Comércio com países árabes segue crescendo em 2026

O comércio entre Brasil e países árabes segue crescendo em 2026, apesar do conflito no Oriente Médio, que limita o trânsito de embarcações no Estreito de Ormuz e o acesso a mercados importantes do bloco de 22 países. De acordo com dados compilados pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, as exportações do Brasil para a Liga Árabe avançaram 3,71% entre janeiro e julho, totalizando US$ 11,26 bilhões, ao passo que as vendas árabes ao Brasil também cresceram, 12,22% no período, para US$ 6,13 bilhões. As comparações são com o mesmo período de 2025.

“No início do ano, fomos todos surpreendidos por conflitos na região do Golfo cujos impactos foram sentidos nos quatro cantos do mundo” disse o presidente da entidade, William Adib Dib Júnior, no Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, realizado pela Câmara Árabe nesta terça (25/08), na capital paulista.

“Ao longo dos meses subsequentes, a resiliência do agronegócio brasileiro, das cadeias de fertilizantes árabes e dos sistemas logísticos internacionais permitiram minimizar os efeitos desta situação”, afirmou, referindo-se ao esforço de reorganização dos modais logísticos na região para contornar restrições.

Dib Júnior reconhece na relação bilateral resiliência e vitalidade, mas ainda acredita que há potencial a ser desenvolvido. Ele cita o fornecimento de alimentos, que hoje já é 75% da pauta de exportações. Segundo ele, o Brasil se destaca no envio de commodities alimentares, mas participa pouco do envio de industrializados, mesmo sendo competitivo.

O dirigente também vê potencial para avançar a cooperação no campo da energia limpa e da descarbonização. Defende também que empresas brasileiras considerem internacionalizar operações nos países árabes, que oferecem vantagens fiscais e logísticas em zonas francas, além de acordos de livre comércio com Europa e Ásia.

“Brasil e países árabes mantêm sinergias evidentes para a integração dos ecossistemas produtivos, de inovação e também no turismo”, afirmou o dirigente. “Além disso, possuem mercados de consumo muito dinâmicos”, finalizou.

Valor compartilhado

O secretário-geral da Liga Árabe, Nabil Fahmy, acredita haver nas relações entre países árabes e Brasil atributos para gerar “valor compartilhado” e capacidade de enfrentar as oscilações da economia global. A geração desse valor, no entanto, depende, na visão do diplomata, da diversificação do comércio, da inclusão de pequenas e médias empresas, da integração entre empreendedores e startups, além do incentivo a investimentos mútuos.

Em fala no Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, Fahmy destacou que as trocas comerciais atingiram US$ 31,3 bilhões em 2025, com múltiplos interesses econômicos e capacidade de se manter e crescer. Segundo o secretário-geral, existem condições para que a relação bilateral avance para uma nova fase, marcada por investimentos conjuntos, transferência de tecnologia e interligação das cadeias de valor nas duas regiões. “O desafio atual é [criar um sistema] econômico internacional mais inclusivo e sensível aos interesses dos países em desenvolvimento”, afirmou Fahmy. 

O diplomata afirmou ainda que o avanço da parceria depende de uma atuação conjunta dos setores público e privado. Segundo ele, o capital privado atualmente supera o público, exigindo a costura de parcerias que conciliem interesses de organizações e os nacionais.

Itamaraty pede previsibilidade

O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, titular do Ministério de Relações Exteriores, sugeriu que Brasil e países árabes estabeleçam um “pacto de previsibilidade” para garantir o acesso recíproco a alimentos e fertilizantes. O pacto, segundo Vieira, seria uma forma de proteger as regiões contra o que chamou de “escalada nas rivalidades geopolíticas”, referindo-se, principalmente, aos conflitos no Oriente Médio, que elevaram o custo do transporte de alimentos brasileiros e de fertilizantes árabes comercializados entre as regiões.

“O mundo árabe, gigante na produção desses insumos [fertilizantes], e o Brasil, potência global do agronegócio, devem associar-se em torno de um pacto de previsibilidade”, afirmou o chanceler em vídeo exibido no Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, evento da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, realizado na capital paulista.

“A segurança alimentar é uma via de mão dupla que requer estabilidade na cadeia de suprimentos da base produtiva, como demonstram as dificuldades atuais para o acesso de países agrícolas, como o Brasil, a fertilizantes”, prosseguiu Vieira. “Ao garantirmos o fornecimento mútuo de insumos e alimentos, protegemos nossas economias contra os choques de oferta e blindamos a segurança alimentar de nossas populações.”

