Receita anuncia mudanças no IR 2026 e produtor rural deve usar programa específico

As regras divulgadas pela Receita Federal do Brasil para a declaração do Imposto de Renda Pessoa Física 2026, referente aos rendimentos de 2025, trazem mudanças e orientações importantes que impactam diretamente o produtor rural. A Receita Federal melhorou algumas ferramentas, como a Declaração pré-preenchida, e o aplicativo “Meu Imposto de Renda”, que emitirá notificações e alerta aos contribuintes. Para esse ano, a Receita Federal promete ainda mais agilidade nas restituições. Entre os pontos que merecem mais atenção estão a atualização do limite de receita bruta da atividade rural, que obriga a entrega da declaração, e, principalmente, a forma correta de envio do documento.

Uma das novidades é que o limite de receita bruta anual da atividade rural, que obriga o produtor a declarar, subiu. Até o ano passado, o valor era de R$ 169.440 e passou para R$ 177.920. Isso significa que todo produtor que ultrapassou esse patamar em 2025 precisa prestar contas ao Fisco. Outro ponto essencial é a forma de envio da declaração. Diferentemente de outros contribuintes, o produtor rural não pode utilizar o aplicativo “Meu Imposto de Renda” para enviar a declaração. “Das novidades deste ano, a que mais impacta o produtor é justamente essa obrigatoriedade de utilizar o Programa Gerador da Declaração, o PGD, para enviar a declaração. O produtor rural não pode utilizar o aplicativo Meu Imposto de Renda para essa finalidade”, alerta Viviane Morales, diretora administrativa da Lastro Soluções Tributárias para o Agro.

Atenção aos rendimentos declarados

Mesmo com debates recentes sobre ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, essa mudança ainda não impacta a declaração deste ano. O envio realizado em 2026 corresponde aos rendimentos recebidos ao longo de 2025. Na prática, isso significa que quem recebeu a partir de R$ 2.966 por mês ou mais de R$ 35.584 no ano passado continua obrigado a declararSegundo Viviane Morales, esse é um dos pontos que mais podem gerar confusão entre os contribuintes. “Essa é provavelmente a maior confusão deste ano. Muita gente pode achar que não precisa declarar por causa da discussão sobre a isenção até R$ 5 mil. Mas é importante entender que a declaração enviada agora é apenas um ajuste das rendas recebidas no ano anterior”, afirma.

Reforma da Renda não muda a declaração deste ano

Outro tema que tem gerado dúvidas entre os contribuintes é o impacto da chamada Reforma da Renda, especialmente em relação à ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. No entanto, essas mudanças ainda não impactam a declaração de 2026, que considera exclusivamente os rendimentos recebidos ao longo de 2025. Segundo Gustavo Venâncio, diretor comercial e de marketing da Lastro Agronegócio, é importante que o contribuinte entenda essa diferença para evitar erros no envio da declaração. “Existe muita expectativa em torno das mudanças na tributação da renda, mas elas passam a valer apenas para os rendimentos recebidos a partir de 2026. Ou seja, os efeitos práticos dessas alterações só aparecerão na declaração que será enviada em 2027”, explica.

Organização é essencial para o produtor rural

Para quem atua no campo, a declaração exige cuidados adicionais, principalmente em relação ao controle das receitas e despesas da atividade. De acordo com Viviane Morales, a principal recomendação é para que o produtor mantenha o controle detalhado do Livro Caixa da atividade rural e garanta que todas as informações estejam alinhadas com os dados enviados à Receita Federal. “A organização do Livro Caixa Digital do Produtor Rural (LCDPR) é muito necessária neste momento, justamente porque as informações que estão no LCDPR precisam contar no Imposto de Renda. Esse sincronismo entre as ferramentas precisa existir”, orienta.

Outro cuidado essencial para o produtor rural é verificar atentamente os dados que já constam na base da Receita. “Recomendamos sempre analisar a Declaração pré-preenchida, porque nela estão informações que a Receita Federal já possui. O produtor precisa ter muito cuidado para não enviar uma declaração divergente desses dados”, destaca Viviane. Segundo ela, inconsistências entre documentos fiscais, registros de atividade e declarações enviadas são uma das principais causas de retenção na chamada malha fina.

Foto: Tima Miroshnichenko / Pexels.com

Além da conferência de dados e do preenchimento correto das informações, especialistas reforçam que a declaração deve ser analisada de forma mais ampla, considerando toda a estrutura da atividade rural. “O produtor deve olhar para a declaração de forma global, considerando os imóveis explorados, as receitas declaradas e, principalmente, o Livro Caixa digital enviado à Receita. Todas essas informações precisam conversar entre si”, explica Viviane Morales.

Diante das particularidades da atividade rural e da crescente digitalização das informações fiscais, a declaração do Imposto de Renda do produtor exige cada vez mais organização e acompanhamento técnico. Um erro de preenchimento ou divergência de dados pode gerar questionamentos da Receita, atrasos na restituição ou até autuações fiscais. Por isso, a recomendação é para que o produtor rural busque orientação especializada para garantir que todas as informações sejam apresentadas de forma correta e segura. “Com as novas ferramentas de fiscalização e cruzamento de dados adotadas pela Receita Federal do Brasil, declarar o Imposto de Renda de forma organizada deixou de ser apenas uma obrigação fiscal e passou a ser também uma estratégia de segurança para a gestão da atividade rural”, reforça Gustavo Venâncio.

