Conflitos no Oriente Médio pressionam o agro

A intensificação do conflito entre os Estados Unidos, Irã e Israel já provoca ondas de choque nos mercados globais e impõe um novo patamar de risco para o agronegócio brasileiro. Petróleo em alta, moedas emergentes pressionadas, risco logístico no Estreito de Ormuz e possível impacto sobre fertilizantes e exportações de milho, colocam a safra 2026/27 sob um cenário de incerteza estratégica.

Do ponto de vista macroeconômico, os reflexos são imediatos. “Espera-se um cenário de volatilidade e incerteza sobre produtos produzidos ou relacionados à região. Já temos visto essas incertezas repercutirem sobre as bolsas globais, inclusive de commodities agrícolas, e sobre o mercado de câmbio”, afirma Enilson Nogueira, coordenador de Estudos Econômicos da Céleres Consultoria.

O primeiro impacto direto recai sobre o petróleo, que já registra alta na semana. O efeito secundário é a pressão sobre combustíveis e inflação global. “O reflexo mais provável seria sobre os preços do petróleo. Como consequência, temos aumento nos preços de combustíveis e pressão inflacionária. Para o produtor rural brasileiro, se esse efeito for repassado, podemos ter um custo maior de combustíveis para a safra 2026/27”, destaca Nogueira.

Embora o Irã não seja fornecedor relevante de diesel ao Brasil, países do Oriente Médio representam cerca de 10% do valor importado em 2025, um fator que amplia a sensibilidade do mercado. No câmbio, a reação já é visível: na última semana o Real operava próximo de R$ 5,10 e, com a escalada do conflito, depreciou para a faixa de R$ 5,30. “As incertezas globais têm desvalorizado moedas emergentes, inclusive o Real. Se mantido ou intensificado, esse movimento pode sustentar, no curto prazo, a formação de preços de grãos no Brasil, especialmente o milho”, acrescenta o economista.

Logística e fertilizantes no centro da tensão

O ponto mais sensível da crise está na logística internacional. O Estreito de Ormuz é rota vital para petróleo e insumos agrícolas, e qualquer entrave pode gerar um efeito dominó nos custos globais. Segundo Maria Luisa Franzotti, analista econômica e de geopolítica da Céleres, o impacto pode ser imediato e severo, especialmente no mercado de fertilizantes.

“O conflito terá um impacto imediato e severo no mercado de fertilizantes, com ênfase nos nitrogenados. O Irã responde por 10% das exportações globais de ureia, enquanto o Oriente Médio como um todo concentra 25% do fornecimento mundial”, explica a especialista.

No caso dos fosfatados, a dependência logística é igualmente crítica. “Grande parte da oferta vem da Arábia Saudita e países vizinhos, que dependem do Canal de Suez e do Estreito de Ormuz para escoamento. Uma interrupção cria gargalos que afetam a disponibilidade e custo final dos formulados”, cita Maria.

Para o Brasil, o impacto pode ser expressivo: em 2025, Irã e países do Oriente Médio concentraram cerca de 35% das importações brasileiras de ureia, 17% dos fosfatados e 10% do Cloreto de Potássio (KCl). Os reflexos devem aparecer nas negociações da safra 2026/27, tanto para soja quanto para milho segunda safra, pressionando margens em um momento de maior disciplina financeira no campo.

Milho na linha de frente

Se pelo lado dos custos o alerta já está aceso, pelo lado da demanda o sinal também é de atenção máxima. O Irã consolidou-se como um dos principais destinos do milho brasileiro nos últimos cinco anos, liderando as importações em três deles. Em 2025, o país importou mais de 9 milhões de toneladas do cereal brasileiro. “A incerteza sobre demanda e condições logísticas de comércio com o Irã deve impactar a formação de preços ainda em 2026. Uma eventual interrupção nos embarques pode gerar represamento da oferta interna, elevar estoques e pressionar negativamente as cotações domésticas, sobretudo do milho”, alerta Nogueira.

Além disso, a substituição dessa demanda não é simples. “Não vemos outro consumidor com o mesmo potencial de absorção no curto prazo. Se a exportação para o Irã for menor, é um fator de atenção relevante para toda a cadeia do milho”, reforça o coordenador da Céleres.

