Calor recorde aumenta pressiona o campo e acelera busca por eficiência no uso de insumos

O anúncio recente de que a Terra registrou níveis recordes de acúmulo de calor em 2025, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), acende um alerta que vai além dos debates ambientais e já impacta diretamente setores estratégicos da economia. Entre os mais sensíveis a essa mudança está o agronegócio, que começa a sentir de forma mais intensa os efeitos de um clima cada vez mais imprevisível.

Na prática, o aumento das temperaturas e a maior frequência de eventos extremos têm alterado o comportamento das lavouras, favorecendo a proliferação de pragas, o surgimento de novas doenças e o estresse hídrico das plantas. O resultado aparece na redução da produtividade, no aumento dos custos e na dificuldade de planejamento por parte dos produtores.

Esse cenário tem exigido uma mudança de mentalidade no campo. Mais do que intensificar o uso de insumos, o momento pede eficiência. A forma como os produtos são aplicados, absorvidos e aproveitados pelas plantas passa a ser um fator decisivo para garantir resultado em um ambiente cada vez mais adverso.

De acordo com especialistas do setor, o impacto do calor não se limita ao desenvolvimento das culturas, mas também interfere diretamente na performance das soluções utilizadas no manejo agrícola. “Quando falamos em aumento de temperatura, estamos falando também de maior volatilização, menor absorção e maior risco de perda de eficiência dos insumos. Em um cenário como esse, não basta aplicar, é preciso garantir que aquilo que foi aplicado realmente gere resultado”, Loremberg Moraes diretor da Hydroplan-EB, Há 26 anos no agronegócio brasileiro, a empresa combina inovação, sustentabilidade e tecnologia para impulsionar resultados no campo.

Diante dessa nova realidade, tecnologias voltadas para a melhoria da eficiência de aplicação têm ganhado espaço no campo. Soluções que potencializam a aderência, aumentam a absorção e reduzem perdas passam a desempenhar um papel estratégico, ajudando o produtor a extrair mais resultado com o mesmo investimento.

Além de contribuir para a produtividade, esse movimento também dialoga com uma demanda crescente por práticas mais sustentáveis. Reduzir desperdícios e otimizar recursos torna-se não apenas uma vantagem competitiva, mas uma necessidade diante das mudanças climáticas.

Com o avanço do aquecimento global e a tendência de maior instabilidade climática nos próximos anos, especialistas apontam que o agro deve continuar na linha de frente dos impactos e também das soluções. Mais do que nunca, produzir bem passa a depender de inteligência no manejo e eficiência em cada etapa do processo.

Clima instável, com chuvas irregulares e estiagem, é responsável por queda na projeção da safra

A projeção da safra brasileira de grãos para 2026 foi revisada para baixo, refletindo um cenário de maior pressão climática e fitossanitária ao longo do ciclo produtivo. Segundo estimativa do IBGE, a produção deve alcançar 344,1 milhões de toneladas, queda de 0,6% em relação ao recorde de 346,1 milhões registrado em 2025, mesmo com a expansão de 1,6% na área colhida, que chega a 82,9 milhões de hectares.

A revisão negativa é explicada principalmente pela redução na produtividade de culturas relevantes, impactadas por condições climáticas adversas e aumento da incidência de pragas. No Centro-Oeste, a irregularidade nas chuvas e na estiagem compromete o desenvolvimento das lavouras, especialmente de milho e arroz. A produção de milho deve somar 134,3 milhões de toneladas, queda de 5,3% frente ao ciclo anterior, enquanto o arroz registra recuo ainda mais acentuado, de 8,0%.

Em contrapartida, a soja segue como destaque positivo, com estimativa recorde de 173,3 milhões de toneladas, crescimento de 4,3% na comparação anual. Ainda assim, o bom desempenho da oleaginosa não foi suficiente para compensar as perdas nas demais culturas.

Apesar das baixas, Douglas Vaz-Tostes, gerente técnico nacional da GIROAgro, enxerga força na safra e associa este crescimento à qualidade dos insumos utilizados. “A escolha correta dos insumos, principalmente dos fertilizantes,  define a eficiência de todo o sistema produtivo. Quando o produtor investe em nutrientes adequados, na dose certa e no momento certo, ele reduz perdas, aumenta a rentabilidade e protege o potencial produtivo da cultura. Em um cenário de clima instável, acertar nessas decisões deixa de ser recomendação e passa a ser condição básica para o sucesso da safra”, afirma.