O chanceler sugeriu ainda que Brasil e países árabes busquem a mesma previsibilidade em suas estratégias de transição energética. Entre as sinergias das duas regiões nesta área, citou o fato de o Brasil oferecer matriz energética com 90% de energia renovável e uma das maiores reservas de minerais críticos do mundo. Os árabes, por sua vez, contariam com escala de capital e projetos energéticos em novos vetores já em estruturação.

“Há um claro potencial de sinergia no campo da transição energética, com a atração de investimentos para a indústria brasileira e a transformação do nosso parque produtivo em novo polo de minerais críticos, essenciais para a eletrônica global e para a transformação ecológica”, disse Vieira, reforçando o papel de protagonismo que o setor privado deveria assumir no esforço.

O Fórum Econômico Brasil-Países Árabes tem o patrocínio de FAMBRAS Halal e International Halal Academy, Vale, DP World, CDIAL Halal, First Abu Dhabi Bank, MBRF, Qatar Airways e MZAH Investment.

Expansão da logística reversa no agro amplia oportunidades profissionais

O avanço do agronegócio brasileiro tem provocado transformações que vão além da produção agrícola. À medida que a sustentabilidade se consolida como um dos pilares do setor, cresce também a demanda por profissionais preparados para atuar em atividades ligadas à economia circular, logística reversa, gestão ambiental e inovação operacional. Esse movimento pode ser observado no Sistema Campo Limpo, programa brasileiro de logística reversa de embalagens vazias e sobras pós-consumo de defensivos agrícolas, que registrou crescimento de 11% no volume de embalagens vazias destinadas corretamente em 2025, alcançando quase 76 mil toneladas. 

Para acompanhar esse avanço, o Sistema incorporou quatro novas centrais de recebimento, localizadas no Pará, Maranhão e Rondônia, além de nove novos postos de atendimento aos agricultores. A expansão da rede amplia a presença do programa em regiões de forte crescimento agrícola e aumenta a necessidade de profissionais qualificados para apoiar as operações, a logística e a gestão das unidades. Gerando empregos e movimentando a economia. 

No inpEV (Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias), responsável por representar a indústria fabricante dentro do Sistema Campo Limpo, o quadro de colaboradores cresceu 9% em 2025, chegando a 524 funcionários distribuídos por todo o país. O aumento reflete a necessidade de fortalecer a estrutura operacional diante do avanço da agricultura e do crescimento contínuo da logística reversa. 

“À medida que o Sistema Campo Limpo cresce, também aumenta a necessidade de profissionais preparados para atuar em uma operação cada vez mais complexa e tecnológica. Por isso, investimos continuamente em capacitação e desenvolvimento, criando condições para que nossas equipes inpEV ampliem suas competências e acompanhem a evolução da logística reversa no país”. comenta Silvana Carvalho, gerente de Recursos Humanos do inpEV.  

“O crescimento da logística reversa acompanha a evolução do agronegócio brasileiro e exige profissionais cada vez mais preparados para operar um Sistema que combina eficiência, sustentabilidade e inovação. Por isso, investimos continuamente no desenvolvimento das nossas equipes e na ampliação da capacidade operacional em regiões estratégicas para o setor”, afirma Marcelo Okamura, diretor-presidente do inpEV. 

Além de contratar, a estratégia do Instituto tem sido preparar os profissionais para os desafios de uma operação cada vez mais tecnológica. Em 2025, foram investidas mais de 41 mil horas em capacitação profissional, um aumento superior a 50% em relação ao ano anterior. Temas como liderança, inovação, gestão de projetos e melhoria contínua ganharam destaque nos programas de desenvolvimento. A média de treinamento chegou a 79,6 horas por colaborador, crescimento de quase 40% em relação a 2024. 

Foto: Xavier Messina / Pexels.com

Nesse contexto, uma das iniciativas mais relevantes foi a criação do Programa INOVE, que busca estimular o protagonismo dos colaboradores na construção de soluções para os desafios da operação. Desenvolvido com apoio do Senai, o programa envolveu mais de 100 profissionais em sua primeira campanha e resultou em 66 propostas de melhoria de processos, demonstrando como a inovação pode surgir diretamente das equipes que vivenciam a rotina das unidades. 

“A gestão do Programa INOVE parte do princípio de que as melhores soluções também podem nascer dentro da própria operação. Nosso objetivo é criar um ambiente em que os colaboradores se sintam estimulados a compartilhar ideias, desenvolver propostas e participar ativamente da melhoria dos processos do Sistema Campo Limpo”, reitera Micheli Statuti, gerente de Processos Operacionais s do inpEV.  

