Forrageiras: o investimento mais estratégico para a agricultura moderna

por Marcelo Ayres Carvalho*

A eficiência no uso da terra e o controle dos custos de produção são fatores essenciais para a gestão das propriedades rurais. Em um cenário de variações nos preços das commodities agrícolas, do custo dos insumos e das taxas de juros, a eficiência do sistema produtivo impacta diretamente a estabilidade financeira das atividades rurais. 

Neste contexto, as plantas forrageiras deixam de ser apenas um componente da pecuária para assumir um papel estratégico na agricultura moderna. Mais do que culturas de cobertura, elas contribuem para a saúde do solo, reduzem riscos de produção, aumentam a produtividade e fortalecem a rentabilidade das lavouras, especialmente em períodos de instabilidade econômica e climática.

O risco da safrinha e a armadilha do custo fixo

Historicamente, a “safrinha” de grãos (em geral, com milho ou sorgo) foi utilizada para diluir os custos fixos da propriedade. No entanto, em anos de crise financeira e instabilidade climática, essa estratégia pode se transformar em uma perigosa armadilha. Implantar uma segunda safra de grãos exige investimentos elevados em sementes, fertilizantes e defensivos. Quando o clima ou os preços forem desfavoráveis, a safrinha deixa de gerar receita e passa a representar um passivo financeiro.

A busca por eficiência operacional exige que o produtor repense o uso da terra. A exposição ao risco em janelas marginais de plantio tem levado à adoção de alternativas que demandam menor desembolso inicial e oferecem maior proteção ao sistema produtivo.

No entanto, a redução da dependência de safrinhas de alto risco não significa deixar a terra em pousio — o que seria um erro agronômico grave no Sistema Plantio Direto (SPD). A opção é a adoção de culturas que preparem o sistema para a safra principal com um custo significativamente menor.

As forrageiras como ferramentas estratégicas

O cultivo de espécies forrageiras, especialmente gramíneas e leguminosas tropicais, representa uma estratégia eficiente para aumentar a resiliência dos sistemas produtivos. Ao contrário de uma cultura de grãos, a forrageira implantada após a safra de verão, atua como um “seguro biológico”. Ela não exige os mesmos investimentos em operações agrícolas, insumos e gestão, e entrega um retorno para o sistema que poucas tecnologias conseguem superar.

As forrageiras vão além da cobertura do solo. Seus sistemas radiculares promovem descompactação, infiltração de água, oxigenação do perfil, ciclagem de nutrientes, supressão de plantas invasoras, nematoides, pragas e doenças, além de favorecer o sequestro de carbono.

Em um cenário de crise, onde o produtor precisa extrair o máximo de cada quilo de fertilizante aplicado, ter um solo estruturado e saudável é fundamental para evitar perdas de produtividade e aumento de custos de produção.

Evidências técnicas e econômicas: o valor da saúde do solo

Estudos científicos demonstram que substituir a safrinha de grãos por forrageiras melhora o desempenho do sistema produtivo. Pesquisas têm demonstrado que a soja cultivada após o uso de forrageiras apresenta um incremento médio de 15% na produtividade, o que representa cerca de 515 quilos por hectare adicionais (ou mais de 8,5 sacas por hectare). O ganho está associado à melhora dos bioindicadores da saúde do solo, com aumento da atividade enzimática e da ciclagem de nutrientes.

Do ponto de vista financeiro, o retorno sobre o investimento (ROI) é bastante expressivo. Enquanto o custo de implantação de uma cobertura forrageira varia entre US$ 9 e US$ 30 por hectare em sementes, o retorno financeiro apenas em ganho de produtividade da soja subsequente é estimado em US$ 198 por hectare. 

Forrageiras, uma poupança para o solo e para o produtor 

Em tempos de insumos caros, as forrageiras funcionam como uma poupança de nutrientes. Cultivares de Brachiaria recuperam potássio e fósforo das camadas profundas do solo e os devolvem à superfície por meio da biomassa. Após a dessecação da forragem, esses nutrientes são liberados de forma gradual, reduzindo a dependência imediata de fertilizantes químicos de alta solubilidade e custo elevado.

Além disso, a palhada persistente sobre o solo reduz a temperatura superficial e mantém a umidade, mitigando os efeitos do estresse hídrico — um problema recorrente que tem dizimado margens de lucro em diversas regiões. 

O uso de leguminosas forrageiras contribui também para a melhoria dos atributos físicos e biológicos do solo, promovendo o aporte de nitrogênio no sistema pela fixação biológica. Estudos mostram que leguminosas forrageiras podem fixar entre 50 e mais de 250 quilos de nitrogênio por hectare ao ano. 

