Israel Sayão*

Empresas internacionais operam hoje em um ambiente mais instável e imprevisível. Conflitos armados e tensões políticas aumentam o risco e pressionam decisões estratégicas. O cenário global atual apresenta níveis mais altos de incerteza. Governos tomam decisões rápidas e mudam regras com pouca previsibilidade. Esse movimento afeta contratos, investimentos e operações em diferentes mercados.

O risco político ocupa posição central nas decisões corporativas. Mudanças de governo e instabilidade institucional comprometem acordos e reduzem a segurança jurídica. Empresas precisam considerar esse fator desde o início de qualquer operação.

As sanções econômicas impactam diretamente a atividade empresarial. Países e blocos impõem restrições que limitam comércio, acesso a insumos e circulação de capital. Essas medidas podem interromper operações de forma imediata.

A logística sofre efeitos diretos em zonas de conflito. Rotas comerciais deixam de ser seguras e elevam custos de transporte. Empresas enfrentam atrasos e precisam redesenhar cadeias de suprimento com rapidez.

As empresas priorizam a segurança das equipes em cenários de instabilidade. Organizações reduzem operações, retiram profissionais e suspendem atividades quando necessário. A proteção das pessoas orienta essas decisões.

O ambiente financeiro apresenta alta volatilidade. Moedas locais perdem valor em curtos períodos. Empresas adotam proteção cambial (estratégia para reduzir perdas com variação de moeda) para preservar resultados.

Foto: Jakub Zerdzicki / Pexels.com

Os contratos passam por ajustes para lidar com riscos maiores. Empresas incluem cláusulas de força maior (situações fora do controle, como guerras) para reduzir impactos jurídicos. Essas cláusulas não evitam perdas, mas oferecem proteção.

As empresas adotam análise de cenário de forma contínua. Equipes monitoram decisões políticas e movimentos internacionais. Esse acompanhamento permite respostas mais rápidas e evita decisões tardias.

A entrada em novos mercados exige avaliação mais criteriosa. Empresas analisam a estabilidade institucional, que indica previsibilidade de regras e segurança jurídica. A ausência desse fator aumenta o risco da operação.

Os negócios em zonas de conflito exigem estratégia e preparo. Empresas que integram o risco à tomada de decisão conseguem manter operações. Empresas que ignoram o contexto ficam mais expostas a perdas difíceis de reverter.

*Especialista em negociações internacionais e estratégias de expansão de operações globais.

Do conceito à colheita: como a inovação digital está democratizando a eficiência no campo

por Micael Duarte*

Por muito tempo, a expressão “agricultura de precisão” soou como algo restrito a grandes corporações agrícolas ou laboratórios de tecnologia. O imaginário comum remetia a mapas complexos e sensores inacessíveis. No entanto, o cenário atual revela uma realidade bem mais palpável: a tecnologia deixou de ser um artigo de luxo para se tornar o braço direito da rentabilidade, independentemente do tamanho da propriedade.

Abaixo, trago como essa transformação está acontecendo na prática.

  1. O fim do desperdício: decisões baseadas em dados

A verdadeira revolução não está apenas na máquina, mas na informação. Ferramentas como o GPS agrícola e a telemetria mudaram o jogo ao permitir que o produtor visualize a operação em tempo real.

  • Redução de sobreposição: evitar que uma área receba sementes ou defensivos duas vezes economiza insumos e preserva o solo.
  • Gestão de frota: saber exatamente as horas trabalhadas, o consumo de combustível e as falhas dos equipamentos permite um planejamento logístico muito mais assertivo.
  1. A máquina como fonte de inteligência

O maquinário moderno deixou de ser apenas uma ferramenta mecânica para se tornar uma central de dados. Hoje, sistemas de monitoramento remoto permitem que o gestor acompanhe o desempenho da frota sem precisar estar fisicamente no talhão.

Um exemplo claro dessa evolução é o Smart Assist Remote da YANMAR, que utiliza conectividade e GPS para oferecer visibilidade total sobre o funcionamento dos equipamentos. Além da eficiência operacional, essa tecnologia traz uma camada extra de segurança ao patrimônio, com alertas de localização e movimentação que protegem o investimento do produtor.

