Planejamento ajuda a reduzir falhas antes do plantio

O início de uma nova safra exige atenção antes mesmo de a semente chegar ao solo. O planejamento do tratamento de sementes e das operações de preparo da área pode influenciar a germinação, a emergência e o estabelecimento inicial da lavoura. Entre os principais pontos estão a escolha e a compatibilidade dos produtos, a sequência de aplicação, a qualidade da cobertura das sementes e as condições do solo.

Segundo o engenheiro agrônomo e diretor comercial da Sell Agro, Alexandre Gazoni, falhas nessa etapa podem comprometer o desempenho da semente logo no início do ciclo. “O planejamento antecipado do tratamento de sementes é importante porque pode ser decisivo na emergência da planta. Quando realizado de forma adequada, contribui para uma melhor resposta nessa fase. Por outro lado, erros no processo podem prejudicar a germinação”, afirma.

Um dos pontos de atenção está na combinação dos produtos utilizados. Misturas inadequadas podem provocar incompatibilidades e comprometer a eficiência do tratamento. “É preciso avaliar se os produtos são compatíveis quando utilizamos mais de um e também observar a sequência em que eles serão incorporados à semente. Uma combinação inadequada pode gerar conflitos entre produtos nutricionais e fungicidas, por exemplo, prejudicando a eficiência do tratamento até a germinação”, explica o engenheiro agrônomo.

Uniformidade da aplicação exige atenção

A qualidade da aplicação também interfere no resultado do tratamento. Existem diferentes equipamentos disponíveis para a operação, além de situações em que o procedimento é realizado manualmente. Independentemente do método, é necessário garantir que os produtos sejam distribuídos de maneira uniforme sobre as sementes. “Existem diferentes tipos de máquinas para fazer o tratamento e também há quem realize o processo manualmente. O ponto fundamental é o cuidado para conseguir uma boa cobertura. A semente precisa ficar adequadamente exposta aos produtos”, diz Gazoni.

Equipamentos inadequados, mal regulados ou operações conduzidas sem o cuidado necessário também podem provocar danos físicos às sementes. Segundo o especialista, essas lesões podem favorecer a entrada de patógenos e comprometer vigor, germinação e sanidade. “O principal risco é a danificação da semente. Quando ela sofre algum dano, pode ficar mais suscetível. Se o tratamento também não tiver uma boa cobertura, ela fica mais exposta ao ambiente, pode perder vigor e ter o índice de germinação comprometido. Dependendo do nível do dano, pode até não germinar”, alerta.

Diagnóstico do solo orienta decisões

O planejamento antes do plantio também envolve o diagnóstico da área. A análise das condições químicas, físicas e, quando necessário, biológicas do solo ajuda a identificar limitações e definir as intervenções necessárias para a implantação da cultura.

Informações como pH, necessidade de correção e disponibilidade de nutrientes orientam decisões relacionadas à adubação e às exigências da cultura. “A análise permite entender se o solo está preparado para receber aquela cultura, seja soja, arroz ou algodão. É possível avaliar o pH, a necessidade de calcário e também quanto de fertilizante será necessário para atender às exigências da planta e buscar um bom desempenho produtivo”, explica o diretor comercial da Sell Agro.

A análise de nematoides também pode contribuir para o planejamento. A identificação das espécies presentes na área auxilia na escolha de cultivares com características de resistência ou tolerância e na definição das estratégias de manejo. “Quando fazemos uma análise biológica para nematoides, conseguimos saber quais estão presentes na área e avaliar se a variedade escolhida possui resistência ou tolerância. São informações importantes para aumentar as condições de estabelecimento da planta e para que a lavoura seja economicamente viável”, acrescenta o especialista.

Cobertura do solo ajuda a preservar umidade

Outro cuidado antes do plantio é a manutenção da cobertura vegetal e da palhada. Além de contribuir para a adição de matéria orgânica, a proteção do solo auxilia na conservação da umidade e na redução de processos erosivos. “Precisamos ter um solo preparado quimicamente para disponibilizar os nutrientes necessários às plantas, mas também trabalhar com cobertura. A palhada é hoje uma ferramenta importante tanto para a preservação do solo quanto para a adição de matéria orgânica, além de ajudar a reduzir erosão e conservar umidade”, afirma o engenheiro agrônomo.

Informação também faz parte do planejamento

Além das ferramentas de diagnóstico e das tecnologias utilizadas nas operações, Gazoni destaca a importância do acompanhamento técnico e da troca de informações para a tomada de decisões. “O produtor tem à disposição profissionais que podem trazer uma visão diferente. Muitas vezes ele está diariamente dentro da fazenda observando aquela realidade, enquanto aqueles que acompanham outras regiões encontram situações semelhantes em diferentes locais. Ter parceiros para trocar informações e ajudar no planejamento é primordial”, afirma.

Para o engenheiro agrônomo, antecipar decisões e contar com informações técnicas permite identificar problemas antes do plantio e organizar as operações de acordo com as condições de cada área. O objetivo é reduzir falhas justamente em uma etapa que pode determinar o desenvolvimento da lavoura nas primeiras fases do ciclo.

Inadimplência no crédito rural bate recorde e acende alerta para financiamento da nova safra

O avanço da inadimplência no campo adiciona uma nova camada de pressão ao financiamento da safra 2026/27. Em agosto, o débito em aberto da carteira de crédito rural com recursos direcionados para pessoas físicas chegou a 9,69%, maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011.

O indicador considera o percentual da carteira com pelo menos uma parcela vencida há mais de 90 dias. Em julho deste ano, a taxa estava em 8,79%. Um ano antes, em agosto de 2025, era de 5,23%, o que representa uma alta de 4,46 pontos percentuais em 12 meses.

Outro levantamento ajuda a dimensionar a deterioração do crédito no campo. Estudo da Agroicone, elaborado com base em dados do Banco Central, mostra que o saldo das operações rurais com atraso superior a 90 dias passou de R$ 3,8 bilhões em julho de 2023 para R$ 38,4 bilhões em abril de 2026.

O cenário coincide com um começo de safra marcado por menor número de operações de crédito. Análise da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), também baseada em informações do Banco Central, aponta que foram registrados 375,1 mil contratos de crédito rural em julho e agosto da safra 2026/27, ante 457,8 mil no mesmo período do ciclo anterior.

Para Romário Alves, CEO da Sonhagro, rede especializada em crédito rural, o aumento da inadimplência exige atenção não apenas de quem já enfrenta dificuldades financeiras, mas também de produtores que precisarão captar recursos ao longo do novo ciclo.