Paraguai, México e Colômbia: como esses países atraem empresas brasileiras? 

por Cássio Menezes* e Guilherme Kleinert** 

Paraíso das compras. Durante anos, esse foi o principal motivo da ida de brasileiros ao Paraguai. Mas essa realidade mudou. Hoje, vemos cada vez mais empresários cruzando a Ponte da Amizade incentivados pela busca por um ambiente de negócios que oferece benefícios fiscais e custos operacionais reduzidos. Não à toa, dados internos indicam que mais de 200 empresas nacionais já estão em atividade no país vizinho. 

Embora a capital paraguaia esteja nos holofotes, a Colômbia também tem gerado forte atratividade. De acordo com a revista britânica The Economist, a economia colombiana registrou, em 2025, o melhor desempenho da América Latina e o quarto melhor do mundo. 

Por falar em vizinhança, não podemos deixar de lado o México. Desde 2023, o país vive um forte boom industrial impulsionado pelo nearshoring (a relocalização de cadeias produtivas para mercados próximos ao consumidor final). A nação segue atraindo investimentos estrangeiros em automação, setor automotivo e tecnologia. No quarto trimestre de 2025, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Geografia (Inegi), o PIB cresceu 0,8%, revertendo a contração de 0,3% registrada no terceiro trimestre do ano passado. 

Certamente, esse breve histórico ajuda a demonstrar o que torna essas nações atrativas para o mercado brasileiro: vantagens tributárias, custos laborais competitivos e leis trabalhistas menos burocráticas. Contudo, por mais que o processo de internacionalização pareça simples, cada mercado possui particularidades que precisam ser respeitadas. Entre os principais passos para o sucesso, destacam-se: 

#1 Estudo de mercado: Antes de realizar a mudança, é fundamental analisar a viabilidade da expansão. Apesar de sermos latino-americanos, existem barreiras que vão desde a língua até diferenças culturais que precisam ser ponderadas na escolha do destino. 

#2 Avaliação da cultura local: Complementando o tópico anterior, a expansão internacional não é uma mera replicação. Por mais que existem semelhanças por pertencermos ao mesmo continente, cada mercado possui processos específicos e legislações próprias que exigem conformidade total (compliance). 

#3 Gestão de questões legais e burocráticas: Após o reconhecimento do mercado, a organização precisa estruturar a operação — desde a abertura do CNPJ até a viabilização de contas bancárias. Na prática, são tarefas que envolvem assinaturas, traduções juramentadas e validações que exigem rigor técnico. 

#4 Estabelecimento de operações rotineiras: Com a empresa constituída, é necessário recrutar mão de obra, gerenciar a contabilidade, exercer a gestão fiscal e instituir a tesouraria local. A falta desse gerenciamento pode resultar em multas e prejuízos que comprometem o desenvolvimento da operação. 

#5 Escolha do parceiro ideal: São diversas etapas e, nesse sentido, contar com uma consultoria que ofereça serviços integrados em todas as fases da internacionalização é uma estratégia inteligente para reduzir custos e mitigar riscos. 

Foto: Alejandro Jovica / Pexels.com

Essa jornada não precisa ser um “bicho de sete cabeças”, mas o apoio de especialistas é crucial para uma caminhada assertiva. O movimento de empresas brasileiras expandindo para países vizinhos deve se tornar ainda mais recorrente, pois as vantagens vão desde a diversificação cambial até o acesso a novos mercados, garantindo sustentação em caso de adversidades econômicas no Brasil. 

O crescimento da Colômbia e do México, somado à migração para o Paraguai, elucida que as companhias brasileiras não precisam ir longe para se internacionalizar. A América Latina oferece um mar de oportunidades, mas, para aproveitá-las, é preciso saber remar a favor da maré. 

*Sales Manager na H&CO Brasil.

**Global Expansion Advisor na H&CO

Tarifaço global entra em 2026, pressiona o comércio exterior e acelera a corrida por inteligência na logística marítima

O comércio exterior inicia 2026 sob o impacto persistente de um novo ciclo de elevação tarifária em grandes economias, movimento que vem sendo classificado por analistas como um “tarifaço global”. A intensificação de políticas industriais defensivas, somada às tensões geopolíticas e à reorganização das cadeias produtivas, tem aumentado a complexidade operacional do transporte marítimo e pressionado custos ao longo da cadeia.

Projeções recentes da Organização Mundial do Comércio (OMC) indicam crescimento moderado do comércio de mercadorias após a desaceleração observada entre 2023 e 2024, enquanto o volume de medidas restritivas segue elevado em nível global. Relatórios da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) apontam que incertezas regulatórias, custos logísticos e gargalos portuários permanecem entre os principais fatores de risco para a fluidez das trocas internacionais.

No Brasil, dados do ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostram que a corrente de comércio continua em patamar historicamente alto, mas com maior volatilidade de preços e prazos logísticos, especialmente em rotas mais sensíveis a mudanças tarifárias.

Para Marcos Silva, CIO da Datamar e especialista em tecnologia para logística marítima, o impacto do tarifaço vai além do aumento direto de custos. “O tarifaço não afeta apenas a competitividade do produto, mas também altera fluxos comerciais, pressiona a previsibilidade das rotas e exige um nível muito maior de inteligência de dados para sustentar decisões operacionais”.