Elas podem ser utilizadas isoladamente ou em consórcio com gramíneas. As forrageiras também podem ser pastejadas, diversificando a renda. Estudos em fazendas mostram aumento de 18% na produtividade da soja em áreas pastejadas.

Essa estratégia amplia a competitividade do produtor brasileiro. A sustentabilidade aqui não é um conceito abstrato, mas uma ferramenta de resiliência econômica que permite produzir mais com menos interferência externa.

A maturidade do sistema de produção

O crescimento do mercado de sementes forrageiras mostra que investir na saúde do solo reduz riscos e aumenta a eficiência da safra principal. A adoção de sistemas integrados – a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) – ou o uso estratégico de forrageiras como plantas de cobertura para o sistema de plantio direto marca a maturidade do sistema de produção brasileiro. 

O produtor que compreende a forrageira como um investimento em infraestrutura biológica estará, ao final dessa crise, em uma posição de liderança, com custos de produção mais baixos, solos mais férteis e uma operação significativamente menos vulnerável às oscilações climáticas e do mercado de commodities e insumos.

*Pesquisador da Embrapa Cerrados.

Embrapa advises farmers on how to reduce the impacts of El Niño in southern Brazil

Given the 97% to 99% probability that the El Niño climate phenomenon will persist through early 2027, seven Embrapa units — Temperate Climate (RS), Forestry (PR), Southern Livestock (RS), Soybean (PR), Swine & Poultry (SC), Wheat (RS), and Grapes and Wine (RS) — have prepared a technical note with recommendations to reduce risks to crop and livestock in the Brazilian Southern Region. The material provides guidance to farmers on preventive measures to minimize losses caused by heavy rains, an increase in the incidence of crop diseases, and other impacts expected for different production systems.

This scenario is highlighted by the U.S. National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), which also estimates a 63% probability that the phenomenon will reach very strong intensity between November 2026 and January 2027. For the Southern region, the forecast calls for increased rainfall, more cloud cover, and above-average temperatures during the winter — conditions that could affect various agricultural systems.

The Embrapa research centers responsible for the technical note are part of the Collaborative Platform for Mitigating Adverse Climate Effects on Agriculture and Livestock in Southern Brazil. More than just warning of the risks, the document aims to provide technical information that will enable advance planning of field activities, thereby reducing losses and preventing alarmist interpretations of the effects of El Niño.

According to researcher Gilberto Cunha, an agrometeorologist at Embrapa Wheat, the knowledge gathered over the past few decades enables farmers, technicians, and institutions to take preventive action. The document emphasizes that the inherent uncertainty of weather phenomena should not be a reason for inaction, but rather a reason to strengthen risk management based on scientific evidence and constant monitoring. “Today we know much more about El Niño than we did in the 1980s. The challenge isn’t predicting the phenomenon, but turning that knowledge into decisions in the field”, he adds.

He also points out that the impacts of El Niño are not inevitable. “The knowledge we’ve gained from past events allows us to reduce risks and, in some cases, even take advantage of favorable environmental conditions for certain crops”, Cunha notes.

The strategy proposed by Embrapa combines prevention, mitigation, and risk transfer measures. In addition to good management practices, the technical note emphasizes the importance of agricultural insurance and of making decisions based on official weather forecasts.

Planning is the main tool

General recommendations include complying with the Agricultural Climate Risk Zoning (ZARC) regulations, monitoring forecasts issued by official agencies, carefully planning investments, and participating in rural insurance programs. At the same time, it provides specific guidelines for each production chain, recognizing that the impacts of El Niño vary depending on the characteristics of each crop.

The publication also recommends that farmers adjust their investments and yield expectations to the conditions expected during El Niño years, avoiding decisions based on scenarios of exceptional productivity and tailoring the use of inputs to the crops’ actual potential.

For winter grains, such as wheat, barley, and oats, the guidelines focus on disease prevention, fertilizer management, and harvest planning. As for soybeans, corn, and irrigated rice, the document introduces strategies to reduce losses caused by excessive rainfall, improve drainage in these areas, protect the soil from erosion, and step up phytosanitary monitoring.

In fruit growing, the guidelines cover crops such as grapevines, apple trees, peach trees, olive trees, and pecan trees, with measures focused on orchard drainage, plant health management, soil conservation, and agricultural operations planning. The technical note also devotes specific chapters to forestry, horticulture, pastures, and cover crops, reaffirming specific strategies to adapt to projected climate conditions.

According to researcher Alex Mayer from Embrapa Temperate Agriculture, fruit growing is among the agricultural activities most affected by the impacts associated with El Niño, especially due to excessive rainfall and extreme weather events. “Fruit production is very sensitive. In addition to soil flooding, which can compromise the root system and lead to plant death, losses can also result from strong winds, hail, and erosion, damaging orchards, farming structures, and productivity itself”, he explains.

