Sem governança, inovação não escala e nem gera resultado

por Bruno Dietrich Bicca*

O Brasil tem avançado de forma consistente no cenário global da inovação. Na edição mais recente do Índice Global de Inovação (IGI), divulgada em 2024 pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), o país alcançou a 50ª posição entre as economias avaliadas, acumulando um avanço de 20 posições desde 2015 e mantendo a liderança na América Latina, à frente de Chile e México. O resultado reflete a evolução de fatores como pesquisa, infraestrutura, sofisticação empresarial e produção de conhecimento. No entanto, transformar potencial inovador em resultados concretos dentro das empresas continua sendo um desafio. Trata-se de uma ação que não depende apenas de investimento, tecnologia ou apoio da alta liderança. Sem governança, iniciativas promissoras dificilmente saem do papel ou geram impacto sustentável para o negócio.

A explicação para o fracasso de muitos programas inovadores é menos tecnológica do que parece. Empresas promovem hackathons, realizam provas de conceito, firmam parcerias com startups e lançam laboratórios de inovação. Meses depois, porém, poucos conseguem apontar quais projetos avançaram, quais foram interrompidos e quais efetivamente geraram retorno. O problema não costuma ser a falta de recursos, mas a ausência de método. Quando as iniciativas estão desconectadas da estratégia da companhia, sem responsáveis definidos e sem critérios claros de decisão, o resultado é previsível, o entusiasmo inicial desaparece e o resultado fica pelo caminho.

Nesse contexto, a governança exerce um papel fundamental porque conecta inovação a resultado. Ela define quem toma decisões, quais critérios serão utilizados para aprovar investimentos, qual será a cadência de avaliação dos projetos e como os recursos serão distribuídos. Na prática, isso significa criar estruturas formais de acompanhamento, estabelecer regras para a evolução das iniciativas e definir marcos objetivos para que experimentos avancem ou sejam encerrados.

Os erros mais comuns observados nas organizações reforçam essa necessidade. Um deles é inovar por tendência, sem relação direta com os desafios reais do negócio. Outro é a ausência de métricas, que impede avaliar o aprendizado obtido e o impacto gerado. Também é frequente encontrar programas sem liderança clara ou orçamento dedicado, vulneráveis a mudanças de prioridade da empresa. Há ainda um erro particularmente custoso: a incapacidade de encerrar projetos. Quando não existem critérios objetivos para interromper iniciativas que não entregam resultados, recursos continuam sendo consumidos sem geração de valor.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que inovação e operação exigem lógicas diferentes. Enquanto o negócio principal demanda previsibilidade, controle e eficiência, inovar depende de experimentação, velocidade e tolerância ao erro. Tentar administrar ambos os processos com a mesma estrutura costuma comprometer os dois lados. Por isso, empresas mais maduras criam mecanismos específicos para inovar, como programas de Open Innovation e estruturas de Corporate Venture, com governança, orçamento e métricas próprias. O objetivo é simples, investir pouco para aprender rapidamente e direcionar recursos maiores apenas para iniciativas que comprovem seu potencial.

A construção de resultados consistentes passa, ainda, por algumas práticas essenciais. A primeira é partir dos desafios estratégicos da empresa, e não das tecnologias ou tendências do momento. A segunda é definir uma tese clara que indique onde vale a pena inovar e, igualmente importante, onde não vale. Também é fundamental estabelecer comitês com poder real de decisão, adotar uma lógica de portfólio em vez de apostas isoladas e medir continuamente tanto o aprendizado das fases iniciais quanto os resultados financeiros dos projetos mais maduros.

O avanço do Brasil nos indicadores globais mostra que o ambiente de desenvolvimento tecnológico e criação de novos negócios está cada vez mais favorável. No entanto, dentro das empresas, transformar esse potencial em vantagem competitiva exige mais do que boas ideias, acesso a tecnologia e disponibilidade de recursos financeiros. É necessário criar estruturas capazes de conectar experimentação a resultados concretos, com processos claros de tomada de decisão, acompanhamento e mensuração de impacto. Sem uma governança bem definida, projetos tendem a seguir caminhos desconectados da estratégia corporativa, consumindo tempo e orçamento sem gerar benefícios relevantes para o negócio.

*Co-Fundador da Origin Inovação.

Lula é reeleito presidente do Brasil: “Fato histórico que devo ao povo brasileiro”

com informações da Agência Gov

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva governará o Brasil por mais quatro anos. Foi o que decidiu a maioria da população brasileira no segundo turno da eleição presidencial, realizado nesse domingo (25/10). Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro ao obter 64.256.232 votos e tornar-se a primeira pessoa eleita quatro vezes para o cargo de presidente da República.

