Guerras e tensões geopolíticas pressionam dólar e elevam custos industriais no Brasil

Conflitos internacionais e tensões geopolíticas têm ampliado a volatilidade econômica global e pressionado custos industriais em diversos países. Relatórios recentes do Fundo Monetário Internacional indicam que choques geopolíticos costumam provocar oscilações relevantes no câmbio e no preço de commodities estratégicas, como petróleo e gás natural. No Brasil, esses movimentos tendem a pressionar o dólar e encarecer importações, afetando diretamente empresas que dependem de insumos e componentes vindos do exterior.

Fábio Nascimento, contador e CEO do Grupo FN, afirma que o reflexo dessas tensões já aparece na gestão financeira de empresas brasileiras. Segundo ele, a volatilidade cambial tem impacto direto na estrutura de custos da indústria e exige planejamento mais rigoroso por parte das companhias. “Quando surgem conflitos internacionais relevantes, o primeiro reflexo costuma aparecer no câmbio e no preço das commodities. Isso encarece desde combustíveis até componentes importados, pressionando custos de produção e margens das empresas”, afirma.

Na prática, o impacto costuma atingir principalmente setores que dependem de componentes eletrônicos, equipamentos industriais e matérias-primas vindas do exterior. Com o dólar mais valorizado, empresas passam a pagar mais por itens essenciais à produção, o que pode reduzir competitividade ou exigir reajustes de preços.

Esse movimento é sentido também em polos industriais relevantes do país. Regiões como São José dos Campos, no interior de São Paulo, concentram empresas ligadas aos setores aeroespacial, tecnológico e manufatureiro, muitas delas dependentes de cadeias globais de suprimento. Nesses casos, oscilações cambiais e interrupções logísticas podem impactar diretamente o custo e o prazo de produção.

Nascimento explica que empresas que dependem de importações ou exportações precisam acompanhar com mais atenção o cenário internacional. “Instabilidade geopolítica não afeta apenas governos. Ela altera rotas comerciais, encarece transporte e pode atrasar entregas de insumos estratégicos. Empresas precisam considerar esse fator no planejamento financeiro e operacional”, diz.

Segundo ele, muitas companhias já começaram a revisar estratégias para reduzir exposição a riscos internacionais. “Negócios que dependem de cadeias globais de suprimento precisam estruturar mecanismos de proteção. Planejamento cambial, revisão de contratos e diversificação de fornecedores passam a ser decisões estratégicas”, afirma.

O especialista aponta cinco estratégias que empresas usam para reduzir riscos em meio a tensões geopolíticas. Entre as principais estratégias estão:

Diversificação de fornecedores internacionais: Empresas têm buscado ampliar a rede de fornecedores em diferentes países para reduzir dependência de regiões afetadas por conflitos ou restrições comerciais

Planejamento cambial e gestão financeira mais estruturada: Companhias passaram a monitorar mais de perto a exposição ao dólar e utilizar instrumentos financeiros para reduzir impactos de oscilações cambiais

Formação de estoques estratégicos: Algumas empresas têm ampliado estoques de componentes considerados críticos para evitar paralisações produtivas em momentos de instabilidade logística

Revisão da cadeia de suprimentos: Negócios passaram a avaliar alternativas de produção local ou fornecedores mais próximos para reduzir dependência de rotas internacionais

Apoio de consultorias especializadas: Empresas têm recorrido a especialistas em estratégia empresarial e comércio exterior para estruturar operações mais resilientes

Fotos: Pixabay / Pexels.com

Segundo Nascimento, empresas que se antecipam a esse tipo de risco conseguem atravessar períodos de instabilidade com maior previsibilidade financeira. “Crises internacionais podem surgir rapidamente. Companhias que trabalham com análise de risco e planejamento estruturado tendem a reagir melhor a oscilações no câmbio e no custo de insumos”, afirma.

Para ele, a tendência é que tensões geopolíticas continuem influenciando a economia global nos próximos anos. “A globalização ampliou a integração entre mercados. Isso significa que conflitos ou tensões em determinadas regiões podem afetar cadeias produtivas em diferentes países, inclusive no Brasil”, diz.

StoneX projeta superávit global de 10 milhões de sacas de café em 2026, mas alerta para volatilidade

A oferta global de café deve superar a demanda em 2026, com um superávit estimado em 10 milhões de sacas, segundo análise da StoneX, empresa global de serviços financeiros. A projeção aponta para uma produção de 182,5 milhões de sacas, frente a um consumo de 172,5 milhões, permitindo a recomposição dos estoques globais para patamares acima de 48 milhões de sacas, após quatro anos consecutivos de queda até 2024 e leve recuperação em 2025. 