Segundo ele, a principal mudança em curso é estrutural: o comércio marítimo passa a operar – de forma mais sistemática – sob um ambiente de incertezas. “O transporte marítimo entrou definitivamente na era da volatilidade. Sem visibilidade de fretes e capacidade e desempenho portuário, as empresas ficam expostas a ineficiências que antes eram diluídas pelo crescimento do comércio”, aponta Marcos. 

Volatilidade nos fretes e nas rotas

Indicadores internacionais de frete, como o Shanghai Containerized Freight Index (SCFI) e o Drewry World Container Index, registraram oscilações relevantes ao longo de 2024 e 2025, refletindo ajustes de capacidade das grandes alianças marítimas e choques geopolíticos em rotas estratégicas.

Na avaliação de analistas, a elevação de tarifas tende a amplificar esse movimento ao provocar redirecionamento de cargas, mudança de origens produtivas e maior desequilíbrio na reposição global de contêineres. “Quando as tarifas sobem, o efeito não é linear. Há redistribuição de demanda entre rotas, o que pressiona a gestão de equipamentos e a formação de fretes”, explica o CIO da Datamar. “Isso torna o planejamento logístico muito mais dependente de modelos preditivos”.

Dados confirmam reconfiguração dos fluxos

A leitura dos dados consolidados de 2025 já evidencia, na prática, os efeitos dessa reconfiguração do comércio global. Segundo análises da Datamar – empresa brasileira especializada em inteligência de mercado para o comércio exterior e a logística marítima – a partir do DataLiner, plataforma de inteligência de comércio marítimo, o Brasil encerrou o ano com crescimento moderado nas exportações conteinerizadas (+2%) e com avanço um pouco mais robusto nas importações (+4,4%).

O desempenho sugere estabilidade, mas a análise detalhada revela movimentos estruturais relevantes ao longo do ano. As exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 12,1% em 2025, refletindo diretamente mudanças tarifárias que impactaram os fluxos comerciais, sobretudo no segundo semestre. Em contrapartida, os embarques para outros mercados cresceram 4,1%, compensando parcialmente essa retração.

Mesmo nesse contexto, o último trimestre do ano indicou uma inflexão positiva, com crescimento de 6% em relação ao quarto trimestre de 2024, sinalizando ajustes de rota e recomposição gradual da demanda internacional.

A segmentação por produto reforça o cenário de assimetria: cadeias como carnes, tabaco e produtos vegetais apresentaram crescimento, enquanto café, açúcar e madeira registraram quedas relevantes. “O número consolidado importa, mas ele esconde histórias muito diferentes por produto, mercado e momento do ano. É nesse nível de detalhe que estão os sinais que orientam decisões futuras”, destaca Marcos Silva.

Segundo o CIO da Datamar, esse tipo de leitura só é possível com bases históricas robustas e modelos analíticos capazes de capturar mudanças estruturais. “O tarifaço acelera a necessidade de inteligência aplicada. Ferramentas como o DataLiner permitem enxergar não apenas o que aconteceu, mas antecipar tendências em um ambiente de incerteza crescente”. 

Digitalização ganha urgência

Esse cenário tem acelerado investimentos em plataformas de inteligência logística, integração de dados portuários e análise preditiva. Estudos da McKinsey e da UNCTAD já vinham apontando a digitalização do transporte marítimo como um dos principais vetores de eficiência da década – tendência que ganha tração adicional com o ambiente mais protecionista.


Para Marcos, empresas que tratarem dados como ativo estratégico terão vantagem competitiva clara. “O tarifaço funciona como um catalisador da transformação digital no setor de shipping. Quem conseguir antecipar movimentos de mercado com base em dados terá mais resiliência operacional e melhor gestão de custos”, conclui o especialista.

Conflitos no Oriente Médio pressionam o agro

A intensificação do conflito entre os Estados Unidos, Irã e Israel já provoca ondas de choque nos mercados globais e impõe um novo patamar de risco para o agronegócio brasileiro. Petróleo em alta, moedas emergentes pressionadas, risco logístico no Estreito de Ormuz e possível impacto sobre fertilizantes e exportações de milho, colocam a safra 2026/27 sob um cenário de incerteza estratégica.

Do ponto de vista macroeconômico, os reflexos são imediatos. “Espera-se um cenário de volatilidade e incerteza sobre produtos produzidos ou relacionados à região. Já temos visto essas incertezas repercutirem sobre as bolsas globais, inclusive de commodities agrícolas, e sobre o mercado de câmbio”, afirma Enilson Nogueira, coordenador de Estudos Econômicos da Céleres Consultoria.

O primeiro impacto direto recai sobre o petróleo, que já registra alta na semana. O efeito secundário é a pressão sobre combustíveis e inflação global. “O reflexo mais provável seria sobre os preços do petróleo. Como consequência, temos aumento nos preços de combustíveis e pressão inflacionária. Para o produtor rural brasileiro, se esse efeito for repassado, podemos ter um custo maior de combustíveis para a safra 2026/27”, destaca Nogueira.

Embora o Irã não seja fornecedor relevante de diesel ao Brasil, países do Oriente Médio representam cerca de 10% do valor importado em 2025, um fator que amplia a sensibilidade do mercado. No câmbio, a reação já é visível: na última semana o Real operava próximo de R$ 5,10 e, com a escalada do conflito, depreciou para a faixa de R$ 5,30. “As incertezas globais têm desvalorizado moedas emergentes, inclusive o Real. Se mantido ou intensificado, esse movimento pode sustentar, no curto prazo, a formação de preços de grãos no Brasil, especialmente o milho”, acrescenta o economista.

