Integração internacional no agro abre novas fronteiras de negócios

A agricultura mundial tem sido profundamente moldada pela força produtiva de dois gigantes: os Estados Unidos e o Brasil. De um lado, o modelo norte-americano se destaca pela alta tecnologia, eficiência operacional e liderança global na produção de grãos. Do outro, o Brasil consolida-se como um verdadeiro celeiro do mundo na produção de alimentos, impulsionado por sua diversidade, crescente inovação no campo e capacidade de produzir até três safras por ano.

Embora concorram em diversas commodities, esses dois países compartilham desafios e oportunidades que vão além da disputa por mercado. A integração entre as culturas agrícolas americana e brasileira abre espaço para a troca de conhecimento, adoção de boas práticas e geração de valor especialmente para empresas e agroindústrias brasileiras que buscam ampliar sua competitividade em escala global.

De acordo com Márcio Barboza, técnico em agricultura, gerente de exportação e vendas internacionais e especialista em expansão de mercado, planejamento estratégico e liderança de equipes, essa integração é sempre importante. “Não importa se é no preparo de solo ou em qualquer outra atividade: para atuar nos Estados Unidos, é fundamental entender suas peculiaridades se integrar a cultura local”, diz.

Segundo ele, os Estados Unidos são formados por uma diversidade cultural significativa, o que também se reflete no ambiente de negócios. “Cada estado tem suas características próprias. Em algumas regiões, principalmente no Sul, as relações são mais reservadas no início, mas, à medida que a confiança é construída, a proximidade cresce de forma consistente”, explica o especialista.

Importância da pesquisa de mercado

Para empresas que desejam acessar o mercado norte-americano, a pesquisa de mercado é um passo essencial. Compreender as características regionais, os perfis produtivos e as demandas específicas podem reduzir significativamente as barreiras de entrada. “Conhecer bem o produto e avaliar se ele se encaixa no mercado almejado é fundamental”, explica Barboza.

Não é recomendável, segundo o consultor, tentar inserir soluções voltadas para soja ou milho em regiões onde essas culturas não são expressivas, como na Califórnia, por exemplo. Nessa região já há mais oportunidades para segmentos específicos. “Quem atua com soluções para fruticultura, amêndoas e cultivos similares, a região pode ser estratégica”, destaca.

Outra recomendação é utilizar informações disponíveis online para mapear o mercado antes de ir a campo. “É possível acessar sites de revendas americanas, conhecer seus estoques, entender o tipo de maquinário utilizado e a potência de tratores mais comum em cada área, isso faz toda a diferença na abordagem comercial e torna as visitas presenciais muito mais assertivas”, orienta o profissional.

Além disso, ter uma base ou parceiro local nos Estados Unidos é um diferencial competitivo importante. “Os americanos valorizam muito a garantia de reposição de peças e suporte. Ter estoque local ou uma estrutura de apoio pode facilitar muito a entrada no mercado”, acrescenta.

Desafios

Entre os principais desafios para as empresas brasileiras está a comunicação. Dominar o idioma inglês é essencial para estabelecer relações comerciais sólidas, afinal a fluência facilitará a abertura de portas e fortalece a confiança nas negociações.

Outro ponto importante a se atentar é sobre às exigências logísticas e regulatórias. A boa notícia é que nesse ponto já há empresas especializadas locais que oferecem suporte completo, desde o transporte até o desembaraço aduaneiro. “Grande parte da operação pode ser terceirizada, o que facilita o processo de internacionalização”, explica Barboza.

Melhores oportunidades

Segundo o gerente de exportação, o segmento de componentes para o mercado de reposição (aftermarket) representa uma porta de entrada estratégica para empresas brasileiras. “É um caminho mais acessível do que tentar ingressar diretamente com máquinas ou equipamentos completos”, avalia.

Em relação às regiões, os estados do Sul dos Estados Unidos, como: Geórgia, Alabama, Mississippi, Flórida, Carolinas, Oklahoma e Arkansas, tendem a oferecer maior abertura inicial para novos negócios. Os estados da costa Oeste e parte do Noroeste, como Idaho, Washington, Oregon e Califórnia, também demonstram boa receptividade. “Tive experiências positivas tanto com revendas vinculadas a grandes marcas quanto com independentes, que estão mais abertas a novas parcerias. Também destacaria o Texas como um mercado promissor”, relata Barboza.