Apesar do cenário mais confortável, o mercado ainda não deve se perceber plenamente abastecido. A recuperação ocorre a partir de uma base historicamente apertada e segue marcada por desequilíbrios regionais, além de incertezas relacionadas ao clima, tensões geopolíticas, políticas comerciais e à evolução de regulações como o EUDR (Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento), que exige rastreabilidade e comprovação de que produtos importados não estejam associados ao desmatamento. 

“O mercado entra em 2026 com uma perspectiva mais confortável do ponto de vista de oferta, mas ainda longe de um cenário de estabilidade. A recomposição dos estoques acontece de forma desigual porque o aumento de produção está concentrado em algumas origens, como o Brasil, enquanto regiões consumidoras relevantes ainda operam com níveis historicamente baixos”, afirma o especialista de Inteligência de Mercado da StoneX, Leonardo Rossetti. 

O crescimento da produção global, estimado em 9,6% na comparação anual – ante 166,5 milhões de sacas em 2025, com base em números revisados -, é puxado principalmente pelo Brasil. O país deve registrar safra recorde de 75,3 milhões de sacas em 2026/27, alta de 20,8% na comparação anual, impulsionada pela recuperação dos danos climáticos da temporada anterior e pelo avanço estrutural da produção, especialmente do café robusta.

Outras regiões também contribuem para o aumento da oferta, ainda que de forma heterogênea. Na Ásia, a produção do Vietnã deve crescer quase 10%, após recuperação de condições climáticas adversas. Na África, países como Uganda e Costa do Marfim devem elevar a produção do continente em 3,6% na comparação anual. 

Por outro lado, nem todas as origens acompanham esse ritmo. Na América Central, a produção deve recuar levemente, com queda inferior a 1% no total. Já a Colômbia deve produzir cerca de 12,6 milhões de sacas, abaixo das 13,5 milhões registradas no ciclo anterior, reforçando a heterogeneidade da oferta global. 

No campo dos estoques, a expectativa é de recuperação consistente. O volume global deve subir de cerca de 38 milhões para mais de 48 milhões de sacas em 2026. No Brasil, principal pilar desse movimento, os estoques podem crescer em aproximadamente 5 milhões de sacas na comparação anual. 

Ainda assim, a recomposição não ocorre de forma homogênea. Na Europa, tradicional amortecedor do mercado, os estoques voltaram a se aproximar do limite inferior da faixa histórica em 2025, após queda superior a 2 milhões de sacas entre 2024 e 2025, com recuperação gradual prevista para 2026. Nos Estados Unidos, os estoques de café verde recuaram de mais de 6 milhões de sacas em 2022 para menos de 1 milhão em 2025, com expectativa de leve recuperação neste ano. Já o Japão apresenta uma queda mais moderada, porém persistente ao longo dos últimos anos. 

“A recomposição dos estoques é um movimento relevante, mas acontece após uma sequência prolongada de quedas e com distribuição irregular entre regiões produtoras e consumidoras. Isso mantém o mercado sensível, já que nem todas as regiões conseguem recompor estoques no mesmo ritmo”, destaca Rossetti. 

Do lado da demanda, o consumo global de café, que recuou cerca de 2,5% em 2025, deve se recuperar em ritmo semelhante em 2026, com alta também estimada em 2,5%. O avanço é sustentado pela desaceleração da inflação e pela melhora gradual das condições econômicas, especialmente em mercados como Estados Unidos, Brasil e Japão. 

Ainda assim, os preços seguem elevados e continuam impactando o consumo. No Brasil, a inflação do café superou 80% em meados de 2025 e encerrou o ano ainda cerca de 35% acima do período anterior. Nos Estados Unidos, a inflação permaneceu acima de 30% ao longo de 2025, com sinais mais claros de alívio apenas no início de 2026. Já na zona do euro, os preços encerraram 2025 com alta em torno de 18%, mantendo trajetória de desaceleração.

Nesse contexto, 2026 deve se consolidar como um ano de transição para o mercado global de café, com melhora nos fundamentos, mas ainda sujeito a oscilações. 

“Embora o superávit reduza o risco de eventos extremos, o mercado segue vulnerável. Pequenos choques de oferta ou demanda ainda podem gerar impactos relevantes nos preços, o que exige acompanhamento constante dos fundamentos”, conclui Rossetti.

