Expansão do etanol de cereais abre fronteiras para milho e sorgo no Brasil

A expansão do etanol produzido a partir de cereais começa a desenhar uma nova geografia para a indústria de biocombustíveis no Brasil. Depois de se consolidar principalmente em regiões com grande disponibilidade de milho, como Mato Grosso, o setor passa a avançar para novas fronteiras agrícolas, aproximando as usinas de áreas com potencial de crescimento na produção de grãos e abrindo espaço para matérias-primas alternativas, especialmente o sorgo.

Estima-se que o país possui atualmente 29 usinas de etanol de milho em operação, com capacidade para processar aproximadamente 20,9 milhões de toneladas de milho por ano e produzir cerca de 10,6 bilhões de litros de etanol. A expansão, entretanto, deve continuar, levantamentos setoriais de 2026 apontam 27 novos projetos em desenvolvimento para os próximos anos.

Segundo Enilson Nogueira, engenheiro agrônomo e consultor de mercado da Céleres, a origem do etanol de milho está diretamente ligada à necessidade de reduzir os impactos da logística sobre o preço do grão. “O etanol de milho surgiu como uma estratégia de agregação de valor ao cereal produzido localmente. Em vez de simplesmente exportar o grão, passou-se a transformá-lo em etanol, fortalecendo as cadeias produtivas internas e criando novas oportunidades econômicas na própria região”, explica.

O modelo ganhou força inicialmente no interior de Mato Grosso, em regiões como Campo Novo do Parecis, e posteriormente avançou para o eixo da BR-163, onde estão algumas das maiores unidades produtoras do país. A instalação das usinas permitiu transformar parte do excedente de milho da segunda safra em combustível, reduzindo a necessidade de transportar grandes volumes do cereal para outros mercados.

Além da agregação de valor, a proximidade com os centros consumidores também se tornou uma vantagem competitiva. Regiões do Centro-Oeste e do Centro-Norte, que anteriormente dependiam do etanol produzido em estados como São Paulo, Goiás e Minas Gerais, passaram a contar com oferta mais próxima. “O ganho de eficiência industrial ampliou ainda mais a competitividade. Atualmente, o etanol produzido em Mato Grosso chega, por exemplo, ao mercado paulista e disputa espaço diretamente com o combustível produzido a partir da cana-de-açúcar”, destacou o consultor.

Raio-x do MATOPIBA

Com a consolidação do modelo em MT e a busca por novas fontes de matéria-prima, a indústria começa a olhar para regiões que ainda apresentam espaço para expansão da produção de cereais. O MATOPIBA, formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, ganha destaque nesse cenário. A Bahia já conta com uma usina em operação, enquanto o Maranhão também passou a integrar o movimento de expansão do etanol de cereais.

Para Nogueira, a dinâmica dessas novas fronteiras é diferente daquela observada nas regiões mais tradicionais do Centro-Oeste. Em determinados locais, as condições climáticas e a maior instabilidade da janela de plantio tornam mais arriscado apostar exclusivamente no milho de segunda safra.

É justamente nesse ambiente que o sorgo pode ganhar espaço. “O MATOPIBA reúne dois fatores importantes: demanda industrial e um calendário produtivo mais arriscado. Nesse cenário, o sorgo se encaixa muito bem”, afirma.

Além de apresentar maior tolerância a condições de déficit hídrico e altas temperaturas, o sorgo pode ser processado utilizando uma lógica industrial semelhante à do milho. Discussões técnicas e estudos recentes indicam que o cereal pode apresentar rendimento de etanol próximo ao do cereal por tonelada, com ajustes no processo industrial, enquanto os coprodutos resultantes também apresentam características adequadas para utilização na nutrição animal.

O especialista acrescenta ainda que o mesmo raciocínio pode ser aplicado ao Vale do Araguaia, no leste de Mato Grosso, especialmente em áreas entre Água Boa e Querência. Enquanto regiões como Campo Novo do Parecis, Lucas do Rio Verde, Sinop e Sorriso possuem uma cadeia de milho consolidada, com mercado e formação de preços bem estruturados, o leste do estado apresenta características mais próximas às novas fronteiras agrícolas.

Nessas áreas, o sorgo pode funcionar como alternativa para produtores que enfrentam maior risco climático e dificuldades para estabelecer uma segunda safra de milho dentro da janela ideal.

Uma indústria que vai além do etanol

Foto: Bruno Kraler / Pexels.com

Outro fator que contribuiu para a consolidação do modelo foi o aproveitamento dos coprodutos. O DDG (grãos secos de destilaria) passou a ter papel relevante na composição da receita das usinas e na integração com outras cadeias do agronegócio.

Dependendo do modelo de negócio, os coprodutos podem representar entre 20% e 30% da receita das unidades, além de serem utilizados na alimentação de bovinos, aves e suínos. “O DDG passou a integrar de forma muito direta outras cadeias do agronegócio. A usina compra o milho, produz etanol e DDG, e esse coproduto é utilizado na alimentação de bovinos, aves e suínos da própria região. Criou-se uma verdadeira engrenagem de economia circular, que fortalece a economia regional e agrega valor ao milho produzido localmente”, destaca Nogueira.

Esse modelo ajuda a explicar por que a instalação de uma usina pode provocar efeitos que vão além da indústria de biocombustíveis. Ao criar um mercado consumidor local para os grãos, a planta também pode estimular investimentos na produção agrícola, melhorar a estrutura de comercialização e fortalecer atividades pecuárias que utilizam os coprodutos.