Os impactos indiretos também se estendem à proteína animal, já que o Oriente Médio representou 26% das exportações brasileiras de carne de frango e 6% da carne bovina. Uma desaceleração pode afetar a demanda por ração, retroalimentando a pressão sobre o milho. Ainda, açúcar, soja, farelo de soja e celulose também possuem exposição relevante ao bloco regional.

Um componente adicional de incerteza envolve possíveis restrições comerciais dos Estados Unidos a parceiros do Irã, uma hipótese já mencionada pelo presidente Donald Trump no início do ano. Caso se concretize, o cenário pode abrir um novo capítulo de tensão geopolítica envolvendo o Brasil, ampliando a instabilidade no comércio internacional.

Volatilidade estrutural no radar 

Para a Céleres, o conflito eleva o grau de imprevisibilidade em um momento crucial de planejamento da safra 2026/27. Petróleo, fertilizantes, câmbio, logística e demanda externa passam a operar sob um regime de maior risco geopolítico. O agro brasileiro, altamente integrado ao comércio global, entra em um período de vigilância redobrada, em que estratégia, hedge e gestão de risco serão tão determinantes quanto produtividade no campo.

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Conflito no Oriente Médio coloca em risco 41% da ureia exportada no mundo

A eclosão de um novo conflito no Oriente Médio reacendeu os temores no mercado internacional de fertilizantes, trazendo incertezas quanto à oferta global e pressionando a precificação de nitrogenados e fosfatados. A avaliação é da StoneX, empresa global de serviços financeiros.

Em 2024, a região foi responsável por 41% das exportações mundiais de ureia, 28% das exportações globais de amônia e 29% das vendas internacionais de DAP. Diante desse peso relevante no comércio global, eventuais disrupções na produção ou no escoamento de cargas impactam diretamente os fluxos comerciais e tendem a influenciar os preços praticados no mercado internacional.

Neste momento, os investidores ainda avaliam os possíveis desdobramentos do conflito, o que mantém elevada a incerteza sobre os impactos imediatos na formação de preços. No entanto, já há sinais claros de cautela: fornecedores da região retiraram ofertas do mercado enquanto aguardam maior clareza sobre a evolução do cenário geopolítico. O primeiro reflexo observado, portanto, é a redução temporária da oferta disponível.

Outro ponto de atenção envolve a logística. Navios têm evitado trafegar pelo estreito de Ormuz, rota estratégica para o escoamento de fertilizantes do Oriente Médio. O aumento do risco na região pode gerar atrasos nas entregas e encarecer os custos logísticos, afetando importadores em diferentes partes do mundo.

Além disso, a valorização do petróleo decorrente das tensões geopolíticas pode pressionar os custos de combustíveis e, consequentemente, os fretes internacionais. Para países importadores líquidos de fertilizantes, como o Brasil, isso representa um fator adicional de alta, ao encarecer o custo final dos insumos.

O Irã, no centro do conflito, ocupa posição estratégica no mercado global de nitrogenados. Em 2024, o país respondeu por 11% das exportações mundiais de ureia e por 5% das exportações globais de amônia. Segundo fontes não oficiais, o Irã teria exportado cerca de 1,3 milhão de toneladas de ureia ao Brasil em 2024, o equivalente a aproximadamente 16% das importações brasileiras do produto.

Caso haja um estrangulamento da capacidade exportadora iraniana, o impacto tende a ser relevante para compradores globais e, em especial, para o Brasil, altamente dependente de importações para suprir sua demanda por nitrogenados.

Por outro lado, o momento do calendário reduz parcialmente os efeitos imediatos sobre o mercado brasileiro, que já se encontra fora da alta temporada de compras de nitrogenados. Países como Estados Unidos, Austrália e possivelmente parte da Europa, que atravessam períodos de maior demanda, podem sentir impactos mais diretos no curto prazo.