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Um mês de guerra: o conflito entre EUA, Israel e Irã e seus efeitos sobre a ordem internacional e a economia global

Um mês após o início dos ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o cenário internacional revela um conflito que evoluiu muito além das expectativas iniciais. Para João Alfredo Nyegray, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR), o que se observa neste primeiro mês de guerra é a rápida transição de uma operação militar pontual para um confronto com efeitos sistêmicos.

Segundo Nyegray, a reação do Irã foi amplamente subestimada por analistas e formuladores de política. “Havia uma expectativa de que o Irã teria uma resposta limitada ou enfrentaria instabilidade interna. O que vimos foi o oposto: uma resposta coordenada, com uso intensivo de mísseis, drones e ativação de aliados regionais, ampliando o conflito e elevando o custo estratégico para seus adversários”, afirma o professor.

Na avaliação do especialista, esse comportamento revela uma lógica central do equilíbrio de poder: mesmo atores com menor capacidade militar convencional podem compensar essa assimetria por meio de estratégias indiretas. “O Irã demonstrou capacidade de transformar vulnerabilidade em poder de pressão. Isso altera o cálculo estratégico de Estados Unidos e Israel”, destaca.

No plano geopolítico mais amplo, o professor Nyegray chama atenção para a atuação de Rússia e China. Embora não participem diretamente do conflito, ambos os países desempenham um papel relevante ao limitar o isolamento do Irã e reforçar a dinâmica de um sistema internacional cada vez mais multipolar. “A guerra evidencia que grandes potências não estão dispostas a permitir que uma única potência defina os resultados de crises regionais. Rússia e China operam como contrapesos indiretos, ainda que de formas distintas — Moscou mais alinhada politicamente e Pequim mais pragmática, sobretudo em função de seus interesses energéticos”.

Os efeitos econômicos da guerra já se fazem sentir de maneira significativa. O petróleo voltou a ultrapassar os US$ 100 por barril, impulsionado tanto por riscos à oferta quanto pelo aumento do prêmio geopolítico. A instabilidade no Estreito de Ormuz — responsável por cerca de 20% do fluxo energético global —, intensifica as preocupações com abastecimento e logística.

De acordo com o professor , “o impacto vai muito além do preço do combustível. Trata-se de um choque que se espalha por cadeias produtivas inteiras, afetando transporte, alimentos, indústria e inflação global. É a geopolítica entrando de forma direta no custo de vida”.

Nesse contexto, o Brasil apresenta uma posição relativamente diferenciada. Nyegray destaca que a estrutura consolidada de biocombustíveis no país atua como um amortecedor parcial. “O Brasil construiu, ao longo de décadas, uma matriz energética mais diversificada. O etanol e o biodiesel reduzem a dependência direta do petróleo e suavizam o impacto no consumidor”, explica.

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Ainda assim, o especialista alerta para limites dessa vantagem. “Os biocombustíveis não eliminam o problema. O diesel continua sendo um ponto de vulnerabilidade, e o país segue exposto ao aumento de custos logísticos e à inflação global. O que o Brasil tem é uma vantagem relativa, não uma blindagem”.

Para Nyegray, o primeiro mês de guerra já deixa claro que o conflito transcende o campo militar. “Estamos diante de um episódio que revela as transformações da ordem internacional. Energia, segurança e poder continuam profundamente interligados, e as empresas e governos que não incorporarem essa dimensão geopolítica em suas decisões estarão cada vez mais expostos a riscos”, conclui.

Canton Fair ganha força entre empresários brasileiros e vira rota prática para reduzir custos e ampliar margens

A Canton Fair, maior feira multissetorial do mundo realizada em Guangzhou, na China, ocorre duas vezes ao ano e já tem calendário definido para 2026. A edição de primavera será dividida em três fases, com a primeira entre 15 e 19 de abril, focada em eletrônicos, maquinários e ferramentas; a segunda entre 23 e 27 de abril, voltada a bens de consumo, decoração e brindes; e a terceira entre 1º e 5 de maio, concentrada em têxteis, moda, saúde e alimentos. 

Realizada no maior complexo de exposições da China, a feira reúne mais de 30 mil expositores e compradores de mais de 200 países. Dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) indicam que a Ásia lidera as exportações globais de manufaturados, consolidando a China como eixo estratégico de fornecimento para empresas de diferentes portes.

Rodrigo Lopes, CEO Global do Grupo RPX e especialista em importação empresarial, afirma que o evento deixou de ser apenas uma vitrine e passou a exigir preparação técnica por parte dos empresários. “A Canton Fair não é um lugar para improviso. Quem não chega com estratégia definida perde tempo e oportunidade. A feira é grande demais para ser explorada sem planejamento”, diz.

