R$ 6 bilhões: setor de crédito se prepara para proteger o caixa das agroindústrias

O El Niño pode levar um choque climático da lavoura ao caixa das agroindústrias na safra 2026/27. Dados de órgãos federais apontam que o fenômeno deve ganhar força ao longo do 2º semestre de 2026, justamente durante uma etapa decisiva para o plantio e o desenvolvimento das lavouras. O tamanho potencial do choque ajuda a dimensionar por que o risco deixa de ser apenas agrícola. Um episódio de intensidade muito forte pode reduzir em até 10% a produção brasileira de grãos. Considerando cerca de 320 milhões de toneladas de soja e milho estimadas para a safra 2025/26, o cenário equivaleria a 32 milhões de toneladas potencialmente afetadas. Trata-se de uma estimativa de risco, e não de uma previsão de perda efetiva. O problema é que o El Niño não atinge o campo da mesma maneira em todo o Brasil: historicamente, o fenômeno está associado à redução das chuvas em áreas do Norte e Nordeste e ao aumento das precipitações no Sul.

O primeiro impacto ocorre dentro da porteira, mas pode se espalhar pela cadeia agroindustrial. Menor produtividade, atraso de colheita ou problemas de qualidade alteram o volume e o momento em que a matéria-prima chega às empresas que dependem da safra para manter suas operações. No centro-norte do país, deficiência hídrica e temperaturas elevadas podem comprometer o desenvolvimento das culturas. No Sul, chuvas mais frequentes e volumosas elevam o risco de encharcamento do solo, doenças, dificuldades para entrada de máquinas e atrasos na colheita e no escoamento. Para as agroindústrias, esses efeitos podem se traduzir em necessidade de reorganizar compras, estoques, contratos e entregas, além de pressionar o capital de giro. “O choque começa na produção, mas não termina no campo. Se uma agroindústria recebe menos matéria-prima, recebe mais tarde ou precisa buscar produto em outra região, isso muda o fluxo financeiro da operação. O desafio é ter caixa para atravessar essa mudança sem comprometer fornecedores, estoque e compromissos já assumidos”, afirma Priscila de Freitas, diretora de crédito da Multiplike.

O risco climático encontra ainda uma cadeia que chega à safra pressionada financeiramente. O aumento do endividamento, das renegociações e das recuperações judiciais entre produtores tem levado instituições financeiras a adotar critérios mais rigorosos na concessão de crédito. Esse ambiente pode ampliar os efeitos de uma eventual quebra de produção: menos grãos disponíveis ou atrasos na entrega alteram os fluxos de recebimento e pagamento ao longo da cadeia, enquanto empresas compradoras, armazenadoras, processadoras e distribuidoras precisam manter suas próprias obrigações mesmo diante de uma oferta mais irregular. O resultado é um descasamento potencial entre entrada de matéria-prima, geração de receita e necessidade de caixa.

É nesse ponto que o crédito estruturado ganha relevância. “Esperar o impacto aparecer no estoque ou no recebível para buscar capital reduz a margem de reação da empresa. Com um El Niño forte atravessando a formação da safra, a agroindústria precisa projetar não apenas quanto pretende comprar ou processar, mas o que acontece com seu caixa caso a matéria-prima chegue em menor volume, mais tarde ou a um custo diferente do esperado”, afirma Priscila. Nesse tipo de operação, a estrutura de garantias pode combinar imóveis, recebíveis, contratos de venda, estoques e outros ativos, reduzindo a concentração do risco em uma única fonte de pagamento. A Multiplike dispõe de R$ 6 bilhões para operações de crédito estruturado destinadas às agroindústrias em 2026. Em uma safra marcada pela possibilidade de choques climáticos distintos entre as regiões, a disponibilidade de capital passa a ser um dos instrumentos para administrar os efeitos financeiros que começam no campo e avançam sobre toda a cadeia.

Foto: Juan Moccagatta / Pexels.com

Safra 2026/27 começa antes do plantio e coloca margem no centro das decisões do produtor

A safra brasileira de grãos 2026/27 começa a ser definida antes mesmo da entrada das plantadeiras no campo. Para o produtor de soja, uma parcela relevante da margem já está contratada, enquanto a comercialização ainda está abaixo da média histórica e o clima começa a ganhar importância nas decisões para os próximos meses. Nesse cenário, o desafio passa a ser equilibrar proteção de receita, custos já assumidos e flexibilidade para aproveitar novas oportunidades de mercado.

As primeiras projeções apontam para uma área de soja entre 49,0 milhões e 49,5 milhões de hectares, crescimento de apenas 0,3% a 1,2% em relação ao ciclo anterior. Com uma expansão limitada da área, a produtividade passa a ter peso ainda maior para determinar o tamanho da próxima safra. Para que a produção brasileira continue avançando, será necessário obter ganhos de rendimento por hectare.

De acordo com Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, a configuração da nova temporada exige que o produtor olhe para a margem antes mesmo do início efetivo do plantio. “Uma parte importante da estrutura de custos já está definida, então as decisões comerciais passam a ter um peso maior sobre a margem. O produtor precisa avaliar quanto da receita pode ser protegida agora sem perder a flexibilidade necessária para o restante do ciclo”.

