A nova dependência das empresas brasileiras à conectividade crítica

por Heber Lopes*

A conectividade passou a ocupar um papel que, até pouco tempo, era reservado a sistemas internos. Hoje, em muitas empresas brasileiras, a disponibilidade de rede determina diretamente a capacidade de operar. Esse movimento se intensificou com a adoção de cloud, SaaS e aplicações em tempo real, que transferiram para fora do ambiente local processos que antes eram controlados internamente.

Os dados ajudam a dimensionar essa mudança. A pesquisa TIC Empresas realizada pelo Cetic em 2024 indica que 92% das organizações no Brasil já utilizam fibra óptica e que cresce o uso de aplicações digitais em processos centrais. O avanço da infraestrutura foi acompanhado por uma transformação mais profunda: a dependência operacional da conectividade. Ainda assim, a forma como essa infraestrutura é contratada e gerida continua, em muitos casos, baseada em critérios de custo e capacidade nominal.

Essa diferença entre dependência e gestão fica mais evidente em cenários de indisponibilidade. Quando a conectividade falha, o impacto não se limita ao acesso à internet. Sistemas deixam de autenticar, integrações são interrompidas e fluxos operacionais passam a depender de processos manuais ou simplesmente param. Em operações distribuídas, esse efeito se propaga rapidamente, afetando atendimento, vendas e logística de forma simultânea.

O impacto financeiro acompanha essa dinâmica. Levantamentos internacionais mostram que o custo médio de downtime pode ultrapassar US$ 300 mil por hora em empresas de médio e grande porte, com valores significativamente maiores em ambientes industriais, onde processos são contínuos e altamente integrados. Mesmo considerando diferenças entre setores, a indisponibilidade deixou de ser um problema técnico isolado e passou a representar risco direto para o negócio.

O papel da infraestrutura e da regulação

No Brasil, esse cenário é influenciado também por fatores estruturais. A Agência Nacional de Telecomunicações estabelece critérios objetivos para caracterizar interrupções de serviço, considerando eventos superiores a 10 minutos com impacto sobre usuários. A existência desse tipo de parâmetro reforça que indisponibilidade não é exceção, mas uma condição prevista e mensurável.

Há ainda fatores externos que ampliam a exposição. Dados da Conexis Brasil Digital mostram que mais de 5,4 milhões de metros de cabos foram roubados ou furtados em 2023, afetando milhões de usuários. Esse tipo de ocorrência evidencia um ponto recorrente em ambientes corporativos: a ausência de diversidade real de rotas.

A contratação de múltiplos links não garante resiliência quando a infraestrutura compartilhada permanece a mesma em parte do trajeto. Em situações desse tipo, a interrupção de um trecho físico pode comprometer simultaneamente todas as conexões disponíveis.

Eventos de maior escala reforçam essa leitura. Durante as enchentes no Sul em 2024, municípios tiveram a conectividade severamente afetada, exigindo medidas emergenciais para restabelecimento do serviço. Esse tipo de cenário expõe a dependência de infraestrutura física e a necessidade de planejamento para contingências que vão além de falhas pontuais.

Outro vetor relevante está na dependência de plataformas digitais. A interrupção global dos serviços da Meta em 2021 mostrou como falhas em infraestrutura de backbone podem afetar simultaneamente comunicação, autenticação e operação em escala global. No contexto brasileiro, onde aplicações de mensageria são frequentemente utilizadas como canal de vendas e atendimento, esse tipo de indisponibilidade tem efeito imediato.

Esses diferentes cenários apontam para um mesmo desafio: a conectividade passou a ser um componente estrutural da operação, mas ainda não é tratada dessa forma em muitas organizações.

Foto: Tara Winstead / Pexels.com

O desafio é crescer com resiliência

A resposta, no entanto, não está em simplesmente contratar mais banda. Está em construir arquitetura de conectividade. Isso significa links redundantes em caminhos físicos distintos, para que o rompimento de um cabo ou a falha de um provedor não paralise a operação. Significa adotar SD-WAN para orquestrar o tráfego entre múltiplos links e executar failover inteligente, uma tecnologia cujo mercado na América Latina, segundo a Meticulous Research, deve saltar de US$ 157 milhões em 2024 para US$ 2,77 bilhões até 2035.

