A agricultura pode ajudar a reflorestar? Pesquisadores brasileiros de nanotecnologia mostram que sim

O Brasil assumiu o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, área equivalente a quase três vezes o território do estado do Rio de Janeiro. A dimensão da meta, prevista no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), ajuda a revelar um desafio que vai além de plantar árvores: para que uma área seja efetivamente restaurada, as mudas precisam sobreviver e se desenvolver em ambientes que muitas vezes já perderam parte das condições que sustentavam a vegetação original.

Solos degradados, períodos de baixa disponibilidade de água, temperaturas elevadas e exposição intensa à radiação solar estão entre os fatores que podem dificultar o estabelecimento das plantas após o transplante. É nesse período inicial que uma tecnologia originalmente investigada em diferentes frentes da agricultura começa a ganhar espaço também na restauração ambiental.

Pesquisas desenvolvidas na Amazônia e na Mata Atlântica estão avaliando o uso de nanotecnologia para produzir mudas mais preparadas para enfrentar as condições encontradas depois que deixam o viveiro. Nanoformulações, nanopartículas e pontos quânticos de carbono são estudados por sua capacidade de interferir em processos fisiológicos das plantas, favorecendo características relacionadas à fotossíntese, ao uso da água, ao crescimento e à resposta a estresses ambientais.

A aproximação entre nanoagricultura e restauração florestal também mobiliza pesquisadores ligados ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro). Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), uma das frentes coordenadas pelo professor Halley Caixeta de Oliveira, vice coordenador do INCT NanoAgro, investiga como ferramentas semelhantes às estudadas para tornar plantas agrícolas mais resistentes podem ser empregadas na preparação de espécies nativas destinadas à recuperação da Mata Atlântica.

Da lavoura para a floresta

Na agricultura, diferentes aplicações da nanotecnologia vêm sendo estudadas para melhorar a eficiência no uso de insumos e modular respostas das plantas diante de condições adversas. No reflorestamento, parte dessa lógica pode ganhar uma nova finalidade. Em vez de aumentar a capacidade de uma cultura agrícola atravessar um período de déficit hídrico ou outro estresse, por exemplo, a tecnologia pode ser utilizada para preparar uma muda nativa para o momento crítico em que ela deixa as condições controladas do viveiro e passa a enfrentar o ambiente de uma área em restauração.

O grupo coordenado por Halley investiga nanopartículas capazes de liberar moléculas doadoras de óxido nítrico e pontos quânticos de carbono. Os estudos realizados até agora indicam efeitos sobre processos como fotossíntese, eficiência no uso da água, adaptação ao sol pleno e desenvolvimento inicial das mudas. Essas respostas são particularmente importantes porque uma muda produzida em viveiro encontra condições bastante diferentes depois do plantio. A disponibilidade de água deixa de ser controlada, a incidência de luz pode aumentar significativamente e o sistema radicular precisa se estabelecer em um solo que pode apresentar limitações físicas, químicas e biológicas.

A proposta, portanto, não é utilizar nanotecnologia para substituir as estratégias ecológicas necessárias à restauração de uma área, mas investigar se ela pode aumentar a qualidade fisiológica das mudas que serão levadas ao campo e ajudá-las a atravessar uma das etapas mais vulneráveis do processo de reflorestamento.

Na Amazônia, tecnologia acompanha a muda depois do plantio

A possibilidade de aplicação ganhou novas perspectivas a partir de uma visita de Halley ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), onde conheceu uma iniciativa que utiliza nanotecnologia em espécies amazônicas destinadas ao reflorestamento. No projeto, os pesquisadores avaliam os efeitos de uma nanoformulação sobre o crescimento e a fisiologia das plantas, sua resistência a estresses ambientais e a captura de carbono. Um dos diferenciais é acompanhar a tecnologia para além da produção das mudas.

Os testes incluem plantas inseridas em diferentes sistemas de cultivo, como áreas com uma única espécie, plantios mistos e sistemas agroflorestais. As aplicações também podem continuar depois do transplante, permitindo acompanhar a resposta das árvores durante sua adaptação às condições de campo. Essa passagem do viveiro para a área de restauração é essencial para determinar se benefícios observados durante a produção das mudas permanecem quando fatores ambientais deixam de ser controlados.

Reflorestamento também pode gerar renda

A experiência amazônica acrescenta outra dimensão à discussão: a escolha das espécies pode aproximar recuperação ambiental, captura de carbono e geração de renda para populações locais. A castanheira está entre as espécies estudadas. Além de integrar estratégias de recomposição da vegetação amazônica, a árvore produz um recurso florestal de valor econômico que pode ser explorado sem a necessidade de derrubá-la.

Em sistemas agroflorestais, essa lógica pode ser combinada a espécies que começam a produzir em períodos mais curtos. Culturas como banana e cacau podem integrar os arranjos enquanto as árvores de maior porte se desenvolvem, criando possibilidades de geração de renda durante um processo de restauração que naturalmente ocorre em horizonte de longo prazo. Nesse contexto, aumentar a capacidade das mudas de se estabelecerem no campo interessa não apenas à recuperação ecológica. A sobrevivência e o desenvolvimento das plantas também são condições para que os modelos produtivos associados à floresta consigam se sustentar economicamente.

Testes avançam para condições reais de restauração

Na Mata Atlântica, as pesquisas coordenadas por Halley também começam a ultrapassar as condições de laboratório e viveiro. Além dos experimentos conduzidos nas fazendas escola da UEL e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), uma nova frente está sendo iniciada em parceria com a RPPN Monte Sinai e o Criadouro Onça Pintada. A etapa permitirá observar como mudas tratadas com nanotecnologia respondem às condições encontradas efetivamente em áreas de restauração. É uma transição importante porque fatores que podem ser controlados experimentalmente passam a interagir simultaneamente no campo.