De todo modo, considerando a relevância do Oriente Médio e do Irã para a produção e exportação global de fertilizantes, o conflito é tratado pelo mercado como um fator altista, com potencial para alterar o cenário do setor nas próximas semanas. A principal incógnita permanece sendo a duração do conflito, a extensão dos danos e o número de países envolvidos — variáveis que determinarão a magnitude e a persistência dos efeitos sobre os preços globais.

Soldados das Forças de Defesa de Israel na cidade de Metula, na fronteira com o Líbano (Foto: Jayme Vasconcellos / JV Fotografia)

O ano de 2026 não será para amadores

por Marcos Dallagnese*

O ano de 2026 amanhece sem promessas fáceis para o agro brasileiro. Não há brisa de complacência, há vento de cobrança. O setor entra grande, competitivo, decisivo para a economia, mas sob um teste mais refinado, produzir muito já não basta, é preciso produzir certo, vender melhor e provar origem. O clima continua mandando, a geopolítica segue interferindo e a regulação deixou de ser ameaça distante para virar regra concreta. Quem ainda opera no improviso vai sentir primeiro.

A fotografia da safra é exuberante. A Conab projeta algo em torno de 354,4 milhões de toneladas de grãos. A soja, velha âncora, deve romper a barreira dos 177 milhões de toneladas, consolidando o Brasil como líder global. O milho segue firme, com expectativa de 138 milhões de toneladas. Mas aqui mora a armadilha, safra grande em ambiente de custo elevado, logística pressionada e demanda errática não é sinônimo de prosperidade, é sinônimo de margem estreita. Em 2026, errar o timing de venda ou negligenciar hedge não será azar, será falha de gestão.

O clima não concede indulgência. A saída gradual da La Niña não significa calmaria, significa transição e transições são traiçoeiras. Chuvas fora de hora, granizo, janelas curtas, extremos pontuais. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático deixa de ser recomendação técnica e passa a ser critério de sobrevivência, especialmente porque o crédito agora cobra isso como contrapartida.

O milho confirma a lógica. A safrinha continua sendo pilar e divide protagonismo com o etanol, que mexe na demanda e na previsibilidade. Custos pressionados por fertilizantes e fretes impõem uma verdade incômoda: não haverá espaço para decisões “no feeling”. O milho de 2026 será de planilha, não de esperança.

E é exatamente nesse ponto que o café escancara o novo agro brasileiro. O setor chega a 2026 depois de dois anos de choques climáticos, estoques globais apertados e preços elevados, mas engana-se quem confunde preço alto com tranquilidade. O “mercado está caro” porque está frágil. Qualquer geada, seca ou ruído logístico reverbera instantaneamente na ICE Futures. Produzir sem proteção comercial é especular contra o próprio caixa.

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Importante: 2026 marca o fim da tolerância com informalidade. A regulação europeia antidesmatamento não é detalhe, é filtro de mercado. Exportar não depende só de produzir, mas de provar origem. Rastreabilidade, georreferenciamento e conformidade deixaram de ser diferenciais e viraram requisitos básicos. Quem ainda não entendeu isso está discutindo o problema errado.

O crédito também mudou de natureza. Não é cheque em branco. Em 2026, vem condicionado à gestão de risco climático, sustentabilidade comprovada e planejamento estratégico. Pensar apenas na próxima safra é curto demais para um setor que vive de ciclos longos, volatilidade e pressão regulatória. Ignorar essas exigências não significa perder oportunidade, significa perder relevância.

E há um ruído extra no ar: por ser um ano eleitoral, a polarização política e as incertezas macroeconômicas podem gerar volatilidade adicional no mercado. Quem depende de crédito, câmbio e apetite de risco precisará de cenários alternativos, disciplina em caixa e atenção redobrada aos prazos.

O comércio global não é mais sedução, é seleção. A China ajusta compras, a Europa impõe acordos com regras estritas e o mercado passa a remunerar mais origem e constância do que simplesmente volume. O café que se venderá melhor não será o mais abundante, será o mais confiável. E esse raciocínio vale para todo o agro. A carne vive momento forte, mas enfrenta cotas e barreiras. A soja domina, mas sofre com bases voláteis. O milho se industrializa, mas encarece. O denominador comum é simples e desconfortável: o agro brasileiro não está sendo ameaçado, está sendo selecionado.

