O vice-presidente Geraldo Alckmin disse que o acordo entre Mercosul e União Europeia deve ser assinado nos “próximos dias” e que o governo brasileiro espera que entre em vigência ainda no ano de 2026. O vice-presidente destacou que o acordo fortalece o multilateralismo, em detrimento do isolacionismo. Para valorizar o potencial do acordo, Alckmin enumerou que a União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do País e fica atrás apenas da China. Inclusive a corrente comercial (somando exportações e importações) no ano passado foi de US$ 100 bilhões.
Um exemplo é que somente a indústria de transformação brasileira exportou US$ 23,6 bilhões para a União Europeia, o que representou um crescimento de 5,4% desse setor (para o mundo, essa elevação foi de 3,8%).
“A União Europeia foi o primeiro ou o segundo destino da exportação de 22 estados brasileiros [no ano passado]”, afirmou o vice-presidente. Alckmin também observou que 30% dos exportadores brasileiros vendem produtos para aquele continente, o que representa mais de 9 mil empresas brasileiras. “Essas empresas exportadoras empregam mais de três milhões de trabalhadores, disse ele.
A Fazenda Conectada Case IH apresenta novos resultados após o fechamento da safra 2024/25. Fruto da parceria da Case IH, marca da CNH, com a TIM, líder em cobertura no agronegócio, a fazenda real de mais de 3 mil hectares foi transformada em um laboratório de inovação e produtividade.
Com safra recorde, a produção total foi de 14.054 toneladas, com produtividade média de 75 sacas por hectare. Com isso, ela foi 19% mais produtiva do que a região em que está, 14% maior do que em relação ao estado de Mato Grosso, além de ser 27% mais produtiva do que a média brasileira durante o mesmo período, segundo dados da Conab.
“A Fazenda Conectada é um laboratório vivo de inovação e produtividade. Esse bom desempenho é resultado de um conjunto de fatores como boas práticas de manejo, tomada de decisão orientada pela gestão de dados, capacitação de pessoas e uso de tecnologias de ponta, que vão desde o preparo do solo até a colheita. Isso garantiu menor custo de produção e maior rendimento, fatores essenciais para o produtor rural que tem enfrentado um cenário desafiador nos últimos tempos”, comenta Leandro Conde, diretor de Marketing e Comunicação da Case IH para América Latina.
Além dos resultados agronômicos, o projeto evoluiu para um modelo com práticas de agricultura regenerativa, com integração de tecnologias que restauram o solo, reduzem emissões e aumentam a eficiência operacional.
Para essa última safra, a Fazenda Conectada Case IH recebeu novas tecnologias em todas as etapas do ciclo produtivo, como o XactPlanting, que fornece plantio inteligente com controle individualizado; FieldXplorer, que faz o mapeamento e monitoramento por imagem aérea; e o FarmXtend; estação meteorológica que fornece dados localizados em tempo real.
Para avaliar o impacto dessas novas tecnologias na redução das emissões de carbono, foi realizada uma comparação entre as safras 23/24 e 24/25. O estudo considerou as emissões de carbono associadas ao consumo de combustível e ao uso de agrodefensivos nos talhões mais produtivos onde as soluções foram aplicadas. O resultado foi uma redução de 23,6% de toneladas de CO2e por saca de soja.
Segundo Alexandre Dal Forno, diretor de IoT e 5G da TIM, o resultado reforça o papel estratégico da conectividade no ganho de eficiência e produtividade do campo. “O 4G habilita a transformação digital no agronegócio, permitindo a criação de um ecossistema que potencializa cada etapa do ciclo produtivo. Na Fazenda Conectada, conseguimos novamente demonstrar a importância da conectividade, que além de habilitar a telemetria das máquinas e o monitoramento em tempo real, garante a previsibilidade, sustentabilidade do negócio e eficiência operacional ao produtor. A conectividade não é custo, mas um investimento fundamental para a digitalização do agronegócio brasileiro”.
O estudo é conduzido pela Agricef em parceria com a Unicamp, e tem como foco avaliar os impactos da conectividade e da tecnologia na eficiência operacional, sustentabilidade e viabilidade econômica da produção agrícola.
Evolução do Projeto
Ano após ano, o projeto tem mostrado como a tecnologia e conectividade aplicadas com inteligência transformam a produtividade e a sustentabilidade no campo, além de potencializar a integração de pessoas e reduzir custos operacionais.
Ao comparar os dados da última safra com a de 22/23, já com conectividade, a Fazenda Conectada Case IH vem apresentando uma construção contínua de gestão integrada de dados com impacto direto na eficiência das operações e no rendimento.