Seca, temperatura, radiação, características do solo e competição com outras plantas, por exemplo, podem influenciar o estabelecimento das espécies. Avaliar a tecnologia nesse cenário permite verificar se as respostas fisiológicas observadas anteriormente se traduzem em vantagens durante o desenvolvimento das mudas.

A aproximação entre essas pesquisas mostra como conhecimentos produzidos para a agricultura podem encontrar aplicações em outros desafios ambientais. Processos fisiológicos que determinam a capacidade de uma cultura agrícola enfrentar falta de água ou temperaturas elevadas também estão presentes em uma árvore recém-plantada em uma área degradada. A diferença está no objetivo. Na lavoura, busca-se proteger a produtividade de uma cultura. Na restauração, a mesma base de conhecimento pode ser utilizada para aumentar as chances de uma muda sobreviver, crescer e participar da reconstrução de um ecossistema.

Ainda há etapas importantes antes que essas tecnologias possam ser incorporadas em larga escala a programas de reflorestamento. Os estudos precisam avaliar, entre outros aspectos, desempenho em campo, duração dos efeitos, doses adequadas para diferentes espécies e segurança ambiental das aplicações. Os experimentos conduzidos na Amazônia e na Mata Atlântica, porém, começam a aproximar essas perguntas das condições reais de restauração.

Para o INCT NanoAgro, essa conexão também amplia as possibilidades de aplicação da nanotecnologia desenvolvida no país. A rede reúne pesquisadores de diferentes instituições em oito frentes de atuação voltadas à agricultura e à sustentabilidade, trabalhando em parceria com instituições científicas, startups e empresas. Ao levar parte desse conhecimento para espécies nativas, a pesquisa adiciona uma nova possibilidade à nanotecnologia agrícola brasileira, em que, além de ajudar plantas cultivadas a enfrentar ambientes adversos, preparar árvores para voltar a ocupar áreas onde a floresta precisa ser reconstruída.

Foto: Mikhail Nilov / Pexels.com

Sem governança, inovação não escala e nem gera resultado

por Bruno Dietrich Bicca*

O Brasil tem avançado de forma consistente no cenário global da inovação. Na edição mais recente do Índice Global de Inovação (IGI), divulgada em 2024 pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), o país alcançou a 50ª posição entre as economias avaliadas, acumulando um avanço de 20 posições desde 2015 e mantendo a liderança na América Latina, à frente de Chile e México. O resultado reflete a evolução de fatores como pesquisa, infraestrutura, sofisticação empresarial e produção de conhecimento. No entanto, transformar potencial inovador em resultados concretos dentro das empresas continua sendo um desafio. Trata-se de uma ação que não depende apenas de investimento, tecnologia ou apoio da alta liderança. Sem governança, iniciativas promissoras dificilmente saem do papel ou geram impacto sustentável para o negócio.

A explicação para o fracasso de muitos programas inovadores é menos tecnológica do que parece. Empresas promovem hackathons, realizam provas de conceito, firmam parcerias com startups e lançam laboratórios de inovação. Meses depois, porém, poucos conseguem apontar quais projetos avançaram, quais foram interrompidos e quais efetivamente geraram retorno. O problema não costuma ser a falta de recursos, mas a ausência de método. Quando as iniciativas estão desconectadas da estratégia da companhia, sem responsáveis definidos e sem critérios claros de decisão, o resultado é previsível, o entusiasmo inicial desaparece e o resultado fica pelo caminho.

Nesse contexto, a governança exerce um papel fundamental porque conecta inovação a resultado. Ela define quem toma decisões, quais critérios serão utilizados para aprovar investimentos, qual será a cadência de avaliação dos projetos e como os recursos serão distribuídos. Na prática, isso significa criar estruturas formais de acompanhamento, estabelecer regras para a evolução das iniciativas e definir marcos objetivos para que experimentos avancem ou sejam encerrados.

Os erros mais comuns observados nas organizações reforçam essa necessidade. Um deles é inovar por tendência, sem relação direta com os desafios reais do negócio. Outro é a ausência de métricas, que impede avaliar o aprendizado obtido e o impacto gerado. Também é frequente encontrar programas sem liderança clara ou orçamento dedicado, vulneráveis a mudanças de prioridade da empresa. Há ainda um erro particularmente custoso: a incapacidade de encerrar projetos. Quando não existem critérios objetivos para interromper iniciativas que não entregam resultados, recursos continuam sendo consumidos sem geração de valor.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que inovação e operação exigem lógicas diferentes. Enquanto o negócio principal demanda previsibilidade, controle e eficiência, inovar depende de experimentação, velocidade e tolerância ao erro. Tentar administrar ambos os processos com a mesma estrutura costuma comprometer os dois lados. Por isso, empresas mais maduras criam mecanismos específicos para inovar, como programas de Open Innovation e estruturas de Corporate Venture, com governança, orçamento e métricas próprias. O objetivo é simples, investir pouco para aprender rapidamente e direcionar recursos maiores apenas para iniciativas que comprovem seu potencial.

A construção de resultados consistentes passa, ainda, por algumas práticas essenciais. A primeira é partir dos desafios estratégicos da empresa, e não das tecnologias ou tendências do momento. A segunda é definir uma tese clara que indique onde vale a pena inovar e, igualmente importante, onde não vale. Também é fundamental estabelecer comitês com poder real de decisão, adotar uma lógica de portfólio em vez de apostas isoladas e medir continuamente tanto o aprendizado das fases iniciais quanto os resultados financeiros dos projetos mais maduros.

O avanço do Brasil nos indicadores globais mostra que o ambiente de desenvolvimento tecnológico e criação de novos negócios está cada vez mais favorável. No entanto, dentro das empresas, transformar esse potencial em vantagem competitiva exige mais do que boas ideias, acesso a tecnologia e disponibilidade de recursos financeiros. É necessário criar estruturas capazes de conectar experimentação a resultados concretos, com processos claros de tomada de decisão, acompanhamento e mensuração de impacto. Sem uma governança bem definida, projetos tendem a seguir caminhos desconectados da estratégia corporativa, consumindo tempo e orçamento sem gerar benefícios relevantes para o negócio.