A divisão por fases, segundo ele, é um dos primeiros pontos que precisam ser considerados. Cada etapa atende a segmentos específicos, o que impacta diretamente nos resultados da viagem. “O empresário precisa entender exatamente em qual fase o produto dele está. Ir na fase errada significa não encontrar os fornecedores certos”, afirma.

A preparação começa antes mesmo do embarque. Definir categorias de interesse, estudar fornecedores e alinhar objetivos comerciais são etapas essenciais para transformar a visita em negociação concreta. “Quem chega já sabendo o que quer comprar, qual volume pretende negociar e qual posicionamento busca para o produto consegue avançar muito mais rápido”, explica.

Além da organização prévia, a forma como o empresário aproveita a feira determina o retorno da viagem. A recomendação é estruturar uma agenda diária, priorizar estandes estratégicos e registrar informações detalhadas de cada fornecedor. “Quem trata a feira como passeio volta com cartão de visita. Quem trata como operação volta com negociação encaminhada”, afirma.

Durante a feira, a abordagem também influencia o resultado. A recomendação é priorizar fornecedores com estrutura produtiva consistente, histórico de exportação e capacidade de personalização. Esse processo permite não apenas reduzir custos, mas também desenvolver produtos exclusivos e ajustar características conforme o público brasileiro. “Não é só preço. É capacidade de entrega, qualidade e consistência. O barato sem validação técnica pode sair caro depois”, alerta.

A participação no evento tem impacto direto na competitividade das empresas. Ao eliminar intermediários, os negócios conseguem melhorar margens, reduzir o preço final ao consumidor ou ampliar a rentabilidade. Isso cria vantagem em mercados cada vez mais pressionados por custo e diferenciação. “Quem compra direto do fabricante consegue trabalhar melhor preço, mas principalmente ganhar controle sobre o produto. Isso muda o posicionamento da empresa no mercado”, diz.

Esse movimento também amplia a possibilidade de criação de marcas próprias, estratégia que vem sendo adotada por empresas de varejo, e-commerce, distribuição e até prestadores de serviço que buscam novas fontes de receita. “A feira permite sair da revenda e entrar na construção de marca. Isso aumenta a margem e cria valor no longo prazo”, afirma.

Na prática, diferentes perfis de negócios conseguem aproveitar a Canton Fair. Desde pequenos e médios empresários que buscam iniciar na importação até empresas estruturadas que querem escalar operações, diversificar portfólio ou desenvolver linhas exclusivas. “Não é um evento só para grandes empresas. O que define o resultado não é o tamanho do negócio, é o nível de preparo”, explica.

Outro diferencial está na leitura de mercado. A feira funciona como um ambiente de inteligência competitiva, onde é possível identificar tendências, comparar produtos e entender padrões internacionais de qualidade e inovação. “O empresário que observa bem consegue antecipar movimentos e tomar decisões mais estratégicas no Brasil”, afirma.

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A etapa pós-feira é considerada uma das mais críticas. A validação de fornecedores, análise de amostras, negociação de contratos e estruturação logística determinam o sucesso da operação. “O erro de muitos empresários é achar que o trabalho termina na feira. Na verdade, ele começa ali”, diz.

O avanço da presença brasileira no evento também tem impulsionado a busca por suporte especializado, principalmente para quem participa pela primeira vez. Ir acompanhado de uma assessoria ou guia técnico pode acelerar decisões e evitar erros comuns, como negociar com fornecedores inadequados ou não entender exigências regulatórias. “Com orientação, o empresário ganha tempo, evita riscos e consegue focar no que realmente importa, que é fechar bons negócios”, afirma.

Esse tipo de suporte inclui curadoria de fornecedores, tradução, acompanhamento nas negociações e direcionamento estratégico dentro da feira, o que aumenta significativamente a eficiência da visita. “A feira é muito grande. Sem direcionamento, o empresário se perde. Com estratégia e apoio, ele transforma dias de evento em resultado concreto”, diz.

A edição de outono segue lógica semelhante, com fases distribuídas entre 15 de outubro e 4 de novembro, mantendo a divisão por segmentos e reforçando a importância do planejamento antecipado.

Para empresários que buscam utilizar a Canton Fair como estratégia de crescimento, a preparação, a escolha correta da fase e a capacidade de execução após o evento são fatores que determinam o retorno. “Quem entende como usar a feira constrói vantagem competitiva. Não é só sobre comprar melhor, é sobre estruturar um negócio mais eficiente e com mais margem”, conclui.

