Dependência de fertilizantes expõe risco estratégico e acelera corrida por produção nacional

O Brasil figura entre os maiores consumidores de fertilizantes do mundo, mas essa posição estratégica vem acompanhada de uma fragilidade histórica que é a dependência externa. Atualmente, cerca de 85% do insumo utilizado no país é importado, segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Essa vulnerabilidade ficou evidente após choques geopolíticos recentes, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, que provocaram alta nos preços e expuseram riscos à segurança alimentar.

“Embora as questões envolvendo a Venezuela não tragam grandes impactos ao setor, o ano é de cautela. Ampliar a produção interna para garantir competitividade e estabilidade é de suma importância, ainda mais diante do acordo Mercosul-União Europeia”, afirma o economista Adenauer Rockenmeyer, delegado do Corecon-SP.

Hoje, a maior parte dos fertilizantes que chegam ao Brasil vem de países como Rússia, Canadá, China e Marrocos. Essa concentração cria vulnerabilidades não apenas econômicas, mas também estratégicas. Para enfrentar esse cenário, o governo estabeleceu uma meta ambiciosa: reduzir a dependência para 70% até 2030, conforme previsto no Plano Nacional de Fertilizantes. Para isso, estão programados investimentos de R$ 16 bilhões em novas plantas industriais e tecnologias até 2028.

A adoção de soluções inovadoras é decisiva para mudar o jogo. Instrumentação analítica, automação e digitalização surgem como ferramentas estratégicas capazes de garantir qualidade e eficiência na produção nacional, permitir o uso de matérias-primas locais com processos otimizados e reduzir custos para competir com o mercado internacional.

De acordo com Rafael Soares, da Pensalab, a instrumentação analítica assegura a  confiabilidade do produto e a otimização do processo produtivo. “Com monitoramento da qualidade em tempo real, é possível controlar a composição dos fertilizantes, garantindo que atendam aos padrões de qualidade adequados e cumpram as exigências de sustentabilidade, de acordo com as normas do Ibama, Conama e Mapa, evitando perdas e assegurando padrões internacionais”, explica. Já a automação oferece ganhos de escala e economia ao reduzir desperdícios, diminuir o consumo de insumos, aumentar a produtividade e viabilizar plantas mais eficientes.

Outro ponto crucial é a inovação voltada para fertilizantes verdes, afirma Roberto Gonzalez, especialista em ESG. “Tecnologias sustentáveis não apenas atendem às exigências ambientais, mas também abrem portas para novos mercados, alinhando a produção à agenda ESG”, destaca. Por fim, a integração digital da cadeia de suprimentos completa essa transformação. Plataformas inteligentes permitem rastreabilidade e logística otimizada, reduzindo gargalos e fortalecendo a competitividade nacional.

O caminho para reduzir a dependência externa é complexo, mas viável, segundo os especialistas. Com investimentos robustos e tecnologia de ponta, o Brasil pode transformar vulnerabilidade em oportunidade, garantindo segurança alimentar e consolidando sua posição como potência agrícola global.

Foto: Maarten van den Heuvel / Pexels.com

Importações de fertilizantes batem recorde em 2025 com avanço de produtos de menor concentração

As importações brasileiras de fertilizantes (amônia, ureia, SAM, NAM, MAP, DAP, SSP, TSP, NP, enxofre e cloreto de potássio) atingiram um novo recorde em 2025, considerando os principais produtos adquiridos pelo país. De acordo com a StoneX, empresa global de serviços financeiros, foram importadas 44,96 milhões de toneladas, volume 2,9% superior ao registrado em 2024. O desempenho indica que, apesar de um cenário marcado por relações de troca pouco atrativas e preços persistentemente elevados, a demanda nacional se manteve resiliente.