*Co-Fundador da Origin Inovação.

Embrapa and Chinese institutions cooperate to strengthen AI for family farming

Embrapa and four Chinese institutions signed a Memorandum of Understanding (MoU) to expand scientific and technological cooperation between the two countries, focusing on the development and application of artificial intelligence (AI) for family farming. The agreement was signed during a mission to China in September. It provides for the establishment of the Brazil-China Cooperation Center for AI Application, as well as for joint research, the exchange of researchers and technicians, capacity-building, and the setup of pilot centers on smart agricultural machinery in Brazil.

The MoU signed by Embrapa, Nanjing Agricultural University (NAU), Jiangsu Academy of Agricultural Sciences (JAAS), Sinomach Digital Technology Corporation, and the International Association for People’s Cooperation (IAPC) establishes a framework to organize projects of common interest and bring the scientific, technological, and institutional expertise of the two countries closer. It is valid for five years.

For the president of Embrapa, Silvia Massruhá, the partnership responds to a strategic challenge for Brazilian agriculture: “If we don’t digitally include smallholders and mid-scale farmers in family agriculture, the gap between them and large-scale farmers will grow”, she explains.

Technology with adaptations to Brazilian conditions

The partnership stems from the understanding that digital technologies need to be adapted to different agricultural realities. The goal is not only to transfer solutions from one country to another, but to establish a process in which knowledge and technologies are assessed, adapted, and validated according to the conditions in each production system.

“More than just technology transfer, the agreement is about co-development, about adapting solutions to our reality”, Silvia Massruhá explains. The president stresses that such adaptation is particularly important in Brazil, which combines different production systems and six biomes.

The Memorandum comprises that very own diversity. The technologies can be applied to several agricultural chains and crops, including fruit, vegetables, corn, soybeans, rice, and other family farming activities. The solutions include smart agricultural machines, digital platforms, the Internet of Things (IoT), big data, artificial intelligence, socialized agricultural services, and crop models, as well as equipment and devices aimed at small and medium-sized properties.

Pilot centers and scientific exchange

One of the main fronts the agreement stipulates is the joint establishment of Smart Agricultural Machinery Service Centers in family farming settlements in Brazil. The pilot areas will allow for the demonstration of smart machines and platforms and for technology assessment under real production conditions. Sensors, IoT devices, big data, and artificial intelligence can be combined and used in those locations for monitoring, analysis, and decision-making support.

Integrating demonstration units into the National Program for Technical Assistance and Rural Extension (PNater) is also being considered, as well as the possibility of replicating the experiences in other settlements.

The agreement also provides for the exchange of researchers, technicians and graduate students, technical missions, workshops, seminars, training courses, and remote collaboration between the institutions. The cooperative unions involved in the pilot areas will also participate in the collection and management of data the activities generate

Chinese experience in digital agriculture and smart mechanization will be one of the bases to assess technologies that can be applied to Brazilian pilot projects. Sinomach Digital Technology Corporation is part of the digital technology front. Embrapa’s mission to China visited initiatives using robotics, automation, and artificial intelligence in agricultural production.

For instance, the Brazilian delegation learned about robotic arms used not only to harvest strawberries, tomatoes, grapes, and other fruits, but also to monitor systems that integrate different sensors and allow for real-time tracking of field information.

“The closer ties with Sinomach pave the way to bring those innovations to Brazil and adapt them to our reality”, explains Luciana Alvim Santos Romani, a researcher at Embrapa Digital Agriculture. Alongside Silvia Massruhá, she is one of the coordinators of Semear Digital, a project that aims to broaden smallholder and mid-scale farmer access to new technologies.

According to the researcher, the proposal is to “tropicalize” those solutions, combining them with knowledge already being generated in Brazil and adapting equipment and technologies to Brazilian conditions.

As an example, she mentions robots to monitor plants, count fruits, and estimate yield; or smaller tractors that are considered potentially suited for Brazilian smallholdings and medium-sized farms.

Photo: Jayme Barbedo

Líderes são os que mais querem aprender sobre inteligência artificial

A inteligência artificial já faz parte da rotina de muitas empresas. E quem mais busca aprender sobre a tecnologia não são os profissionais mais jovens. Uma pesquisa divulgada pela Exame mostra que 49% das lideranças priorizam o aprendizado em inteligência artificial. Entre os profissionais em início de carreira, o índice é de 23%.

Para Eduardo Gomes de Matos, fundador da Gomes de Matos Consultoria e organizador do Fórum Novo Mercado, o resultado faz sentido. Quanto maior a responsabilidade de um profissional, mais decisões ele precisa tomar. E é justamente nesse trabalho que a inteligência artificial pode ajudar. “Quanto mais alto o cargo, mais decisões passam pela sua mão. E é justamente na decisão, na estrutura e na responsabilidade que a IA está mexendo primeiro”, afirma.

Eduardo usa inteligência artificial diariamente no trabalho. A ferramenta já faz parte de atividades como análise de dados e organização de ideias. “Experiência sozinha não segura mais a cadeira. Eu tenho 31 anos de experiência e uso IA todos os dias no meu trabalho. Se eu estou aprendendo, imagina quem está começando”, diz.

Para o especialista, o maior ganho está na combinação entre experiência e tecnologia. O profissional que conhece o negócio e também sabe usar as novas ferramentas pode tomar decisões com mais rapidez. “A vantagem não está em ser jovem nem em ser experiente. Está em juntar as duas coisas: a bagagem que só o tempo dá com a ferramenta que acabou de chegar”, afirma.

A inteligência artificial também pode reduzir o tempo gasto em tarefas que antes exigiam dias ou semanas de trabalho. Isso permite que o líder se concentre mais nas decisões e nos problemas que dependem de sua experiência. “A IA acelerou decisões que antes levavam semanas. Ela não tira a responsabilidade do líder, mas ajuda a chegar mais rápido às informações e às possibilidades”, explica Eduardo.