Ministério da Agricultura fecha acordo com Turquia para rota alternativa ao estreito de Ormuz

O Brasil garantiu a continuidade de uma rota alternativa via Turquia para o envio de exportações agropecuárias, diante das restrições no Estreito de Ormuz. A solução foi negociada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Com isso, a estrutura portuária turca segue como opção importante para cargas brasileiras com destino ao Oriente Médio e à Ásia Central, permitindo que as mercadorias sigam viagem sem a necessidade de passar pelo Golfo Pérsico.

Essa rota já era utilizada por exportadores brasileiros. No entanto, a Turquia passou a exigir novas regras sanitárias para produtos sujeitos ao controle veterinário oficial, como os de origem animal. Para evitar prejuízos ao fluxo das exportações, foi negociado o Certificado Veterinário Sanitário para Produtos Sujeitos a Controles Veterinários em Trânsito Direto pela República da Turquia ou para Armazenamento Temporário com Destino à Expedição para outro País/Navio.

Na prática, o documento permite que mercadorias brasileiras, especialmente produtos de origem animal, atravessem o território turco ou fiquem armazenadas temporariamente no país antes de seguirem para o destino final.

A medida confere mais segurança e previsibilidade aos exportadores brasileiros em um momento de instabilidade nas rotas internacionais e reforça a atuação do Mapa para manter o comércio agropecuário brasileiro em funcionamento.

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Mesmo com safra recorde, crise sistêmica desafia o agro brasileiro

O agronegócio brasileiro vive um paradoxo. Enquanto o país caminha para colher mais de 350 milhões de toneladas de grãos e mantém o crescimento do PIB do setor, aumenta o número de produtores rurais endividados e em dificuldade financeira. De acordo com dados do Serasa, em 2025, foram registrados 1.990 pedidos de recuperação judicial no campo, um aumento de 56,4% em relação aos 1.272 registrados em 2024.

A contradição se acentua diante dos números da produção. Projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam que a safra de soja 2025/2026 deve superar 178 milhões de toneladas, puxada principalmente por estados do Centro-Oeste como Goiás e Mato Grosso do Sul. Por outro lado, a rentabilidade caiu: a saca da soja, que chegou a cerca de R$ 200 em 2022, gira hoje em torno de R$ 100, reduzindo drasticamente as margens.

A advogada especialista em Direito Agrário e do Agronegócio, Márcia de Alcântara, do escritório Celso Cândido de Souza Advogados, explica que esse cenário revela uma crise que vai além da gestão individual e atinge toda a estrutura do agro. “A análise macroeconômica não reflete o que acontece no campo. O produtor está produzindo mais, mas não necessariamente lucrando. Em muitos casos, ele está operando no limite ou até no prejuízo”, afirma.

Segundo Márcia, um dos motores dessa crise  é o próprio modelo de produção. “Com margens apertadas e dívidas acumuladas, o produtor amplia a área plantada para tentar compensar perdas. Só que isso aumenta o risco e pode aprofundar o endividamento”, explica. Contratos como CPRs, operações de barter e compromissos com tradings também pressionam a manutenção da produção, mesmo em cenários desfavoráveis.

O peso das dívidas vem aumentando. O endividamento rural já ultrapassa R$ 1,3 trilhão no Brasil, com cerca de 30% desse total ligado a bancos e cooperativas de crédito. Em alguns casos, as taxas podem chegar a 25% ao ano. “O custo do dinheiro virou um dos principais problemas do agro. Muitas vezes, o financiamento da safra já nasce comprometido”, diz.

O clima também agrava o cenário. Enquanto o Sul enfrenta quebras de safra com estiagens e enchentes, estados do Centro-Oeste, como Goiás, lidam com chuvas irregulares que comprometem o desenvolvimento das lavouras e elevam os custos com irrigação. “O clima deixou de ser uma variável previsível e passou a ser um fator constante de insegurança”, aponta.

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Além disso, os custos de produção seguem pressionando. Fertilizantes nitrogenados tiveram alta em 2025 e o mercado de defensivos movimentou cerca de US$ 11 bilhões em 2024. O diesel, essencial para máquinas e transporte, também encarece a operação, especialmente em regiões distantes dos portos.

Para a advogada, a crise atinge principalmente pequenos e médios produtores, que têm menos acesso a ferramentas de proteção financeira. “A crise do agro hoje é estrutural e multifatorial. Nesse contexto, a assessoria jurídica tem se tornado estratégica para renegociar dívidas, revisar contratos e evitar a perda de patrimônio. Enquanto não houver um enfrentamento mais amplo desses desequilíbrios, o país vai continuar convivendo com essa contradição: recordes de produção de um lado e produtores financeiramente fragilizados do outro”, conclui.