Já o Corn Belt, principal região produtora de grãos do país, é preciso um pouco mais de atenção, pois apresenta maior grau de competitividade e barreiras de entrada mais elevadas. “É um mercado mais consolidado e disputado e continua sendo o ambiente mais desafiador e competitivo para quem deseja entrar no mercado americano. É uma região mais indicada para quem já está com a operação consolidada”, conclui o consultor.

Safra de soja ganha 1,6 milhão de toneladas com encerramento de etapa do Rally da Safra

A Agroconsult elevou a estimativa da safra brasileira de soja para 184,7 milhões de toneladas, um crescimento de 6,7% em relação ao ciclo anterior e de 0,9% sobre a última revisão (03/março), após consolidar os dados finais da etapa soja do Rally da Safra. O novo número reflete ajustes tanto na produtividade quanto na área plantada, reforçando o cenário de mais uma grande safra no país.

A revisão ocorre após a conclusão dos dois principais levantamentos da consultoria — o de campo, realizado pelas equipes do Rally da Safra, e o de área plantada, com base em imagens de satélite da ferramenta Cropdata. Com aproximadamente 1.700 lavouras avaliadas em 14 estados e mais de 60 mil quilômetros percorridos desde janeiro, a Agroconsult revisou a produtividade nacional de 62,5 para 62,7 sacas por hectare.

Pelo lado da área, a leitura indica 49,1 milhões de hectares plantados com soja, um acréscimo de quase 300 mil hectares em relação à projeção inicial do Rally. Com isso, o ajuste total da safra 2025/26 em relação à estimativa anterior chega a 1,6 milhão de toneladas e, comparando com a temporada anterior, ultrapassa 11,5 milhões de toneladas: 30% desse crescimento ocorre em razão do aumento de área e 70% por ganhos de produtividade.

“Chegamos a um momento decisivo para a definição da safra de soja. É quando consolidamos os dados de campo coletados em todas as regiões do país, respeitando o calendário de colheita de cada área, e os integramos às informações de área plantada, obtidas com o suporte de tecnologias avançadas de processamento de imagens. Esse cruzamento de informações amplia de forma significativa a precisão das estimativas e reforça a confiabilidade dos números da produção nacional”, afirma André Debastiani, coordenador geral do Rally da Safra.

Entre os destaques positivos da safra estão Mato Grosso e Bahia. Com a colheita finalizada, Mato Grosso deve produzir 51,3 milhões de toneladas, mantendo a produtividade em 66 sacas por hectare – estável em relação ao relatório anterior e pouco acima da estimativa inicial do Rally (65 sacas).

“No início do Rally, as lavouras precoces do Mato Grosso já indicavam alto potencial produtivo. Em fevereiro, o excesso de chuvas trouxe preocupação com a qualidade e o peso dos grãos. Ainda assim, os dados finais mostram que o estado sustentou uma produtividade elevada, apoiada pelo maior número de grãos por hectare e bom peso dos grãos”, explica Debastiani.

Na Bahia, com 61% da safra colhida, os dados de campo confirmam uma das maiores revisões positivas da temporada. A produtividade estimada, que era de 66 sacas por hectare em janeiro, subiu para 68 em fevereiro e agora é estimada em 70,3 sacas por hectare — a maior do país. A produção estadual deve alcançar 9,7 milhões de toneladas.

Já o Rio Grande do Sul é o destaque negativo. Com apenas 11% da área colhida – ritmo inferior à média das últimas cinco safras -, o estado sofreu com a estiagem ao longo do ciclo. A estimativa de produtividade em janeiro, que era de 52 sacas por hectare, caiu para 47 sacas em fevereiro e foi ajustada para 48,3 sacas na rodada final. “Apesar da melhora da percepção de potencial do estado, após rodarmos o estado no final de março, a produção ainda deve ficar ligeiramente abaixo das 20 milhões de toneladas”, aponta Debastiani.

Entre os demais estados, houve algumas reduções de estimativas no terço final da colheita, em função de desafios climáticos pontuais. No Mato Grosso do Sul, o início da safra registrou implantação satisfatória, mas a irregularidade climática foi constante ao longo do desenvolvimento. A redução das chuvas e as altas temperaturas aceleraram a colheita, em meio à preocupação com a janela da segunda safra, e a produtividade foi revisada de 62,5 para 60 sacas por hectare.

Em Goiás, a safra se desenvolveu de forma satisfatória, mas a colheita trouxe peso de grãos e qualidade abaixo das expectativas. A produtividade foi reduzida de 67 para 66,2 sacas por hectares no estado.

No Paraná, a irregularidade das chuvas e as altas temperaturas afetaram principalmente as últimas áreas semeadas, em fevereiro e março, reduzindo o peso de grãos. A estimativa saiu de 67 para 66,1 sacas por hectare.