Em um ano de margens apertadas no campo, os compradores brasileiros adotaram estratégias para reduzir os custos de produção. Uma delas foi a priorização de fertilizantes de menor concentração de nutrientes, como o sulfato de amônio (SAM) e o superfosfato simples (SSP), em detrimento de produtos mais concentrados, como a ureia e o fosfato monoamônico (MAP).

Os dados mostram que, em 2025, as importações de ureia recuaram 7% em relação ao ano anterior. Em sentido oposto, as aquisições de SAM cresceram quase 28%. No segmento de fosfatados, as compras de MAP caíram aproximadamente 25,7%, enquanto as importações de SSP e de NP, alternativas com menor teor de fosfato, avançaram 22% e 31,7%, respectivamente.

Segundo o analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Tomás Pernías, a preferência por fertilizantes de menor concentração implica a necessidade de aplicação de maiores volumes no solo para garantir o suprimento adequado de nutrientes. “Ao optar por esses produtos, o agricultor precisa adquirir mais toneladas para atingir o mesmo nível de adubação, o que ajuda a explicar o aumento do volume total importado”, afirma.

Esse movimento ampliou a participação de SAM, SSP e NP no mercado brasileiro ao longo de 2025. A principal dúvida para 2026 é se esses produtos seguirão como prioridade nas decisões de compra dos importadores.

De acordo com Pernías, a escolha dos fertilizantes envolve uma combinação de fatores, como disponibilidade, preços, relações de troca e custo-benefício, sempre considerando a quantidade efetiva de nutrientes entregue por cada produto. “Não é possível afirmar se os fertilizantes de menor concentração manterão em 2026 a mesma representatividade observada em 2025. Contudo, com a proximidade do período de adubação nos Estados Unidos, rumores de suspensão de exportações chinesas, volatilidade nas negociações indianas e o risco constante de sanções comerciais, o comprador brasileiro tende a seguir atento às oportunidades, buscando reduzir custos e preservar a competitividade”, conclui.

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Rivulis inaugura a maior fábrica de gotejadores do mundo

A multinacional Rivulis, líder global em soluções avançadas de irrigação e clima, inaugurou no norte de Israel, na cidade de Tzipori, a maior e mais avançada fábrica do mundo dedicada à produção de gotejadores e aspersores, componentes essenciais dos sistemas de microirrigação. “Há mais de 80 anos, agricultores de todo o mundo confiam na empresa para obter soluções de irrigação eficazes e confiáveis que os ajudam a cultivar de forma responsável”, disse Eran Ossmy, presidente da companhia.

A nova unidade, com 7.000 metros quadrados, abriga mais de 150 linhas de produção e montagem automatizadas e representa um grande avanço na tecnologia de irrigação e na fabricação sustentável. A unidade integra sistemas avançados, incluindo tecnologias LSR de precisão, para oferecer qualidade excepcional, eficiência energética e resiliência operacional.

Em plena capacidade, produzirá milhões de gotejadores e aspersores por dia, exportados para mais de 120 países na América Latina, África, Europa, América do Norte, Ásia e Austrália. “Esta nova fábrica representa o próximo passo nesse legado, combinando precisão, inovação e sustentabilidade para tornar a microirrigação mais acessível e eficiente. A partir daqui, forneceremos soluções que ajudarão a alimentar um mundo em crescimento, de forma sustentável e responsável”, destaca o executivo.

Foco na agricultura sustentável

Ao expandir sua capacidade de produção, a Rivulis reforça seu compromisso com o avanço da segurança alimentar global e da agricultura sustentável em meio à crescente escassez de água. A nova unidade emprega mais de 200 pessoas das comunidades vizinhas, judaicas e árabes, servindo como um modelo de coexistência e propósito compartilhado.

Além disso, foi construída de acordo com os princípios da indústria verde e da eficiência energética, utilizando materiais reciclados, energia renovável e sistemas inteligentes para gestão de energia e produção. Ela está entre as primeiras instalações de irrigação do mundo a implementar práticas de manufatura circular, reutilizando matérias-primas, reduzindo emissões e buscando o desperdício industrial zero.