In addition to technical recommendations for rural properties, the document proposes a broader approach to environmental planning, encouraging actions at the micro-watershed level, soil conservation, strengthening of natural infrastructure, and the adoption of more resilient production systems, such as Agroforestry Systems (AFSs) and Integrated Crop-Livestock-Forestry Systems (ICLFS).

Technology transfer and communication

Another key point in the technical note is the importance of technology transfer and communication with farmers. The Collaborative Platform provides for the ongoing training of technical assistance professionals and the production of easily accessible digital content, apps, and materials to broaden the dissemination of the recommendations.

According to José Reinaldo Moraes, a researcher at Embrapa Temperate Agriculture, “the important message is that, although El Niño requires attention, it is a predictable event and is not synonymous with guaranteed problems, but rather with a shift in risk patterns. Their impacts can be reduced through advance planning, the adoption of good agricultural practices, and access to reliable technical information. These measures are essential for increasing the resilience of production systems in the face of projected climate events”, he notes. 

Cunha states: “We can no longer passively accept the inability to deal with adverse impacts”. In the researcher’s opinion, the lessons learned from past climate events cannot be ignored. On the contrary, they should help us cope with adversity and remain alert and vigilant for any obstacles that may arise during the period of heightened El Niño activity.

Foto: Frederic Hancke / Pexels.com

Nova soja convencional combina produtividade e controle de plantas daninhas

Embrapa Soja (PR) e a Caramuru Alimentos lançaram, durante o TecnoShow Comigo, a cultivar de soja BRS 579, que alia alto potencial produtivo à alternativa para o manejo de plantas daninhas em sistemas convencionais de cultivo.

A nova variedade é indicada para produtores do centro-norte de Mato Grosso (região edafoclimática sojícola REC 402) que buscam cultivares de ciclo médio a tardio, o que corresponde aos grupos de maturação (GM) entre 7.0 e 9.0+. A cultivar pertence ao GM 7.9 e, portanto, tem “um ciclo condizente com o sistema de produção da região, podendo ser utilizado para escalonamento da colheita e para a semeadura no início da safra”, explica o pesquisador Roberto Zito, da Embrapa Soja.

A BRS 579 se destaca pela sanidade, com moderada tolerância ao nematoide de galha (Meloidogyne javanica) e resistência às raças 3 e 14 do nematoide de cisto da soja, importantes patógenos na região de cultivo.

Escudo genético

A BRS 579 possui também a tecnologia STS (Soja Tolerante às Sulfonilureias). As sulfoniluréias são um grupo químico de herbicidas inibidores da enzima ALS (acetolactato sintase). Herbicidas dessa categoria já são registrados e utilizados na soja com restrições, especialmente de dose, pois podem provocar fitotoxicidade para a cultura, o que não ocorre para as cultivares de soja STS, como a BRS 579.

O pesquisador Fernando Adegas, da Embrapa Soja, explica que a fitotoxicidade é um dano que um herbicida causa na soja. Pode ocorrer devido a diversos fatores, como erro de dosagem, condições climáticas adversas, estresse das plantas, entre outros. Entre os prejuízos possíveis, estão: amarelecimento, necrose, deformações e atraso no crescimento da planta

A tecnologia STS funciona como um “escudo genético”. Enquanto a soja pode sofrer severas perdas de produtividade ao entrar em contato com herbicidas do grupo das sulfoniluréias, as variedades STS possuem tolerância natural a essas moléculas. “Isso permite que o agricultor aplique o produto em pós-emergência (quando a soja já está crescida), eliminando as infestantes que competem por nutrientes e luz”, pontua Adegas.

“Com essa nova solução tecnológica, entregamos ao produtor não apenas uma semente, mas produtividade associada a uma ferramenta de manejo capaz de trazer mais tranquilidade e rentabilidade no final da safra”, complementa Zito.

Para os pesquisadores, o grande diferencial da soja STS é oferecer alternativa ao uso exclusivo do glifosato, principal herbicida utilizado nas cultivares transgênicas que estão no mercado. A tecnologia possibilita o controle eficaz de plantas de difícil manejo e resistentes a outros produtos no campo, mantendo o vigor e o crescimento inalterados enquanto garante alta produtividade.  “Essa nova cultivar pode ser integrada a diferentes sistemas de manejo, sendo uma ferramenta essencial para a rotação de princípios ativos, o que prolonga a vida útil das tecnologias disponíveis no mercado”, reforça Adegas.