Logística e fertilizantes no centro da tensão

O ponto mais sensível da crise está na logística internacional. O Estreito de Ormuz é rota vital para petróleo e insumos agrícolas, e qualquer entrave pode gerar um efeito dominó nos custos globais. Segundo Maria Luisa Franzotti, analista econômica e de geopolítica da Céleres, o impacto pode ser imediato e severo, especialmente no mercado de fertilizantes.

“O conflito terá um impacto imediato e severo no mercado de fertilizantes, com ênfase nos nitrogenados. O Irã responde por 10% das exportações globais de ureia, enquanto o Oriente Médio como um todo concentra 25% do fornecimento mundial”, explica a especialista.

No caso dos fosfatados, a dependência logística é igualmente crítica. “Grande parte da oferta vem da Arábia Saudita e países vizinhos, que dependem do Canal de Suez e do Estreito de Ormuz para escoamento. Uma interrupção cria gargalos que afetam a disponibilidade e custo final dos formulados”, cita Maria.

Para o Brasil, o impacto pode ser expressivo: em 2025, Irã e países do Oriente Médio concentraram cerca de 35% das importações brasileiras de ureia, 17% dos fosfatados e 10% do Cloreto de Potássio (KCl). Os reflexos devem aparecer nas negociações da safra 2026/27, tanto para soja quanto para milho segunda safra, pressionando margens em um momento de maior disciplina financeira no campo.

Milho na linha de frente

Se pelo lado dos custos o alerta já está aceso, pelo lado da demanda o sinal também é de atenção máxima. O Irã consolidou-se como um dos principais destinos do milho brasileiro nos últimos cinco anos, liderando as importações em três deles. Em 2025, o país importou mais de 9 milhões de toneladas do cereal brasileiro. “A incerteza sobre demanda e condições logísticas de comércio com o Irã deve impactar a formação de preços ainda em 2026. Uma eventual interrupção nos embarques pode gerar represamento da oferta interna, elevar estoques e pressionar negativamente as cotações domésticas, sobretudo do milho”, alerta Nogueira.

Além disso, a substituição dessa demanda não é simples. “Não vemos outro consumidor com o mesmo potencial de absorção no curto prazo. Se a exportação para o Irã for menor, é um fator de atenção relevante para toda a cadeia do milho”, reforça o coordenador da Céleres.

Os impactos indiretos também se estendem à proteína animal, já que o Oriente Médio representou 26% das exportações brasileiras de carne de frango e 6% da carne bovina. Uma desaceleração pode afetar a demanda por ração, retroalimentando a pressão sobre o milho. Ainda, açúcar, soja, farelo de soja e celulose também possuem exposição relevante ao bloco regional.

Um componente adicional de incerteza envolve possíveis restrições comerciais dos Estados Unidos a parceiros do Irã, uma hipótese já mencionada pelo presidente Donald Trump no início do ano. Caso se concretize, o cenário pode abrir um novo capítulo de tensão geopolítica envolvendo o Brasil, ampliando a instabilidade no comércio internacional.

Volatilidade estrutural no radar 

Para a Céleres, o conflito eleva o grau de imprevisibilidade em um momento crucial de planejamento da safra 2026/27. Petróleo, fertilizantes, câmbio, logística e demanda externa passam a operar sob um regime de maior risco geopolítico. O agro brasileiro, altamente integrado ao comércio global, entra em um período de vigilância redobrada, em que estratégia, hedge e gestão de risco serão tão determinantes quanto produtividade no campo.

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Recuperação judicial no agro virou sinal de alerta para toda a cadeia produtiva

por Leandro Viegas*

Nos últimos anos, é possível enxergar o avanço dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio como um termômetro claro de aperto de caixa. O setor sempre conviveu com risco, mas o cenário recente combinou custo financeiro elevado, margens mais apertadas, oscilação de preços e problemas climáticos em sequência. Quando isso acontece, quem está mais alavancado e, principalmente, sem gestão de custo bem-feita, sente primeiro.

Os números ajudam a mostrar esse movimento. No segundo trimestre de 2025, o agronegócio registrou 565 pedidos de recuperação judicial, alta de 31,7% sobre o mesmo período de 2024. Já no terceiro trimestre, o volume subiu para 628 pedidos, o maior da série desde 2021, segundo a Serasa Experian. O dado reforça o que podemos sentir na prática: não se trata de um problema isolado de um elo da cadeia, mas de uma pressão financeira espalhada entre produtores (PF e PJ) e empresas ligadas ao setor.

Esse cenário tem uma parte cíclica e outra estrutural. A primeira todo mundo conhece: safra, clima, preço e mercado. A estrutural é mais desafiadora, porque a cadeia ficou mais complexa e mais financeirizada. Hoje há mais operações a prazo, mais dependência de capital, mais barter e mais exposição ao risco de crédito. Quando uma empresa começa a falhar, o efeito dominó pode atingir revendas, distribuidores e, no fim, o produtor, que fica sem crédito, com entrega atrasada ou sem suporte técnico no meio da safra. É exatamente por isso que a recuperação judicial deixou de ser um tema “jurídico” e passou a ser tema de gestão e sobrevivência no campo.

