Do porto ao talhão, logística e dados entram na conta da eficiência dos fertilizantes

por Sérgio Rocha*

O Brasil importa 93% dos fertilizantes que consome, somente em 2025, foram 45,5 milhões de toneladas trazidas do exterior, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em um cenário marcado por conflitos geopolíticos, restrições comerciais, oscilações de preços e gargalos logísticos, essa dependência deixou de ser apenas uma questão de comércio exterior e passou a representar um fator de risco para o planejamento da safra, o custo de produção e, consequentemente, a rentabilidade do produtor.

O problema é que o risco não termina quando o navio chega ao porto. Ele continua no transporte, na armazenagem, na distribuição e, principalmente, dentro da propriedade. Garantir que o fertilizante chegue ao Brasil é apenas uma parte da equação. É preciso que ele esteja disponível no momento adequado, pelo menor custo possível e seja utilizado de maneira eficiente.

Os números mais recentes mostram como essa vulnerabilidade pode se materializar rapidamente. Entre janeiro e maio de 2026, as importações brasileiras de fertilizantes nitrogenados e fosfatados recuaram 8,7%, passando de 7,69 milhões para 7,02 milhões de toneladas. No mesmo período, porém, o preço médio de internalização aumentou 14,4%. Como consequência, o valor desembolsado pelo país com essas importações cresceu 4,4%, mesmo diante da entrada de um volume menor. Em outras palavras: o Brasil pagou mais por menos produto.

Esse movimento expõe uma vulnerabilidade que vai além da formação do preço internacional. Quando o insumo fica mais caro na origem, frete, armazenagem e atrasos na entrega podem pesar ainda mais sobre a conta final. É por isso que a gestão dos fertilizantes precisa começar antes mesmo de a carga chegar ao porto.

Logística, nesse contexto, também é uma variável agrícola. O fertilizante precisa estar disponível quando a lavoura demanda determinado nutriente. Um produto que chega tarde pode comprometer o planejamento, aumentar custos e reduzir a previsibilidade da operação.

Em agosto, a Comissão Nacional das Autoridades nos Portos (Conaportos) recomendou prioridade para o desembarque de fertilizantes minerais e demais insumos nutricionais destinados à safra 2026/27 nos portos públicos organizados. A medida ocorreu em um cenário de disrupções logísticas associadas ao ambiente geopolítico internacional.

Paranaguá, Santos e os portos do Arco Norte são pontos estratégicos dessa cadeia. Um atraso na descarga não termina no cais: pode resultar em filas de caminhões, maior necessidade de armazenagem, fretes mais caros e menor previsibilidade para a chegada do produto à propriedade. No campo, a previsibilidade também tem valor econômico. O produtor precisa comprar o insumo, programar sua distribuição e posicioná-lo de acordo com o planejamento da lavoura. Quanto maior a incerteza, maior a necessidade de capital e maior a exposição ao risco.

O Profert é estratégico, mas ainda não resolve

O Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert) representa um passo importante na tentativa de reduzir a dependência externa. Em agosto, o Senado aprovou o projeto que prevê até R$ 10 bilhões em incentivos para estimular investimentos em novas plantas e na expansão e modernização da produção nacional. O texto foi encaminhado à Presidência da República para sanção.

A iniciativa é necessária. Ampliar e modernizar a capacidade brasileira de produção de fertilizantes significa reduzir a vulnerabilidade diante de choques externos e criar condições para uma cadeia de suprimentos mais resiliente. Mas é importante separar o horizonte estratégico da necessidade imediata.

Uma nova planta industrial não é construída da noite para o dia. Projetos de fertilizantes demandam capital, infraestrutura, disponibilidade de matérias-primas, energia e gás natural em condições competitivas, além de planejamento e tempo para implantação. O Profert pode ajudar a transformar a estrutura da oferta brasileira nos próximos anos. A safra que está sendo planejada, porém, precisa lidar com os preços, estoques, fretes e disponibilidade de produto existentes hoje. É justamente nesse intervalo que a eficiência ganha importância.