Nova era do etanol de cereais

A mudança de perspectiva é estratégica para a indústria. Como o processo de produção utiliza o amido dos grãos, as usinas podem trabalhar com diferentes matérias-primas, desde que sejam adequadas ao processo industrial.

Isso permite pensar em uma nova geração de unidades mais flexíveis, capazes de ajustar o mix de matérias-primas de acordo com preço, disponibilidade regional, produtividade, condições climáticas e logística. “O mais adequado hoje é falar em etanol de cereais. Seja milho, trigo ou sorgo, todos possuem amido e podem ser utilizados para a produção de etanol e de coprodutos. A indústria ganha flexibilidade e pode adaptar sua matéria-prima às características de cada região”, ressalta o consultor.

Na prática, isso abre espaço para um novo conceito: a transformação das atuais usinas de etanol de milho em biorrefinarias de grãos, capazes de trabalhar com diferentes cereais de acordo com a oferta regional. “Hoje, o sorgo reúne dois fatores importantes: produtividade e margem. Para a indústria, é uma matéria-prima competitiva, principalmente em regiões onde seu preço tende a ser inferior ao do milho. E, para o produtor, pode representar uma alternativa interessante justamente onde o risco de estabelecer uma segunda safra de milho é maior”, conclui Nogueira.

Entre recorde de produção e atraso nas compras, produtor rural corre contra o tempo na safra 2026/27

O agronegócio brasileiro fecha a safra 2025/26 com números recordes, mas entra no planejamento do ciclo 2026/27 sob um cenário de custos mais voláteis, crédito delimitado, câmbio pressionado e exigências internacionais mais rígidas. Segundo o mais recente levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o país deve colher cerca de 360 milhões de toneladas de grãos na safra que se encerra, puxado por uma produção recorde de soja, próxima de 180 milhões de toneladas, e por uma safra de milho que soma 141,7 milhões de toneladas somadas as três safras. O café também caminha para um novo recorde em 2026/27, com estimativas de diferentes consultorias variando entre 66 milhões e mais de 75 milhões de sacas.

Apesar do otimismo com a produção, o custo dos insumos segue no centro das atenções. O mercado internacional de fertilizantes voltou a ficar tenso neste ano, pressionado pela instabilidade geopolítica no Oriente Médio e por gargalos logísticos que encareceram fretes e o gás natural, matéria-prima essencial para os nitrogenados. Ainda que o Índice de Poder de Compra de Fertilizantes tenha recuado em junho, refletindo a queda nas commodities agrícolas e nos preços médios de insumos, o produtor segue mais cauteloso nas negociações para 2026/27. Dados do setor apontam que pouco mais da metade do volume de fertilizantes necessário para a próxima safra havia sido contratada até o momento, patamar abaixo do histórico para a época, o que acende o alerta para uma possível concentração de compras no gargalo logístico próximo ao plantio.

Segundo Marcos Dallagnese, diretor Comercial da Orbia, plataforma digital integrada do agronegócio, cada cultura vive um momento distinto de mercado, o que exige estratégias diferentes de compra e gestão de insumos ao longo da safra. “A soja segue em ritmo de recuperação de preços de olho na demanda e safra americana, mas isso também exige do produtor atenção redobrada ao câmbio e ao timing entre a venda do grão e a compra de insumos. Já o milho vive uma transformação estrutural, com a expansão acelerada das usinas de etanol ampliando a disputa pelo grão e tornando o planejamento logístico ainda mais estratégico. O café, por sua vez, segue em um bom momento de preços e volatilidade, mesmo diante da expectativa de safra recorde, o que exige acompanhamento constante do mercado por parte do produtor”, afirma.

De fato, o etanol de milho deve consumir cerca de 37,7 milhões de toneladas do cereal na safra 2026/27, avanço de 36% sobre o ciclo anterior, elevando a participação do biocombustível para cerca de 34% da demanda doméstica por milho, segundo levantamento do Itaú BBA. O movimento amplia a disputa pelo grão entre indústria de biocombustíveis, exportação e proteína animal, e tende a aumentar a sensibilidade dos preços domésticos em momentos de menor oferta.

Já no café, apesar da previsão de colheita recorde para 2026/27, o mercado físico segue pressionado: praças produtoras de Minas Gerais, como Guaxupé e Varginha, acumularam valorização importantes em julho, reflexo de estoques certificados apertados e do ritmo ainda lento de comercialização antecipada da nova safra, hoje bem abaixo da média histórica para a época.

Foto: Ebahir / Pexels.com

Ainda de acordo com Dallagnese, o produtor rural brasileiro vem adotando um perfil cada vez mais estratégico na tomada de decisão, deixando de comprar apenas com base em oportunidade pontual para analisar timing, condições comerciais, crédito e previsibilidade operacional. “Hoje, o produtor precisa olhar para a compra de insumos como parte da gestão financeira da propriedade. Não basta apenas garantir produto, é preciso buscar eficiência, previsibilidade com parceiros confiáveis e ferramentas que ajudem na tomada de decisão ao longo da safra”, explica.

Nesse movimento, as plataformas digitais vêm ganhando espaço dentro do agro brasileiro. A Orbia, que nasceu como um programa de fidelidade e hoje reúne soluções completas para a cadeia agrícola, conecta produtores rurais a uma ampla rede de revendas, distribuidores e cooperativas em todo o país, permitindo cotação, compra e pagamento online de insumos agrícolas.

“A digitalização trouxe mais agilidade e transparência para o mercado. Na Orbia, o produtor consegue comparar ofertas, acompanhar condições comerciais e acessar diferentes fornecedores em um só lugar, o que contribui diretamente para um planejamento mais eficiente das compras”, destaca Dallagnese.