O ano de 2026 será potente para quem opera com método, proteção e visão estratégica. Mas será implacável com quem insiste em jogar o jogo antigo em um tabuleiro novo. O agro brasileiro entra grande em 2026. Permanecer grande, porém, exigirá algo mais raro do que escala: maturidade.

*Engenheiro Agrônomo, com MBA em Gestão Comercial. Tem experiência nos setores Químico e do Agronegócio, com uma trajetória em empresas de referência, como a Bayer Crop Science e a ALTA (América Latina Tecnologia Agrícola). É diretor Comercial da Orbia.

USDA estima alta produção de laranja no Brasil e continuidade das mínimas históricas nos EUA para a safra 2026/27

A primeira estimativa para a safra 2026/27 de laranja nos Estados Unidos indica manutenção da produção em patamares historicamente baixos. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção norte-americana deve permanecer próxima às mínimas da série, com a safra na Flórida estimada em 12 milhões de caixas, queda de 1,6% em relação à safra anterior.

Do total previsto, cerca de 7,5 milhões de caixas correspondem à laranja Valência, principal variedade destinada à produção de suco no país. O número de árvores produtivas na Flórida recuou 18% na comparação anual, enquanto o aumento do número de frutos por árvore elevou a produtividade média.

No Brasil, a projeção do USDA para a safra 2026/27 aponta produção de 330 milhões de caixas, alta de 3,7% frente à estimativa para 2025/26, impulsionada por condições climáticas mais favoráveis esperadas para 2026. Com isso, a produção de suco de laranja deve alcançar 1,03 milhão de toneladas em FCOJ, crescimento de 1,9%.

No comércio internacional, a aprovação do acordo entre a União Europeia e o Mercosul tende a favorecer as exportações brasileiras de suco de laranja no longo prazo, segundo a CitrusBR. A entidade estima que, em cinco anos, o setor possa acumular uma economia tarifária de cerca de US$ 320 milhões, com a redução gradual das tarifas aplicadas ao produto.

Para o suco NFC, o impacto deve ser mais imediato, com previsão de eliminação das tarifas em até quatro anos. Já para o FCOJ, a redução tarifária deve ocorrer de forma gradual, em um período estimado entre cinco e dez anos.

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Piscicultura inicia 2026 com mercado aquecido e retomada de preços

A piscicultura brasileira inicia 2026 com perspectivas positivas, sustentadas pela recuperação dos preços ao produtor, consumo interno aquecido, manutenção das exportações e expectativa de custos mais estáveis. A avaliação é do presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (PEIXE BR), Francisco Medeiros.

Para este ano, o executivo destaca um cenário de continuidade dos investimentos e maior organização da cadeia produtiva. “No último trimestre de 2025, observamos aumentos sucessivos nos preços pagos ao produtor, reflexo de um mercado interno aquecido e de uma demanda consistente. Mesmo com os desafios relacionados ao poder de compra do consumidor, o setor manteve seus investimentos e chega a 2026 com confiança”, ressalta Medeiros.

No mercado externo, a piscicultura nacional manteve sua atuação após os ajustes ocorridos em 2025, especialmente no comércio com os Estados Unidos. Segundo o presidente da PEIXE BR, as exportações ganharam novo fôlego, com crescimento dos embarques para o Canadá e abertura de negociações com outros países. “Há uma oportunidade clara para o filé congelado, um produto que ainda representa uma parcela pequena das nossas exportações, mas que tem grande potencial, especialmente nas Américas e em outros mercados internacionais”, destaca.

Outro fator que reforça o otimismo para 2026 é o cenário produtivo. As previsões climáticas indicam condições favoráveis, enquanto a expectativa de uma boa safra de grãos tende a aliviar os custos de produção. “Os grãos impactam diretamente o custo da ração, e tudo indica que teremos preços mais estáveis, o que é fundamental para a rentabilidade do produtor”, explica Medeiros.

Na área sanitária, a avaliação é de avanço contínuo. “Produtores e toda a cadeia estão atuando de forma incisiva para enfrentar os desafios sanitários, com mais tecnologia, gestão e prevenção”, acrescenta.

