Raio-x do agro: conectando o cenário atual com o que vem pela frente

O resumo da ópera é: 2025 foi o ano do volume e da receita bruta; 2026 será o ano da eficiência e da gestão de margem. O dinheiro ficou mais caro e o mercado internacional, mais incerto.

Breve análise de 2025: a “supersafra” com alerta ligado

2025 entra para a história como um ano de pujança produtiva, mas que escondeu fragilidades financeiras no balanço dos produtores.

A força do PIB e exportações: O agronegócio foi a âncora econômica do Brasil, com um crescimento do PIB setorial projetado próximo a 9% e exportações batendo recordes (superando US$ 80 bilhões já no primeiro semestre). Soja, milho, algodão e café foram os grandes motores.

 O paradoxo do lucro: Apesar da receita bruta altíssima (VBP recorde), a rentabilidade real caiu. O custo de produção (insumos, diesel, maquinário) continuou alto e os preços das commodities se estabilizaram ou caíram.

A inadimplência: O dado mais preocupante de 2025 foi o aumento dos pedidos de recuperação judicial e a inadimplência no crédito rural, que atingiu níveis recordes (acima de 11% em algumas carteiras). O produtor colheu muito, mas o dinheiro que sobrou no bolso foi pouco para pagar as contas acumuladas.

Tendências para 2026: o ano da eficiência

Se 2025 foi sobre “produzir mais”, 2026 será sobre “gastar melhor”. A projeção é de um crescimento de PIB bem mais modesto (cerca de 1%), sinalizando uma desaceleração.

1. Economia e crédito: “cinto apertado”

Crédito restrito: Com a inadimplência de 2025, os bancos estarão mais seletivos e os juros continuarão salgados. O produtor terá que usar mais capital próprio (“cash burn”) para financiar a safra.

Gestão profissional: Não haverá espaço para amadorismo. A tendência é que a gestão financeira “antes da porteira” (hedge, seguro, compra antecipada de insumos) seja mais determinante para o lucro do que a própria produtividade no campo.

2. Produção: o ciclo da pecuária e grãos

Boi gordo em alta: O ciclo pecuário virou. Após o abate excessivo de fêmeas em 2024/25, haverá menos bezerros e menos bois disponíveis em 2026. Isso deve pressionar a arroba para cima, recuperando a margem do pecuarista, mas encarecendo a carne para o consumidor.

Soja vs. Milho: A soja deve continuar crescendo em área (+3%), mas o milho (especialmente a segunda safra) e o arroz devem perder espaço devido aos custos e riscos climáticos.

3. Tecnologia: de “diferencial” para “obrigação”

IA preditiva: a Inteligência Artificial sai do campo da “curiosidade” para a gestão de risco. Ferramentas que preveem o melhor momento de venda ou compra de insumos serão essenciais para proteger as margens estreitas.

Conectividade e nuvem: A gestão baseada em dados (data-driven) exigirá que a fazenda esteja conectada. A tendência é a “cloudificação” total dos sistemas de gestão das fazendas.

4. Geopolítica e Clima

Fator Trump e China: Com o cenário político nos EUA, existe o temor de guerras comerciais. Se os EUA sobretaxarem a China, o Brasil pode ganhar mercado na soja, mas perder competitividade se houver tarifas generalizadas ou protecionismo americano.

La Niña / clima: O clima continua errático. A instabilidade nas chuvas exigirá mais investimento em seguros rurais (que estão caros) e tecnologias de resistência à seca (bioinsumos).

CNPJ passa a ser obrigatório para produtores rurais em todo Brasil em 2026

A partir de 2026, todos os produtores rurais do Brasil, pessoa física ou jurídica, passarão a ter CNPJ obrigatório para o exercício de suas atividades. A medida faz parte das mudanças previstas na Reforma Tributária e uniformiza uma exigência que, até então, era realidade principalmente em estados como São Paulo. A alteração vai além de uma formalidade cadastral e terá impactos diretos na emissão de notas fiscais e no enquadramento do produtor rural frente aos novos tributos, que entram em fase de testes em 2026 e passam a valer de forma definitiva a partir de 2027.

A advogada Viviane Morales, diretora administrativa da Lastro, explica que a obrigatoriedade do CNPJ para o produtor rural será nacional. “Quem ainda utilizava apenas o CPF precisará se adaptar, e essa adaptação deve ser feita com planejamento, porque o CNPJ será a base de toda a vida fiscal do produtor nos próximos anos”, alerta.

Foto: Polina Tankilevitch / Pexels.com

Com a reforma tributária, o produtor rural continuará obrigado a emitir nota fiscal, mas passará por um período de transição em 2026, quando muitos ainda estarão emitindo documentos com CPF até a migração definitiva para o CNPJ. Sendo assim, a recomendação é antecipar esse movimento para evitar inconsistências cadastrais. Além disso, a Receita Federal adotará o chamado CNPJ alfanumérico, que combina letras e números. A mudança técnica será necessária diante do aumento expressivo no número de registros, especialmente entre produtores que nunca tiveram CNPJ. Para produtores rurais do estado de São Paulo, a exigência não é novidade. No entanto, aqueles que possuem propriedades em outros estados precisam redobrar a atenção, como explica o advogado Gustavo Venâncio, diretor comercial e de marketing da Lastro. “Produtores paulistas com fazendas fora do estado precisarão estruturar esses CNPJs como filiais, mantendo a mesma composição societária. Um erro nesse processo pode gerar problemas fiscais”, pontua o advogado.

Por isso, é fundamental que o produtor rural organize desde já sua documentação; avalie a estrutura correta do CNPJ, principalmente em casos de propriedades em mais de um estado; evite abrir cadastros sem orientação técnica e entenda como o novo CNPJ impactará sua tributação a partir de 2027. “O produtor rural precisa enxergar o CNPJ não como uma obrigação isolada, mas como uma peça-chave para sua segurança tributária nos próximos anos. Fazer isso da forma correta agora é o que vai garantir tranquilidade no futuro”, conclui Venâncio.

É fundamental ainda reforçar que o ano de 2026 será um período de teste da Reforma Tributária e, segundo Viviane Morales é importante que o produtor rural entenda que é também um ano decisivo para organização interna e adaptação às mudanças. “Quem entrar nesse processo sem planejamento corre o risco de enfrentar problemas fiscais no futuro. Informação e orientação especializada serão fundamentais”, reforça a especialista.