Da floresta ao crédito, a tokenização pode transformar ativos ambientais em valor para o agronegócio

por Sergio Rocha*

Por muito tempo, a floresta em pé e a conservação de áreas nativas foram tratadas pelo agronegócio principalmente sob a ótica da obrigação legal. Essa lógica começa a mudar à medida que o sistema financeiro passa a incorporar dados ambientais, territoriais e climáticos à avaliação de risco e à concessão de crédito. Ao mesmo tempo, uma transformação mais ampla está em curso no mercado financeiro global: a digitalização e a tokenização de ativos reais. O conceito permite que ativos físicos e financeiros sejam representados digitalmente, fracionados e, em determinadas estruturas, negociados de forma mais ágil, com o uso de contratos inteligentes e novas infraestruturas.

O debate ganhou força no Brasil com o avanço da digitalização do sistema financeiro e de iniciativas relacionadas ao Drex (moeda digital oficial do Brasil, criada e emitida pelo Banco Central). Mais do que uma evolução tecnológica, esse movimento aponta para uma mudança na forma como ativos reais podem ser identificados, comprovados, representados e conectados ao capital. Para o agro brasileiro, essa transformação abre uma discussão particularmente relevante: o território e seus ativos naturais podem deixar de ser elementos de risco ou conformidade e passar a representar também valor econômico?

O Brasil possui um dos maiores estoques de recursos naturais do planeta. Além da produção agrícola e pecuária, as propriedades rurais concentram áreas de vegetação nativa, recursos hídricos, potencial de geração de créditos de carbono, biodiversidade e espaços que podem ser destinados à restauração. Estudos recentes estimam que a recuperação de áreas degradadas no país possa gerar até US$ 141 bilhões em valor econômico nas próximas três décadas, considerando receitas associadas a carbono, produtos florestais, bioeconomia e outros usos produtivos.

A realidade começa a mudar

O avanço das exigências ambientais e de rastreabilidade faz com que as informações sobre o território passem a ter impacto direto sobre decisões financeiras. Para bancos, seguradoras, tradings e grandes empresas compradoras, saber onde uma propriedade está, qual é seu histórico ambiental, se existem embargos ou sobreposições e quais são seus riscos climáticos deixou de ser uma informação secundária. Esses dados passaram a fazer parte da avaliação do negócio.

Essa mudança cria uma situação que pode parecer contraditória. O mesmo ativo ambiental que hoje pode contribuir para restringir o acesso a determinadas linhas de crédito, quando associado a irregularidades ou riscos, pode no futuro ajudar a demonstrar menor exposição a riscos e sustentar novas formas de financiamento.

Para isso, entretanto, não basta afirmar que uma propriedade é sustentável ou que determinada área está preservada. É necessário comprovar essa condição por meio de dados confiáveis, monitoramento contínuo e mecanismos de auditoria. É nesse ponto que o território começa a assumir uma nova função. Além de espaço de produção, passa a ser também uma fonte de informação capaz de influenciar decisões financeiras.

O capital está mais caro e as exigências são maiores

Essa discussão ganha ainda mais relevância diante da realidade financeira enfrentada pelo agro. O setor convive com cerca de R$ 180 bilhões em endividamento, juros entre 18% e 20% ao ano e gargalos históricos de infraestrutura e escoamento, incluindo limitações no Arco Norte e nos portos tradicionais. Ao mesmo tempo, as regras de acesso ao capital estão mudando.

No mercado internacional, o acordo Mercosul-União Europeia e a regulamentação europeia antidesmatamento (EUDR) ampliam as exigências de rastreabilidade das cadeias que acessam aquele mercado. No ambiente doméstico, as regras do Conselho Monetário Nacional (CMN) também aumentam a importância da regularidade ambiental para o acesso ao crédito rural, com exigências relacionadas ao monitoramento do desmatamento e aplicação escalonada de novas restrições a partir de 2027.

Nesse cenário, comprovar a regularidade e o perfil de risco de uma propriedade passa a ser também uma questão financeira. É justamente nesse ponto que a inteligência territorial ganha importância. O cruzamento de informações de sensoriamento remoto, dados climáticos, registros ambientais, histórico de uso do solo, informações financeiras e dados de mercado permite construir uma visão mais completa do risco associado a uma propriedade ou a uma cadeia de fornecimento. Essa inteligência também pode ampliar a utilização de instrumentos como os seguros paramétricos. O objetivo passa a ser compreender como as características ambientais e territoriais daquela propriedade interferem em seu risco financeiro e operacional.

Tokenização

É nesse ambiente que a tokenização torna-se relevante para o agronegócio. A ideia não é transformar toda propriedade rural ou toda floresta em um token. O ponto central é outro. Ativos reais e ambientais que possam ser mensurados, comprovados e auditados podem, em determinadas estruturas, ser representados digitalmente e conectados a instrumentos financeiros. Créditos de carbono, projetos de restauração, ativos relacionados à geração de energia renovável e outros instrumentos ambientais são exemplos de mercados que podem se beneficiar dessa infraestrutura.

Mas existe uma condição fundamental, a confiança. Um ativo digital só terá valor financeiro se houver segurança sobre aquilo que ele representa. No caso dos ativos ambientais, isso significa comprovar sua existência, localização, integridade, titularidade, adicionalidade, quando aplicável, e ausência de dupla contagem ou de outros riscos que comprometam sua qualidade.