Fertilizantes já representam uma parcela definida do custo

A compra de insumos é um dos pontos que ajudam a explicar por que a margem da safra começa a ser construída antecipadamente. Até o fim de julho, cerca de 82% das necessidades de fertilizantes para a soja 2026/27 já estavam contratadas no país.

Na relação de troca, o MAP exigia 45,3 sacas de soja por tonelada em Sorriso, patamar 27,7% acima da média de quatro anos. Já o KCl estava praticamente em linha com a referência histórica. Com isso, parte relevante do custo por hectare já está definida antes do plantio, fazendo com que o preço de venda e a produtividade efetivamente alcançada ganhem importância na formação da margem.

“O momento de compra dos insumos e o momento de venda da produção precisam ser analisados em conjunto. Quando uma parcela do custo já está contratada, movimentos favoráveis de preço podem ser utilizados para proteger parte da margem e reduzir a exposição da operação”, explica Isabella.

Soja encontra janela para avançar na comercialização

A comercialização da soja 2026/27 está próxima de 15% da produção nacional, ligeiramente acima dos 14,5% registrados no mesmo período do ciclo anterior, mas ainda abaixo da média histórica de aproximadamente 21%.

O cenário atual, porém, abre espaço para uma postura mais ativa. Chicago opera acima dos US$ 13,00, enquanto os prêmios nos portos ajudam a sustentar referências consideradas favoráveis mesmo diante das oscilações da bolsa e do câmbio.

Para os produtores que ainda estão pouco vendidos, a Biond Agro avalia que o momento permite avançar gradualmente nas travas, chegando perto de 45% de uma produção conservadora. A estratégia busca proteger parte da margem antes que o risco climático brasileiro tenha maior influência sobre as cotações.

“O produtor não precisa tomar uma decisão de uma única vez. A construção de margem pode ser feita por etapas, aproveitando momentos em que a relação entre preço de venda e custo contratado seja favorável”, afirma Isabella.

Calendário de plantio coloca clima no centro das atenções

A largada da safra também será diferente entre os estados brasileiros devido ao calendário do vazio sanitário. No Paraná, Norte, Noroeste, Centro-Oeste e Oeste, o plantio está liberado desde 1º de setembro. Em Mato Grosso, a abertura ocorreu em 7 de setembro. Já outras regiões do Paraná e Goiás terão liberações ao longo de setembro, com Goiás iniciando apenas no dia 25.

Em Mato Grosso, por exemplo, uma melhora da umidade antes da abertura oficial não é suficiente para antecipar o início da semeadura. Depois da liberação, o ritmo dependerá da combinação entre água disponível no solo e continuidade das precipitações. Em Goiás, a abertura mais tardia concentra parte dessa decisão no fim de setembro e aumenta a importância das condições de outubro para o avanço da safra.

El Niño aumenta o peso da produtividade

O clima ganha ainda mais relevância em uma temporada de pouca expansão de área. Segundo o boletim, há probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte entre setembro e novembro, com possibilidade de permanência do fenômeno até o início de 2027.

No Brasil Central, eventuais atrasos ou interrupções na reposição de umidade podem reduzir o ritmo de plantio, aumentar a necessidade de replantio e comprometer o potencial produtivo. No Sul, por outro lado, o excesso de chuva pode reduzir os dias disponíveis para operação e aumentar a pressão de doenças.

“Quando a expansão de área é pequena, qualquer desvio de produtividade passa a ter um impacto maior sobre a produção nacional. Por isso, o clima precisa ser acompanhado não apenas pelo efeito que pode ter sobre os preços, mas também pela capacidade de alterar o potencial produtivo da safra”, avalia Isabella.

Milho ainda deixa espaço para novas decisões

O mesmo princípio de construção gradual de margem aparece no milho, mas em um estágio diferente. Enquanto cerca de 60% da safra atual já foi comercializada, apenas 10% da produção de milho 2026/27 havia sido negociada, deixando grande parte do volume futuro exposta às oscilações do mercado.

A relação entre milho e ureia voltou para perto da média dos últimos cinco anos, ao redor de 57 sacas por tonelada de fertilizante. Ao mesmo tempo, a ureia no Brasil voltou a ganhar firmeza, com referências próximas de US$ 430 a US$ 445 por tonelada CFR.

O clima também pode criar novas oportunidades. Um aumento do risco sobre a soja e, consequentemente, sobre a janela de plantio da segunda safra tende a elevar a volatilidade do milho 2027. Nesse contexto, construir margem em etapas ganha importância.

Safra começa com menos espaço para erro

A combinação entre pouca expansão de área, custos parcialmente definidos, comercialização abaixo da média histórica e incertezas climáticas faz com que o timing das decisões tenha um papel maior na safra 2026/27. Na soja, o ambiente atual permite antecipar parte da receita antes que o clima brasileiro ganhe ainda mais peso sobre os preços. No milho, a baixa comercialização da próxima temporada mantém aberta a possibilidade de aproveitar novas janelas de preço ao longo dos próximos meses.

“A estratégia para a nova safra passa por entrar no plantio com parte da margem já protegida, mas mantendo flexibilidade para aproveitar as oportunidades que podem surgir durante o ciclo. O equilíbrio entre proteção e exposição é o que vai permitir ao produtor administrar melhor os riscos da temporada”, conclui Isabella.