Também significa implementar observabilidade de rede, que vai além do monitoramento reativo para identificar causas-raiz e antecipar falhas antes que afetem o negócio. E também demanda, em muitos casos, contar com gestão contínua por equipes especializadas, porque a complexidade de ambientes multicloud com múltiplos links e políticas de segurança convergentes ultrapassa a capacidade da maioria dos times internos.

Para operações distribuídas em áreas remotas, em segmentos tais como agronegócio, mineração, logística e energia, a conectividade satelital de baixa órbita adicionou uma camada de resiliência antes inexistente. O Brasil já soma mais de 1 milhão de clientes Starlink ativos, e operadoras como Algar Telecom e Arqia lançaram soluções corporativas voltadas a setores que operam fora dos grandes centros.

Um estudo realizado pela pela Oxford Economics em 2024 identificou que as empresas no topo em capacidade de recuperação – o que os pesquisadores chamaram de “líderes em resiliência”, se recuperam 28% mais rápido de incidentes do que as demais. A diferença não é de orçamento; é de abordagem. Essas empresas entenderam que conectividade é um ativo estratégico que precisa ser gerenciado, monitorado e protegido com o mesmo rigor aplicado à segurança cibernética ou à continuidade financeira.

Toda empresa que migrou para a nuvem, digitalizou processos e conectou operações em tempo real fez, quer tenha percebido ou não, uma aposta na disponibilidade da sua rede. A pergunta que a liderança executiva precisa se fazer hoje não é quanto custa melhorar a arquitetura de conectividade. É quanto custa continuar sem fazê-lo.

*Head de Produtos e Marketing na Faiston.

Negócios em zonas de conflito expõem o custo da instabilidade global

por Israel Sayão*

Empresas internacionais operam hoje em um ambiente mais instável e imprevisível. Conflitos armados e tensões políticas aumentam o risco e pressionam decisões estratégicas. O cenário global atual apresenta níveis mais altos de incerteza. Governos tomam decisões rápidas e mudam regras com pouca previsibilidade. Esse movimento afeta contratos, investimentos e operações em diferentes mercados.

O risco político ocupa posição central nas decisões corporativas. Mudanças de governo e instabilidade institucional comprometem acordos e reduzem a segurança jurídica. Empresas precisam considerar esse fator desde o início de qualquer operação.

As sanções econômicas impactam diretamente a atividade empresarial. Países e blocos impõem restrições que limitam comércio, acesso a insumos e circulação de capital. Essas medidas podem interromper operações de forma imediata.

A logística sofre efeitos diretos em zonas de conflito. Rotas comerciais deixam de ser seguras e elevam custos de transporte. Empresas enfrentam atrasos e precisam redesenhar cadeias de suprimento com rapidez.

As empresas priorizam a segurança das equipes em cenários de instabilidade. Organizações reduzem operações, retiram profissionais e suspendem atividades quando necessário. A proteção das pessoas orienta essas decisões.

O ambiente financeiro apresenta alta volatilidade. Moedas locais perdem valor em curtos períodos. Empresas adotam proteção cambial (estratégia para reduzir perdas com variação de moeda) para preservar resultados.

Foto: Jakub Zerdzicki / Pexels.com

Os contratos passam por ajustes para lidar com riscos maiores. Empresas incluem cláusulas de força maior (situações fora do controle, como guerras) para reduzir impactos jurídicos. Essas cláusulas não evitam perdas, mas oferecem proteção.

As empresas adotam análise de cenário de forma contínua. Equipes monitoram decisões políticas e movimentos internacionais. Esse acompanhamento permite respostas mais rápidas e evita decisões tardias.

A entrada em novos mercados exige avaliação mais criteriosa. Empresas analisam a estabilidade institucional, que indica previsibilidade de regras e segurança jurídica. A ausência desse fator aumenta o risco da operação.

Os negócios em zonas de conflito exigem estratégia e preparo. Empresas que integram o risco à tomada de decisão conseguem manter operações. Empresas que ignoram o contexto ficam mais expostas a perdas difíceis de reverter.

*Especialista em negociações internacionais e estratégias de expansão de operações globais.

BNDES já aprovou R$ 160,8 bi para o agro desde 2023

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou, desde janeiro de 2023, R$ 160,8 bilhões em crédito para o setor agropecuário nacional. O montante é 65,3% superior ao aprovado no período entre 2019 e 2022 (R$ 97,3 bilhões). Os recursos chegaram a 93% dos municípios brasileiros.