Foto: Melquizedeque Almeida / Pexels.com

X-ray shows that agricultural startups are more well-distributed in the country

The growth in the number of technology-based startups in the agricultural sector is slowing down, and their geographical concentration has started to decline as such companies expand into important production regions. Those are some of the conclusions in the sixth edition of Radar Agtech Brasil. The survey conducted by Embrapa, SP Ventures, and Homo Ludens for the year 2025 provides an overview of the agricultural innovation ecosystem, focusing on innovation hubs, startups, and investors.

Data shows that the Brazilian South had higher numbers than the Southeast, becoming the region with highest number of innovation environments. Out of the 390 environments that were mapped in the country, 37.18% are in the states of Paraná, Santa Catarina and Rio Grande do sul, 32.82% in São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro and Espírito Santo. 

The standout is Rio Grande do Sul, which has seen a significant increase in the number of incubators. According to Radar Agtech coordinator and Embrapa analyst Aurélio Favarin, the data show a clear participation of state governments in innovation encouragement. “Incubators work at the initial stage of the innovation process. It makes sense that a state considering developing an ecosystem would starts by incubators. Most of them are connected to state universities. There’s a plan for that, to create conditions for the creation of startups,” Favarin reports.

The Brazilian Southeast has the highest numbers of hubs, accelerators and ecosystems with governance, which shows a more mature stage in comparison with the South. While one focuses on business acceleration and development, the other focuses on the early stages of startup formation.

Deceleration and maturity                                     

Regarding numbers, the survey found 2.075 agtechs in Brazil in 2025, 5% more than the previous year. The number indicates a deceleration when compared with historical series that began in 2019. According to the authors of the survey, the moderate growth indicates higher maturity in the ecosystem and the consolidation of business models. 

“Between 2019 and 2021 there was a boom of innovation environments and investment funds that contributed to a big increase in the amount of agtechs. With time those initiatives start to accommodate themselves, and only the best structured ones remain. The ecosystem is still relevant, but with a less expressive increase. It is an expected behavior and shows the innovation ecosystem maturity”, Vitor Mondo, Embrapa researcher, analyses

Brazilian Southeast and South regions concentrate 79% of agtechs, with 55.2% and 23.7%, respectively. However, the data show that, despite the historical concentration, there is proportional growth in agtechs companies in the North, Northeast, and Midwest regions of Brazil, reflecting a gradual geographic expansion of the ecosystem toward areas that are important to agricultural production. In 2019, Brazilian North and Northeast together had only 5% of agtechs. Currently the Brazilian North has 7.6% and Northeast has 6.5%. The Brazilian Middle-East region has 7.1%. 

According to the data, in 2025 the Amazon state counts with 17 agtechs, Goiás with 15 and Mato Grosso with 14. Minas Gerais and Rondônia were the states with more new agtechs, both with 13. Rio Grande do Sul (minus 27), Tocantins and Distrito Federal (minus 7) and São Paulo (minus 6) were the states with highest reduction in agtechs numbers.

“This tendency happens at the same time as the agtechs proportions inside of farms increase. This is a positive sign that the companies are at a maturity level in which they can directly access farmers,” Mondo says.

O Agro Conecta: o agronegócio como elo entre campo, cidade e inovação

por Jayme Vasconcellos*

A atividade agropecuária brasileira passou, nas últimas décadas, por um processo contínuo de transformação estrutural. A incorporação de ciência, tecnologia e gestão profissional alterou profundamente a forma de produzir e de se relacionar com o mercado e com a sociedade. O campo deixou de ser um espaço isolado para se tornar parte ativa de uma rede que envolve centros de pesquisa, cooperativas, indústrias, serviços e consumidores urbanos.

Segundo a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, a trajetória do agro brasileiro está diretamente associada à capacidade de integração entre ciência e produção. “A agropecuária nacional se desenvolveu com base em pesquisa aplicada e na proximidade com o produtor. A inovação no campo é resultado dessa interação permanente”, afirmou em apresentações institucionais da empresa.

Essa dinâmica se reflete no cotidiano das propriedades. Em Rio Verde (GO), o produtor rural José Antônio Ferreira, cooperado há mais de 20 anos, descreve uma rotina produtiva orientada por informação técnica. “Hoje, cada decisão passa por recomendação agronômica, dados de clima e histórico da área. A produção ficou mais técnica, e isso mudou a forma de trabalhar”, relata.

O exemplo ilustra um movimento mais amplo: o agronegócio como um ambiente de tomada de decisão baseada em conhecimento compartilhado.

Cooperativas como eixo de integração regional

Nesse processo, o cooperativismo desempenha um papel central. Cooperativas agroindustriais atuam como estruturas de conexão entre o produtor e os diferentes elos da cadeia produtiva, oferecendo acesso a assistência técnica, inovação, crédito, logística e mercado.