“Quando a inadimplência cresce de maneira tão expressiva, todo o ambiente de crédito passa a exigir mais cautela. Isso não significa que o produtor que está adimplente deixará de conseguir financiamento, mas análise de risco, capacidade de pagamento, garantias e histórico financeiro ganham ainda mais peso. Por isso, deixar a busca pelo recurso para a última hora pode se tornar um problema”, explica Alves.

Crédito muda de perfil

Nos dois primeiros meses da safra 2026/27, produtores enquadrados no Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e demais produtores contrataram R$ 65,7 bilhões em operações de crédito rural, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com base em dados do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor).

Um dos movimentos que chamam atenção está na composição desses recursos. As Cédulas de Produto Rural (CPRs) responderam por R$ 32,4 bilhões, o equivalente a 49,2% do total contratado no período. Já as operações convencionais de custeio somaram R$ 23 bilhões, ou 34,9%.

Segundo Alves, a mudança reforça a necessidade de o produtor conhecer diferentes possibilidades de financiamento e comparar as condições antes de contratar. “O crédito rural está se tornando cada vez menos uma decisão baseada apenas em encontrar uma linha disponível. O produtor precisa entender prazo, custo, garantias, fluxo de caixa e qual instrumento faz sentido para aquela atividade. Em um momento de maior pressão financeira no setor, uma contratação mal dimensionada hoje pode comprometer a capacidade de financiamento dos próximos ciclos”, afirma.

A renegociação também entra no radar. O aumento das dificuldades financeiras levou à criação e ampliação de mecanismos para composição de dívidas rurais em 2026. Em setembro, o Conselho Monetário Nacional autorizou novas condições para determinadas operações renegociadas, prorrogadas ou inadimplentes, ampliando as possibilidades de reorganização de passivos para produtores enquadrados nas regras.

Para o especialista, porém, renegociar compromissos anteriores e buscar recursos para uma nova safra são decisões que precisam ser analisadas conjuntamente. “Não adianta olhar apenas para a parcela que venceu. É preciso entender quanto da receita futura já está comprometida, qual será a necessidade de capital para produzir e em que momento haverá entrada de recursos. O produtor precisa enxergar a propriedade como uma empresa e projetar o fluxo financeiro antes de assumir uma nova obrigação”, acrescenta.

Com o Plano Safra 2026/27 prevendo R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, o desafio neste momento não está apenas no volume de recursos anunciado, mas nas condições em que produtores chegam ao mercado para acessá-los.

“Crédito continua existindo e é fundamental para o agro brasileiro. O que muda em um cenário como esse é a importância do planejamento. Quanto antes o produtor organizar seus números e entender sua capacidade de pagamento, maior será a possibilidade de buscar uma estrutura de crédito compatível com a realidade da propriedade”, conclui Alves.

Com safra recorde de café em 2026, produtores do Sul de Minas focam na implantação das novas lavouras

O Sul de Minas chega ao fim da safra de 2026 com números históricos e, ao mesmo tempo, já começa a olhar para as lavouras que produzirão nos próximos anos. O terceiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em setembro, estima em 15,93 milhões de sacas a produção de café arábica no Sul e Centro-Oeste de Minas Gerais. No estado, o volume deve alcançar 34,96 milhões de sacas da espécie.

O resultado acompanha uma safra recorde no país. A produção brasileira de café está estimada em 67,6 milhões de sacas beneficiadas em 2026, avanço de 19,6% em relação ao ano anterior e o maior volume da série histórica da Conab. A produtividade média nacional também cresceu 13,8%, passando de 30,4 para 34,6 sacas por hectare.

Em Minas Gerais, além da bienalidade positiva do arábica, a melhor distribuição das chuvas nos meses anteriores à floração e as condições climáticas favoráveis até março contribuíram para o desempenho das lavouras.

Enquanto a colheita consolida esses resultados, outra etapa ganha importância nas propriedades que estão implantando ou renovando áreas de café: a formação inicial do cafezal. Diferentemente das culturas anuais, decisões tomadas nessa fase acompanham o produtor por vários ciclos produtivos.

É nesse momento que fatores como preparo da área, condições do solo, desenvolvimento das raízes, pegamento e estabelecimento das mudas passam a ter impacto sobre a formação da lavoura.

Para Francisco de Carvalho, gerente comercial da Hydroplan-EB, olhar apenas para a produtividade da safra atual pode esconder uma decisão estratégica para o futuro da propriedade. “Quando falamos em café, estamos falando de uma cultura que permanecerá naquela área por muitos anos. Por isso, a implantação não pode ser tratada apenas como mais uma operação de campo. O desenvolvimento que conseguimos construir no início ajuda a determinar como aquela planta estará preparada para atravessar os próximos ciclos”, explica.

O desafio é proporcionar condições para que a muda recém-implantada consiga estabelecer rapidamente seu sistema radicular e aproveitar os recursos disponíveis no solo. Nessa fase, estresses hídricos, limitações nutricionais ou dificuldades no desenvolvimento inicial podem comprometer a uniformidade do cafezal.

Segundo Carvalho, uma lavoura visualmente formada nem sempre significa que todas as plantas começaram o ciclo nas mesmas condições. “A uniformidade é um ponto importante. Quando algumas plantas apresentam desenvolvimento mais lento logo no início, o produtor pode carregar essa diferença ao longo da formação da lavoura. O objetivo é criar condições para que as mudas tenham um estabelecimento equilibrado e desenvolvam raízes capazes de explorar melhor o solo”, afirma.

Entre as estratégias utilizadas nessa fase estão tecnologias voltadas ao desenvolvimento inicial das plantas. A Hydroplan-EB trabalha, por exemplo, com o HYB PLUS em programas de manejo para implantação do café, associado às demais práticas agronômicas adotadas em cada propriedade.

A recomendação, porém, deve considerar as características de cada área. Tipo de solo, disponibilidade de água, histórico da propriedade, variedade utilizada e condições climáticas interferem diretamente no estabelecimento do cafezal.

Para o especialista, o momento vivido pela cafeicultura mineira reforça justamente essa necessidade de planejamento. Se 2026 entra para a história pela dimensão da safra, parte da capacidade produtiva dos próximos anos começa a ser construída antes mesmo da primeira colheita das novas plantas.