Por isso, aprender a usar inteligência artificial deixou de ser apenas uma forma de acompanhar uma nova tecnologia. Para quem ocupa posições de liderança, pode ser uma necessidade. “O CEO não pode errar. Ele precisa decidir rápido, decidir bem e assumir a responsabilidade por cada escolha. IA não é luxo para o CEO. É uma ferramenta de sobrevivência”, afirma.

Para Eduardo, as empresas precisam preparar seus líderes para essa mudança, e não apenas os profissionais mais jovens. “O iniciante pode esperar. O CEO não tem esse luxo”, diz. À frente do Fórum Novo Mercado, ele acompanha as mudanças que afetam a gestão e os negócios e deixa uma pergunta para as empresas: “Sua empresa está preparando os líderes para usar IA ou só os estagiários?”.

Inteligência artificial e segurança alimentar centralizam debates na AI Expo Africa 2026

A convergência entre a garantia da segurança alimentar global e o avanço da inteligência artificial (IA) dita o ritmo dos debates na AI Expo Africa 2026, considerada a maior feira de tecnologia e inovação do continente africano. O evento, que reúne aproximadamente 3.500 participantes em Joanesburgo, centraliza discussões sobre o desenvolvimento tecnológico e a aplicação prática de soluções digitais voltadas para setores estratégicos, com forte apelo para o agronegócio internacional.

Com um público qualificado — composto por mais de 80% de tomadores de decisão e executivos do ecossistema de inovação —, a feira abriga cerca de 100 fornecedores globais de tecnologia. O foco desta edição é a entrega de ferramentas capazes de mitigar os impactos climáticos e otimizar a cadeia de suprimentos global, unindo a urgência da produção de alimentos à eficiência dos algoritmos.

Para o mercado de tecnologia agrícola, a feira apresenta soluções que buscam transformar a gestão no campo. Especialistas e empresas do setor demonstram aplicações práticas divididas em eixos fundamentais para o aumento da produtividade e sustentabilidade:

Monitoramento Preditivo: Tecnologias avançadas de previsão de safras e análise de dados climáticos para mitigar riscos de quebras de produção.

Automação e Robótica: Sistemas de agricultura de precisão, incluindo drones, sensores de solo e visão computacional aplicados ao manejo e à identificação de pragas.

Eficiência Operacional: Softwares de análise de dados voltados à gestão de produtividade, além de soluções inteligentes para logística, armazenagem e processamento de grãos.

Sustentabilidade: Ferramentas focadas na otimização de recursos hídricos e na eficiência energética das propriedades rurais.

Análises de especialistas presentes ao evento indicam que o objetivo central da feira ultrapassa a mera exposição de inovações de vanguarda. O foco estratégico está na viabilidade econômica e no mapeamento de parceiros comerciais aptos a transferir essas tecnologias para mercados de alta performance, como o agronegócio brasileiro. A avaliação de viabilidade técnica, o Retorno sobre o Investimento (ROI) e a adaptabilidade das soluções de IA às realidades tropicais consolidam-se como os principais critérios de validação das soluções apresentadas.

Foto: Ubuntu Images / Pexels.com

Cibersegurança virou assunto até de geladeira: ataque a supermercados franceses provoca prejuízos milionários

Um ataque cibernético pode custar muito mais do que dados roubados ou sistemas temporariamente indisponíveis. Na França, criminosos conseguiram manipular remotamente sistemas de refrigeração de centenas de supermercados, elevando temperaturas a até 50°C, provocando o descarte de alimentos e gerando prejuízos estimados em milhões de euros. Em apenas dois estabelecimentos na região da Alsácia, as perdas relatadas chegaram a € 270 mil, segundo informações divulgadas pela agência Anadolu. Embora ainda não exista um levantamento consolidado dos prejuízos em âmbito nacional, a dimensão do ataque evidencia o potencial de perdas financeiras expressivas, que vão além do descarte de mercadorias e incluem interrupções operacionais e custos de recuperação.

Segundo informações divulgadas pelas autoridades francesas, aproximadamente 700 supermercados foram atingidos, incluindo unidades de redes como Carrefour, Monoprix, Intermarché e Coopérative U. O ataque explorou sistemas responsáveis pelo controle de temperatura dos refrigeradores, acionando ciclos de descongelamento e comprometendo produtos frescos e congelados. Em determinados estabelecimentos, os equipamentos permaneceram aquecidos durante seis horas, enquanto funcionários precisaram descartar estoques inteiros para evitar riscos sanitários.

A dimensão financeira do incidente ainda está sendo calculada, mas, de acordo com o jornal francês Le Monde, um supermercado Intermarché em Gradignan, no sudoeste do país, registrou perdas de € 21 mil em mercadorias — mais de R$ 120 mil — consideradas pelo preço de compra. O veículo também informou que os prejuízos nacionais podem alcançar dezenas de milhões de euros, embora ainda não exista um balanço consolidado. Além da perda de produtos, alguns estabelecimentos precisaram interromper temporariamente suas atividades para limpeza, reorganização e reposição dos estoques.

Para Rafael Cocchiaro, Head de Tecnologia da NEO Estech, plataforma de inteligência operacional e monitoramento de ativos para o varejo alimentar no Brasil, o episódio demonstra que a cibersegurança deixou de ser uma preocupação restrita aos departamentos de tecnologia. “Estamos diante de um cenário em que uma invasão digital pode provocar danos físicos imediatos e perdas financeiras expressivas. Quando um equipamento conectado controla a conservação de alimentos, uma falha de segurança deixa de afetar apenas informações e passa a comprometer toda uma operação. O caso francês evidencia que qualquer dispositivo conectado precisa fazer parte da estratégia de proteção das empresas”, afirma.

