A agricultura pode ajudar a reflorestar? Pesquisadores brasileiros de nanotecnologia mostram que sim

O Brasil assumiu o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, área equivalente a quase três vezes o território do estado do Rio de Janeiro. A dimensão da meta, prevista no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), ajuda a revelar um desafio que vai além de plantar árvores: para que uma área seja efetivamente restaurada, as mudas precisam sobreviver e se desenvolver em ambientes que muitas vezes já perderam parte das condições que sustentavam a vegetação original.

Solos degradados, períodos de baixa disponibilidade de água, temperaturas elevadas e exposição intensa à radiação solar estão entre os fatores que podem dificultar o estabelecimento das plantas após o transplante. É nesse período inicial que uma tecnologia originalmente investigada em diferentes frentes da agricultura começa a ganhar espaço também na restauração ambiental.

Pesquisas desenvolvidas na Amazônia e na Mata Atlântica estão avaliando o uso de nanotecnologia para produzir mudas mais preparadas para enfrentar as condições encontradas depois que deixam o viveiro. Nanoformulações, nanopartículas e pontos quânticos de carbono são estudados por sua capacidade de interferir em processos fisiológicos das plantas, favorecendo características relacionadas à fotossíntese, ao uso da água, ao crescimento e à resposta a estresses ambientais.

A aproximação entre nanoagricultura e restauração florestal também mobiliza pesquisadores ligados ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro). Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), uma das frentes coordenadas pelo professor Halley Caixeta de Oliveira, vice coordenador do INCT NanoAgro, investiga como ferramentas semelhantes às estudadas para tornar plantas agrícolas mais resistentes podem ser empregadas na preparação de espécies nativas destinadas à recuperação da Mata Atlântica.

Da lavoura para a floresta

Na agricultura, diferentes aplicações da nanotecnologia vêm sendo estudadas para melhorar a eficiência no uso de insumos e modular respostas das plantas diante de condições adversas. No reflorestamento, parte dessa lógica pode ganhar uma nova finalidade. Em vez de aumentar a capacidade de uma cultura agrícola atravessar um período de déficit hídrico ou outro estresse, por exemplo, a tecnologia pode ser utilizada para preparar uma muda nativa para o momento crítico em que ela deixa as condições controladas do viveiro e passa a enfrentar o ambiente de uma área em restauração.

O grupo coordenado por Halley investiga nanopartículas capazes de liberar moléculas doadoras de óxido nítrico e pontos quânticos de carbono. Os estudos realizados até agora indicam efeitos sobre processos como fotossíntese, eficiência no uso da água, adaptação ao sol pleno e desenvolvimento inicial das mudas. Essas respostas são particularmente importantes porque uma muda produzida em viveiro encontra condições bastante diferentes depois do plantio. A disponibilidade de água deixa de ser controlada, a incidência de luz pode aumentar significativamente e o sistema radicular precisa se estabelecer em um solo que pode apresentar limitações físicas, químicas e biológicas.

A proposta, portanto, não é utilizar nanotecnologia para substituir as estratégias ecológicas necessárias à restauração de uma área, mas investigar se ela pode aumentar a qualidade fisiológica das mudas que serão levadas ao campo e ajudá-las a atravessar uma das etapas mais vulneráveis do processo de reflorestamento.

Na Amazônia, tecnologia acompanha a muda depois do plantio

A possibilidade de aplicação ganhou novas perspectivas a partir de uma visita de Halley ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), onde conheceu uma iniciativa que utiliza nanotecnologia em espécies amazônicas destinadas ao reflorestamento. No projeto, os pesquisadores avaliam os efeitos de uma nanoformulação sobre o crescimento e a fisiologia das plantas, sua resistência a estresses ambientais e a captura de carbono. Um dos diferenciais é acompanhar a tecnologia para além da produção das mudas.

Os testes incluem plantas inseridas em diferentes sistemas de cultivo, como áreas com uma única espécie, plantios mistos e sistemas agroflorestais. As aplicações também podem continuar depois do transplante, permitindo acompanhar a resposta das árvores durante sua adaptação às condições de campo. Essa passagem do viveiro para a área de restauração é essencial para determinar se benefícios observados durante a produção das mudas permanecem quando fatores ambientais deixam de ser controlados.

Reflorestamento também pode gerar renda

A experiência amazônica acrescenta outra dimensão à discussão: a escolha das espécies pode aproximar recuperação ambiental, captura de carbono e geração de renda para populações locais. A castanheira está entre as espécies estudadas. Além de integrar estratégias de recomposição da vegetação amazônica, a árvore produz um recurso florestal de valor econômico que pode ser explorado sem a necessidade de derrubá-la.