Mais fertilizante, não significa mais produtividade

Existe também um problema dentro da porteira: saber exatamente onde, quanto e quando aplicar. Um estudo do Instituto Escolhas mostra que o uso de fertilizantes químicos na produção brasileira de soja passou de 728 mil toneladas, em 1993, para 6 milhões de toneladas, em 2022, um crescimento de 734%. No mesmo período, a quantidade de soja produzida por tonelada de fertilizantes caiu de 517 para 333 sacas.

Os números não significam que o fertilizante deixou de ser essencial à produtividade. Mostram que a relação entre quantidade aplicada e resultado obtido precisa ser analisada com mais precisão. Fertilizante não deve ser tratado como uma variável uniforme dentro de uma propriedade. A necessidade de nutrientes varia conforme características do solo, histórico de cultivo, produtividade esperada, cultura, clima e manejo.

Aplicar uma dose única em toda a área, quando existe variabilidade significativa dentro do talhão, pode levar a dois problemas simultâneos: aplicação abaixo da necessidade em determinados pontos e excesso em outros. A consequência é econômica antes de ser tecnológica. O produtor pode estar colocando dinheiro no solo sem necessariamente transformar esse investimento em produtividade.

O valor dos dados

É nesse ponto que os dados passam a ter valor estratégico. A agricultura já produz uma quantidade enorme de informações: análises de solo, mapas de produtividade, imagens de satélite, dados climáticos, histórico de aplicações, relevo, disponibilidade hídrica, preços de insumos, localização de armazéns e rotas de transporte. O desafio, portanto, não é simplesmente ter mais dados. É conectar essas informações para transformar variáveis dispersas em decisões melhores.

A inteligência espacial permite, por exemplo, identificar a variabilidade dentro da propriedade e apoiar estratégias de aplicação em taxa variável, sempre a partir de critérios agronômicos e de análises que indiquem a necessidade de cada área. Mas essa inteligência também pode ultrapassar os limites da fazenda. Ao cruzar localização da propriedade, origem do fertilizante, disponibilidade regional, distância, modal de transporte e frete, é possível estimar o custo efetivo do insumo entregue no destino, e não apenas observar o preço anunciado na origem. Essa diferença é relevante.

A mesma lógica pode ser aplicada à gestão financeira e de risco. Informações territoriais e produtivas podem contribuir para que instituições financeiras e seguradoras avaliem melhor a exposição de uma operação agrícola, considerando características específicas da propriedade e de sua região.

A próxima fronteira da eficiência está na informação

A discussão sobre fertilizantes costuma terminar quando se fala em produção nacional. Precisamos ampliar essa visão. Reduzir a dependência externa é fundamental. Melhorar a eficiência dos portos também. Mas existe uma terceira frente, dentro da propriedade: fazer cada tonelada de fertilizante gerar o máximo possível de retorno agronômico e econômico. Isso exige planejamento, conhecimento do solo, manejo adequado e capacidade de interpretar a variabilidade da produção.

Também exige uma mudança de perspectiva. O dado não deve ser encarado como mais uma camada de tecnologia sobre a agricultura, mas como uma ferramenta capaz de conectar decisões que muitas vezes ainda são tomadas de forma isolada.

O Brasil precisa continuar investindo na produção nacional de fertilizantes e na infraestrutura logística. Mas não se pode esperar que essas soluções, sozinhas, eliminem o risco. Enquanto novas fábricas são construídas e a infraestrutura é ampliada, existe uma medida que pode começar imediatamente: reduzir desperdícios, melhorar a tomada de decisão e aumentar a eficiência do insumo que já está chegando ao campo.

Do porto ao talhão, a segurança dos fertilizantes não depende apenas de quanto o Brasil consegue importar ou produzir. Depende também de quanto consegue transformar cada tonelada em produtividade, margem e segurança para quem produz.

Nessa equação, informação de qualidade deixou de ser diferencial. É infraestrutura para a agricultura.

*Fundador e CEO da Agrotools.

Alta temporada pressiona fretes com demanda acima da capacidade na América Latina

Os mais recentes relatórios Ocean Freight Market Update e Air Freight State of the Industry da DHL Global Forwarding mostram que o mercado de cargas na América Latina enfrenta uma alta temporada precoce devido ao crescimento mais rápido que a capacidade logística disponível. O aumento das tarifas marítimas e as restrições de espaço nos navios, somados às contínuas disrupções nas cadeias de suprimentos globais têm redefinido as condições do transporte em toda a região, enquanto a carga aérea segue desempenhando um papel fundamental para envios de alto valor agregado e de temperatura controlada.