Em outras palavras, não basta criar o token. É preciso garantir o lastro. Essa é uma das razões pelas quais a inteligência territorial tende a ganhar importância na próxima etapa da transformação financeira. Quanto maior a capacidade de comprovar o que existe em determinado território, maior será a possibilidade de transformar essa informação em confiança e, potencialmente, em valor econômico.

O território como nova camada de informação financeira

Um banco precisa avaliar riscos para conceder crédito. Uma seguradora precisa precificar uma operação. Uma trading precisa comprovar a origem de uma commodity. Uma indústria precisa monitorar sua cadeia de fornecedores. Um investidor precisa saber se determinado ativo ambiental possui lastro e integridade. Em todos esses casos, existe uma pergunta em comum. O que, de fato, existe naquele território e qual é o risco associado a ele?

A resposta dependerá cada vez mais da capacidade de transformar dados dispersos em informações verificáveis e economicamente úteis. A Inteligência Artificial (IA) pode acelerar esse processo ao cruzar grandes volumes de dados territoriais, climáticos, ambientais, mercadológicos e financeiros. O avanço mais importante, portanto, não está apenas em utilizar IA para aumentar a produtividade da lavoura, mas também em empregá-la para compreender, monitorar e precificar os riscos associados ao território. O grande movimento, portanto, não é apenas tecnológico, mas econômico. O território começa a produzir uma nova camada de informação capaz de influenciar risco, crédito, seguro, rastreabilidade e, potencialmente, o próprio valor dos ativos.

Para o agronegócio brasileiro, que reúne uma das maiores capacidades produtivas do mundo e um dos maiores estoques de capital natural do planeta, essa mudança pode representar uma nova fronteira ao transformar informação ambiental confiável em infraestrutura para acesso ao capital. A floresta em pé pode continuar sendo patrimônio ambiental. Mas, em um sistema financeiro cada vez mais orientado por dados, ela também poderá ser reconhecida como parte de um patrimônio econômico, desde que seu valor seja comprovado, mensurado e sustentado por dados confiáveis.

*CEO e fundador da Agrotools.

Digitalização transforma a gestão das fazendas e amplia a rentabilidade do agronegócio brasileiro

A transformação digital tem ganhado espaço nas propriedades rurais brasileiras e redefinido a forma como os produtores planejam suas compras, acessam crédito e tomam decisões estratégicas para a safra. Mais do que simplificar processos, a tecnologia vem contribuindo diretamente para a eficiência operacional e para o aumento da rentabilidade no campo.

A evolução dos marketplaces agrícolas e dos ecossistemas digitais criou um novo cenário para os produtores rurais. Em um mercado altamente influenciado por fatores externos, como oscilações climáticas e preços internacionais das commodities, a gestão eficiente dos custos de produção tornou-se uma das principais ferramentas para preservar margens e garantir competitividade.

Nesse contexto, plataformas digitais especializadas permitem que agricultores comparem ofertas, condições comerciais, prazos de pagamento e fornecedores em um único ambiente, ampliando seu poder de negociação e proporcionando mais transparência ao processo de compra de insumos.

“A digitalização trouxe um novo patamar de autonomia para o produtor rural. Hoje ele tem acesso a informações que antes estavam dispersas, consegue comparar alternativas de forma rápida e tomar decisões mais embasadas. Isso fortalece sua capacidade de gestão e contribui diretamente para a rentabilidade da propriedade”, afirma Ivan Moreno, CEO da Orbia.

Os resultados desse movimento já podem ser observados na prática. Um estudo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), apontou que propriedades que adotaram tecnologias digitais registraram aumento médio de 18,7% na produtividade, além de uma redução de 12,3% no consumo de insumos agrícolas, como fertilizantes e defensivos. O levantamento também revelou que fazendas com alto grau de digitalização apresentam rentabilidade 23% superior em comparação àquelas que ainda operam com modelos tradicionais de gestão.

Além da comparação de preços, a digitalização vem promovendo maior transparência em toda a cadeia de suprimentos. Com informações mais acessíveis e reputações de fornecedores visíveis, fatores como assistência técnica, logística e pós-venda passaram a ter peso cada vez maior na decisão de compra.

Outro avanço importante está na integração de soluções financeiras às plataformas digitais. A partir do histórico de transações e do comportamento de compra dos produtores, torna-se possível oferecer condições de crédito mais aderentes à realidade de cada operação, contribuindo para o planejamento financeiro da safra.

“O futuro do agro digital vai muito além da compra online de insumos. Estamos caminhando para ecossistemas integrados, nos quais produtores, distribuidores, cooperativas, indústrias e instituições financeiras atuam conectados. Essa integração gera mais eficiência para toda a cadeia e cria oportunidades para que o agricultor tenha acesso a soluções cada vez mais completas”, destaca Moreno.

Esse modelo já faz parte da realidade da Orbia, que nasceu como um programa de fidelidade e hoje reúne soluções completas para a cadeia agrícola. A plataforma conecta produtores, revendas, distribuidores, cooperativas e instituições financeiras em um ambiente digital onde é possível cotar, comprar e pagar por insumos, além de acessar benefícios, soluções financeiras e ferramentas de gestão.

À medida que a transformação digital avança, especialistas apontam que a tendência é de consolidação de ecossistemas cada vez mais robustos, capazes de integrar dados, serviços, crédito e inteligência de mercado. Para o produtor rural, isso representa mais previsibilidade, maior controle sobre os custos e melhores condições para enfrentar os desafios de um setor cada vez mais dinâmico e competitivo.