Nesse ambiente otimista, a competitividade segue como eixo central da atuação da PEIXE BR em 2026. “Nosso objetivo é ampliar o acesso da piscicultura brasileira aos mercados e garantir que esses ganhos cheguem à porteira. Esse trabalho vem sendo construído ao longo dos últimos 11 anos e já apresenta resultados concretos”, afirma o presidente da entidade.

Porém, apesar dos avanços, a regulação governamental ainda é apontada como o principal entrave ao crescimento do setor. Para enfrentar esse desafio, a associação atua de forma coordenada nos âmbitos estadual e federal, buscando reduzir gargalos e prejuízos à atividade.

Além da agenda institucional, a PEIXE BR mantém projetos estratégicos nas áreas de genética, mercado e tecnologia. “Estamos acelerando iniciativas que envolvem toda a cadeia, da produção ao processamento, com foco em eficiência, inovação e fortalecimento do setor”, conclui Medeiros.

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Safra recorde nos EUA traz viés negativo aos preços do milho

O relatório de janeiro do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) elevou a estimativa de produção de milho do país para 432,4 milhões de toneladas, ante 425,5 milhões no mês anterior, impulsionada por uma produtividade média recorde de 11,7 toneladas por hectare. De acordo com o Itaú BBA, o aumento da oferta amplia a pressão sobre os preços do milho no curto prazo.

“Os números de safra apresentados pelo USDA consolidaram um viés predominantemente baixista para o milho, com a confirmação de uma supersafra nos Estados Unidos e o forte aumento dos estoques, reforçando um cenário de pressão sobre os preços no curto prazo e ampliando a necessidade de produtores e agroindústrias ajustarem suas estratégias de proteção de margens”, afirma Francisco Queiroz, especialista da Consultoria Agro do Itaú BBA.

O estoque final norte-americano avançou 9,8%, alcançando 56,6 milhões de toneladas, o terceiro maior volume da série histórica. As exportações foram mantidas em 81,3 milhões de toneladas. O aumento da produção nos Estados Unidos contribuiu para um maior equilíbrio no quadro global de oferta e demanda, elevando o estoque de passagem da safra 2025/26, ainda que em patamar inferior ao da temporada anterior.

No Brasil, o desenvolvimento da primeira safra manteve-se positivo com as chuvas registradas em dezembro. O retorno das precipitações favoreceu a recuperação de áreas em Minas Gerais. No Maranhão, Piauí, Bahia e Goiás, as lavouras apresentaram reação após o período de estresse hídrico. No Rio Grande do Sul, a colheita teve início com perspectivas favoráveis de produtividade.

Ainda assim, as chuvas de janeiro serão determinantes para a confirmação da produção esperada no país, uma vez que cerca de 50% das lavouras encontram-se em fase reprodutiva.

Para a segunda safra, o ritmo de comercialização de fertilizantes segue alinhado à média em Mato Grosso, Paraná e Mato Grosso do Sul, indicando perspectiva favorável para o plantio nesses estados. Em Goiás, São Paulo e Minas Gerais, no entanto, a aquisição de insumos para a safra 2026 está atrasada, o que torna a decisão de plantio menos clara em função do atraso no cultivo da soja. As definições nessas regiões dependerão da janela de plantio e da evolução das condições climáticas nas próximas semanas.

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2025 foi marcado por safra de soja recorde no Brasil e peso das importações chinesas

O ano de 2025 foi marcado por preocupações climáticas na América do Sul, fator que influenciou os preços ao longo do período. A equipe de Inteligência de Mercado da StoneX apresenta um panorama dos fatos marcantes do mercado de soja em 2025 e as expectativas para 2026.

No Brasil, apesar de uma safra recorde nacional, o Rio Grande do Sul enfrentou perdas expressivas, limitando ainda mais a oferta da oleaginosa no ano passado. Por outro lado, a maioria dos estados brasileiros registrou produtividade favorável ou até mesmo recorde.

Na Argentina, questões climáticas também afetaram o potencial produtivo, mas o país conseguiu colher uma safra robusta, sem grandes ameaças à oferta. Globalmente, com a safra 24/25 consolidada, a produção superou o consumo, resultando em aumento dos estoques e limitando altas significativas nos preços.