Para o diretor-executivo da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Alberto França, o modelo cooperativista é um dos fatores que explicam a capacidade de organização do agro brasileiro. “As cooperativas reduzem distâncias. Elas aproximam o produtor da tecnologia, da gestão e das exigências do mercado, ao mesmo tempo em que fortalecem o desenvolvimento regional”, afirmou em eventos do setor.

Essa atuação tem impactos diretos nas cidades. A presença de cooperativas impulsiona agroindústrias, serviços especializados, comércio e geração de empregos, criando uma relação de interdependência entre campo e meio urbano. O desenvolvimento regional passa a ser resultado de um sistema integrado, e não de ações isoladas.

Pesquisa aplicada como base da produtividade

A conexão entre pesquisa e prática é um dos pilares do desempenho agropecuário brasileiro. Instituições como a Embrapa e universidades públicas e privadas atuam na geração de conhecimento adaptado às condições tropicais, com resultados diretos sobre produtividade, sustentabilidade e segurança alimentar.

O pesquisador da Embrapa Evaristo de Miranda destaca que a ciência agropecuária brasileira se construiu a partir do território. “A pesquisa no Brasil sempre esteve ligada à realidade do produtor e às características ambientais do país. Esse diálogo é o que garante resultados consistentes”, afirmou em análises públicas sobre o setor.

A transferência de tecnologia ocorre por meio de assistência técnica, programas de capacitação e espaços de demonstração. Esses mecanismos permitem que a inovação seja testada, validada e incorporada gradualmente às rotinas produtivas, reduzindo riscos e ampliando ganhos de eficiência.

Tecnoshow COMIGO como espaço de articulação

Durante a Tecnoshow COMIGO, em Rio Verde, produtores circulam entre parcelas demonstrativas, estandes de empresas e áreas de apresentação técnica. Em um mesmo percurso, é possível observar resultados de pesquisa aplicada, discutir manejo com especialistas e avaliar soluções tecnológicas voltadas à realidade local. Esse ambiente resume a lógica do evento: encurtar a distância entre quem desenvolve conhecimento e quem toma decisões no campo.

Segundo Antônio Chavaglia, presidente do Conselho de Administração da COMIGO, a proposta do evento sempre foi criar um espaço de conexão. “A Tecnoshow foi pensada para aproximar o produtor da inovação e do conhecimento técnico, permitindo que ele veja, questione e avalie as tecnologias apresentadas”, afirmou em edições recentes.

Ao reunir diferentes elos da cadeia produtiva, a feira contribui para encurtar a distância entre quem desenvolve soluções e quem as aplica no campo, fortalecendo a integração entre pesquisa, mercado e produção.

Foto: Divulgação / COMIGO

Tecnologia e profissionalização do campo

A digitalização ampliou ainda mais essas conexões. Ferramentas de agricultura de precisão, sistemas de monitoramento e plataformas de gestão tornaram-se parte do cotidiano produtivo, aproximando o campo de padrões tecnológicos presentes em outros setores da economia.

Para Fernando Silva, gerente de inovação da Syngenta Brasil, a tecnologia tem papel estratégico na integração da cadeia. “Dados e conectividade permitem decisões mais eficientes e alinhadas às demandas de produtividade e sustentabilidade. Isso aproxima produtores, empresas e consumidores”, afirmou em debates institucionais.

Esse avanço tecnológico também impacta o perfil profissional do setor, atraindo mão de obra qualificada e reforçando a circulação de conhecimento entre áreas rurais e urbanas.

A engenheira agrônoma Mariana Lopes, formada em Goiânia e atuando na assistência técnica em propriedades do sudoeste goiano, descreve uma rotina que conecta o urbano ao rural. “A gente leva a pesquisa para o campo e traz o campo para a discussão técnica. O produtor participa das decisões e o conhecimento circula”, afirma. Para ela, o agro deixou de ser um espaço distante da cidade e passou a incorporar profissionais, métodos e tecnologias típicos de outros setores da economia.

Produção, consumo e responsabilidade

A relação entre produção e consumo tornou-se mais direta. A sociedade urbana passou a demandar informações sobre origem, qualidade e impacto ambiental dos alimentos, exigindo maior transparência da cadeia produtiva.

Para Christian Kapp, diretor de sustentabilidade da UPL Brasil, essa aproximação redefine o papel do produtor. “O diálogo com a sociedade é fundamental. Produzir bem inclui adotar práticas responsáveis e comunicar isso de forma clara”, afirmou em fóruns sobre sustentabilidade.

Programas de boas práticas agrícolas, rastreabilidade e gestão ambiental funcionam como instrumentos de conexão entre o campo e o consumidor, reforçando a confiança e a legitimidade do setor.