Foto: Magnific

O segredo que nenhuma IA consegue copiar: por que as imperfeições humanas criam os melhores líderes

O avanço dos assistentes virtuais e das ferramentas de inteligência artificial generativa acendeu um alerta nas salas de reunião do mundo corporativo: será que o papel dos líderes corre o risco de ser automatizado nos próximos anos?

Para a dra. Eve Poole OBE, professora associada da Hult International Business School e pesquisadora de liderança, a resposta é um sonoro não. Por mais avançados que os algoritmos se tornem na análise de dados e no raciocínio lógico, existe um ecossistema complexo de habilidades que a tecnologia simplesmente não consegue programar.

Trata-se do que a pesquisadora batizou de “código imperfeito humano”, um conjunto de características genuinamente nossas que forma a espinha dorsal de uma liderança inspiradora. “Nunca enfrentamos um concorrente como a inteligência artificial. Jamais tivemos algo capaz de executar tantas tarefas que considerávamos exclusivas. Precisamos parar de competir em lógica com as máquinas e focar no que nos torna profundamente humanos”, destaca a dra. Poole.

O que é o “código imperfeito humano”?

Muitas vezes visto pelo mundo corporativo tradicional como uma fragilidade, esse “código” é, na verdade, um mecanismo evolutivo de sobrevivência desenvolvido ao longo de milhares de anos. Na prática, liderar significa tomar decisões em cenários incertos para proteger e direcionar um grupo — algo que algoritmos determinísticos não fazem de forma autônoma.

Segundo a especialista, o código imperfeito é composto por cinco pilares:

Emoção: Cria conexão genuína e senso de comunidade, dando propósito real às escolhas corporativas.

Intuição: O famoso “feeling” que guia decisões rápidas quando não há dados suficientes na mesa.

Convivência com a incerteza: A capacidade mental de sustentar paradoxos e evitar conclusões precipitadas em momentos de crise.

Consciência moral: O filtro ético que evolui com a experiência e baliza o que é certo ou errado além dos números.

Construção de significado (storytelling): A habilidade de traduzir metas frias em histórias que engajam e motivam equipes no dia a dia.

    A armadilha da comunicação pasteurizada por máquinas

    O reflexo desse fenômeno já é visível no cotidiano das empresas. Quando gestores recorrem excessivamente à IA para redigir e-mails, alinhar expectativas ou estruturar feedbacks, correm o risco de “limpar” do texto o elemento mais valioso: a conexão emocional.

    Processos fundamentais de gestão, como mentoria, construção de cultura organizacional e definição de visão de futuro, dependem do fator humano. Sem a empatia e a vulnerabilidade, declarações de missão viram frases genéricas e reuniões perdem a capacidade de inspirar.

    Foto: Kindel Media / Pexels.com

    O futuro do trabalho pertence aos líderes autênticos

    O grande desafio para os executivos de hoje não é aprender a programar, mas sim aprender a confiar em seus próprios instintos. Em um mercado saturado de respostas automatizadas e relatórios padronizados, o diferencial competitivo estará nos profissionais capazes de equilibrar dados analíticos com inteligência emocional.

    À medida que as rotinas operacionais passam a ser absorvidas pelos robôs, os colaboradores buscarão algo que máquina nenhuma pode fornecer: humanidade, abrigo ético e norte estratégico.

    Como resume a pesquisadora, “o código imperfeito ensina o que significa ser humano. E enquanto liderar for, essencialmente, guiar outras pessoas, ele continuará sendo tudo o que você precisa”.

    Da experiência do campo à inteligência artificial: por que aplicativos estão mudando a forma de tomar decisões no agro

    por Vitor Borges*

    O agronegócio sempre incorporou tecnologia para produzir mais. Máquinas agrícolas, irrigação automatizada, sementes melhoradas e agricultura de precisão transformaram a produtividade nas últimas décadas. Agora, uma nova mudança começa a ganhar espaço dentro das propriedades: o uso de aplicativos inteligentes para apoiar decisões técnicas no campo.

    Essa transformação vai além da digitalização de processos. O que muda é a velocidade com que informações agronômicas deixam de depender exclusivamente da experiência acumulada do produtor e passam a ser organizadas, registradas e analisadas continuamente. Em um cenário de mudanças climáticas, aumento dos custos de produção e necessidade de maior eficiência, a gestão baseada em dados tende a se tornar um dos principais diferenciais competitivos da agricultura.

    Esse movimento acompanha uma tendência global. O relatório The Future of AI in Agriculture, publicado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), aponta que a inteligência artificial vem ampliando a capacidade de monitorar lavouras, identificar pragas, otimizar irrigação e apoiar decisões agronômicas em tempo real. Segundo a entidade, essas ferramentas devem desempenhar um papel cada vez mais relevante na produção de alimentos diante da necessidade de elevar a produtividade utilizando menos recursos naturais (FAO. The Future of Artificial Intelligence in Agriculture. Roma, 2024).

    Ao mesmo tempo, um levantamento da McKinsey & Company mostra que produtores que incorporam tecnologias digitais conseguem melhorar a eficiência operacional, reduzir desperdícios e aumentar a previsibilidade das operações agrícolas. O estudo destaca que o maior benefício da agricultura digital não está apenas na coleta de dados, mas na capacidade de transformar essas informações em decisões práticas durante o ciclo produtivo (McKINSEY & COMPANY. Agriculture’s Connected Future: How Technology Can Yield New Growth. 2024).