“A América Latina atravessa um dos cenários mais dinâmicos dos últimos anos para o transporte internacional de cargas, com uma demanda que cresce em ritmo superior à capacidade disponível”, afirma Erik Meade, CEO da DHL Global Forwarding para a América Latina.

Rotas entre Ásia e América Latina são as mais pressionadas, devido à taxa de ocupação das embarcações próxima de 98%, o que reduz a flexibilidade operacional das companhias marítimas. Paralelamente, o Índice de Frete de Contêineres de Xangai (Shanghai Containerized Freight Index – SCFI) está 84% acima do registrado no mesmo período do ano passado, enquanto as tarifas para a Costa Oeste da América Latina acumulam alta de 126%, desempenho superior ao observado na média das demais rotas globais. A oferta enfrenta, ainda, restrições relacionadas aos congestionamentos portuários, à falta de equipe qualificada em Xangai e Ningbo e a uma gestão mais disciplinada da capacidade pelas armadoras.

Foto: Drinu Cutajar / Pexels.com

No transporte aéreo, por sua vez, a demanda entre Ásia e América Latina segue aquecida, com crescimento de 20% nos volumes transportados em relação a maio de 2025 e com um aumento de 27% na média tarifária. A estabilidade na capacidade de transporte acentua os gargalos nas rotas provenientes da América do Norte e da Europa, especialmente com destino a São Paulo, Santiago e Buenos Aires.

Na contrapartida, a expansão da oferta de serviços de carga aérea amplia a conectividade entre a América Latina e a Europa. Para Meade, o movimento fortalece a resiliência da da cadeia logística regional. “Resiliência, hoje, significa ampliar as alternativas disponíveis. Empresas que diversificam suas fontes de suprimento, adotam estratégias logísticas mais flexíveis e antecipam o planejamento de suas operações estão mais bem posicionadas para manter seus níveis de serviço diante da volatilidade do mercado”, afirma.

Na avaliação da DHL Global Forwarding, o mercado de carga na América Latina atravessa um dos períodos de maior restrição de capacidade dos últimos anos. À medida que a demanda supera o espaço disponível e se mantém a tendência de alta tarifária, o planejamento antecipado e as estratégias logísticas diversificadas serão cada vez mais importantes para fortalecer a resiliência das cadeias de suprimentos.

Portos, hidrovias e leilões marcam 2025 como ano de avanço logístico para o agronegócio brasileiro

O ano de 2025 consolidou um ciclo de investimentos e expansão na infraestrutura logística brasileira, com reflexos diretos no agronegócio. O balanço divulgado pelo Ministério de Portos e Aeroportos mostra que os portos brasileiros registraram crescimento na movimentação de cargas e ampliaram sua capacidade operacional, ao mesmo tempo em que o governo promoveu uma série de leilões e aportes em hidrovias — elementos cruciais para reduzir custos de transporte e aumentar a competitividade das exportações agrícolas.

Entre janeiro e outubro de 2025, os portos públicos e privados do país movimentaram cerca de 1,16 bilhão de toneladas de cargas, volume superior ao registrado no mesmo período de 2024. Esse desempenho reafirma o papel estratégico dos portos no escoamento da produção nacional, especialmente de produtos agrícolas como soja e minério de ferro, que respondem por uma fatia significativa das exportações embarcadas.

Paralelamente ao aumento da movimentação, o Ministério de Portos e Aeroportos realizou 21 leilões ao longo do ano, atraindo cerca de R$ 11 bilhões em novos investimentos em empreendimentos portuários e aeroportuários. Entre os projetos adjudicados estão concessões de terminais de contêineres e melhorias em canais de acesso, previstos para ampliar a capacidade e eficiência das operações logísticas. A agenda para 2026 inclui um pacote ainda mais amplo de certames, com previsão de 40 leilões, incluindo portos, aeroportos e a primeira concessão de hidrovia do país.