Além das questões operacionais, o mercado agrícola também passa por uma transformação ligada às exigências globais de rastreabilidade, sustentabilidade e conformidade regulatória. Um dos temas que mais deve pautar 2026 e 2027 é o Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR), que passa a valer de forma gradual a partir de dezembro de 2026 para grandes e médios produtores, e a partir de junho de 2027 para pequenos produtores. 

Entre as commodities mais expostas à nova regra está justamente o café, uma vez que mais da metade da safra brasileira segue para a União Europeia, mas a soja também figura entre os produtos citados como relevantes pela regulação, reforçando a necessidade de sistemas robustos de rastreabilidade e comprovação de origem ao longo de toda a cadeia produtiva.

“O agro brasileiro continua extremamente forte e competitivo, mas o cenário atual exige cada vez mais profissionalização. Quem conseguir unir planejamento, tecnologia e gestão, terá mais capacidade de enfrentar um ambiente de margens apertadas e maior pressão do mercado global”, finaliza Dallagnese.

Seguradoras elevam a régua para o seguro de silos

Poeira em suspensão, acúmulo de resíduos, fontes de calor e medidas de prevenção passaram a ganhar atenção crescente das seguradoras na análise de risco de unidades armazenadoras. Mais do que avaliar a estrutura física dos silos, as seguradoras querem saber quais medidas estão sendo adotadas para reduzir a probabilidade de incêndios, explosões e outros sinistros. A mudança acompanha um cenário que preocupa o setor. Somente no primeiro semestre de 2026, quatro grandes incêndios foram registrados em unidades armazenadoras de grãos no Brasil, reforçando a necessidade de investimentos em prevenção e gestão de riscos. A sucessão desses episódios tem levado produtores, armazenadores e seguradoras a ampliar a atenção sobre práticas e soluções capazes de reduzir a exposição a acidentes.

Na avaliação de Fabio Tomain, proprietário da FTAGRO Gestão de Riscos 360, a análise das seguradoras evoluiu e hoje considera fatores que demonstram o nível de controle de riscos adotado pela empresa. “A seguradora busca entender não apenas a estrutura da unidade armazenadora, mas também quais medidas efetivas são adotadas para reduzir a possibilidade de sinistros. Quanto maior a capacidade de prevenção e gerenciamento dos riscos, melhor é a percepção sobre a operação durante a análise da apólice”, afirma. Segundo Tomain, a prevenção passou a ocupar um papel estratégico na gestão das unidades armazenadoras, principalmente diante da recorrência de incêndios registrados no país.

Foto: Jean Paglia / Pexels.com

Para Adriano Mallet, diretor da Agrocult Consultoria, distribuidora do Cycloar, a prevenção precisa fazer parte da rotina das unidades armazenadoras, e não apenas ser lembrada depois que um acidente acontece. “Grande parte dos fatores que favorecem incêndios e explosões pode ser reduzida com boas práticas e com o uso de tecnologias adequadas. Controlar a poeira em suspensão, melhorar a ventilação e reduzir condições que favoreçam focos de ignição significa aumentar a segurança da operação e proteger pessoas, patrimônio e os grãos armazenados”, destaca.

Entre os fatores que mais preocupam especialistas estão justamente a poeira em suspensão, o acúmulo de resíduos e a presença de fontes de calor em ambientes fechados, condições que podem favorecer incêndios e explosões quando não são controladas adequadamente. Um incêndio em uma unidade armazenadora pode comprometer estoques, interromper operações, provocar prejuízos elevados e afetar a continuidade das atividades. Nesse cenário, sistemas de exaustão como o Cycloar passam a ganhar relevância. Desenvolvido para promover a renovação contínua do ar no interior dos silos, o equipamento reduz a concentração de poeira em suspensão, melhora a ventilação e contribui para minimizar condições favoráveis à ocorrência de incêndios e explosões. Além de aumentar a segurança operacional, a adoção de tecnologias preventivas demonstra uma postura de gestão voltada ao controle de riscos, aspecto que tende a ser observado com atenção crescente pelas seguradoras durante os processos de emissão e renovação de apólices.

Agosto mantém culturas de inverno sob atenção e reforça papel da nutrição líquida na proteção do potencial produtivo

Agosto marca uma nova etapa para as culturas de inverno no calendário agrícola brasileiro. A colheita do milho de segunda safra 2025/26 avançou de forma significativa nas últimas semanas e já alcançava 78,2% da área cultivada no país na primeira quinzena do mês. Em Mato Grosso, os trabalhos entraram na reta final, enquanto Paraná, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo e Minas Gerais seguem avançando nas operações em ritmos diferentes, influenciados principalmente pelas condições climáticas de cada região.

O trigo, por sua vez, entra em agosto com a implantação da safra praticamente concluída. Segundo a Conab, 99,9% da área prevista já estava semeada no início do mês. No Rio Grande do Sul, principal estado produtor, as lavouras apresentam diferentes estágios de desenvolvimento, com áreas mais precoces já entrando em floração. No Paraná, as condições das lavouras permanecem majoritariamente favoráveis, enquanto em estados como Bahia a escassez de chuvas vem provocando estresse hídrico e redução do potencial produtivo das primeiras áreas colhidas.

O cenário climático amplia a atenção do produtor. Agosto começou sob influência crescente do El Niño, com previsão de chuva acima da média no Sul do Brasil e possibilidade de novos episódios de temporais. Ao mesmo tempo, áreas do Centro-Oeste e do Sudeste enfrentam períodos de calor, tempo seco e baixa umidade, com temperaturas acima da média para esta época do ano. Essa combinação cria condições bastante distintas para as lavouras e reforça a importância do manejo nutricional diante dos diferentes tipos de estresse.