“Eu quero que vocês saibam que, cada coisa que faço, faço pensando em vocês. Todas as políticas públicas são feitas pensando em vocês. Vocês me deram a primazia de ser o primeiro presidente da República eleito quatro vezes pela via democrática. Esse é um fato histórico que eu devo ao povo brasileiro”, afirmou Lula ao discursar na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo.

O discurso foi feito pouco depois de o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kássio Nunes Marques, proclamar o resultado das eleições.

Antes de falar na Avenida Paulista, o presidente fez um pronunciamento a apoiadores e à imprensa em um hotel em São Paulo. Na ocasião, destacou que vai governar para todos os brasileiros e que manterá uma relação de respeito com o Congresso Nacional. “Na medida em que a gente ganha as eleições, a gente não tem mais adversário. Eu tenho que governar para 215 milhões (de brasileiros)”, ressaltou. “Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito. Mas ele foi eleito para governar para todos e com base no respeito à Constituição, na relação com o Congresso. Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou trabalhar”, completou.

Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil

Embrapa and Chinese institutions cooperate to strengthen AI for family farming

Embrapa and four Chinese institutions signed a Memorandum of Understanding (MoU) to expand scientific and technological cooperation between the two countries, focusing on the development and application of artificial intelligence (AI) for family farming. The agreement was signed during a mission to China in September. It provides for the establishment of the Brazil-China Cooperation Center for AI Application, as well as for joint research, the exchange of researchers and technicians, capacity-building, and the setup of pilot centers on smart agricultural machinery in Brazil.

The MoU signed by Embrapa, Nanjing Agricultural University (NAU), Jiangsu Academy of Agricultural Sciences (JAAS), Sinomach Digital Technology Corporation, and the International Association for People’s Cooperation (IAPC) establishes a framework to organize projects of common interest and bring the scientific, technological, and institutional expertise of the two countries closer. It is valid for five years.

For the president of Embrapa, Silvia Massruhá, the partnership responds to a strategic challenge for Brazilian agriculture: “If we don’t digitally include smallholders and mid-scale farmers in family agriculture, the gap between them and large-scale farmers will grow”, she explains.

Technology with adaptations to Brazilian conditions

The partnership stems from the understanding that digital technologies need to be adapted to different agricultural realities. The goal is not only to transfer solutions from one country to another, but to establish a process in which knowledge and technologies are assessed, adapted, and validated according to the conditions in each production system.

“More than just technology transfer, the agreement is about co-development, about adapting solutions to our reality”, Silvia Massruhá explains. The president stresses that such adaptation is particularly important in Brazil, which combines different production systems and six biomes.

The Memorandum comprises that very own diversity. The technologies can be applied to several agricultural chains and crops, including fruit, vegetables, corn, soybeans, rice, and other family farming activities. The solutions include smart agricultural machines, digital platforms, the Internet of Things (IoT), big data, artificial intelligence, socialized agricultural services, and crop models, as well as equipment and devices aimed at small and medium-sized properties.

Pilot centers and scientific exchange

One of the main fronts the agreement stipulates is the joint establishment of Smart Agricultural Machinery Service Centers in family farming settlements in Brazil. The pilot areas will allow for the demonstration of smart machines and platforms and for technology assessment under real production conditions. Sensors, IoT devices, big data, and artificial intelligence can be combined and used in those locations for monitoring, analysis, and decision-making support.

Integrating demonstration units into the National Program for Technical Assistance and Rural Extension (PNater) is also being considered, as well as the possibility of replicating the experiences in other settlements.

The agreement also provides for the exchange of researchers, technicians and graduate students, technical missions, workshops, seminars, training courses, and remote collaboration between the institutions. The cooperative unions involved in the pilot areas will also participate in the collection and management of data the activities generate

Chinese experience in digital agriculture and smart mechanization will be one of the bases to assess technologies that can be applied to Brazilian pilot projects. Sinomach Digital Technology Corporation is part of the digital technology front. Embrapa’s mission to China visited initiatives using robotics, automation, and artificial intelligence in agricultural production.

For instance, the Brazilian delegation learned about robotic arms used not only to harvest strawberries, tomatoes, grapes, and other fruits, but also to monitor systems that integrate different sensors and allow for real-time tracking of field information.

“The closer ties with Sinomach pave the way to bring those innovations to Brazil and adapt them to our reality”, explains Luciana Alvim Santos Romani, a researcher at Embrapa Digital Agriculture. Alongside Silvia Massruhá, she is one of the coordinators of Semear Digital, a project that aims to broaden smallholder and mid-scale farmer access to new technologies.

According to the researcher, the proposal is to “tropicalize” those solutions, combining them with knowledge already being generated in Brazil and adapting equipment and technologies to Brazilian conditions.