Foto: Zvika-Golan / Divulgação

Investimento estratégico

Apoiado pela Temasek, companhia global de investimento de Cingapura, principal acionista da Rivulis, este investimento reflete um compromisso de longo prazo com a expansão de tecnologias que ajudam agricultores em todo o mundo a cultivar mais alimentos de forma sustentável, protegendo o recurso mais vital do planeta: a água.

Com a unidade de Tzipori agora em operação, a empresa fortalece sua posição como um centro global de inovação em irrigação de precisão, capacitando agricultores em todos os lugares a cultivar mais com menos.

Fazenda Conectada Case IH apresenta safra recorde e redução de custo de mais de R$ 1 mi com 4G da TIM

A Fazenda Conectada Case IH apresenta novos resultados após o fechamento da safra 2024/25. Fruto da parceria da Case IH, marca da CNH, com a TIM, líder em cobertura no agronegócio, a fazenda real de mais de 3 mil hectares foi transformada em um laboratório de inovação e produtividade.

Com safra recorde, a produção total foi de 14.054 toneladas, com produtividade média de 75 sacas por hectare. Com isso, ela foi 19% mais produtiva do que a região em que está, 14% maior do que em relação ao estado de Mato Grosso, além de ser 27% mais produtiva do que a média brasileira durante o mesmo período, segundo dados da Conab.

“A Fazenda Conectada é um laboratório vivo de inovação e produtividade. Esse bom desempenho é resultado de um conjunto de fatores como boas práticas de manejo, tomada de decisão orientada pela gestão de dados, capacitação de pessoas e uso de tecnologias de ponta, que vão desde o preparo do solo até a colheita. Isso garantiu menor custo de produção e maior rendimento, fatores essenciais para o produtor rural que tem enfrentado um cenário desafiador nos últimos tempos”, comenta Leandro Conde, diretor de Marketing e Comunicação da Case IH para América Latina.

Além dos resultados agronômicos, o projeto evoluiu para um modelo com práticas de agricultura regenerativa, com integração de tecnologias que restauram o solo, reduzem emissões e aumentam a eficiência operacional.

Para essa última safra, a Fazenda Conectada Case IH recebeu novas tecnologias em todas as etapas do ciclo produtivo, como o XactPlanting, que fornece plantio inteligente com controle individualizado; FieldXplorer, que faz o mapeamento e monitoramento por imagem aérea; e o FarmXtend; estação meteorológica que fornece dados localizados em tempo real.

Para avaliar o impacto dessas novas tecnologias na redução das emissões de carbono, foi realizada uma comparação entre as safras 23/24 e 24/25. O estudo considerou as emissões de carbono associadas ao consumo de combustível e ao uso de agrodefensivos nos talhões mais produtivos onde as soluções foram aplicadas. O resultado foi uma redução de 23,6% de toneladas de CO2e por saca de soja.

Segundo Alexandre Dal Forno, diretor de IoT e 5G da TIM, o resultado reforça o papel estratégico da conectividade no ganho de eficiência e produtividade do campo. “O 4G habilita a transformação digital no agronegócio, permitindo a criação de um ecossistema que potencializa cada etapa do ciclo produtivo. Na Fazenda Conectada, conseguimos novamente demonstrar a importância da conectividade, que além de habilitar a telemetria das máquinas e o monitoramento em tempo real, garante a previsibilidade, sustentabilidade do negócio e eficiência operacional ao produtor. A conectividade não é custo, mas um investimento fundamental para a digitalização do agronegócio brasileiro”.

O estudo é conduzido pela Agricef em parceria com a Unicamp, e tem como foco avaliar os impactos da conectividade e da tecnologia na eficiência operacional, sustentabilidade e viabilidade econômica da produção agrícola.

Evolução do Projeto

Ano após ano, o projeto tem mostrado como a tecnologia e conectividade aplicadas com inteligência transformam a produtividade e a sustentabilidade no campo, além de potencializar a integração de pessoas e reduzir custos operacionais.