Em sistemas agroflorestais, essa lógica pode ser combinada a espécies que começam a produzir em períodos mais curtos. Culturas como banana e cacau podem integrar os arranjos enquanto as árvores de maior porte se desenvolvem, criando possibilidades de geração de renda durante um processo de restauração que naturalmente ocorre em horizonte de longo prazo. Nesse contexto, aumentar a capacidade das mudas de se estabelecerem no campo interessa não apenas à recuperação ecológica. A sobrevivência e o desenvolvimento das plantas também são condições para que os modelos produtivos associados à floresta consigam se sustentar economicamente.

Testes avançam para condições reais de restauração

Na Mata Atlântica, as pesquisas coordenadas por Halley também começam a ultrapassar as condições de laboratório e viveiro. Além dos experimentos conduzidos nas fazendas escola da UEL e da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), uma nova frente está sendo iniciada em parceria com a RPPN Monte Sinai e o Criadouro Onça Pintada. A etapa permitirá observar como mudas tratadas com nanotecnologia respondem às condições encontradas efetivamente em áreas de restauração. É uma transição importante porque fatores que podem ser controlados experimentalmente passam a interagir simultaneamente no campo.

Seca, temperatura, radiação, características do solo e competição com outras plantas, por exemplo, podem influenciar o estabelecimento das espécies. Avaliar a tecnologia nesse cenário permite verificar se as respostas fisiológicas observadas anteriormente se traduzem em vantagens durante o desenvolvimento das mudas.

A aproximação entre essas pesquisas mostra como conhecimentos produzidos para a agricultura podem encontrar aplicações em outros desafios ambientais. Processos fisiológicos que determinam a capacidade de uma cultura agrícola enfrentar falta de água ou temperaturas elevadas também estão presentes em uma árvore recém-plantada em uma área degradada. A diferença está no objetivo. Na lavoura, busca-se proteger a produtividade de uma cultura. Na restauração, a mesma base de conhecimento pode ser utilizada para aumentar as chances de uma muda sobreviver, crescer e participar da reconstrução de um ecossistema.

Ainda há etapas importantes antes que essas tecnologias possam ser incorporadas em larga escala a programas de reflorestamento. Os estudos precisam avaliar, entre outros aspectos, desempenho em campo, duração dos efeitos, doses adequadas para diferentes espécies e segurança ambiental das aplicações. Os experimentos conduzidos na Amazônia e na Mata Atlântica, porém, começam a aproximar essas perguntas das condições reais de restauração.

Para o INCT NanoAgro, essa conexão também amplia as possibilidades de aplicação da nanotecnologia desenvolvida no país. A rede reúne pesquisadores de diferentes instituições em oito frentes de atuação voltadas à agricultura e à sustentabilidade, trabalhando em parceria com instituições científicas, startups e empresas. Ao levar parte desse conhecimento para espécies nativas, a pesquisa adiciona uma nova possibilidade à nanotecnologia agrícola brasileira, em que, além de ajudar plantas cultivadas a enfrentar ambientes adversos, preparar árvores para voltar a ocupar áreas onde a floresta precisa ser reconstruída.

Foto: Mikhail Nilov / Pexels.com

Bioinsumos e fertilizantes especiais podem ser aliados estratégicos no manejo e reduzir a dependência de produtos importados

Diante de um cenário internacional de tensões, alternativas nacionais, como os bioinsumos e fertilizantes especiais, ganham mais importância nas práticas de manejo, num momento de crise com as importações de fertilizantes. São opções estratégicas, principalmente no período de preparo de solo, quando as escolhas nutricionais são decisivas para o desempenho das lavouras.

Nesse contexto, a pesquisa e inovação no setor agrícola, tem como foco contornar a demanda de fertilizantes advindas do mercado externo, contribuindo com novas tecnologias, que agregam resultados satisfatórios no campo. No caso dos macronutrientes essenciais — nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K), já existem soluções biológicas e tecnologias nacionais capazes de contribuir para a eficiência do uso desses elementos. “É claro que o setor de insumos pode contribuir com essas soluções estendendo para o maior número de culturas possíveis, sabendo que hoje novas soluções ficam restritas a grandes culturas e grande maioria anuais”, observa Fabrício Silva, pesquisador do Campo Experimental da Satis.