Esse aperto também aparece no ambiente financeiro. O Banco Central manteve a Selic em 15% ao ano em janeiro de 2026, no maior patamar em quase 20 anos, o que encarece o crédito e aumenta a seletividade dos financiadores. Além disso, o Boletim de Crédito Rural do BC (março/2025) mostrou que, entre julho de 2024 e março de 2025, o crédito rural concedido somou R$ 278,1 bilhões, com queda de 16,9% em relação ao período anterior, enquanto o endividamento dos beneficiários chegou a R$ 752 bilhões.

Ao mesmo tempo, o quadro não é homogêneo, e isso é importante dizer. Dados mais recentes do Mapa, com base no Sicor/BC, mostram que no período de julho de 2025 a janeiro de 2026 o crédito rural empresarial contratado alcançou R$ 316,57 bilhões (alta de 6%), puxado pelas CPRs, mas com recuo de 20% no crédito para investimento e com o próprio governo reconhecendo um ambiente de cautela na oferta e demanda de crédito. Ou seja: há dinheiro circulando, mas com perfil mais conservador, mais concentrado e com mais exigência de segurança.

Outro ponto que reforça essa leitura é a inadimplência. A Serasa Experian apontou que 8,3% da população rural estava inadimplente no terceiro trimestre de 2025, com alta anual e sinais de desaceleração apenas na margem. E um dado que chama atenção: a inadimplência se concentrou principalmente em dívidas com instituições financeiras (7,3%), enquanto os débitos com credores do próprio agro ficaram em 0,3%. Isso mostra como a pressão de caixa e o custo do dinheiro pesam no sistema como um todo.

Reflexos práticos

No dia a dia da fazenda, esse cenário afeta o básico. O prazo encurta, o crédito trava, as condições mudam durante a safra e aumenta o risco de atraso de entrega. E o agro não espera. Por isso, insisto em alguns sinais práticos de alerta antes de fechar negócio: preço muito abaixo do mercado sem explicação, pressa excessiva para fechar, mudança constante de regra ou prazo, dificuldade para formalizar contrato ou garantia e histórico ruim de entrega e pós-venda. Em momentos de pressão, muita gente erra tentando resolver tudo só no preço, e esse é um dos erros mais caros no campo.

A recomendação é simples, mas exige disciplina. Primeiro: comprar por etapas e não concentrar tudo em um único fornecedor. Segundo: travar com antecedência o essencial da safra, especialmente semente e defensivos. Terceiro: manter sempre um plano B logístico e comercial. Se um parceiro falhar, você precisa saber de onde comprar e como reagir sem parar a operação. No agro, preço não é custo total, o barato que atrasa pode sair muito mais caro em produtividade perdida.

O produtor precisa tratar a gestão financeira como ferramenta de produção. Não dá para controlar clima e preço, mas dá para controlar custo por hectare, fluxo de caixa e timing de compra. Quem conhece seu ponto de equilíbrio decide melhor e evita contratos no escuro. E, do lado das empresas, a confiança se mantém com transparência e previsibilidade: melhor dizer a verdade cedo do que prometer e falhar. Contrato claro, condição formalizada, padrão definido, assistência prevista e pós-venda funcionando.

Resumindo, para tomadas de decisões mais seguras em 2026, é necessário fazer o básico muito bem feito. Caixa em primeiro lugar, custo por hectare na ponta do lápis, compras planejadas e diversificadas, contrato simples e por escrito. Além de um parceiro confiável no centro da estratégia. A melhor proteção no agro continua sendo antecipar o risco, e não reagir quando o problema já explodiu.

*Administrador, bacharel em Direito e CEO da Sell Agro.

Conflito no Oriente Médio coloca em risco 41% da ureia exportada no mundo

A eclosão de um novo conflito no Oriente Médio reacendeu os temores no mercado internacional de fertilizantes, trazendo incertezas quanto à oferta global e pressionando a precificação de nitrogenados e fosfatados. A avaliação é da StoneX, empresa global de serviços financeiros.

Em 2024, a região foi responsável por 41% das exportações mundiais de ureia, 28% das exportações globais de amônia e 29% das vendas internacionais de DAP. Diante desse peso relevante no comércio global, eventuais disrupções na produção ou no escoamento de cargas impactam diretamente os fluxos comerciais e tendem a influenciar os preços praticados no mercado internacional.

Neste momento, os investidores ainda avaliam os possíveis desdobramentos do conflito, o que mantém elevada a incerteza sobre os impactos imediatos na formação de preços. No entanto, já há sinais claros de cautela: fornecedores da região retiraram ofertas do mercado enquanto aguardam maior clareza sobre a evolução do cenário geopolítico. O primeiro reflexo observado, portanto, é a redução temporária da oferta disponível.

Outro ponto de atenção envolve a logística. Navios têm evitado trafegar pelo estreito de Ormuz, rota estratégica para o escoamento de fertilizantes do Oriente Médio. O aumento do risco na região pode gerar atrasos nas entregas e encarecer os custos logísticos, afetando importadores em diferentes partes do mundo.

Além disso, a valorização do petróleo decorrente das tensões geopolíticas pode pressionar os custos de combustíveis e, consequentemente, os fretes internacionais. Para países importadores líquidos de fertilizantes, como o Brasil, isso representa um fator adicional de alta, ao encarecer o custo final dos insumos.