Brasil Soberano é ampliado com mais R$ 15 bi para apoio ao setor produtivo

com informações da Agência BNDES de Notícias

Por meio da Medida Provisória 1.345/2026, o Governo Federal ampliou o Plano Brasil Soberano, com mais R$ 15 bilhões de orçamento. O plano é gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Também foi sancionada a Lei Federal nº 15.359/26 que cria o Sistema Brasileiro de Crédito Oficial à Exportação, cujo projeto de lei (nº 6139/23) foi aprovado no Congresso Nacional no início deste mês.

Os recursos do Brasil Soberano vão apoiar as empresas brasileiras exportadoras e aquelas relevantes para a balança comercial nacional em meio a razões geopolíticas e de instabilidade internacional, como é o caso daquelas afetadas pela guerra no Oriente Médio e as que ainda enfrentam as medidas tarifárias impostas pelo governo do Estados Unidos.

Serão até R$ 15 bilhões em recursos que poderão utilizar: o superávit financeiro do Fundo de Garantia à Exportação (FGE), apurado em 31 de dezembro de 2025, inclusive do principal; o superávit financeiro, apurado em 31 de dezembro de 2025, de fontes supervisionadas por unidades do Ministério da Fazenda; e outras fontes orçamentárias. Terão direito à linhas de crédito a empresas exportadoras de bens industriais e seus fornecedores e aquelas que atuam em setores industriais com relevância no comércio exterior brasileiro.

“No ano passado, o Brasil Soberano aprovou mais de R$ 16 bilhões em crédito para as empresas mais atingidas pelo tarifaço imposto unilateralmente pelos Estados Unidos. Agora, com o Brasil Soberano 2, o governo do presidente Lula vai apoiar empresas de setores que ainda sofrem com tarifas elevadas, como siderúrgico, metalúrgico e automotivo, no segmento de autopeças, assim como aqueles setores relevantes para a balança comercial brasileira, como farmacêutico, de máquinas e equipamentos e eletrônicos, além de outros setores importantes, impactados com a falta de fertilizantes devido aos conflitos que acontecem em outros países. É um apoio muito importante, sobretudo para garantir a manutenção dos empregos e da competitividade das empresa nacionais”, explica o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

As linhas de crédito vão financiar: capital de giro; aquisição de bens de capital ou investimentos para adaptação da atividade produtiva; investimentos que propiciem a ampliação da capacidade produtiva ou adensamento da cadeia; investimentos em inovação tecnológica ou adaptação de produtos, serviços e processos; e outras hipóteses, conforme estabelecido em ato conjunto dos Ministros de Estado do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e da Fazenda.

As condições, encargos financeiros, prazos e demais normas regulamentadoras das linhas de financiamento serão estabelecidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Os ministérios da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços definirão os critérios de elegibilidade às linhas de financiamento e demais normas complementares necessárias à implementação.

“O governo do presidente Lula mais uma vez se antecipa para apoiar a indústria brasileira e preservar empregos. Os recursos serão fundamentais para garantir às empresas produtividade e competitividade no mercado internacional”, afirmou o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin.

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Exportação de serviços – O projeto de lei que cria o Sistema Brasileiro de Crédito Oficial à Exportação moderniza o seguro e o financiamento às exportações brasileiras e traz aprimoramentos para a atuação do BNDES. A nova lei consolida o alinhamento das práticas brasileiras às internacionalmente adotadas e dá segurança jurídica e política ao corpo técnico do Banco.

A garantia de maior transparência será adotada com a criação de um portal único para centralizar as informações sobre todas as operações aprovadas. Uma vez por ano, o BNDES vai apresentar à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal o portfólio de projetos. A medida permitirá maior interlocução e acompanhamento mais próximo por parte dos congressistas.

A nova lei incorpora regra que já constava em normativos internos do Banco e que estabelecia que países inadimplentes com o Brasil não poderão tomar novos empréstimos com o BNDES até a regularização da sua situação. O PL também estabelece mecanismos para incentivar operações que envolvam economia verde e descarbonização. Outra novidade é a possibilidade de cobertura do risco comercial enfrentado pelas micro, pequenas e médias empresas em operações com prazo de até 750 dias na fase de pré-embarque. Até então, o limite era de 180 dias.

A lei também estabelece regras para operacionalizar o Fundo Garantidor de Operações de Comércio Exterior (FGCE), instituído pela Lei Federal 12.712/2012 como um fundo com natureza jurídica de direito privado, criado para dar suporte a exportações brasileiras contra riscos comerciais.