Mais do que buscar o melhor preço ou antecipar todas as decisões, a safra 2026/27 exige uma visão integrada entre custos, comercialização, produtividade e clima. Com parte da margem podendo ser definida antes mesmo do plantio, o produtor que acompanhar esses fatores de forma conjunta terá mais espaço para ajustar sua estratégia ao longo do ciclo.

Foto: Wolfgang Weiser / Pexels.com

Na ONU, discurso sobre soberania, guerras e tecnologia acende alerta para a diplomacia e o mercado global

A abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) colocou no centro das atenções o acirramento das tensões geopolíticas, o avanço dos conflitos armados e os reflexos dessas disputas na estabilidade econômica global.

Durante as declarações iniciais, o presidente Lula enfatizou a importância da autonomia nacional diante de sanções, tarifas e pressões externas. Em tom direto em relação às grandes potências, o presidente reiterou que a soberania brasileira é inegociável e que o país manterá sua independência na condução da política externa e das relações comerciais. “A ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa”, afirmou.

Crise institucional e os reflexos nas cadeias de suprimento

A avaliação apresentada durante o encontro aponta que a ONU vive seu momento mais crítico em décadas, evidenciado pela incapacidade do Conselho de Segurança em conter a escalada de conflitos pelo mundo. Para os países exportadores e para o setor produtivo, essa paralisia diplomática se traduz em insegurança jurídica, oscilação nos preços das commodities e avanço de medidas protecionistas unilaterais por parte de blocos econômicos.

Diante desse cenário, a posição do Brasil focou na rejeição a restrições comerciais arbitrárias, na defesa do fortalecimento das rotas de exportação e na necessidade de reformas estruturais nas instituições multilaterais. No âmbito da segurança interna e da integridade territorial, enfatizou-se o combate ao crime organizado por meio da inteligência e da cooperação internacional, rechaçando propostas de ingerência externa ou intervenção militar nas decisões do país.

Tensões geopolíticas e os desafios da tecnologia

O secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou a gravidade do panorama ao sinalizar que a diplomacia perde espaço de forma acelerada para a imposição da força militar. Além dos embates geopolíticos tradicionais, Guterres destacou o avanço acelerado de novas tecnologias, como a inteligência artificial, como um fator inédito de instabilidade quando desenvolvidas sem regulamentação clara ou controle institucional.

O encerramento do primeiro dia de trabalhos deixou evidente que a previsibilidade do comércio global e o crescimento do setor produtivo dependem diretamente do resgate da cooperação entre as nações e da construção de um ambiente internacional menos propenso a sobressaltos políticos.

Foto: Hugo Magalhaes / Pexels.com

A era do cruzamento de dados chegou ao campo: produtor rural precisa transformar informação em ferramenta de gestão

por Gustavo Venâncio*

A transformação digital do sistema tributário brasileiro está mudando a forma como o produtor rural precisa lidar com suas informações fiscais. O campo, que por muito tempo esteve associado a processos mais manuais e controles descentralizados, passou a fazer parte de uma estrutura de fiscalização cada vez mais integrada, na qual dados de diferentes fontes são cruzados para verificar a consistência das operações.

Nesse novo cenário, a gestão das informações deixou de ser apenas uma obrigação burocrática e passou a ser uma ferramenta estratégica para a segurança do negócio rural. A Receita Federal não analisa somente os dados declarados pelo produtor, mas também informações fornecidas por compradores, fornecedores e outros participantes da cadeia produtiva.

Essa evolução dos mecanismos de fiscalização reduz o espaço para inconsistências e exige que o produtor tenha maior domínio sobre sua própria operação. Mais do que entregar documentos, é necessário compreender quais informações estão sendo registradas, se elas representam a realidade da atividade e se existe coerência entre receitas, despesas, contratos e movimentações financeiras.

Um dos exemplos mais comuns dessa necessidade de atenção aparece na declaração da atividade rural. A omissão de receitas continua sendo um dos principais fatores que levam produtores a problemas com o Fisco. Muitas vezes, o produtor deixa de informar uma venda porque ainda não recebeu o pagamento, porque a negociação ocorreu a prazo ou porque houve inadimplência por parte do comprador.

No entanto, essas situações possuem tratamento previsto na legislação e precisam ser registradas corretamente. A ausência do lançamento não elimina a existência da operação, já que os compradores também prestam informações à Receita Federal. Dessa forma, uma divergência entre os dados informados pelas partes pode gerar questionamentos.

Outro ponto de atenção é a tentativa de reduzir a carga tributária por meio do lançamento de despesas sem relação comprovada com a atividade rural. Quando o produtor identifica um valor elevado de imposto, pode surgir a ideia de incluir gastos que não possuem respaldo legal. Além de não representar uma estratégia tributária eficiente, essa prática aumenta os riscos fiscais.

A organização também deve envolver contratos e relações que fazem parte da rotina do campo, como arrendamentos e parcerias rurais. As informações declaradas precisam ser compatíveis entre si. Se um imóvel é utilizado por meio de arrendamento, por exemplo, os pagamentos realizados e os registros correspondentes devem estar devidamente informados.

A digitalização das obrigações fiscais também ampliou a necessidade de controles mais estruturados. Produtores que ultrapassam o limite de R$ 4,8 milhões de receita bruta anual na atividade rural devem observar a obrigatoriedade de apresentação do Livro Caixa Digital do Produtor Rural (LCDPR), ferramenta que permite maior detalhamento das movimentações financeiras e amplia a capacidade de análise do Fisco.