Para Leonardo Sodré, CEO da GIROAGRO, o clima instável gera obstáculos diferentes que podem ser abrandados com o uso de fertilizantes líquidos. “Esse inverno não está seguindo o roteiro. Tem região aquecendo quando devia estar frio, e região alagando quando devia estar seca, e a planta não perdoa esse tipo de instabilidade justamente na fase em que ela mais precisa de nutriente disponível. Não dá para controlar o clima, mas dá para garantir que a planta tenha o que precisa para não perder potencial produtivo no meio do caminho. É aí que a nutrição líquida bem aplicada faz a diferença”, afirma Sodré.

Esse é também um momento de reposicionamento estratégico para o produtor. Com as culturas de inverno avançando para fases importantes do ciclo e o milho de segunda safra entrando na reta final da colheita em diferentes estados, eficiência no uso de insumos e capacidade de resposta às condições climáticas ganham ainda mais importância. Em um cenário de custos pressionados e margens disputadas, preservar o potencial produtivo de cada hectare passa a ser fundamental para proteger a rentabilidade da lavoura.

Culturas de inverno como trigo, aveia e cevada se desenvolvem em um período marcado por condições que podem limitar seu desempenho. Temperaturas mais baixas, possibilidade de geadas em determinadas regiões, menor disponibilidade hídrica em parte do país e, neste ano, excesso de umidade em áreas do Sul formam um conjunto de estresses capaz de interferir na capacidade da planta de absorver nutrientes justamente em etapas importantes para a formação e o enchimento dos grãos.

É nesse ponto que a nutrição líquida se torna estratégica. Fertilizantes líquidos formulados com nutrientes quelatizados permitem maior velocidade de absorção foliar, maior translocação dentro da planta e menor perda por fixação no solo, problema recorrente em solos tropicais brasileiros. Na prática, isso significa entregar o nutriente certo no momento certo do ciclo, especialmente nas fases críticas de formação e enchimento de grãos, quando deficiências nutricionais podem se traduzir diretamente em perda de produtividade e qualidade.

No trigo, essa atenção ganha relevância adicional porque parte importante das lavouras do Sul ainda atravessará fases decisivas de desenvolvimento nas próximas semanas. O excesso de umidade previsto para a região pode elevar a pressão sobre as plantas e favorecer problemas fitossanitários, enquanto períodos de calor e baixa umidade em outras áreas produtoras impõem um tipo diferente de estresse. Plantas nutricionalmente equilibradas tendem a apresentar melhores condições para atravessar essas oscilações, tornando o manejo nutricional uma ferramenta de proteção do investimento realizado pelo produtor ao longo do ciclo.

O avanço do El Niño acrescenta mais uma variável a esse cenário. A expectativa para agosto é de chuva acima do normal no Sul, enquanto Centro-Oeste e Sudeste devem alternar períodos de tempo seco, calor e baixa umidade com a passagem de frentes frias. Para o produtor, isso significa trabalhar com uma lavoura exposta a mudanças relativamente rápidas de temperatura e disponibilidade hídrica, justamente quando algumas das principais culturas de inverno atravessam etapas determinantes para a produtividade.

O ponto central é entender que o teto produtivo de uma lavoura de inverno é construído ao longo de todo o ciclo, e não apenas no momento da colheita. Uma vez comprometido por deficiência nutricional em uma fase crítica, esse potencial dificilmente é recuperado integralmente nas etapas seguintes. Investir em nutrição líquida de qualidade nesse período é, portanto, menos uma questão de custo adicional e mais uma decisão de proteção de receita e do investimento já realizado na lavoura.

Milho ganha força, enquanto soja espera por novos sinais de demanda no mercado internacional

Enquanto o milho começa a encontrar espaço para uma recuperação no mercado internacional, a soja ainda enfrenta um obstáculo conhecido: a demanda. Os dados de oferta e demanda divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em agosto mostram uma mudança importante no equilíbrio entre os dois grãos. No milho, estoques menores aumentam a sensibilidade do mercado a novas perdas de produção ou surpresas na demanda. Na soja, o aumento da oferta americana mantém os preços mais dependentes de novos estímulos, especialmente das compras chinesas.

No Brasil, porém, o comportamento das bolsas internacionais é apenas parte da formação dos preços, que também depende de câmbio, prêmios e demanda.

Soja ainda depende da demanda

Na soja, a produtividade americana foi revisada de 59,40 para 59,07 sacas por hectare, mas a área colhida aumentou 1,7%, para 34,72 milhões de hectares. Com isso, a produção chegou a 122,99 milhões de toneladas, acima das 121,8 milhões esperadas pelo mercado. Os estoques finais ficaram em 8,71 milhões de toneladas, enquanto a previsão de importação da China permaneceu em 115 milhões de toneladas. 

Para Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, o aumento da oferta americana reduz o espaço para uma alta mais consistente. “O que trava a soja hoje é demanda. O esmagamento maior sustenta farelo e óleo, mas não resolve o excedente de grão que precisa sair dos Estados Unidos”, afirma. 

A produção brasileira de soja para 2026/27 permanece projetada em 186 milhões de toneladas. Nesse cenário, o mercado passa a depender de novos sinais de demanda chinesa ou de perdas mais significativas nas lavouras americanas para ganhar sustentação.