Já outros estados apresentaram revisões positivas. Em Minas Gerais, a combinação de fatores como a semeadura que, apesar dos atrasos, ocorreu de forma segura, sem necessidade de replantios, aliada ao bom nível de investimento nas lavouras e aos volumes adequados de chuva ao longo do desenvolvimento da cultura, resultou em uma produtividade recorde no estado de 68 sacas por hectare.

No MAPITO-PA, Maranhão e Piauí apresentaram bom peso de grãos em praticamente todas as regiões, o que elevou a produtividade no Maranhão para 64,2 sacas, e no Piauí, agora com 65 sacas por hectare. Já no Tocantins e Pará, as médias devem se manter próximas a 60 sacas por hectare.

Foto: Eduardo Monteiro / Rally da Safra

Segunda safra de milho

Encerrada a etapa soja, o Rally volta agora seu foco para a segunda safra de milho, que se desenvolve sob maior nível de risco climático em alguns estados. Entre 10 de maio e 15 de junho, as equipes técnicas estarão em campo para avaliar lavouras nos estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná. A área estimada pela Agroconsult é de 18,5 milhões de hectares, crescimento de 2,5 % em relação ao ciclo anterior.

A produtividade média é estimada ainda dentro da linha de tendência – em 103,1 sacas por hectare – com produção total de 114,5 milhões de toneladas, o que corresponderia a uma queda de 7,6% frente à safra passada.  

“O que vai definir o potencial produtivo é o comportamento do clima em abril. Apesar das chuvas de março e dos bons níveis de umidade no solo, os modelos climáticos divergem”, afirma Debastiani. “Enquanto o modelo europeu indica chuvas mais consistentes, o americano projeta volumes abaixo da média, o que mantém o nível de incerteza elevado”.

Segundo ele, lavouras de estados como Goiás dependem de chuvas em abril e na primeira quinzena de maio, enquanto, no Mato Grosso, a necessidade de precipitações se concentra ao longo de abril para garantir o desenvolvimento adequado das lavouras.

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Clima instável, com chuvas irregulares e estiagem, é responsável por queda na projeção da safra

A projeção da safra brasileira de grãos para 2026 foi revisada para baixo, refletindo um cenário de maior pressão climática e fitossanitária ao longo do ciclo produtivo. Segundo estimativa do IBGE, a produção deve alcançar 344,1 milhões de toneladas, queda de 0,6% em relação ao recorde de 346,1 milhões registrado em 2025, mesmo com a expansão de 1,6% na área colhida, que chega a 82,9 milhões de hectares.

A revisão negativa é explicada principalmente pela redução na produtividade de culturas relevantes, impactadas por condições climáticas adversas e aumento da incidência de pragas. No Centro-Oeste, a irregularidade nas chuvas e na estiagem compromete o desenvolvimento das lavouras, especialmente de milho e arroz. A produção de milho deve somar 134,3 milhões de toneladas, queda de 5,3% frente ao ciclo anterior, enquanto o arroz registra recuo ainda mais acentuado, de 8,0%.

Em contrapartida, a soja segue como destaque positivo, com estimativa recorde de 173,3 milhões de toneladas, crescimento de 4,3% na comparação anual. Ainda assim, o bom desempenho da oleaginosa não foi suficiente para compensar as perdas nas demais culturas.

Apesar das baixas, Douglas Vaz-Tostes, gerente técnico nacional da GIROAgro, enxerga força na safra e associa este crescimento à qualidade dos insumos utilizados. “A escolha correta dos insumos, principalmente dos fertilizantes,  define a eficiência de todo o sistema produtivo. Quando o produtor investe em nutrientes adequados, na dose certa e no momento certo, ele reduz perdas, aumenta a rentabilidade e protege o potencial produtivo da cultura. Em um cenário de clima instável, acertar nessas decisões deixa de ser recomendação e passa a ser condição básica para o sucesso da safra”, afirma.

A segunda safra de milho, conhecida como safrinha e responsável por cerca de 79% da produção nacional do cereal, concentra grande parte das preocupações. A produção está estimada em 105,4 milhões de toneladas, com retração de 9,1%, influenciada por atrasos no plantio após a colheita da soja e pelo aumento da pressão de pragas no início do ciclo.

Levantamentos recentes indicam que a colheita da safra de verão no Centro-Sul avança dentro da normalidade, atingindo 48,7% da área até meados de março, em linha com o mesmo período do ano passado. Apesar disso, o ritmo ainda é desigual entre as regiões, com estados do Sul mais avançados, enquanto áreas do Centro-Oeste apresentam início mais lento dos trabalhos.