Desenvolvimento econômico e social

As conexões promovidas pelo agronegócio têm reflexos diretos no desenvolvimento regional. Cadeias agroindustriais estruturadas impulsionam economias locais, ampliam a arrecadação municipal e sustentam redes de serviços que vão da educação técnica à saúde. Ao integrar produção, processamento e comercialização, o setor contribui para a estabilidade econômica de regiões inteiras, especialmente em municípios onde o agro é a principal base produtiva.

Embora desafios persistam, o setor demonstra capacidade de adaptação e articulação. O agro brasileiro se organiza como um sistema que integra interesses econômicos, ambientais e sociais.

O agro como elo estruturante

“O Agro Conecta” não é apenas um conceito, mas a descrição de um sistema em operação. Um sistema que transforma conhecimento científico em prática produtiva, articula interesses econômicos e sociais e reduz distâncias históricas entre o campo e a cidade. Iniciativas como a Tecnoshow COMIGO, o fortalecimento do cooperativismo e a atuação integrada da pesquisa evidenciam essa capacidade de articulação.

Ao operar como elo entre pessoas, tecnologias e propósitos, o agronegócio brasileiro reafirma sua relevância para além dos números da produção. Ele se consolida como uma estrutura de conexão que sustenta oportunidades, promove desenvolvimento regional e responde, de forma concreta, às demandas de uma sociedade cada vez mais interdependente.

*Jornalista, radialista e técnico em Agronegócio. Especialista em Liderança e Desenvolvimento de Equipes, é editor-chefe do Agricultura e Negócios e autor de livros sobre liderança e criatividade.

Selo inédito vai impulsionar o mercado de carnes premium no Brasil

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.

Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.

O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.

“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.

Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.

Participação técnica da Embrapa

A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.

Foto: SONY DSC

A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.

Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.

Embrapa facilitates genomic innovation agreement between Indian and Brazilian companies

Embrapa signed a Memorandum of Understanding (MOU) on scientific and technological cooperation with a consortium of five private institutions, namely three Indian and two Brazilian companies. The agreement is valid for 10 years and mainly focuses on the transfer and validation of Embrapa’s genomic technologies to that country’s dairy farming. 

On India’s side, the parties to the agreement are Leads Agri Genetics Private Limited (specializing on animal genetics and dairy technologies, including genomic selection and in-vitro fertilization); LeadsConnect Services Private Ltd (pioneer in Analytics with a focus on AgriTech, climate-smart agriculture,and data analysis), and B.L. Kamdhenu Farms Limited (an entity that promotes dairy farming in India that aims at developing a sustainable ecosystem for native breeds). As for Brazil’s, the MOU is signed by Fazenda Floresta (specialized in in-vitro embryo production and high-performance dairy operations) and DNAMARK (a laboratory focused on genetic improvement and applied genomics).

The Ambassador of India in Brazil, Dinesh Bhatia, stresses that this is the first time that a technical-scientific cooperation agreement is signed by Brazilian and Indian companies in the area of cutting-edge breeding and genetic improvement, involving modern animal reproduction techniques. He also notes that the initiative stems from a Memorandum of Understanding established between Embrapa and the Indian Council of Agricultural Research (ICAR) in July, with the aim of broadening cooperation in agricultural research.

The president of Embrapa, Silvia Massruhá, recalls that the partnership between Brazil and India in agricultural research is old, especially in the field of bovine breeding and genetic improvement. According to her, in the last few decades, modern techniques like genomics, biotechnology, gene editing, and bioinformatics started to integrate this, bringing new challenges to reseach and widening opportunities to share advances aimed at increasing milk yield in both countries. For Massruhá, the cooperation with Indian institutions strengthens Embrapa’s position as a global reference in tropical agriculture and opens an even broader scientific front. “While the initial focus is on livestock, the scope of the cooperation is quite broad”, she adds.

According to Embrapa Dairy Cattle researcher Marcos Vinícius G. B. Silva, the new initiative will allow the transfer, adaptation, and validation of Embrapa’s portfolio of genomic technologies in one of the largest dairy markets in the world, with an initial focus on Zebu breeds. “The partnership offers a two-way street. Embrapa contributes with its expertise in genomics, bioinformatics, breeding and genetic improvement, and reproductive biotechnologies; while it will have access to genomic and phenotypic databases of Indian breeds”, he states. According to him, such access is vital to improve Embrapa’s genomic prediction models and will accelerate genetic gains in the Indian herd.

The institutions have committed to the establishment of joint projects in science and technology in the areas of natural resources and climate change (adaptation and resilience of production systems); biotechnology, microbiomes, nanotechnology and geotechnology; bioeconomy and bioproducts; agroindustrial technology; automation and digital agriculture, including artificial intelligence and information technology.