Milho tem estoques mais apertados

No milho, a combinação entre exportações maiores e estoques menores mudou a percepção do mercado. As exportações americanas para 2025/26 subiram de 84,46 milhões para 86,36 milhões de toneladas, enquanto os estoques de passagem recuaram de 51,31 milhões para 49,40 milhões. Para 2026/27, os estoques finais foram projetados em 41,98 milhões de toneladas, queda de 7,65%. 

“A relação estoque/uso americana saiu do cenário mais  confortável e entrou em patamar justo, e assim o mercado começa a precificar risco: com pouco colchão, qualquer problema de clima ou surpresa de demanda gera reação de preço desproporcional ao tamanho do dado”, explica Isabella. 

Apesar da produção americana continuar elevada, em 406,75 milhões de toneladas, o menor volume disponível reduz a margem para novas perdas de produtividade ou aumento das exportações. A relação estoque/uso caiu de 11,01% para 10,12%, reforçando a mudança no balanço do cereal.

Câmbio segue decisivo para o produtor

No mercado brasileiro, os efeitos desse cenário ainda dependem de fatores domésticos. A projeção de estoques finais de milho para 2026/27 caiu de 11,1 milhões para 10,1 milhões de toneladas, enquanto o consumo interno subiu de 98 milhões para 100 milhões de toneladas. 

Para Isabella, a movimentação internacional precisa ser analisada em conjunto com as condições do mercado brasileiro. “Câmbio, prêmios da soja e exportações brasileiras de grãos continuam definindo quanto do movimento externo chega ao produtor. No milho, o consumo doméstico brasileiro também ganha importância”, afirma. 

O cenário desenhado pelos dados do USDA coloca milho e soja em momentos distintos. Enquanto o cereal passa a operar com menor margem de segurança nos estoques americanos e fica mais sensível a fatores como clima e demanda, a soja ainda precisa de novos estímulos para reduzir a pressão provocada pela oferta. Para o mercado brasileiro, a combinação entre esses fatores externos e as condições domésticas será determinante para definir os próximos movimentos de preços.

USDA favorece milho e deixa soja sem força para sustentar alta

O relatório de agosto do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mudou o humor do mercado agrícola nesta semana. Enquanto a soja recebeu sinais mistos, o milho ganhou força após a redução da produtividade americana e a queda dos estoques finais, cenário que aumentou a percepção de aperto na oferta e ajudou a sustentar as cotações em Chicago e na B3.

Na soja, a queda da produtividade acabou neutralizada pelo aumento da área colhida e da produção nos Estados Unidos. “Produtividade menor é positiva, mas área maior, produção maior e estoques acima do esperado neutralizam boa parte desse efeito”, afirma Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro. Segundo ela, a manutenção das importações chinesas em 115 milhões de toneladas também limitou uma reação mais forte dos preços.

O milho apresentou leitura mais favorável. As exportações americanas subiram e os estoques finais recuaram, deixando o balanço mais apertado. “A relação estoque sobre uso caiu de 11% para 10,12%. Isso significa um balanço americano de milho mais apertado”, diz Yedda. Para a analista, esse foi o dado mais relevante do relatório.

Para o produtor brasileiro, a orientação segue cautelosa. Na soja, novos sinais de demanda chinesa ou perdas adicionais na safra americana seriam necessários para sustentar altas mais consistentes. No milho, o fundamento melhorou, mas câmbio, prêmio e ritmo das exportações continuam sendo determinantes para o preço recebido no mercado doméstico.

Foto: Tom Fisk / Pexels.com

Plataforma brasileira de IA ajuda o agronegócio a reduzir perdas e enfrentar impactos do Super El Niño

O agronegócio brasileiro deve enfrentar nos próximos meses um dos ciclos climáticos mais desafiadores das últimas décadas. O Super El Niño, previsto para causar impactos no Brasil entre outubro e novembro, com secas prolongadas, ondas de calor e enchentes regionais, vai afetar lavouras, rebanhos, logística, armazenagem e operações industriais.

Em um cenário em que perdas pós-colheita por falhas de armazenagem e controle podem chegar a 30%, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), e em que produtores que mantêm inventários estruturados conseguem reduzir entre 10% e 25% dos custos operacionais anuais, a solução para mitigar riscos está no uso da Inteligência Artificial (IA), como estratégia para manter a resiliência operacional do setor.

É o que defendem os engenheiros Pedro Sobreira, Anderson Santos e Marco Nippashi, executivos fundadores da Eco Inventory, primeira plataforma brasileira que usa IA para gestão de inventário de estoque, inventário de ativos e conciliação contábil. Para eles, que também são ex-executivos das Big Four — grupo formado por KPMG, Deloitte, Ernst & Young (EY) e PricewaterhouseCoopers (PwC) — fortalecer a gestão de ativos, estoques e infraestrutura em fazendas, cooperativas e agroindústrias diante de eventos climáticos extremos, respeitando características locais, é o que pode garantir a continuidade produtiva.

Estudos do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) e do banco internacional Rabobank mostram que produtores com inventários confiáveis evitam compras emergenciais e reduzem desperdícios, enquanto dados da John Deere indicam que o controle de peças e ativos pode diminuir em 40% o tempo de máquinas paradas — um fator crítico quando o clima pressiona janelas de plantio e colheita.

Segundo análises de risco climático, eventos extremos aumentam a vulnerabilidade de máquinas, equipamentos, silos, armazéns, insumos e estoques estratégicos. A falta de visibilidade patrimonial e divergências entre o inventário físico e o contábil podem gerar perdas financeiras significativas, atrasos na produção e dificuldades na comprovação de danos para seguros e auditorias. Em um setor que pode perder até 20% ao ano por furtos, extravios e ativos não localizados, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a gestão patrimonial passa a ser determinante.

