Canton Fair ganha força entre empresários brasileiros e vira rota prática para reduzir custos e ampliar margens

A Canton Fair, maior feira multissetorial do mundo realizada em Guangzhou, na China, ocorre duas vezes ao ano e já tem calendário definido para 2026. A edição de primavera será dividida em três fases, com a primeira entre 15 e 19 de abril, focada em eletrônicos, maquinários e ferramentas; a segunda entre 23 e 27 de abril, voltada a bens de consumo, decoração e brindes; e a terceira entre 1º e 5 de maio, concentrada em têxteis, moda, saúde e alimentos. 

Realizada no maior complexo de exposições da China, a feira reúne mais de 30 mil expositores e compradores de mais de 200 países. Dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) indicam que a Ásia lidera as exportações globais de manufaturados, consolidando a China como eixo estratégico de fornecimento para empresas de diferentes portes.

Rodrigo Lopes, CEO Global do Grupo RPX e especialista em importação empresarial, afirma que o evento deixou de ser apenas uma vitrine e passou a exigir preparação técnica por parte dos empresários. “A Canton Fair não é um lugar para improviso. Quem não chega com estratégia definida perde tempo e oportunidade. A feira é grande demais para ser explorada sem planejamento”, diz.

A divisão por fases, segundo ele, é um dos primeiros pontos que precisam ser considerados. Cada etapa atende a segmentos específicos, o que impacta diretamente nos resultados da viagem. “O empresário precisa entender exatamente em qual fase o produto dele está. Ir na fase errada significa não encontrar os fornecedores certos”, afirma.

A preparação começa antes mesmo do embarque. Definir categorias de interesse, estudar fornecedores e alinhar objetivos comerciais são etapas essenciais para transformar a visita em negociação concreta. “Quem chega já sabendo o que quer comprar, qual volume pretende negociar e qual posicionamento busca para o produto consegue avançar muito mais rápido”, explica.

Além da organização prévia, a forma como o empresário aproveita a feira determina o retorno da viagem. A recomendação é estruturar uma agenda diária, priorizar estandes estratégicos e registrar informações detalhadas de cada fornecedor. “Quem trata a feira como passeio volta com cartão de visita. Quem trata como operação volta com negociação encaminhada”, afirma.

Durante a feira, a abordagem também influencia o resultado. A recomendação é priorizar fornecedores com estrutura produtiva consistente, histórico de exportação e capacidade de personalização. Esse processo permite não apenas reduzir custos, mas também desenvolver produtos exclusivos e ajustar características conforme o público brasileiro. “Não é só preço. É capacidade de entrega, qualidade e consistência. O barato sem validação técnica pode sair caro depois”, alerta.

A participação no evento tem impacto direto na competitividade das empresas. Ao eliminar intermediários, os negócios conseguem melhorar margens, reduzir o preço final ao consumidor ou ampliar a rentabilidade. Isso cria vantagem em mercados cada vez mais pressionados por custo e diferenciação. “Quem compra direto do fabricante consegue trabalhar melhor preço, mas principalmente ganhar controle sobre o produto. Isso muda o posicionamento da empresa no mercado”, diz.

Esse movimento também amplia a possibilidade de criação de marcas próprias, estratégia que vem sendo adotada por empresas de varejo, e-commerce, distribuição e até prestadores de serviço que buscam novas fontes de receita. “A feira permite sair da revenda e entrar na construção de marca. Isso aumenta a margem e cria valor no longo prazo”, afirma.

Na prática, diferentes perfis de negócios conseguem aproveitar a Canton Fair. Desde pequenos e médios empresários que buscam iniciar na importação até empresas estruturadas que querem escalar operações, diversificar portfólio ou desenvolver linhas exclusivas. “Não é um evento só para grandes empresas. O que define o resultado não é o tamanho do negócio, é o nível de preparo”, explica.

Outro diferencial está na leitura de mercado. A feira funciona como um ambiente de inteligência competitiva, onde é possível identificar tendências, comparar produtos e entender padrões internacionais de qualidade e inovação. “O empresário que observa bem consegue antecipar movimentos e tomar decisões mais estratégicas no Brasil”, afirma.

Foto: HYL / Pexels.com

A etapa pós-feira é considerada uma das mais críticas. A validação de fornecedores, análise de amostras, negociação de contratos e estruturação logística determinam o sucesso da operação. “O erro de muitos empresários é achar que o trabalho termina na feira. Na verdade, ele começa ali”, diz.

O avanço da presença brasileira no evento também tem impulsionado a busca por suporte especializado, principalmente para quem participa pela primeira vez. Ir acompanhado de uma assessoria ou guia técnico pode acelerar decisões e evitar erros comuns, como negociar com fornecedores inadequados ou não entender exigências regulatórias. “Com orientação, o empresário ganha tempo, evita riscos e consegue focar no que realmente importa, que é fechar bons negócios”, afirma.

Esse tipo de suporte inclui curadoria de fornecedores, tradução, acompanhamento nas negociações e direcionamento estratégico dentro da feira, o que aumenta significativamente a eficiência da visita. “A feira é muito grande. Sem direcionamento, o empresário se perde. Com estratégia e apoio, ele transforma dias de evento em resultado concreto”, diz.

A edição de outono segue lógica semelhante, com fases distribuídas entre 15 de outubro e 4 de novembro, mantendo a divisão por segmentos e reforçando a importância do planejamento antecipado.

Para empresários que buscam utilizar a Canton Fair como estratégia de crescimento, a preparação, a escolha correta da fase e a capacidade de execução após o evento são fatores que determinam o retorno. “Quem entende como usar a feira constrói vantagem competitiva. Não é só sobre comprar melhor, é sobre estruturar um negócio mais eficiente e com mais margem”, conclui.