Ao comparar os dados da última safra com a de 22/23, já com conectividade, a Fazenda Conectada Case IH vem apresentando uma construção contínua de gestão integrada de dados com impacto direto na eficiência das operações e no rendimento.

A safra 24/25 produziu 1.138 toneladas a mais do que a safra 22/23 e foi 10% mais produtiva do que a de 22/23, tendo avançado de 68 sacas/ha para 75 sacas/ha.

Entre os ganhos em diferentes etapas do ciclo produtivo está o redimensionamento da frota, com redução de um trator e uma plantadeira entregando mais resultado e reduzindo custos com combustível e manutenção. Na colheita, houve o aumento de 25% na média de área colhida por dia, reduzindo em 8 dias a janela de colheita, importante considerando que o período está cada vez mais curto.

Foto: Divulgação / Case IH

Isso tudo garantiu uma economia de 32% no consumo de combustível graças ao acompanhamento em tempo real de toda a frota que, entre diversos benefícios, proporcionou redução do tempo de motor ocioso e melhor uso do maquinário.  

A gestão integrada também impactou positivamente nas despesas gerais. Houve redução de 7% no custo por hectare, uma economia total de mais de R$ 1 mi, em relação ao início do projeto, com impacto significativo em redução de insumos com uso de tecnologia e tomada de decisão baseada em dados gerados em tempo real.

“A safra 22/23 foi a primeira que apresentamos o impacto da conectividade no campo e esses novos dados de crescimento mostram a evolução na rotina da fazenda, principalmente no monitoramento diário de indicadores conectados à operação e na gestão de equipe, com capacitação e desenvolvimento de plano de carreira alinhado aos resultados”, explica Conde.

Sobre a Fazenda Conectada Case IH

Lançada em 2021, a Fazenda Conectada recebeu o projeto 4G TIM no Campo, que permitiu reunir todas as soluções avançadas da Case IH e transformar a fazenda em um verdadeiro laboratório de Agricultura Digital. O objetivo é demonstrar como a conectividade pode aumentar a produtividade no campo, mesmo em uma região que já apresenta alto rendimento safra após safra.

As duas antenas instaladas para o projeto facilitaram o dia a dia de mais de 25 mil habitantes de Água Boa, com sinal de internet para mais de 27 escolas e universidades, além de 10 hospitais e unidades de saúde que não possuíam acesso à rede 4G, mostrando que levar conectividade ao campo também promove benefícios para toda a sociedade do entorno.

Para os próximos ciclos, estão previstos a implantação de novas tecnologias, como o drones de aplicação, a tecnologia de pulverização seletiva SaveFarm, e outras soluções que reforçam o posicionamento da Case IH como líder em inovação no agronegócio.

Estudo mostra como reduzir a pegada de carbono na produção de trigo

Um estudo realizado pela Embrapa revelou que o trigo produzido no Brasil tem uma pegada de carbono menor que a média mundial e indicou caminhos concretos para reduzir ainda mais as emissões de gases de efeito estufa. A análise, feita em lavouras e indústria moageira do Sudeste do Paraná, apontou que a adoção de práticas sustentáveis e tecnologias já disponíveis pode diminuir em até 38% o impacto ambiental da produção de trigo no País.

Publicada no periódico científico Journal of Cleaner Production, a pesquisa é a primeira na América do Sul a estimar a pegada de carbono do trigo desde o cultivo até a produção de farinha. Também foi o primeiro estudo do tipo nessa cultura em ambiente subtropical. O índice médio brasileiro ficou em 0,50 kg de dióxido de carbono equivalente (CO₂eq) por quilo de trigo produzido — abaixo da média global, estimada em 0,59 kg.