Smart Assist Remote da YANMAR utiliza conectividade e GPS para oferecer visibilidade total sobre o funcionamento dos equipamentos (Foto: Divulgação / YANMAR)
  1. Proteção ativa e longevidade do equipamento

Inovar também significa proteger o que já se tem. A integração de sistemas de proteção eletrônica, como o dispositivo Vigia (da Colven), demonstra como a tecnologia atua na prevenção. Ao monitorar pressão de óleo e temperatura, o sistema pode intervir antes que uma falha mecânica se torne um prejuízo. É a transição da manutenção corretiva para a gestão preventiva inteligente.

  1. A era da inovação acessível

O movimento mais importante da indústria atual é a democratização. Recursos de conectividade e telemetria, que antes eram exclusivos de máquinas gigantescas, agora estão presentes em equipamentos de menor porte.

Essa mudança de paradigma garante que o pequeno e o médio produtor também tenham acesso a ferramentas que otimizam a produção. Quando a tecnologia se torna acessível, o campo ganha em escala, sustentabilidade e, acima de tudo, em ganho real no bolso de quem produz.

*Engenheiro agrícola, especializado em análise de mercado, prospecção de novos clientes e suporte técnico-comercial, com foco em colheitadeiras. Atualmente é Analista de Inovação Sênior na YANMAR South America.

BNDES já aprovou R$ 160,8 bi para o agro desde 2023

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou, desde janeiro de 2023, R$ 160,8 bilhões em crédito para o setor agropecuário nacional. O montante é 65,3% superior ao aprovado no período entre 2019 e 2022 (R$ 97,3 bilhões). Os recursos chegaram a 93% dos municípios brasileiros.

O volume inclui recursos aprovados nos Programas Agropecuários do Governo Federal (PAGF), no BNDES Crédito Rural, além de apoio para projetos de investimento, com aquisição de máquinas, equipamentos e serviços tecnológicos.

Do total aprovado, R$ 19 bilhões reforçaram a capacidade produtiva da agroindústria, como aumento da produção de biocombustíveis, da capacidade de armazenagem de produtos agrícolas e de recursos para centros de pesquisa e inovação no setor. Entre 2019 e 2022, as aprovações de crédito com essa finalidade somaram R$ 11,7 bilhões.

“O BNDES tem sido um dos principais parceiros do setor agropecuário brasileiro. Ampliamos o volume de recursos para esse setor em todas as áreas. Um dos destaques é a produção de biocombustíveis. Foram aprovados R$ 13,5 bilhões para 48 projetos de etanol, valor 217% superior ao que foi aprovado entre 2019 e 2022, que somou R$ 4,3 bilhões. Além disso, o Banco teve o maior orçamento já disponibilizado no Plano Safra 2025/2026, com R$ 70 bilhões”, afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

Os números foram divulgados durante a Agrishow, maior feira de tecnologia agrícola da América Latina e uma das maiores do mundo, que está acontecendo até o dia primeiro de maio, em Ribeirão Preto, no interior paulista, com patrocínio do BNDES.

“No setor tão importante para a economia brasileira como setor agropecuário, o BNDES faz presente apoiando especialmente o investimento. Então ano passado foram mais de R$ 50 bilhões investidos no setor, mais de 200 mil operações realizadas por meio de uma extensa rede de parceiros, instituições financeiras, que municípios do país”, explicou o superintendente da Área de Operações e Canais Digitais do Banco, Marcelo Porteiro.

Foto: Getty Images

Milho sobe em março com apoio do petróleo, mas perde força em abril

Os preços do milho avançaram em março no mercado internacional e doméstico, sustentados pela valorização do petróleo e por incertezas relacionadas ao cenário geopolítico e aos custos de produção. O movimento, no entanto, perdeu força no início de abril, diante da queda do petróleo e de fatores sazonais no Brasil.