O volume inclui recursos aprovados nos Programas Agropecuários do Governo Federal (PAGF), no BNDES Crédito Rural, além de apoio para projetos de investimento, com aquisição de máquinas, equipamentos e serviços tecnológicos.

Do total aprovado, R$ 19 bilhões reforçaram a capacidade produtiva da agroindústria, como aumento da produção de biocombustíveis, da capacidade de armazenagem de produtos agrícolas e de recursos para centros de pesquisa e inovação no setor. Entre 2019 e 2022, as aprovações de crédito com essa finalidade somaram R$ 11,7 bilhões.

“O BNDES tem sido um dos principais parceiros do setor agropecuário brasileiro. Ampliamos o volume de recursos para esse setor em todas as áreas. Um dos destaques é a produção de biocombustíveis. Foram aprovados R$ 13,5 bilhões para 48 projetos de etanol, valor 217% superior ao que foi aprovado entre 2019 e 2022, que somou R$ 4,3 bilhões. Além disso, o Banco teve o maior orçamento já disponibilizado no Plano Safra 2025/2026, com R$ 70 bilhões”, afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

Os números foram divulgados durante a Agrishow, maior feira de tecnologia agrícola da América Latina e uma das maiores do mundo, que está acontecendo até o dia primeiro de maio, em Ribeirão Preto, no interior paulista, com patrocínio do BNDES.

“No setor tão importante para a economia brasileira como setor agropecuário, o BNDES faz presente apoiando especialmente o investimento. Então ano passado foram mais de R$ 50 bilhões investidos no setor, mais de 200 mil operações realizadas por meio de uma extensa rede de parceiros, instituições financeiras, que municípios do país”, explicou o superintendente da Área de Operações e Canais Digitais do Banco, Marcelo Porteiro.

Foto: Getty Images

Milho sobe em março com apoio do petróleo, mas perde força em abril

Os preços do milho avançaram em março no mercado internacional e doméstico, sustentados pela valorização do petróleo e por incertezas relacionadas ao cenário geopolítico e aos custos de produção. O movimento, no entanto, perdeu força no início de abril, diante da queda do petróleo e de fatores sazonais no Brasil.

Na Bolsa de Chicago (CBOT), o cereal registrou alta média de 5,3% em março, para USD 4,53 por bushel. O suporte veio principalmente do petróleo mais elevado, que melhora as margens das usinas de etanol nos Estados Unidos e, consequentemente, aumenta a demanda pelo milho. Ao mesmo tempo, o conflito no Oriente Médio e os custos de insumos mantiveram o mercado atento aos riscos para a safra 2026/27.

Em abril, porém, o cenário externo mudou. A queda do petróleo, associada a sinais de alívio nas tensões entre Estados Unidos e Irã, reduziu o prêmio do milho via etanol e pressionou as cotações. Na média da primeira quinzena, os preços recuaram 0,5%, para USD 4,50 por bushel.

Foto: John Wu / Pexels.com

No Brasil, o milho também registrou alta em março, acompanhando o movimento externo e refletindo fatores internos. O atraso no plantio em algumas regiões da segunda safra, a oferta mais limitada por parte dos produtores — ainda focados na colheita da safra de verão — e as preocupações com o aumento dos custos logísticos, diante da alta do diesel e dos fretes, contribuíram para a valorização. Em Campinas, os preços subiram 4,4% no mês, para R$ 71 por saca.

No início de abril, no entanto, o mercado doméstico passou a ser pressionado. O avanço da colheita da primeira safra, a melhora das condições climáticas para a segunda safra e a valorização do real reduziram a paridade de exportação, enfraquecendo os negócios nos portos. Com compradores mais abastecidos e atuando de forma cautelosa, os preços em Campinas recuaram para abaixo de R$ 70 por saca na primeira quinzena do mês.

De acordo com o Itaú BBA, apesar da pressão recente, a segunda safra se desenvolve de forma positiva. As chuvas recentes aliviaram o estresse hídrico em regiões como o oeste do Paraná. Atualmente, a maior parte das lavouras está em fase vegetativa, enquanto cerca de um terço da área, concentrada em Mato Grosso, entrou em floração, etapa mais sensível à disponibilidade de água.