“Uma safra recorde mostra o potencial que existe na cafeicultura brasileira, especialmente em Minas Gerais. Mas produtividade não começa quando o café está produzindo. Ela começa muito antes, na forma como essa lavoura é implantada e conduzida desde os primeiros estágios”, conclui Francisco.

Brasil avança na produção mundial de algodão com mais tecnologia no campo

O Brasil chega a um novo patamar na produção mundial de algodão. Terceiro maior produtor global, atrás apenas de China e Índia, o país deve encerrar a safra 2025/26 com produção recorde de 4,14 milhões de toneladas de pluma, segundo o 12º Levantamento da Safra de Grãos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em setembro de 2026. O avanço da cultura reforça também um movimento que ocorre dentro das lavouras: a incorporação crescente de tecnologia, biotecnologia e ferramentas de precisão aos processos produtivos.

Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) dimensionam a importância brasileira no cenário internacional. Na safra 2025/26, o Brasil responde por aproximadamente 15,4% da produção mundial, com 18,75 milhões de fardos de 480 libras, atrás da China, com 35,8 milhões, e da Índia, com 23,8 milhões.

“Quando um país alcança essa dimensão na produção agrícola, produtividade deixa de estar relacionada apenas à expansão de área. O desafio passa a ser produzir melhor, com mais informação, precisão e controle dos processos. É justamente nesse ponto que a biotecnologia ganha importância, porque permite transformar análises e dados biológicos em decisões mais assertivas para a produção”, afirma Tatiani Janegitz, gerente de Desenvolvimento de Mercado – Agronegócio da Loccus, empresa brasileira especializada em soluções para biotecnologia e diagnóstico molecular.

O desempenho nacional reforça essa busca por eficiência. De acordo com a Conab, mesmo com redução de 3,2% na área cultivada na safra 2025/26, para cerca de 2,02 milhões de hectares, a produtividade das lavouras cresceu 4,9%, chegando ao recorde de 2.053 quilos de pluma por hectare. Com isso, a produção deve superar em 1,5% o resultado da temporada anterior.

Do campo ao laboratório

O protagonismo brasileiro no algodão também ocorre no mercado internacional. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), o país exportou o volume recorde de 3,37 milhões de toneladas entre agosto de 2025 e julho de 2026, crescimento de 19% sobre o ano comercial anterior. As vendas externas movimentaram US$ 5,3 bilhões e consolidaram o Brasil como maior exportador mundial da fibra.

A produção em larga escala esta diretamente combinada com o melhoramento genético do algodão, que se tornou-se um dos principais pilares da competitividade brasileira no mercado global, em uma cultura que esta cada vez mais orientada por ganhos de produtividade, qualidade de fibra e sustentabilidade. Para apoiar esse avanço, tecnologias moleculares vêm ampliando a capacidade de pesquisadores e empresas na identificação de genes de interesse, no desenvolvimento de novas cultivares e na validação genética de materiais utilizados no campo.

“O algodão brasileiro mostra como o agronegócio nacional está se tornando cada vez mais intensivo em conhecimento. E soluções para automação laboratorial em extração e purificação de DNA e RNA e PCR em tempo real para análises de genotipagem permitem acelerar processos de seleção e caracterização genética, reduzindo o tempo necessário para a obtenção de variedades mais produtivas, resistentes a doenças e adaptadas às diferentes regiões produtoras. Além disso, essas ferramentas contribuem para assegurar a qualidade genética das sementes e a rastreabilidade dos materiais ao longo da cadeia produtiva do algodão”, diz Tatiani.

Liderança aumenta exigências

A relevância internacional do algodão brasileiro cria, ao mesmo tempo, oportunidades e novas exigências. Com o país ocupando posições de liderança na produção e nas exportações, aspectos como qualidade, eficiência, rastreabilidade e sustentabilidade ganham peso na competitividade da cadeia.

Nesse cenário, tecnologias de análise molecular e automação podem assumir papel cada vez maior, especialmente diante da necessidade de obter respostas rápidas e confiáveis, reduzir perdas, aprimorar o uso de insumos e ampliar o controle sobre processos produtivos. “À medida que o país amplia sua participação no mercado mundial, ciência e tecnologia passam a ocupar uma posição ainda mais relevante para sustentar os próximos ciclos de crescimento”, conclui a especialista da Loccus.

Bancos exigem até 15% de entrada indevida de produtores rurais, alerta advogado

Produtores rurais de Goiás devem redobrar a atenção ao buscar a renegociação de dívidas agrícolas por meio da Medida Provisória n° 1.376/2026, que autoriza a criação de linhas de crédito especiais para a composição, liquidação ou amortização de débitos de crédito rural.

Embora a norma federal traga regras importantes para aliviar o endividamento do setor, uma prática frequente adotada por instituições financeiras tem acendido o alerta nos escritórios de advocacia: a exigência de pagamento de entrada, que chega a 15% do valor total da dívida, para formalizar o enquadramento na linha especial.

Segundo o advogado Pedro Henrique Oliveira Santos, sócio do escritório Alves & Santos Advogados e membro da Comissão de Direito do Agronegócio da OAB/GO, essa cobrança não tem respaldo legal na medida provisória. “Quando o produtor chega no banco para fazer essa contratação, o banco está exigindo pagamento de entrada. Esse pagamento de entrada é indevido e muitas vezes inviabiliza a operação, porque o produtor não vai ter o dinheiro na hora”, destaca Pedro Henrique.

Entrada exigida pelos bancos pode deixar produtor sem recursos para o plantio 

O cenário é agravado pelo momento de pleno andamento da safra 2026/2027 e pela janela de plantio aberta em polos produtivos fundamentais de Goiás, como Rio Verde, Jataí, Caiapônia, Palmeiras de Goiás, Guapó e Pontalina. Diante da demora na resposta dos bancos, muitos produtores têm utilizado recursos do próprio caixa para custear o plantio, confiando na promessa de prorrogação automática. “No entanto, os produtores acabam aguardando respostas que não vêm ou se deparam com exigências financeiras imprevistas”, pontua o especialista.

Outro ponto crítico é a limitação de valor imposta pela MP, que fixa o teto de dívida por CPF em R$4 milhões (podendo alcançar R$8 milhões estritamente mediante comprovação de quatro frustrações de safra). Para produtores com débitos acima desse patamar, a estratégia adotada por parte dos bancos tem sido enquadrar apenas a parcela de R$4 milhões na linha da MP e empurrar o excedente para renegociações convencionais paralelas.