A safra 24/25 produziu 1.138 toneladas a mais do que a safra 22/23 e foi 10% mais produtiva do que a de 22/23, tendo avançado de 68 sacas/ha para 75 sacas/ha.
Entre os ganhos em diferentes etapas do ciclo produtivo está o redimensionamento da frota, com redução de um trator e uma plantadeira entregando mais resultado e reduzindo custos com combustível e manutenção. Na colheita, houve o aumento de 25% na média de área colhida por dia, reduzindo em 8 dias a janela de colheita, importante considerando que o período está cada vez mais curto.
Foto: Divulgação / Case IH
Isso tudo garantiu uma economia de 32% no consumo de combustível graças ao acompanhamento em tempo real de toda a frota que, entre diversos benefícios, proporcionou redução do tempo de motor ocioso e melhor uso do maquinário.
A gestão integrada também impactou positivamente nas despesas gerais. Houve redução de 7% no custo por hectare, uma economia total de mais de R$ 1 mi, em relação ao início do projeto, com impacto significativo em redução de insumos com uso de tecnologia e tomada de decisão baseada em dados gerados em tempo real.
“A safra 22/23 foi a primeira que apresentamos o impacto da conectividade no campo e esses novos dados de crescimento mostram a evolução na rotina da fazenda, principalmente no monitoramento diário de indicadores conectados à operação e na gestão de equipe, com capacitação e desenvolvimento de plano de carreira alinhado aos resultados”, explica Conde.
Sobre a Fazenda Conectada Case IH
Lançada em 2021, a Fazenda Conectada recebeu o projeto 4G TIM no Campo, que permitiu reunir todas as soluções avançadas da Case IH e transformar a fazenda em um verdadeiro laboratório de Agricultura Digital. O objetivo é demonstrar como a conectividade pode aumentar a produtividade no campo, mesmo em uma região que já apresenta alto rendimento safra após safra.
As duas antenas instaladas para o projeto facilitaram o dia a dia de mais de 25 mil habitantes de Água Boa, com sinal de internet para mais de 27 escolas e universidades, além de 10 hospitais e unidades de saúde que não possuíam acesso à rede 4G, mostrando que levar conectividade ao campo também promove benefícios para toda a sociedade do entorno.
Para os próximos ciclos, estão previstos a implantação de novas tecnologias, como o drones de aplicação, a tecnologia de pulverização seletiva SaveFarm, e outras soluções que reforçam o posicionamento da Case IH como líder em inovação no agronegócio.
Após mais de 25 anos de negociações, os países da União Europeia aprovaram provisoriamente o acordo comercial com o Mercosul, abrindo caminho para a assinatura do tratado que cria a maior área de livre comércio do mundo. O pacto envolve um mercado de cerca de 451 milhões de consumidores europeus e deve produzir impactos relevantes para o Brasil, especialmente no agronegócio, principal motor das exportações do bloco sul-americano.
Altair Heitor, contador e CFO da consultoria Palin & Martins, afirma que o acordo muda estruturalmente o posicionamento do agro brasileiro no comércio internacional. “Estamos falando de um redesenho de acesso ao mercado. A redução gradual de tarifas e a previsibilidade regulatória criam um ambiente mais competitivo para o produtor brasileiro, mas também elevam o nível de exigência”, diz. Segundo ele, o tratado não é apenas uma oportunidade comercial, mas um teste de organização e conformidade para o setor.
Dados do Ministério da Agricultura mostram que o agronegócio respondeu por cerca de 49% das exportações brasileiras em 2025, com a União Europeia figurando entre os principais destinos. Produtos como soja, carnes, açúcar, café e suco de laranja concentram boa parte desse fluxo. Com o acordo, tarifas de importação devem ser reduzidas ou eliminadas de forma escalonada, ampliando a competitividade desses itens frente a outros fornecedores globais.
Impactos diretos no agro
Na avaliação de Altair Heitor, o principal ganho imediato está no acesso ampliado e mais previsível ao mercado europeu. “O produtor passa a competir em condições mais claras. Isso tende a melhorar margens e estimular investimentos, sobretudo em cadeias já consolidadas”, afirma. Ao mesmo tempo, ele destaca que o acordo impõe padrões rigorosos. “A Europa exige rastreabilidade, compliance ambiental e organização fiscal. Quem não se estruturar corre o risco de ficar fora”, alerta.