Fim da alíquota zero de PIS/Cofins encarece insumos e pressiona custo de produção no agro

A entrada em vigor da Lei Complementar  nº 224/2025, em 1º de abril de 2026, introduziu uma mudança relevante na estrutura de custos do agronegócio ao encerrar a alíquota zero de PIS e Cofins sobre insumos agrícolas. A medida, que integra um corte linear de 10% nos incentivos fiscais federais, reintroduz a cobrança dessas contribuições sobre produtos essenciais à produção, como fertilizantes e defensivos, com impacto direto sobre o custo das lavouras.

Essa reoneração atinge tributos que, até então, tinham incidência zerada sobre parte dos insumos do setor. O PIS (Programa de Integração Social) e a Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), cobrados sobre a receita das empresas, vinham sendo utilizados como instrumentos de desoneração no agronegócio. Com a mudança, esses produtos voltam a ser tributados, ainda que em patamar reduzido, cerca de 0,925% no regime não cumulativo.

Embora a alíquota seja inferior a 1%, o impacto tende a ser relevante devido ao peso dos insumos na composição dos custos agrícolas. Em culturas como soja e milho, insumos como fertilizantes e defensivos concentram parcela relevante do custo operacional, o que amplia o impacto de mudanças tributárias mesmo quando as alíquotas são reduzidas.

É nesse ponto que, segundo Gustavo Venâncio, advogado e sócio da Lastro Soluções Tributárias para o Agro, a mudança ganha dimensão prática. “O produtor nunca trabalhou com esse tributo. PIS e Cofins não faziam parte da rotina. A partir de agora, isso muda”, afirma. Para ele, o impacto não está apenas na alíquota, mas na base sobre a qual incide. “É praticamente 1%, mas sobre um insumo largamente utilizado. Isso gera um aumento de custo significativo”, diz.

O aumento ocorre em um momento de maior fragilidade financeira do setor. Após ciclos de preços mais elevados, produtores enfrentam compressão de margens, custos ainda pressionados e aumento do endividamento, o que reduz a capacidade de absorver novas despesas. Nesse contexto, a reintrodução da tributação tende a ter efeito direto sobre a rentabilidade e pode influenciar decisões de compra e negociação ao longo da safra.

Além do impacto econômico, a mudança traz desafios na aplicação prática da regra. Ainda não há clareza consolidada sobre como operacionalizar a cobrança, especialmente em relação aos códigos fiscais (CST) a serem utilizados na emissão de notas fiscais. A falta de padronização dificulta a orientação tanto para empresas fornecedoras quanto para produtores.

“Estamos prestes a ter a vigência da alteração e ainda não sabemos como orientar corretamente a emissão das notas fiscais. As coisas acabam acontecendo de forma atropelada”, afirma Venâncio.

Diante dessas incertezas operacionais, o mercado começou a reagir antes mesmo da entrada em vigor da medida. Empresas anteciparam entregas e incentivaram a retirada de insumos antes de abril como forma de evitar a incidência dos tributos. Com a nova regra já em vigor, o custo adicional passou a ser incorporado às negociações.

“O produtor vai pagar mais caro no adubo e no defensivo. Vai ter o destaque de cerca de 1% na nota, e isso se agrega ao preço”, explica o tributarista.

Esse movimento ocorre em paralelo a outro fator que amplia a incerteza: o caráter temporário da medida. “A cobrança vale até dezembro de 2026, antes da entrada em vigor das novas regras da reforma tributária sobre o consumo, previstas para 2027. O curto intervalo reduz a previsibilidade e exige do produtor adaptação em um ambiente de mudanças sucessivas”, acrescenta Viviane Morales, advogada, sócia proprietária e diretora Administrativa e Financeira da Lastro.

Diante desse cenário, a recomendação é de maior atenção às operações. A conferência das notas fiscais, a verificação das alíquotas aplicadas e o entendimento da composição dos preços passam a ser ainda mais relevantes na gestão da atividade.

Mais do que um ajuste pontual, o fim da alíquota zero de PIS/Cofins sinaliza uma mudança gradual na política de incentivos ao agronegócio. Ao reintroduzir a tributação sobre insumos estratégicos, a medida tende a repercutir ao longo de toda a cadeia produtiva e já começa a influenciar preços, negociações e decisões no campo em 2026.