Milhares de equipamentos continuam expostos

O ataque também revelou fragilidades relacionadas à manutenção de tecnologias operacionais. Segundo a fabricante dinamarquesa Danfoss, responsável por sistemas de supervisão e controle de refrigeração utilizados nos estabelecimentos atingidos, muitas das unidades afetadas operavam com versões desatualizadas de firmware ou haviam chegado ao fim de sua vida útil, deixando de receber atualizações de segurança.

A preocupação não se limita aos supermercados atingidos. Em uma investigação publicada em 13 de outubro, a Reuters identificou pelo menos 4.500 interfaces de equipamentos Danfoss ainda visíveis na internet. Embora não tenha sido possível determinar quantas apresentavam vulnerabilidades exploráveis, a empresa francesa de monitoramento Onyphe apontou que apenas uma pequena parcela dos dispositivos analisados parecia utilizar a versão mais recente do software.

O problema está relacionado à chamada tecnologia operacional (OT), que compreende equipamentos e sistemas responsáveis por controlar processos físicos, como refrigeração, climatização, energia e produção industrial. Com a expansão da Internet das Coisas (IoT), esses dispositivos passaram a integrar redes conectadas, permitindo monitoramento remoto e maior automação, mas também ampliando as possibilidades de exploração por agentes maliciosos.

“Um dos principais desafios está na falsa percepção de que equipamentos operacionais são menos vulneráveis por não armazenarem dados sensíveis. Na realidade, sistemas desatualizados e dispositivos conectados sem mecanismos adequados de proteção podem se tornar portas de entrada para ataques. O prejuízo pode aparecer na forma de interrupção da produção, perda de mercadorias ou comprometimento de serviços essenciais”, explica Cocchiaro.

A gravidade do episódio levou a Procuradoria de Paris a abrir uma investigação para identificar os responsáveis e dimensionar os danos. A Agência Nacional de Segurança Cibernética da França (ANSSI) também foi acionada. Até 13 de outubro, nenhum grupo havia reivindicado publicamente a autoria do ataque.

O alerta para empresas brasileiras

Embora o episódio tenha ocorrido na Europa, a discussão também se aplica ao mercado brasileiro, onde sistemas conectados são utilizados em operações de varejo, logística, indústria, saúde e infraestrutura. Câmaras frigoríficas, sensores de temperatura, controladores industriais e equipamentos de automação dependem cada vez mais de softwares e conexões remotas para funcionar.

Nesse contexto, a segurança dos dispositivos precisa acompanhar sua importância operacional. A atualização de sistemas, a substituição de equipamentos sem suporte, a segmentação das redes e o controle dos acessos remotos são medidas fundamentais para reduzir riscos. A ausência desses cuidados pode transformar vulnerabilidades tecnológicas em perdas financeiras e interrupções de serviços.

O ataque francês ainda trouxe uma preocupação adicional: a cobertura securitária. Segundo informações publicadas pela AFP, representantes da Intermarché alertaram que determinadas apólices podem não contemplar incidentes dessa natureza, ampliando a exposição financeira dos estabelecimentos atingidos.

“Não basta que uma empresa tenha mecanismos de proteção para seus computadores e servidores se os equipamentos que sustentam sua operação permanecem expostos. A segurança precisa considerar toda a infraestrutura conectada, incluindo sistemas de refrigeração, controladores industriais e dispositivos IoT. Além das medidas de cibersegurança, o monitoramento contínuo dos ativos permite identificar anomalias operacionais, antecipar riscos e acelerar a resposta a incidentes. O que aconteceu na França demonstra que visibilidade operacional, segurança e continuidade dos negócios precisam caminhar juntas”, conclui o especialista da NEO Estech.

Projeto inédito analisa o tecido vegetal do cafezal e transforma dados da planta em decisões de manejo

A gestão da lavoura de café exige cada vez mais precisão na relação entre investimento, produtividade e rentabilidade. Em um cenário de custos elevados e maior influência das condições ambientais sobre as plantas, identificar os fatores que limitam o desempenho da cultura tornou-se parte fundamental da decisão sobre onde, quando e quanto investir.

Essa lógica está no centro do Projeto AAcRes (Análises de Acúmulo de Reserva), desenvolvido pela Agroallianz para apoiar decisões de manejo a partir da avaliação da atividade fisiológica das plantas. A metodologia combina análises laboratoriais e dados de campo para identificar limitações, direcionar estratégias e medir as respostas obtidas em diferentes condições ambientais.

De acordo com Renato Menezes, engenheiro agrônomo e gerente de marketing técnico da empresa, hoje, o produtor precisa fazer mais contas dentro da gestão da lavoura. “Não basta saber quanto custa uma determinada tecnologia, é preciso entender qual problema ela resolve, qual resposta pode proporcionar à planta e se essa resposta tem potencial para se transformar em produtividade e rentabilidade”, diz.

O AAcRes nasce justamente dessa necessidade de transformar o manejo em um processo de decisão baseado em dados. Inicialmente aplicado no cultivo de café e posteriormente também no citrus, o projeto utiliza análises laboratoriais de tecido vegetal para identificar a presença ou ausência de compostos relacionados ao funcionamento metabólico das plantas e à expressão do potencial produtivo. “As informações obtidas são relacionadas aos dados de campo para identificar pontos limitantes e direcionar estratégias”, relata Menezes.

Da análise fisiológica aos resultados no campo

Na prática, o acompanhamento permite observar não apenas quanto a lavoura produziu, mas também como os pés de café chegaram a esse resultado. Na Fazenda BellaMinas, em Guapé (MG), os dados coletados pelo projeto mostram essa relação entre produtividade, crescimento vegetativo e manutenção da área foliar. Na safra de 2026, as plantas submetidas ao manejo AAcRes alcançaram produtividade de 105,46 sacas por hectare (sc/ha), contra 83,82 sc/ha na testemunha. Ou seja, a diferença é de 21,64 sc/ha, com um incremento de 25,8%.  