    Embora essas pesquisas evidenciem o potencial da agricultura digital, a adoção de aplicativos no campo ainda enfrenta um desafio importante: disponibilizar informação não significa, necessariamente, gerar melhores decisões. Na prática, muitos produtores possuem acesso a diferentes ferramentas, mas ainda encontram dificuldade para interpretar os dados e convertê-los em ações agronômicas.

    Foi justamente a partir dessa necessidade que desenvolvi o que denomino Framework M.A.N.E.J.O., uma metodologia construída a partir da observação de milhares de dúvidas recorrentes apresentadas por produtores rurais ao longo dos últimos anos.

    O framework organiza o processo decisório em seis etapas complementares:

    M – Monitoramento contínuo: registro frequente das condições da lavoura por imagens, observações de campo e indicadores agronômicos.

    A – Análise técnica: interpretação das informações coletadas para identificar riscos relacionados a pragas, doenças, nutrição vegetal ou estresse hídrico.

    N – Normalização das decisões: adoção de protocolos técnicos padronizados para reduzir decisões baseadas exclusivamente na percepção individual.

    E – Execução orientada: implementação das recomendações agronômicas de forma planejada e documentada.

    J – Jornada de acompanhamento: monitoramento contínuo da resposta da cultura às intervenções realizadas.

    O – Otimização permanente: utilização dos resultados obtidos para aperfeiçoar as decisões ao longo dos ciclos seguintes.

    Esse modelo parte de um princípio simples: aplicativos agrícolas não substituem o conhecimento técnico do produtor ou do agrônomo. Eles ampliam a capacidade de registrar informações, identificar padrões e reduzir o tempo entre a observação do problema e a tomada de decisão.

    Na cultura do maracujá, por exemplo, onde concentrei grande parte da minha atuação técnica, essa abordagem mostrou impactos relevantes. Enquanto dados do IBGE apontam produtividade média nacional próxima de 15,6 toneladas por hectare, propriedades que adotaram manejo sistematizado, acompanhamento contínuo, protocolos padronizados e monitoramento permanente alcançaram produtividades entre 40 e 45 toneladas por hectare. Embora diversos fatores influenciem esse resultado — como clima, solo, variedade e manejo — a organização das informações e a rapidez na tomada de decisão mostraram-se componentes importantes desse desempenho.

    Foto: Tim Mossholder / Pexels.com

    Dentro desse contexto foi desenvolvido o Manejo Pro, utilizado como plataforma de apoio para aplicação prática do Framework M.A.N.E.J.O. O aplicativo reúne inteligência artificial, banco de conhecimento técnico, registros de campo e acompanhamento das operações agrícolas em um único ambiente. Mais do que oferecer respostas prontas, seu objetivo é estruturar informações para apoiar decisões técnicas durante todo o ciclo produtivo.

    A tendência é que esse tipo de ferramenta se torne cada vez mais comum à medida que a agricultura incorpora inteligência artificial, visão computacional, sensores e análise preditiva. No entanto, seu verdadeiro valor não estará na tecnologia em si, mas na capacidade de integrar conhecimento agronômico, gestão da propriedade e tomada de decisão baseada em evidências.

    O futuro da agricultura digital não será definido pelos aplicativos capazes de gerar mais informações, mas por aqueles que conseguirem transformar informação em decisão técnica de qualidade. A tecnologia continuará evoluindo rapidamente. O diferencial permanecerá sendo a capacidade de utilizá-la para produzir com mais eficiência, previsibilidade e rentabilidade.

    *Especialista em manejo agrícola, produtividade e rentabilidade no agronegócio. Atua no desenvolvimento de metodologias para gestão da produção rural, manejo de culturas, irrigação, nutrição vegetal e controle fitossanitário, com foco na integração entre conhecimento agronômico e tecnologias digitais aplicadas ao campo.

    BNDES amplia orçamento e setores beneficiados pelo Mais Inovação

    O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ampliou o orçamento e os setores e itens financiáveis do BNDES Mais Inovação e aprovou condições mais favoráveis de financiamento. O protocolo para que o setor produtivo possa solicitar crédito nas novas regras – que valem para os financiamentos realizados por meio da rede de agentes financeiros credenciados – foi aberto esta semana. 

    O orçamento do Mais Inovação para 2026 será de R$ 12 bilhões, um aumento de R$ 4,8 bilhões em relação ao destinado inicialmente em 2026. Deste total, no mínimo R$ 840 milhões deverão ser destinados às regiões Norte e Nordeste e R$ 1,1 bilhão para financiar máquinas industriais.

    Foram incluídos no programa os empresários individuais e as pessoas físicas que exerçam atividade econômica nos setores agropecuário, de produção florestal, de pesca e aquícola, inclusive nos serviços diretamente a elas relacionados. Outra novidade foi a inclusão de bens de informática – são mais de 1.000 (mil) itens aptos a serem financiados.

    “Ao elevarmos o orçamento e incluímos novos setores beneficiados, estamos respondendo aos desafios da nova economia e reafirmando que inovação não está reservada às grandes corporações. É o caminho para que o Brasil produza mais, exporte mais e gere empregos de maior qualidade”, afirmou Aloizio Mercadante, presidente do BNDES.