Foto: Mateus André / Freepik

Integração internacional no agro abre novas fronteiras de negócios

A agricultura mundial tem sido profundamente moldada pela força produtiva de dois gigantes: os Estados Unidos e o Brasil. De um lado, o modelo norte-americano se destaca pela alta tecnologia, eficiência operacional e liderança global na produção de grãos. Do outro, o Brasil consolida-se como um verdadeiro celeiro do mundo na produção de alimentos, impulsionado por sua diversidade, crescente inovação no campo e capacidade de produzir até três safras por ano.

Embora concorram em diversas commodities, esses dois países compartilham desafios e oportunidades que vão além da disputa por mercado. A integração entre as culturas agrícolas americana e brasileira abre espaço para a troca de conhecimento, adoção de boas práticas e geração de valor especialmente para empresas e agroindústrias brasileiras que buscam ampliar sua competitividade em escala global.

De acordo com Márcio Barboza, técnico em agricultura, gerente de exportação e vendas internacionais e especialista em expansão de mercado, planejamento estratégico e liderança de equipes, essa integração é sempre importante. “Não importa se é no preparo de solo ou em qualquer outra atividade: para atuar nos Estados Unidos, é fundamental entender suas peculiaridades se integrar a cultura local”, diz.

Segundo ele, os Estados Unidos são formados por uma diversidade cultural significativa, o que também se reflete no ambiente de negócios. “Cada estado tem suas características próprias. Em algumas regiões, principalmente no Sul, as relações são mais reservadas no início, mas, à medida que a confiança é construída, a proximidade cresce de forma consistente”, explica o especialista.

Importância da pesquisa de mercado

Para empresas que desejam acessar o mercado norte-americano, a pesquisa de mercado é um passo essencial. Compreender as características regionais, os perfis produtivos e as demandas específicas podem reduzir significativamente as barreiras de entrada. “Conhecer bem o produto e avaliar se ele se encaixa no mercado almejado é fundamental”, explica Barboza.

Não é recomendável, segundo o consultor, tentar inserir soluções voltadas para soja ou milho em regiões onde essas culturas não são expressivas, como na Califórnia, por exemplo. Nessa região já há mais oportunidades para segmentos específicos. “Quem atua com soluções para fruticultura, amêndoas e cultivos similares, a região pode ser estratégica”, destaca.

Outra recomendação é utilizar informações disponíveis online para mapear o mercado antes de ir a campo. “É possível acessar sites de revendas americanas, conhecer seus estoques, entender o tipo de maquinário utilizado e a potência de tratores mais comum em cada área, isso faz toda a diferença na abordagem comercial e torna as visitas presenciais muito mais assertivas”, orienta o profissional.

Além disso, ter uma base ou parceiro local nos Estados Unidos é um diferencial competitivo importante. “Os americanos valorizam muito a garantia de reposição de peças e suporte. Ter estoque local ou uma estrutura de apoio pode facilitar muito a entrada no mercado”, acrescenta.

Desafios

Entre os principais desafios para as empresas brasileiras está a comunicação. Dominar o idioma inglês é essencial para estabelecer relações comerciais sólidas, afinal a fluência facilitará a abertura de portas e fortalece a confiança nas negociações.

Outro ponto importante a se atentar é sobre às exigências logísticas e regulatórias. A boa notícia é que nesse ponto já há empresas especializadas locais que oferecem suporte completo, desde o transporte até o desembaraço aduaneiro. “Grande parte da operação pode ser terceirizada, o que facilita o processo de internacionalização”, explica Barboza.

Melhores oportunidades

Segundo o gerente de exportação, o segmento de componentes para o mercado de reposição (aftermarket) representa uma porta de entrada estratégica para empresas brasileiras. “É um caminho mais acessível do que tentar ingressar diretamente com máquinas ou equipamentos completos”, avalia.

Em relação às regiões, os estados do Sul dos Estados Unidos, como: Geórgia, Alabama, Mississippi, Flórida, Carolinas, Oklahoma e Arkansas, tendem a oferecer maior abertura inicial para novos negócios. Os estados da costa Oeste e parte do Noroeste, como Idaho, Washington, Oregon e Califórnia, também demonstram boa receptividade. “Tive experiências positivas tanto com revendas vinculadas a grandes marcas quanto com independentes, que estão mais abertas a novas parcerias. Também destacaria o Texas como um mercado promissor”, relata Barboza.

