Governo dos EUA propõe nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros

com informações da Agência Brasil

O governo dos Estados Unidos (EUA) anunciou que poderá taxar importações brasileiras com uma nova tarifa punitiva de 25%. A alegação é de que algumas práticas do Brasil são desleais. 

Dentre as práticas citadas, estão o comércio digital e o desmatamento ilegal. Alguns itens como carne bovina, café, terras raras, outros metais e peças de aeronaves estão excluídos da nova tarifa – que poderá entrar em vigor em 15 de julho.

A justificativa para aplicar a medida é uma investigação, aberta em julho de 2025, pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) que concluiu que políticas e práticas brasileiras são “irrazoáveis” e “oneram ou restringem” o comércio norte-americano.

relatório final da investigação prevê a imposição de “tarifas ou outras restrições à importação de produtos brasileiros. Tendo por base essa possibilidade, o representante de comércio dos EUA propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre todos os bens do Brasil”.

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A punição com a taxação extra, no entanto, prevê algumas exceções para produtos que poderiam causar “disrupções” em toda a economia caso fossem submetidos a tarifas adicionais; além de “determinados produtos que não podem ser cultivados ou produzidos em quantidades suficientes nos Estados Unidos, nem obtidos de outras fontes”.

Dentre as exceções estão frutas e nozes, petróleo bruto e derivados, compostos farmacêuticos, produtos químicos orgânicos e fertilizantes. Também estão isentas a carne bovina, o café, terras raras, certos metais e minérios, além de aeronaves e peças de aeronaves brasileiras.

Seção 301 da Lei de Comércio

decisão do USTR foi anunciada na noite desta segunda-feira (1º) e tem por base termos da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, de 1974.

A investigação avaliou práticas nas áreas de comércio digital e serviços de pagamentos eletrônicos, como o Pix; concessão de tarifas preferenciais; proteção de propriedade intelectual; combate à corrupção; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal.

O USTR afirma que, nesses pontos, há prejuízo para empresas e exportações dos EUA. Como consequência, o governo americano abriu consulta pública sobre possíveis medidas corretivas.

O processo inclui envio de comentários até 1º de julho e audiência pública em 6 de julho, enquanto seguem as negociações com o governo brasileiro. O prazo legal para a eventual adoção da nova tarifa é 15 de julho de 2026.

Investigação ouviu mais de 30 testemunhas e quase 300 manifestações

Segundo o embaixador estadunidense Jamier Greer, a investigação começou a pedido do presidente Donald Trump que alegou preocupações antigas e generalizadas dos EUA com certas políticas e práticas comerciais do Brasil.

“Ao longo do último ano, o presidente Trump e eu tivemos várias reuniões construtivas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o seu gabinete, que se intensificaram nas últimas semanas”, afirmou Greer.

“Contudo, continuamos a ter divergências substanciais na resolução das questões identificadas nesta investigação. Aguardo com expectativa a continuação do diálogo com o governo brasileiro, antes do prazo legal de 15 de julho de 2026 para a tomada de medidas corretivas”, acrescentou.

Negócios em zonas de conflito expõem o custo da instabilidade global

por Israel Sayão*

Empresas internacionais operam hoje em um ambiente mais instável e imprevisível. Conflitos armados e tensões políticas aumentam o risco e pressionam decisões estratégicas. O cenário global atual apresenta níveis mais altos de incerteza. Governos tomam decisões rápidas e mudam regras com pouca previsibilidade. Esse movimento afeta contratos, investimentos e operações em diferentes mercados.

O risco político ocupa posição central nas decisões corporativas. Mudanças de governo e instabilidade institucional comprometem acordos e reduzem a segurança jurídica. Empresas precisam considerar esse fator desde o início de qualquer operação.

As sanções econômicas impactam diretamente a atividade empresarial. Países e blocos impõem restrições que limitam comércio, acesso a insumos e circulação de capital. Essas medidas podem interromper operações de forma imediata.