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores avaliaram 61 propriedades rurais na safra 2023/2024, além de acompanhar todo o processo industrial em uma moageira paranaense. O levantamento detalhou desde o uso de fertilizantes e defensivos agrícolas até o transporte dos grãos, secagem, moagem e transformação dos grãos em farinha.

Fertilizantes nitrogenados são principais emissores de CO2

A pesquisa apontou os fertilizantes como o principal fator de pegada de carbono na triticultura. O maior impacto está na emissão de óxido nitroso (N₂O) gerado durante a aplicação de ureia, fertilizante capaz de emitir 40% dos gases de efeito estufa envolvidos na produção de trigo. A ureia é o principal fertilizante utilizado no trigo devido ao menor custo por unidade de nutriente dentre os adubos nitrogenados disponíveis no mercado. Segundo a pesquisa, a substituição desse fertilizante pelo nitrato de amônio com calcário (CAN) pode reduzir a emissão de carbono em 4%, minimizando significativamente os impactos ambientais.

A acidificação do solo, uma das categorias com maior impacto ambiental, também pode ser mitigada pela substituição da ureia pelo CAN. “Quando a ureia não é totalmente absorvida pelas plantas ou é lixiviada como nitrato, ocorrem reações que liberam íons de hidrônio, aumentando a acidez do solo. Em contrapartida, fertilizantes à base de CAN ajudam a neutralizar esse efeito devido ao seu conteúdo de cálcio”, explica a pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente (SP) Marília Folegatti. Segundo ela, outras tecnologias também devem ser consideradas para reduzir a dependência de fertilizantes sintéticos e minimizar impactos ambientais, como biofertilizantes, biopesticidas, fertilizantes de liberação lenta e nanofertilizantes. Ela lembra que a pesquisa avança na produção de ureia verde e nitrato de amônio a partir de fontes de energia renováveis.

Foto: Luiz Magnante

A pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical (CE) Maria Cléa Brito de Figueiredo lembra que o uso de fertilizantes nitrogenados é também o maior emissor de gases de efeito estufa em outras culturas com pegada de carbono e hídrica analisadas pela Embrapa, como as fruteiras tropicais, em especial, manga, melão e coco verde. “Além disso, a produção de fertilizantes sintéticos gera metais pesados que contribuem para a contaminação do solo, podendo afetar a qualidade dos alimentos, a saúde humana e os ecossistemas”, alerta a cientista.

A pesquisa também aponta que a adoção de cultivares de trigo mais produtivas pode reduzir os impactos ambientais no campo, já que ação promove maior rendimento com menos recursos, como terra e água. O estudo ressalta ainda a importância de considerar outros fatores ambientais, como biodiversidade e saúde do solo. Futuros estudos que integrem esses aspectos poderão oferecer uma visão mais abrangente sobre a sustentabilidade da produção de trigo em regiões tropicais e subtropicais.

Projeto “Florestas e Comunidades: Amazônia Viva” busca fortalecer sociobiodiversidade e agricultura familiar

O Governo Federal, por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e dos Ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima, do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, lançou o projeto “Florestas e Comunidades: Amazônia Viva”.

Foto: Tom Fisk / Pexels.com

A iniciativa, que contará com investimento de R$ 96,6 milhões e será financiada com recursos do Fundo Amazônia, vai apoiar o fortalecimento de sistemas socioprodutivos e a ampliação do acesso a mercados de alimentos e produtos da sociobiodiversidade e da agricultura familiar de base sustentável na Amazônia, com ênfase em suprir gargalos de logística, beneficiamento, armazenamento e adequação sanitária e o fortalecimento do PAA e do Sociobio Mais.

Com recursos do Fundo Amazônia, o programa vai financiar a aquisição de equipamentos e infraestrutura para impulsionar a comercialização de produtos da floresta em mercados consumidores. Entre as ações possíveis estão a compra de lanchas, a instalação de silos secadores e outras estruturas voltadas ao escoamento e beneficiamento de produtos como pirarucu, borracha, cacau, cupuaçu, entre outras riquezas da região.