No campo, o cenário é de maior complexidade. A pressão de pragas está mais regionalizada e intensa, com destaque para percevejos, corós, lesmas, roedores e a cigarrinha-do-milho. Esta última, inclusive, acumulou prejuízos bilionários nas últimas safras, reduzindo significativamente a produtividade média nacional.

A presença de palhada deixada pela soja, embora essencial para a conservação do solo, tem favorecido a proliferação de pragas, exigindo mudanças no manejo. A recomendação técnica é intensificar o monitoramento desde antes da semeadura e adotar estratégias mais rigorosas de Manejo Integrado de Pragas (MIP), com inspeções frequentes e ações preventivas.

Na cultura da soja, o aumento da incidência de doenças como a ferrugem asiática também pressiona os custos de produção, podendo representar parcela significativa dos gastos da lavoura em cenários mais críticos. Isso reforça a necessidade de planejamento antecipado e uso de tecnologias com diferentes modos de ação.

Foto: Mirko Fabian / Pexels.com

Diante desse contexto, produtores devem redobrar a atenção ao manejo agronômico, adotando práticas que integrem monitoramento intensivo, controle biológico, rotação de defensivos e uso de variedades adaptadas às condições regionais. A combinação desses fatores será determinante para mitigar riscos e preservar o potencial produtivo da safra 2026.

Douglas Vaz-Tostes reforça a capacidade de adaptação do agro brasileiro. “A agricultura nacional já provou que cresce mesmo em cenários adversos. Na safra 2025/26, o protagonismo do produtor dependerá da soma entre conhecimento técnico, escolhas estratégicas e eficiência no manejo. Quem age com precisão não apenas fortalece a safra atual, mas amplia seu potencial futuro em um setor que continua sendo o motor econômico do país”, finaliza.

Milho consorciado com capim pode gerar melhor retorno aos sistemas de produção

por Hemython Nascimento*

O cultivo de milho consorciado com capim é uma estratégia eficiente para otimizar o uso da área agrícola e gerar diversos ganhos aos sistemas de produção. Entre os principais benefícios dessa prática, destaca-se o importante trabalho realizado no solo pelo sistema radicular do capim, que pode dobrar o volume de raízes depositadas no perfil do solo.

Essas raízes contribuem para a descompactação e a melhoria da porosidade, aumentando a capacidade de infiltração e armazenamento de água. Além disso, favorecem a ciclagem de nutrientes, elevam o teor de matéria orgânica e ampliam o estoque de carbono do solo, aspectos fundamentais para a sustentabilidade produtiva.

Outra grande vantagem do consórcio entre milho e capim é a supressão de plantas daninhas. A presença da forrageira na área reduz a competição por água, luz e nutrientes com a cultura do milho, além de diminuir a necessidade e os custos com herbicidas. Após a colheita do cereal, o produtor ainda passa a contar com uma área de pastagem formada, que pode ser utilizada na alimentação do gado durante o período seco, garantindo uma “terceira safra” com a pecuária. Esse sistema também melhora o volume e a qualidade da palhada deixada para a safra seguinte.

Quais capins são mais indicados para o consórcio com o milho?

Entre as cultivares disponíveis no mercado, as mais indicadas e utilizadas em sistemas consorciados com o milho são a Brachiaria ruziziensis, a Brachiaria brizantha BRS Piatã e o Panicum maximum BRS Tamani. Cada material apresenta características específicas e diferentes aplicações.

Foto: Thiago Japyassu / Pexels.com

ruziziensis, por exemplo, destaca-se pelo baixo custo, rápido estabelecimento e facilidade de manejo. Já o capim Piatã apresenta maior produtividade, sistema radicular mais agressivo, melhor valor nutritivo e maior qualidade de palhada em comparação à ruziziensis. Além disso, possui um estabelecimento inicial um pouco mais lento, o que reduz a competição na fase inicial de desenvolvimento do milho.

O capim Tamani tem ganhado espaço nos sistemas consorciados, principalmente por suas características morfológicas. Trata-se de um Panicum de porte baixo, com pouco alongamento de colmo, o que mantém uma alta relação folha/colmo e gera menor competição com o milho. Além disso, apresenta alta produtividade, elevado teor de proteína e facilidade de manejo, proporcionando bom desempenho animal e palhada de excelente qualidade. Estudos recentes indicam o Tamani como um dos capins com maior compatibilidade para o consórcio com o milho, justamente por promover maior harmonia entre as culturas.