Esse movimento mostra que a relação entre produtor rural e Receita Federal está passando por uma mudança de cultura. A fiscalização deixa de depender exclusivamente de verificações pontuais e passa a ser baseada em grandes volumes de informações, analisadas por sistemas capazes de identificar divergências.

Foto: Gustavo Fring / Pexels.com

Nesse contexto, acreditar que o simples pagamento de um valor maior de imposto evita uma fiscalização é um equívoco. O Fisco não avalia apenas quanto foi recolhido, mas principalmente se os dados apresentados são compatíveis com a realidade da atividade.

Por isso, o produtor precisa assumir uma postura mais participativa na gestão tributária do negócio. O apoio de profissionais especializados continua sendo fundamental, mas o conhecimento sobre receitas, despesas, contratos e documentos deve fazer parte da rotina da propriedade.

Planejamento tributário não significa esconder informações ou buscar caminhos fora da legislação. Pelo contrário, uma estratégia eficiente é construída a partir de organização, conhecimento das regras e aproveitamento adequado dos mecanismos permitidos.

Em um ambiente no qual a informação se tornou um dos principais instrumentos de fiscalização, a conformidade passa a ser também uma vantagem competitiva. Produtores que conhecem seus números e mantêm seus registros organizados estão mais preparados para tomar decisões, reduzir riscos e garantir a sustentabilidade do negócio no longo prazo.

*Advogado e sócio-proprietário da Lastro – Soluções Tributárias para o Agro.

Empresas têm até dezembro para se adaptar a novas regras sobre benefícios fiscais

Entrou em vigor neste mês de setembro um novo modelo de acompanhamento dos incentivos e benefícios fiscais utilizados pelas empresas. As novas regras da Receita Federal ampliam o controle sobre o cumprimento dos requisitos exigidos para a manutenção desses benefícios e abrem, até o fim do ano, uma janela para revisão e regularização de eventuais inconsistências.

Durante o período de adaptação, que segue até dezembro de 2026, o acompanhamento tem caráter orientativo e eventuais irregularidades podem ser comunicadas às empresas para que sejam corrigidas antes do início dos procedimentos formais previstos para 2027.

A medida pode alcançar empresas de diferentes portes e segmentos que usufruem de incentivos, renúncias ou benefícios tributários federais. Para Nicholas Coppi, advogado da Coppi Advogados Associados e especialista em Direito Tributário, a principal recomendação é aproveitar esse intervalo para verificar se todos os requisitos vinculados aos benefícios utilizados continuam sendo cumpridos. “Para muitas empresas, o benefício fiscal já faz parte da rotina e acaba sendo tratado como uma condição consolidada. A nova sistemática reforça que não basta ter obtido o direito ao incentivo. É necessário continuar atendendo às condições exigidas para sua utilização”, afirma Coppi.

Entre os requisitos que podem ser objeto de acompanhamento estão a regularidade fiscal, a situação perante o FGTS e o Cadin, a regularidade cadastral no CNPJ e a adesão ao Domicílio Tributário Eletrônico (DTE), além das condições específicas previstas na legislação de cada benefício.

Na avaliação do especialista, a mudança interessa especialmente às empresas que utilizam incentivos há mais tempo e que não mantêm uma rotina periódica de revisão das condições necessárias à sua manutenção. “É um bom momento para fazer uma checagem relativamente objetiva: quais benefícios a empresa utiliza, quais são os requisitos para cada um deles e se existe documentação atualizada que demonstre o cumprimento dessas condições. Dependendo do caso, uma pendência cadastral ou de regularidade pode gerar consequências relevantes”, explica.

A regulamentação também ampliou de 20 para 30 dias úteis o prazo para regularização após eventual intimação e prevê situações em que esse período poderá ser prorrogado quando a solução depender da atuação de outro órgão público.

O caráter orientativo previsto até 31 de dezembro é um dos pontos que tornam o momento particularmente relevante para as empresas. A partir de janeiro de 2027, passam a ser adotados os procedimentos formais estabelecidos pela nova sistemática. Para Coppi, a existência desse intervalo deve ser entendida como uma oportunidade para antecipar a revisão, e não como motivo para postergá-la. “Se existe uma janela em que a própria sistemática privilegia a orientação e a regularização, faz sentido utilizá-la preventivamente. A empresa pode revisar cadastros, certidões, habilitações e controles antes de eventualmente ser chamada a prestar esclarecimentos”, aponta o especialista.

O novo modelo também reforça uma tendência de maior utilização de informações eletrônicas e cruzamento de dados pela administração tributária. Nesse ambiente, empresas que se beneficiam de incentivos precisam incorporar a revisão dessas condições às práticas de governança fiscal. “Benefícios tributários podem representar valores importantes para o resultado de uma companhia. Por isso, o controle sobre os requisitos necessários para mantê-los precisa ter a mesma relevância. A recomendação é não esperar janeiro para descobrir se existe alguma pendência que poderia ter sido identificada antes”, diz o advogado.