Estimativas da Comissão Europeia indicam que o comércio bilateral entre os blocos pode crescer dezenas de bilhões de euros ao longo dos próximos anos, com efeitos positivos sobre renda, emprego e investimentos. Para o Brasil, o agronegócio aparece como o principal beneficiado no curto e médio prazos, enquanto a indústria tende a sentir os efeitos de forma mais gradual.
Reflexos tributários e oportunidades no agro brasileiro
Além do impacto comercial, o acordo tende a intensificar efeitos tributários já conhecidos do agronegócio exportador. A ampliação das exportações para a União Europeia aumenta o volume de operações imunes ou com alíquota zero de ICMS, PIS e COFINS, o que, na prática, gera acúmulo de créditos tributários ao longo da cadeia produtiva.
“Exportar mais não significa, automaticamente, melhorar o fluxo de caixa”, explica Altair Heitor. “O produtor e a agroindústria continuam pagando tributos na aquisição de insumos, energia, logística e serviços, mas não geram débitos na saída. Sem estratégia, esses créditos ficam parados e viram custo financeiro”, afirma.
Nesse cenário, ganham relevância ações como revisão da cadeia de comercialização, estruturação correta das operações de exportação, análise de aproveitamento de créditos e projetos de recuperação e monetização de créditos acumulados, especialmente de ICMS.
Por que demorou tanto
O acordo começou a ser negociado em 1999 e enfrentou sucessivos entraves políticos e econômicos. A resistência de países europeus, especialmente França e Irlanda, sempre esteve ligada ao temor de concorrência com produtos agrícolas do Mercosul, considerados mais baratos e sujeitos a regras ambientais distintas. “A demora reflete um conflito clássico entre abertura comercial e proteção de setores sensíveis”, explica Heitor.
Nos últimos anos, a agenda ambiental e as pressões internas de agricultores europeus ampliaram a complexidade das negociações. A sinalização favorável de países-chave, como a Itália, foi decisiva para destravar a aprovação provisória. O acordo avança mesmo diante da oposição de parte do bloco, o que reforça seu peso geopolítico.
Como o setor deve se preparar
Para aproveitar o novo cenário, o especialista defende planejamento técnico e visão estratégica. “Não basta vender mais. É preciso revisar processos, adequar documentação fiscal, investir em compliance e garantir rastreabilidade. O acordo premia quem está organizado”, afirma. Segundo ele, empresas que se anteciparem tendem a capturar ganhos mais rapidamente, enquanto outras podem enfrentar barreiras não tarifárias.
Ele destaca ainda que o tratado fortalece o papel do Brasil no comércio global. “O agro brasileiro ganha relevância estratégica, mas isso vem acompanhado de responsabilidade. A oportunidade é histórica, mas exige profissionalização”, conclui.
O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, e alguns setores empresariais comemoram a conclusão provisória das negociações do acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul, iniciadas há 25 anos. O Conselho da União Europeia (UE), no entanto, ainda não anunciou oficialmente a assinatura do acordo. “O acordo UE-Mercosul é um marco na política comercial europeia e um forte sinal da nossa soberania estratégica e capacidade de ação”, escreveu Merz em sua conta no X.
A ministra das Relações Exteriores da Áustria, Beate Meinl-Reisinger, também usou as redes sociais para expressar seu contentamento com a notícia, apesar de seu país ter votado contrariamente à iniciativa. “Estou emocionada! Finalmente, há uma maioria entre os Estados-membros da UE para [a assinatura] do acordo com o Mercosul”, afirmou Beate na rede social.
“Não é nenhum segredo que eu esperava que a Áustria apoiasse o acordo também. Porque uma coisa é clara: nossa economia, nossos negócios e nossa prosperidade se beneficiarão enormemente disso”, acrescentou a ministra, defendendo que a Áustria aprofunde as relações comerciais com outras nações, começando pela Índia, país com o qual a Áustria já negocia um acordo bilateral.
“Isso é especialmente crucial, pois a ordem global está passando por mudanças maciças – a Europa, e a Áustria também precisa de novos parceiros. Temos agora de aprofundar os nossos laços com outras regiões do mundo”, defendeu Beate.
De acordo com o ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural da Polônia, Stefan Krajewski, além de seu país e da Áustria, os embaixadores da França, Hungria e da Irlanda também se manifestaram contra o acordo. “Se a Itália estivesse do nosso lado, o acordo seria bloqueado”, lamentou Krajewski.
“Infelizmente, as consequências desta decisão afetarão todos nós. Repito o que tenho dito: vamos proteger os agricultores poloneses”, acrescentou o ministro, destacando que o Parlamento polonês já vem propondo mecanismo legais para proteger os setores produtivos de seu país e para garantir eventuais compensações ao setor agrícola.