Cuidados necessários

Apesar dos benefícios, ainda existe um paradigma a ser quebrado em relação ao cultivo de milho consorciado com capins, especialmente no que diz respeito à competição entre as culturas. Muitos produtores temem perdas de produtividade. No entanto, para garantir que o milho mantenha níveis adequados de produção mesmo em consórcio, alguns aspectos são fundamentais, como a quantidade de sementes, o método de semeadura do capim e o uso de herbicidas para o chamado “travamento” da forrageira.

Resultados de pesquisas indicam que, quando o capim é semeado a lanço no momento do plantio do milho, o travamento da forrageira com produtos à base de mesotriona, quando o capim apresenta de 3 a 5 perfilhos, tem se mostrado eficiente para manter o equilíbrio do sistema, sem comprometer a produtividade de grãos.

Outra estratégia é a semeadura do capim em linha, nas entrelinhas do milho, quando o cereal estiver entre os estádios V3 e V5. Nesse caso, a competição é naturalmente menor e não há necessidade de realizar o travamento do capim com herbicidas.

*Engenheiro agrônomo, doutor em Zootecnia e gerente de P&D e Inovação da SBS Green Seeds.

Termometria de precisão já é prática no pós-colheita

A termometria de precisão deixou de ser uma promessa futura e passou a integrar, na prática, os sistemas modernos de armazenagem de grãos. Esse avanço está diretamente ligado à automação e ao uso de dados confiáveis para orientar decisões operacionais, especialmente no acionamento da aeração.

Nesse contexto, a estação meteorológica e o sensor plenum exercem papel central. Enquanto a estação fornece informações contínuas sobre o ambiente externo, o sensor plenum indica as condições reais do ar insuflado nos silos após o início da aeração. Essa combinação garante uma leitura precisa do cenário em que o grão está inserido.

Dados como temperatura e umidade do ar, volume e status de chuva, pressão atmosférica, vento e ponto de orvalho — obtidos pela estação meteorológica e associados a informações de previsão via satélite, disponíveis em tempo real no portal DEEPCE — criam a referência necessária para que o sistema interprete corretamente os dados e saiba quando iniciar ou interromper a aeração de forma adequada.

Essas informações são fundamentais para tornar as decisões automatizadas mais eficientes na armazenagem. “A precisão da termometria depende da qualidade do dado que serve de referência para o sistema operar”, explica Everton Rorato, diretor comercial da PCE Engenharia. “Quando o ambiente externo e a condição real do ar insuflado são bem monitorados, o sistema consegue decidir com mais segurança o melhor momento para ligar ou não a aeração”, diz ele.

Na prática, a integração entre dados externos e internos permite identificar as janelas mais adequadas do dia para a operação, normalmente associadas a períodos de menor temperatura e condições mais favoráveis do ar. O cruzamento dessas informações evita acionamentos desnecessários e melhora o desempenho do sistema de aeração.

A automação passa, então, a atuar de forma mais precisa: pode resfriar a massa de grãos, manter a temperatura estável ou realizar aeração localizada para combater focos de aquecimento. O resultado é maior controle térmico, preservação da qualidade do grão e redução de riscos durante o período de armazenagem.

Além dos ganhos técnicos, a termometria de precisão associada à estação meteorológica gera impactos diretos na operação. A menor necessidade de intervenção manual reduz custos com mão de obra dedicada exclusivamente ao monitoramento, enquanto o uso mais racional da aeração contribui para a redução do consumo de energia elétrica.

Ao tornar as medições mais confiáveis e as decisões mais assertivas, a termometria de precisão consolida-se como uma ferramenta essencial no pós-colheita moderno, alinhando eficiência operacional, qualidade do produto armazenado e competitividade para produtores e armazenadores.

Rally da Safra inicia etapa soja com cenário de estabilidade inédita e potencial de crescimento

A ausência de problemas extremos e a expansão moderada da área plantada colocam a safra de soja 25/26 em um patamar distinto das anteriores. As equipes do Rally da Safra, maior expedição técnica privada do país, iniciam suas atividades em campo diante de um cenário raro: uma safra que começa dentro da normalidade e com potencial de crescimento.

Nos anos anteriores, logo no início do Rally, os sinais de quebra eram evidentes: em 22/23, o Rio Grande do Sul apresentava forte comprometimento produtivo; em 23/24, o Mato Grosso já indicava perdas; e, em 24/25, novamente o Rio Grande do Sul enfrentava um início de ano muito seco e quente. Na safra 25/26, o panorama é outro. As lavouras sustentam, até o momento, potencial produtivo dentro da média dos últimos cinco anos, sem projeções de recordes, mas também sem alertas de perdas expressivas, configurando um cenário equilibrado.