“A inovação não acontece apenas por meio de tecnologia e equipamentos. Ela também nasce das pessoas que vivenciam os desafios da operação diariamente. O Programa INOVE foi criado justamente para estimular esse protagonismo e transformar boas ideias em ganhos concretos para o Sistema Campo Limpo”, destaca Okamura. 

Além dos impactos internos, a expansão da logística reversa também contribui para o desenvolvimento econômico das regiões onde o Sistema Campo Limpo está presente. As empresas parceiras responsáveis pela destinação final das embalagens vazias mantiveram mais de 2.100 empregos diretos em 2025, confirando o papel da cadeia da sustentabilidade como geradora de renda e oportunidades. 

“Cada nova unidade representa mais capacidade para atender os agricultores, mas também significa oportunidades de trabalho, movimentação econômica e fortalecimento das comunidades onde estamos presentes. O crescimento do Sistema Campo Limpo gera impactos que vão além da agenda ambiental”, afirma o diretor-presidente do inpEV. 

Com atuação em 25 estados e no Distrito Federal, o Sistema Campo Limpo é considerado uma referência mundial por sua infraestrutura e capacidade operacional para atender ao avanço da agricultura brasileira. Ao mesmo tempo, mantém seu compromisso com o desenvolvimento das pessoas, a inovação e a geração de valor para as comunidades onde está inserido, mostrando que sustentabilidade e crescimento caminham lado a lado.

Milho ganha força, enquanto soja espera por novos sinais de demanda no mercado internacional

Enquanto o milho começa a encontrar espaço para uma recuperação no mercado internacional, a soja ainda enfrenta um obstáculo conhecido: a demanda. Os dados de oferta e demanda divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em agosto mostram uma mudança importante no equilíbrio entre os dois grãos. No milho, estoques menores aumentam a sensibilidade do mercado a novas perdas de produção ou surpresas na demanda. Na soja, o aumento da oferta americana mantém os preços mais dependentes de novos estímulos, especialmente das compras chinesas.

No Brasil, porém, o comportamento das bolsas internacionais é apenas parte da formação dos preços, que também depende de câmbio, prêmios e demanda.

Soja ainda depende da demanda

Na soja, a produtividade americana foi revisada de 59,40 para 59,07 sacas por hectare, mas a área colhida aumentou 1,7%, para 34,72 milhões de hectares. Com isso, a produção chegou a 122,99 milhões de toneladas, acima das 121,8 milhões esperadas pelo mercado. Os estoques finais ficaram em 8,71 milhões de toneladas, enquanto a previsão de importação da China permaneceu em 115 milhões de toneladas. 

Para Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, o aumento da oferta americana reduz o espaço para uma alta mais consistente. “O que trava a soja hoje é demanda. O esmagamento maior sustenta farelo e óleo, mas não resolve o excedente de grão que precisa sair dos Estados Unidos”, afirma. 

A produção brasileira de soja para 2026/27 permanece projetada em 186 milhões de toneladas. Nesse cenário, o mercado passa a depender de novos sinais de demanda chinesa ou de perdas mais significativas nas lavouras americanas para ganhar sustentação.

Milho tem estoques mais apertados

No milho, a combinação entre exportações maiores e estoques menores mudou a percepção do mercado. As exportações americanas para 2025/26 subiram de 84,46 milhões para 86,36 milhões de toneladas, enquanto os estoques de passagem recuaram de 51,31 milhões para 49,40 milhões. Para 2026/27, os estoques finais foram projetados em 41,98 milhões de toneladas, queda de 7,65%. 

“A relação estoque/uso americana saiu do cenário mais  confortável e entrou em patamar justo, e assim o mercado começa a precificar risco: com pouco colchão, qualquer problema de clima ou surpresa de demanda gera reação de preço desproporcional ao tamanho do dado”, explica Isabella. 

Apesar da produção americana continuar elevada, em 406,75 milhões de toneladas, o menor volume disponível reduz a margem para novas perdas de produtividade ou aumento das exportações. A relação estoque/uso caiu de 11,01% para 10,12%, reforçando a mudança no balanço do cereal.

Câmbio segue decisivo para o produtor

No mercado brasileiro, os efeitos desse cenário ainda dependem de fatores domésticos. A projeção de estoques finais de milho para 2026/27 caiu de 11,1 milhões para 10,1 milhões de toneladas, enquanto o consumo interno subiu de 98 milhões para 100 milhões de toneladas. 

Para Isabella, a movimentação internacional precisa ser analisada em conjunto com as condições do mercado brasileiro. “Câmbio, prêmios da soja e exportações brasileiras de grãos continuam definindo quanto do movimento externo chega ao produtor. No milho, o consumo doméstico brasileiro também ganha importância”, afirma. 