    Em relação às condições de financiamento, houve redução da remuneração básica do BNDES para aquisição de máquinas e equipamentos, de 2,5% ao ano para 2% a.a.. Na linha máquinas industriais, houve unificação do spread do BNDES para 1,4% a.a. para todos os portes.

    Também foram alteradas as faixas de enquadramento da Taxa Fixa Composta em TR (TFC), que passarão a ser definidas em função do porte do cliente final. As estimativas, com data-base em 12 de maio de 2026, eram de 5,75% a.a. para micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) e 6,88% a.a. para grandes empresas.

    Entre 2023 e 2025, o BNDES já aprovou R$ 35,6 bilhões para inovação, volume que supera a soma do realizado nos onze anos anteriores (R$ 34,8 bilhões).

    Foto: Getty Images

    Uso de drone avança, redefine eficiência no campo, mas precisa de apoio estratégico de adjuvante

    O uso de drones agrícolas no Brasil deixou de ser tendência para se consolidar como uma das principais transformações tecnológicas no campo. Com avanços contínuos em capacidade de carga, velocidade e sistemas de atomização, esses equipamentos já são realidade em diversas culturas e regiões, impulsionando ganhos operacionais e abrindo novas fronteiras para a agricultura de precisão.

    Dados de mercado indicam que o segmento cresce a taxas anuais superiores a dois dígitos no país, acompanhando a digitalização do agro e a busca por soluções mais eficientes e sustentáveis. A adoção se expande tanto em grandes propriedades quanto em áreas menores, refletindo sua versatilidade. “O drone é uma tecnologia que chegou para ficar. Ele vem evoluindo constantemente e hoje já atende desde culturas anuais até sistemas perenes e silvopastoris, com aplicações cada vez mais assertivas”, afirma Alexandre Gazoni, engenheiro agrônomo, especialista em aplicações agrícolas e diretor comercial da Sell Agro.

    Atualmente, culturas como soja, milho e algodão lideram o uso da tecnologia, mas o avanço já alcança também lavouras perenes, como café, oliveira e noz-pecã. O diferencial está, sobretudo, na capacidade de atuação em áreas de difícil acesso, como terrenos alagados, encostas e regiões onde máquinas enfrentam limitações operacionais. “Em uma área alagada, por exemplo, muitas vezes é preciso esperar o solo secar para entrar com máquinas. Nesse intervalo, a praga pode causar danos significativos. Com o drone, é possível agir rapidamente e evitar perdas”, destaca Gazoni.

    Além da acessibilidade, a agilidade operacional é um dos principais ganhos. O uso de drones permite intervenções mais rápidas, especialmente em condições adversas, como após chuvas ou em terrenos irregulares. Esse fator impacta diretamente o rendimento das operações e a eficiência do controle fitossanitário.

    Outro ponto relevante é a redução de perdas mecânicas. Na cultura da soja, por exemplo, a substituição de máquinas terrestres por drones e aeronaves elimina o amassamento de plantas, o que pode representar uma economia de até cinco sacas por hectare em determinadas fases da lavoura. “O drone permite preservar a lavoura em momentos críticos, como na dessecação, pois evitar o tráfego de máquinas nesse período pode fazer diferença direta no resultado produtivo”, explica o especialista.

    Em cenários operacionais mais restritivos, como áreas próximas a comunidades, o VANT (Veículo Aéreo Não Tripulado) também se destaca. Diferentemente da aviação agrícola, que possui limitações legais de distância, o equipamento pode operar com maior proximidade, ampliando a cobertura e garantindo maior controle fitossanitário.

    Adjuvantes como aliados

    Nesse contexto, os adjuvantes assumem papel central para garantir a eficiência das aplicações. Esses insumos são responsáveis por preservar a integridade das gotas, reduzir perdas por evaporação e deriva, além de melhorar a absorção dos ativos pelas plantas. “O adjuvante é fundamental porque protege a gota e permite que o produto chegue com mais precisão ao alvo. Ele reduz perdas para a atmosfera e aumenta a eficiência das pulverizações”, afirma Gazoni.

    Segundo o especialista, o uso correto desses produtos contribui diretamente para o desempenho agronômico, favorecendo maior cobertura foliar, melhor translocação dos ativos e menor risco de fitotoxicidade. Em condições climáticas desafiadoras, como altas temperaturas, seu papel se torna ainda mais estratégico. “O produto adequado ajuda a manter a gota viável por mais tempo, reduzindo evaporação e protegendo contra fatores como vento e radiação ultravioleta. Isso garante que uma maior concentração da calda atinja a planta”, complementa.

    Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta desafios técnicos importantes. O principal deles é garantir que a eficiência das aplicações com drones se equipare às operações motorizadas tradicionais, que utilizam maiores volumes de calda. “O desafio é equilibrar a eficiência operacional do VANT com a qualidade técnica da aplicação. Isso passa, necessariamente, pela regulagem correta, escolha adequada de adjuvantes e manejo das condições climáticas”, ressalta Gazoni.

    A democratização da tecnologia também chama atenção. Atualmente, há modelos de drones que atendem desde pequenos produtores até grandes operações agrícolas, ampliando o acesso e consolidando seu uso em diferentes perfis de propriedade.

    Para não errar!

    Entre os erros mais comuns, Gazoni aponta falhas na regulagem do tamanho de gotas, velocidade de operação e escolha inadequada de adjuvantes, fatores que podem comprometer significativamente o desempenho das pulverizações.