As an example, she mentions robots to monitor plants, count fruits, and estimate yield; or smaller tractors that are considered potentially suited for Brazilian smallholdings and medium-sized farms.

Photo: Jayme Barbedo

Pasto verde não é sinônimo de dieta equilibrada para a recria

O inverno deste ano trouxe um cenário diferente em algumas regiões do Brasil, onde a ocorrência de chuvas contribuiu para manter as pastagens verdes mesmo durante o período seco. Mas a aparência da pastagem, isoladamente, não indica se ela atende às exigências nutricionais dos animais.

Conforme explica o zootecnista e diretor técnico industrial da Connan, Bruno Marson, a ocorrência de chuvas durante o inverno impediu que algumas pastagens secassem completamente. Com a chegada do período das águas e o início da rebrota com mais vigor, é importante que o produtor avalie as condições reais da fazenda antes de tomar decisões sobre o manejo nutricional.

“Pasto verde não significa pasto recuperado ou com capacidade de suprir todas as exigências dos animais. Por isso, é preciso avaliar o objetivo produtivo de cada lote e equilibrar a oferta e a qualidade da forragem com a suplementação. Se o campo mudou, a estratégia também precisa acompanhar”, afirma.

A mudança da suplementação, portanto, exige cautela para evitar que os animais percam peso ou comprometam o desempenho no início das águas. O capim em rebrota pode apresentar elevado teor de água e proteína, mas essas características, isoladamente, não garantem consumo suficiente de matéria seca nem equilíbrio entre os nutrientes da dieta.

“No período das águas a suplementação energética é uma boa alternativa, pois auxilia no estabelecimento de um equilíbrio ótimo com a proteína das pastagens, melhorando o desempenho dos animais. Para isso, a estratégia deve considerar a oferta de forragem e o equilíbrio entre energia e proteína na dieta, criando condições para uma produção eficiente de proteína microbiana no rúmen”, explica.

Na recria é fundamental aproveitar o potencial de crescimento dos animais durante as águas. A escolha do suplemento e da quantidade fornecida deve considerar a oferta e a qualidade da forragem, o peso dos animais e a meta de ganho de cada lote. O manejo deve incluir adaptação dos animais, regularidade de fornecimento e espaço de cocho adequado ao nível de suplementação e à forma de distribuição, reduzindo a competição e as diferenças de ingestão dentro do lote.

O período das águas representa uma oportunidade de avançar na recria, mas o resultado depende de planejamento e acompanhamento. O produtor precisa olhar além da cor do capim e avaliar quanto alimento está disponível e qual desempenho ele permite alcançar.

“A suplementação energética precisa caminhar junto com o manejo da pastagem. Em níveis mais elevados de fornecimento, parte do suplemento pode substituir o consumo de capim, por isso a quantidade deve ser definida considerando a resposta em ganho de peso e o custo desse ganho. Acompanhar o consumo no cocho e realizar pesagens periódicas permite ajustar a estratégia e avaliar o retorno econômico durante as águas”, conclui Marson.

Líderes são os que mais querem aprender sobre inteligência artificial

A inteligência artificial já faz parte da rotina de muitas empresas. E quem mais busca aprender sobre a tecnologia não são os profissionais mais jovens. Uma pesquisa divulgada pela Exame mostra que 49% das lideranças priorizam o aprendizado em inteligência artificial. Entre os profissionais em início de carreira, o índice é de 23%.

Para Eduardo Gomes de Matos, fundador da Gomes de Matos Consultoria e organizador do Fórum Novo Mercado, o resultado faz sentido. Quanto maior a responsabilidade de um profissional, mais decisões ele precisa tomar. E é justamente nesse trabalho que a inteligência artificial pode ajudar. “Quanto mais alto o cargo, mais decisões passam pela sua mão. E é justamente na decisão, na estrutura e na responsabilidade que a IA está mexendo primeiro”, afirma.

Eduardo usa inteligência artificial diariamente no trabalho. A ferramenta já faz parte de atividades como análise de dados e organização de ideias. “Experiência sozinha não segura mais a cadeira. Eu tenho 31 anos de experiência e uso IA todos os dias no meu trabalho. Se eu estou aprendendo, imagina quem está começando”, diz.

Para o especialista, o maior ganho está na combinação entre experiência e tecnologia. O profissional que conhece o negócio e também sabe usar as novas ferramentas pode tomar decisões com mais rapidez. “A vantagem não está em ser jovem nem em ser experiente. Está em juntar as duas coisas: a bagagem que só o tempo dá com a ferramenta que acabou de chegar”, afirma.