Outro ponto crítico é o limite de crédito previsto para a categoria dos demais produtores: até R$ 4 milhões na condição geral, podendo alcançar R$ 8 milhões mediante comprovação de perdas de, no mínimo, 40% da renda bruta agropecuária esperada em três ou mais safras entre 2019 e 2025, decorrentes de eventos climáticos extremos. Para produtores com débitos acima do limite aplicável, a estratégia adotada por parte dos bancos tem sido enquadrar apenas a parcela correspondente na linha da MP e empurrar o excedente para renegociações convencionais paralelas.

O alerta do advogado é direto: é fundamental analisar a conta inteira da renegociação, avaliando o impacto global no orçamento da fazenda. “Os bancos estão oferecendo aos produtores rurais renegociações até os 4 milhões limitados pela MP e renegociando o restante da dívida separadamente”, explica Pedro Henrique.

Enquanto a MP prevê juros de 12% ao ano na condição geral e de 11% ao ano na condição excepcional para os demais produtores, renegociações bancárias desassistidas podem elevar as taxas anuais para patamares que chegam a 18%, tornando a operação totalmente insustentável e ameaçando a continuidade da atividade produtiva na safra seguinte.

Função social do crédito e impactos na economia

O especialista reforça que o crédito rural possui uma função social jurídica distinta de empréstimos pessoais ou financiamentos comerciais comuns. Enquanto nos créditos tradicionais o objetivo final é o fortalecimento financeiro da instituição bancária, no crédito rural a lógica se inverte. Nesse caso, quem precisa se fortalecer é o produtor para garantir a produção de alimentos.

“Quem tem que se fortalecer é o produtor e não o banco”, afirma o advogado, lembrando que o agronegócio respondeu por 25,2% do PIB brasileiro em 2025, segundo o Cepea/CNA. Pedro Henrique Oliveira Santos ressalta ainda que a quebra em cadeia de produtores endividados gera um impacto sistêmico que afeta desde cooperativas, armazéns e transportadoras até a exportação e o preço final dos alimentos pagos pelo consumidor nos supermercados.

Recomendações práticas antes de assinar contratos

Na alienação fiduciária, o produtor oferece a fazenda como garantia da dívida. Se não conseguir pagar, pode perder o imóvel por um procedimento em cartório, após ser notificado. Para evitar esse risco e não assumir uma renegociação que comprometa a próxima safra, Pedro Henrique orienta o produtor a tomar os seguintes cuidados antes de assinar:

Busque assessoria jurídica especializada primeiro: A recomendação primordial é procurar assessoria jurídica especializada antes de qualquer assinatura ou fechamento de negociação com o banco e antes do vencimento da dívida.

Avalie a proposta completa: A pergunta central que o produtor deve se fazer antes de qualquer decisão é: “Se eu aceitar essa proposta agora, vou conseguir pagar e continuar produzindo na próxima safra?” Tenha clareza absoluta sobre o valor total devido, o saldo que ficará de fora da MP, as taxas de juros, os vencimentos e o custo global.

Examine antes do vencimento: Buscar assessoria especializada antes que a dívida vença evita cair na armadilha de rolar o problema informalmente com o gerente da agência.

Faça a conferência rigorosa do contrato: Antes de qualquer assinatura, revise detalhadamente todos os contratos, prazos de carência e as garantias exigidas pela instituição financeira.

Busque alternativas legais: Caso o banco condicione a aplicação da MP 1.376 ao pagamento indevido de entrada, o caminho jurídico adequado envolve medidas cautelares e tutelas de urgência para obrigar o cumprimento da legislação sem abusos.

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Crise da AgroGalaxy expõe riscos financeiros que atravessam toda a cadeia do agronegócio

O pedido de Recuperação Judicial da AgroGalaxy, uma das maiores plataformas de distribuição de insumos agrícolas e originação de grãos do país, trouxe para o centro do debate um problema que vai além das dificuldades financeiras de uma única empresa. Com dívidas declaradas superiores a R$ 3,7 bilhões, a crise da companhia atingiu diferentes participantes do agronegócio e mostrou como produtores rurais, fornecedores, instituições financeiras e investidores estão conectados por operações de crédito que movimentam bilhões de reais.

O impacto ocorre porque a distribuidora ocupa uma posição estratégica na cadeia agrícola. Empresas desse segmento não apenas comercializam sementes, fertilizantes e defensivos, mas também participam do financiamento da produção, oferecem prazos para pagamento e estruturam operações que dependem da colheita e da comercialização dos grãos. Quando uma companhia desse porte enfrenta dificuldades para honrar seus compromissos, os efeitos podem alcançar outros agentes envolvidos nessas transações.

Uma das operações que ajudam a explicar essa relação é o modelo de negociação em que o produtor recebe os insumos necessários para o plantio e assume o compromisso de realizar o pagamento posteriormente, muitas vezes com parte da própria produção. A modalidade permite antecipar recursos para a lavoura, mas também cria uma relação direta entre o resultado da safra e a capacidade de pagamento do produtor.

O advogado Eliseu Silveira, especialista em recuperação judicial, explica que, quando os preços das commodities caem, essa equação pode se tornar mais difícil de sustentar. “Uma produção que parecia suficiente para quitar determinada obrigação pode passar a representar um valor menor no mercado. Se a redução dos preços ocorre ao mesmo tempo em que há problemas climáticos, queda de produtividade ou aumento da inadimplência, a pressão financeira se intensifica”, observa.

O advogado destaca que foi nesse ambiente que a crise da AgroGalaxy ganhou maiores proporções. Segundo ele, conforme os documentos apresentados pela própria companhia no processo de recuperação judicial, a deterioração financeira esteve relacionada a uma combinação de fatores, entre eles a queda nos preços de commodities como soja e milho, a redução das margens dos produtores e o aumento do custo de capital em um período de juros elevados.

“A combinação desses fatores afeta diretamente o fluxo de caixa. A empresa havia realizado compras de insumos em um cenário anterior, quando os preços estavam elevados, e mantinha operações de financiamento com produtores. Com a mudança das condições de mercado, a capacidade de pagamento de parte dos clientes foi reduzida, enquanto o custo para manter e renovar o capital de giro permaneceu elevado”, pontua.

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Eliseu Silveira lembra que o agronegócio apresenta outra característica que amplia a exposição financeira do produtor rural: o intervalo entre o investimento realizado na lavoura e a geração da receita. Os insumos precisam ser adquiridos antes do plantio, enquanto diversas despesas são acumuladas durante o ciclo agrícola. A produção só se transforma em receita depois da colheita e da comercialização.