Foto: NOAA / Divulgação

“A empresa rural e a agroindústria precisam saber exatamente o que possuem, onde está cada ativo e qual é o nível real de estoque para reagir rapidamente a eventos climáticos extremos. O Super El Niño exige precisão, rastreabilidade e dados confiáveis”, afirma Pedro Sobreira, diretor técnico-operacional da Eco Inventory.

Criada por auditores com mais de 15 anos de experiência, a Eco Inventory nasceu para resolver problemas que o agronegócio enfrenta diariamente, como a falta de controle patrimonial, divergências de estoque, processos manuais e dificuldade de comprovação de perdas. “A resiliência climática começa com informação confiável. O agronegócio brasileiro é gigante, mas ainda sofre com falta de visibilidade patrimonial. A Eco Inventory ajuda o produtor a proteger seu patrimônio e manter a operação funcionando mesmo em cenários extremos”, afirma Sobreira.

Por meio de IA, com funcionamento online e offline, a plataforma acelera o levantamento de danos, a reorganização de ativos e a retomada das operações, reduzindo prejuízos e facilitando processos de indenização — etapa que pode ser agilizada em até 50% quando há documentação estruturada, segundo seguradoras do setor. “Com eventos climáticos afetando transporte e abastecimento, estoques de insumos, sementes, defensivos, fertilizantes e peças de reposição tornam-se críticos e mais caros. A Eco Inventory oferece inventário rápido, preciso e integrado ao Sistema de Planejamento de Recursos Empresariais (ERP), garantindo decisões de compra mais seguras”, sinaliza o diretor.

Safra 2026/27: entenda como fósforo acumulado no solo pode reduzir os custos com fertilizantes

O produtor brasileiro inicia o planejamento da safra 2026/27 em meio à instabilidade do mercado global de fertilizantes. As restrições impostas pela China às exportações de fertilizantes fosfatados, somadas aos impactos das tensões geopolíticas sobre a logística internacional e o comércio de insumos agrícolas, mantêm o mercado sob forte pressão e elevam a preocupação do setor com os custos de produção da próxima temporada.

Diante do risco de estrangulamento das margens financeiras, o engenheiro agrônomo e consultor Leandro Barcelos, afirma que a resposta para enfrentar o cenário de escassez global não está em gastar mais, mas em acionar o estoque invisível que muitas fazendas já possuem no solo. 

O Brasil importa mais de 75% dos fertilizantes fosfatados que consome, o que torna o país altamente dependente das oscilações do mercado internacional. As recentes restrições chinesas às exportações, aliadas às dificuldades logísticas provocadas pelas tensões geopolíticas, reduziram a oferta global e reforçaram essa vulnerabilidade. No entanto, por trás dessa dependência externa existe uma característica pouco explorada dos solos tropicais brasileiros. Estudos da Embrapa mostram que, devido à alta capacidade de fixação do solo brasileiro, a maior parte do fósforo aplicado nas últimas décadas acabou se acumulando na terra em formas não disponíveis para as plantas, criando uma espécie de reserva invisível no perfil do solo.

Análises de campo mostram que, em muitas áreas comerciais de produção de grãos, os níveis de fósforo disponível superam aproximadamente 30 ppm (partes por milhão) em resina. Quando associados ao equilíbrio químico do solo e às condições adequadas de manejo, esses níveis permitem ao produtor revisar, com respaldo técnico, a estratégia de adubação fosfatada, o que reduz desperdícios sem comprometer o potencial produtivo.

“O produtor precisa parar de comprar fertilizante por hábito ou pelo pacote engessado que o mercado comercial empurra na mesa. Se a sua análise de solo mostra um nível de fósforo acima de 30 ppm em resina, a planta tem o que comer. O fertilizante mais barato na crise é aquele que você já tem retido na sua terra. Se o solo está equilibrado quimicamente, reduzir a dose de adubação fosfatada na safra 2026/27 não vai derrubar sua produtividade; vai salvar a sua margem de lucro”, afirmou Leandro Barcelos.

Construção do perfil do solo e desenvolvimento radicular

Em um cenário de fertilizantes mais caros e maior pressão sobre os custos de produção, cada quilo de adubo aplicado na safra 2026/27 precisa entregar o máximo de eficiência. Para Barcelos, o aproveitamento do fósforo e do nitrogênio importados depende diretamente da estrutura profunda da terra. De nada adianta investir em formulações caras se o sistema radicular da cultura ficar limitado aos primeiros centímetros de profundidade, impedido de explorar o solo e dissolver o nutriente retido.

A chave para destravar esse potencial passa por corrigir o perfil do solo por meio do equilíbrio de bases (relação cálcio, magnésio e potássio) e da descompactação física. Essa abordagem foi a base para que projetos sob sua assessoria técnica quebrassem tetos produtivos históricos, como o case da fazenda AgroMallon, campeã do CESB com 135,49 sacas por hectare.

“A planta só vai extrair eficiência do adubo caro se tiver raiz para buscar. O foco na safra 2026/27 tem que ser a construção de perfil de solo em profundidade e o equilíbrio químico. Quando você corrige a saturação de bases e condiciona o solo de forma racional, a planta expande o sistema radicular e acessa nutrientes que antes estavam bloqueados. É assim que a gente rompe o teto das 100 sacas por hectare gastando menos por saca produzida. A crise dos fertilizantes é um chamado forçado para o produtor se tornar um gestor técnico da sua própria terra,” explicou Barcelos.