Já o Corn Belt, principal região produtora de grãos do país, é preciso um pouco mais de atenção, pois apresenta maior grau de competitividade e barreiras de entrada mais elevadas. “É um mercado mais consolidado e disputado e continua sendo o ambiente mais desafiador e competitivo para quem deseja entrar no mercado americano. É uma região mais indicada para quem já está com a operação consolidada”, conclui o consultor.

Conflito derruba exportações para Golfo, mas trimestre segue positivo

O conflito no Oriente Médio já impacta as exportações brasileiras para os países árabes do Golfo, importantes mercados para produtos do agronegócio e minerais. As vendas para Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Bahrein e Omã — que formam o bloco econômico conhecido como Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) — caíram 31,47% em março na comparação anual, para US$ 537,11 milhões, segundo dados da Inteligência de Mercado da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.

Apesar do recuo no mês, o desempenho no trimestre ainda é positivo. De janeiro a março, as exportações para o CCG cresceram 8,14%, somando US$ 2,41 bilhões. Considerando todos os 22 países acompanhados pela entidade, incluindo as nações árabes do Levante e as africanas, a alta foi de 3,90%, para US$ 5,13 bilhões.

Segundo a Câmara Árabe, o fechamento do Estreito de Ormuz, que restringiu o acesso a portos estratégicos do Golfo, interrompeu uma trajetória de alta nas vendas brasileiras. O impacto ainda não compromete o resultado agregado, mas pode se intensificar ao longo do ano, dependendo da evolução do conflito.

“As vendas para o CCG, que concentra os maiores mercados árabes e responde por 47% das exportações para o bloco de países, vinham em alta em janeiro e fevereiro na comparação com 2025, segundo melhor ano da série histórica”, afirma o secretário-geral da Câmara Árabe-Brasileira, Mohamad Mourad. “O recuo de março decorre do conflito e, por ora, não afeta o acumulado, mas ainda pode trazer impactos”.

No agronegócio, que responde por cerca de 75% das vendas, as exportações para o CCG recuaram 25,38% em março, mas acumulam alta de 6,8% no trimestre, de US$ 1,44 bilhão, graças a ganhos em produtos importantes, contrabalançados por perdas em outros itens. Principal item da pauta agropecuária, o frango recuou 13,80% no mês, para US$ 185,50 milhões, mas só 2,32% no acumulado, para US$ 619,12 milhões.

O açúcar, segundo principal produto, recuou 43,37% em março, para US$ 54,07 milhões, mas avançou 26,41% no ano, para US$ 363,11 milhões. A carne bovina destoou, com alta de 23,87% no mês mais intenso do conflito, para US$ 47,75 milhões, além de avanço de 65,29% no trimestre, para US$ 194,56 milhões.

O milho praticamente deixou de ser embarcado ao CCG em março, com queda de 99,96%, para US$ 0,03 milhão, embora o recuo no acumulado ainda seja limitado a 5,8%, no total de US$ 61,22 milhões. Já o café registrou alta de 34,24% no mês de março, para US$ 9,97 milhões, e de 64,3% no trimestre, para US$ 49,58 milhões.

Outro ponto de atenção é o recuo nas importações brasileiras de fertilizantes provenientes do CCG, que caíram 51,35% no primeiro trimestre. A região responde por cerca de 10% do fertilizante adquirido pelo agronegócio brasileiro no exterior.

“Esse é um ponto que preocupa tanto o nosso agro quanto os países árabes, que dependem da capacidade do Brasil de disponibilizar alimentos excedentes”, pontua Mourad. “É preciso buscar formas de minimizar esses impactos”, finaliza.

Preparo do solo, fertilização eficiente e bioinsumos impulsionam produtividade na safra e safrinha do milho em 2026

No Dia do Milho, celebrado em 24 de abril, o setor agropecuário destaca a relevância de uma das culturas mais estratégicas da economia brasileira. Presente na alimentação humana e animal, na produção de etanol, na indústria e nas exportações, o milho chega à safra 2026 com foco crescente em eficiência produtiva, sustentabilidade e controle de custos.

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que o Brasil deverá colher cerca de 138,45 milhões de toneladas de milho na safra 2025/26, mantendo o país entre os maiores produtores mundiais do cereal. A segunda safra, conhecida como safrinha, segue como principal motor da produção nacional, especialmente nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Matopiba.