“Empresas que fornecem crédito ou prazo de pagamento precisam, portanto, administrar riscos que podem se materializar meses depois da contratação da operação. Culturas como a soja, o milho e outras commodities estão sujeitas a alterações na oferta e na demanda mundial, condições climáticas em grandes regiões produtoras, variações cambiais e decisões de grandes países consumidores. Uma mudança significativa nos preços pode alterar as projeções de receita de produtores e empresas que dependem dessas atividades”, salienta.

Para o especialista, nesse contexto, a recuperação judicial passa a ter uma função importante para a continuidade das atividades, por ser um mecanismo que permite suspender determinadas cobranças e organizar a negociação das dívidas dentro de um processo supervisionado pela Justiça.

“A empresa busca, dessa maneira, manter a operação enquanto apresenta uma proposta para reorganizar seus compromissos financeiros. O instrumento não significa que os credores receberão necessariamente a totalidade dos valores devidos. Também não elimina os riscos ou garante a recuperação da empresa. O resultado depende da situação financeira, da capacidade de geração de caixa, das negociações com os credores e das condições estabelecidas no plano de recuperação judicial”, enfatiza.

Eliseu Silveira acrescenta que, no caso de uma grande distribuidora de insumos, a continuidade da operação também tem impacto sobre a própria atividade agrícola. A interrupção dos negócios pode dificultar o acesso dos produtores aos produtos necessários para o plantio e afetar fornecedores que dependem dos pagamentos realizados pela empresa.

“Essa crise financeira de um elo importante pode provocar consequências em outros pontos da cadeia. O episódio da AgroGalaxy representa mais um exemplo da necessidade de avaliar com atenção os riscos associados às operações de crédito do agronegócio. Ela ultrapassa, portanto, os números apresentados no processo de recuperação judicial e expõe a relação existente entre crédito, produção agrícola e mercado financeiro, comprovando que mudanças nas condições econômicas podem atingir diferentes participantes de uma mesma cadeia e transformar um problema financeiro localizado em uma questão com efeitos mais amplos sobre a atividade agrícola”, assinala.

Eleições 2026: o agro sai mais forte das urnas? O Congresso pode ser a resposta

A eleição presidencial ainda não terminou, mas o agronegócio brasileiro já sabe que terá um Congresso Nacional diferente a partir de 2027.

O primeiro turno das eleições de 2026 colocou Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. Flávio terminou a primeira rodada na liderança, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. A decisão sobre quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos ficou para 25 de outubro.

Para o campo, porém, existe uma segunda eleição que merece tanta atenção quanto a disputa presidencial: a composição do Congresso. E foi justamente ali que o mapa político brasileiro sofreu uma mudança importante.

O PL elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Câmara na próxima legislatura. No Senado, o partido também ampliou sua presença. O resultado fortalece o grupo político que, nos últimos anos, manteve uma relação próxima com parte expressiva das entidades e lideranças do agronegócio.

Isso não significa que o Congresso será simplesmente um “Congresso do agro”. A realidade é mais complexa. Mas significa que produtores rurais, cooperativas, agroindústrias e entidades representativas do setor chegam a 2027 com uma estrutura política relevante para disputar espaço nas principais decisões econômicas do país.

E há muito em jogo. O próximo governo terá de discutir o futuro do Plano Safra, crédito rural, seguro agrícola, infraestrutura, armazenagem, endividamento rural, tributação, licenciamento ambiental, regularização fundiária e comércio exterior.

Em praticamente todas essas áreas, uma palavra será decisiva: Congresso. A força parlamentar do agro pode fazer diferença especialmente porque o próximo presidente não terá liberdade para governar ignorando a correlação de forças construída nas urnas.

Se Lula vencer o segundo turno, encontrará um Legislativo com uma composição política significativamente diferente da orientação de seu partido. Se Flávio Bolsonaro vencer, terá maior proximidade ideológica com uma parcela expressiva do Congresso, mas também precisará negociar com diferentes partidos e interesses.

Em ambos os casos, o agro estará sentado à mesa. E essa talvez seja a principal mensagem das eleições de 2026 para o setor.

O poder não estará apenas no Palácio do Planalto

Durante décadas, boa parte da análise política brasileira ficou concentrada na disputa presidencial. Para o agronegócio, essa lógica é insuficiente. Uma medida provisória pode ser editada pelo Executivo, mas precisa sobreviver ao Congresso. Uma mudança tributária precisa passar pelo Legislativo. O orçamento depende de deputados e senadores. Comissões podem alterar profundamente o conteúdo de projetos. Relatorias podem decidir o rumo de uma proposta.

É nesse espaço que a Frente Parlamentar da Agropecuária, a FPA, ganha importância. A bancada reúne parlamentares de diferentes partidos e representa uma das principais estruturas de articulação política do setor produtivo rural em Brasília.

O desafio agora será transformar força eleitoral em resultado concreto. Ter parlamentares alinhados às pautas do agro não garante, por si só, políticas melhores para o produtor. É preciso construir maioria, negociar textos, disputar relatorias e encontrar pontos de convergência com outros setores da economia.

A política do campo, portanto, não termina na porteira. Em 2027, ela continuará sendo decidida também nos corredores do Congresso.

Crédito rural será uma das primeiras batalhas

Poucos temas afetam tanto o produtor quanto o dinheiro disponível para financiar a produção. Plano Safra, taxas de juros, seguro rural, investimentos em máquinas, armazenagem e infraestrutura estarão entre as prioridades do setor. O problema é que o próximo governo encontrará uma disputa cada vez maior por recursos públicos.

A pressão do agronegócio por mais crédito terá de conviver com a necessidade de controlar as contas públicas. Essa equação não será simples. O Congresso poderá pressionar por recursos e programas específicos, mas também terá de lidar com o limite fiscal do governo federal. Para o produtor, a discussão terá efeito direto no custo da próxima safra.

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Reforma tributária entra no radar do campo

Outra batalha será travada no sistema tributário. A reforma tributária continuará produzindo efeitos sobre produtores rurais, cooperativas, agroindústrias, fornecedores de insumos e toda a cadeia de alimentos.

A discussão não será apenas sobre quanto o setor pagará. Será também sobre como os impostos serão cobrados, como funcionarão os créditos tributários e qual será o impacto sobre o custo de produção e a competitividade das exportações brasileiras.