A segunda safra de milho, conhecida como safrinha e responsável por cerca de 79% da produção nacional do cereal, concentra grande parte das preocupações. A produção está estimada em 105,4 milhões de toneladas, com retração de 9,1%, influenciada por atrasos no plantio após a colheita da soja e pelo aumento da pressão de pragas no início do ciclo.

Levantamentos recentes indicam que a colheita da safra de verão no Centro-Sul avança dentro da normalidade, atingindo 48,7% da área até meados de março, em linha com o mesmo período do ano passado. Apesar disso, o ritmo ainda é desigual entre as regiões, com estados do Sul mais avançados, enquanto áreas do Centro-Oeste apresentam início mais lento dos trabalhos.

No campo, o cenário é de maior complexidade. A pressão de pragas está mais regionalizada e intensa, com destaque para percevejos, corós, lesmas, roedores e a cigarrinha-do-milho. Esta última, inclusive, acumulou prejuízos bilionários nas últimas safras, reduzindo significativamente a produtividade média nacional.

A presença de palhada deixada pela soja, embora essencial para a conservação do solo, tem favorecido a proliferação de pragas, exigindo mudanças no manejo. A recomendação técnica é intensificar o monitoramento desde antes da semeadura e adotar estratégias mais rigorosas de Manejo Integrado de Pragas (MIP), com inspeções frequentes e ações preventivas.

Na cultura da soja, o aumento da incidência de doenças como a ferrugem asiática também pressiona os custos de produção, podendo representar parcela significativa dos gastos da lavoura em cenários mais críticos. Isso reforça a necessidade de planejamento antecipado e uso de tecnologias com diferentes modos de ação.

Foto: Mirko Fabian / Pexels.com

Diante desse contexto, produtores devem redobrar a atenção ao manejo agronômico, adotando práticas que integrem monitoramento intensivo, controle biológico, rotação de defensivos e uso de variedades adaptadas às condições regionais. A combinação desses fatores será determinante para mitigar riscos e preservar o potencial produtivo da safra 2026.

Douglas Vaz-Tostes reforça a capacidade de adaptação do agro brasileiro. “A agricultura nacional já provou que cresce mesmo em cenários adversos. Na safra 2025/26, o protagonismo do produtor dependerá da soma entre conhecimento técnico, escolhas estratégicas e eficiência no manejo. Quem age com precisão não apenas fortalece a safra atual, mas amplia seu potencial futuro em um setor que continua sendo o motor econômico do país”, finaliza.

Três dias e um alerta silencioso: o que conecta agricultura, florestas e água — e por que isso deveria te preocupar agora

por Jayme Vasconcellos*

Entre 20 e 22 de março**, três datas globais se sucedem com uma lógica que vai além do simbolismo: agricultura, florestas e água. Não é apenas uma sequência no calendário, mas um encadeamento que reflete a interdependência entre produção de alimentos, equilíbrio ambiental e disponibilidade hídrica. Tratá-los de forma isolada compromete a compreensão do todo. Integrá-los é condição para qualquer estratégia que pretenda ser consistente.

A agricultura segue como um dos pilares da segurança alimentar e da estabilidade econômica. Segundo a FAO, a produção de alimentos precisará crescer significativamente nas próximas décadas para atender à demanda global. Mas a questão central deixou de ser apenas “produzir mais”. O ponto de inflexão está em produzir melhor, com menor variabilidade de resultado frente a um ambiente climático mais instável.

Nesse contexto, as florestas deixam de ser vistas apenas como reservas ambientais e passam a ser compreendidas como infraestrutura ecológica. Elas regulam o ciclo hidrológico, estabilizam o clima regional e influenciam diretamente a produtividade agrícola. O cientista climático Carlos Nobre tem sido enfático ao afirmar que a degradação da Amazônia compromete os chamados “rios voadores”, afetando regimes de chuva em áreas agrícolas estratégicas do Brasil. Não é uma externalidade distante. É impacto direto na previsibilidade da produção.

Foto: Jeffry Surianto / Pexels.com

A água, por sua vez, é o elemento que conecta tudo isso de maneira operacional. Sem disponibilidade hídrica estável, não há agricultura resiliente. Sem cobertura florestal adequada, não há regulação eficiente da água. A diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, destacou em relatórios recentes que a pressão sobre os recursos hídricos tende a aumentar não apenas pelo crescimento populacional, mas também por padrões ineficientes de uso e gestão.

O desafio, portanto, não é apenas técnico, mas sistêmico. A fragmentação entre políticas agrícolas, ambientais e hídricas gera inconsistência de decisão. Enquanto um setor busca maximizar produção no curto prazo, outro tenta mitigar danos no longo prazo. O resultado é um sistema que opera com ruído, aumentando risco e reduzindo previsibilidade.