Foto: Albin Berlin / Pexels.com

No segmento das hidrovias, o avanço também foi significativo. Em 2025, mais de R$ 529 milhões foram investidos na infraestrutura hidroviária, com recursos destinados à dragagem, modernização de eclusas e ampliação das instalações portuárias de pequeno porte. Esse conjunto de ações tem como objetivo melhorar a navegabilidade e integrar mais profundamente o transporte aquaviário à matriz logística nacional — uma alternativa de menor custo para o transporte de grãos e insumos agrícolas ao longo de grandes bacias hidrográficas.

Diferentemente do transporte rodoviário, as hidrovias podem oferecer custos menores por tonelada transportada, o que, em mercados de alta volatilidade de fretes, representa uma vantagem competitiva para os produtos agrícolas brasileiros destinados ao mercado externo. Embora as concessões hidroviárias ainda estejam em fase de organização e cronograma, os estudos técnicos e consultas públicas conduzidos ao longo de 2025 marcam um passo importante para sua implementação futura.

Para o agronegócio, setor que depende fortemente da eficiência logística para manter sua presença em mercados globais, os resultados do balanço de 2025 sinalizam um cenário de maior capacidade de escoamento e menor vulnerabilidade aos gargalos estruturais. A combinação de crescimento da movimentação portuária, novos investimentos e foco na integração intermodal sugere avanços concretos na redução de custos logísticos, aspecto fundamental para ampliar a competitividade dos produtos brasileiros nos principais mercados compradores.

Reconfiguração das cadeias de suprimento globais coloca Brasil em posição estratégica, aponta relatório da ABIN

por Jayme Vasconcellos*

A edição 2026 de Desafios de Inteligência, publicação da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), destaca que a reconfiguração das cadeias de suprimento globais tornou-se um dos temas mais decisivos para a segurança econômica do Brasil. O documento aponta fatores que transformaram profundamente a logística mundial — como a ascensão da China, a pandemia de Covid-19, o reposicionamento estratégico dos Estados Unidos e o uso crescente de instrumentos de “guerra econômica” entre grandes potências. Nesse cenário, o País enfrenta um “equilíbrio difícil”: precisa manter relações pragmáticas com todos os polos de poder enquanto protege setores críticos e amplia sua competitividade.

O movimento de ruptura das cadeias globais ganhou força após a pandemia, quando empresas e governos passaram a priorizar resiliência, diversificação e previsibilidade. A diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala, tem reiterado que “a diversificação da produção e o fortalecimento das cadeias regionais são essenciais para reduzir vulnerabilidades e evitar choques futuros”. Já a secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, afirmou – ainda em 2022 – que a estratégia norte-americana de friendshoring busca “construir redes de fornecimento entre países que compartilham valores e padrões confiáveis”. Ambas as avaliações ajudam a contextualizar por que o Brasil se encontra em um ponto privilegiado — mas também desafiador — da nova geopolítica econômica.

Foto: Albin Berlin / Pexels.com

Para o Brasil, essa reconfiguração global abre oportunidades em áreas como agronegócio, energia, minerais estratégicos e manufaturas intensivas em recursos naturais. No entanto, o relatório da ABIN destaca que aproveitá-las depende de avanços internos: redução do custo logístico, ampliação da infraestrutura, segurança regulatória e vigilância constante sobre potenciais pressões externas, especialmente em cadeias de suprimentos sensíveis como semicondutores, fertilizantes, tecnologia e produtos farmacêuticos. O País também precisa reforçar capacidades de inteligência para monitorar riscos de coerção econômica e antecipar movimentos de potências rivais.

Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil

Especialistas em geoeconomia reforçam que o Brasil pode se beneficiar se adotar uma postura assertiva. A economista e pesquisadora Dani Rodrik, de Harvard, observa que as próximas décadas serão marcadas por “uma geopolítica das cadeias de valor”, na qual países com recursos naturais, energia limpa e estabilidade institucional terão vantagem. Já o analista de comércio internacional Kevin Gallagher, da Universidade de Boston, destaca que economias emergentes bem-posicionadas “podem se tornar fornecedores chave para novas cadeias regionais, desde que combinem política industrial inteligente e integração estratégica”.

O relatório da ABIN conclui que a inteligência estatal terá papel decisivo na construção de um posicionamento internacional coerente, ajudando o Brasil a navegar entre EUA, China e demais polos econômicos sem comprometer autonomia ou dependência excessiva. Se bem conduzido, esse processo pode transformar o atual “equilíbrio difícil” em uma vantagem estratégica duradoura, ampliando a inserção global do país e fortalecendo sua segurança econômica.