O cenário desenhado pelos dados do USDA coloca milho e soja em momentos distintos. Enquanto o cereal passa a operar com menor margem de segurança nos estoques americanos e fica mais sensível a fatores como clima e demanda, a soja ainda precisa de novos estímulos para reduzir a pressão provocada pela oferta. Para o mercado brasileiro, a combinação entre esses fatores externos e as condições domésticas será determinante para definir os próximos movimentos de preços.

Clima deixa de ser apenas fator de prejuízo e passa a orientar estratégias de gestão de risco no agronegócio

Com a intensificação do fenômeno El Niño prevista para os próximos meses e o aumento da variabilidade climática, especialistas apontam que o agronegócio precisa ampliar o uso de dados agrometeorológicos para antecipar riscos e orientar decisões antes que perdas ocorram. Mais do que monitorar eventos extremos, a análise climática vem ganhando espaço como ferramenta estratégica para planejamento da produção, definição de manejos e estruturação de operações financeiras e securitárias.

Segundo o especialista em agrometeorologia da Picsel, deeptech em inteligência de riscos no agronegócio, Rodolfo Pereira, ainda é comum que o clima seja tratado apenas após a ocorrência de prejuízos, quando produtores, seguradoras e demais agentes da cadeia já lidam com os impactos de secas, excesso de chuvas ou outros eventos climáticos. “Os dados climáticos precisam fazer parte da estratégia antes, durante e depois da safra. Quando isso não acontece, o setor trata o clima como um acontecimento, e não como uma variável que pode ser monitorada continuamente para apoiar decisões”, afirma.

Na avaliação do especialista, produtores, cooperativas, bancos, seguradoras e empresas do setor ainda têm espaço para evoluir na interpretação de variáveis climáticas, séries históricas e informações agrometeorológicas. Esses dados podem contribuir para prever riscos, melhorar decisões operacionais e estruturar mecanismos de proteção mais eficientes, desde a escolha de cultivares até a precificação de seguros agrícolas.

O momento também reforça essa discussão. O fenômeno El Niño já está estabelecido no Oceano Pacífico Equatorial e, segundo projeções do Centro de Previsão Climática da NOAA e do INMET, deve se intensificar nos próximos meses, podendo atingir forte intensidade durante a primavera austral de 2026. Há, inclusive, probabilidade relevante de um evento muito forte entre novembro e janeiro.

Para Rodolfo, esse tipo de informação tem valor para o planejamento da safra, mas exige interpretação técnica. “O erro está em transformar uma previsão climática em previsão de perdas. Os dados servem para qualificar decisões e reduzir incertezas, não para indicar que todos serão afetados da mesma forma.”

O próprio INMET destaca que episódios intensos de El Niño não produzem os mesmos efeitos em todas as regiões do país. Historicamente, o fenômeno tende a reduzir as chuvas no Norte e Nordeste e aumentar as precipitações no Sul, mas a intensidade dos impactos depende de fatores como tipo de solo, manejo agrícola e distribuição das chuvas ao longo da estação.

Segundo o especialista, essa leitura regionalizada é essencial para que o clima deixe de ser visto apenas como causa de prejuízos e passe a integrar a gestão de risco das propriedades e das empresas do setor. “Quando os dados são bem interpretados, é possível identificar padrões, medir exposição, ajustar estratégias produtivas e reduzir vulnerabilidades antes que o problema aconteça. Essa é uma mudança importante para aumentar a resiliência do agronegócio diante de eventos climáticos cada vez mais frequentes.”

Ferramentas como previsões sazonais, séries históricas e o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) já estão disponíveis para apoiar esse processo, mas, segundo Rodolfo, ainda são subutilizadas quando ficam restritas a consultas pontuais, sem integração ao planejamento da atividade.

Foto: Mark Stebnicki / Pexels.com

Confinamento promove aumento da eficiência alimentar e redução do tempo para o abate

Com duração média de 90 a 120 dias e ganhos de peso que podem chegar a mais de 1,5 kg por animal ao dia, o confinamento tem sido adotado por pecuaristas que buscam acelerar a terminação dos bovinos, melhorar a eficiência alimentar e aumentar a previsibilidade da produção.

“Nesse sistema de terminação, 100% da alimentação dos animais é fornecida no cocho. A viabilidade econômica tende a ser maior em propriedades com escala suficiente para diluir os custos fixos da estrutura e dos equipamentos, como misturador, cochos, silos e equipamentos de distribuição, além das despesas com a equipe”, observa o zootecnista e diretor técnico industrial da Connan, Bruno Marson.