O Irã, no centro do conflito, ocupa posição estratégica no mercado global de nitrogenados. Em 2024, o país respondeu por 11% das exportações mundiais de ureia e por 5% das exportações globais de amônia. Segundo fontes não oficiais, o Irã teria exportado cerca de 1,3 milhão de toneladas de ureia ao Brasil em 2024, o equivalente a aproximadamente 16% das importações brasileiras do produto.

Caso haja um estrangulamento da capacidade exportadora iraniana, o impacto tende a ser relevante para compradores globais e, em especial, para o Brasil, altamente dependente de importações para suprir sua demanda por nitrogenados.

Por outro lado, o momento do calendário reduz parcialmente os efeitos imediatos sobre o mercado brasileiro, que já se encontra fora da alta temporada de compras de nitrogenados. Países como Estados Unidos, Austrália e possivelmente parte da Europa, que atravessam períodos de maior demanda, podem sentir impactos mais diretos no curto prazo.

De todo modo, considerando a relevância do Oriente Médio e do Irã para a produção e exportação global de fertilizantes, o conflito é tratado pelo mercado como um fator altista, com potencial para alterar o cenário do setor nas próximas semanas. A principal incógnita permanece sendo a duração do conflito, a extensão dos danos e o número de países envolvidos — variáveis que determinarão a magnitude e a persistência dos efeitos sobre os preços globais.

Soldados das Forças de Defesa de Israel na cidade de Metula, na fronteira com o Líbano (Foto: Jayme Vasconcellos / JV Fotografia)

IBGE: PIB da agropecuária cresce 11,7% em 2025

com informações da Agência Gov

O Produto Interno Bruto (PIB) do País encerrou 2025 com crescimento de 2,3%. Em valores correntes, o PIB de 2025 alcançou R$ 12,7 trilhões. As três atividades econômicas analisadas pelas Contas Nacionais Trimestrais do IBGE cresceram: agropecuária (11,7%), serviços (1,8%) e indústria (1,4%). Já o PIB per capita chegou a R$ 59.687,49, com um crescimento real de 1,9% frente a 2024. Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, ressalta que “quatro atividades: agropecuária, indústrias extrativas, informação e comunicação e outras atividades de serviços, contribuíram com 72% do total do volume do Valor Adicionado em 2025, atividades estas menos afetadas pela política monetária contracionista”.

O crescimento de 11,7% na agropecuária em 2025 decorreu, principalmente, de aumentos na produção e ganhos na produtividade de várias culturas, com destaque para o milho (23,6%) e a soja (14,6%), que alcançaram recordes em 2025. A pecuária também contribuiu positivamente.

Foto: Tom Fisk / Pexels.com

O destaque positivo da indústria foi a extração de petróleo e gás, concorrendo para que o valor adicionado das Indústrias Extrativas fechasse 2025 com alta de 8,6%. Outra contribuição positiva veio da construção, que variou 0,5% no ano. Por outro lado, a eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos (-0,4%) e as indústrias de transformação (-0,2%) fecharam o ano com variações negativas.

Já o setor de serviços seguiu aquecido em 2025, com crescimento em todas as suas atividades: informação e comunicação (6,5%), atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados (2,9%), transporte, armazenagem e correio (2,1%), outras atividades de serviços (2,0%), atividades imobiliárias (2,0%), comércio (1,1%) e administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social (0,5%).

Histórico

Tanto o PIB corrente quanto o per capita estão no maior patamar já calculado pela série histórica do IBGE, iniciada em 1996. Veja o comportamento da economia brasileira nos últimos cinco anos com crescimento:

  • 2021: 4,8%
  • 2022: 3%
  • 2023: 3,2%
  • 2024: 3,4%
  • 2025: 2,3%

Mercado de commodities inicia 2026 com projeções mistas em meio às incertezas econômicas globais, aponta StoneX

Em 2026, o complexo de commodities deve apresentar um desempenho entre a estabilidade e uma leve tendência de queda, influenciado principalmente pelo comportamento esperado das matérias-primas energéticas, que têm grande peso nos índices globais do setor. No entanto, essa dinâmica não deve se repetir de maneira uniforme entre as demais categorias de bens primários. Quem afirma é o gerente de Inteligência de Mercado da StoneX, Vitor Andrioli, em relatório especial divulgado pela corretora, “Perspectivas para Commodities 2026“.

A economia mundial em 2025 superou expectativas apesar do impacto das tarifas americanas, que mudaram o comércio internacional. Para 2026, espera-se ritmo de crescimento semelhante, mas com riscos elevados pela instabilidade da política econômica dos EUA, incertezas sobre o Federal Reserve e no cenário geopolítico.

Andrioli destaca que apesar dos investimentos em Inteligência Artificial favorecerem a manutenção do otimismo no ambiente de negócios e a perspectiva de ganhos de produtividade em diversas indústrias, essa expansão está vulnerável a mudanças nas condições de crédito e à capacidade das empresas de tecnologia em gerar resultados sólidos.

Agronegócio

No segmento de grãos e oleaginosas, a StoneX afirma que a soja segue com balanço global confortável, com destaque para novo recorde de produção no Brasil, estimado atualmente em 177,6 milhões de toneladas. Para o milho, a sobreoferta nos EUA pressiona preços, enquanto no Brasil a próxima safrinha ainda está indefinida, mas a participação do país como exportador deve cair devido ao mercado interno aquecido pelo etanol.