A demanda global por soja segue em crescimento anual, porém de forma mais previsível. A produção acompanha esse avanço, e embora o clima possa trazer surpresas, os últimos anos não registraram quebras relevantes que restringissem o balanço do setor.

No cenário internacional, as tensões comerciais entre China e EUA foram destaque, culminando em acordos que restabeleceram o fluxo de exportações após taxações mútuas. A China concentrou suas compras na safra recorde brasileira de 24/25, importando mais de 85 milhões de toneladas. Com o acordo firmado em outubro de 2025, a previsão é de aquisição de 12 milhões de toneladas de soja norte-americana até fevereiro de 2026 e de 25 milhões de toneladas anuais nos próximos três anos, volumes similares aos praticados antes do acirramento comercial.

Perspectivas para o setor em 2026

Para o ciclo 25/26, as projeções permanecem positivas, com o Brasil caminhando para um novo recorde de produção e a Argentina mantendo resultados favoráveis, mesmo com redução de área em relação ao ano anterior. Nos Estados Unidos, a soja perdeu espaço para o milho, com redução de 7% na área plantada, totalizando 32,86 milhões de hectares. Ainda assim, a produção estimada foi robusta, atingindo 116 milhões de toneladas, com produtividade média recorde de 3,56 toneladas por hectare.

O cenário mundial segue com produção acima do consumo, embora a diferença prevista para 2026 deva ser menor. Isso mantém os estoques elevados e limita a possibilidade de altas expressivas nos preços.

Apesar do potencial brasileiro para ampliar produção e exportações, o ritmo de crescimento das importações chinesas já não é tão acelerado quanto nos anos anteriores. Com margens mais apertadas na indústria suína chinesa e ritmo econômico menos intenso, pairam dúvidas sobre o apetite chinês por soja. A China segue como principal mercado, mas nenhum outro país desponta para ocupar seu papel de destaque observado até meados da década passada.

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Entenda a intervenção dos EUA na Groenlândia e os impactos no comércio brasileiro

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou ontem sua ofensiva diplomática contra a Dinamarca, acusando o governo europeu de não afastar a “ameaça russa” da Groenlândia, uma vasta e estratégica região autônoma do território dinamarquês.

Agora, o mandatário norte-americano afirma que “agora chegou a hora, e isso será feito”. A declaração foi feita em sua rede social, onde Trump insistiu que os EUA precisam controlar a ilha por razões de segurança nacional, renovando reivindicações de aquisição que já haviam causado crise internacional.

A escalada americana inclui não apenas declarações agressivas, mas também ameaças de tarifar países aliados que se opõem ao plano, com tarifas de 10% a 25% sobre importações de nações europeias contrárias ao intento dos EUA de assumir o controle de fato da Groenlândia. A União Europeia já tratou o anúncio como um ataque às relações transatlânticas, prometendo resposta coordenada se as medidas forem efetivadas.

A possível intervenção dos EUA na Groenlândia tem múltiplos efeitos geopolíticos e econômicos que transcendem o Atlântico Norte. A Groenlândia está posicionada no centro de rotas marítimas emergentes no Ártico devido ao degelo, abriga vastas reservas de minerais estratégicos (como terras raras, urânio e outros metais críticos) e é geoestrategicamente crucial para monitoramento militar e defesa. A interferência americana, portanto, pode alterar as cadeias de fornecimento global e o acesso a matérias-primas essenciais para tecnologia e energia.

Do ponto de vista econômico brasileiro, a instabilidade e a disputa sobre a soberania da Groenlândia podem impactar o comércio de diversas maneiras. Primeiro, a intensificação de tarifas e retaliações entre EUA e UE tende a desorganizar fluxos comerciais internacionais, elevando custos logísticos e criando insegurança para exportadores que dependem de mercados europeus e norte-americanos. Além disso, a disputa por recursos minerais no Ártico pode afetar mercados de commodities críticos para a indústria de tecnologia brasileira, influenciando preços e disponibilidade de insumos. Choques externos desse tipo tendem a se propagar por meio de cadeias de valor globalizadas, afetando países exportadores de commodities e manufaturados, como o Brasil.