Diego Santos, engenheiro agrônomo e gerente da fazenda, inspeciona lavoura de café (Foto: Divulgação)

A diferença também apareceu nos indicadores biométricos. Em maio de 2026, as plantas do projeto apresentavam média de 9,43 nós, enquanto a testemunha registrava 8,86 nós. No momento da colheita, o enfolhamento também foi maior no tratamento AAcRes, com 80,19% contra 72,59% na testemunha.

Segundo Diego Santos, engenheiro agrônomo e gerente da fazenda, os resultados mostram que o ganho de produtividade não ocorreu isoladamente. “Tivemos, ao mesmo tempo, maior produtividade, crescimento vegetativo e manutenção do enfolhamento. Isso indica uma planta com uma arquitetura mais equilibrada e uma estrutura que continua sendo construída para os ciclos seguintes”, explica.

A interpretação conjunta desses indicadores amplia a avaliação tradicional de produtividade. Para o projeto, características como número de nós, formação de ramos e retenção de folhas ajudam a compreender como a planta está respondendo às condições de cultivo e quais recursos estão sendo direcionados para a formação e manutenção da estrutura produtiva.

Conforme explica Santos, ao avaliar a arquitetura da planta, é preciso analisar a consequência do seu funcionamento fisiológico. “Uma planta que mantém folhas, produz novos nós e sustenta uma produtividade elevada demonstra que conseguiu preservar processos importantes mesmo diante das condições ambientais. É essa relação que nos permite falar em engenharia fisiológica”, diz.

Manejo diante das condições ambientais

Essa abordagem ganha relevância diante da crescente ocorrência de estresse hídrico e oxidativo e períodos de temperaturas elevadas nas lavouras. Mesmo com avanços em genética, nutrição e manejo fitossanitário, o ambiente continua sendo um dos principais fatores que interferem na capacidade produtiva do cafeeiro.

Para o especialista da Agroallianz, compreender essas limitações permite deslocar parte das decisões de um modelo predominantemente corretivo para uma estratégia que considere a preparação da planta para diferentes condições ambientais. “Não estamos falando simplesmente em colocar mais um produto no manejo. A questão é entender qual é o fator limitante naquele momento e qual ferramenta pode ajudar a manter o funcionamento. A partir daí, conseguimos medir a resposta e avaliar se aquele investimento realmente fez sentido dentro do sistema produtivo”, destaca Menezes.

No AAcRes, uma das estratégias avaliadas envolve o uso de osmorreguladores, com observação de respostas relacionadas à manutenção do estado hídrico, crescimento vegetativo e área foliar. A análise dos resultados em campo permite relacionar essas respostas ao desempenho e à capacidade da planta de atravessar períodos de maior pressão ambiental.

Para o cafeicultor, essa leitura também muda a forma de avaliar o custo das tecnologias. Em vez de considerar apenas o valor aplicado por hectare, a proposta é relacionar o investimento ao problema identificado, à resposta fisiológica observada e ao impacto sobre a produtividade e a estabilidade da lavoura.

Durante muito tempo, a decisão sobre uma tecnologia esteve associada ao custo por hectare, mas a Agroallianz trabalha uma linha diferente. “O caminho que estamos propondo é entender o que se pretende resolver, qual resposta se espera obter e como medir esse resultado. Dessa forma, o investimento passa a ser avaliado não apenas como custo, mas como parte da gestão do risco e do potencial produtivo”, conclui Menezes.

Produtividade no campo: produzir mais já não basta, é preciso produzir melhor

por Welinton Silva*

A possibilidade de uma maior pressão sobre o abastecimento global de alimentos a partir de 2027, segundo um relatório recente da JPMorgan, colocou novamente a segurança alimentar no centro das discussões do agronegócio. A análise, que ganhou repercussão após um alerta sobre a necessidade de ampliar estoques de alimentos, não representa uma certeza de crise, mas chama atenção para um conjunto de fatores que já desafia o produtor: custos elevados, volatilidade das commodities, restrições de crédito, disponibilidade de insumos, eventos climáticos extremos e dificuldades logísticas.

Nesse cenário, a produtividade passou a significar mais do que produzir um volume maior por hectare. O desafio é produzir mais e melhor, utilizando de forma eficiente os recursos disponíveis.

Durante muito tempo, o aumento da produção esteve associado principalmente à expansão da área cultivada. Hoje, essa equação é mais complexa. O produtor precisa buscar maior produtividade dentro da área que já possui, reduzindo perdas, controlando o custo por hectare e realizando cada operação no momento adequado.

Isso exige olhar para toda a cadeia produtiva. Do preparo do solo ao plantio, passando pelo manejo e pelas aplicações, até a colheita e o transporte, onde cada etapa interfere no resultado final. Quando uma operação é realizada fora da janela ideal, por exemplo, pode haver perda de potencial produtivo, além de retrabalho e aumento do consumo de combustível, mão de obra e outros recursos.

É justamente nesse contexto que a mecanização ganha importância. Mas mecanizar não significa simplesmente escolher uma máquina maior ou mais potente. Significa encontrar o equipamento adequado à realidade da propriedade, à cultura, ao relevo, às condições do solo e ao tempo disponível para realizar cada atividade.

Em culturas com janelas operacionais mais curtas, ter a máquina disponível no momento certo pode ser decisivo. Um equipamento com capacidade insuficiente pode provocar atrasos, enquanto uma máquina superdimensionada pode permanecer subutilizada e elevar o custo por hectare. O desafio está em encontrar o equilíbrio entre investimento, capacidade operacional e necessidade real.

A eficiência também precisa ser medida de forma mais ampla. O volume produzido por hectare continua sendo um indicador fundamental, mas, isoladamente, não mostra toda a realidade da operação. É preciso considerar quanto foi gasto para produzir, o consumo de combustível, o tempo necessário para cada atividade, os custos de manutenção e o período em que os equipamentos ficaram efetivamente disponíveis para o trabalho.