A logística sofre efeitos diretos em zonas de conflito. Rotas comerciais deixam de ser seguras e elevam custos de transporte. Empresas enfrentam atrasos e precisam redesenhar cadeias de suprimento com rapidez.

As empresas priorizam a segurança das equipes em cenários de instabilidade. Organizações reduzem operações, retiram profissionais e suspendem atividades quando necessário. A proteção das pessoas orienta essas decisões.

O ambiente financeiro apresenta alta volatilidade. Moedas locais perdem valor em curtos períodos. Empresas adotam proteção cambial (estratégia para reduzir perdas com variação de moeda) para preservar resultados.

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Os contratos passam por ajustes para lidar com riscos maiores. Empresas incluem cláusulas de força maior (situações fora do controle, como guerras) para reduzir impactos jurídicos. Essas cláusulas não evitam perdas, mas oferecem proteção.

As empresas adotam análise de cenário de forma contínua. Equipes monitoram decisões políticas e movimentos internacionais. Esse acompanhamento permite respostas mais rápidas e evita decisões tardias.

A entrada em novos mercados exige avaliação mais criteriosa. Empresas analisam a estabilidade institucional, que indica previsibilidade de regras e segurança jurídica. A ausência desse fator aumenta o risco da operação.

Os negócios em zonas de conflito exigem estratégia e preparo. Empresas que integram o risco à tomada de decisão conseguem manter operações. Empresas que ignoram o contexto ficam mais expostas a perdas difíceis de reverter.

*Especialista em negociações internacionais e estratégias de expansão de operações globais.

Conflito no Oriente Médio pressiona fertilizantes e mantém preços elevados

O mercado global de fertilizantes segue pressionado entre março e início de abril, em meio à escalada do conflito no Oriente Médio, que tem afetado a produção, a logística e os custos de energia, especialmente em países do Golfo Pérsico. Os nitrogenados lideram o movimento de alta. No mercado brasileiro, a ureia acumulou valorização expressiva no período, alcançando cerca de USD 760 por tonelada CFR em 10 de abril.

De acordo com o Itaú BBA, a elevação reflete a combinação de oferta mais restrita, aumento nos preços de petróleo e gás natural e maior aversão ao risco no cenário internacional. No curto prazo, o mercado tende a permanecer ajustado e volátil, diante das incertezas sobre a duração do conflito e a normalização dos fluxos logísticos globais.

O segmento de fosfatados também registrou maior tensão nas últimas semanas. Além dos impactos diretos do conflito em uma região estratégica para o fornecimento de matérias-primas, o mercado foi pressionado pela alta do enxofre, insumo fundamental na produção de ácido sulfúrico. No Brasil, os preços do enxofre acumulam elevação significativa desde fevereiro, elevando os custos de produção.

Nesse contexto, os preços dos fosfatados avançaram cerca de 7% no mercado doméstico, com o MAP atingindo aproximadamente USD 890 por tonelada CFR. Apesar de a demanda agrícola ainda avançar de forma gradual, a combinação entre oferta mais ajustada, custos elevados e incerteza geopolítica tende a sustentar os preços em patamares firmes no curto prazo.

Já o mercado de potássicos apresenta maior estabilidade relativa em comparação aos demais nutrientes, embora também impactado pelo aumento das incertezas globais e pelos custos logísticos. A oferta internacional segue mais equilibrada, com Rússia e Belarus mantendo participação relevante no comércio global.

Para os próximos meses, a expectativa é de avanço gradual da demanda, enquanto os preços permanecem sustentados, ainda que com menor volatilidade em relação aos nitrogenados e fosfatados.

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Integração internacional no agro abre novas fronteiras de negócios

A agricultura mundial tem sido profundamente moldada pela força produtiva de dois gigantes: os Estados Unidos e o Brasil. De um lado, o modelo norte-americano se destaca pela alta tecnologia, eficiência operacional e liderança global na produção de grãos. Do outro, o Brasil consolida-se como um verdadeiro celeiro do mundo na produção de alimentos, impulsionado por sua diversidade, crescente inovação no campo e capacidade de produzir até três safras por ano.