Entre as vantagens do confinamento estão a maior previsibilidade da produção e o melhor aproveitamento dos insumos utilizados na dieta. A alimentação é balanceada e formulada de acordo com as exigências nutricionais dos animais. Com dietas de alta densidade energética e monitoramento constante do consumo, os bovinos podem apresentar ganhos de peso mais rápidos e melhor aproveitamento dos nutrientes ingeridos.

Marson explica que os animais confinados tendem a apresentar melhor conversão alimentar, aproveitando de forma mais eficiente os nutrientes da dieta para o ganho de peso. Para alcançar esse desempenho, o produtor deve oferecer uma dieta composta por alimentos proteicos, energéticos e fontes de fibra efetiva, complementada por núcleos minerais vitamínicos e aditivos necessários ao equilíbrio nutricional.

Ele destaca que outra vantagem do sistema é a menor dependência das condições climáticas e das forragens, permitindo ao pecuarista manter um fluxo contínuo de produção ao longo do ano, atendendo às demandas do mercado com maior regularidade.

Em relação à redução da idade ao abate, a maior eficiência alimentar possibilita que os animais permaneçam menos tempo no sistema produtivo, contribuindo para reduzir o ciclo de produção, aumentar o giro do capital investido e melhorar a relação entre os custos da dieta e as arrobas produzidas. Marson pondera, porém, que os resultados positivos dependem do planejamento nutricional, da qualidade dos ingredientes utilizados, do manejo adequado dos cochos e do acompanhamento técnico permanente.

“A qualidade das instalações, a disponibilidade de sombra, água limpa e conforto térmico são fatores fundamentais para o sucesso do sistema, uma vez que o estresse pode reduzir o ganho de peso e aumentar a incidência de doenças. É importante monitorar constantemente indicadores como ganho de peso diário e o consumo de matéria seca para evitar falhas que possam comprometer a eficiência do sistema”, alerta.

Outro ponto de atenção é o risco de dietas mal formuladas, que podem causar problemas metabólicos, como acidose ruminal, redução do consumo alimentar e queda no desempenho. Por isso, o balanceamento nutricional exige acompanhamento técnico e ajustes frequentes.

“Com uma equipe capacitada, planejamento nutricional e acompanhamento constante dos animais, o confinamento pode elevar o desempenho sem deixar de lado o bem-estar e a sustentabilidade da produção”, finaliza.

Foto: Henrique Ferrera / Divulgação / Connan

USDA favorece milho e deixa soja sem força para sustentar alta

O relatório de agosto do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mudou o humor do mercado agrícola nesta semana. Enquanto a soja recebeu sinais mistos, o milho ganhou força após a redução da produtividade americana e a queda dos estoques finais, cenário que aumentou a percepção de aperto na oferta e ajudou a sustentar as cotações em Chicago e na B3.

Na soja, a queda da produtividade acabou neutralizada pelo aumento da área colhida e da produção nos Estados Unidos. “Produtividade menor é positiva, mas área maior, produção maior e estoques acima do esperado neutralizam boa parte desse efeito”, afirma Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro. Segundo ela, a manutenção das importações chinesas em 115 milhões de toneladas também limitou uma reação mais forte dos preços.

O milho apresentou leitura mais favorável. As exportações americanas subiram e os estoques finais recuaram, deixando o balanço mais apertado. “A relação estoque sobre uso caiu de 11% para 10,12%. Isso significa um balanço americano de milho mais apertado”, diz Yedda. Para a analista, esse foi o dado mais relevante do relatório.

Para o produtor brasileiro, a orientação segue cautelosa. Na soja, novos sinais de demanda chinesa ou perdas adicionais na safra americana seriam necessários para sustentar altas mais consistentes. No milho, o fundamento melhorou, mas câmbio, prêmio e ritmo das exportações continuam sendo determinantes para o preço recebido no mercado doméstico.

Foto: Tom Fisk / Pexels.com

Plataforma brasileira de IA ajuda o agronegócio a reduzir perdas e enfrentar impactos do Super El Niño

O agronegócio brasileiro deve enfrentar nos próximos meses um dos ciclos climáticos mais desafiadores das últimas décadas. O Super El Niño, previsto para causar impactos no Brasil entre outubro e novembro, com secas prolongadas, ondas de calor e enchentes regionais, vai afetar lavouras, rebanhos, logística, armazenagem e operações industriais.

Em um cenário em que perdas pós-colheita por falhas de armazenagem e controle podem chegar a 30%, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), e em que produtores que mantêm inventários estruturados conseguem reduzir entre 10% e 25% dos custos operacionais anuais, a solução para mitigar riscos está no uso da Inteligência Artificial (IA), como estratégia para manter a resiliência operacional do setor.