Para as empresas, o caminho inicial passa por identificar os benefícios fiscais utilizados, levantar os requisitos vinculados a cada um, verificar a situação fiscal e cadastral e corrigir eventuais inconsistências ainda durante o período de adaptação. “Os próximos meses oferecem uma oportunidade de revisão. Mais do que uma nova obrigação, é um momento para a empresa verificar se aquilo que já utiliza está juridicamente e documentalmente bem sustentado”, conclui Coppi.

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Entre recorde de produção e atraso nas compras, produtor rural corre contra o tempo na safra 2026/27

O agronegócio brasileiro fecha a safra 2025/26 com números recordes, mas entra no planejamento do ciclo 2026/27 sob um cenário de custos mais voláteis, crédito delimitado, câmbio pressionado e exigências internacionais mais rígidas. Segundo o mais recente levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o país deve colher cerca de 360 milhões de toneladas de grãos na safra que se encerra, puxado por uma produção recorde de soja, próxima de 180 milhões de toneladas, e por uma safra de milho que soma 141,7 milhões de toneladas somadas as três safras. O café também caminha para um novo recorde em 2026/27, com estimativas de diferentes consultorias variando entre 66 milhões e mais de 75 milhões de sacas.

Apesar do otimismo com a produção, o custo dos insumos segue no centro das atenções. O mercado internacional de fertilizantes voltou a ficar tenso neste ano, pressionado pela instabilidade geopolítica no Oriente Médio e por gargalos logísticos que encareceram fretes e o gás natural, matéria-prima essencial para os nitrogenados. Ainda que o Índice de Poder de Compra de Fertilizantes tenha recuado em junho, refletindo a queda nas commodities agrícolas e nos preços médios de insumos, o produtor segue mais cauteloso nas negociações para 2026/27. Dados do setor apontam que pouco mais da metade do volume de fertilizantes necessário para a próxima safra havia sido contratada até o momento, patamar abaixo do histórico para a época, o que acende o alerta para uma possível concentração de compras no gargalo logístico próximo ao plantio.

Segundo Marcos Dallagnese, diretor Comercial da Orbia, plataforma digital integrada do agronegócio, cada cultura vive um momento distinto de mercado, o que exige estratégias diferentes de compra e gestão de insumos ao longo da safra. “A soja segue em ritmo de recuperação de preços de olho na demanda e safra americana, mas isso também exige do produtor atenção redobrada ao câmbio e ao timing entre a venda do grão e a compra de insumos. Já o milho vive uma transformação estrutural, com a expansão acelerada das usinas de etanol ampliando a disputa pelo grão e tornando o planejamento logístico ainda mais estratégico. O café, por sua vez, segue em um bom momento de preços e volatilidade, mesmo diante da expectativa de safra recorde, o que exige acompanhamento constante do mercado por parte do produtor”, afirma.

De fato, o etanol de milho deve consumir cerca de 37,7 milhões de toneladas do cereal na safra 2026/27, avanço de 36% sobre o ciclo anterior, elevando a participação do biocombustível para cerca de 34% da demanda doméstica por milho, segundo levantamento do Itaú BBA. O movimento amplia a disputa pelo grão entre indústria de biocombustíveis, exportação e proteína animal, e tende a aumentar a sensibilidade dos preços domésticos em momentos de menor oferta.

Já no café, apesar da previsão de colheita recorde para 2026/27, o mercado físico segue pressionado: praças produtoras de Minas Gerais, como Guaxupé e Varginha, acumularam valorização importantes em julho, reflexo de estoques certificados apertados e do ritmo ainda lento de comercialização antecipada da nova safra, hoje bem abaixo da média histórica para a época.

Foto: Ebahir / Pexels.com

Ainda de acordo com Dallagnese, o produtor rural brasileiro vem adotando um perfil cada vez mais estratégico na tomada de decisão, deixando de comprar apenas com base em oportunidade pontual para analisar timing, condições comerciais, crédito e previsibilidade operacional. “Hoje, o produtor precisa olhar para a compra de insumos como parte da gestão financeira da propriedade. Não basta apenas garantir produto, é preciso buscar eficiência, previsibilidade com parceiros confiáveis e ferramentas que ajudem na tomada de decisão ao longo da safra”, explica.

Nesse movimento, as plataformas digitais vêm ganhando espaço dentro do agro brasileiro. A Orbia, que nasceu como um programa de fidelidade e hoje reúne soluções completas para a cadeia agrícola, conecta produtores rurais a uma ampla rede de revendas, distribuidores e cooperativas em todo o país, permitindo cotação, compra e pagamento online de insumos agrícolas.

“A digitalização trouxe mais agilidade e transparência para o mercado. Na Orbia, o produtor consegue comparar ofertas, acompanhar condições comerciais e acessar diferentes fornecedores em um só lugar, o que contribui diretamente para um planejamento mais eficiente das compras”, destaca Dallagnese.

Além das questões operacionais, o mercado agrícola também passa por uma transformação ligada às exigências globais de rastreabilidade, sustentabilidade e conformidade regulatória. Um dos temas que mais deve pautar 2026 e 2027 é o Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR), que passa a valer de forma gradual a partir de dezembro de 2026 para grandes e médios produtores, e a partir de junho de 2027 para pequenos produtores. 