*Jornalista, radialista e técnico em Agronegócio. Especialista em Liderança e Desenvolvimento de Equipes, é editor-chefe do Agricultura e Negócios e autor de livros sobre liderança e criatividade.

Portos em 2026: tendências e impacto na movimentação de cargas

por Rafael Simon*

O setor portuário brasileiro deve continuar a expandir em 2026, com reflexos diretos sobre as operações de elevação, amarração e movimentação de cargas. O crescimento do volume operado nos portos tende a ampliar a demanda por equipamentos e estruturas capazes de suportar cargas mais pesadas, maiores ciclos de trabalho e exigências técnicas cada vez mais rígidas.

A perspectiva para o próximo ano se fundamenta nos resultados excepcionais que o setor apresenta ao longo de 2025. Entre janeiro e setembro, os portos nacionais movimentaram 1,04 bilhão de toneladas, um aumento de 3,25% em relação ao mesmo período de 2024. Apenas em setembro, foram 120,4 milhões de toneladas, recorde para o mês e 4,84% acima de setembro do ano passado, fechando o terceiro trimestre com 378,2 milhões de toneladas em uma alta de 6% na comparação com 2024.

Os dados do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) e da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) revelam ainda que todo este avanço foi puxado principalmente pelas cargas conteinerizadas, cujo fluxo cresceu 6,5% no trimestre, refletindo o aquecimento do comércio exterior. É interessante notar que este desempenho parece ir na contramão do fato que mais ocupou as manchetes relacionadas ao setor nos últimos meses: as tarifas impostas pelos EUA. O que acontece, porém, é que, após o tarifaço, as exportações brasileiras redirecionaram-se para outros mercados.

Em agosto, tivemos saltos de vendas para parceiros como Índia (+348%), México (+97%), Argentina (+50%) e China (+12%), enquanto o volume exportado para os EUA recuou 17%. Esses números ilustram a capacidade de adaptação do Brasil, diversificando destinos e aproveitando oportunidades globais mesmo diante de barreiras comerciais.

Os resultados positivos impactam também o segmento de amarração, elevação e movimentação de cargas. Uma área formada por profissionais e equipamentos essenciais para operacionalizar a atividade portuária, não só em termos de eficiência, mas também em aspectos de segurança, já que estamos falando de operações complexas e de elevado risco. Por isso, é importante estar atento ao desenvolvimento desse setor e às tendências para 2026.

Foto: Nehemias Gomez Fotografia / Pexels.com

Perspectivas de investimentos e inovação no horizonte

O crescimento recente no setor de portos lançou bases sólidas para novos projetos, e há uma convergência de esforços público-privados para modernizar e expandir a capacidade portuária do país.

Segundo o governo federal, o Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) prevê, até 2026, mais de R$ 47 bilhões em investimentos no setor, sendo R$ 4,7 bilhões em recursos públicos e R$ 42,5 bilhões oriundos da iniciativa privada. É a primeira vez que o programa projeta investimento privado superior ao público, um sinal de que há apetite dos investidores em aproveitar as oportunidades de infraestrutura.

Um dos vetores mais importantes para o próximo ano é o programa de concessões e arrendamentos portuários. Desde o início deste ano, o MPor trabalha com uma das maiores carteiras de licitações da história e em 2026 estão previstos pelo menos mais 21 projetos, incluindo 17 novos arrendamentos de terminais em portos públicos e 4 concessões de canais de acesso. Isso totaliza, entre 2025 e 2026, mais de 40 leilões de ativos portuários, com expectativa de atrair cerca de R$ 20 bilhões em investimentos privados para ampliações e modernizações.

Entre os projetos de destaque no pipeline está o novo terminal de contêineres de Santos, o Tecon Santos 10, cujo edital está em preparação. Esse empreendimento, considerado um dos maiores da América Latina no segmento, é visto como essencial para atender à demanda futura de movimentação e armazenagem de contêineres no país.