É o que defendem os engenheiros Pedro Sobreira, Anderson Santos e Marco Nippashi, executivos fundadores da Eco Inventory, primeira plataforma brasileira que usa IA para gestão de inventário de estoque, inventário de ativos e conciliação contábil. Para eles, que também são ex-executivos das Big Four — grupo formado por KPMG, Deloitte, Ernst & Young (EY) e PricewaterhouseCoopers (PwC) — fortalecer a gestão de ativos, estoques e infraestrutura em fazendas, cooperativas e agroindústrias diante de eventos climáticos extremos, respeitando características locais, é o que pode garantir a continuidade produtiva.

Estudos do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e do banco internacional Rabobank mostram que produtores com inventários confiáveis evitam compras emergenciais e reduzem desperdícios, enquanto dados da John Deere indicam que o controle de peças e ativos pode diminuir em 40% o tempo de máquinas paradas — um fator crítico quando o clima pressiona janelas de plantio e colheita.

Segundo análises de risco climático, eventos extremos aumentam a vulnerabilidade de máquinas, equipamentos, silos, armazéns, insumos e estoques estratégicos. A falta de visibilidade patrimonial e divergências entre o inventário físico e o contábil podem gerar perdas financeiras significativas, atrasos na produção e dificuldades na comprovação de danos para seguros e auditorias. Em um setor que pode perder até 20% ao ano por furtos, extravios e ativos não localizados, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a gestão patrimonial passa a ser determinante.

Foto: NOAA / Divulgação

“A empresa rural e a agroindústria precisam saber exatamente o que possuem, onde está cada ativo e qual é o nível real de estoque para reagir rapidamente a eventos climáticos extremos. O Super El Niño exige precisão, rastreabilidade e dados confiáveis”, afirma Pedro Sobreira, diretor técnico-operacional da Eco Inventory.

Criada por auditores com mais de 15 anos de experiência, a Eco Inventory nasceu para resolver problemas que o agronegócio enfrenta diariamente, como a falta de controle patrimonial, divergências de estoque, processos manuais e dificuldade de comprovação de perdas. “A resiliência climática começa com informação confiável. O agronegócio brasileiro é gigante, mas ainda sofre com falta de visibilidade patrimonial. A Eco Inventory ajuda o produtor a proteger seu patrimônio e manter a operação funcionando mesmo em cenários extremos”, afirma Sobreira.

Por meio de IA, com funcionamento online e offline, a plataforma acelera o levantamento de danos, a reorganização de ativos e a retomada das operações, reduzindo prejuízos e facilitando processos de indenização — etapa que pode ser agilizada em até 50% quando há documentação estruturada, segundo seguradoras do setor. “Com eventos climáticos afetando transporte e abastecimento, estoques de insumos, sementes, defensivos, fertilizantes e peças de reposição tornam-se críticos e mais caros. A Eco Inventory oferece inventário rápido, preciso e integrado ao Sistema de Planejamento de Recursos Empresariais (ERP), garantindo decisões de compra mais seguras”, sinaliza o diretor.

O segredo que nenhuma IA consegue copiar: por que as imperfeições humanas criam os melhores líderes

O avanço dos assistentes virtuais e das ferramentas de inteligência artificial generativa acendeu um alerta nas salas de reunião do mundo corporativo: será que o papel dos líderes corre o risco de ser automatizado nos próximos anos?

Para a dra. Eve Poole OBE, professora associada da Hult International Business School e pesquisadora de liderança, a resposta é um sonoro não. Por mais avançados que os algoritmos se tornem na análise de dados e no raciocínio lógico, existe um ecossistema complexo de habilidades que a tecnologia simplesmente não consegue programar.

Trata-se do que a pesquisadora batizou de “código imperfeito humano”, um conjunto de características genuinamente nossas que forma a espinha dorsal de uma liderança inspiradora. “Nunca enfrentamos um concorrente como a inteligência artificial. Jamais tivemos algo capaz de executar tantas tarefas que considerávamos exclusivas. Precisamos parar de competir em lógica com as máquinas e focar no que nos torna profundamente humanos”, destaca a dra. Poole.

O que é o “código imperfeito humano”?

Muitas vezes visto pelo mundo corporativo tradicional como uma fragilidade, esse “código” é, na verdade, um mecanismo evolutivo de sobrevivência desenvolvido ao longo de milhares de anos. Na prática, liderar significa tomar decisões em cenários incertos para proteger e direcionar um grupo — algo que algoritmos determinísticos não fazem de forma autônoma.

Segundo a especialista, o código imperfeito é composto por cinco pilares:

Emoção: Cria conexão genuína e senso de comunidade, dando propósito real às escolhas corporativas.