Essa visão se torna ainda mais relevante diante da possibilidade de restrições na oferta ou de aumento dos preços de insumos. Os últimos anos mostraram como conflitos geopolíticos e problemas logísticos em diferentes partes do mundo podem afetar cadeias essenciais à agricultura. Quando um recurso se torna mais caro ou mais difícil de obter, aproveitar melhor aquilo que está disponível passa a ser ainda mais importante.

O planejamento, portanto, assume um papel central. Monitorar as condições climáticas, programar a compra de insumos, realizar a manutenção preventiva das máquinas e antecipar as operações são medidas que ajudam o produtor a reduzir a exposição aos imprevistos. Em uma atividade tão dependente de janelas específicas, disponibilidade e confiabilidade dos equipamentos também fazem parte da estratégia.

A mecanização ainda pode contribuir para enfrentar outro desafio estrutural do campo: a disponibilidade de mão de obra. Em diferentes culturas e regiões, determinadas atividades continuam dependendo de trabalho manual, enquanto outras podem ganhar eficiência com a mecanização adequada. O exemplo de países como o Japão mostra como a falta de mão de obra pode acelerar esse processo, mas o caminho brasileiro precisa considerar a diversidade das propriedades e das culturas existentes no país.

Por isso, ampliar o acesso à mecanização, especialmente entre pequenos e médios produtores, não significa apenas disponibilizar equipamentos maiores e mais potentes. É necessário desenvolver soluções compatíveis com diferentes escalas de produção e necessidades. A realidade de uma grande propriedade de grãos é diferente daquela encontrada em uma operação de fruticultura ou em uma pequena propriedade familiar.

Foto: Simon BB / Pexels.com

Para a indústria, essa realidade reforça a necessidade de uma mudança de perspectiva. Mais do que oferecer produtos, é preciso compreender os desafios enfrentados pelo produtor e desenvolver soluções que contribuam para a eficiência de toda a operação. Questões como disponibilidade de peças, assistência técnica, confiabilidade e adequação do equipamento também interferem diretamente na capacidade de cumprir as janelas de trabalho.

O Brasil tem condições de ampliar sua contribuição para a produção mundial de alimentos sem que o aumento da oferta dependa exclusivamente da expansão de áreas. Reduzir perdas, melhorar a eficiência das operações e aproveitar melhor os recursos das áreas já cultivadas são caminhos igualmente importantes.

Se o alerta para 2027 aponta para um cenário em que a oferta global de alimentos pode enfrentar novas pressões, a resposta do campo precisa ser construída desde agora. E ela passa por uma combinação de tecnologia, planejamento e eficiência.

No fim, produtividade não deve ser entendida apenas como quantidade produzida. É a capacidade de transformar terra, insumos, máquinas, mão de obra, tempo e capital em resultado. Produzir mais continua sendo fundamental, mas produzir com eficiência, previsibilidade e rentabilidade será cada vez mais determinante para a sustentabilidade da atividade agrícola.

*Coordenador Nacional Comercial da YANMAR South America. Bacharel em Administração e com MBA em Business/Commerce. Tem mais de 15 anos de experiência na área comercial do agronegócio.

Ranking Global de Inovação: Brasil cai pelo terceiro ano consecutivo e acende alerta sobre ambiente institucional

por Alexandre Pierro*

O Brasil voltou a perder espaço no cenário mundial de inovação. Segundo o Global Innovation Index (GII) 2026, divulgado nesta terça-feira pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO/OMPI), ficamos na 53ª posição entre 139 economias, uma posição abaixo do 52º lugar registrado em 2025. É o terceiro recuo consecutivo desde 2023, quando alcançamos a 49ª colocação – com destaque negativo para o índice de ambiente institucional, o qual teve uma deterioração expressiva. 

O movimento merece uma leitura cuidadosa. Por um lado, a posição atual ainda é consideravelmente melhor do que a registrada no início desta década: em 2020, o Brasil ocupava o 62º lugar. A própria WIPO inclui o país entre as economias que mais avançaram desde 2019. O sinal de alerta está, portanto, menos no desempenho de longo prazo, e mais na inversão da trajetória observada nos últimos três anos.  

Isso porque, depois de sucessivos avanços até 2023, parece que encontramos dificuldade para sustentar o ritmo de aproximação das economias mais inovadoras. A WIPO chama justamente a atenção para o desafio de transformar os ganhos recentes em desempenho mais amplo e sustentado.

A análise dos sete pilares que compõem o índice ajuda a explicar esse quadro. Comparando 2020 com 2025, o comportamento brasileiro foi bastante desigual. Em 2020, o país ocupava a 82ª posição mundial em Instituições; em 2025, caiu para a 107ª. São 25 posições perdidas, o pior movimento entre os sete pilares. Na edição do ano passado, este pilar de instituições já era, com grande diferença, a dimensão mais mal posicionada do Brasil.

Essa deterioração contrasta fortemente com os resultados obtidos em outras dimensões. Em Capital humano e pesquisa, o Brasil passou da 49ª posição em 2020 para a 48ª em 2025, uma pequena melhora. Em Infraestrutura, passou de 61º para 60º, também praticamente estável. Os números indicam que essas duas dimensões não foram responsáveis por grandes mudanças na posição relativa do país durante o período.

Em Sofisticação de mercado, porém, ocorreu uma transformação importante. O Brasil estava na 91ª posição em 2020 e chegou à 71ª em 2025. Mesmo permanecendo atrás de sua posição geral no índice, o movimento indica uma melhora significativa na capacidade do ambiente econômico de oferecer condições de mercado e financiamento associadas à inovação. 

A Sofisticação de negócios seguiu a direção contrária. Estávamos na 35ª posição em 2020, e passamos para 39º em 2025. Apesar do recuo, continua sendo o pilar brasileiro mais bem colocado internacionalmente. Em 2025, a WIPO destacava aspectos como trabalhadores do conhecimento, conexões para inovação e absorção de conhecimento dentro desse conjunto de indicadores.

