Nova MP abre caminho para renegociação de dívidas rurais, mas benefício ainda depende de regulamentação

A publicação da Medida Provisória (MP) N.º 1.376/2026 pelo Governo Federal abriu uma nova expectativa para milhares de produtores rurais que enfrentam dificuldades financeiras após anos de perdas provocadas por fatores climáticos e pela queda dos preços das commodities agrícolas. A proposta cria mecanismos para facilitar a renegociação de parte das dívidas do setor. Embora tenha sido recebida como  um avanço, ela não representa uma solução automática para os agricultores por estabelecer critérios rigorosos, depender de novas regulamentações e por excluir várias modalidades de dívida bastante comuns no campo.

Na prática, a MP inaugura uma nova fase da política de crédito rural ao reconhecer que as dificuldades financeiras do produtor nem sempre decorrem apenas de secas, enchentes ou outros eventos climáticos. A forte desvalorização dos produtos agrícolas também passa a ser considerada um fator capaz de comprometer a capacidade de pagamento, refletindo um cenário que marcou diversas cadeias produtivas nos últimos anos. 

O advogado Eliseu Silveira, especialista em recuperação judicial, alerta que a medida deve ser vista como o início de um processo de renegociação e não como um programa de perdão de dívidas. “O principal avanço é a autorização para que instituições financeiras ofereçam linhas de crédito específicas para a renegociação de dívidas rurais, mas esse benefício ainda não está disponível na prática. Foi criada somente a base legal para essa operação e caberá ao Conselho Monetário Nacional definir seu funcionamento, as condições financeiras, os prazos, os critérios de enquadramento e os procedimentos que deverão ser adotados pelos bancos”, explica. 

Segundo o advogado, enquanto a regulamentação não for publicada, o produtor continua sem saber exatamente quando poderá procurar a instituição financeira para renegociar seus contratos e quais exigências precisará cumprir. “Esse período de espera gera insegurança justamente em um momento em que muitos agricultores enfrentam dificuldades para manter a atividade e cumprir seus compromissos financeiros”, observa o especialista.

Silveira destaca que a mudança dos critérios para comprovação das perdas é outro ponto importante da MP e aponta que antes dela os programas semelhantes concentravam sua atenção principalmente em prejuízos causados por eventos climáticos extremos. “A partir de agora a legislação também permite que produtores afetados pela queda acentuada dos preços das commodities agrícolas possam solicitar a renegociação, desde que consigam comprovar redução significativa da renda. Essa alteração amplia o alcance da medida ao reconhecer que o risco da atividade rural vai além da produção”, afirma.

O especialista acrescenta que o produtor rural enfrenta diversos desafios para honrar seus compromissos e em muitos casos, mesmo quando a safra é boa, a forte queda dos preços no mercado reduz drasticamente a sua receita. “O produtor lida diariamente com muitas variáveis que podem comprometer sua capacidade de quitar financiamentos e investir no próximo ciclo produtivo. Cada safra tem suas  características próprias e impõe uma forma de agir para dar continuidade à sua atividade”, ressalta. 

Silveira lembra que para ter acesso ao benefício não basta alegar dificuldades financeiras e que a regra geral exige que o produtor comprove perda de pelo menos 30% da renda bruta esperada considerando os prejuízos acumulados em um período mínimo de duas safras, entre 2019 e 2025. “Houve uma mudança na forma como as perdas serão avaliadas O foco deixa de estar apenas na redução da produção agrícola e passa a considerar diretamente o impacto financeiro sobre a renda do produtor. Assim, laudos técnicos, documentos contábeis, registros de comercialização e outros elementos capazes de comprovar a receita esperada e a receita efetivamente obtida passam a ter papel decisivo para a aprovação dos pedidos”, acrescenta. 

Silveira aponta que a Medida Provisória deixou uma lacuna ao não contemplar a renegociação de débitos com revendas de insumos, fornecedores e concessionárias de máquinas. “Muitos agricultores tem dívidas contraídas que não tem previsão de negociar. E as Cédulas de Produto Rural também não são contempladas de forma ampla, podendo ser incluídas apenas aquelas contratadas diretamente com instituições bancárias, limitando significativamente o alcance da medida para quem utilizar outras formas de financiamento privado”, enfatiza. 

Para o advogado, também merece atenção a situação das dívidas que já estão sendo discutidas judicialmente que não terão seus processos de cobrança interrompidos de forma automática. “Os bancos continuam executando aquelas garantias previstas em contrato e não são obrigados a aceitar todos os pedidos de renegociação. Dessa forma, as instituições bancárias poderão exigir novas garantias, reavaliar riscos e estabelecer condições específicas antes de firmar qualquer acordo”, completa.