A estimativa pré-Rally da Agroconsult, organizadora da expedição técnica, aponta para uma produção histórica de soja 25/26 de 182,2 milhões de toneladas, com crescimento de 5,9% em relação à safra anterior. A produtividade média brasileira é estimada em 62,3 sacas por hectare, contra 60,0 sacas na temporada passada.

Já a área plantada deve alcançar 48,8 milhões de hectares – incremento próximo de 1 milhão de hectares. Embora o ritmo de expansão seja menor que a média dos últimos dez anos — período em que o crescimento anual girou em torno de 1,7 milhão de hectares — a ampliação da área cultivada persiste mesmo em um ambiente econômico desafiador.

André Debastiani, sócio-diretor da Agroconsult e coordenador geral do Rally da Safra, explica que esse movimento é impulsionado por diferentes fatores: investimentos de grupos agrícolas com visão de longo prazo; valorização da terra, especialmente em regiões de conversão de pastagens para agricultura; e a presença de produtores com maior solidez financeira, que aproveitam o momento para ampliar sua operação.

Alguns estados se destacam pela expansão. O Mato Grosso lidera o crescimento, com acréscimo de 277 mil hectares em relação à safra anterior. Goiás também avança, com quase 159 mil hectares adicionais, enquanto a região do MAPITO – Maranhão, Piauí e Tocantins – soma 108 mil hectares de incremento.

O único estado com redução de área é o Rio Grande do Sul (menos 42 mil hectares), onde parte das áreas que haviam migrado do milho verão para a soja na safra passada retornou ao milho nesta temporada. Além disso, o ambiente econômico e financeiro mais restritivo no estado limita novos investimentos, levando produtores a priorizar áreas mais produtivas e a deixar de lado regiões marginais, especialmente no sul gaúcho.

Além do crescimento de área na maior parte das regiões produtoras, Debastiani explica que, apesar das expectativas iniciais de que o ambiente econômico pressionaria também os investimentos no campo, o que se observa é diferente. “Os produtores têm mantido bons volumes de adubação, ainda que sem crescimento, e seguem investindo em tecnologia. Fora o Rio Grande do Sul, onde há redução no uso de tecnologia, os demais estados preservam um padrão sólido de investimento, com foco em altas produtividades. Esse conjunto forma o segundo fator positivo desta safra: além da expansão de área, há manutenção da tecnologia empregada, fundamental para sustentar o potencial produtivo”, ressalta.

Ritmo do plantio

O plantio apresentou início irregular nesta safra 25/26, lembrando o comportamento climático observado em 23/24 — ano marcado por forte instabilidade e uma das maiores quebras de produção já registradas no país. Em diversos estados, setembro e outubro foram meses de dificuldade para a regularização das chuvas. Em Goiás, por exemplo, o atraso foi histórico: o estado registrou o plantio mais tardio de sua série, com a normalização das chuvas somente no final de outubro. Situação semelhante ocorreu em Minas Gerais, no Maranhão, Piauí e em regiões do sudeste e leste do Mato Grosso, onde a chuva demorou mais a se estabelecer.

Esse cenário gerou inicialmente dúvidas sobre o potencial da safra. No entanto, a regularização climática em novembro permitiu que o plantio avançasse de forma consistente, reduzindo parte das preocupações.

Algumas regiões importantes se destacaram de forma positiva no plantio. O Oeste do Paraná registrou o plantio mais adiantado de sua história, enquanto o sul do Mato Grosso do Sul conseguiu iniciar cedo e em boas condições. No Mato Grosso, o cenário é misto: o médio-norte e o oeste do estado tiveram implantação dentro do calendário e com condições climáticas mais favoráveis, o que deve contribuir para que a segunda safra seja semeada dentro da janela de menor risco.

Clima e produtividades pré-Rally

Juntamente com as boas condições de plantio e baixos níveis de replantio, o clima entre novembro e dezembro ajudou a redefinir o cenário da safra 25/26. Após um início irregular, a melhora no regime de chuvas na virada do ano favoreceu a recuperação das lavouras em praticamente todas as regiões produtoras.

No Sul, a expectativa de um ciclo mais seco, em razão da influência do La Niña, não se confirmou. No Rio Grande do Sul, as chuvas de janeiro elevaram o potencial produtivo para 52 sacas por hectare, conforme a estimativa pré-Rally, acima da média dos últimos cinco anos, mas distante do recorde de 58 sacas em 20/21. No Paraná, as lavouras mantêm bom desenvolvimento, com colheita iniciada no oeste do estado e produtividade estimada em 65 sacas por hectare – próxima do resultado de 66 sacas obtido em 22/23.