Funrural terá aumento de alíquotas a partir de 1º de abril e Receita deve intensificar fiscalização no campo

A aprovação da Lei Complementar nº 224/2025, no fim do ano passado, trouxe mudanças nos incentivos e benefícios fiscais que passam a produzir efeitos diretos sobre o setor agropecuário. Entre os impactos está o aumento das alíquotas do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural), que começa a valer em 1º de abril de 2026 e atinge produtores que recolhem a contribuição com base na receita bruta da comercialização.

Segundo Viviane Morales, advogada, sócia proprietária e diretora da Lastro Soluções Tributárias para o Agro, a alteração impacta diretamente os produtores que utilizam a receita bruta como base de cálculo da contribuição. “Na prática, a alíquota efetiva do produtor rural pessoa física sobe de 1,5% para 1,63% sobre a receita bruta da comercialização. Já para o produtor rural pessoa jurídica, a alíquota passa de 2,05% para 2,23%. O aumento real da carga corresponde a 0,13 ponto percentual para pessoa física e 0,18 ponto percentual para pessoa jurídica”, explica.

De acordo com a especialista o impacto é automático, pois a contribuição incide diretamente sobre a receita bruta do produtor. Já, os produtores que optaram pelo recolhimento do Funrural com base na folha de pagamento não serão afetados, porque a forma de tributação é diferente e não foi atingida pelas alterações legais.

Além da elevação de custos, Viviane orienta que produtores revisem o planejamento tributário para avaliar se o modelo de recolhimento permanece vantajoso. A recomendação é analisar os valores da folha de pagamento e comparar com a tributação incidente sobre a comercialização da produção.

A especialista também alerta para a necessidade de atenção operacional. A partir de 1º de abril, o recolhimento deverá seguir os novos percentuais, com destaque correto nas notas fiscais, pois a exigência será fiscalizada. “Essa é uma mudança que aumenta o custo do produtor em um momento desafiador para o setor, exigindo adaptação às novas regras e maior rigor nos procedimentos fiscais”, finaliza a especialista.

Pela primeira vez, importações de tilápia superam exportações brasileiras

O avanço das importações de tilápia acendeu um sinal de alerta em um dos segmentos mais dinâmicos do agronegócio brasileiro. Em fevereiro de 2026, o Brasil importou mais de 1,3 mil toneladas de filé do Vietnã, volume equivalente a cerca de 4,1 mil toneladas de peixe vivo, em um movimento que, pela primeira vez, superou as exportações nacionais e já representa 6,5% da produção mensal. 

O dado chama atenção em um setor que, até então, vinha sustentando crescimento consistente e acima da média das demais proteínas animais. “A tilápia brasileira é a proteína que mais cresceu no país nos últimos 11 anos, com expansão superior a 10% ao ano, acima de suínos, aves, bovinos, leite e ovos. Esse resultado é mérito de toda a cadeia produtiva”, ressalta o presidente da PEIXE BR, Francisco Medeiros. 

O avanço do produto importado, no entanto, muda a dinâmica do mercado. O filé vietnamita chega ao Brasil com preços entre R$ 25 e R$ 29 por quilo, patamar considerado agressivo pelo setor, por se aproximar do custo da matéria-prima nas indústrias nacionais. “Esse é praticamente o preço do peixe quando chega ao frigorífico no Brasil. Isso cria uma distorção importante na concorrência”, diz Medeiros. 

Competitividade pressionada fora da porteira 

Apesar dos ganhos expressivos dentro da porteira, com alta produtividade, tecnologia e eficiência, a cadeia brasileira perde competitividade ao longo da cadeia. Custos tributários elevados, encargos trabalhistas e exigências ambientais mais complexas são apontados como os principais gargalos. Ao mesmo tempo, o produto importado chega com vantagens competitivas, como isenção de ICMS em alguns estados. “Temos uma produção altamente eficiente, talvez a mais competitiva do mundo dentro da porteira. Mas, fora dela, a carga tributária e a burocracia comprometem esse desempenho”, discorre o presidente. 

Para o setor, o ponto central não é restringir importações, mas garantir condições equilibradas de competição. “Defendemos isonomia tributária, sanitária, trabalhista e ambiental. Só assim teremos uma concorrência justa”, reforça. 