Embora concorram em diversas commodities, esses dois países compartilham desafios e oportunidades que vão além da disputa por mercado. A integração entre as culturas agrícolas americana e brasileira abre espaço para a troca de conhecimento, adoção de boas práticas e geração de valor especialmente para empresas e agroindústrias brasileiras que buscam ampliar sua competitividade em escala global.

De acordo com Márcio Barboza, técnico em agricultura, gerente de exportação e vendas internacionais e especialista em expansão de mercado, planejamento estratégico e liderança de equipes, essa integração é sempre importante. “Não importa se é no preparo de solo ou em qualquer outra atividade: para atuar nos Estados Unidos, é fundamental entender suas peculiaridades se integrar a cultura local”, diz.

Segundo ele, os Estados Unidos são formados por uma diversidade cultural significativa, o que também se reflete no ambiente de negócios. “Cada estado tem suas características próprias. Em algumas regiões, principalmente no Sul, as relações são mais reservadas no início, mas, à medida que a confiança é construída, a proximidade cresce de forma consistente”, explica o especialista.

Importância da pesquisa de mercado

Para empresas que desejam acessar o mercado norte-americano, a pesquisa de mercado é um passo essencial. Compreender as características regionais, os perfis produtivos e as demandas específicas podem reduzir significativamente as barreiras de entrada. “Conhecer bem o produto e avaliar se ele se encaixa no mercado almejado é fundamental”, explica Barboza.

Não é recomendável, segundo o consultor, tentar inserir soluções voltadas para soja ou milho em regiões onde essas culturas não são expressivas, como na Califórnia, por exemplo. Nessa região já há mais oportunidades para segmentos específicos. “Quem atua com soluções para fruticultura, amêndoas e cultivos similares, a região pode ser estratégica”, destaca.

Outra recomendação é utilizar informações disponíveis online para mapear o mercado antes de ir a campo. “É possível acessar sites de revendas americanas, conhecer seus estoques, entender o tipo de maquinário utilizado e a potência de tratores mais comum em cada área, isso faz toda a diferença na abordagem comercial e torna as visitas presenciais muito mais assertivas”, orienta o profissional.

Além disso, ter uma base ou parceiro local nos Estados Unidos é um diferencial competitivo importante. “Os americanos valorizam muito a garantia de reposição de peças e suporte. Ter estoque local ou uma estrutura de apoio pode facilitar muito a entrada no mercado”, acrescenta.

Desafios

Entre os principais desafios para as empresas brasileiras está a comunicação. Dominar o idioma inglês é essencial para estabelecer relações comerciais sólidas, afinal a fluência facilitará a abertura de portas e fortalece a confiança nas negociações.

Outro ponto importante a se atentar é sobre às exigências logísticas e regulatórias. A boa notícia é que nesse ponto já há empresas especializadas locais que oferecem suporte completo, desde o transporte até o desembaraço aduaneiro. “Grande parte da operação pode ser terceirizada, o que facilita o processo de internacionalização”, explica Barboza.

Melhores oportunidades

Segundo o gerente de exportação, o segmento de componentes para o mercado de reposição (aftermarket) representa uma porta de entrada estratégica para empresas brasileiras. “É um caminho mais acessível do que tentar ingressar diretamente com máquinas ou equipamentos completos”, avalia.

Em relação às regiões, os estados do Sul dos Estados Unidos, como: Geórgia, Alabama, Mississippi, Flórida, Carolinas, Oklahoma e Arkansas, tendem a oferecer maior abertura inicial para novos negócios. Os estados da costa Oeste e parte do Noroeste, como Idaho, Washington, Oregon e Califórnia, também demonstram boa receptividade. “Tive experiências positivas tanto com revendas vinculadas a grandes marcas quanto com independentes, que estão mais abertas a novas parcerias. Também destacaria o Texas como um mercado promissor”, relata Barboza.