    Olhando para o futuro, a expectativa é de expansão acelerada do uso de drones no campo, acompanhada por avanços em eficiência e novas soluções tecnológicas. A evolução deve estar diretamente ligada ao desenvolvimento de adjuvantes específicos para ultrabaixa vazão, proteção molecular e estabilização de misturas. “A tendência é trabalhar com volumes cada vez menores, mas com alta eficiência. Para isso, o uso do adjuvante correto será ainda mais estratégico. Já existem tecnologias sendo desenvolvidas com foco nesse cenário”, conclui o diretor da Sell Agro.

    IA: é preciso desmistificar para transformar 

    por Tânia Alves*

    A Inteligência Artificial ainda é cercada por muitas ideias equivocadas no mundo corporativo. Na maioria das vezes, ela é vista como algo quase “mágico”, que pensa sozinha ou que possui uma vontade própria para tomar decisões. No entanto, quando olhamos de perto, a realidade é bem mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais poderosa do que a ficção. 

    Segundo estudo divulgado pela Newnew, 80% das empresas participantes utilizam algum tipo de aplicação da IA. Por sua vez, apesar da ampla presença da tecnologia, o nível de maturidade organizacional ainda é limitado, sendo que apenas 11% das lideranças avaliam que a implementação “deu certo”, enquanto a maior parte continua no nível intermediário. 

    Antes de tudo, é fundamental desconstruir a ideia de que a IA pensa como um ser humano. Afinal, ela não tem consciência, não possui intenção e não “decide” no sentido humano da palavra. O que ela faz, na verdade, é algo mais objetivo: identificar padrões em grandes volumes de dados e usá-los para prever ou sugerir decisões futuras. Na prática, o processo é lógico. A tecnologia recebe os registros, sejam eles históricos ou em tempo real, aprende como essas informações se relacionam entre si e, com base nisso, aponta o que é mais provável de acontecer em um determinado cenário. 

    Para ilustrar, podemos imaginar uma máquina que começa a apresentar pequenas variações antes de falhar completamente. Para um operador humano, essas mudanças podem ser imperceptíveis no início. Entretanto, a IA, ao analisar o histórico desses eventos e reconhecer o padrão que antecede uma quebra, consegue prever o problema muito antes de ele ocorrer. Isso não é intuição, é processamento de dados puro. 

    No entanto, para que toda essa estrutura funcione bem, a IA depende de três elementos principais. O primeiro, e talvez o mais importante, são os dados. Sem eles, não existe inteligência, visto que são o combustível que alimenta todo o processo, venham eles de ERPs, CRMs ou de sensores espalhados por uma linha de produção. Contudo, aqui existe um ponto de atenção crucial: não se trata apenas de ter um volume gigantesco de informações, mas sobre ter dados bons. Até porque, se estiverem incompletos, desatualizados ou incorretos, a ferramenta também vai errar em suas previsões. 

    O segundo pilar são os modelos, que nada mais são do que a “inteligência” por trás da tecnologia. Sem entrar em termos técnicos complexos, podemos pensar neles como formas de ensinar a máquina a reconhecer os padrões. Existem diversos tipos de modelos, mas todos compartilham o mesmo objetivo final: transformar dados brutos em previsões ou recomendações que façam sentido para o negócio. Por fim, o terceiro elemento é a capacidade de processamento, e é aqui que entram soluções essenciais como a computação em nuvem e equipamentos de alto desempenho, que permitem que a IA funcione tanto em grandes servidores quanto diretamente no chão de fábrica, onde a decisão precisa ser imediata. 

    Compreender esses pilares ajuda a entender por que a IA deixou de ser uma tendência e se tornou um diferencial competitivo indispensável hoje. O motivo é simples: ela ajuda as empresas a tomarem decisões melhores e mais rápidas. Em um mercado onde a agilidade é tudo, antecipar problemas antes que eles aconteçam, automatizar análises que levariam dias para serem feitas manualmente e reduzir incertezas são vantagens que colocam qualquer operação em outro nível. O impacto é muito concreto e pode ser visto em diversas frentes. No setor industrial, o foco está em prever falhas e melhorar a qualidade dos produtos. No backoffice, a IA ajuda a identificar desvios e padrões em indicadores financeiros que poderiam passar despercebidos. No comercial, ela permite prever a demanda com uma precisão muito maior, evitando estoques parados ou falta de produtos. No fim das contas, empresas que usam a tecnologia bem aplicada erram menos e reagem mais rápido às mudanças. 

    Apesar de todo esse potencial, é preciso entender que ela não resolve todos os problemas. Existem limitações claras que todo gestor deve conhecer. A primeira é a dependência absoluta de dados de qualidade. Além disso, falta ao recurso o que chamamos de contexto humano. Afinal, a IA não entende de cultura organizacional, não compreende estratégia de longo prazo e não possui sensibilidade emocional. Ela funciona melhor em cenários específicos e sua implementação exige investimento, especialmente na organização dos dados e na integração com os sistemas que a empresa já utiliza. 

    Sendo assim, adotar a Inteligência Artificial não é apenas uma decisão técnica, mas uma decisão de responsabilidade. É fundamental manter a transparência, entendendo como a ferramenta chegou a uma conclusão, e garantir uma governança de dados que preze pela segurança. A supervisão humana deve ser constante, pois a decisão final continua sendo de quem entende do negócio e, neste caso, a tecnologia deve apoiar o julgamento humano, nunca o substituir completamente. 