Intuição: O famoso “feeling” que guia decisões rápidas quando não há dados suficientes na mesa.

Convivência com a incerteza: A capacidade mental de sustentar paradoxos e evitar conclusões precipitadas em momentos de crise.

Consciência moral: O filtro ético que evolui com a experiência e baliza o que é certo ou errado além dos números.

Construção de significado (storytelling): A habilidade de traduzir metas frias em histórias que engajam e motivam equipes no dia a dia.

    A armadilha da comunicação pasteurizada por máquinas

    O reflexo desse fenômeno já é visível no cotidiano das empresas. Quando gestores recorrem excessivamente à IA para redigir e-mails, alinhar expectativas ou estruturar feedbacks, correm o risco de “limpar” do texto o elemento mais valioso: a conexão emocional.

    Processos fundamentais de gestão, como mentoria, construção de cultura organizacional e definição de visão de futuro, dependem do fator humano. Sem a empatia e a vulnerabilidade, declarações de missão viram frases genéricas e reuniões perdem a capacidade de inspirar.

    Foto: Kindel Media / Pexels.com

    O futuro do trabalho pertence aos líderes autênticos

    O grande desafio para os executivos de hoje não é aprender a programar, mas sim aprender a confiar em seus próprios instintos. Em um mercado saturado de respostas automatizadas e relatórios padronizados, o diferencial competitivo estará nos profissionais capazes de equilibrar dados analíticos com inteligência emocional.

    À medida que as rotinas operacionais passam a ser absorvidas pelos robôs, os colaboradores buscarão algo que máquina nenhuma pode fornecer: humanidade, abrigo ético e norte estratégico.

    Como resume a pesquisadora, “o código imperfeito ensina o que significa ser humano. E enquanto liderar for, essencialmente, guiar outras pessoas, ele continuará sendo tudo o que você precisa”.

    Nova MP abre caminho para renegociação de dívidas rurais, mas benefício ainda depende de regulamentação

    A publicação da Medida Provisória (MP) N.º 1.376/2026 pelo Governo Federal abriu uma nova expectativa para milhares de produtores rurais que enfrentam dificuldades financeiras após anos de perdas provocadas por fatores climáticos e pela queda dos preços das commodities agrícolas. A proposta cria mecanismos para facilitar a renegociação de parte das dívidas do setor. Embora tenha sido recebida como  um avanço, ela não representa uma solução automática para os agricultores por estabelecer critérios rigorosos, depender de novas regulamentações e por excluir várias modalidades de dívida bastante comuns no campo.

    Na prática, a MP inaugura uma nova fase da política de crédito rural ao reconhecer que as dificuldades financeiras do produtor nem sempre decorrem apenas de secas, enchentes ou outros eventos climáticos. A forte desvalorização dos produtos agrícolas também passa a ser considerada um fator capaz de comprometer a capacidade de pagamento, refletindo um cenário que marcou diversas cadeias produtivas nos últimos anos. 

    O advogado Eliseu Silveira, especialista em recuperação judicial, alerta que a medida deve ser vista como o início de um processo de renegociação e não como um programa de perdão de dívidas. “O principal avanço é a autorização para que instituições financeiras ofereçam linhas de crédito específicas para a renegociação de dívidas rurais, mas esse benefício ainda não está disponível na prática. Foi criada somente a base legal para essa operação e caberá ao Conselho Monetário Nacional definir seu funcionamento, as condições financeiras, os prazos, os critérios de enquadramento e os procedimentos que deverão ser adotados pelos bancos”, explica. 

    Segundo o advogado, enquanto a regulamentação não for publicada, o produtor continua sem saber exatamente quando poderá procurar a instituição financeira para renegociar seus contratos e quais exigências precisará cumprir. “Esse período de espera gera insegurança justamente em um momento em que muitos agricultores enfrentam dificuldades para manter a atividade e cumprir seus compromissos financeiros”, observa o especialista.

    Silveira destaca que a mudança dos critérios para comprovação das perdas é outro ponto importante da MP e aponta que antes dela os programas semelhantes concentravam sua atenção principalmente em prejuízos causados por eventos climáticos extremos. “A partir de agora a legislação também permite que produtores afetados pela queda acentuada dos preços das commodities agrícolas possam solicitar a renegociação, desde que consigam comprovar redução significativa da renda. Essa alteração amplia o alcance da medida ao reconhecer que o risco da atividade rural vai além da produção”, afirma.

    O especialista acrescenta que o produtor rural enfrenta diversos desafios para honrar seus compromissos e em muitos casos, mesmo quando a safra é boa, a forte queda dos preços no mercado reduz drasticamente a sua receita. “O produtor lida diariamente com muitas variáveis que podem comprometer sua capacidade de quitar financiamentos e investir no próximo ciclo produtivo. Cada safra tem suas  características próprias e impõe uma forma de agir para dar continuidade à sua atividade”, ressalta. 