Diante de margens mais apertadas e maior exigência do mercado, especialistas reforçam que o bom desempenho da cultura começa antes mesmo do plantio, com atenção especial ao preparo do solo.

Leonardo Sodré, CEO do grupo GIROAgro explica a importância da preparação do solo para a safra. “No que se refere a preparação do solo,  uma menor lixiviação reduz as perdas de nitrogênio, que é crítico para o milho. Já a tecnologia Stay Green mantém as folhas ativas por mais tempo, aumentando a fotossíntese.” Leonardo destaca que a linha Exclusive oferece aplicação antecipada via solo, com maior compatibilidade, que são ideais para uma janela de aplicação apertada na safrinha.

Entre as principais práticas recomendadas para a safra e safrinha estão a análise química e física do solo, correção da acidez com calcário, uso de gesso agrícola, manutenção de palhada e rotação de culturas.

Além de melhorar a estrutura do solo, essas medidas favorecem a retenção de água, aprofundamento radicular e maior aproveitamento dos nutrientes, fatores decisivos em anos de clima irregular.

Fertilização mais estratégica no campo e uso de bioinsumos 

Com oscilações recentes no mercado global de fertilizantes, produtores passaram a priorizar aplicações mais assertivas. Cresce o uso de adubação baseada em mapas de fertilidade, parcelamento do nitrogênio e fórmulas específicas por talhão.

A tendência mostra um campo mais técnico, em que a produtividade está ligada ao uso racional de insumos e não apenas ao aumento de volume aplicado.

Outra mudança importante na safra 2026 é o avanço dos bioinsumos no manejo do milho. Inoculantes, solubilizadores de fósforo, promotores de crescimento e biodefensivos têm ganhado espaço por aliar eficiência agronômica e sustentabilidade. Essas soluções contribuem para maior vigor inicial, melhor absorção de nutrientes, tolerância a estresses climáticos e redução parcial da dependência de produtos químicos convencionais.

Para Fellipe Parreira, responsável pelo  Portfólio e Acesso no Grupo GIROAgro “as adversidades climáticas que podem afetar a produção, destacam-se temperaturas extremas, excesso ou escassez de água no solo, alta salinidade e baixos valores de pH. Isso pode reduzir a atividade das bactérias simbióticas e comprometer a eficiência da fixação biológica do nitrogênio”, explica. O profissional complementa: “déficits de precipitação também podem interferir diretamente no processo de formação dos nódulos, prejudicando a produtividade da cultura. Desta forma, as condições climáticas desempenham um papel importante na variabilidade dos resultados observados em diferentes anos de cultivo”. 

Para pequenos e médios produtores, o custo-benefício e a possibilidade de integração com manejos tradicionais explicam o aumento da adoção. No campo, a safra 2026 revela um produtor cada vez mais atento à gestão. Compra antecipada de insumos, uso compartilhado de máquinas, apoio de cooperativas, aplicativos de monitoramento climático e busca por assistência técnica já fazem parte da rotina de propriedades de menor porte.

Na safrinha, o principal desafio continua sendo a janela de plantio após a soja, já que atrasos podem elevar riscos climáticos e impactar produtividade. Em 2026, o dia do milho evidencia uma nova realidade no campo: competitividade será cada vez mais resultado de solo bem manejado, nutrição eficiente e inovação sustentável.

Milho sobe em março com apoio do petróleo, mas perde força em abril

Os preços do milho avançaram em março no mercado internacional e doméstico, sustentados pela valorização do petróleo e por incertezas relacionadas ao cenário geopolítico e aos custos de produção. O movimento, no entanto, perdeu força no início de abril, diante da queda do petróleo e de fatores sazonais no Brasil.

Na Bolsa de Chicago (CBOT), o cereal registrou alta média de 5,3% em março, para USD 4,53 por bushel. O suporte veio principalmente do petróleo mais elevado, que melhora as margens das usinas de etanol nos Estados Unidos e, consequentemente, aumenta a demanda pelo milho. Ao mesmo tempo, o conflito no Oriente Médio e os custos de insumos mantiveram o mercado atento aos riscos para a safra 2026/27.

Em abril, porém, o cenário externo mudou. A queda do petróleo, associada a sinais de alívio nas tensões entre Estados Unidos e Irã, reduziu o prêmio do milho via etanol e pressionou as cotações. Na média da primeira quinzena, os preços recuaram 0,5%, para USD 4,50 por bushel.