Estima-se que o Tecon Santos 10 atraia R$ 5,6 bilhões em investimentos privados ao longo de 25 anos, elevando a capacidade anual do complexo santista de 6 milhões para 9 milhões de TEUs (contêineres de 20 pés, unidade padrão de capacidade portuária), gerando demanda por um grande volume de novos guindastes e equipamentos de movimentação de carga.

Iniciativas inovadoras também despontam, como a concessão do canal de acesso aquaviário dos portos do Paraná (Paranaguá e Antonina) à gestão privada em um modelo inédito que visa agilizar obras de dragagem e manutenção dos canais. No campo dos terminais de uso privado, há projetos de grande porte como o novo porto da mineradora Bamin em Ilhéus (BA), voltado à exportação de minério de ferro, que figura entre os maiores investimentos privados em andamento.

No campo tecnológico e operacional, 2026 deve aprofundar tendências de inovação que já despontam nos portos brasileiros. A necessidade de ganhar eficiência para lidar com volumes crescentes torna inevitável a adoção mais ampla de automação e digitalização nas atividades portuárias. Muitos terminais já investem em sistemas operacionais integrados, IoT e análise de dados para otimizar o fluxo de cargas.  

A partir de 2026, deve aumentar o uso de guindastes automatizados ou semiautônomos, sistemas de gate inteligentes, uso de inteligência artificial no controle de tráfego de contêineres e plataformas digitais de monitoramento em tempo real das operações.

Crescimento impulsiona demanda por equipamentos de elevação e movimentação

Para o segmento da amarração, elevação e movimentação de cargas, esse panorama traz grandes oportunidades de crescimento e inovação, ao mesmo tempo em que exige compromisso contínuo com a qualidade, segurança e eficiência. A infraestrutura portuária está sendo colocada à prova para atender volumes maiores, o que exige equipamentos robustos, confiáveis e eficientes de içamento, como guindastes de cais, pontes rolantes, transtêineres, empilhadeiras de grande porte, entre outros.  

Nesse cenário, cresce a necessidade de cabos de aço de alta resistência, cintas tubulares e sling, lingas de 4 pernas do tipo aprovado e cabos navais. Estes e outros dispositivos para movimentação, elevação e amarração de cargas são fundamentais para garantir a segurança e a produtividade. Empresas especializadas que atuam no fornecimento de soluções para elevação e movimentação de cargas devem ter um relacionamento estratégico com os operadores em terminais e disponibilizar produtos certificados aliados a suporte técnico de alta qualidade.

As demandas atuais e futuras seguem desafiadoras. E com navios maiores e cargas mais pesadas circulando, qualquer falha em um cabo, cinta ou dispositivo de içamento pode significar desde atrasos logísticos até riscos à integridade das pessoas e mercadorias. Investir em manutenção preventiva, inspeções frequentes e na capacitação de pessoal para manuseio correto desses equipamentos também deve ser uma prioridade para operadores portuários preocupados em acompanhar o ritmo de crescimento sem comprometer a segurança.

Mercado aquecido para equipamentos de movimentação

Do ponto de vista de mercado, vive-se um momento bastante aquecido para os fornecedores de equipamentos de movimentação portuária. Após anos de incertezas, uma série de medidas governamentais e setoriais tem destravado investimentos nesse segmento.

A prorrogação do regime tributário Reporto (incentivo fiscal para aquisição de equipamentos) até o final de 2028, por exemplo, deu segurança jurídica e estímulo para terminais tirarem projetos do papel. Segundo a Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), diversos terminais anunciaram a aquisição de equipamentos graças à volta do Reporto, destravando investimentos na ampliação ou renovação de frota de guindastes e componentes de movimentação.

A entidade destaca que os projetos em andamento visam atender à demanda crescente, especialmente no segmento de contêineres. Entre os exemplos recentes estão as expansões de terminais em Santos (SP), que estão aumentando a capacidade e adquirindo novos portêineres, a ampliação da Portonave, em Navegantes (SC), com aquisição de gruas adicionais, e a retomada do terminal de Itajaí (SC) sob nova administração, que também envolve a compra de equipamentos modernos.