Foto: Nayla Charo / Pexels.com

Excesso de chuvas compromete o acúmulo de ATR e desafia a colheita da cana-de-açúcar

As condições climáticas têm imposto um novo desafio ao setor sucroenergético brasileiro. Em um período tradicionalmente marcado por temperaturas mais amenas e redução das chuvas, favoráveis ao acúmulo de sacarose na cana-de-açúcar, a safra 2026/27 vem sendo marcada por um volume de chuvas acima do esperado para a época e elevada umidade do solo. O cenário prolonga o crescimento vegetativo da cultura, retarda a maturação e limita o acúmulo de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), principal indicador da qualidade da matéria-prima destinada à produção de açúcar e etanol.

Segundo o engenheiro agrônomo e gerente de Marketing Regional da IHARA, Michel Tomazela, a instabilidade climática tornou a definição da janela ideal de colheita um dos principais desafios da safra. “Antes era mais fácil prever como a lavoura iria evoluir. Hoje, a cada previsão de chuva, aumento da umidade ou mudança nas condições do tempo, aumenta a incerteza sobre o comportamento da maturação. Quando essa previsibilidade diminui, cresce o risco de perder parte do potencial de ATR que a cana construiu ao longo da safra. Nesse cenário, identificar o momento que entrega mais valor para a operação é fundamental. Essa decisão deve considerar o comportamento da lavoura, as condições climáticas e uma estratégia de colheita bem planejada”, afirma.

Previsão climática mantém o setor em alerta e impacta diretamente a rentabilidade

As perspectivas para as próximas semanas indicam que o desafio deve continuar. De acordo com informações da Rural Clima, a segunda quinzena de julho marcou o retorno das chuvas em importantes regiões produtoras de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. A tendência é que esse padrão também se estenda ao Centro-Oeste no início de agosto, sob influência do El Niño.

Embora a disponibilidade hídrica seja importante para o desenvolvimento da cultura, a manutenção da umidade durante um período em que normalmente predomina o clima seco retarda a concentração natural de açúcares e exige ainda mais atenção ao planejamento da colheita.

O excesso de umidade altera o comportamento fisiológico da planta. Em vez de concentrar seus recursos no acúmulo de sacarose nos colmos, a cana mantém o crescimento vegetativo, atrasando a maturação. “Como consequência, a concentração de açúcar diminui justamente no período em que o setor espera obter os maiores índices de ATR, impedindo que a cana atinja o ponto ideal de colheita no tempo esperado. Se a colheita for antecipada para atender ao cronograma industrial, a matéria-prima pode chegar à usina com menor teor de sacarose e menor potencial de ATR”, explica Tomazela.

Além dessa redução, o encharcamento do solo dificulta a oxigenação das raízes, favorece a ocorrência de doenças e compromete as operações no campo. Nessas condições, o tráfego de máquinas torna-se mais difícil, provocando atrasos na colheita, aumento dos custos operacionais e interferindo diretamente no planejamento das usinas.

Os impactos se estendem por toda a cadeia produtiva. Como o ATR determina a quantidade de açúcar recuperável por tonelada de cana, sua redução afeta diretamente a rentabilidade da operação, o rendimento industrial e a competitividade do setor.

“Produzir grande volume de cana já não é suficiente. O que determina o retorno econômico é a qualidade da matéria-prima. O ATR é o indicador que transforma produtividade em rentabilidade”, explica Tomazela.

Quando a concentração de sacarose é menor, a indústria precisa processar um volume maior de cana para produzir a mesma quantidade de açúcar ou etanol. Isso aumenta os custos industriais, reduz a eficiência operacional e pode comprometer os resultados econômicos tanto das usinas quanto dos produtores.

Manejo da maturação ganha importância diante da variabilidade climática

Diante desse cenário, cresce a importância de estratégias capazes de reduzir os efeitos da variabilidade climática sobre a maturação da cana e preservar o potencial de ATR.

No Centro-Sul, a maturação ocorre naturalmente entre o outono e o inverno, quando temperaturas mais amenas e menor disponibilidade hídrica favorecem o acúmulo de sacarose. Nesta safra, no entanto, as chuvas frequentes e a elevada umidade alteraram esse padrão, dificultando a evolução da maturação e, consequentemente, o acúmulo de ATR, tornando a definição da janela de colheita ainda mais complexa.

Para enfrentar esse desafio, o consultor da MS Fernandes Consultoria Agrícola, Michel da Silva Fernandes, destaca que o manejo da maturação deve fazer parte de uma estratégia integrada de produção, associada ao controle de plantas daninhas, pragas e doenças, ao manejo nutricional e à escolha adequada das variedades, com o objetivo de favorecer o acúmulo de sacarose e preservar o potencial de ATR.

Os maturadores podem ser utilizados em diferentes fases da safra. No início do ciclo, ajudam a reduzir o crescimento vegetativo. No meio da safra, favorecem a maturação em regiões com outono e inverno chuvosos. Já no final, contribuem para inibir a retomada do desenvolvimento da planta, preservando níveis elevados de sacarose por mais tempo e ampliando a flexibilidade para definir a melhor janela de colheita, mesmo em cenários de maior instabilidade climática.

Entre as tecnologias utilizadas nesse manejo está o maturador sistêmico RIPER, da IHARA, desenvolvido para auxiliar produtores e usinas no planejamento da maturação ao longo da safra. Utilizado no início, no meio ou no final do ciclo, o produto permite maior flexibilidade na definição da janela de colheita, possibilitando adequar a estratégia às condições climáticas e ao potencial de maturação dos canaviais.