A inteligência artificial também pode reduzir o tempo gasto em tarefas que antes exigiam dias ou semanas de trabalho. Isso permite que o líder se concentre mais nas decisões e nos problemas que dependem de sua experiência. “A IA acelerou decisões que antes levavam semanas. Ela não tira a responsabilidade do líder, mas ajuda a chegar mais rápido às informações e às possibilidades”, explica Eduardo.

Por isso, aprender a usar inteligência artificial deixou de ser apenas uma forma de acompanhar uma nova tecnologia. Para quem ocupa posições de liderança, pode ser uma necessidade. “O CEO não pode errar. Ele precisa decidir rápido, decidir bem e assumir a responsabilidade por cada escolha. IA não é luxo para o CEO. É uma ferramenta de sobrevivência”, afirma.

Para Eduardo, as empresas precisam preparar seus líderes para essa mudança, e não apenas os profissionais mais jovens. “O iniciante pode esperar. O CEO não tem esse luxo”, diz. À frente do Fórum Novo Mercado, ele acompanha as mudanças que afetam a gestão e os negócios e deixa uma pergunta para as empresas: “Sua empresa está preparando os líderes para usar IA ou só os estagiários?”.

Inteligência artificial e segurança alimentar centralizam debates na AI Expo Africa 2026

A convergência entre a garantia da segurança alimentar global e o avanço da inteligência artificial (IA) dita o ritmo dos debates na AI Expo Africa 2026, considerada a maior feira de tecnologia e inovação do continente africano. O evento, que reúne aproximadamente 3.500 participantes em Joanesburgo, centraliza discussões sobre o desenvolvimento tecnológico e a aplicação prática de soluções digitais voltadas para setores estratégicos, com forte apelo para o agronegócio internacional.

Com um público qualificado — composto por mais de 80% de tomadores de decisão e executivos do ecossistema de inovação —, a feira abriga cerca de 100 fornecedores globais de tecnologia. O foco desta edição é a entrega de ferramentas capazes de mitigar os impactos climáticos e otimizar a cadeia de suprimentos global, unindo a urgência da produção de alimentos à eficiência dos algoritmos.

Para o mercado de tecnologia agrícola, a feira apresenta soluções que buscam transformar a gestão no campo. Especialistas e empresas do setor demonstram aplicações práticas divididas em eixos fundamentais para o aumento da produtividade e sustentabilidade:

Monitoramento Preditivo: Tecnologias avançadas de previsão de safras e análise de dados climáticos para mitigar riscos de quebras de produção.

Automação e Robótica: Sistemas de agricultura de precisão, incluindo drones, sensores de solo e visão computacional aplicados ao manejo e à identificação de pragas.

Eficiência Operacional: Softwares de análise de dados voltados à gestão de produtividade, além de soluções inteligentes para logística, armazenagem e processamento de grãos.

Sustentabilidade: Ferramentas focadas na otimização de recursos hídricos e na eficiência energética das propriedades rurais.

Análises de especialistas presentes ao evento indicam que o objetivo central da feira ultrapassa a mera exposição de inovações de vanguarda. O foco estratégico está na viabilidade econômica e no mapeamento de parceiros comerciais aptos a transferir essas tecnologias para mercados de alta performance, como o agronegócio brasileiro. A avaliação de viabilidade técnica, o Retorno sobre o Investimento (ROI) e a adaptabilidade das soluções de IA às realidades tropicais consolidam-se como os principais critérios de validação das soluções apresentadas.

Foto: Ubuntu Images / Pexels.com

Mercado global do pescado movimenta US$ 184 bilhões e abre oportunidades para o Brasil

O consumo mundial de pescado alcançou 21,3 quilos por pessoa ao ano, de acordo com o relatório The State of World Fisheries and Aquaculture 2026 (SOFIA), da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), enquanto no Brasil o indicador está em 12,6 quilos (Anuário Seafood Brasil) e segue em crescimento. Com a ampliação da produção e as exportações ganhando novas perspectivas, o país ganha maior relevância no mercado internacional de pescado. Esse cenário foi apresentado por Ricardo Torres, head de portfólio da Seafood Show Latin America. A feira, que está em sua quinta edição e é considerada a maior plataforma de negócios do pescado da América Latina, acontece até hoje (22/10), em São Paulo (SP).

O relatório da FAO aponta que a produção mundial de animais aquáticos e algas atingiu 235 milhões de toneladas. Desse total, 195 milhões de toneladas corresponderam a animais aquáticos. Pela primeira vez, a aquicultura superou 100 milhões de toneladas de animais aquáticos produzidos, enquanto a pesca extrativa permaneceu relativamente estável, limitada pela disponibilidade dos estoques e pelas condições ambientais. A FAO também estima que o comércio internacional de produtos de animais aquáticos movimentou US$ 184 bilhões.