Na Bolsa de Chicago (CBOT), o cereal registrou alta média de 5,3% em março, para USD 4,53 por bushel. O suporte veio principalmente do petróleo mais elevado, que melhora as margens das usinas de etanol nos Estados Unidos e, consequentemente, aumenta a demanda pelo milho. Ao mesmo tempo, o conflito no Oriente Médio e os custos de insumos mantiveram o mercado atento aos riscos para a safra 2026/27.

Em abril, porém, o cenário externo mudou. A queda do petróleo, associada a sinais de alívio nas tensões entre Estados Unidos e Irã, reduziu o prêmio do milho via etanol e pressionou as cotações. Na média da primeira quinzena, os preços recuaram 0,5%, para USD 4,50 por bushel.

Foto: John Wu / Pexels.com

No Brasil, o milho também registrou alta em março, acompanhando o movimento externo e refletindo fatores internos. O atraso no plantio em algumas regiões da segunda safra, a oferta mais limitada por parte dos produtores — ainda focados na colheita da safra de verão — e as preocupações com o aumento dos custos logísticos, diante da alta do diesel e dos fretes, contribuíram para a valorização. Em Campinas, os preços subiram 4,4% no mês, para R$ 71 por saca.

No início de abril, no entanto, o mercado doméstico passou a ser pressionado. O avanço da colheita da primeira safra, a melhora das condições climáticas para a segunda safra e a valorização do real reduziram a paridade de exportação, enfraquecendo os negócios nos portos. Com compradores mais abastecidos e atuando de forma cautelosa, os preços em Campinas recuaram para abaixo de R$ 70 por saca na primeira quinzena do mês.

De acordo com o Itaú BBA, apesar da pressão recente, a segunda safra se desenvolve de forma positiva. As chuvas recentes aliviaram o estresse hídrico em regiões como o oeste do Paraná. Atualmente, a maior parte das lavouras está em fase vegetativa, enquanto cerca de um terço da área, concentrada em Mato Grosso, entrou em floração, etapa mais sensível à disponibilidade de água.

Conflito no Oriente Médio pressiona fertilizantes e mantém preços elevados

O mercado global de fertilizantes segue pressionado entre março e início de abril, em meio à escalada do conflito no Oriente Médio, que tem afetado a produção, a logística e os custos de energia, especialmente em países do Golfo Pérsico. Os nitrogenados lideram o movimento de alta. No mercado brasileiro, a ureia acumulou valorização expressiva no período, alcançando cerca de USD 760 por tonelada CFR em 10 de abril.

De acordo com o Itaú BBA, a elevação reflete a combinação de oferta mais restrita, aumento nos preços de petróleo e gás natural e maior aversão ao risco no cenário internacional. No curto prazo, o mercado tende a permanecer ajustado e volátil, diante das incertezas sobre a duração do conflito e a normalização dos fluxos logísticos globais.

O segmento de fosfatados também registrou maior tensão nas últimas semanas. Além dos impactos diretos do conflito em uma região estratégica para o fornecimento de matérias-primas, o mercado foi pressionado pela alta do enxofre, insumo fundamental na produção de ácido sulfúrico. No Brasil, os preços do enxofre acumulam elevação significativa desde fevereiro, elevando os custos de produção.

Nesse contexto, os preços dos fosfatados avançaram cerca de 7% no mercado doméstico, com o MAP atingindo aproximadamente USD 890 por tonelada CFR. Apesar de a demanda agrícola ainda avançar de forma gradual, a combinação entre oferta mais ajustada, custos elevados e incerteza geopolítica tende a sustentar os preços em patamares firmes no curto prazo.

Já o mercado de potássicos apresenta maior estabilidade relativa em comparação aos demais nutrientes, embora também impactado pelo aumento das incertezas globais e pelos custos logísticos. A oferta internacional segue mais equilibrada, com Rússia e Belarus mantendo participação relevante no comércio global.

Para os próximos meses, a expectativa é de avanço gradual da demanda, enquanto os preços permanecem sustentados, ainda que com menor volatilidade em relação aos nitrogenados e fosfatados.