Foto: matthiasboeckel / Pixabay

Autoridades defendem Política de Estado para fortalecer o agro no contexto global

A solenidade de abertura da edição histórica de 25 anos do Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA), realizada nesta segunda-feira (10/08), em São Paulo, reuniu autoridades e lideranças do setor, que destacaram a necessidade de uma política de Estado para impulsionar a competitividade do agro brasileiro e fortalecer o papel do país em uma economia global cada vez mais voltada à segurança alimentar, à energia sustentável e à proteção ambiental. Promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), em parceria com a B3, o evento tem como tema “Agro & Indústria – integrando e transformando o Brasil”.

“Chegar a um quarto de século representa a maturidade de uma instituição que tem como missão antecipar tendências, compreender os grandes movimentos globais e contribuir para a construção de uma visão estratégica de longo prazo para o Brasil”, disse Ingo Plöger, presidente da ABAG. Ele destacou que o Brasil construiu, nas últimas décadas, um agronegócio pujante e protagonista e o próximo passo é participar da construção das novas regras internacionais, agregando valor, criando mercados e contribuindo para um mundo mais sustentável.

Com essa visão, a ABAG entregou ao vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, uma Agenda Estratégica da Agroindústria Brasileira, resultado de um amplo estudo que avaliou mais de 80 fatores, priorizados segundo sua urgência, impacto e horizonte de implementação. O documento reúne propostas para ações de curto, médio e longo prazo e representa uma contribuição da sociedade civil para a construção de uma verdadeira agenda de Estado.

Na solenidade de abertura, Alckmin reiterou a importância desta agenda para a agroindústria. “Estamos avançando para nos tornarmos o maior exportador de alimentos do mundo, superando os Estados Unidos”, pontuou. Sobre os acordos comerciais, relembrou que o acordo entre União Europeia e Mercosul resultou em crescimento de 4% nas exportações nos primeiros 60 dias de vigência e que o governo continua empenhado nas negociações com os Estados Unidos. Também trouxe dados do Ipea, que mostram que a reforma tributária poderá elevar o PIB em 12% em 15 anos, os investimentos em 14% e as exportações em 17%.

Luiz Masagão, vice-presidente de Produtos e Clientes da B3, reiterou que o mercado de capitais tem a proposta de apoiar o avanço do agronegócio brasileiro, conectando produtores e empresas aos recursos necessários para o setor. Até junho, as emissões de CPR somavam R$ 470 bilhões, enquanto as LCA alcançavam R$ 560 bilhões, os CRA, R$ 170 bilhões, e os CDCA ultrapassavam R$ 30 bilhões. Sobre a gestão de riscos, destacou a necessidade de avanço na precificação de commodities no mercado brasileiro, hoje fortemente influenciada por referências internacionais.

O Ministério da Agricultura e Pecuária vem trabalhando para ampliar o acesso a mercados e garantir o fornecimento de insumos estratégicos. “Já conquistamos 674 novos mercados para os produtos brasileiros e devemos superar a casa dos 700 mercados até o final do ano”, afirmou André de Paula, ministro da Agricultura e Pecuária, que ponderou que o país possui uma posição de destaque no agronegócio mundial, mas essa posição precisa ser consolidada todos os dias. “Quanto mais integrada estiver a cadeia, maior será nossa capacidade de competir no mundo e contribuir para o desenvolvimento do país”.

Para a senadora Tereza Cristina, o próximo governo precisa priorizar o agronegócio como política de Estado, garantindo previsibilidade e segurança jurídica para que o setor possa continuar exercendo seu papel de motor da economia e protagonista na segurança alimentar mundial. Na mesma linha, o deputado federal Arnaldo Jardim avaliou que é necessário transformar a resiliência do agro em uma estratégia de longo prazo, sustentada por políticas de Estado.

Foto: Gerardo Lazzari

Plano Safra 26/27 destina R$ 525 bilhões para fortalecer a agricultura empresarial

O Governo Federal lançou o Plano Safra 2026/2027, com R$ 525,1 bilhões destinados à agricultura empresarial. Com acréscimo de R$ 9 bilhões em relação à safra anterior, a iniciativa oferece linhas de crédito, incentivos e instrumentos de política agrícola voltados a médios e grandes produtores, com o objetivo de fortalecer a produção agropecuária brasileira.