“O mercado de pescado é global e interconectado. A produção, o consumo e o comércio dependem de relações entre países, fornecedores e compradores, e o Brasil tem condições de ampliar sua participação nesse cenário. A aquicultura vem contribuindo para dar mais estabilidade à oferta, enquanto o crescimento da demanda abre espaço para novos produtos, investimentos e negócios”, afirma Ricardo Torres.

No Brasil, segundo o Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026, da Peixe BR, a produção de piscicultura alcançou 1,011 milhão de toneladas em 2025, alta de 4,41% em relação ao ano anterior e um marco para a atividade. A tilápia liderou o resultado, com 707.495 toneladas, aproximadamente 70% da produção nacional de peixes cultivados. O levantamento também contempla espécies nativas, como tambaqui e pirarucu, e outras espécies de cultivo.

O crescimento da produção, porém, não elimina a necessidade de importações, ou seja, a disponibilidade de pescado no mercado brasileiro resulta da combinação entre pesca extrativa, aquicultura e produtos importados. “O Brasil está se consolidando como um produtor relevante, mas também é um grande mercado consumidor. Para crescer, as empresas precisam olhar para os dois lados: desenvolver a produção nacional e, ao mesmo tempo, estabelecer relações comerciais capazes de garantir variedade, regularidade e competitividade na oferta”, destacou Torres.

Em relação ao comércio exterior, o Chile é um dos principais países fornecedores para o Brasil, especialmente do salmão, ao lado de Vietnã, Argentina e Equador. Nas exportações, os Estados Unidos permanecem como um mercado importante para produtos como filés frescos de tilápia, lagosta e peixes capturados na costa brasileira, a exemplo do pargo. A China, por sua vez, compra produtos como pescada-amarela, lagosta e bexiga natatória, com participação relevante de fornecedores do Pará.

Torres comentou sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos no ano passado, que afetaram as exportações de pescado, com a receita recuando 39% e queda de 41% no volume exportado no primeiro trimestre deste ano. A posterior isenção de determinados produtos, entre eles filés frescos e tilápia inteira, contribuiu para recuperar a competitividade de parte das exportações brasileiras. Com isso, a Abipesca projeta uma retomada das exportações do setor, com expectativa de alcançar cerca de US$ 600 milhões.

Varejo e food service ampliam oportunidades

Dados do Ranking ABRAS 2025, da Associação Brasileira de Supermercados, mostram que o faturamento da seção de peixaria dos supermercados respondentes passou de R$ 4,44 bilhões, em 2020, para R$ 12,33 bilhões, em 2024 — crescimento de 178%. No mesmo período, o faturamento total do setor supermercadista avançou 48,3%, evidenciando o desempenho expressivo da categoria.

O food service, por sua vez, concentra uma parcela importante do consumo de pescado e apresenta oportunidades relacionadas à diversificação de cardápios e à eficiência operacional. O Raio-X do Pescado no Food Service do Brasil 2026–2027, realizado pela Seafood Brasil em parceria com a American Seafoods, identificou que 43% das operações consultadas registram perdas superiores a 12% do pescado adquirido. “A expansão do consumo depende também de resolver questões práticas do mercado. No varejo, há espaço para ampliar a oferta e diversificar os formatos de produtos. No food service, rendimento, padronização e controle de perdas são fundamentais para a rentabilidade. Aproximar fornecedores e compradores é uma forma de acelerar essas conexões e transformar oportunidades em negócios”, avalia Torres.

Seafood Show Latin America conecta empresas e compradores

É nesse ambiente de expansão, concorrência internacional e transformação dos canais de venda que acontece a Seafood Show Latin America 2026. O evento reúne indústrias nacionais e internacionais de pescado, frigoríficos, distribuidores, importadores, exportadores, atacadistas, varejistas, operadores de food service e fornecedores de máquinas, tecnologias, insumos e serviços especializados.

A feira, organizada pela Francal em parceria com a Seafood Brasil, apresenta uma área de exposição 43% maior que a edição anerior, com 120 marcas expositoras nacionais e internacionais, dispostas em quatro setores para facilitar a jornada dos visitantes e aproximar empresas de públicos estratégicos para seus negócios.

A qualificação das conexões comerciais é um dos focos desta edição. O Seafood Buyers Program trouxe à feira 140 compradores do varejo e do food service, incluindo representantes de redes regionais. A feira também tem a participação de compradores internacionais por meio do Exporta Mais Brasil, iniciativa vinculada à ApexBrasil. “A Seafood Show Latin America acompanha o amadurecimento do mercado e busca aproximar quem produz de quem compra, no Brasil e no exterior. Queremos facilitar o acesso a fornecedores, apresentar soluções e estimular relações comerciais que possam gerar resultados concretos para as empresas”, afirma Torres.