    Empresas que compreendem essa estrutura evitam investimentos sem retorno e focam em gerar valor real. A pergunta que as lideranças devem se fazer agora não é mais se devem usar a IA, mas onde aplicá-la com o objetivo correto e uma base sólida. No final, a tecnologia está apenas evidenciando uma separação clara: entre as empresas que evoluem e aquelas que, por medo ou falta de organização, acabam ficando para trás. 

    *Gerente de Engajamento do Cliente (CEE) da Okser.

    Mineração, energia e agronegócio aceleram demanda por comunicação via satélite em áreas críticas

    A expansão de operações em regiões remotas, a digitalização da infraestrutura crítica e a necessidade crescente de monitoramento em tempo real vêm impulsionando a demanda por comunicação via satélite no país. Setores como mineração, energia e agronegócio, cada vez mais dependentes de conectividade para garantir segurança, eficiência e continuidade operacional, lideram esse movimento, ampliando o papel estratégico das redes satelitais no mundo todo.

    Essa demanda ganha relevância no país diante de suas características territoriais e de seus desafios logísticos. Na mineração, operações instaladas em regiões remotas de estados como Pará e Minas Gerais dependem de comunicação contínua para monitoramento operacional, gestão de riscos e transmissão de dados de sensores em tempo real. Já no setor de energia, a expansão de parques solares e eólicos no Nordeste, além de linhas de transmissão em áreas isoladas, aumenta a necessidade de conectividade confiável para monitoramento remoto, automação e manutenção preventiva.

    No agronegócio, a digitalização das operações no campo também acelera a adoção de tecnologias de conectividade crítica. Em regiões como Centro-Oeste e as novas fronteiras agrícolas do Norte do país, soluções via satélite vêm sendo utilizadas para apoiar aplicações de agricultura de precisão, rastreabilidade, monitoramento de ativos, gestão hídrica e integração de dispositivos IoT em fazendas localizadas longe dos grandes centros urbanos.

    Segundo projeções internacionais do setor, o mercado global de comunicação via satélite deve manter crescimento consistente nos próximos anos, impulsionado principalmente pela expansão do IoT industrial, pela necessidade de redes mais resilientes e pelo avanço de arquiteturas híbridas que combinam múltiplas órbitas satelitais (LEO e GEO) com infraestrutura terrestre. Paralelamente, o avanço da inteligência artificial e da computação em nuvem vem ampliando a capacidade de processamento, automação e análise de dados em operações remotas.

    Além da expansão econômica, fatores climáticos e territoriais também ampliam a relevância da conectividade satelital no país. Eventos extremos, como enchentes, queimadas e interrupções de infraestrutura em regiões isoladas, reforçam a necessidade de sistemas capazes de assegurar continuidade operacional e comunicação em cenários críticos.

    “Os próximos anos devem consolidar uma nova fase da conectividade satelital, cada vez mais integrada às operações de setores estratégicos da economia. Há um potencial muito relevante principalmente em mineração, energia e agricultura, segmentos que avançam rapidamente na digitalização e exigem comunicação confiável, inclusive em regiões remotas. Queremos fortalecer ainda mais nossa atuação nesses mercados, apoiando clientes com soluções resilientes, inteligentes e que garantem continuidade operacional”, afirma Flávio Franklin, diretor da Globalsat Group Brasil, empresa que desenvolve soluções voltadas à continuidade da comunicação em áreas sem cobertura terrestre ou sujeitas a falhas de infraestrutura, combinando redes satelitais e terrestres para garantir disponibilidade de dados em tempo real.

    Foto: Divulgação Globalsat Group / Case BioEspeleo

    Pesquisadores combinam IoT e inteligência artificial para aprimorar a irrigação agrícola

    Os Centros de Competência da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), Future Grid e Center for Embedded Devices and Research in Digital Agriculture (Cedra) estão desenvolvendo uma solução inédita em hardware para o gerenciamento inteligente de energia elétrica em sistemas de irrigação com pivô central.

    A tecnologia combina monitoramento em tempo real, inteligência artificial na borda (Edge IA), geração distribuída e armazenamento de energia em um único equipamento, capaz de reduzir custos operacionais e minimizar o consumo de água e de eletricidade no campo.

    O projeto compõe a Rede Agrointeligente e se encontra em fase de pesquisa aplicada, visando resolver um dos gargalos da agricultura irrigada moderna: a alta demanda de energia elétrica aliada à sazonalidade hídrica e energética. “A previsão de conclusão dos trabalhos é 2027, com expectativa de que os resultados sejam transferidos tanto para o setor produtivo quanto para a formulação de políticas públicas. A expectativa é que, ao final do projeto, exista um modelo de hardware e software pronto para comercialização e replicável em diferentes culturas e regiões do país”, informa Luciano Carstens, gerente sênior do Future Grid.

    O Future Grid é o Centro de Competência Embrapii para promoção de conhecimentos em Smart Grid e Eletromobilidade que conta com toda a expertise e infraestrutura do Lactec, um dos maiores centros de pesquisa, tecnologia e inovação do Brasil. O Cedra é um Centro de Competência em agronegócio digital, credenciado pela Embrapii e apoiado pelo Sistema Fiergs. 