Foto: Aleksander Dumau0142a / Pexels.com

Fim da alíquota zero de PIS/Cofins encarece insumos e pressiona custo de produção no agro

A entrada em vigor da Lei Complementar  nº 224/2025, em 1º de abril de 2026, introduziu uma mudança relevante na estrutura de custos do agronegócio ao encerrar a alíquota zero de PIS e Cofins sobre insumos agrícolas. A medida, que integra um corte linear de 10% nos incentivos fiscais federais, reintroduz a cobrança dessas contribuições sobre produtos essenciais à produção, como fertilizantes e defensivos, com impacto direto sobre o custo das lavouras.

Essa reoneração atinge tributos que, até então, tinham incidência zerada sobre parte dos insumos do setor. O PIS (Programa de Integração Social) e a Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), cobrados sobre a receita das empresas, vinham sendo utilizados como instrumentos de desoneração no agronegócio. Com a mudança, esses produtos voltam a ser tributados, ainda que em patamar reduzido, cerca de 0,925% no regime não cumulativo.

Embora a alíquota seja inferior a 1%, o impacto tende a ser relevante devido ao peso dos insumos na composição dos custos agrícolas. Em culturas como soja e milho, insumos como fertilizantes e defensivos concentram parcela relevante do custo operacional, o que amplia o impacto de mudanças tributárias mesmo quando as alíquotas são reduzidas.

É nesse ponto que, segundo Gustavo Venâncio, advogado e sócio da Lastro Soluções Tributárias para o Agro, a mudança ganha dimensão prática. “O produtor nunca trabalhou com esse tributo. PIS e Cofins não faziam parte da rotina. A partir de agora, isso muda”, afirma. Para ele, o impacto não está apenas na alíquota, mas na base sobre a qual incide. “É praticamente 1%, mas sobre um insumo largamente utilizado. Isso gera um aumento de custo significativo”, diz.

O aumento ocorre em um momento de maior fragilidade financeira do setor. Após ciclos de preços mais elevados, produtores enfrentam compressão de margens, custos ainda pressionados e aumento do endividamento, o que reduz a capacidade de absorver novas despesas. Nesse contexto, a reintrodução da tributação tende a ter efeito direto sobre a rentabilidade e pode influenciar decisões de compra e negociação ao longo da safra.

Além do impacto econômico, a mudança traz desafios na aplicação prática da regra. Ainda não há clareza consolidada sobre como operacionalizar a cobrança, especialmente em relação aos códigos fiscais (CST) a serem utilizados na emissão de notas fiscais. A falta de padronização dificulta a orientação tanto para empresas fornecedoras quanto para produtores.

“Estamos prestes a ter a vigência da alteração e ainda não sabemos como orientar corretamente a emissão das notas fiscais. As coisas acabam acontecendo de forma atropelada”, afirma Venâncio.

Diante dessas incertezas operacionais, o mercado começou a reagir antes mesmo da entrada em vigor da medida. Empresas anteciparam entregas e incentivaram a retirada de insumos antes de abril como forma de evitar a incidência dos tributos. Com a nova regra já em vigor, o custo adicional passou a ser incorporado às negociações.

“O produtor vai pagar mais caro no adubo e no defensivo. Vai ter o destaque de cerca de 1% na nota, e isso se agrega ao preço”, explica o tributarista.

Esse movimento ocorre em paralelo a outro fator que amplia a incerteza: o caráter temporário da medida. “A cobrança vale até dezembro de 2026, antes da entrada em vigor das novas regras da reforma tributária sobre o consumo, previstas para 2027. O curto intervalo reduz a previsibilidade e exige do produtor adaptação em um ambiente de mudanças sucessivas”, acrescenta Viviane Morales, advogada, sócia proprietária e diretora Administrativa e Financeira da Lastro.

Diante desse cenário, a recomendação é de maior atenção às operações. A conferência das notas fiscais, a verificação das alíquotas aplicadas e o entendimento da composição dos preços passam a ser ainda mais relevantes na gestão da atividade.

Mais do que um ajuste pontual, o fim da alíquota zero de PIS/Cofins sinaliza uma mudança gradual na política de incentivos ao agronegócio. Ao reintroduzir a tributação sobre insumos estratégicos, a medida tende a repercutir ao longo de toda a cadeia produtiva e já começa a influenciar preços, negociações e decisões no campo em 2026.