A programação inclui ainda o seminário “O futuro do bacalhau no Brasil”, organizado pelo Conselho Norueguês da Pesca e pela iniciativa Seafood from Norway, além de atrações dedicadas à inovação, à gastronomia, à qualificação profissional e ao relacionamento entre empresas. Entre os destaques estão o Seafood Innovation Show, que reconhece produtos e soluções inovadoras; o Seafood Service Show, com demonstrações culinárias e técnicas de preparo; o concurso Melhores Peixeir@s do Brasil; o Campeonato Brasileiro de Sushi; o Seafood Talk Show; e o Seafood Celebration Show.

Foto: WTF / Divulgação

Cibersegurança virou assunto até de geladeira: ataque a supermercados franceses provoca prejuízos milionários

Um ataque cibernético pode custar muito mais do que dados roubados ou sistemas temporariamente indisponíveis. Na França, criminosos conseguiram manipular remotamente sistemas de refrigeração de centenas de supermercados, elevando temperaturas a até 50°C, provocando o descarte de alimentos e gerando prejuízos estimados em milhões de euros. Em apenas dois estabelecimentos na região da Alsácia, as perdas relatadas chegaram a € 270 mil, segundo informações divulgadas pela agência Anadolu. Embora ainda não exista um levantamento consolidado dos prejuízos em âmbito nacional, a dimensão do ataque evidencia o potencial de perdas financeiras expressivas, que vão além do descarte de mercadorias e incluem interrupções operacionais e custos de recuperação.

Segundo informações divulgadas pelas autoridades francesas, aproximadamente 700 supermercados foram atingidos, incluindo unidades de redes como Carrefour, Monoprix, Intermarché e Coopérative U. O ataque explorou sistemas responsáveis pelo controle de temperatura dos refrigeradores, acionando ciclos de descongelamento e comprometendo produtos frescos e congelados. Em determinados estabelecimentos, os equipamentos permaneceram aquecidos durante seis horas, enquanto funcionários precisaram descartar estoques inteiros para evitar riscos sanitários.

A dimensão financeira do incidente ainda está sendo calculada, mas, de acordo com o jornal francês Le Monde, um supermercado Intermarché em Gradignan, no sudoeste do país, registrou perdas de € 21 mil em mercadorias — mais de R$ 120 mil — consideradas pelo preço de compra. O veículo também informou que os prejuízos nacionais podem alcançar dezenas de milhões de euros, embora ainda não exista um balanço consolidado. Além da perda de produtos, alguns estabelecimentos precisaram interromper temporariamente suas atividades para limpeza, reorganização e reposição dos estoques.

Para Rafael Cocchiaro, Head de Tecnologia da NEO Estech, plataforma de inteligência operacional e monitoramento de ativos para o varejo alimentar no Brasil, o episódio demonstra que a cibersegurança deixou de ser uma preocupação restrita aos departamentos de tecnologia. “Estamos diante de um cenário em que uma invasão digital pode provocar danos físicos imediatos e perdas financeiras expressivas. Quando um equipamento conectado controla a conservação de alimentos, uma falha de segurança deixa de afetar apenas informações e passa a comprometer toda uma operação. O caso francês evidencia que qualquer dispositivo conectado precisa fazer parte da estratégia de proteção das empresas”, afirma.

Milhares de equipamentos continuam expostos

O ataque também revelou fragilidades relacionadas à manutenção de tecnologias operacionais. Segundo a fabricante dinamarquesa Danfoss, responsável por sistemas de supervisão e controle de refrigeração utilizados nos estabelecimentos atingidos, muitas das unidades afetadas operavam com versões desatualizadas de firmware ou haviam chegado ao fim de sua vida útil, deixando de receber atualizações de segurança.

A preocupação não se limita aos supermercados atingidos. Em uma investigação publicada em 13 de outubro, a Reuters identificou pelo menos 4.500 interfaces de equipamentos Danfoss ainda visíveis na internet. Embora não tenha sido possível determinar quantas apresentavam vulnerabilidades exploráveis, a empresa francesa de monitoramento Onyphe apontou que apenas uma pequena parcela dos dispositivos analisados parecia utilizar a versão mais recente do software.

O problema está relacionado à chamada tecnologia operacional (OT), que compreende equipamentos e sistemas responsáveis por controlar processos físicos, como refrigeração, climatização, energia e produção industrial. Com a expansão da Internet das Coisas (IoT), esses dispositivos passaram a integrar redes conectadas, permitindo monitoramento remoto e maior automação, mas também ampliando as possibilidades de exploração por agentes maliciosos.