Para um país que se tornou uma potência mundial na produção e exportação de alimentos, qualquer aumento de custo pode repercutir muito além da propriedade rural. Pode chegar ao supermercado e ao mercado internacional.

Meio ambiente pode virar campo de batalha

Se existe um tema capaz de produzir conflitos entre Congresso, governo e agronegócio, ele continuará sendo o meio ambiente. Licenciamento, regularização fundiária, rastreabilidade, preservação, crédito condicionado a critérios ambientais e mercado de carbono estarão entre os assuntos mais sensíveis.

Mas existe uma questão que o setor não poderá ignorar. O mercado internacional está mudando. Grandes compradores querem saber cada vez mais de onde vem o produto, como ele foi produzido e qual é sua pegada ambiental. Isso coloca o Brasil diante de uma equação delicada.

O produtor precisa de segurança jurídica e regras claras. Ao mesmo tempo, o país precisa manter acesso aos mercados que compram bilhões de dólares em produtos agropecuários brasileiros. A discussão ambiental, portanto, deixou de ser apenas ideológica. Ela também é econômica.

A próxima disputa pode acontecer fora do Brasil

O cenário internacional será outro teste para o próximo governo. O agronegócio brasileiro entra em 2027 como um dos principais pilares da balança comercial do país, mas também em um mundo marcado por disputas comerciais, protecionismo, conflitos geopolíticos e mudanças nas cadeias globais de produção.

China, Estados Unidos, União Europeia e Oriente Médio continuarão no radar. Soja, carnes, café, açúcar, milho, algodão, celulose e outros produtos brasileiros dependem de mercados externos cada vez mais exigentes.

Nesse ambiente, infraestrutura, diplomacia comercial, defesa sanitária e abertura de novos mercados terão o mesmo peso que decisões tomadas dentro das fazendas.

O agro terá de escolher como quer exercer seu poder

Existe, porém, uma questão política que o resultado de 2026 coloca diante do próprio agronegócio. O setor será capaz de atuar para além da polarização? Essa pode ser uma das decisões estratégicas mais importantes dos próximos anos.

O agro possui interesses que atravessam governos e partidos. Seguro rural não é uma pauta de esquerda ou direita. Infraestrutura também não. Pesquisa, logística, defesa sanitária, crédito e abertura de mercados tampouco. São políticas de Estado.

Quanto maior a capacidade do setor de negociar com diferentes governos e bancadas, maior tende a ser sua capacidade de proteger interesses de longo prazo. A eleição de 2026 mostrou que a força política do agro não estará concentrada em um único gabinete. Ela estará espalhada por Brasília. No Palácio do Planalto, no Senado, na Câmara, nas comissões, nas negociações do orçamento e, principalmente, na capacidade de articulação de suas entidades e representantes.

Por isso, a pergunta que interessa ao produtor rural talvez não seja apenas quem será o próximo presidente. A pergunta é outra: quem terá força para negociar com ele?

E, depois das eleições de 2026, o agronegócio chega a Brasília com uma resposta bastante clara: terá uma bancada numerosa, uma estrutura de articulação consolidada e quatro anos de decisões estratégicas pela frente.

O tamanho dessa influência, porém, dependerá menos do número de parlamentares eleitos e mais da capacidade de transformar votos em políticas públicas capazes de aumentar a produtividade, reduzir custos e manter o Brasil competitivo no mercado mundial de alimentos.

Expansão da pecuária brasileira exige rastreabilidade no centro da agenda setorial

A pecuária brasileira encerrou o primeiro semestre de 2026 em um cenário de expansão, marcado pelo crescimento das exportações de carne bovina e pelo aumento no volume de animais abatidos. Ao mesmo tempo, os mercados ampliam as exigências relacionadas à origem, sanidade, conformidade socioambiental e, sobretudo, à capacidade de comprovar essas informações. Nesse contexto, avançar em mecanismos que assegurem a rastreabilidade dos animais e permitam construir evidências sobre sua trajetória passa a ser estratégico para a competitividade e a proteção de valor da cadeia produtiva.

Novas exigências internacionais reforçam esse movimento. A partir de setembro, entraram em aplicação requisitos europeus relacionados à comprovação do uso de antimicrobianos, enquanto, em dezembro, começa a valer a European Union Deforestation Regulation (EUDR), que estabelece requisitos de rastreabilidade e comprovação de origem para produtos associados ao desmatamento. Embora sejam agendas regulatórias distintas, ambas evidenciam uma tendência comum: os mercados não demandam apenas informações, mas a capacidade de demonstrar sua origem, consistência e conformidade.

“O contínuo desenvolvimento do setor amplia também a responsabilidade sobre a qualidade das informações que sustentam essa produção. A rastreabilidade deixa de ser apenas uma ferramenta de controle e passa a ser um ativo estratégico para a cadeia, porque permite gerar evidências, dar mais transparência aos processos, atender às novas demandas dos mercados e apoiar decisões mais qualificadas. Para que esse avanço seja consistente, precisamos construir sistemas integrados, acessíveis e que considerem a realidade dos produtores”, afirma a presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, Ana Doralina.

Entre janeiro e junho, o Brasil exportou 1,705 milhão de toneladas de carne bovina, alta de 15,5% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), com base em informações da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC). A receita alcançou US$ 9,85 bilhões, crescimento de 36,2%. No mercado interno, o primeiro trimestre também registrou recorde no abate de bovinos para o período, com 10,29 milhões de animais sob inspeção sanitária, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Mais do que acompanhar o crescimento da atividade, a rastreabilidade passa a ser uma condição para que o setor consiga responder a um ambiente comercial cada vez mais orientado por informações verificáveis. A dificuldade de comprovar origem, trajetória e conformidade pode resultar em restrições de mercado, risco reputacional para a carne brasileira e perda de oportunidades de diferenciação e de valorização”, ressalta Ana, ao pontuar que, em um cenário de perda de mercados ou redução de valor, os impactos podem alcançar toda a cadeia e exercer pressão sobre os preços, inclusive sobre a arroba recebida pelo produtor que não atua diretamente no mercado externo.

No país, 2026 também representa uma etapa importante para a implementação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB). O cronograma estabelece, neste ano, a adequação dos sistemas estaduais e a integração das bases de dados, preparando o setor para o avanço gradual da identificação individual dos animais a partir de 2027 e para a obrigatoriedade antes da primeira movimentação, prevista para 2032.