    Funcionamento

    O hardware projetado pelo Future Grid, em parceria com o Cedra, contará com eletrônica embarcada para a aquisição de dados de sensores instalados no campo, processamento de algoritmos de gestão hídrica e energética e apoio à tomada de decisão em tempo real. A grande inovação está na integração: o sistema combina fontes renováveis (como energia solar fotovoltaica), sistemas de armazenamento (baterias, ou BESS) e controle inteligente da demanda.

    O pesquisador do Lactec, Bruno Knevitz Hammerschmitt, explica que “na prática, a solução em desenvolvimento será capaz de caracterizar o perfil de consumo elétrico dos pivôs, cruzar informações com sensores de irrigação e realizar o agendamento do acionamento de motobombas nos momentos de real necessidade de irrigação e de menor custo de energia, ou de maior disponibilidade de geração local”, antecipa.

    Entre os desafios técnicos apontados pelos Centros de Competência estão a medição confiável em tempo real com sensores em campo, a sazonalidade do uso da energia e da disponibilidade hídrica, a integração dos dados para decisão imediata, a escalabilidade da solução e o correto dimensionamento do sistema de geração distribuída (BESS e painéis solares), considerando os ciclos de irrigação da região-piloto.

    Parceria 

    No acordo, o Future Grid ficou responsável por projetar e validar o hardware com eletrônica embarcada para aquisição de dados, além de desenvolver os algoritmos de gestão e tomada de decisão. Entre outras contribuições, o Cedra compartilha a expertise em sistemas de irrigação, sensoriamento de campo e conhecimento em agricultura digital. 

    Juntos, os Centros de Competência conduzirão o dimensionamento do sistema de energia com base nos ciclos reais de irrigação da área de testes. “Estamos criando uma ferramenta que não só proporcionará a gestão efetiva do consumo de energia elétrica e a redução de custos, mas também preservará um recurso cada vez mais escasso: a água. A inteligência embarcada decide quando, quanto e como irrigar, usando a melhor composição de energia disponível”, resume Bruno Knevitz Hammerschmitt.

    Foto: Pareekshith Indeever / Pexels

    A era do Retorno sobre Energia (ROE): por que a produtividade da IA exige uma nova gestão da energia humana

    por Mário Soma*

    A Inteligência Artificial (IA) entregou o que prometeu: uma escala de produtividade sem precedentes. No entanto, ao observar as discussões do SXSW deste ano, ficou claro que essa evolução trouxe um efeito colateral silencioso que as empresas não podem mais ignorar. 

    A tecnologia elevou a capacidade operacional, mas expôs um custo invisível: o esgotamento da carga mental humana. Estamos vivendo o paradoxo da eficiência. De acordo com dados de mercado, o cenário é alarmante:

    • 68% dos profissionais admitem que não têm tempo para pensar estrategicamente, segundo relatório da Microsoft
    • 60% do esforço das equipes é drenado pela coordenação de tarefas, não pela execução, segundo relatório da Asana
    • O volume de decisões executivas explodiu, mas a nossa capacidade cognitiva para processá-las continua a mesma,  segundo relatório do Gartner

    Na prática, as respostas estão mais rápidas, mas a profundidade está minguando. A produtividade cresce, mas a dependência da IA cria um ciclo de estímulos ininterruptos. 

    É neste cenário de “infoxicação” que o Return on Energy (ROE) — ou Retorno sobre Energia — deixa de ser um conceito de bem-estar para se tornar uma prioridade estratégica de negócios.

    O ROE não substitui o ROI; ele o protege

    É fundamental entender que o ROE não invalida o tradicional Return on Investment (ROI). Na verdade, ele é o que garante a sustentabilidade do lucro a longo prazo. 

    Se o ROI mede o quanto ganhamos financeiramente, o ROE mede o custo de atenção e o esforço cognitivo necessários para sustentar esses resultados. 

    Sem um ROE equilibrado, o ROI de hoje se torna o burnout de amanhã.

    A grande virada de chave do SXSW foi justamente o deslocamento do foco da tecnologia pura para o contexto humano e emocional. A IA agora “conversa”, “escuta” e “emula sentimentos”. Esse excesso de interfaces que exigem decisões contínuas gerou um desafio econômico real: o consumo desenfreado de energia cognitiva.

    A gestão de atenção como ativo financeiro

    Quando o desgaste mental atinge o limite, a qualidade das decisões despenca, o engajamento das equipes evapora e a experiência do cliente é comprometida. Problemas que antes eram vistos como “sociais” ou “de RH” foram definitivamente transpostos para o centro da estratégia financeira.

    Para reverter esse quadro e gerar satisfação real, as empresas precisam migrar do excesso para a intencionalidade. Se o bombardeio de estímulos prejudica a conexão com a marca e a eficiência da operação, a “recuperação de energia” passa a ser o valor percebido mais escasso e desejado.

    Foto: Daniil Komov / Pexels.com

    O próximo passo: maturidade tecnológica

    Já sabemos que a IA aumenta a produtividade. Agora, o desafio das lideranças é identificar o nível de maturidade necessário para gerir o impacto dessa tecnologia sobre as pessoas.

    A gestão da energia cognitiva e a responsabilidade sobre como a tecnologia afeta a operação já são pautas obrigatórias entre os executivos C-Level. No mundo corporativo moderno, ignorar o ROE não é apenas uma falha de gestão de pessoas; é um risco financeiro e estratégico que pode custar a longevidade do negócio.

    *CEO e Head B2B da Pólvora Comunicação.