“Um dos principais desafios está na falsa percepção de que equipamentos operacionais são menos vulneráveis por não armazenarem dados sensíveis. Na realidade, sistemas desatualizados e dispositivos conectados sem mecanismos adequados de proteção podem se tornar portas de entrada para ataques. O prejuízo pode aparecer na forma de interrupção da produção, perda de mercadorias ou comprometimento de serviços essenciais”, explica Cocchiaro.

A gravidade do episódio levou a Procuradoria de Paris a abrir uma investigação para identificar os responsáveis e dimensionar os danos. A Agência Nacional de Segurança Cibernética da França (ANSSI) também foi acionada. Até 13 de outubro, nenhum grupo havia reivindicado publicamente a autoria do ataque.

O alerta para empresas brasileiras

Embora o episódio tenha ocorrido na Europa, a discussão também se aplica ao mercado brasileiro, onde sistemas conectados são utilizados em operações de varejo, logística, indústria, saúde e infraestrutura. Câmaras frigoríficas, sensores de temperatura, controladores industriais e equipamentos de automação dependem cada vez mais de softwares e conexões remotas para funcionar.

Nesse contexto, a segurança dos dispositivos precisa acompanhar sua importância operacional. A atualização de sistemas, a substituição de equipamentos sem suporte, a segmentação das redes e o controle dos acessos remotos são medidas fundamentais para reduzir riscos. A ausência desses cuidados pode transformar vulnerabilidades tecnológicas em perdas financeiras e interrupções de serviços.

O ataque francês ainda trouxe uma preocupação adicional: a cobertura securitária. Segundo informações publicadas pela AFP, representantes da Intermarché alertaram que determinadas apólices podem não contemplar incidentes dessa natureza, ampliando a exposição financeira dos estabelecimentos atingidos.

“Não basta que uma empresa tenha mecanismos de proteção para seus computadores e servidores se os equipamentos que sustentam sua operação permanecem expostos. A segurança precisa considerar toda a infraestrutura conectada, incluindo sistemas de refrigeração, controladores industriais e dispositivos IoT. Além das medidas de cibersegurança, o monitoramento contínuo dos ativos permite identificar anomalias operacionais, antecipar riscos e acelerar a resposta a incidentes. O que aconteceu na França demonstra que visibilidade operacional, segurança e continuidade dos negócios precisam caminhar juntas”, conclui o especialista da NEO Estech.

Projeto inédito analisa o tecido vegetal do cafezal e transforma dados da planta em decisões de manejo

A gestão da lavoura de café exige cada vez mais precisão na relação entre investimento, produtividade e rentabilidade. Em um cenário de custos elevados e maior influência das condições ambientais sobre as plantas, identificar os fatores que limitam o desempenho da cultura tornou-se parte fundamental da decisão sobre onde, quando e quanto investir.

Essa lógica está no centro do Projeto AAcRes (Análises de Acúmulo de Reserva), desenvolvido pela Agroallianz para apoiar decisões de manejo a partir da avaliação da atividade fisiológica das plantas. A metodologia combina análises laboratoriais e dados de campo para identificar limitações, direcionar estratégias e medir as respostas obtidas em diferentes condições ambientais.

De acordo com Renato Menezes, engenheiro agrônomo e gerente de marketing técnico da empresa, hoje, o produtor precisa fazer mais contas dentro da gestão da lavoura. “Não basta saber quanto custa uma determinada tecnologia, é preciso entender qual problema ela resolve, qual resposta pode proporcionar à planta e se essa resposta tem potencial para se transformar em produtividade e rentabilidade”, diz.

O AAcRes nasce justamente dessa necessidade de transformar o manejo em um processo de decisão baseado em dados. Inicialmente aplicado no cultivo de café e posteriormente também no citrus, o projeto utiliza análises laboratoriais de tecido vegetal para identificar a presença ou ausência de compostos relacionados ao funcionamento metabólico das plantas e à expressão do potencial produtivo. “As informações obtidas são relacionadas aos dados de campo para identificar pontos limitantes e direcionar estratégias”, relata Menezes.

Da análise fisiológica aos resultados no campo

Na prática, o acompanhamento permite observar não apenas quanto a lavoura produziu, mas também como os pés de café chegaram a esse resultado. Na Fazenda BellaMinas, em Guapé (MG), os dados coletados pelo projeto mostram essa relação entre produtividade, crescimento vegetativo e manutenção da área foliar. Na safra de 2026, as plantas submetidas ao manejo AAcRes alcançaram produtividade de 105,46 sacas por hectare (sc/ha), contra 83,82 sc/ha na testemunha. Ou seja, a diferença é de 21,64 sc/ha, com um incremento de 25,8%.  