Já o Corn Belt, principal região produtora de grãos do país, é preciso um pouco mais de atenção, pois apresenta maior grau de competitividade e barreiras de entrada mais elevadas. “É um mercado mais consolidado e disputado e continua sendo o ambiente mais desafiador e competitivo para quem deseja entrar no mercado americano. É uma região mais indicada para quem já está com a operação consolidada”, conclui o consultor.

Conflito derruba exportações para Golfo, mas trimestre segue positivo

O conflito no Oriente Médio já impacta as exportações brasileiras para os países árabes do Golfo, importantes mercados para produtos do agronegócio e minerais. As vendas para Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Bahrein e Omã — que formam o bloco econômico conhecido como Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) — caíram 31,47% em março na comparação anual, para US$ 537,11 milhões, segundo dados da Inteligência de Mercado da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.

Apesar do recuo no mês, o desempenho no trimestre ainda é positivo. De janeiro a março, as exportações para o CCG cresceram 8,14%, somando US$ 2,41 bilhões. Considerando todos os 22 países acompanhados pela entidade, incluindo as nações árabes do Levante e as africanas, a alta foi de 3,90%, para US$ 5,13 bilhões.

Segundo a Câmara Árabe, o fechamento do Estreito de Ormuz, que restringiu o acesso a portos estratégicos do Golfo, interrompeu uma trajetória de alta nas vendas brasileiras. O impacto ainda não compromete o resultado agregado, mas pode se intensificar ao longo do ano, dependendo da evolução do conflito.

“As vendas para o CCG, que concentra os maiores mercados árabes e responde por 47% das exportações para o bloco de países, vinham em alta em janeiro e fevereiro na comparação com 2025, segundo melhor ano da série histórica”, afirma o secretário-geral da Câmara Árabe-Brasileira, Mohamad Mourad. “O recuo de março decorre do conflito e, por ora, não afeta o acumulado, mas ainda pode trazer impactos”.

No agronegócio, que responde por cerca de 75% das vendas, as exportações para o CCG recuaram 25,38% em março, mas acumulam alta de 6,8% no trimestre, de US$ 1,44 bilhão, graças a ganhos em produtos importantes, contrabalançados por perdas em outros itens. Principal item da pauta agropecuária, o frango recuou 13,80% no mês, para US$ 185,50 milhões, mas só 2,32% no acumulado, para US$ 619,12 milhões.

O açúcar, segundo principal produto, recuou 43,37% em março, para US$ 54,07 milhões, mas avançou 26,41% no ano, para US$ 363,11 milhões. A carne bovina destoou, com alta de 23,87% no mês mais intenso do conflito, para US$ 47,75 milhões, além de avanço de 65,29% no trimestre, para US$ 194,56 milhões.

O milho praticamente deixou de ser embarcado ao CCG em março, com queda de 99,96%, para US$ 0,03 milhão, embora o recuo no acumulado ainda seja limitado a 5,8%, no total de US$ 61,22 milhões. Já o café registrou alta de 34,24% no mês de março, para US$ 9,97 milhões, e de 64,3% no trimestre, para US$ 49,58 milhões.

Outro ponto de atenção é o recuo nas importações brasileiras de fertilizantes provenientes do CCG, que caíram 51,35% no primeiro trimestre. A região responde por cerca de 10% do fertilizante adquirido pelo agronegócio brasileiro no exterior.

“Esse é um ponto que preocupa tanto o nosso agro quanto os países árabes, que dependem da capacidade do Brasil de disponibilizar alimentos excedentes”, pontua Mourad. “É preciso buscar formas de minimizar esses impactos”, finaliza.

Sindustrigo alerta para potencial alta de preços de farinha de trigo em São Paulo

A recente e relevante alta nos preços do diesel já gerou impacto nos preços dos fretes de trigo e de farinha de trigo. Segundo o Sindicato da Indústria do Trigo do Estado de São Paulo (Sindustrigo), este fator, alinhado à alta de preços das commodities nas bolsas e mercados físicos nacionais e do exterior, decorrente das incertezas do momento, pressiona toda a cadeia do cereal.