Com foco direto na geração de renda, valorização cultural e manutenção da floresta em pé, o projeto beneficia agricultores familiares, incluindo povos indígenas, quilombolas e extrativistas, impulsionando cadeias produtivas sustentáveis em toda a região amazônica.

COP30: Pacote de Belém inclui 29 documentos aprovados na Cúpula do Clima

com informações da Agência Brasil

Depois de 13 dias de negociação, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) terminou, em Belém, com alguns avanços e discussões que prosseguirão pelos próximos meses. Foram aprovados 29 documentos, de forma unânime, pelos 195 países que participaram do encontro na capital paraense. Esse conjunto de textos ficou conhecido como Pacote de Belém, e está publicado no site da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, da sigla em inglês), âmbito sob o qual se realizam as edições da COP.

De acordo com a presidência brasileira da conferência, as 29 decisões incluem avanços em temas como transição justa, financiamento da adaptação, comércio, gênero e tecnologia. Entre as maiores conquistas da COP30, está o Fundo Florestas Tropicais para Sempre. Por outro lado, o Mapa do Caminho para afastamento da economia dependente de combustíveis fósseis, uma das prioridades do governo brasileiro, não entrou na lista de consensos.

Veja algumas decisões resultantes da COP30:

Fundo Florestas Tropicais para Sempre – O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, do inglês Tropical Forest Forever Facility) cria uma forma inédita de pagamento para que países mantenham as florestas tropicais em pé. Países que preservam as florestas tropicais serão recompensados financeiramente por meio de um fundo de investimento global. Ao menos 63 países já endossaram ideia. O fundo já mobilizou, segundo a presidência da COP30, US$ 6,7 bilhões.

O dinheiro não é uma doação. A proposta é que os investidores recuperem os recursos investidos, com remuneração compatível com as taxas médias de mercado, ao mesmo tempo em que contribuem para a preservação florestal e a redução de emissões de carbono. A ideia é que as florestas sejam vistas como fonte de desenvolvimento social e econômico.

Financiamento – Os países incluíram no Pacote de Belém o compromisso de triplicar o financiamento da adaptação às mudanças climáticas até 2035 e a ênfase na necessidade de os países desenvolvidos aumentarem o financiamento para nações em desenvolvimento. O documento Mutirão, classificado pela presidência brasileira da COP30 como um “método contínuo de mobilização que começa antes, atravessa e segue além da COP30”, cita a ampliação do financiamento para os países em desenvolvimento para ação climática, de todas as fontes públicas e privadas, para pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035.

122 países com NDC – A COP termina com 122 países tendo apresentado Contribuições Nacionalmente Determinada, conhecidas nas discussões como NDC, sigla em inglês para Nationally Determined Contributions. NDC são as metas e os compromissos assumidos pelas partes para a redução de emissões de gases do efeito estufa. Os países devem apresentar a cada cinco anos uma nova versão de NDC, com as ambições atualizadas em relação ao Acordo Paris. O Acordo de Paris, lançado na COP21, em 2015, reúne ações globais em resposta à ameaça da mudança climática, como a redução das emissões de gases de efeito estufa.

Meta Global de Adaptação – A COP30 recebeu 59 indicadores voluntários para monitorar o progresso sob a Meta Global de Adaptação. São indicadores que envolvem setores como água, alimentação, saúde, ecossistemas, infraestrutura e meios de subsistência. Todos integram questões transversais como finanças, tecnologia e capacitação.

Frustração

Um dos principais pontos de frustração de representantes da sociedade civil, já no rascunho divulgado nesta sexta-feira, foi a ausência do mapa do caminho para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis, como petróleo e carvão mineral, os principais responsáveis pelas emissões dos gases que causam o aquecimento global.