“A intervenção dos EUA na Groenlândia, além de potencialmente violar princípios de soberania previstos no direito internacional, cria um clima de incerteza nas rotas comerciais e nas relações tarifárias que pode repercutir em todos os continentes. O Brasil, como grande exportador de produtos agrícolas e minerais, pode sofrer tanto com barreiras tarifárias quanto com volatilidade nos mercados de commodities”, afirma Fernando Canutto, sócio do Godke Advogados e especialista em Direito Internacional Empresarial.

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Além disso, Canutto explica que o uso de ferramentas econômicas, como tarifas punitivas para fins geopolíticos, representa uma tendência de desglobalização parcial que pode forçar países como o Brasil a repensar suas parcerias comerciais e buscar maior diversificação de mercados e cadeias de suprimentos.

Por fim, a crise envolvendo a Groenlândia expõe fragilidades nas alianças tradicionais, como a Otan, e não deixa de ser curiosa, há décadas, a Europa terceirizou para os EUA sua defesa e a garantia de sua soberania e agora, aquele que garante a paz à Europa, abalou esta paz. Destaca ainda a crescente competição por espaços estratégicos entre grandes potências, com efeitos diretos sobre fluxos comerciais, investimentos estrangeiros e segurança jurídica internacional que repercutem no ambiente de negócios brasileiro. “A reação do Brasil a esse novo cenário, seja por meio de políticas de diversificação de exportações ou de maior protagonismo diplomático, pode ser decisiva para mitigar riscos e aproveitar oportunidades emergentes num ambiente global cada vez mais turbulento”, conclui o advogado internacionalista.

Venezuela exporta ureia ao Brasil, mas tem pouca relevância no mercado global

As recentes tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Venezuela reacenderam a atenção do mercado internacional para possíveis impactos sobre a cadeia global de fertilizantes, especialmente os nitrogenados, informa a StoneX, empresa global de serviços financeiros. No entanto, a Venezuela tem participação limitada no comércio global de ureia, o que reduz o potencial de efeitos estruturais sobre preços e oferta mundial.

De acordo com o analista de Inteligência de Mercado, Tomás Pernías, é comum que grandes produtores de petróleo também tenham relevância na produção de fertilizantes nitrogenados, já que o gás natural — insumo essencial para a fabricação de nitrogenados — está ligado à exploração do petróleo. “Rússia, Argélia, Irã e Catar são exemplos dessa correlação. No caso da Venezuela, apesar de ser uma grande produtora de petróleo, sua presença no mercado global de ureia é bastante modesta”, explica.

Em 2024, a Venezuela ocupou a 18ª posição entre os maiores exportadores globais de ureia, com pouco mais de 560 mil toneladas embarcadas, o equivalente a cerca de 1% das exportações mundiais. Para efeito de comparação, a Rússia respondeu por aproximadamente 18% do comércio global do produto no mesmo período.

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Fornecimento ao Brasil existe, mas não é determinante

Embora tenha baixa relevância global, a Venezuela aparece como fornecedora de ureia para o Brasil. Em 2024, cerca de 6% da ureia importada pelo país teve origem venezuelana. Entre janeiro e novembro de 2025, essa participação recuou levemente, ficando abaixo de 5%.

Os principais parceiros comerciais do Brasil nas importações de ureia em 2025 seguem sendo Nigéria (23%), Rússia (16%) e Catar (15%), o que reforça a diversificação das origens e reduz a dependência de um único fornecedor.

“Até o momento, não há indícios de impactos diretos sobre a capacidade produtiva ou exportadora de fertilizantes da Venezuela”, realça Pernías. “O que o mercado observa, por ora, são pressões pontuais nos custos logísticos, com relatos de fretes marítimos mais elevados em função do aumento das incertezas na região”, conclui.