Especialistas como Johannes Cullmann, ligado à World Meteorological Organization, defendem que a gestão da água precisa migrar de uma lógica reativa para uma abordagem preventiva e integrada. Isso implica monitoramento em tempo real, governança multinível e uso consistente de dados para tomada de decisão.

No campo prático, isso se traduz em algumas direções claras. Integração entre uso do solo e gestão hídrica. Adoção de práticas agrícolas regenerativas. Proteção e recuperação de áreas florestais estratégicas. E, sobretudo, construção de mecanismos de governança que reduzam a variabilidade do sistema como um todo.

Essas três datas, quando lidas em conjunto, funcionam menos como celebração e mais como alerta. A agricultura depende das florestas. As florestas sustentam a água. E a água determina, no limite, a viabilidade de tudo o que vem antes.

Ignorar essa interdependência não é apenas um erro ambiental. É um risco operacional.

*Jornalista, radialista e técnico em Agronegócio. Especialista em Liderança e Desenvolvimento de Equipes, é editor-chefe do Agricultura e Negócios e autor de livros sobre liderança e criatividade.

**20/03 – Dia Mundial da Agricultura | 21/03 – Dia Mundial das Florestas | 22/03 – Dia Mundial da Água

Eventos climáticos extremos sob efeito do El Niño reposicionam o seguro no Brasil

A confirmação do retorno do fenômeno El Niño em 2026 acende um alerta para o aumento da ocorrência de eventos climáticos extremos no Brasil. De acordo com análises meteorológicas divulgadas recentemente, o aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial pode começar a se consolidar já a partir do primeiro semestre, com potencial de intensificar chuvas irregulares, tempestades severas, ondas de calor e períodos de seca em diferentes regiões do país ao longo do ciclo.

O fenômeno, que historicamente altera padrões atmosféricos e influencia diretamente o regime de precipitação na América do Sul, tende a provocar impactos semelhantes aos registrados em ciclos anteriores marcados por extremos meteorológicos e prejuízos expressivos. A combinação entre maior variabilidade climática e alta exposição urbana amplia o risco de alagamentos, deslizamentos, danos estruturais e interrupções operacionais.

Para o setor de seguros, o cenário projeta uma mudança estrutural na percepção de risco. Gustavo Zanon, CEO da Seguralta, afirma que o debate deixou de ser episódico. “Quando um fenômeno climático passa a ter recorrência e previsibilidade estatística, ele deixa de ser tratado como eventualidade. Isso exige planejamento financeiro estruturado, tanto por parte das famílias quanto das empresas”.

Segundo o executivo, o impacto econômico de eventos extremos costuma ultrapassar o dano físico imediato. “O prejuízo não está apenas na estrutura afetada. Está na paralisação da atividade, na perda de receita, na dificuldade de recomposição do fluxo de caixa. Em pequenos e médios negócios, alguns dias de interrupção podem comprometer a sustentabilidade da operação”.

A projeção de intensificação de eventos extremos ao longo de 2026 também reposiciona o seguro dentro da agenda de gestão de risco corporativo. A revisão periódica de coberturas, a adequação das apólices ao perfil regional de exposição e a análise técnica de vulnerabilidades passam a integrar o planejamento estratégico. “Seguro não deve ser contratado após o susto. Ele precisa fazer parte da arquitetura de proteção patrimonial antes da crise”, afirma Zanon.

Em um contexto de maior instabilidade climática, especialistas apontam que a discussão sobre adaptação e resiliência tende a ganhar centralidade na agenda econômica nacional. O retorno do El Niño reforça a percepção de que eventos extremos não são mais exceção estatística, mas componente recorrente do cenário de risco que impacta infraestrutura, cadeias produtivas e estabilidade financeira.

Foto: Adobe Stock

COP30: tecnologia ganha papel estratégico na luta global contra a crise climática

Venturus, centro de ciência e tecnologia brasileiro, participou do painel “Tecnologias Emergentes para o Clima” durante a COP30, em Belém. O debate reuniu especialistas de instituições internacionais como o Geneva Science and Diplomacy Anticipator, a Université de Sherbrooke e o Open Quantum Institute para discutir os impactos sociais, éticos e ambientais das novas fronteiras tecnológicas.

“Os países que possuem florestas tropicais estão apostando na sua proteção como forma de gerar benefícios. No entanto, é importante entender que quem realmente conseguirá viabilizar essa proteção são as nações com maior poder econômico. Isso mostra que preservar é uma responsabilidade global, que exige ação conjunta. A crise climática não é algo do futuro, ela já está acontecendo, e precisamos agir agora”, destacou Daniel Haro, Head de Tecnologias Emergentes no Venturus.