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Nos pilares relacionados aos resultados da inovação, o desempenho é mais positivo. Em Conhecimento e tecnologia, passamos da 56ª para a 50ª entre 2020 e 2025. O resultado é coerente com a avaliação da WIPO de que o país mantém uma base relevante de pesquisa, investimento em P&D e capacidades acadêmicas e empresariais.

O maior avanço ocorreu em Criatividade: saímos da 77ª posição em 2020 à 50ª em 2025 – mesmo ano em que Conhecimento e Tecnologia e Criatividade colocaram o Brasil na 50ª posição mundial em ambos os pilares, evidenciando que os resultados gerados pelo ecossistema nacional estavam melhor posicionados do que parte das condições estruturais que deveriam sustentá-los.

O resultado revela um aparente paradoxo. Entre 2020 e 2025, avançamos 10 posições no ranking geral, de 62º para 52º, e melhoramos em cinco dos sete pilares. Ao mesmo tempo, a perda de 25 posições em Instituições criou um desequilíbrio crescente dentro do próprio sistema nacional de inovação.

A fotografia regional reforça a necessidade de acompanhar essa perda de ritmo. Em 2026, o Chile permanece como a economia mais bem posicionada da América Latina; o Caribe, em 51º lugar, seguido pelo Brasil, em 53º. O Uruguai avançou do 68º lugar em 2025 para o 66º em 2026, enquanto a Costa Rica passou de 72º para 70º. Portanto, enquanto o Brasil perdeu mais uma posição, essas duas economias latino-americanas avançaram duas posições cada.

Este movimento, contudo, é heterogêneo. O México, por exemplo, caiu de 58º em 2025 para 65º em 2026. A WIPO também destaca que os ativos de inovação latino-americanos continuam concentrados em poucas economias e que pesquisa, empreendedorismo e acesso ao mercado ainda não estão suficientemente conectados para formar um motor regional de inovação.

Apesar disso, ainda mantivemos ativos relevantes. A WIPO destaca a profundidade da base científica e de P&D brasileira, a atividade de marcas e o mercado de venture capital em estágios mais avançados. São Paulo permanece entre os 100 maiores clusters mundiais de inovação, ocupando a 49ª posição em 2026. Além disso, continuamos sendo a única economia da América Latina e Caribe cujo desempenho em inovação está acima do esperado para seu nível de desenvolvimento, condição mantida pelo sexto ano consecutivo.  

Os dados dos últimos cinco anos sugerem, entretanto, que o desafio brasileiro deixou de ser apenas gerar conhecimento ou resultados criativos, já que apesar de demonstramos capacidade para produzir resultados de inovação, convivemos com um ambiente institucional que se distancia, em termos relativos, de outras economias avaliadas pelo índice.

O resultado de 2026, portanto, não elimina os avanços acumulados pelo país desde o início da década, mas sinaliza que o ciclo de ascensão perdeu impulso. Para voltar a avançar, os dados sugerem que teremos de preservar os ganhos em criatividade, conhecimento, tecnologia e sofisticação empresarial, ao mesmo tempo em que enfrentamos nosso principal desequilíbrio estrutural: a distância entre a capacidade de produzir inovação e a qualidade relativa do ambiente institucional que sustenta esse processo

*Doutorando em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação. Engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.

GAFFFF 2026 inicia agenda de debates sobre os rumos do agronegócio brasileiro

A força econômica do agronegócio brasileiro e seu protagonismo na produção mundial de alimentos e energia foram os principais temas abordados durante a cerimônia de abertura da terceira edição do Global Agribusiness Festival (GAFFFF), realizada em São Paulo. Com mais de 81 sessões de conteúdo distribuídas em seis palcos simultâneos, o evento da DATAGRO reúne autoridades e líderes em torno das perspectivas e desafios do setor, que movimenta cerca de R$ 3,2 trilhões por ano, representa aproximadamente 25% do PIB brasileiro e responde por quase metade das exportações do país.

Plinio Nastari, presidente da DATAGRO destacou a relevância da contribuição do GAFFFF para o desenvolvimento do agronegócio no país. “É uma oportunidade valiosa para disseminar conceitos fundamentais e debater como o setor agropecuário pode enfrentar os desafios do futuro”, afirmou.

Geraldo Melo Filho, secretário estadual de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, reforçou a importância da ciência e da tecnologia para que o setor alcançasse sua posição atual. “O Brasil que nós conhecemos nasce no agro. Mas nunca foi só terra. Seria impossível, sem pesquisa, sem tecnologia, sem conhecimento, termos chegado aonde chegamos”, destacou. “E, com o avanço de áreas como biocombustíveis, bioenergia e produção de proteínas, esse Brasil agro é quem vai garantir, nas próximas décadas, segurança alimentar e energética para o mundo”.

Foto: Divulgação – GAFFFF / DATAGRO

Alei Fernandes, prefeito de Sorriso (MT), lembrou que hoje a região é um dos motores do agro, registrando grande expansão nos últimos anos. “O setor realmente tem seu grau de importância na economia e vivemos um momento de muita expectativa e relevância ao mesmo tempo. É uma satisfação ver que nós, lá em Sorriso, nos transformamos no epicentro da produção agrícola do Mato Grosso e, talvez, do Brasil”, disse.

Já o deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania/SP), que também é presidente da Comissão de Transição Energética e Hidrogênio Verde da Câmara dos Deputados, abordou a coexistência estratégica entre produção e preservação ambiental. “O agro brasileiro escolheu o caminho da sustentabilidade. Também celebramos a sinergia entre a segurança alimentar, garantida pelo Brasil ao mundo, e a segurança energética, por meio de biocombustíveis como etanol, biodiesel, biogás e biometano, além do avanço no combustível sustentável de aviação. O agro busca respeito, segurança jurídica e valorização do trabalho. Agradeço ao DATAGRO por este encontro, que reafirma nosso compromisso em manter o protagonismo do agronegócio na economia nacional. Vida longa ao GAFFFF”, concluiu.