Indústria
Em nota, a Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (Acea) afirmou que o apoio da maioria dos Estados-membros ao acordo UE-Mercosul é um “momento marcante e um sinal claro de que a Europa quer manter uma economia forte, aberta e focada no comércio”.
Segundo a entidade, a assinatura do acordo reduzirá, “de forma muito significativa”, as tarifas sobre os automóveis fabricados na UE (atualmente, de até 35%), resolverá os obstáculos técnicos ao livre-comércio entre os dois blocos e reforçará as cadeias de abastecimento de matérias-primas críticas.
Prazo
Segundo a agência de notícias Reuters, ao menos 15 países, que juntos representam pelo menos 65% da população total do bloco europeu, votaram a favor da assinatura, conforme o exigido. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen deve viajar ao Paraguai já na próxima semana para ratificar o acerto com os os países-membros do Mercosul. O Parlamento Europeu ainda precisa aprovar o acordo para que ele possa entrar em vigor.
Um estudo realizado pela Embrapa revelou que o trigo produzido no Brasil tem uma pegada de carbono menor que a média mundial e indicou caminhos concretos para reduzir ainda mais as emissões de gases de efeito estufa. A análise, feita em lavouras e indústria moageira do Sudeste do Paraná, apontou que a adoção de práticas sustentáveis e tecnologias já disponíveis pode diminuir em até 38% o impacto ambiental da produção de trigo no País.
Publicada no periódico científico Journal of Cleaner Production, a pesquisa é a primeira na América do Sul a estimar a pegada de carbono do trigo desde o cultivo até a produção de farinha. Também foi o primeiro estudo do tipo nessa cultura em ambiente subtropical. O índice médio brasileiro ficou em 0,50 kg de dióxido de carbono equivalente (CO₂eq) por quilo de trigo produzido — abaixo da média global, estimada em 0,59 kg.
Para chegar a esse resultado, os pesquisadores avaliaram 61 propriedades rurais na safra 2023/2024, além de acompanhar todo o processo industrial em uma moageira paranaense. O levantamento detalhou desde o uso de fertilizantes e defensivos agrícolas até o transporte dos grãos, secagem, moagem e transformação dos grãos em farinha.
Fertilizantes nitrogenados são principais emissores de CO2
A pesquisa apontou os fertilizantes como o principal fator de pegada de carbono na triticultura. O maior impacto está na emissão de óxido nitroso (N₂O) gerado durante a aplicação de ureia, fertilizante capaz de emitir 40% dos gases de efeito estufa envolvidos na produção de trigo. A ureia é o principal fertilizante utilizado no trigo devido ao menor custo por unidade de nutriente dentre os adubos nitrogenados disponíveis no mercado. Segundo a pesquisa, a substituição desse fertilizante pelo nitrato de amônio com calcário (CAN) pode reduzir a emissão de carbono em 4%, minimizando significativamente os impactos ambientais.
A acidificação do solo, uma das categorias com maior impacto ambiental, também pode ser mitigada pela substituição da ureia pelo CAN. “Quando a ureia não é totalmente absorvida pelas plantas ou é lixiviada como nitrato, ocorrem reações que liberam íons de hidrônio, aumentando a acidez do solo. Em contrapartida, fertilizantes à base de CAN ajudam a neutralizar esse efeito devido ao seu conteúdo de cálcio”, explica a pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente (SP) Marília Folegatti. Segundo ela, outras tecnologias também devem ser consideradas para reduzir a dependência de fertilizantes sintéticos e minimizar impactos ambientais, como biofertilizantes, biopesticidas, fertilizantes de liberação lenta e nanofertilizantes. Ela lembra que a pesquisa avança na produção de ureia verde e nitrato de amônio a partir de fontes de energia renováveis.
Foto: Luiz Magnante
A pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical (CE) Maria Cléa Brito de Figueiredo lembra que o uso de fertilizantes nitrogenados é também o maior emissor de gases de efeito estufa em outras culturas com pegada de carbono e hídrica analisadas pela Embrapa, como as fruteiras tropicais, em especial, manga, melão e coco verde. “Além disso, a produção de fertilizantes sintéticos gera metais pesados que contribuem para a contaminação do solo, podendo afetar a qualidade dos alimentos, a saúde humana e os ecossistemas”, alerta a cientista.