O painel abordou temas como o uso da inteligência artificial, da computação quântica e das biotecnologias no enfrentamento da crise climática, questionando como esses avanços podem ser aplicados de forma ética e equitativa. Para Haro, o desafio não está apenas em desenvolver tecnologias de ponta, mas em assegurar que elas contribuam de maneira concreta para a sustentabilidade. 

O representante do Venturus também ressaltou o papel do setor tecnológico como agente ativo na construção de soluções integradas. “A nossa ação vai além da preservação. Quando unimos agricultura, tecnologia, transporte, eficiência e políticas públicas mais sustentáveis, damos passos concretos em direção a uma solução real para a crise climática”, completou.

COP30: “Emergência climática é uma crise de desigualdade”, diz Lula na abertura da conferência da ONU sobre clima

com informações da Agência Brasil

O presidente Lula defendeu nesta segunda-feira (10/11) que a governança global precisa contribuir a favor de uma transição justa para economias de baixo carbono que evite um colapso climático planetário. A declaração foi dada na abertura da 30ª Conferência das Partes (COP30) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), realizada em Belém. O evento prossegue até o próximo dia 21.

“Uma transição justa precisa contribuir para reduzir as assimetrias entre o Norte e o Sul Global, forjadas sobre séculos de emissões. A emergência climática é uma crise de desigualdade. Ela expõe e exacerba o que já é inaceitável. Ela aprofunda a lógica perversa que define quem é digno de viver e quem deve morrer. Mudar pela escolha nos dá a chance de um futuro que não é ditado pela tragédia. O desalento não pode extinguir as esperanças da juventude. Devemos a nossos filhos e netos a oportunidade de viver em uma Terra onde seja possível sonhar”, destacou o presidente.

Em seu discurso, o presidente citou o pensador indígena Davi Kopenawa para pedir clareza aos negociadores. “O xamã yanomami Davi Kopenawa diz que o pensamento na cidade é obscuro e esfumaçado, obstruído pelo ronco dos carros e pelo ruído das máquinas. Espero que a serenidade da floresta inspire em todos nós a clareza de pensamento necessária para ver o que precisa ser feito”.

Realizada pela primeira vez na Amazônia – bioma com a maior biodiversidade do planeta e um regulador do clima global -, a COP30 tem o desafio de recolocar o tema das mudanças climáticas no centro das prioridades internacionais.

Foto: Bruno Peres / Agência Brasil

Lula enfatizou que o aquecimento global pode empurrar milhões de pessoas para a fome e a pobreza, fazendo retroceder décadas de avanço, e lembrou do impacto desproporcional que mudança do clima causa sobre mulheres, afrodescendentes, migrantes e grupos vulneráveis, o que deve ser levado em conta nas políticas de adaptação. O presidente reafirmou o papel dos territórios indígenas e de comunidades tradicionais nos esforços de mitigação do aumento das temperaturas, pela preservação das florestas e, consequentemente, a regulação do carbono na atmosfera. “No Brasil, mais de 13% do território são áreas demarcadas para os povos indígenas. Talvez ainda seja pouco”.

Acelerar a ação climática

Lula pediu que os líderes acelerem as ações necessárias para conter o aumento da temperatura do planeta, voltou a defender um mapa do caminho para superar a dependência dos combustíveis fósseis – que causam 75% do aquecimento global -, e sugeriu a criação de um conselho mundial sobre o tema.

“Avançar requer uma governança global mais robusta, capaz de assegurar que palavras se traduzam em ações. A proposta de criação de um Conselho do Clima, vinculado à Assembleia Geral da ONU, é uma forma de dar a esse desafio a estatura política que ele merece”, pontuou.

Ao citar o chamado à ação por parte do Brasil na COP30, Lula destacou a necessidade de formulação e implementação de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) mais ambiciosas, garantia de financiamento, transferência de tecnologia e capacitação aos países em desenvolvimento, além de priorizar políticas de adaptação aos efeitos da mudança do clima.

“A mudança do clima já não é uma ameaça do futuro. É uma tragédia do presente. O furacão Melissa que fustigou o Caribe e o tornado que atingiu o estado do Paraná, no Sul do Brasil, deixaram vítimas fatais e um rastro de destruição. Das secas e incêndios na África e na Europa às enchentes na América do Sul e no Sudeste Asiático, o aumento da temperatura global espalha dor e sofrimento, especialmente entre as populações mais vulneráveis”, observou.