The MoU implementation will occur through Scientific Cooperation Projects (SCPs) or Technical Cooperation Projects (TCPs), which should detail funding, responsibilities and, crucially, intellectual property (IP) rights on new processes or products. With the signing of the Memorandum, the parties begin the process of defining the specific projects (SCPs and TCPs) that will give body and operability to the collaboration plan. “The success of this initiative will position Brazilian genomics as an essential tool in the sustainable development of global cattle farming”, Silva concludes.

Foto: Studio Art Smile / Pexels.com

Estudo mostra como reduzir a pegada de carbono na produção de trigo

Um estudo realizado pela Embrapa revelou que o trigo produzido no Brasil tem uma pegada de carbono menor que a média mundial e indicou caminhos concretos para reduzir ainda mais as emissões de gases de efeito estufa. A análise, feita em lavouras e indústria moageira do Sudeste do Paraná, apontou que a adoção de práticas sustentáveis e tecnologias já disponíveis pode diminuir em até 38% o impacto ambiental da produção de trigo no País.

Publicada no periódico científico Journal of Cleaner Production, a pesquisa é a primeira na América do Sul a estimar a pegada de carbono do trigo desde o cultivo até a produção de farinha. Também foi o primeiro estudo do tipo nessa cultura em ambiente subtropical. O índice médio brasileiro ficou em 0,50 kg de dióxido de carbono equivalente (CO₂eq) por quilo de trigo produzido — abaixo da média global, estimada em 0,59 kg.

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores avaliaram 61 propriedades rurais na safra 2023/2024, além de acompanhar todo o processo industrial em uma moageira paranaense. O levantamento detalhou desde o uso de fertilizantes e defensivos agrícolas até o transporte dos grãos, secagem, moagem e transformação dos grãos em farinha.

Fertilizantes nitrogenados são principais emissores de CO2

A pesquisa apontou os fertilizantes como o principal fator de pegada de carbono na triticultura. O maior impacto está na emissão de óxido nitroso (N₂O) gerado durante a aplicação de ureia, fertilizante capaz de emitir 40% dos gases de efeito estufa envolvidos na produção de trigo. A ureia é o principal fertilizante utilizado no trigo devido ao menor custo por unidade de nutriente dentre os adubos nitrogenados disponíveis no mercado. Segundo a pesquisa, a substituição desse fertilizante pelo nitrato de amônio com calcário (CAN) pode reduzir a emissão de carbono em 4%, minimizando significativamente os impactos ambientais.

A acidificação do solo, uma das categorias com maior impacto ambiental, também pode ser mitigada pela substituição da ureia pelo CAN. “Quando a ureia não é totalmente absorvida pelas plantas ou é lixiviada como nitrato, ocorrem reações que liberam íons de hidrônio, aumentando a acidez do solo. Em contrapartida, fertilizantes à base de CAN ajudam a neutralizar esse efeito devido ao seu conteúdo de cálcio”, explica a pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente (SP) Marília Folegatti. Segundo ela, outras tecnologias também devem ser consideradas para reduzir a dependência de fertilizantes sintéticos e minimizar impactos ambientais, como biofertilizantes, biopesticidas, fertilizantes de liberação lenta e nanofertilizantes. Ela lembra que a pesquisa avança na produção de ureia verde e nitrato de amônio a partir de fontes de energia renováveis.

Foto: Luiz Magnante

A pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical (CE) Maria Cléa Brito de Figueiredo lembra que o uso de fertilizantes nitrogenados é também o maior emissor de gases de efeito estufa em outras culturas com pegada de carbono e hídrica analisadas pela Embrapa, como as fruteiras tropicais, em especial, manga, melão e coco verde. “Além disso, a produção de fertilizantes sintéticos gera metais pesados que contribuem para a contaminação do solo, podendo afetar a qualidade dos alimentos, a saúde humana e os ecossistemas”, alerta a cientista.

A pesquisa também aponta que a adoção de cultivares de trigo mais produtivas pode reduzir os impactos ambientais no campo, já que ação promove maior rendimento com menos recursos, como terra e água. O estudo ressalta ainda a importância de considerar outros fatores ambientais, como biodiversidade e saúde do solo. Futuros estudos que integrem esses aspectos poderão oferecer uma visão mais abrangente sobre a sustentabilidade da produção de trigo em regiões tropicais e subtropicais.

Robot uses light for early diagnosis of diseases in cotton and soybeans

An autonomous robotic system, which operates at night, called LumiBot, is capable of generating data that allows the construction of models for early diagnosis of nematodes in cotton and soybean plants, even before symptoms appear. Once developed by Embrapa Instrumentation  in partnership with the Mixed Cooperative Union for Agribusiness Development (Comdeagro), Mato Grosso, Brazil, LumiBot emits ultraviolet-visible light onto plants and analyzes the fluorescence captured in images of the leaves, with scientific cameras.