Foto: Mateus André / Freepik

Integração internacional no agro abre novas fronteiras de negócios

A agricultura mundial tem sido profundamente moldada pela força produtiva de dois gigantes: os Estados Unidos e o Brasil. De um lado, o modelo norte-americano se destaca pela alta tecnologia, eficiência operacional e liderança global na produção de grãos. Do outro, o Brasil consolida-se como um verdadeiro celeiro do mundo na produção de alimentos, impulsionado por sua diversidade, crescente inovação no campo e capacidade de produzir até três safras por ano.

Embora concorram em diversas commodities, esses dois países compartilham desafios e oportunidades que vão além da disputa por mercado. A integração entre as culturas agrícolas americana e brasileira abre espaço para a troca de conhecimento, adoção de boas práticas e geração de valor especialmente para empresas e agroindústrias brasileiras que buscam ampliar sua competitividade em escala global.

De acordo com Márcio Barboza, técnico em agricultura, gerente de exportação e vendas internacionais e especialista em expansão de mercado, planejamento estratégico e liderança de equipes, essa integração é sempre importante. “Não importa se é no preparo de solo ou em qualquer outra atividade: para atuar nos Estados Unidos, é fundamental entender suas peculiaridades se integrar a cultura local”, diz.

Segundo ele, os Estados Unidos são formados por uma diversidade cultural significativa, o que também se reflete no ambiente de negócios. “Cada estado tem suas características próprias. Em algumas regiões, principalmente no Sul, as relações são mais reservadas no início, mas, à medida que a confiança é construída, a proximidade cresce de forma consistente”, explica o especialista.

Importância da pesquisa de mercado

Para empresas que desejam acessar o mercado norte-americano, a pesquisa de mercado é um passo essencial. Compreender as características regionais, os perfis produtivos e as demandas específicas podem reduzir significativamente as barreiras de entrada. “Conhecer bem o produto e avaliar se ele se encaixa no mercado almejado é fundamental”, explica Barboza.

Não é recomendável, segundo o consultor, tentar inserir soluções voltadas para soja ou milho em regiões onde essas culturas não são expressivas, como na Califórnia, por exemplo. Nessa região já há mais oportunidades para segmentos específicos. “Quem atua com soluções para fruticultura, amêndoas e cultivos similares, a região pode ser estratégica”, destaca.

Outra recomendação é utilizar informações disponíveis online para mapear o mercado antes de ir a campo. “É possível acessar sites de revendas americanas, conhecer seus estoques, entender o tipo de maquinário utilizado e a potência de tratores mais comum em cada área, isso faz toda a diferença na abordagem comercial e torna as visitas presenciais muito mais assertivas”, orienta o profissional.

Além disso, ter uma base ou parceiro local nos Estados Unidos é um diferencial competitivo importante. “Os americanos valorizam muito a garantia de reposição de peças e suporte. Ter estoque local ou uma estrutura de apoio pode facilitar muito a entrada no mercado”, acrescenta.

Desafios

Entre os principais desafios para as empresas brasileiras está a comunicação. Dominar o idioma inglês é essencial para estabelecer relações comerciais sólidas, afinal a fluência facilitará a abertura de portas e fortalece a confiança nas negociações.

Outro ponto importante a se atentar é sobre às exigências logísticas e regulatórias. A boa notícia é que nesse ponto já há empresas especializadas locais que oferecem suporte completo, desde o transporte até o desembaraço aduaneiro. “Grande parte da operação pode ser terceirizada, o que facilita o processo de internacionalização”, explica Barboza.

Melhores oportunidades

Segundo o gerente de exportação, o segmento de componentes para o mercado de reposição (aftermarket) representa uma porta de entrada estratégica para empresas brasileiras. “É um caminho mais acessível do que tentar ingressar diretamente com máquinas ou equipamentos completos”, avalia.