2025 foi marcado por safra de soja recorde no Brasil e peso das importações chinesas

O ano de 2025 foi marcado por preocupações climáticas na América do Sul, fator que influenciou os preços ao longo do período. A equipe de Inteligência de Mercado da StoneX apresenta um panorama dos fatos marcantes do mercado de soja em 2025 e as expectativas para 2026.

No Brasil, apesar de uma safra recorde nacional, o Rio Grande do Sul enfrentou perdas expressivas, limitando ainda mais a oferta da oleaginosa no ano passado. Por outro lado, a maioria dos estados brasileiros registrou produtividade favorável ou até mesmo recorde.

Na Argentina, questões climáticas também afetaram o potencial produtivo, mas o país conseguiu colher uma safra robusta, sem grandes ameaças à oferta. Globalmente, com a safra 24/25 consolidada, a produção superou o consumo, resultando em aumento dos estoques e limitando altas significativas nos preços.

A demanda global por soja segue em crescimento anual, porém de forma mais previsível. A produção acompanha esse avanço, e embora o clima possa trazer surpresas, os últimos anos não registraram quebras relevantes que restringissem o balanço do setor.

No cenário internacional, as tensões comerciais entre China e EUA foram destaque, culminando em acordos que restabeleceram o fluxo de exportações após taxações mútuas. A China concentrou suas compras na safra recorde brasileira de 24/25, importando mais de 85 milhões de toneladas. Com o acordo firmado em outubro de 2025, a previsão é de aquisição de 12 milhões de toneladas de soja norte-americana até fevereiro de 2026 e de 25 milhões de toneladas anuais nos próximos três anos, volumes similares aos praticados antes do acirramento comercial.

Perspectivas para o setor em 2026

Para o ciclo 25/26, as projeções permanecem positivas, com o Brasil caminhando para um novo recorde de produção e a Argentina mantendo resultados favoráveis, mesmo com redução de área em relação ao ano anterior. Nos Estados Unidos, a soja perdeu espaço para o milho, com redução de 7% na área plantada, totalizando 32,86 milhões de hectares. Ainda assim, a produção estimada foi robusta, atingindo 116 milhões de toneladas, com produtividade média recorde de 3,56 toneladas por hectare.

O cenário mundial segue com produção acima do consumo, embora a diferença prevista para 2026 deva ser menor. Isso mantém os estoques elevados e limita a possibilidade de altas expressivas nos preços.

Apesar do potencial brasileiro para ampliar produção e exportações, o ritmo de crescimento das importações chinesas já não é tão acelerado quanto nos anos anteriores. Com margens mais apertadas na indústria suína chinesa e ritmo econômico menos intenso, pairam dúvidas sobre o apetite chinês por soja. A China segue como principal mercado, mas nenhum outro país desponta para ocupar seu papel de destaque observado até meados da década passada.

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Exportações chinesas de MAP e DAP caem ao menor nível em anos e pressionam o mercado global

As exportações chinesas dos fertilizantes MAP (fosfato monoamônico) e DAP (fosfato diamônico) recuaram aos patamares mais baixos dos últimos anos, segundo a StoneX, empresa global de serviços financeiros. Entre janeiro e setembro de 2025, a China embarcou 3,7 milhões de toneladas desses fosfatados, volume 23% inferior ao registrado no mesmo período de 2024. A queda ocorre em um momento de maior rigor no controle das vendas externas pelo governo chinês, prática comum antes da alta temporada doméstica, mas que neste ciclo se mostra mais restritiva. 

Segundo o analista de Inteligência de Mercado, Tomás Pernías, os dados confirmam que o país asiático está reduzindo de forma mais agressiva sua oferta ao exterior. “A China já costuma limitar exportações para proteger o abastecimento interno, mas em 2025 a intensidade das restrições supera a de anos anteriores, o que tem aumentado a preocupação dos compradores internacionais”, afirma. 

A relevância do país para o comércio global reforça o alerta. Estimativas indicam que, em 2024, cerca de 16% das exportações mundiais de MAP, fertilizante que também é amplamente utilizado no Brasil, tiveram origem chinesa. Ao lado de Marrocos, Rússia e Arábia Saudita, o país figura entre os principais fornecedores internacionais. A redução de sua participação cria tensões adicionais aos importadores, especialmente aos mais dependentes desses fluxos.

Impacto no Brasil 

No caso brasileiro, o impacto é indireto, já que apenas 4% do MAP importado pelo Brasil em 2024 teve origem da China, sendo a maior parte proveniente da Rússia, Arábia Saudita e do Marrocos. Ainda assim, quando a China restringe as vendas externas, a demanda global se redireciona para outros fornecedores, aumentando a disputa por cargas e elevando a competitividade entre mercados. 

“Quando os volumes chineses desaparecem do mercado, compradores de diferentes regiões passam a buscar os mesmos fornecedores. Essa mudança repentina pressiona preços e reduz a previsibilidade das negociações”, observa Pernías. 

O Brasil também atravessa um período de menor importação de MAP em 2025, reflexo dos preços elevados da matéria-prima e das relações de troca pouco favoráveis nos últimos meses. Nesse cenário, produtores brasileiros aumentaram as compras de SSP (superfosfato simples), fertilizante menos concentrado que, em vários momentos, ofereceu melhor relação de custo-benefício. 

Entre janeiro e setembro de 2025, a China embarcou 3,7 milhões de toneladas de fertilizantes MAP e DAP, volume 23% inferior ao registrado no mesmo período de 2024 (Foto: Pixabay / Pexels.com)