No Centro-Oeste, o Mato Grosso deve alcançar produtividade de 65 sacas por hectare, segundo as estimativas pré-Rally (contra 66,5 sacas na safra passada), apesar do atraso inicial causado pela seca e dos primeiros sinais de atraso na colheita. No Mato Grosso do Sul, o ciclo avança com condições mais favoráveis que nas duas últimas safras, com estimativa de 61,5 sacas por hectare, mais de 10 sacas acima das duas últimas safras, embora abaixo de 22/23. Em Goiás, mesmo com plantio tardio, o potencial produtivo está em 66 sacas por hectare, duas sacas abaixo da safra 24/25.

No Nordeste, a Bahia combina expansão das áreas irrigadas com recuperação das lavouras de sequeiro após a retomada das chuvas, mantendo potencial de 66 sacas por hectare, dentro da média dos últimos cinco anos. Maranhão, Piauí e Tocantins enfrentaram atrasos e maior necessidade de replantio, mas a região deve alcançar média de 60 sacas por hectare, pouco abaixo da safra passada, mas ainda dentro da média histórica recente.

No Sudeste, São Paulo avançou rapidamente no plantio e projeta 62 sacas por hectare. Já Minas Gerais teve o plantio mais tardio dos últimos anos, o que pressiona o calendário do milho, mas mantém potencial de 66 sacas por hectare.

“As avaliações de campo são essenciais para aprofundar as análises, validar e ajustar os números. As previsões climáticas para os próximos 15 dias são favoráveis e não há um grande problema que preocupe os produtores. Caso essa condição permaneça em fevereiro e março devemos ter uma melhora significativa nos números de produtividade”, diz o coordenador do Rally.

100 mil quilômetros

As equipes técnicas do Rally irão percorrer mais de 100 mil km por 14 estados (MT, MS, GO, DF, MG, SP, PR, SC, RS, MA, PI, TO, BA e PA). As áreas visitadas respondem por 97% da área de produção de soja e 72% da área de milho. Patrocinam a 23ª edição da expedição BASF, Credenz® e SoyTech® (marcas de sementes da BASF), xarvio® (plataforma digital oficial do Rally), OCP Brasil, Banco Santander, Agrivalle, John Deere, Mitsubishi e JDT Seguros.

Fotos: Eduardo Monteiro / Rally da Safra

Safra 2025/26: insumos estratégicos e decisões assertivas definirão a produtividade e a estabilidade do produtor rural

A safra 2025/26 já avança em ritmo acelerado pelo Brasil, e as primeiras decisões deste ciclo já estão sendo tomadas em meio a um ambiente marcado por incertezas climáticas, custos sensíveis e exigência crescente por insumos de maior eficiência agronômica.

Após duas temporadas consecutivas de forte instabilidade, a 25/26 se inicia com um padrão climático que exige atenção redobrada. A distribuição irregular das chuvas, as oscilações de temperatura e a alternância entre El Niño e La Niña ampliam a importância de manejar o arranque das culturas com precisão. Esses fatores tornam ainda mais valioso o uso de insumos eficientes e tecnologias que ajudam a garantir vigor inicial, uniformidade e estabilidade ao longo do ciclo.

A esse contexto climático se soma uma conjuntura econômica que reforça o protagonismo das decisões técnicas. A volatilidade internacional, as variações cambiais e os custos mais sensíveis colocam a escolha de fertilizantes, defensivos e bioinsumos no centro da estratégia do produtor. Cada decisão tomada agora influencia diretamente a construção de produtividade, o aproveitamento dos nutrientes e a saúde do solo — especialmente em um ciclo que tende a premiar quem atua com precisão e inteligência agronômica.

O agronegócio brasileiro deve encerrar 2025 com produção superior a 353 milhões de toneladas de grãos, mas a consolidação desse volume depende de eficiência dentro da porteira. Em um ambiente de margens mais estreitas e alta dependência da regularidade climática, a assertividade nas escolhas de insumos se torna determinante para o desempenho das lavouras.