No Brasil, o milho também registrou alta em março, acompanhando o movimento externo e refletindo fatores internos. O atraso no plantio em algumas regiões da segunda safra, a oferta mais limitada por parte dos produtores — ainda focados na colheita da safra de verão — e as preocupações com o aumento dos custos logísticos, diante da alta do diesel e dos fretes, contribuíram para a valorização. Em Campinas, os preços subiram 4,4% no mês, para R$ 71 por saca.

No início de abril, no entanto, o mercado doméstico passou a ser pressionado. O avanço da colheita da primeira safra, a melhora das condições climáticas para a segunda safra e a valorização do real reduziram a paridade de exportação, enfraquecendo os negócios nos portos. Com compradores mais abastecidos e atuando de forma cautelosa, os preços em Campinas recuaram para abaixo de R$ 70 por saca na primeira quinzena do mês.

De acordo com o Itaú BBA, apesar da pressão recente, a segunda safra se desenvolve de forma positiva. As chuvas recentes aliviaram o estresse hídrico em regiões como o oeste do Paraná. Atualmente, a maior parte das lavouras está em fase vegetativa, enquanto cerca de um terço da área, concentrada em Mato Grosso, entrou em floração, etapa mais sensível à disponibilidade de água.

Foto: Jahra Tasfia Reza / Pexels.com

BNDES capta R$ 943,5 milhões com JBIC para financiar projetos verdes

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Japan Bank for International Cooperation (JBIC) contrataram financiamento no valor de até R$ 943,5 milhões (US$ 185 milhões) no âmbito da Linha GREEN para apoiar projetos ambientalmente sustentáveis no Brasil, incluindo biocombustíveis e transmissão de energia elétrica, que desempenham papéis chave na descarbonização e na efetiva integração das energias renováveis. O contrato é o sétimo a ser assinado no âmbito da Linha GREEN, retrato da cooperação de longa data entre as instituições.

A Linha GREEN (Global Action for Reconciling Economic Growth and Environmental Preservation) tem como objetivo apoiar projetos que favoreçam a preservação global do meio ambiente, promovendo a redução da emissão de gases do efeito estufa, a eficiência energética e o uso de energias renováveis.

Além da cooperação financeira, as instituições celebraram diversos Memorandos de Entendimento (MoU), com o objetivo de implementar atividades de cooperação financeira, visando o apoio a projetos de infraestrutura de interesse mútuo. O mais recente MoU vigente, assinado em 25 de março de 2025, objetiva apoiar projetos nos setores de recursos minerais e energéticos sustentáveis além de formas de colaboração para proteção ambiental e enfrentamento das mudanças climáticas. Durante a COP-30, em Belém, as duas instituições assinaram aditivo ao MoU original, que inseriu ao instrumento de cooperação a previsão da linha GREEN VII.

“Com a adição desta linha de crédito à extensa lista de operações financeiras realizadas entre BNDES e JBIC, damos mais um passo para o fortalecimento da parceria entre as instituições, no sentindo de apoiar projetos renováveis e sustentáveis e com o compromisso de avançar no desenvolvimento sustentável do Brasil. Desde a década de 60, foram assinados 19 contratos de empréstimo no valor de, aproximadamente, R$ 18 bilhões (US$ 3,4 bilhões)”, explicou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante. 

“Em meio ao crescente cenário de incerteza global, a resiliência das economias, dos sistemas energéticos e das comunidades tornou-se cada vez mais importante e representa um interesse comum compartilhado entre o Japão e o Brasil. Nesse contexto, é com grande satisfação que anunciamos a assinatura da sétima operação (GREEN VII), na sequência da sexta operação (GREEN VI), concluída em março do ano passado. Esse marco constitui um forte símbolo da sólida parceria entre nossas duas instituições. O JBIC aspira contribuir para a criação de bens e serviços de maior valor — não apenas para a cooperação bilateral entre os dois países, mas também para a comunidade global — como parte de seus esforços para ajudar a enfrentar os desafios decorrentes das incertezas na geopolítica e na geoeconomia”, registrou o diretor executivo sênior – chefe global do Grupo de Finanças para Infraestrutura e Meio Ambiente do JBIC, Hiroki Sekine.

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