Do total de recursos, R$ 384,9 bilhões serão destinados ao custeio e à comercialização, garantindo recursos para despesas essenciais da produção agropecuária, como a aquisição de insumos, a condução das lavouras, a manutenção dos rebanhos e a comercialização da produção. Outros R$ 140,2 bilhões serão direcionados aos investimentos, apoiando a modernização produtiva, a ampliação da capacidade de armazenagem, a irrigação, a inovação tecnológica, a renovação de máquinas e equipamentos e o aumento da eficiência nas propriedades rurais.

Com o slogan “Crédito que fortalece o campo. Campo que alimenta o mundo”, o Plano Safra 26/27 reafirma o papel do crédito rural como instrumento estratégico para ampliar a produção agropecuária, fortalecer a renda no campo, garantir o abastecimento e a segurança alimentar, impulsionar as exportações e elevar a competitividade do agronegócio brasileiro.

Compromisso com o agro

Um dos principais avanços do Plano Safra 26/27 é a redução das taxas máximas de juros em linhas estratégicas da agricultura empresarial. A queda da taxa Selic abre uma importante janela para a redução do custo financeiro do produtor e para a ampliação da capacidade de contratação do crédito rural. Com juros menores, o produtor ganha mais previsibilidade para planejar a safra, realizar investimentos na propriedade e organizar sua atividade produtiva.

No Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), voltado aos médios produtores rurais, o volume previsto alcança R$ 72,6 bilhões, com taxa máxima de juros de 9% ao ano, inferior à praticada no ciclo anterior. A redução dos juros fortalece um segmento essencial para a produção de alimentos, a geração de empregos e a dinamização das economias locais. Com crédito mais acessível, os produtores ganham melhores condições para custear a produção, ampliar investimentos e conduzir o ciclo produtivo com mais segurança.

Campo + Sustentável

Além da redução geral das taxas, o Plano Safra 26/27 reforça o incentivo à adoção de práticas produtivas sustentáveis e à regularização ambiental das propriedades rurais, reconhecendo produtores que adotam boas práticas agropecuárias, padrões de gestão e certificações reconhecidas. A redução poderá ser de até 1,0 ponto percentual na taxa de juros de custeio.

O desconto contempla até 0,5 ponto percentual para produtores com Cadastro Ambiental Rural (CAR) em situação regular e outro 0,5 ponto percentual para aqueles que adotarem práticas agropecuárias sustentáveis. A medida fortalece a ideia de que produzir com responsabilidade e eficiência, também significa melhores condições de financiamento.

Agro resiliente

A gestão de riscos também é um dos pilares do Plano Safra 26/27. O programa reforça a importância do Proagro e do seguro rural como instrumentos de proteção da produção e de segurança para o sistema de crédito. Ao vincular a possibilidade de renegociação das operações de custeio agrícola à existência de cobertura por Proagro ou seguro rural, a política estimula a adoção de mecanismos de gestão de risco. A medida busca fortalecer a responsabilidade compartilhada entre produtores, instituições financeiras e o poder público, reduzindo a dependência de soluções emergenciais após a ocorrência de perda.

Modernização

O investimento segue como uma das prioridades desta edição, com recursos destinados à modernização da produção, à irrigação, à inovação, à renovação de máquinas e equipamentos, à recuperação de áreas produtivas e à sustentabilidade.

Nesse contexto, o programa reforça a modernização do InvestAgro, expandindo o apoio a sistemas de geração e distribuição de energia renovável, como energia solar, biomassa, energia eólica, cogeração e armazenamento de energia elétrica. As medidas contribuem para aumentar a produtividade, reduzir custos operacionais, ampliar a segurança energética e fortalecer a resiliência da produção agropecuária.

A armazenagem também recebe atenção especial. O apoio à ampliação, modernização, reforma e construção de armazéns e câmaras frias contribui para reduzir perdas, aprimorar a logística e amplificar a capacidade de conservação e comercialização da produção. Com maior autonomia para armazenar e comercializar seus produtos, produtores, cooperativas e agroindústrias ganham melhores condições de gestão, agregação de valor e competitividade.

Crédito mais eficiente

O custeio permanece como um dos principais instrumentos do Plano Safra, garantindo os recursos necessários para a aquisição de insumos, a condução das lavouras, o manejo dos rebanhos e a comercialização da produção. Em um cenário de custos ainda elevados, a redução das taxas de juros contribui para melhorar as condições de financiamento, ampliar a capacidade de planejamento e dar maior previsibilidade ao produtor.

O Plano Safra 26/27 também fortalece a complementaridade entre diferentes fontes de recursos, combinando recursos controlados, equalizados, não equalizados e fontes de mercado. Essa estrutura amplia a capacidade de financiamento do setor, permite atender diferentes perfis de produtores e finalidades de crédito e contribui para aumentar a oferta de recursos à agropecuária brasileira.