Foto: Pixabay / Pexels.com

Para Douglas Vaz-Tostes, gerente técnico nacional da GIROAgro, a força da safra está diretamente ligada à qualidade dos insumos utilizados. “A escolha correta dos insumos, principalmente dos fertilizantes,  define a eficiência de todo o sistema produtivo. Quando o produtor investe em nutrientes adequados, na dose certa e no momento certo, ele reduz perdas, aumenta a rentabilidade e protege o potencial produtivo da cultura. Em um cenário de clima instável, acertar nessas decisões deixa de ser recomendação e passa a ser condição básica para o sucesso da safra”, afirma.

Nesse contexto, a fertilidade assume papel central. A qualidade da adubação no sulco, a seleção criteriosa das fontes e o uso de tecnologias que aumentam a disponibilidade e a eficiência dos nutrientes são fatores que moldam diretamente o desempenho ao longo do ciclo. A volatilidade dos preços globais de ureia, MAP e KCl reforça a importância de estratégias inteligentes, que incluem fertilizantes de maior eficiência, tecnologias de liberação controlada e combinações capazes de ampliar absorção e aproveitamento.

Outro protagonista da safra 25/26 é o avanço dos bioinsumos, que crescem mais de 20% ao ano e consolidam-se como ferramentas indispensáveis na estratégia moderna. Inoculantes, promotores de crescimento e soluções de proteção biológica se tornam essenciais para maximizar vigor inicial, aprofundar raízes e aumentar a resiliência frente ao estresse hídrico e à pressão de patógenos, pontos críticos em ciclos marcados por irregularidade climática.

O ambiente de mercado também exige atenção. A volatilidade internacional impacta diretamente soja e milho, demandando estratégias comerciais mais estruturadas, como hedge, contratos antecipados e organização logística desde a armazenagem até o transporte. Regiões com gargalos estruturais precisarão ajustar operações para evitar perdas e atrasos.

Apesar dos desafios, a safra 2025/26 apresenta oportunidades consistentes. A evolução das tecnologias de monitoramento, sensoriamento remoto, agricultura de precisão e ferramentas digitais permite decisões mais ágeis, precisas e rentáveis. A integração entre informação, tecnologia e insumos de alta performance potencializa a produtividade, reduz custos e fortalece a sustentabilidade do sistema de produção.

Douglas Vaz-Tostes reforça a capacidade de adaptação do agro brasileiro. “A agricultura nacional já provou que cresce mesmo em cenários adversos. Na safra 2025/26, o protagonismo do produtor dependerá da soma entre conhecimento técnico, escolhas estratégicas e eficiência no manejo. Quem age com precisão não apenas fortalece a safra atual, mas amplia seu potencial futuro em um setor que continua sendo o motor econômico do país”, finaliza.

Especialistas debatem custos de produção e competitividade de grãos no cenário global

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) promoveu o evento “Benchmark Agro – Custos Agropecuários 2025”, encerrando o Circuito de Resultados do Projeto Campo Futuro. O encontro reuniu especialistas nacionais e internacionais para discutir a competitividade e os desafios da próxima safra de soja e milho no Brasil, Argentina e Estados Unidos.

O painel “Conexão Global: Custos de Grãos e Competitividade no Mercado” apresentou um panorama detalhado de custos e produtividade.

Brasil: produtividade alta, margem em queda

Segundo o pesquisador Mauro Osaki (Cepea), a safra 2024/2025 de soja foi “espetacular” em produtividade, alcançando média de 61,7 sacas por hectare nas principais regiões monitoradas. No entanto, a margem bruta do grão recuou 63% em comparação com as últimas três safras, apesar de ter chegado a US$ 92 por tonelada. Osaki alertou para o Rio Grande do Sul, que enfrentou queda de produtividade e aumento do custo para US$ 127/t.

Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios

Para o milho de segunda safra, a produtividade ficou acima de 7 ton/ha em Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, com um custo médio variando entre US$ 140 a 146 por tonelada.

Desafios na Argentina e EUA

Christian Bengtsson, da Bedrock Farmland Wealth, destacou que o agronegócio argentino enfrenta grandes desafios nos custos, principalmente devido às altas taxas de exportação: a soja paga 36% e o milho, 9,5%. Ele observou que, apesar disso, os produtores argentinos se mantêm em atividade graças a custos operacionais mais baixos, impulsionados pela fertilidade do solo e pela rotação de culturas, o que reduz a dependência de fertilizantes.

Nos Estados Unidos, Kelvin Leibold (Agribenchmark) focou nos custos de produção em Iowa. O pesquisador apontou que mais de 60% das terras são arrendadas, e os custos de insumos, especialmente sementes OGM, estão em ascensão. Leibold ressaltou a necessidade de inovar para superar o aumento constante nos custos dos insumos de soja, que afetam o preço final do produto no mercado.