Entre as commodities mais expostas à nova regra está justamente o café, uma vez que mais da metade da safra brasileira segue para a União Europeia, mas a soja também figura entre os produtos citados como relevantes pela regulação, reforçando a necessidade de sistemas robustos de rastreabilidade e comprovação de origem ao longo de toda a cadeia produtiva.

“O agro brasileiro continua extremamente forte e competitivo, mas o cenário atual exige cada vez mais profissionalização. Quem conseguir unir planejamento, tecnologia e gestão, terá mais capacidade de enfrentar um ambiente de margens apertadas e maior pressão do mercado global”, finaliza Dallagnese.

Alta dos juros é apontada como principal fator para avanço de consórcios no agronegócio

O aumento do custo do crédito rural e a necessidade constante de investir em produtividade têm impulsionado o consórcio como uma das principais alternativas para pequenos e médios produtores rurais adquirirem tratores, colheitadeiras, implementos e outros equipamentos agrícolas. A avaliação é da Multimarcas Consórcios, que observa uma mudança no perfil do produtor, cada vez mais voltado ao planejamento financeiro e à busca por soluções que reduzam o impacto dos juros sobre os investimentos no campo.

A tendência é confirmada pelos números da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC). O segmento de máquinas agrícolas reúne atualmente 463,3 mil participantes ativos, crescimento de 2,9% em relação ao ano anterior. Apenas entre janeiro e abril deste ano, foram disponibilizados R$ 4,36 bilhões em créditos, alta de 15% na comparação com o mesmo período de 2025, demonstrando que mais produtores estão utilizando o consórcio para renovar seus maquinários e ampliar a capacidade produtiva.

Segundo Guilherme Lamounier, gerente nacional de vendas da Multimarcas Consórcios, o cenário reforça uma mudança que já vinha sendo observada pela empresa desde o ano passado e que se intensificou diante das condições do mercado de crédito. “Os juros elevados fizeram com que muitos produtores reavaliassem a forma de investir. Hoje, o consórcio deixou de ser apenas uma alternativa e passou a fazer parte do planejamento financeiro de muitos pequenos e médios produtores. Eles conseguem programar a renovação da frota, preservar o capital de giro da propriedade e investir sem os custos do financiamento tradicional”, afirma.

Para Lamounier, o crescimento da modalidade está diretamente ligado ao papel estratégico que a mecanização exerce na competitividade do agronegócio. “O produtor precisa investir continuamente em tecnologia para aumentar a produtividade, reduzir custos operacionais e ganhar eficiência. O consórcio permite que esse investimento aconteça de forma planejada, respeitando o fluxo de caixa da atividade rural e oferecendo mais previsibilidade para quem administra o negócio”, explica.

Os dados da ABAC também mostram que as máquinas agrícolas já representam 51% de todo o segmento de consórcios de veículos pesados, superando os caminhões. Outro indicador relevante é o perfil dos participantes: aproximadamente dois terços dos consorciados são pessoas físicas, público formado majoritariamente por pequenos e médios produtores rurais, o que evidencia a importância da modalidade para ampliar o acesso à mecanização no campo.

Embora o início de 2026 tenha registrado uma desaceleração na comercialização de novas cotas, reflexo da cautela do mercado diante do cenário econômico, a Multimarcas avalia que o aumento do volume de créditos disponibilizados demonstra a maturidade do setor e a consolidação do consórcio como uma ferramenta de investimento de longo prazo.

“O produtor rural está cada vez mais consciente de que planejamento também é um diferencial competitivo. Quem consegue organizar seus investimentos com antecedência reduz riscos, preserva recursos para a operação e mantém a propriedade preparada para crescer. O consórcio atende exatamente essa necessidade e, por isso, deve continuar ampliando sua participação no agronegócio brasileiro”, conclui Lamounier.

Guerra no Oriente Médio acelera migração para ativos estratégicos e países como o Brasil podem virar alvo de investimentos, dizem especialistas

A escalada das tensões no Oriente Médio não impacta apenas o preço do petróleo. Ela altera fluxos comerciais globais, aumenta a percepção de risco e passa a fazer parte das discussões estratégicas de conselhos de administração, fundos de investimento e mesas de negociação de fusões e aquisições.

Ainda assim, os dados mostram que a incerteza geopolítica não tem sido suficiente para paralisar o mercado. O capital continua circulando, mas de outra forma, segundo especialistas. Ainda mais seletiva, priorizando geografia, economia e setores considerados resilientes, além de ativos capazes de atravessar cenários de maior volatilidade. Prova disso é que, no primeiro trimestre de 2026, as operações globais de fusões e aquisições não apresentaram queda; pelo contrário: somaram US$ 861 bilhões, registrando o melhor início de ano para o mercado desde 2021.

“Em momentos de tensão geopolítica, o investidor deixa de perseguir apenas crescimento e passa a buscar proteção. Mas o movimento de alocação de capital continua. Contudo, ele se reorganiza, procura ativos ligados à segurança energética, produção de alimentos, infraestrutura e recursos naturais”, afirma Jefferson Nesello, sócio-fundador e diretor da Zaxo, boutique de M&A.

Segundo relatório da Aon, elaborado em parceria com a TTR Data e a Datasite, o Brasil registrou 256 operações de fusões e aquisições no primeiro trimestre de 2026, uma queda de 43% em relação ao mesmo período do ano anterior. Apesar da redução no número de negócios, o valor agregado das transações saltou 114%, alcançando US$ 17,7 bilhões.