O conflito EUA x Irã, além de inflacionar o preço dos combustíveis, também compromete a disponibilidade de fertilizantes, ameaçando a produção agrícola em geral. “Este fator pode agravar a disponibilidade futura de trigo no estado, já que há sinalização de decréscimo na safra 26/27. As entidades ligadas ao agro relatam intenção do produtor em reduzir a área plantada no próximo ciclo, conforme apontado na reunião de março da Câmara Setorial do Trigo do estado de São Paulo”, pontua o presidente do Sindustrigo, Max Piermartiri

Outro fato é a entrada em vigor da Lei Complementar (LC) nº 224/2025, agravando os custos de aquisição da matéria prima trigo para os moinhos nacionais. A partir de 1º de abril a LC 224 cortou o crédito presumido de 3,23% para 2,91% e impõe 1,175% de PIS/COFINS em importados, sem o equivalente creditamento. Segundo estudos de especialistas tributários, a constitucionalidade pode ser questionada, porém os impactos já começam a surtir efeito.

O presidente do Sindustrigo ressalta o cenário de guerra fiscal no setor, decorrente de desequilíbrios tributários que favorecem moinhos de trigo de outras unidades federativas. “Nós levamos as demandas ao governo de São Paulo em busca de um diálogo que possa equilibrar a competição entre os estados e preservar a competitividade da indústria de trigo paulista, sem repassar de forma desproporcional os impactos ao consumidor final”, reforça.

Completando um cenário de volatilidade, o trigo na Bolsa de Chicago já vinha refletindo informes de problemas climáticos (seca) nas lavouras americanas. No cenário global, há sinalização de queda de produção na safra mundial de 2026/2027. A safra argentina 2025/26, com recorde de 29,5 milhões de toneladas, tem qualidade inferior, preocupando moinhos brasileiros e até mesmo os argentinos.

Diante desse cenário, o Sindustrigo reforça a importância de um diálogo constante entre governo, indústria, produtores e consumidores para mitigar os impactos da alta de preços da farinha de trigo em São Paulo. “A estabilidade da cadeia do trigo depende de políticas públicas alinhadas e de uma visão de longo prazo para o setor. Lembramos que a ação do Sindustrigo preza pelo equilíbrio de toda a cadeia do cereal, da lavoura à mesa do consumidor”, conclui o presidente do Sindustrigo.

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Guerras e tensões geopolíticas pressionam dólar e elevam custos industriais no Brasil

Conflitos internacionais e tensões geopolíticas têm ampliado a volatilidade econômica global e pressionado custos industriais em diversos países. Relatórios recentes do Fundo Monetário Internacional indicam que choques geopolíticos costumam provocar oscilações relevantes no câmbio e no preço de commodities estratégicas, como petróleo e gás natural. No Brasil, esses movimentos tendem a pressionar o dólar e encarecer importações, afetando diretamente empresas que dependem de insumos e componentes vindos do exterior.

Fábio Nascimento, contador e CEO do Grupo FN, afirma que o reflexo dessas tensões já aparece na gestão financeira de empresas brasileiras. Segundo ele, a volatilidade cambial tem impacto direto na estrutura de custos da indústria e exige planejamento mais rigoroso por parte das companhias. “Quando surgem conflitos internacionais relevantes, o primeiro reflexo costuma aparecer no câmbio e no preço das commodities. Isso encarece desde combustíveis até componentes importados, pressionando custos de produção e margens das empresas”, afirma.

Na prática, o impacto costuma atingir principalmente setores que dependem de componentes eletrônicos, equipamentos industriais e matérias-primas vindas do exterior. Com o dólar mais valorizado, empresas passam a pagar mais por itens essenciais à produção, o que pode reduzir competitividade ou exigir reajustes de preços.

Esse movimento é sentido também em polos industriais relevantes do país. Regiões como São José dos Campos, no interior de São Paulo, concentram empresas ligadas aos setores aeroespacial, tecnológico e manufatureiro, muitas delas dependentes de cadeias globais de suprimento. Nesses casos, oscilações cambiais e interrupções logísticas podem impactar diretamente o custo e o prazo de produção.