Foto: Terrance Barksdale / Pexels.com

Risco sanitário entra no radar 

Além da pressão sobre preços, a origem do produto também preocupa. O Vietnã registra enfermidades ainda inexistentes no Brasil, como o vírus TiLV, considerado altamente letal para a tilápia. Para contornar esse cenário, a PEIXE BR solicitou ao MAPA o envio de missão técnica ao país asiático para realização da Análise de Risco de Importação (ARI), procedimento previsto na legislação brasileira. “Existem doenças no Vietnã que não estão presentes aqui e que têm alta taxa de mortalidade. Precisamos dessa análise com urgência”, diz Medeiros. 

Mercado em transição 

O aumento das importações ocorre em um momento estratégico para o setor, com recuperação de preços no mercado interno impulsionada pela Quaresma. Ainda assim, o crescimento da oferta externa pode neutralizar esse movimento e pressionar a rentabilidade da cadeia. “As exportações ajudam a equilibrar o mercado interno. Com o avanço das importações, esse efeito é reduzido, o que pode gerar impacto negativo para o setor”, ressalta Medeiros. 

Atualmente, o Brasil ocupa a quarta posição entre os maiores produtores globais de tilápia e mantém potencial de expansão. No entanto, a continuidade desse crescimento depende de ajustes no ambiente regulatório e na competitividade fora da porteira. “Construímos uma cadeia sólida nos últimos 20 anos, uma das mais promissoras do agro brasileiro. Não somos contra a importação, mas precisamos de condições iguais para competir”, conclui Medeiros.

Nova regra da NF-e pode travar venda de defensivos sem Receituário Agronômico

Empresas que comercializam defensivos agrícolas precisam se adaptar às novas exigências na emissão da nota fiscal eletrônica (NF-e). Desde 1º de março entrou em vigor a Norma Técnica 2024.003, que passou a exigir a inclusão de dados no registro digital da NF-e. 

Com a mudança, a nota fiscal eletrônica precisa trazer obrigatoriamente o número do Receituário Agronômico e do CPF do responsável técnico que prescreveu o produto. Essas informações passam a constar no XML da nota fiscal, arquivo digital que reúne todos os dados do documento e é transmitido aos sistemas da Secretaria da Fazenda (Sefaz) para validação. 

Caso esses dados não estejam preenchidos corretamente, a nota fiscal pode ser rejeitada no momento da transmissão, impedindo o faturamento da operação. 

De acordo com a engenheira agrônoma e consultora da Agrotis, Alice Leoni, a norma não cria uma obrigação para o setor, mas passa a reforçar digitalmente uma exigência que já existia na legislação federal de defensivos agrícolas. “A legislação já determina há muitos anos que o Receituário Agronômico deve ser emitido antes da nota fiscal. O que muda agora é que esse controle passa a ocorrer diretamente dentro do sistema de emissão da NF-e. Se a informação não estiver no XML da nota, o faturamento não é autorizado”, explica. 

A validação ocorre com base em regras associadas a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) e ao Código Fiscal de Operações e Prestações (CFOP) presentes na nota fiscal. O NCM é o código que classifica cada produto comercializado no país para fins fiscais, enquanto o CFOP identifica o tipo de operação registrada no documento, como venda, devolução ou transferência de mercadorias. Também são feitas validações por tipo de cliente ao qual é emitida a nota fiscal. 

Integração entre sistemas 

Com a nova exigência, empresas do setor também precisam promover adaptações tecnológicas em seus sistemas de gestão e faturamento para garantir que os dados do Receituário Agronômico e do CPF do responsável técnico estejam integrados ao processo de emissão da nota fiscal. 

Na prática, isso exige maior integração entre softwares agronômicos, que são responsáveis pela emissão da prescrição técnica, e os sistemas fiscais utilizados no faturamento das operações. “Quando os sistemas agronômicos e fiscais não estão conectados, aumentam os riscos de inconsistências na emissão da nota. A tendência é que as empresas avancem na digitalização desses processos para garantir que o Receituário Agronômico esteja corretamente vinculado ao faturamento”, afirma Leoni. 

Segundo a especialista, plataformas digitais, como a Plataforma Agrotis, voltadas à gestão agrícola, já permitem integrar essas informações, reduzindo erros operacionais e facilitando o cumprimento das exigências regulatórias. 

Além de diminuir retrabalho e riscos fiscais, a mudança também tende a fortalecer a rastreabilidade das operações envolvendo defensivos agrícolas. “A partir do momento em que a nota fiscal passa a estar vinculada ao Receituário Agronômico, cria-se um registro de que aquela venda ocorreu com base em uma prescrição técnica válida. Isso reforça o cumprimento da legislação e reduz erros operacionais”, conclui. 

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