Em relação às regiões, os estados do Sul dos Estados Unidos, como: Geórgia, Alabama, Mississippi, Flórida, Carolinas, Oklahoma e Arkansas, tendem a oferecer maior abertura inicial para novos negócios. Os estados da costa Oeste e parte do Noroeste, como Idaho, Washington, Oregon e Califórnia, também demonstram boa receptividade. “Tive experiências positivas tanto com revendas vinculadas a grandes marcas quanto com independentes, que estão mais abertas a novas parcerias. Também destacaria o Texas como um mercado promissor”, relata Barboza.

Já o Corn Belt, principal região produtora de grãos do país, é preciso um pouco mais de atenção, pois apresenta maior grau de competitividade e barreiras de entrada mais elevadas. “É um mercado mais consolidado e disputado e continua sendo o ambiente mais desafiador e competitivo para quem deseja entrar no mercado americano. É uma região mais indicada para quem já está com a operação consolidada”, conclui o consultor.

Conflito derruba exportações para Golfo, mas trimestre segue positivo

O conflito no Oriente Médio já impacta as exportações brasileiras para os países árabes do Golfo, importantes mercados para produtos do agronegócio e minerais. As vendas para Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Bahrein e Omã — que formam o bloco econômico conhecido como Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) — caíram 31,47% em março na comparação anual, para US$ 537,11 milhões, segundo dados da Inteligência de Mercado da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.

Apesar do recuo no mês, o desempenho no trimestre ainda é positivo. De janeiro a março, as exportações para o CCG cresceram 8,14%, somando US$ 2,41 bilhões. Considerando todos os 22 países acompanhados pela entidade, incluindo as nações árabes do Levante e as africanas, a alta foi de 3,90%, para US$ 5,13 bilhões.

Segundo a Câmara Árabe, o fechamento do Estreito de Ormuz, que restringiu o acesso a portos estratégicos do Golfo, interrompeu uma trajetória de alta nas vendas brasileiras. O impacto ainda não compromete o resultado agregado, mas pode se intensificar ao longo do ano, dependendo da evolução do conflito.

“As vendas para o CCG, que concentra os maiores mercados árabes e responde por 47% das exportações para o bloco de países, vinham em alta em janeiro e fevereiro na comparação com 2025, segundo melhor ano da série histórica”, afirma o secretário-geral da Câmara Árabe-Brasileira, Mohamad Mourad. “O recuo de março decorre do conflito e, por ora, não afeta o acumulado, mas ainda pode trazer impactos”.

No agronegócio, que responde por cerca de 75% das vendas, as exportações para o CCG recuaram 25,38% em março, mas acumulam alta de 6,8% no trimestre, de US$ 1,44 bilhão, graças a ganhos em produtos importantes, contrabalançados por perdas em outros itens. Principal item da pauta agropecuária, o frango recuou 13,80% no mês, para US$ 185,50 milhões, mas só 2,32% no acumulado, para US$ 619,12 milhões.

O açúcar, segundo principal produto, recuou 43,37% em março, para US$ 54,07 milhões, mas avançou 26,41% no ano, para US$ 363,11 milhões. A carne bovina destoou, com alta de 23,87% no mês mais intenso do conflito, para US$ 47,75 milhões, além de avanço de 65,29% no trimestre, para US$ 194,56 milhões.

O milho praticamente deixou de ser embarcado ao CCG em março, com queda de 99,96%, para US$ 0,03 milhão, embora o recuo no acumulado ainda seja limitado a 5,8%, no total de US$ 61,22 milhões. Já o café registrou alta de 34,24% no mês de março, para US$ 9,97 milhões, e de 64,3% no trimestre, para US$ 49,58 milhões.

Outro ponto de atenção é o recuo nas importações brasileiras de fertilizantes provenientes do CCG, que caíram 51,35% no primeiro trimestre. A região responde por cerca de 10% do fertilizante adquirido pelo agronegócio brasileiro no exterior.

“Esse é um ponto que preocupa tanto o nosso agro quanto os países árabes, que dependem da capacidade do Brasil de disponibilizar alimentos excedentes”, pontua Mourad. “É preciso buscar formas de minimizar esses impactos”, finaliza.