Diante desse cenário, 2026 tende a consolidar uma nova fase para os portos brasileiros, mais moderna, exigente e orientada à eficiência operacional. Para quem atua na cadeia de movimentação de cargas, o momento exige preparo técnico, capacidade de adaptação e atenção redobrada às tendências tecnológicas, regulatórias e logísticas que estão moldando o setor. Estar pronto para atender esse novo padrão de operação é não apenas uma vantagem competitiva, mas uma condição indispensável para seguir relevante em um mercado que avança em escala, complexidade e responsabilidade.

*diretor executivo da Acro Cabos de Aço.

TranspoSul: inteligência artificial, inovação e sustentabilidade marcam o início do congresso

A programação de palestras da 24ª TranspoSul em seu primeiro dia, foi marcada por uma jornada intensa de reflexões e aprendizados. A Inteligência Artificial, pilar central da edição deste ano, esteve no centro das discussões. Aliada à inovação, liderança e ESG, a tecnologia mostrou como está moldando o futuro do transporte e da logística, conectando eficiência, competitividade e novos modelos de negócios. O público acompanhou lideranças políticas, especialistas em tecnologia, influenciadores digitais e executivos que trouxeram visões práticas e estratégicas para o futuro do transporte e da logística.

O prefeito de Bento Gonçalves, Diogo Segabinazzi Siqueira, destacou na 24ª TranspoSul o emprego como a verdadeira política de inclusão social, ressaltando experiências que unem setor produtivo, comunidade e políticas públicas. “Trouxemos para este encontro a experiência de Bento Gonçalves, onde implementamos iniciativas que reduzem a dependência de programas sociais ao inserir mais pessoas no mercado de trabalho. Esse movimento fortalece a economia local e comprova a capacidade da comunidade de agir de forma proativa”, disse o gestor.

A palestra reforçou a importância da geração de renda como motor de transformação social e inspiração para outros municípios gaúchos.

O economista e especialista em vendas complexas Alexandre Weimer destacou como a inteligência artificial pode transformar o transporte e impulsionar resultados no setor. Em sua palestra, ressaltou a necessidade de adaptação contínua e de abandonar crenças limitantes para que as empresas consigam crescer em meio às mudanças aceleradas. “Em toda revolução, o primeiro passo é abandonar as crenças limitantes. Em tempos de mudança, acreditar é essencial: mesmo que o risco exista, é melhor se reinventar do que quebrar sem tentar. A inteligência artificial muda as regras — quem não se adapta corre o risco de perder clientes para quem usa tecnologia de forma estratégica”, afirmou.

Influenciadores

O Painel de Influenciadores do evento mostrou como a comunicação digital vem transformando a imagem do transporte e aproximando o setor da sociedade. Os palestrantes destacaram a força das redes sociais para atrair talentos, inspirar mudanças e gerar engajamento. “Primeiro, cuide da sua saúde mental. É fundamental alcançar um nível de autoconhecimento em que nem elogios nem críticas abalem quem você realmente é, reconhecendo sua personalidade e entendendo plenamente quem você nasceu para ser”, afirmou Paulla Demeneghi.

O especialista em desenvolvimento humano e organizacional Daniel Keller destacou a importância de uma liderança capaz de equilibrar o presente das operações com a construção do futuro, e provocou reflexões sobre gestão de pessoas, inovação e estratégias de longo prazo no setor de transporte. “É preciso coragem para implementar mudanças, pensar no crescimento, diversificar e expandir. A ambidestria nos lembra que devemos cuidar da operação atual enquanto construímos a futura, que muitas vezes ainda nem existe”, ressaltou.

A apresentação reforçou a gestão estratégica como um dos pilares da feira, mostrando que investir em liderança e pessoas é essencial para garantir competitividade em um cenário de constantes transformações.

ESG

Lucilene Carvalho, gerente de Sustentabilidade/ESG da Iveco Group, falou sobre como a sustentabilidade deixou de ser apenas um conceito para se tornar eixo estratégico nos negócios do setor automotivo. Com experiência em inovação, economia circular e descarbonização, apresentou práticas que conectam ESG ao core business da companhia. “Hoje, falar sobre ESG é falar de inovação, resultado financeiro, sustentabilidade, colaboração, valor compartilhado e impacto positivo. No setor automotivo isso é ainda mais relevante, já que mais de 60% das cargas no Brasil dependem do transporte rodoviário”, reforçou.

Foto: Divulgação / Transposul