“O crescimento de 114% no valor das operações de M&A mostra que o capital continua disposto a investir, mas de forma mais concentrada e seletiva. O investidor global está buscando ativos resilientes, capazes de atravessar ciclos de turbulência”, diz o diretor da Zaxo.

E é justamente nesse cenário de reacomodação global do capital que o Brasil ganha relevância, cada vez mais como uma alternativa estratégica e não apenas como um mercado emergente. “Enquanto parte do mundo convive com conflitos armados, disputas comerciais e riscos crescentes de interrupção de cadeias produtivas, o país reúne atributos que se tornaram escassos: disponibilidade de recursos naturais, capacidade energética e estabilidade institucional relativa quando comparada a outras regiões”, afirma Nesello.

Na avaliação do executivo, a combinação desses fatores tende a fortalecer o papel do Brasil como destino de investimentos estratégicos. “Nesse contexto, setores ligados à energia, infraestrutura, agronegócio e recursos naturais passam a ocupar posição privilegiada nas decisões de alocação de capital”, destaca.

O setor de energia é um dos exemplos mais evidentes. Em meio às preocupações globais sobre o fornecimento de petróleo, empresas internacionais têm ampliado sua atenção ao Brasil. Em março de 2026, a Shell afirmou enxergar uma “enorme oportunidade” para investimentos no petróleo brasileiro justamente em razão da estabilidade do país em comparação a outras regiões produtoras. A companhia destacou que a produção nacional ganha importância à medida que compradores globais buscam reduzir sua dependência do Oriente Médio.

A relevância estratégica da América do Sul também aparece nos números. Em 2026, Brasil, Guiana e outros produtores da região ampliaram sua participação no abastecimento global em um momento de redução da oferta oriunda do Oriente Médio. A reorganização do mercado global de energia já produz reflexos concretos. Desde 2021, as exportações brasileiras de petróleo cresceram 71%, e o país embarcou mais de 361 milhões de barris apenas nos cinco primeiros meses de 2026. Em meio às restrições de oferta provocadas pela crise no Oriente Médio, Brasil e Guiana responderam por grande parte do aumento das exportações sul-americanas, transformando a região em uma das principais alternativas ao petróleo oriundo do Golfo Pérsico.

O executivo conclui: “A guerra no Oriente Médio está acelerando uma reorganização dos fluxos globais de capital. E o Brasil precisa aproveitar essa janela. O desafio agora é transformar essa vantagem potencial em atração efetiva de investimentos. Quem conseguir se posicionar melhor durante essa reconfiguração global tende a colher os resultados por muitos anos”.

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Encontro Empresarial Angola-Brasil consolida nova fronteira do agronegócio e investimentos privados

A busca por novos mercados globais, a expansão das exportações e a necessidade de diversificação geoeconômica ganharam um marco decisivo com a realização do Encontro Empresarial Angola-Brasil 2026. O fórum internacional, que reuniu lideranças corporativas, autoridades governamentais e investidores dos dois países, consolidou o setor produtivo e a cooperação agroindustrial como pilares centrais da integração econômica entre o Brasil e o continente africano.

Agro tropical e cooperação: a virada de chave dos investimentos

Angola vivencia um processo de aceleração na substituição de importações alimentares — mercado que consome cerca de US$ 3 bilhões anuais para suprir a demanda interna de alimentos. A resposta a esse desafio encontrou forte ressonância na expertise acumulada pelo Brasil ao longo de mais de cinco décadas de liderança em agricultura tropical, adaptando o know-how de manejo do Cerrado e do Matopiba às terras agricultáveis do país africano.

A realização do Encontro Empresarial foi o ápice de um ciclo de aproximação comercial. O movimento já vinha sendo impulsionado por missões governamentais e empresariais promovidas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), além da atuação do LIDE (Grupo de Líderes Empresariais), que organizou fóruns corporativos e comitivas com dezenas de empresários a Luanda para prospectar áreas e estreitar os laços entre o setor privado e o ecossistema de negócios angolano.

Durante o evento, autoridades locais reforçaram a oferta de centenas de milhares de hectares para projetos agrícolas integrados às comunidades, destacando que a infraestrutura e os mecanismos de financiamento mútuo estão postos para quem busca produzir, agregar valor e exportar a partir de Angola.

Foco de aportes: grãos, máquinas e proteína animal

Os desdobramentos e acordos firmados ao longo do encontro apontam para aportes estratégicos de capital privado brasileiro em três frentes prioritárias:

Grãos e Fibras: Produção em larga escala de soja, milho e algodão em províncias como Cuanza Norte, Uíge e Malanje, utilizando sistemas sustentáveis de rotação de cultura.

Proteína Animal: Projetos voltados à pecuária de corte, avicultura e suinocultura, fortalecendo a segurança alimentar e a implantação de unidades de processamento de carne.

Mecanização e Insumos: Aquisição e exportação de máquinas agrícolas, equipamentos de irrigação, armazenagem e fertilizantes produzidos pela indústria brasileira.