No nitrogênio, por exemplo, insumos biológicos atuam na fixação do nutriente presente no ar, tornando-o disponível para as plantas e reduzindo a necessidade de adubação mineral. No fósforo, tecnologias que aumentam a disponibilidade do nutriente no solo podem melhorar o aproveitamento pelas culturas, enquanto, no potássio, soluções complementares ajudam na uniformidade e no desenvolvimento das plantas. “Pesquisas são essenciais para descobertas de novos microrganismos que serão capazes de exercer papel na redução do uso de fertilizantes, contribuindo para nutrição de plantas de maneira eficaz, reduzindo custos para os produtores rurais”, complementa.

Manejo integrado

A adoção dessas ferramentas além de impulsionar a cadeia nacional, deve ser vista como parte de um manejo integrado. Os bioinsumos e os fertilizantes especiais, cada vez mais, entram nessa equação como aliados estratégicos.  A Satis tem se dedicado constantemente a desenvolver alternativas para atender as demandas do produtor, combinando práticas para ganhar eficiência, reduzir custos e mitigar riscos externos.

O uso de extratos de algas e vegetais, microrganismos, aminoácidos entre outros, são ferramentas empregadas na agricultura como a nanotecnologia para reverter a dependência de insumos de solo. Nessa linha, a Satis oferece um portfólio de soluções biológicas e nutricionais. Para o fornecimento de nitrogênio (N), os produtos incluem inoculantes e biofertilizantes que atuam na fixação biológica do nutriente, além de fonte equilibrada para suplementação.

No manejo de fósforo (P), nutriente essencial para os ciclos energéticos das plantas, destacam-se soluções que combinam fósforo com bioativação por extrato de algas e outras para aumentar a disponibilidade do nutriente no solo. Já para potássio (K), importante para qualidade e desenvolvimento dos frutos, como alternativa a empresa disponibiliza produtos que favorecem a absorção eficiente e contribuem para uniformidade e maturação das lavouras.

Foto: World Sikh Organization of Canada / Pexels.com

Readequação

Em momentos de insumos caros, é natural “repensar o manejo” e adequar à realidade momentânea, mas sem descuidar da produtividade e do impacto que a readequação pode causar. “Esse é o momento que precisamos olhar com muita atenção para todas as ferramentas que temos a nossa disposição. Em momentos de menos ofertas de nutrientes para as plantas, tudo que eu conseguir disponibilizar, a planta tem que ser muito eficiente no processo de absorção e utilização”, afirma Alécio Radons, engenheiro agrônomo e representante técnico de vendas da Satis.  

Ele explica que o produtor precisa buscar alternativas que melhorem o enraizamento das plantas (aumenta a busca por água e nutrientes), ferramentas biológicas que auxiliam na fixação biológica de nitrogênio – como é o caso do bradyrhizobium japonicum e do azospirillum brasiliense – na cultura da soja, bem como o azospirillum  brsailiensee a methylobacterium symbioticum para melhorar a capacidade de fixação do nitrogênio atmosférico, principalmente em gramíneas.

Manejos nutricionais complementares via folha são alternativas que entregam resultados muito positivos quando posicionados corretamente. Esses manejos disponibilizam nutrientes em momentos específicos e de alta demanda pelas plantas, proporcionando melhorias nos processos metabólicos e melhorando a produtividade. “Mais do que nunca é preciso de conhecimento técnico para traçar uma rota alternativa aos percalços do mercado e assim conseguir alcançar boas produtividades”, conclui Radons.

Bioinsumos e fertilizantes são alternativas viáveis para o déficit hídrico na safra de soja de 2026

Os bioinsumos são altamente eficazes contra déficit hídrico na soja, complementando fertilizantes com mecanismos biológicos que aumentam as raízes em 20-30% e regulam hormônios de estresse. Microrganismos como Azospirillum, Bacillus e micorrizas melhoram a absorção de água e nutrientes sob seca, recuperando 10-20% da produtividade perdida em florescimento 

Para Douglas Vaz-Tostes, gerente técnico nacional da GIROAgro, a força da safra está diretamente ligada à qualidade dos insumos utilizados. “A escolha correta dos insumos, principalmente dos fertilizantes,  define a eficiência de todo o sistema produtivo. Quando o produtor investe em nutrientes adequados, na dose certa e no momento certo, ele reduz perdas, aumenta a rentabilidade e protege o potencial produtivo da cultura”, afirma o especialista.