O governo brasileiro insistiu na aprovação de um texto que abordasse alguma proposta de cronograma de implementação dessa transição energética, o que acabou não se concretizando. “Não houve menção a combustíveis fósseis, e muito menos qualquer menção a mapa do caminho, conforme estava previsto e havia aparecido nos rascunhos de decisões anteriores. O processo foi estressante até aqui, mas gerou algumas reações políticas importantíssimas, como a adesão de mais de 80 países à proposta do mapa do caminho e gerou uma proposta da Colômbia de realizar COP paralela para discutir o fim do uso dos combustíveis fósseis”, disse Ciro Brito, analista de políticas climáticas do Instituto Socioambiental.

COP30: bioinsumos colocam agro brasileiro na liderança da transição sustentável

A sustentabilidade como a conhecemos já não é suficiente. A nova fronteira da produção agrícola tem nome e propósito: agricultura sustentável, um modelo que revitaliza o solo, amplia a biodiversidade e aumenta a captura de carbono.

Em destaque nas discussões da COP30, o tema reposiciona o agronegócio como parte da solução, consolidando-se como uma das estratégias mais promissoras para recuperação de agro-ecossistemas, captura de carbono e mitigação das mudanças climáticas.

Atualmente, a agricultura e o uso da terra correspondem a 23% das emissões globais de gases do efeito, aproximadamente. Ao migrar para práticas sustentáveis, lavouras deixam de ser fontes de emissão e tornam-se sumidouros de carbono – “reservatórios” naturais que filtram o dióxido de carbono da atmosfera.

“A agricultura sustentável é, em sua essência, sobre restaurar a vida. E não tem como falar em vida no solo sem falar em controle biológico”, afirma Thiago Castro, gerente de Pesquisa & Desenvolvimento da Koppert Brasil, líder mundial em controle biológico.

Segudo ele, “ao introduzir um inimigo natural para combater uma praga, devolvemos ao ecossistema uma peça que faltava. Isso fortalece a teia biológica, melhora a estrutura do solo, aumenta a disponibilidade de nutrientes e reduz a necessidade de intervenções agressivas. É a própria natureza trabalhando a nosso favor”.

As soluções biológicas para a agricultura incluem produtos à base de micro e macroorganismos e extratos vegetais, sendo biodefensivos (para controle de pragas e doenças), bioativadores (que auxiliam na nutrição e saúde das plantas) e bioestimulantes (que melhoram a disponibilidade de nutrientes no solo).

Brasil: o maior mercado de bioinsumos do mundo

O Brasil é protagonista nesse campo: cerca de 61% dos produtores fazem uso regular de insumos biológicos agrícolas, uma taxa quatro vezes maior que a média global. Para a safra de 2025/26, o setor projeta um crescimento de 13% na adoção dessas tecnologias.

A vespa Trichogramma galloi e o fungo Beauveria bassiana (CEPA ESALQ PL 63) são exemplos de macro e microrganismos amplamente utilizados nas culturas de cana-de-açúcar, soja, milho e algodão, para o controle de lagartas e mosca-branca, respectivamente. Esses agentes atuam nas pragas sem afetar polinizadores e organismos benéficos para o ecossistema.

Os impactos do manejo biológico são mensuráveis: maior porosidade do solo, retenção de água e nutrientes, menor erosão; menor dependência de fertilizantes e inseticidas sintéticos, diminuição na resistência de pragas; equilíbrio ecológico e estabilidade produtiva.

Entre as práticas sustentáveis que já fazem parte da rotina do agro brasileiro estão o uso de inoculantes e fungos benéficos, a rotação de culturas, a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e o manejo biológico de pragas e doenças. Práticas que estimulam a vida no solo e o equilíbrio natural no campo.

“Os produtores que adotam manejo biológico investem em seu maior ativo que é a terra”, ressalta Castro. “O manejo biológico não é uma tendência, é uma necessidade do planeta, e a agricultura pode e deve ser o caminho para a regeneração ambiental, para esse equilíbrio que buscamos e precisamos”, enfatiza.

