A eleição presidencial ainda não terminou, mas o agronegócio brasileiro já sabe que terá um Congresso Nacional diferente a partir de 2027.
O primeiro turno das eleições de 2026 colocou Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. Flávio terminou a primeira rodada na liderança, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. A decisão sobre quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos ficou para 25 de outubro.
Para o campo, porém, existe uma segunda eleição que merece tanta atenção quanto a disputa presidencial: a composição do Congresso. E foi justamente ali que o mapa político brasileiro sofreu uma mudança importante.
O PL elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Câmara na próxima legislatura. No Senado, o partido também ampliou sua presença. O resultado fortalece o grupo político que, nos últimos anos, manteve uma relação próxima com parte expressiva das entidades e lideranças do agronegócio.
Isso não significa que o Congresso será simplesmente um “Congresso do agro”. A realidade é mais complexa. Mas significa que produtores rurais, cooperativas, agroindústrias e entidades representativas do setor chegam a 2027 com uma estrutura política relevante para disputar espaço nas principais decisões econômicas do país.
E há muito em jogo. O próximo governo terá de discutir o futuro do Plano Safra, crédito rural, seguro agrícola, infraestrutura, armazenagem, endividamento rural, tributação, licenciamento ambiental, regularização fundiária e comércio exterior.
Em praticamente todas essas áreas, uma palavra será decisiva: Congresso. A força parlamentar do agro pode fazer diferença especialmente porque o próximo presidente não terá liberdade para governar ignorando a correlação de forças construída nas urnas.
Se Lula vencer o segundo turno, encontrará um Legislativo com uma composição política significativamente diferente da orientação de seu partido. Se Flávio Bolsonaro vencer, terá maior proximidade ideológica com uma parcela expressiva do Congresso, mas também precisará negociar com diferentes partidos e interesses.
Em ambos os casos, o agro estará sentado à mesa. E essa talvez seja a principal mensagem das eleições de 2026 para o setor.
O poder não estará apenas no Palácio do Planalto
Durante décadas, boa parte da análise política brasileira ficou concentrada na disputa presidencial. Para o agronegócio, essa lógica é insuficiente. Uma medida provisória pode ser editada pelo Executivo, mas precisa sobreviver ao Congresso. Uma mudança tributária precisa passar pelo Legislativo. O orçamento depende de deputados e senadores. Comissões podem alterar profundamente o conteúdo de projetos. Relatorias podem decidir o rumo de uma proposta.
É nesse espaço que a Frente Parlamentar da Agropecuária, a FPA, ganha importância. A bancada reúne parlamentares de diferentes partidos e representa uma das principais estruturas de articulação política do setor produtivo rural em Brasília.
O desafio agora será transformar força eleitoral em resultado concreto. Ter parlamentares alinhados às pautas do agro não garante, por si só, políticas melhores para o produtor. É preciso construir maioria, negociar textos, disputar relatorias e encontrar pontos de convergência com outros setores da economia.
A política do campo, portanto, não termina na porteira. Em 2027, ela continuará sendo decidida também nos corredores do Congresso.
Crédito rural será uma das primeiras batalhas
Poucos temas afetam tanto o produtor quanto o dinheiro disponível para financiar a produção. Plano Safra, taxas de juros, seguro rural, investimentos em máquinas, armazenagem e infraestrutura estarão entre as prioridades do setor. O problema é que o próximo governo encontrará uma disputa cada vez maior por recursos públicos.
A pressão do agronegócio por mais crédito terá de conviver com a necessidade de controlar as contas públicas. Essa equação não será simples. O Congresso poderá pressionar por recursos e programas específicos, mas também terá de lidar com o limite fiscal do governo federal. Para o produtor, a discussão terá efeito direto no custo da próxima safra.

Reforma tributária entra no radar do campo
Outra batalha será travada no sistema tributário. A reforma tributária continuará produzindo efeitos sobre produtores rurais, cooperativas, agroindústrias, fornecedores de insumos e toda a cadeia de alimentos.
A discussão não será apenas sobre quanto o setor pagará. Será também sobre como os impostos serão cobrados, como funcionarão os créditos tributários e qual será o impacto sobre o custo de produção e a competitividade das exportações brasileiras.
Para um país que se tornou uma potência mundial na produção e exportação de alimentos, qualquer aumento de custo pode repercutir muito além da propriedade rural. Pode chegar ao supermercado e ao mercado internacional.
Meio ambiente pode virar campo de batalha
Se existe um tema capaz de produzir conflitos entre Congresso, governo e agronegócio, ele continuará sendo o meio ambiente. Licenciamento, regularização fundiária, rastreabilidade, preservação, crédito condicionado a critérios ambientais e mercado de carbono estarão entre os assuntos mais sensíveis.
Mas existe uma questão que o setor não poderá ignorar. O mercado internacional está mudando. Grandes compradores querem saber cada vez mais de onde vem o produto, como ele foi produzido e qual é sua pegada ambiental. Isso coloca o Brasil diante de uma equação delicada.
O produtor precisa de segurança jurídica e regras claras. Ao mesmo tempo, o país precisa manter acesso aos mercados que compram bilhões de dólares em produtos agropecuários brasileiros. A discussão ambiental, portanto, deixou de ser apenas ideológica. Ela também é econômica.
A próxima disputa pode acontecer fora do Brasil
O cenário internacional será outro teste para o próximo governo. O agronegócio brasileiro entra em 2027 como um dos principais pilares da balança comercial do país, mas também em um mundo marcado por disputas comerciais, protecionismo, conflitos geopolíticos e mudanças nas cadeias globais de produção.
China, Estados Unidos, União Europeia e Oriente Médio continuarão no radar. Soja, carnes, café, açúcar, milho, algodão, celulose e outros produtos brasileiros dependem de mercados externos cada vez mais exigentes.
Nesse ambiente, infraestrutura, diplomacia comercial, defesa sanitária e abertura de novos mercados terão o mesmo peso que decisões tomadas dentro das fazendas.
O agro terá de escolher como quer exercer seu poder
Existe, porém, uma questão política que o resultado de 2026 coloca diante do próprio agronegócio. O setor será capaz de atuar para além da polarização? Essa pode ser uma das decisões estratégicas mais importantes dos próximos anos.
O agro possui interesses que atravessam governos e partidos. Seguro rural não é uma pauta de esquerda ou direita. Infraestrutura também não. Pesquisa, logística, defesa sanitária, crédito e abertura de mercados tampouco. São políticas de Estado.
Quanto maior a capacidade do setor de negociar com diferentes governos e bancadas, maior tende a ser sua capacidade de proteger interesses de longo prazo. A eleição de 2026 mostrou que a força política do agro não estará concentrada em um único gabinete. Ela estará espalhada por Brasília. No Palácio do Planalto, no Senado, na Câmara, nas comissões, nas negociações do orçamento e, principalmente, na capacidade de articulação de suas entidades e representantes.
Por isso, a pergunta que interessa ao produtor rural talvez não seja apenas quem será o próximo presidente. A pergunta é outra: quem terá força para negociar com ele?
E, depois das eleições de 2026, o agronegócio chega a Brasília com uma resposta bastante clara: terá uma bancada numerosa, uma estrutura de articulação consolidada e quatro anos de decisões estratégicas pela frente.
O tamanho dessa influência, porém, dependerá menos do número de parlamentares eleitos e mais da capacidade de transformar votos em políticas públicas capazes de aumentar a produtividade, reduzir custos e manter o Brasil competitivo no mercado mundial de alimentos.