Com mais crédito, juros menores, incentivo a boas práticas agropecuárias, fortalecimento da gestão de risco, modernização energética, apoio à armazenagem e foco na execução, o novo Plano Safra reafirma o compromisso com uma agricultura empresarial forte, moderna, sustentável e competitiva.

Projeto “Florestas e Comunidades: Amazônia Viva” busca fortalecer sociobiodiversidade e agricultura familiar

O Governo Federal, por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e dos Ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima, do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, lançou o projeto “Florestas e Comunidades: Amazônia Viva”.

Foto: Tom Fisk / Pexels.com

A iniciativa, que contará com investimento de R$ 96,6 milhões e será financiada com recursos do Fundo Amazônia, vai apoiar o fortalecimento de sistemas socioprodutivos e a ampliação do acesso a mercados de alimentos e produtos da sociobiodiversidade e da agricultura familiar de base sustentável na Amazônia, com ênfase em suprir gargalos de logística, beneficiamento, armazenamento e adequação sanitária e o fortalecimento do PAA e do Sociobio Mais.

Com recursos do Fundo Amazônia, o programa vai financiar a aquisição de equipamentos e infraestrutura para impulsionar a comercialização de produtos da floresta em mercados consumidores. Entre as ações possíveis estão a compra de lanchas, a instalação de silos secadores e outras estruturas voltadas ao escoamento e beneficiamento de produtos como pirarucu, borracha, cacau, cupuaçu, entre outras riquezas da região.

Com foco direto na geração de renda, valorização cultural e manutenção da floresta em pé, o projeto beneficia agricultores familiares, incluindo povos indígenas, quilombolas e extrativistas, impulsionando cadeias produtivas sustentáveis em toda a região amazônica.

Governo libera R$ 12 bilhões para produtores rurais afetados por tragédias climáticas

Em uma medida que promete dar fôlego ao campo, o Governo Federal anunciou a liberação de R$ 12 bilhões em crédito para produtores rurais pequenos, médios e grandes, que tiveram suas lavouras prejudicadas por tragédias climáticas nos últimos anos. O programa deve alcançar cerca de 100 mil agricultores, incluindo 96% dos pequenos e médios produtores com dívidas em atraso ou renegociadas.

A iniciativa busca evitar o abandono do campo e garantir a continuidade da produção, especialmente em um contexto de mudanças climáticas cada vez mais frequentes e severas.

Como funciona a linha de crédito

O pacote prevê diferentes condições de acordo com o porte do produtor:

  • Agricultura familiar (Pronaf): até R$ 250 mil, com juros de 6% ao ano
  • Médios produtores (Pronamp): até R$ 1,5 milhão, com juros de até 8% ao ano
  • Demais produtores: até R$ 3 milhões, com juros de até 10% ao ano
  • Acima de R$ 3 milhões: condições definidas pelas instituições financeiras, considerando fluxo de caixa debilitado

Além disso, o crédito terá carência de um ano e prazo de pagamento de até oito anos, incluindo a possibilidade de quitar dívidas em atraso e Cédulas de Produto Rural (CPR) registradas até junho de 2024.

Impacto das tragédias climáticas

O programa vem em resposta a eventos extremos que abalaram o setor, como as enchentes no Rio Grande do Sul em maio de 2024, consideradas a maior catástrofe climática do estado, com perdas bilionárias na agricultura e pecuária. Para especialistas, essas medidas não são apenas emergenciais, mas estratégicas, garantindo que os produtores continuem investindo e produzindo mesmo diante de riscos crescentes.

Gustavo Zanon, CEO da Seguralta, avalia a iniciativa como fundamental não só para dar fôlego imediato, mas também para reforçar a importância da proteção no campo. “O acesso ao crédito garante que o produtor mantenha sua atividade no campo, reorganize suas contas e preserve sua renda, mesmo em momentos de dificuldade. É uma forma de dar fôlego imediato e condições reais para que a produção continue ativa”, afirma.

O que representa para o setor

O pacote representa um alívio financeiro imediato, evita que produtores abandonem o campo e garante continuidade produtiva, mantendo empregos e segurança alimentar. Para o setor, é também uma oportunidade de modernização e planejamento estratégico, estimulando investimentos em tecnologias e práticas mais sustentáveis. “Quando o produtor tem acesso a crédito estruturado e condições reais de pagamento, ele planeja, investe e protege sua produção. Isso garante continuidade no campo e fortalece toda a cadeia do agronegócio”, conclui Gustavo Zanon.