Diego Santos, engenheiro agrônomo e gerente da fazenda, inspeciona lavoura de café (Foto: Divulgação)

A diferença também apareceu nos indicadores biométricos. Em maio de 2026, as plantas do projeto apresentavam média de 9,43 nós, enquanto a testemunha registrava 8,86 nós. No momento da colheita, o enfolhamento também foi maior no tratamento AAcRes, com 80,19% contra 72,59% na testemunha.

Segundo Diego Santos, engenheiro agrônomo e gerente da fazenda, os resultados mostram que o ganho de produtividade não ocorreu isoladamente. “Tivemos, ao mesmo tempo, maior produtividade, crescimento vegetativo e manutenção do enfolhamento. Isso indica uma planta com uma arquitetura mais equilibrada e uma estrutura que continua sendo construída para os ciclos seguintes”, explica.

A interpretação conjunta desses indicadores amplia a avaliação tradicional de produtividade. Para o projeto, características como número de nós, formação de ramos e retenção de folhas ajudam a compreender como a planta está respondendo às condições de cultivo e quais recursos estão sendo direcionados para a formação e manutenção da estrutura produtiva.

Conforme explica Santos, ao avaliar a arquitetura da planta, é preciso analisar a consequência do seu funcionamento fisiológico. “Uma planta que mantém folhas, produz novos nós e sustenta uma produtividade elevada demonstra que conseguiu preservar processos importantes mesmo diante das condições ambientais. É essa relação que nos permite falar em engenharia fisiológica”, diz.

Manejo diante das condições ambientais

Essa abordagem ganha relevância diante da crescente ocorrência de estresse hídrico e oxidativo e períodos de temperaturas elevadas nas lavouras. Mesmo com avanços em genética, nutrição e manejo fitossanitário, o ambiente continua sendo um dos principais fatores que interferem na capacidade produtiva do cafeeiro.

Para o especialista da Agroallianz, compreender essas limitações permite deslocar parte das decisões de um modelo predominantemente corretivo para uma estratégia que considere a preparação da planta para diferentes condições ambientais. “Não estamos falando simplesmente em colocar mais um produto no manejo. A questão é entender qual é o fator limitante naquele momento e qual ferramenta pode ajudar a manter o funcionamento. A partir daí, conseguimos medir a resposta e avaliar se aquele investimento realmente fez sentido dentro do sistema produtivo”, destaca Menezes.

No AAcRes, uma das estratégias avaliadas envolve o uso de osmorreguladores, com observação de respostas relacionadas à manutenção do estado hídrico, crescimento vegetativo e área foliar. A análise dos resultados em campo permite relacionar essas respostas ao desempenho e à capacidade da planta de atravessar períodos de maior pressão ambiental.

Para o cafeicultor, essa leitura também muda a forma de avaliar o custo das tecnologias. Em vez de considerar apenas o valor aplicado por hectare, a proposta é relacionar o investimento ao problema identificado, à resposta fisiológica observada e ao impacto sobre a produtividade e a estabilidade da lavoura.

Durante muito tempo, a decisão sobre uma tecnologia esteve associada ao custo por hectare, mas a Agroallianz trabalha uma linha diferente. “O caminho que estamos propondo é entender o que se pretende resolver, qual resposta se espera obter e como medir esse resultado. Dessa forma, o investimento passa a ser avaliado não apenas como custo, mas como parte da gestão do risco e do potencial produtivo”, conclui Menezes.

Mapa confirma foco de doença de Newcastle em estabelecimento avícola em Santa Catarina

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) confirmou um foco da doença de Newcastle em um estabelecimento de avicultura comercial de corte de perus localizado no município de Nova Itaberaba, em Santa Catarina.

A ocorrência foi identificada durante investigação epidemiológica conduzida pelo Serviço Veterinário Oficial de Santa Catarina e confirmada por análise realizada no Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo (LFDA-SP), reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) como laboratório de referência internacional para o diagnóstico da doença.

O estabelecimento foi interditado pelo Serviço Veterinário Oficial, com suspensão da movimentação de aves. As medidas de controle, contenção e erradicação do foco serão executadas conforme as diretrizes do Plano de Contingência para Influenza Aviária e Doença de Newcastle.

A doença de Newcastle é uma enfermidade viral que afeta aves domésticas e silvestres, causada por vírus virulento do paramixovírus aviário do sorotipo 1 (APMV-1), conforme os critérios estabelecidos pela OMSA.

O Mapa ressalta que, apesar da necessidade de adoção de medidas sanitárias para controlar a ocorrência, o consumo de produtos avícolas submetidos à inspeção oficial permanece seguro, sem contraindicações.

A ocorrência será notificada à OMSA e aos parceiros comerciais do Brasil, em cumprimento aos compromissos internacionais de transparência sanitária. Novas informações serão divulgadas à medida que as investigações e as ações de controle avançarem.