Embora a identificação individual seja uma base fundamental para a rastreabilidade, sua efetividade dependerá da capacidade de conectar as informações geradas nos diferentes pontos da cadeia. Interoperabilidade entre sistemas, qualidade e padronização dos dados, integração das bases existentes e definição clara das responsabilidades são elementos necessários para transformar registros dispersos em informações confiáveis e, principalmente, em evidências que possam ser utilizadas pelos diferentes elos.

“Esse processo precisa ser conduzido de forma coordenada, evitando a criação de estruturas paralelas e pouco integradas. Não basta identificar o animal: é preciso garantir que as informações acompanhem sua trajetória, possam ser compartilhadas entre os sistemas e tenham qualidade suficiente para comprovar os atributos exigidos pelos mercados. A interoperabilidade entre sistemas, a qualidade dos dados e a definição clara das responsabilidades de cada elo são pontos fundamentais para que a identificação individual seja incorporada à rotina produtiva e gere valor para além do cumprimento das exigências regulatórias”, reforça a presidente.

Esse é um dos temas que vêm sendo acompanhados pela Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável por meio do GT de Rastreabilidade e de sua participação nas discussões relacionadas à implementação do PNIB. A entidade tem contribuído para o debate sobre a integração de bases, a interoperabilidade entre sistemas e a construção de soluções junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), com o objetivo de apoiar uma implementação capaz de conectar informações ao longo da cadeia e gerar evidências confiáveis.

Outro aspecto considerado estratégico por ela é a inclusão dos produtores nesse processo. “A rastreabilidade pode contribuir para a regularização, a permanência na cadeia formal e o acesso a diferentes mercados, mas sua implementação precisa ser acompanhada de orientação, capacitação e condições para que os pecuaristas compreendam e percebam os benefícios associados à geração e ao compartilhamento de informações”, complementa.

Para o segundo semestre, a presidente reforça que o avanço da rastreabilidade deve ser compreendido não apenas como resposta a uma agenda regulatória, mas como parte de uma estratégia de competitividade e proteção de valor para a pecuária brasileira. “Juntos, é possível que ela seja mais conectada, transparente e preparada para responder às demandas de mercados cada vez mais orientados por informações confiáveis”, finaliza.

Foto: FreePik

Sobre a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável

A Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável é uma associação multissetorial sem fins lucrativos que reúne representantes de toda a cadeia de valor da pecuária brasileira para promover práticas produtivas, socioambientais e econômicas responsáveis. Com 19 anos de atuação, a entidade articula debates, desenvolve iniciativas de melhoria contínua e incentiva a transparência no setor. Sua missão é fortalecer uma pecuária cada vez mais sustentável, inclusiva, eficiente e reconhecida globalmente.

Mercosul precisa agir como bloco para preservar competitividade do agro, avaliam especialistas no GAFFFF

O principal risco para o agronegócio do Mercosul pode estar menos na competição externa do que na incapacidade de os próprios países do bloco atuarem de forma coordenada. Essa foi uma das principais conclusões do painel “Mercosul no Cenário Global: Estratégias para Manter a Competitividade e a Produtividade”, realizado durante o GAFFFF, em São Paulo.

O debate foi moderado por Glauber Silveira, diretor executivo da Abramilho, e reuniu os plaestrantes Bernhard Kiep, diretor da Abramilho e membro do conselho da Maizall; Federico Zerboni, presidente da Maizar; e Maciel Silva, diretor técnico adjunto da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Conforme apontado durante a conversa, o cenário de preços e custos aumenta a pressão sobre os produtores. Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontam que o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária brasileira deve recuar 4% em 2026, para R$ 1,45 trilhão. No caso do milho, a queda projetada é de 6,1%, reflexo principalmente da desvalorização dos preços reais.

“Nós temos que tomar cuidado em não brigar entre nós”

Para Bernhard Kiep, o ambiente macroeconômico internacional tornou-se mais complexo justamente em um momento de pressão sobre a rentabilidade do produtor. Ele considera que a combinação de estoques elevados e demanda insuficiente reduz o incentivo à produção e prolonga o período de preços pressionados.

“Os desafios para o agronegócio são muito grandes. O mundo não está olhando muito para o agronegócio porque a gente acabou produzindo talvez além da demanda nos últimos anos. Isso gerou estoques”, afirma.

Kiep destaca ainda o impacto dos custos de produção, citando o preço do diesel na Europa como exemplo da pressão enfrentada pelo setor. Ao tratar especificamente do Mercosul, o executivo defende que Brasil, Argentina e Uruguai evitem disputas internas e construam uma estratégia conjunta para negociar com mercados mais organizados.

“Nós, argentinos, uruguaios, brasileiros, temos que tomar cuidado em não brigar entre nós, e sim nos unir. Esse é o maior desafio que eu vejo para o Mercosul, porque nós não temos um histórico de nos unir e pensar em bloco. É muito fácil nos dividir”, diz.

Segundo Kiep, a integração europeia criou ao longo de décadas mecanismos de coordenação que os países do Mercosul ainda precisam desenvolver. O acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, em aplicação provisória desde maio de 2026, estabelece regras para tratamento tarifário preferencial, origem dos produtos e outras condições de acesso aos mercados.

Argentina enfrenta custos elevados e busca uma virada econômica

Foto: Julian Leonel / Pexels.com

Federico Zerboni apresenta um panorama da agricultura argentina e destacou o peso da estrutura tributária sobre a renda dos produtores. Em sua avaliação, país ainda convive com impostos de exportação e custos elevados. Zerboni afirmou que, no caso da soja, os tributos representam parcela significativa do valor recebido pelo produtor e que o governo argentino fica com mais de 60% do rendimento da atividade, em sua estimativa.

Ao mesmo tempo, apontou sinais positivos na economia argentina, especialmente relacionados à expansão da produção de energia em Vaca Muerta e da mineração, que podem ampliar a entrada de dólares no país.

Para o setor agrícola, porém, a eficiência continua sendo determinante. “O que te faz sobreviver é seres muito eficiente. Sobrevive quem tem a melhor tecnologia, quem usa a melhor inovação e quem é mais eficiente”, pontua.

Zerboni também citou riscos climáticos e sanitários para a próxima temporada, incluindo o comportamento das chuvas e do El Niño e a presença da cigarrinha-do-milho, cuja importância aumentou nos últimos anos com a elevação das temperaturas.