Crise na Venezuela: impasse político pode encarecer diesel e fertilizantes no Brasil

A atual instabilidade política e social na Venezuela ultrapassa as questões diplomáticas e atinge um ponto sensível da economia global: o mercado de energia. Detentora das maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela ocupa uma posição estratégica que, em momentos de incerteza, gera ondas de volatilidade nos preços internacionais do barril tipo Brent. Para o agronegócio brasileiro, esse cenário não é apenas uma notícia de política externa, mas um fator determinante para o custo de produção da safra 2026. A interrupção ou o endurecimento de sanções contra o país vizinho pode restringir a oferta global, pressionando os preços dos combustíveis e, por consequência, inflacionando toda a cadeia produtiva de alimentos.

Segundo Francisco Monaldi, diretor do Programa de Energia da América Latina no Baker Institute e especialista no setor venezuelano, a produção do país depende criticamente de licenças de operação e estabilidade institucional. Ele alerta que, caso o cenário político leve a um novo isolamento econômico de Caracas por parte das potências ocidentais, o mercado verá uma redução na oferta projetada, o que tende a encarecer o petróleo em um momento de demanda global já bastante apertada. “Se o cenário político levar a um endurecimento das sanções americanas, teremos menos oferta global, o que pressiona os preços para cima em um momento de demanda já apertada”, afirma. Esse aumento atinge o Brasil de forma direta, uma vez que o diesel é o principal combustível utilizado no transporte de grãos e na operação de maquinários agrícolas, elevando o custo do frete e o preço final dos insumos que chegam às fazendas.

Além do impacto direto nos combustíveis, a crise venezuelana afeta indiretamente o mercado de fertilizantes, um dos pilares do agronegócio nacional. A produção de fertilizantes nitrogenados, como a ureia, é altamente dependente do gás natural, cujos preços costumam acompanhar a tendência de alta do petróleo. Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), reforça que a geopolítica voltou a ser o principal motor de incerteza nos mercados de commodities. Com a energia mais cara, o custo de importação de fertilizantes para culturas como milho e soja sobe, reduzindo a margem de lucro do produtor e gerando uma pressão inflacionária que acaba sendo sentida pelo consumidor no supermercado.

A incerteza regional também provoca reflexos no mercado de câmbio. Momentos de tensão política na América Latina tendem a afastar investidores estrangeiros, o que frequentemente resulta na valorização do dólar frente ao real. Como boa parte dos defensivos agrícolas e sementes é precificada na moeda americana, o produtor brasileiro se vê diante de um duplo desafio: o encarecimento logístico e a alta dos insumos importados. Nesse contexto, a crise na Venezuela atua como um catalisador de riscos econômicos, exigindo que o agronegócio brasileiro adote estratégias de gestão cada vez mais rigorosas para mitigar a volatilidade externa e garantir a segurança alimentar e a rentabilidade do setor.

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O dilema da Petrobras: entre o mercado global e o custo interno

No cenário brasileiro, a grande questão é como a Petrobras reagirá a essa pressão externa. Mesmo com o fim da Política de Paridade Internacional (PPI) estrita, o preço do petróleo tipo Brent continua sendo um componente inevitável no cálculo dos custos da companhia. Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), destaca que a Petrobras vive um equilíbrio delicado quando o cenário geopolítico se agrava. Segundo ele, embora a estatal busque amortecer a volatilidade internacional para evitar repasses imediatos ao consumidor, a realidade é que o Brasil ainda importa cerca de 20% a 25% do diesel que consome.

“Se o preço do barril dispara devido à crise na Venezuela ou no Oriente Médio, e a Petrobras segura os preços por muito tempo para evitar a inflação, cria-se uma defasagem perigosa que prejudica a capacidade de investimento da própria empresa e afasta os importadores privados, o que pode até gerar riscos de desabastecimento em períodos de safra”, explica Pires.

Dessa forma, o impacto para o produtor rural acaba sendo uma via de mão dupla. De um lado, há o risco de aumentos escalonados no preço do diesel na bomba; do outro, há a incerteza sobre a estabilidade da oferta, caso a janela de importação seja fechada por uma disparidade muito grande entre o preço interno e o praticado lá fora. Para o agronegócio, essa “conta” da Petrobras é o que define se o custo logístico da colheita será suportável ou se consumirá a rentabilidade do ano.