Nascimento explica que empresas que dependem de importações ou exportações precisam acompanhar com mais atenção o cenário internacional. “Instabilidade geopolítica não afeta apenas governos. Ela altera rotas comerciais, encarece transporte e pode atrasar entregas de insumos estratégicos. Empresas precisam considerar esse fator no planejamento financeiro e operacional”, diz.

Segundo ele, muitas companhias já começaram a revisar estratégias para reduzir exposição a riscos internacionais. “Negócios que dependem de cadeias globais de suprimento precisam estruturar mecanismos de proteção. Planejamento cambial, revisão de contratos e diversificação de fornecedores passam a ser decisões estratégicas”, afirma.

O especialista aponta cinco estratégias que empresas usam para reduzir riscos em meio a tensões geopolíticas. Entre as principais estratégias estão:

Diversificação de fornecedores internacionais: Empresas têm buscado ampliar a rede de fornecedores em diferentes países para reduzir dependência de regiões afetadas por conflitos ou restrições comerciais

Planejamento cambial e gestão financeira mais estruturada: Companhias passaram a monitorar mais de perto a exposição ao dólar e utilizar instrumentos financeiros para reduzir impactos de oscilações cambiais

Formação de estoques estratégicos: Algumas empresas têm ampliado estoques de componentes considerados críticos para evitar paralisações produtivas em momentos de instabilidade logística

Revisão da cadeia de suprimentos: Negócios passaram a avaliar alternativas de produção local ou fornecedores mais próximos para reduzir dependência de rotas internacionais

Apoio de consultorias especializadas: Empresas têm recorrido a especialistas em estratégia empresarial e comércio exterior para estruturar operações mais resilientes

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Segundo Nascimento, empresas que se antecipam a esse tipo de risco conseguem atravessar períodos de instabilidade com maior previsibilidade financeira. “Crises internacionais podem surgir rapidamente. Companhias que trabalham com análise de risco e planejamento estruturado tendem a reagir melhor a oscilações no câmbio e no custo de insumos”, afirma.

Para ele, a tendência é que tensões geopolíticas continuem influenciando a economia global nos próximos anos. “A globalização ampliou a integração entre mercados. Isso significa que conflitos ou tensões em determinadas regiões podem afetar cadeias produtivas em diferentes países, inclusive no Brasil”, diz.

Um mês de guerra: o conflito entre EUA, Israel e Irã e seus efeitos sobre a ordem internacional e a economia global

Um mês após o início dos ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o cenário internacional revela um conflito que evoluiu muito além das expectativas iniciais. Para João Alfredo Nyegray, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR), o que se observa neste primeiro mês de guerra é a rápida transição de uma operação militar pontual para um confronto com efeitos sistêmicos.

Segundo Nyegray, a reação do Irã foi amplamente subestimada por analistas e formuladores de política. “Havia uma expectativa de que o Irã teria uma resposta limitada ou enfrentaria instabilidade interna. O que vimos foi o oposto: uma resposta coordenada, com uso intensivo de mísseis, drones e ativação de aliados regionais, ampliando o conflito e elevando o custo estratégico para seus adversários”, afirma o professor.

Na avaliação do especialista, esse comportamento revela uma lógica central do equilíbrio de poder: mesmo atores com menor capacidade militar convencional podem compensar essa assimetria por meio de estratégias indiretas. “O Irã demonstrou capacidade de transformar vulnerabilidade em poder de pressão. Isso altera o cálculo estratégico de Estados Unidos e Israel”, destaca.

No plano geopolítico mais amplo, o professor Nyegray chama atenção para a atuação de Rússia e China. Embora não participem diretamente do conflito, ambos os países desempenham um papel relevante ao limitar o isolamento do Irã e reforçar a dinâmica de um sistema internacional cada vez mais multipolar. “A guerra evidencia que grandes potências não estão dispostas a permitir que uma única potência defina os resultados de crises regionais. Rússia e China operam como contrapesos indiretos, ainda que de formas distintas — Moscou mais alinhada politicamente e Pequim mais pragmática, sobretudo em função de seus interesses energéticos”.