Comércio com países árabes segue crescendo em 2026

O comércio entre Brasil e países árabes segue crescendo em 2026, apesar do conflito no Oriente Médio, que limita o trânsito de embarcações no Estreito de Ormuz e o acesso a mercados importantes do bloco de 22 países. De acordo com dados compilados pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, as exportações do Brasil para a Liga Árabe avançaram 3,71% entre janeiro e julho, totalizando US$ 11,26 bilhões, ao passo que as vendas árabes ao Brasil também cresceram, 12,22% no período, para US$ 6,13 bilhões. As comparações são com o mesmo período de 2025.

“No início do ano, fomos todos surpreendidos por conflitos na região do Golfo cujos impactos foram sentidos nos quatro cantos do mundo” disse o presidente da entidade, William Adib Dib Júnior, no Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, realizado pela Câmara Árabe nesta terça (25/08), na capital paulista.

“Ao longo dos meses subsequentes, a resiliência do agronegócio brasileiro, das cadeias de fertilizantes árabes e dos sistemas logísticos internacionais permitiram minimizar os efeitos desta situação”, afirmou, referindo-se ao esforço de reorganização dos modais logísticos na região para contornar restrições.

Dib Júnior reconhece na relação bilateral resiliência e vitalidade, mas ainda acredita que há potencial a ser desenvolvido. Ele cita o fornecimento de alimentos, que hoje já é 75% da pauta de exportações. Segundo ele, o Brasil se destaca no envio de commodities alimentares, mas participa pouco do envio de industrializados, mesmo sendo competitivo.

O dirigente também vê potencial para avançar a cooperação no campo da energia limpa e da descarbonização. Defende também que empresas brasileiras considerem internacionalizar operações nos países árabes, que oferecem vantagens fiscais e logísticas em zonas francas, além de acordos de livre comércio com Europa e Ásia.

“Brasil e países árabes mantêm sinergias evidentes para a integração dos ecossistemas produtivos, de inovação e também no turismo”, afirmou o dirigente. “Além disso, possuem mercados de consumo muito dinâmicos”, finalizou.

Valor compartilhado

O secretário-geral da Liga Árabe, Nabil Fahmy, acredita haver nas relações entre países árabes e Brasil atributos para gerar “valor compartilhado” e capacidade de enfrentar as oscilações da economia global. A geração desse valor, no entanto, depende, na visão do diplomata, da diversificação do comércio, da inclusão de pequenas e médias empresas, da integração entre empreendedores e startups, além do incentivo a investimentos mútuos.

Em fala no Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, Fahmy destacou que as trocas comerciais atingiram US$ 31,3 bilhões em 2025, com múltiplos interesses econômicos e capacidade de se manter e crescer. Segundo o secretário-geral, existem condições para que a relação bilateral avance para uma nova fase, marcada por investimentos conjuntos, transferência de tecnologia e interligação das cadeias de valor nas duas regiões. “O desafio atual é [criar um sistema] econômico internacional mais inclusivo e sensível aos interesses dos países em desenvolvimento”, afirmou Fahmy. 

O diplomata afirmou ainda que o avanço da parceria depende de uma atuação conjunta dos setores público e privado. Segundo ele, o capital privado atualmente supera o público, exigindo a costura de parcerias que conciliem interesses de organizações e os nacionais.

Itamaraty pede previsibilidade

O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, titular do Ministério de Relações Exteriores, sugeriu que Brasil e países árabes estabeleçam um “pacto de previsibilidade” para garantir o acesso recíproco a alimentos e fertilizantes. O pacto, segundo Vieira, seria uma forma de proteger as regiões contra o que chamou de “escalada nas rivalidades geopolíticas”, referindo-se, principalmente, aos conflitos no Oriente Médio, que elevaram o custo do transporte de alimentos brasileiros e de fertilizantes árabes comercializados entre as regiões.

“O mundo árabe, gigante na produção desses insumos [fertilizantes], e o Brasil, potência global do agronegócio, devem associar-se em torno de um pacto de previsibilidade”, afirmou o chanceler em vídeo exibido no Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, evento da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, realizado na capital paulista.

“A segurança alimentar é uma via de mão dupla que requer estabilidade na cadeia de suprimentos da base produtiva, como demonstram as dificuldades atuais para o acesso de países agrícolas, como o Brasil, a fertilizantes”, prosseguiu Vieira. “Ao garantirmos o fornecimento mútuo de insumos e alimentos, protegemos nossas economias contra os choques de oferta e blindamos a segurança alimentar de nossas populações.”

O chanceler sugeriu ainda que Brasil e países árabes busquem a mesma previsibilidade em suas estratégias de transição energética. Entre as sinergias das duas regiões nesta área, citou o fato de o Brasil oferecer matriz energética com 90% de energia renovável e uma das maiores reservas de minerais críticos do mundo. Os árabes, por sua vez, contariam com escala de capital e projetos energéticos em novos vetores já em estruturação.

“Há um claro potencial de sinergia no campo da transição energética, com a atração de investimentos para a indústria brasileira e a transformação do nosso parque produtivo em novo polo de minerais críticos, essenciais para a eletrônica global e para a transformação ecológica”, disse Vieira, reforçando o papel de protagonismo que o setor privado deveria assumir no esforço.

O Fórum Econômico Brasil-Países Árabes tem o patrocínio de FAMBRAS Halal e International Halal Academy, Vale, DP World, CDIAL Halal, First Abu Dhabi Bank, MBRF, Qatar Airways e MZAH Investment.