Entre as soft commodities, café e cacau mostram recuperação na produção dos principais exportadores, mas estoques globais ainda restritos; o açúcar mantém viés de baixa com superávit previsto, enquanto o algodão inicia 2026 com ampla oferta e menor área plantada no Brasil e Austrália.

Nos fertilizantes, o grupo ressalta que as restrições de oferta mantêm os preços elevados, com destaque para a alta da amônia, devido a problemas de produção, impactando os custos de fabricação da ureia, além de uma possível suspensão das exportações chinesas de fosfatados. Instabilidade no Irã e Venezuela também adiciona riscos à disponibilidade e aos custos dos fertilizantes que esses países exportam ao Brasil e à Índia.

Foto: Tom Fisk / Pexels.com

Energia

O petróleo tende a seguir um balanço confortável, com a perspectiva de uma demanda em crescimento mais modesto e o aumento de produção no Brasil, Canadá, Guiana e Argentina. O gás natural tem preços sustentados nos EUA, enquanto Europa e Ásia enfrentam demanda fraca e oferta abundante.

Metais

Nos metais, o ouro e a prata se valorizam com a busca por proteção financeira e o descompasso entre a demanda aquecida – seja pelo uso industrial ou pelo setor de IA – e um crescimento menos acelerado da oferta.

Real brasileiro

No âmbito doméstico, a questão fiscal ainda é uma vulnerabilidade para a valorização do real, que pode se tornar mais evidente em um ano de eleições polarizadas e com poucas chances de avanço de pautas econômicas no Congresso. Ao mesmo tempo, o diferencial de juros do Brasil deve seguir elevado, com a expectativa de redução bastante gradual da Selic, favorecendo o real ao incentivar a entrada capitais de curto prazo.

Chamada de Clima do BNDES seleciona fundos que vão alavancar R$ 16,2 bi no mercado

com informações da Agência BNDES de Notícias

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou a seleção de sete fundos de investimento no âmbito da Chamada Pública de Mitigação Climática, iniciativa voltada ao financiamento de projetos de transição ecológica, restauração ambiental e descarbonização da economia. Com aportes de até R$ 4,3 bilhões por meio da BNDESPAR, os fundos deverão mobilizar cerca de R$ 16,2 bilhões adicionais em recursos privados, ampliando significativamente o volume de investimentos direcionados à agenda climática no Brasil.

Lançada em setembro de 2025, a Chamada de Clima recebeu 45 propostas de gestores nacionais e internacionais. Ao final do processo, foram selecionados cinco fundos de equity e dois de crédito, organizados em duas verticais principais: Transformação Ecológica e Soluções Baseadas na Natureza.

Os fundos de equity selecionados na modalidade de Transformação Ecológica foram: Catalytic Transition Fund Brazil FIP Multiestratégia – com aporte de até R$ 1 bilhão do BNDES; EB Clima II – Transição Energética & Descarbonização IS FIP Multiestratégia – até R$ 500 milhões do Banco; e (iii) Generation Just Climate Brasil FIP – com até R$ 800 milhões em aporte.

Já os fundos de equity enquadrados na modalidade de Soluções Baseadas na Natureza selecionados foram: Patria Latam Reforest Fund I FIP Multiestratégia IS – com aporte de até R$ 500 milhões do Banco; e The Amazon Reforestation Fund II FIP Multiestratégia IS – Mombak – com até R$ 500 milhões. Por fim, os dois fundos de crédito selecionados se enquadraram na modalidade de Transformação Ecológica: Vinci Crédito Soluções Climáticas FIC FIM – com até R$ 500 milhões; e FIDC Clima Riza Farma – com até R$ 500 milhões.

Entre os destaques estão projetos voltados à restauração de mais de 90 mil hectares nos biomas Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, além de iniciativas de descarbonização industrial, economia circular, biocombustíveis, hidrogênio verde e tecnologias para redução de emissões.

“O BNDES assume papel estratégico ao ancorar fundos voltados a áreas em que o capital privado ainda enfrenta barreiras, como reflorestamento, descarbonização de processos industriais e bioinsumos, mobilizando recursos e direcionando investimentos para projetos que aceleram a transição climática, prioridade do presidente Lula. A iniciativa amplia os investimentos no Brasil e contribui para o cumprimento das metas nacionais de redução de emissões”, afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

Todos os recursos aportados deverão ser investidos exclusivamente em projetos e empresas no território nacional. Os fundos agora passam por etapa de diligência e definição final das condições de investimento antes da efetivação dos aportes.

A Chamada de Clima integra a estratégia do BNDES de apoiar a transição para uma economia de baixo carbono, fortalecendo a competitividade da indústria nacional, promovendo inovação verde e ampliando a capacidade do país de enfrentar os impactos das mudanças climáticas.

Fotos: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil

Modalidades

Os fundos de Transformação Ecológica têm foco em setores estratégicos como indústria de baixo carbono — incluindo aço e cimento verdes, minerais críticos, hidrogênio e biomassa —, além de resíduos e economia circular, sistemas alimentares sustentáveis, energia renovável, eletrificação, digitalização e armazenamento de energia.

Já os fundos de Soluções Baseadas na Natureza (SBN) priorizam a recuperação de áreas degradadas por meio da restauração de florestas nativas no Arco da Restauração, na Amazônia, além dos biomas Cerrado e Mata Atlântica. Também incluem projetos de restauração produtiva com sistemas agroflorestais e silvicultura sustentável integrada à lavoura, pecuária e floresta, com meta de restaurar mais de 90 mil hectares.