Os efeitos econômicos da guerra já se fazem sentir de maneira significativa. O petróleo voltou a ultrapassar os US$ 100 por barril, impulsionado tanto por riscos à oferta quanto pelo aumento do prêmio geopolítico. A instabilidade no Estreito de Ormuz — responsável por cerca de 20% do fluxo energético global —, intensifica as preocupações com abastecimento e logística.

De acordo com o professor , “o impacto vai muito além do preço do combustível. Trata-se de um choque que se espalha por cadeias produtivas inteiras, afetando transporte, alimentos, indústria e inflação global. É a geopolítica entrando de forma direta no custo de vida”.

Nesse contexto, o Brasil apresenta uma posição relativamente diferenciada. Nyegray destaca que a estrutura consolidada de biocombustíveis no país atua como um amortecedor parcial. “O Brasil construiu, ao longo de décadas, uma matriz energética mais diversificada. O etanol e o biodiesel reduzem a dependência direta do petróleo e suavizam o impacto no consumidor”, explica.

Foto: Tara Winstead / Pexels.com

Ainda assim, o especialista alerta para limites dessa vantagem. “Os biocombustíveis não eliminam o problema. O diesel continua sendo um ponto de vulnerabilidade, e o país segue exposto ao aumento de custos logísticos e à inflação global. O que o Brasil tem é uma vantagem relativa, não uma blindagem”.

Para Nyegray, o primeiro mês de guerra já deixa claro que o conflito transcende o campo militar. “Estamos diante de um episódio que revela as transformações da ordem internacional. Energia, segurança e poder continuam profundamente interligados, e as empresas e governos que não incorporarem essa dimensão geopolítica em suas decisões estarão cada vez mais expostos a riscos”, conclui.

Ministério da Agricultura fecha acordo com Turquia para rota alternativa ao estreito de Ormuz

O Brasil garantiu a continuidade de uma rota alternativa via Turquia para o envio de exportações agropecuárias, diante das restrições no Estreito de Ormuz. A solução foi negociada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Com isso, a estrutura portuária turca segue como opção importante para cargas brasileiras com destino ao Oriente Médio e à Ásia Central, permitindo que as mercadorias sigam viagem sem a necessidade de passar pelo Golfo Pérsico.

Essa rota já era utilizada por exportadores brasileiros. No entanto, a Turquia passou a exigir novas regras sanitárias para produtos sujeitos ao controle veterinário oficial, como os de origem animal. Para evitar prejuízos ao fluxo das exportações, foi negociado o Certificado Veterinário Sanitário para Produtos Sujeitos a Controles Veterinários em Trânsito Direto pela República da Turquia ou para Armazenamento Temporário com Destino à Expedição para outro País/Navio.

Na prática, o documento permite que mercadorias brasileiras, especialmente produtos de origem animal, atravessem o território turco ou fiquem armazenadas temporariamente no país antes de seguirem para o destino final.

A medida confere mais segurança e previsibilidade aos exportadores brasileiros em um momento de instabilidade nas rotas internacionais e reforça a atuação do Mapa para manter o comércio agropecuário brasileiro em funcionamento.

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Brasil Soberano é ampliado com mais R$ 15 bi para apoio ao setor produtivo

com informações da Agência BNDES de Notícias

Por meio da Medida Provisória 1.345/2026, o Governo Federal ampliou o Plano Brasil Soberano, com mais R$ 15 bilhões de orçamento. O plano é gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Também foi sancionada a Lei Federal nº 15.359/26 que cria o Sistema Brasileiro de Crédito Oficial à Exportação, cujo projeto de lei (nº 6139/23) foi aprovado no Congresso Nacional no início deste mês.