Os fertilizantes foliares são uma das principais alternativas viáveis para a safra de soja 2026/27 no Brasil, especialmente sob chuvas irregulares no Centro-Oeste. A adoção já atinge 46,7% da área cultivada (soja 62% do total), com crescimento anual de 20%, comprovando eficácia prática em cenários climáticos adversos.

A previsão climática para 2026 no Rio Grande do Sul, por exemplo, indica um ano de transição: começa sob influência da La Niña, passa para neutralidade entre o fim do verão e o outono e pode evoluir para um episódio de El Niño entre o inverno e a primavera. Além disso, a meteorologista ressalta que fenômenos de curto prazo, menos previsíveis, podem ocorrer ao longo do ano e alterar temporariamente o padrão climático esperado, mesmo dentro desse cenário geral. 

Apesar de ser um momento em que há muita adversidade climática, este não é um fator que irá determinar tanto o desempenho da safra de soja para o ano de 2026, que deve ser recorde no Brasil, superando 2025/26 apesar de chuvas irregulares localizadas. A Abiove projeta 177,7 milhões de toneladas, um aumento de cerca de 3,4%  (172,1 milhões de toneladas) em relação a  2025.

Foto: Melquizedeque Almeida / Pexels.com

COP30: bioinsumos colocam agro brasileiro na liderança da transição sustentável

A sustentabilidade como a conhecemos já não é suficiente. A nova fronteira da produção agrícola tem nome e propósito: agricultura sustentável, um modelo que revitaliza o solo, amplia a biodiversidade e aumenta a captura de carbono.

Em destaque nas discussões da COP30, o tema reposiciona o agronegócio como parte da solução, consolidando-se como uma das estratégias mais promissoras para recuperação de agro-ecossistemas, captura de carbono e mitigação das mudanças climáticas.

Atualmente, a agricultura e o uso da terra correspondem a 23% das emissões globais de gases do efeito, aproximadamente. Ao migrar para práticas sustentáveis, lavouras deixam de ser fontes de emissão e tornam-se sumidouros de carbono – “reservatórios” naturais que filtram o dióxido de carbono da atmosfera.

“A agricultura sustentável é, em sua essência, sobre restaurar a vida. E não tem como falar em vida no solo sem falar em controle biológico”, afirma Thiago Castro, gerente de Pesquisa & Desenvolvimento da Koppert Brasil, líder mundial em controle biológico.

Segudo ele, “ao introduzir um inimigo natural para combater uma praga, devolvemos ao ecossistema uma peça que faltava. Isso fortalece a teia biológica, melhora a estrutura do solo, aumenta a disponibilidade de nutrientes e reduz a necessidade de intervenções agressivas. É a própria natureza trabalhando a nosso favor”.

As soluções biológicas para a agricultura incluem produtos à base de micro e macroorganismos e extratos vegetais, sendo biodefensivos (para controle de pragas e doenças), bioativadores (que auxiliam na nutrição e saúde das plantas) e bioestimulantes (que melhoram a disponibilidade de nutrientes no solo).

Brasil: o maior mercado de bioinsumos do mundo

O Brasil é protagonista nesse campo: cerca de 61% dos produtores fazem uso regular de insumos biológicos agrícolas, uma taxa quatro vezes maior que a média global. Para a safra de 2025/26, o setor projeta um crescimento de 13% na adoção dessas tecnologias.

A vespa Trichogramma galloi e o fungo Beauveria bassiana (CEPA ESALQ PL 63) são exemplos de macro e microrganismos amplamente utilizados nas culturas de cana-de-açúcar, soja, milho e algodão, para o controle de lagartas e mosca-branca, respectivamente. Esses agentes atuam nas pragas sem afetar polinizadores e organismos benéficos para o ecossistema.

Os impactos do manejo biológico são mensuráveis: maior porosidade do solo, retenção de água e nutrientes, menor erosão; menor dependência de fertilizantes e inseticidas sintéticos, diminuição na resistência de pragas; equilíbrio ecológico e estabilidade produtiva.

Entre as práticas sustentáveis que já fazem parte da rotina do agro brasileiro estão o uso de inoculantes e fungos benéficos, a rotação de culturas, a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e o manejo biológico de pragas e doenças. Práticas que estimulam a vida no solo e o equilíbrio natural no campo.

“Os produtores que adotam manejo biológico investem em seu maior ativo que é a terra”, ressalta Castro. “O manejo biológico não é uma tendência, é uma necessidade do planeta, e a agricultura pode e deve ser o caminho para a regeneração ambiental, para esse equilíbrio que buscamos e precisamos”, enfatiza.

Foto: Divulgação / Koppert Brasil