O investimento na agenda climática acelera a transição para uma economia sustentável e neutra em carbono, impulsionando a transição energética, a indústria verde, a infraestrutura e o transporte de baixo carbono, além de fortalecer a agropecuária sustentável. Também amplia ações de conservação ambiental, restauração de biomas e desenvolvimento da bioeconomia da sociobiodiversidade, contribuindo para tornar atividades econômicas, infraestrutura e cidades mais resilientes às mudanças climáticas.

Acordo UE-Mercosul destrava comércio e redesenha o agronegócio brasileiro

Após mais de 25 anos de negociações, os países da União Europeia aprovaram provisoriamente o acordo comercial com o Mercosul, abrindo caminho para a assinatura do tratado que cria a maior área de livre comércio do mundo. O pacto envolve um mercado de cerca de 451 milhões de consumidores europeus e deve produzir impactos relevantes para o Brasil, especialmente no agronegócio, principal motor das exportações do bloco sul-americano.

Altair Heitor, contador e CFO da consultoria Palin & Martins, afirma que o acordo muda estruturalmente o posicionamento do agro brasileiro no comércio internacional. “Estamos falando de um redesenho de acesso ao mercado. A redução gradual de tarifas e a previsibilidade regulatória criam um ambiente mais competitivo para o produtor brasileiro, mas também elevam o nível de exigência”, diz. Segundo ele, o tratado não é apenas uma oportunidade comercial, mas um teste de organização e conformidade para o setor.

Dados do Ministério da Agricultura mostram que o agronegócio respondeu por cerca de 49% das exportações brasileiras em 2025, com a União Europeia figurando entre os principais destinos. Produtos como soja, carnes, açúcar, café e suco de laranja concentram boa parte desse fluxo. Com o acordo, tarifas de importação devem ser reduzidas ou eliminadas de forma escalonada, ampliando a competitividade desses itens frente a outros fornecedores globais.

Impactos diretos no agro

Na avaliação de Altair Heitor, o principal ganho imediato está no acesso ampliado e mais previsível ao mercado europeu. “O produtor passa a competir em condições mais claras. Isso tende a melhorar margens e estimular investimentos, sobretudo em cadeias já consolidadas”, afirma. Ao mesmo tempo, ele destaca que o acordo impõe padrões rigorosos. “A Europa exige rastreabilidade, compliance ambiental e organização fiscal. Quem não se estruturar corre o risco de ficar fora”, alerta.

Estimativas da Comissão Europeia indicam que o comércio bilateral entre os blocos pode crescer dezenas de bilhões de euros ao longo dos próximos anos, com efeitos positivos sobre renda, emprego e investimentos. Para o Brasil, o agronegócio aparece como o principal beneficiado no curto e médio prazos, enquanto a indústria tende a sentir os efeitos de forma mais gradual.

Foto: Chanaka E / Pexels.com

Reflexos tributários e oportunidades no agro brasileiro

Além do impacto comercial, o acordo tende a intensificar efeitos tributários já conhecidos do agronegócio exportador. A ampliação das exportações para a União Europeia aumenta o volume de operações imunes ou com alíquota zero de ICMS, PIS e COFINS, o que, na prática, gera acúmulo de créditos tributários ao longo da cadeia produtiva.

“Exportar mais não significa, automaticamente, melhorar o fluxo de caixa”, explica Altair Heitor. “O produtor e a agroindústria continuam pagando tributos na aquisição de insumos, energia, logística e serviços, mas não geram débitos na saída. Sem estratégia, esses créditos ficam parados e viram custo financeiro”, afirma.

Nesse cenário, ganham relevância ações como revisão da cadeia de comercialização, estruturação correta das operações de exportação, análise de aproveitamento de créditos e projetos de recuperação e monetização de créditos acumulados, especialmente de ICMS.

Por que demorou tanto

O acordo começou a ser negociado em 1999 e enfrentou sucessivos entraves políticos e econômicos. A resistência de países europeus, especialmente França e Irlanda, sempre esteve ligada ao temor de concorrência com produtos agrícolas do Mercosul, considerados mais baratos e sujeitos a regras ambientais distintas. “A demora reflete um conflito clássico entre abertura comercial e proteção de setores sensíveis”, explica Heitor.

Nos últimos anos, a agenda ambiental e as pressões internas de agricultores europeus ampliaram a complexidade das negociações. A sinalização favorável de países-chave, como a Itália, foi decisiva para destravar a aprovação provisória. O acordo avança mesmo diante da oposição de parte do bloco, o que reforça seu peso geopolítico.

Como o setor deve se preparar

Para aproveitar o novo cenário, o especialista defende planejamento técnico e visão estratégica. “Não basta vender mais. É preciso revisar processos, adequar documentação fiscal, investir em compliance e garantir rastreabilidade. O acordo premia quem está organizado”, afirma. Segundo ele, empresas que se anteciparem tendem a capturar ganhos mais rapidamente, enquanto outras podem enfrentar barreiras não tarifárias.

Ele destaca ainda que o tratado fortalece o papel do Brasil no comércio global. “O agro brasileiro ganha relevância estratégica, mas isso vem acompanhado de responsabilidade. A oportunidade é histórica, mas exige profissionalização”, conclui.