Os recursos do Brasil Soberano vão apoiar as empresas brasileiras exportadoras e aquelas relevantes para a balança comercial nacional em meio a razões geopolíticas e de instabilidade internacional, como é o caso daquelas afetadas pela guerra no Oriente Médio e as que ainda enfrentam as medidas tarifárias impostas pelo governo do Estados Unidos.

Serão até R$ 15 bilhões em recursos que poderão utilizar: o superávit financeiro do Fundo de Garantia à Exportação (FGE), apurado em 31 de dezembro de 2025, inclusive do principal; o superávit financeiro, apurado em 31 de dezembro de 2025, de fontes supervisionadas por unidades do Ministério da Fazenda; e outras fontes orçamentárias. Terão direito à linhas de crédito a empresas exportadoras de bens industriais e seus fornecedores e aquelas que atuam em setores industriais com relevância no comércio exterior brasileiro.

“No ano passado, o Brasil Soberano aprovou mais de R$ 16 bilhões em crédito para as empresas mais atingidas pelo tarifaço imposto unilateralmente pelos Estados Unidos. Agora, com o Brasil Soberano 2, o governo do presidente Lula vai apoiar empresas de setores que ainda sofrem com tarifas elevadas, como siderúrgico, metalúrgico e automotivo, no segmento de autopeças, assim como aqueles setores relevantes para a balança comercial brasileira, como farmacêutico, de máquinas e equipamentos e eletrônicos, além de outros setores importantes, impactados com a falta de fertilizantes devido aos conflitos que acontecem em outros países. É um apoio muito importante, sobretudo para garantir a manutenção dos empregos e da competitividade das empresa nacionais”, explica o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

As linhas de crédito vão financiar: capital de giro; aquisição de bens de capital ou investimentos para adaptação da atividade produtiva; investimentos que propiciem a ampliação da capacidade produtiva ou adensamento da cadeia; investimentos em inovação tecnológica ou adaptação de produtos, serviços e processos; e outras hipóteses, conforme estabelecido em ato conjunto dos Ministros de Estado do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e da Fazenda.

As condições, encargos financeiros, prazos e demais normas regulamentadoras das linhas de financiamento serão estabelecidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Os ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços definirão os critérios de elegibilidade às linhas de financiamento e demais normas complementares necessárias à implementação.

“O governo do presidente Lula mais uma vez se antecipa para apoiar a indústria brasileira e preservar empregos. Os recursos serão fundamentais para garantir às empresas produtividade e competitividade no mercado internacional”, afirmou o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin.

Foto: Wolfgang Weiser / Pexels.com

Exportação de serviços – O projeto de lei que cria o Sistema Brasileiro de Crédito Oficial à Exportação moderniza o seguro e o financiamento às exportações brasileiras e traz aprimoramentos para a atuação do BNDES. A nova lei consolida o alinhamento das práticas brasileiras às internacionalmente adotadas e dá segurança jurídica e política ao corpo técnico do Banco.

A garantia de maior transparência será adotada com a criação de um portal único para centralizar as informações sobre todas as operações aprovadas. Uma vez por ano, o BNDES vai apresentar à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal o portfólio de projetos. A medida permitirá maior interlocução e acompanhamento mais próximo por parte dos congressistas.

A nova lei incorpora regra que já constava em normativos internos do Banco e que estabelecia que países inadimplentes com o Brasil não poderão tomar novos empréstimos com o BNDES até a regularização da sua situação. O PL também estabelece mecanismos para incentivar operações que envolvam economia verde e descarbonização. Outra novidade é a possibilidade de cobertura do risco comercial enfrentado pelas micro, pequenas e médias empresas em operações com prazo de até 750 dias na fase de pré-embarque. Até então, o limite era de 180 dias.

A lei também estabelece regras para operacionalizar o Fundo Garantidor de Operações de Comércio Exterior (FGCE), instituído pela Lei Federal 12.712/2012 como um fundo com natureza jurídica de direito privado, criado para dar suporte a exportações brasileiras contra riscos comerciais.