Crédito e custos ainda deixam produtor exposto

Maciel Silva, da CNA, destacou que o produtor brasileiro continua enfrentando um ambiente de incerteza, no qual medidas estruturais têm efeito de médio e longo prazo, enquanto os problemas de renda e custo são imediatos.

Silva analisa que alternativas como fertilizantes e produtos biológicos fazem parte de uma agenda necessária para o futuro, mas não resolvem a pressão sobre a safra atual. Na mesma linha, citou o Profet como uma alternativa de crédito que, na avaliação da CNA, ainda apresenta limitações para produzir efeitos imediatos.

“O que nos cabe ainda fica muito na mão. É muito mais pensando nas medidas de socorro do que tomadas de decisão estruturada”, ressalta. Para ele, a incerteza sobre o cenário econômico e institucional também dificulta decisões de investimento por parte dos produtores.

Competitividade depende de coordenação

As falas convergiram para um ponto central: a competitividade do agronegócio sul-americano dependerá não apenas da produtividade dentro das propriedades, mas também da capacidade dos países do Mercosul de coordenar interesses, reduzir vulnerabilidades e negociar em conjunto.

O desafio ganha peso com a entrada em vigor provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia e com a manutenção de padrões sanitários e fitossanitários exigentes para o acesso ao mercado europeu. Para Kiep, o bloco precisa acelerar essa construção. “Nós não vamos ter quase 30 anos, como a Europa teve, já de treinar e trabalhar junto e apertar a gente”, conclui.

Mulheres já representam 40% dos decisores rurais e ampliam presença na gestão do agronegócio

A participação das mulheres na gestão do agronegócio brasileiro avançou nos últimos dez anos, acompanhada por maior qualificação profissional, presença na propriedade, adoção de tecnologias e desempenho consistente nas relações de crédito. É o que mostra o estudo “Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro: 10 anos de transformação e avanços”, lançado pela ABAG – Associação Brasileira do Agronegócio, durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF). A pesquisa conta com correalização da Serasa Experian, pesquisa da Fran6 Pesquisa e patrocínio do Sistema FAESP/SENAR.

O levantamento combina dados nacionais de mercado, com uma pesquisa quantitativa e uma etapa qualitativa, com gestoras e produtoras de diferentes regiões do País. O conjunto de informações permite traçar um retrato da evolução da participação feminina na produção e na gestão rural.

“Nos últimos dez anos, a mulher ampliou sua presença nas decisões estratégicas do agronegócio e conquistou maior espaço na propriedade e na condução dos negócios. Os dados mostram uma transformação que envolve formação, tecnologia, gestão e acesso ao crédito. A presença feminina passa a ser cada vez mais parte da própria dinâmica de modernização do agro brasileiro. Homens e mulheres não competem no campo; eles se complementam”, destaca Gislaine Balbinot, diretora executiva da ABAG.

A dimensão nacional feita pela Serasa Experian, primeira e maior datatech do país, mostra que as mulheres representam 40% dos 10,7 milhões de produtores rurais decisores do Brasil. Em relação ao acesso e ao comportamento de crédito, as produtoras rurais apresentaram taxas de inadimplência inferiores às dos homens, com destaque para as grandes proprietárias, cuja taxa registrada foi de 6,85%, e para as mulheres da Região Sul, com 5,4%.

Foto: Pedro Furtado / Pexels.com

A análise dos dados de conformidade ambiental do CAR mostra que propriedades sob comando exclusivo feminino concentra uma parcela mínima de restrições legais e passivos ambientais. Os registros de trabalho escravo e desmatamento do Prodes estão majoritariamente associados a CPFs masculinos, que concentram, respectivamente, 77% e 67% das ocorrências. Entre as mulheres, os percentuais correspondem a 5% e 20%.

“Ao cruzarmos diferentes bases de dados, conseguimos observar com clareza a solidez econômica da mulher no campo. A prudência financeira aliada a um rigor exemplar em práticas de compliance socioambiental e ESG coloca a gestão feminina em um patamar de altíssima confiabilidade para o mercado de crédito e para o desenvolvimento de um agronegócio sustentável”, afirma Sabrina Muñoz, Gerente Executiva de GeoData e Analytics – Agronegócio da Serasa Experian.

Para capturar a essência dessa transformação, o estudo conduzido pela Fran6 Pesquisa combinou uma ampla radiografia quantitativa com 25 entrevistas qualitativas em profundidade com produtoras, pecuaristas e agroindustriais de todas as regiões do país. O levantamento deu voz aos desafios cotidianos das gestoras — como a superação de barreiras culturais, a gestão da dupla jornada e a força das redes de apoio e do cooperativismo —, revelando que a liderança feminina no campo é marcada por uma visão holística e por uma gestão profundamente humanizada.

Entre as mulheres entrevistadas na pesquisa quantitativa, a qualificação profissional avançou de forma expressiva, com a presença feminina mais presente na propriedade e na condução dos negócios: 91% das entrevistadas são proprietárias, total ou parcialmente, do negócio rural, um crescimento de 10 pontos percentuais do resultado registrado dez anos antes. O avanço ocorre paralelamente à elevação da escolaridade: o percentual de gestoras com pós-graduação passou de 24%, em 2015, para 46%, em 2026, enquanto 77% possuem ensino superior completo.

A incorporação de tecnologias ao cotidiano das propriedades também aparece como um dos fatores que ampliaram a autonomia das produtoras. Ferramentas como drones, telemetria, sistemas de gestão e outras soluções digitais fazem parte da rotina de 71% das gestoras, que afirmam operar de forma independente ou parcialmente independente essas tecnologias.

O estudo identifica ainda uma forma de liderança marcada pela valorização do diálogo, planejamento e visão holística do negócio. O apoio familiar aparece como um elemento relevante para a permanência e a atuação das mulheres na gestão dos negócios rurais. A sustentabilidade também está presente na rotina das gestoras, associada à eficiência da operação e à preservação do patrimônio e do legado. Entre as práticas identificadas estão o uso de bioinsumos, biodigestores, manejo hídrico, bem-estar animal e genômica.

“A presença das mulheres no campo se fortalece quando conhecimento, autonomia e capacidade de decisão caminham juntos. O acesso à capacitação técnica e à informação amplia as condições para que elas assumam novas responsabilidades, desenvolvam seus negócios e participem de forma ainda mais ativa das organizações do setor. O Sistema FAESP/SENAR tem muito orgulho de apoiar este estudo”, afirma Juliana Farah, presidente da Comissão Semeadoras do Agro da FAESP.