    Silveira lembra que para ter acesso ao benefício não basta alegar dificuldades financeiras e que a regra geral exige que o produtor comprove perda de pelo menos 30% da renda bruta esperada considerando os prejuízos acumulados em um período mínimo de duas safras, entre 2019 e 2025. “Houve uma mudança na forma como as perdas serão avaliadas O foco deixa de estar apenas na redução da produção agrícola e passa a considerar diretamente o impacto financeiro sobre a renda do produtor. Assim, laudos técnicos, documentos contábeis, registros de comercialização e outros elementos capazes de comprovar a receita esperada e a receita efetivamente obtida passam a ter papel decisivo para a aprovação dos pedidos”, acrescenta. 

    Silveira aponta que a Medida Provisória deixou uma lacuna ao não contemplar a renegociação de débitos com revendas de insumos, fornecedores e concessionárias de máquinas. “Muitos agricultores tem dívidas contraídas que não tem previsão de negociar. E as Cédulas de Produto Rural também não são contempladas de forma ampla, podendo ser incluídas apenas aquelas contratadas diretamente com instituições bancárias, limitando significativamente o alcance da medida para quem utilizar outras formas de financiamento privado”, enfatiza. 

    Para o advogado, também merece atenção a situação das dívidas que já estão sendo discutidas judicialmente que não terão seus processos de cobrança interrompidos de forma automática. “Os bancos continuam executando aquelas garantias previstas em contrato e não são obrigados a aceitar todos os pedidos de renegociação. Dessa forma, as instituições bancárias poderão exigir novas garantias, reavaliar riscos e estabelecer condições específicas antes de firmar qualquer acordo”, completa.

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    Reforma tributária é tema de debate no Congresso Andav 2026

    A reforma tributária prevê mudanças relevantes na tributação sobre bens e serviços no Brasil, com impactos graduais para diferentes setores. No caso do agronegócio, um dos pontos debatidos foi o Convênio ICMS 100/97, mecanismo de desoneração de insumos agropecuários. O tema foi destaque no 15º Congresso Andav, que termina nesta quinta-feira (13/08), em São Paulo. O evento é uma realização da Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários (Andav) e organizada pela Zest Eventos.

    Segundo o tributarista e CEO da ROIT, Lucas Ribeiro, o convênio, que reduz a base de cálculo do ICMS nas operações interestaduais com determinados insumos agropecuários, permanece nas condições atuais até 2027 e poderá ser prorrogado até 2032. A partir de 2029, o percentual começará a ser reduzido em 10%, e assim sucessivamente até 2033, quando será encerrado.

    Além das mudanças tributárias, especialistas apontaram que a transição para o novo sistema poderá exigir ajustes na formação de preços e na estratégia comercial das empresas do agronegócio. A advogada da Agro Hara, Jaqueline Hara, destacou que os efeitos deverão alcançar toda a cadeia produtiva. “A mudança vai simplificar o ambiente fiscal, mas, no início, haverá muita complexidade”.

    Para o diretor-executivo da Cultura Agromais, César de Oliveira, a adaptação exigirá uma revisão mais ampla dos modelos de negócio. O sócio-diretor da Semear Agronegócios, Marcos Pacheco, comentou que a reforma vai influenciar o preço de venda do produto no agro.

    Gestão de Pessoas

    Durante o 15º Congresso Andav, Izabela Mioto, professora associada da Fundação Dom Cabral (FDC), apresentou o conceito de liderança transformativa, modelo que parte do autoconhecimento e da capacidade do líder de tomar decisões conscientes para construir equipes mais colaborativas, emocionalmente seguras e capazes de sustentar resultados no longo prazo.

    Diante de um ambiente cada vez mais acelerado e complexo, Mioto destacou que o líder moderno precisa ser um facilitador de fluxos, capaz de mobilizar e engajar a equipe.

    Foto: FD Fotografia

    Congresso Andav

    O Congresso Andav 2026 reúne mais de 260 marcas nacionais e internacionais, com a expectativa de receber 18,5 mil profissionais, um público altamente qualificado, formado por distribuidores, agrônomos, consultores, representantes técnicos de vendas, pesquisadores e especialistas das áreas relacionadas. O principal ponto de encontro para networking e atualização de conhecimento do setor de Distribuição de Insumos Agropecuários no país conta com o patrocínio da BASF, Bayer, GiroAgro, Syngenta, GCI, Ceres, Biotrop, Ecoagro e Aliare.