Foto: Divulgação / Koppert Brasil

A COP 30 e o desafio de liderar a transição para um mundo regenerativo

A realização da COP30, em 2025, na cidade de Belém (PA), deve consolidar o Brasil como um dos principais protagonistas globais na agenda ambiental. Além de discutir metas climáticas e sustentabilidade, o evento marca o avanço do conceito de economia regenerativa, modelo que propõe não apenas mitigar impactos, mas reconstruir ecossistemas e cadeias produtivas com base em equilíbrio ambiental e inclusão social.

De acordo com Claudia Bernardino, advogada, conselheira e associada da Conselheiros TrendsInnovation, o encontro simboliza uma mudança de paradigma na forma como governos e empresas encaram o desenvolvimento sustentável. “O desafio que se impõe agora não é apenas reduzir danos, mas reconstruir sistemas produtivos e sociais capazes de devolver equilíbrio ao meio ambiente”, afirma.

A especialista destaca que a Amazônia, palco da conferência, representa o maior potencial do planeta para impulsionar práticas regenerativas. “O bioma é um laboratório vivo de inovação, capaz de inspirar novos modelos de negócios baseados em ciência, bioeconomia e respeito às comunidades locais”, explica.

No ambiente corporativo, a governança regenerativa começa a ganhar espaço como um novo eixo estratégico. A proposta é que conselhos e lideranças empresariais adotem uma visão de longo prazo, incorporando métricas de impacto positivo e de valor socioambiental à tomada de decisão. “O modelo de compensação ambiental está se esgotando. O futuro pertence às organizações que geram valor regenerativo, integrando biodiversidade, inovação e inclusão social à estratégia de negócios”, observa Claudia.

Segundo ela, essa transição exige lideranças com visão sistêmica e comprometimento com o legado. “Não se trata apenas de atender a regulações ou pressões de investidores, mas de adotar uma nova mentalidade. As empresas que compreenderem o poder das métricas não financeiras e da transparência serão as mais preparadas para o futuro”, complementa.

Com a COP 30, o Brasil deve reforçar seu papel de referência global em sustentabilidade e bioeconomia, especialmente por sediar o evento em uma das regiões mais estratégicas do planeta. “Liderar essa transição significa compreender que investir na floresta é investir no futuro dos negócios”, conclui.

Foto: Tom Fisk / Pexels.com

COP30: tecnologia ganha papel estratégico na luta global contra a crise climática

Venturus, centro de ciência e tecnologia brasileiro, participou do painel “Tecnologias Emergentes para o Clima” durante a COP30, em Belém. O debate reuniu especialistas de instituições internacionais como o Geneva Science and Diplomacy Anticipator, a Université de Sherbrooke e o Open Quantum Institute para discutir os impactos sociais, éticos e ambientais das novas fronteiras tecnológicas.

“Os países que possuem florestas tropicais estão apostando na sua proteção como forma de gerar benefícios. No entanto, é importante entender que quem realmente conseguirá viabilizar essa proteção são as nações com maior poder econômico. Isso mostra que preservar é uma responsabilidade global, que exige ação conjunta. A crise climática não é algo do futuro, ela já está acontecendo, e precisamos agir agora”, destacou Daniel Haro, Head de Tecnologias Emergentes no Venturus.

O painel abordou temas como o uso da inteligência artificial, da computação quântica e das biotecnologias no enfrentamento da crise climática, questionando como esses avanços podem ser aplicados de forma ética e equitativa. Para Haro, o desafio não está apenas em desenvolver tecnologias de ponta, mas em assegurar que elas contribuam de maneira concreta para a sustentabilidade. 

O representante do Venturus também ressaltou o papel do setor tecnológico como agente ativo na construção de soluções integradas. “A nossa ação vai além da preservação. Quando unimos agricultura, tecnologia, transporte, eficiência e políticas públicas mais sustentáveis, damos passos concretos em direção a uma solução real para a crise climática”, completou.