Em condições favoráveis de manejo, o RIPER pode proporcionar incrementos de 4% a 8% no teor de ATR, elevando a produção de toneladas de açúcar por hectare (TAH) e a rentabilidade da operação.

Para Tomazela, em um cenário de maior variabilidade climática, preservar a qualidade da matéria-prima tornou-se tão importante quanto alcançar elevados índices de produtividade. “Hoje, o desafio não é apenas produzir mais cana, mas colher no momento certo. O planejamento da maturação, aliado ao uso estratégico de tecnologias, permite aproveitar melhor o potencial da lavoura, aumentar o rendimento industrial e reduzir os impactos provocados pelas oscilações do clima”, conclui.

Setor de produtos frescos acelera transformação no primeiro semestre

O primeiro semestre de 2026 consolidou uma mudança estratégica no setor brasileiro de frutas, flores, legumes, verduras e ovos (FFLVO). Pressionado pela necessidade de resolver perdas operacionais, alcançar eficiência logística e responder às mudanças no comportamento do consumidor, o segmento acelerou investimentos em inteligência comercial, inovação e conveniência, posicionando os produtos frescos como uma das principais alavancas de rentabilidade do varejo alimentar.

Encontros promovidos pela International Fresh Produce Association (IFPA) e debates em fóruns do setor evidenciaram uma nova visão sobre frutas, flores, legumes e verduras dentro dos supermercados. A categoria deixou de ser tratada apenas como uma seção operacional e passou a ocupar espaço estratégico para fidelização, diferenciação e geração de margem.

“Estamos vivendo uma mudança importante no setor”, afirma Valeska Ciré, representante no Brasil da IFPA. “O FFLVO deixou de ser visto apenas como categoria de abastecimento e passou a ocupar espaço estratégico dentro do varejo alimentar. Hoje existe compreensão clara de que o setor é fundamental para suprir as mudanças de comportamento do consumidor e suas demandas, refletindo no potencial de resultado no ponto de venda”.

O setor vem abandonando decisões baseadas apenas em experiência ou intuição, adotando ferramentas capazes de reduzir perdas e melhorar margem operacional. Estudos apresentados em eventos de negócios da IFPA apontam que varejistas que utilizam modelos preditivos conseguem reduzir perdas em até 25% e rupturas em até 30%—um ganho competitivo significativo em segmento historicamente pressionado por margens reduzidas.

Saudabilidade e conveniência: novas oportunidades

Outro destaque do primeiro semestre foi o fortalecimento da demanda por alimentos frescos associados à saudabilidade e praticidade. Produtos como frutas cortadas, saladas prontas, vegetais higienizados e itens prontos para consumo ganharam espaço nas discussões comerciais, abrindo novas oportunidades de valor agregado para produtores, indústria e varejo. “O consumidor mudou muito rapidamente. Existe demanda crescente por praticidade, saudabilidade e conveniência. Isso cria espaço para produtos de maior valor agregado e exige que toda a cadeia repense logística, exposição, comunicação e desenvolvimento de novos formatos de consumo”, destaca Ciré.

Foto: Jacqueline Goncalves / Pexels.com

A migração de consumidores para alimentos frescos e mais saudáveis, impulsionada por novas tendências de bem-estar e saúde, amplifica essa oportunidade de mercado para toda a cadeia produtiva.

O semestre também foi marcado pela ampliação do debate sobre rastreabilidade, sustentabilidade e integração da cadeia produtiva. A abertura de novos mercados internacionais e avanço de acordos comerciais colocaram pressão adicional sobre padrões de qualidade, logística e conformidade socioambiental. Simultaneamente, o consumidor brasileiro passou a exigir maior transparência sobre origem, produção e impacto ambiental dos alimentos.

Nos principais fóruns do setor, como o Fórum IFPA–FFLVO para Supermercados realizado durante a APAS Show 2026, especialistas reforçaram que supermercados com maior participação de produtos frescos podem alcançar até 15% mais lucro. Essa rentabilidade depende de três fatores críticos: controle operacional rigoroso, redução efetiva de perdas e maior colaboração entre fornecedores e varejo.

“A cadeia começa a entender que colaboração será essencial para enfrentar os próximos desafios,” afirma Ciré. “O produtor busca eficiência, o varejo quer reduzir perdas e o consumidor exige qualidade e conveniência. Quando esses elos trabalham de forma integrada, surgem oportunidades concretas de inovação e crescimento”.

Desafios climáticos e perspectivas para o segundo semestre

Além das transformações de consumo, o setor acompanha com atenção os efeitos climáticos previstos para o segundo semestre. A expectativa de intensificação do El Niño pode impactar oferta, produtividade e preços em algumas regiões produtoras, aumentando a necessidade de planejamento resiliente e inteligência operacional.

O setor de Frutas, Flores, Legumes, Verduras e Ovos (FFLVO) deve atravessar os próximos seis meses em um ambiente de crescimento seletivo de demanda, porém com forte pressão sobre margens, maior volatilidade de preços e risco climático elevado. Em frutas, legumes e verduras, o consumo tende a permanecer sustentado por saudabilidade, mas o consumidor seguirá sensível a preço, promoções e substituições entre itens, em um contexto de inflação elevada, juros altos e renda seletiva.

Apesar dos desafios, o Brasil possui enorme potencial para crescimento tanto no mercado interno quanto internacional. O evento The Brazil Conference & Expo, da IFPA, previsto para agosto, promete consolidar as tendências observadas e gerar novas oportunidades comerciais. O desafio agora é transformar esse potencial em uma cadeia mais eficiente, conectada e preparada para responder rapidamente às mudanças de consumo e mercado.