Cotton and soybean farming have enormous economic relevance for the country, as a record harvest is forecast for the 2025/26 crop year: 4.09 million tons of lint and 177.67 million tons of soybeans, according to estimates from the Brazilian National Supply Company (Conab). However, both crops face the threat of the microscopic parasite measuring 0.3 to 3 millimeters in length.

Accuracy rates above 80%

The robot is a prototype but has already shown promising results in diagnosing nematode infections in experiments in a greenhouse, when around seven thousand images were collected over three years of research.

“We were able to generate data and models that not only have accuracy rates above 80%, but also differentiate diseases caused by water stress,” says Débora Milori, the researcher who coordinates the study and the National Agrophotonics Laboratory (Lanaf).

The next stage of the study will be the development of equipment for field operations, such as adapting the optical apparatus to fit an agricultural vehicle like a grasshopper sprayer or rover vehicle.

Photo: Wilson Aiello

Roça Sustentável aumenta a produtividade da agricultura familiar

Um conjunto de tecnologias modernas, que alia custos acessíveis e sustentabilidade, tem aumentado significativamente a produtividade de culturas agrícolas de importância alimentar – como mandioca, arroz, milho, feijão, entre outras – em propriedades familiares do Maranhão. Essa é a Roça Sustentável, um pacote de soluções referenciado no Sistema Bragantino da Embrapa, desenvolvido pela Embrapa Amazônia Oriental (AM) e adaptado pela Embrapa Maranhão (MA) para as condições do estado, que já resultou, por exemplo, em aumento de produtividade de 50% de arroz e milho, e em ganho temporal de sete meses para a colheita de mandioca.

A solução  tecnológica surgiu em um processo de inovação aberta, dentro das propriedades dos agricultores familiares, para equacionar problemas de baixas produtividades e ausência de condições de uso de tecnologias em lavouras da agricultura familiar em que os cultivos eram realizados  em área compartilhada, sem qualquer coerência técnica ou econômica.

Segundo o analista Carlos Santiago, responsável pela implementação da tecnologia em municípios maranhenses, sem o uso da Roça Sustentável, a produção média de mandioca no Maranhão é de 8 toneladas por hectare após 18 meses de cultivo. Com a tecnologia, em 11 meses de cultivo a produção atinge 30 toneladas por hectare. “Trata-se de um policultivo das culturas mais produzidas pelos agricultores familiares, seja para consumo familiar ou comercialização. A ênfase é nas variedades em uso na região e preferidas pelos agricultores. A iniciativa aumentou o leque de produtos do agricultor familiar com excelentes resultados de produtividade e qualidade dos produtos”, afirma o pesquisador.

Foto: Ruan Pororoca / Divulgação

A lógica do consórcio é diversificar a produção e otimizar a produtividade com sustentabilidade econômica, social e ambiental. Para isso, os cultivos são dispostos em fileiras de forma a não haver competição por nutrientes, água, luz e espaço. Além do consórcio, o sistema preconiza a rotação de culturas com uso de “safrinha”, prática que intensifica o uso da terra e maximiza o aproveitamento do período chuvoso. O objetivo é que essas novas técnicas contribuam para modernizar sistemas de produção tradicionais, como o de “roça no toco” (no qual uma área de vegetação é derrubada, queimada e utilizada para plantio), sob bases sustentáveis, ou seja, sem necessidade de fogo e desmatamento.

Em termos ambientais, a reconfiguração da “roça no toco” evita a abertura de novas áreas e a prática de “derruba e queima” ao cultivar a terra e as lavouras de acordo com suas necessidades nutricionais e de prevenção de pragas e doenças. Além disso, ao incentivar o consórcio e a rotação de culturas, a tecnologia permite incrementos na ciclagem de nutrientes, manutenção da biodiversidade, conservação do solo, controle de ervas daninhas e manejo de pragas e doenças das culturas.

Adubação específica para cada cultura

A adubação equilibrada é também realizada no sistema para garantir o aporte dos nutrientes necessários ao desenvolvimento das plantas, à produtividade da lavoura e à conservação do solo. A diversificação de culturas melhora a utilização das terras. Cada cultura é especializada num tipo de nutriente e a rotação entre elas permite a exploração de camadas do solo por diferentes culturas. Por exemplo, o arroz é uma cultura que oferece bastante potássio ao solo. Do potássio aplicado nas plantações de arroz, a cultura absorve 20%. Os 80% restantes ficam na palhada após a colheita, disponíveis no solo. A mandioca é uma cultura que demanda potássio.  Ao plantar a mandioca na palhada do arroz, faz-se uma adubação natural de uma cultura pela outra.