A pesquisa também aponta que a adoção de cultivares de trigo mais produtivas pode reduzir os impactos ambientais no campo, já que ação promove maior rendimento com menos recursos, como terra e água. O estudo ressalta ainda a importância de considerar outros fatores ambientais, como biodiversidade e saúde do solo. Futuros estudos que integrem esses aspectos poderão oferecer uma visão mais abrangente sobre a sustentabilidade da produção de trigo em regiões tropicais e subtropicais.
As recentes tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Venezuela reacenderam a atenção do mercado internacional para possíveis impactos sobre a cadeia global de fertilizantes, especialmente os nitrogenados, informa a StoneX, empresa global de serviços financeiros. No entanto, a Venezuela tem participação limitada no comércio global de ureia, o que reduz o potencial de efeitos estruturais sobre preços e oferta mundial.
De acordo com o analista de Inteligência de Mercado, Tomás Pernías, é comum que grandes produtores de petróleo também tenham relevância na produção de fertilizantes nitrogenados, já que o gás natural — insumo essencial para a fabricação de nitrogenados — está ligado à exploração do petróleo. “Rússia, Argélia, Irã e Catar são exemplos dessa correlação. No caso da Venezuela, apesar de ser uma grande produtora de petróleo, sua presença no mercado global de ureia é bastante modesta”, explica.
Em 2024, a Venezuela ocupou a 18ª posição entre os maiores exportadores globais de ureia, com pouco mais de 560 mil toneladas embarcadas, o equivalente a cerca de 1% das exportações mundiais. Para efeito de comparação, a Rússia respondeu por aproximadamente 18% do comércio global do produto no mesmo período.
Fornecimento ao Brasil existe, mas não é determinante
Embora tenha baixa relevância global, a Venezuela aparece como fornecedora de ureia para o Brasil. Em 2024, cerca de 6% da ureia importada pelo país teve origem venezuelana. Entre janeiro e novembro de 2025, essa participação recuou levemente, ficando abaixo de 5%.
Os principais parceiros comerciais do Brasil nas importações de ureia em 2025 seguem sendo Nigéria (23%), Rússia (16%) e Catar (15%), o que reforça a diversificação das origens e reduz a dependência de um único fornecedor.
“Até o momento, não há indícios de impactos diretos sobre a capacidade produtiva ou exportadora de fertilizantes da Venezuela”, realça Pernías. “O que o mercado observa, por ora, são pressões pontuais nos custos logísticos, com relatos de fretes marítimos mais elevados em função do aumento das incertezas na região”, conclui.
A atual instabilidade política e social na Venezuela ultrapassa as questões diplomáticas e atinge um ponto sensível da economia global: o mercado de energia. Detentora das maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela ocupa uma posição estratégica que, em momentos de incerteza, gera ondas de volatilidade nos preços internacionais do barril tipo Brent. Para o agronegócio brasileiro, esse cenário não é apenas uma notícia de política externa, mas um fator determinante para o custo de produção da safra 2026. A interrupção ou o endurecimento de sanções contra o país vizinho pode restringir a oferta global, pressionando os preços dos combustíveis e, por consequência, inflacionando toda a cadeia produtiva de alimentos.
Segundo Francisco Monaldi, diretor do Programa de Energia da América Latina no Baker Institute e especialista no setor venezuelano, a produção do país depende criticamente de licenças de operação e estabilidade institucional. Ele alerta que, caso o cenário político leve a um novo isolamento econômico de Caracas por parte das potências ocidentais, o mercado verá uma redução na oferta projetada, o que tende a encarecer o petróleo em um momento de demanda global já bastante apertada. “Se o cenário político levar a um endurecimento das sanções americanas, teremos menos oferta global, o que pressiona os preços para cima em um momento de demanda já apertada”, afirma. Esse aumento atinge o Brasil de forma direta, uma vez que o diesel é o principal combustível utilizado no transporte de grãos e na operação de maquinários agrícolas, elevando o custo do frete e o preço final dos insumos que chegam às fazendas.
Além do impacto direto nos combustíveis, a crise venezuelana afeta indiretamente o mercado de fertilizantes, um dos pilares do agronegócio nacional. A produção de fertilizantes nitrogenados, como a ureia, é altamente dependente do gás natural, cujos preços costumam acompanhar a tendência de alta do petróleo. Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), reforça que a geopolítica voltou a ser o principal motor de incerteza nos mercados de commodities. Com a energia mais cara, o custo de importação de fertilizantes para culturas como milho e soja sobe, reduzindo a margem de lucro do produtor e gerando uma pressão inflacionária que acaba sendo sentida pelo consumidor no supermercado.
A incerteza regional também provoca reflexos no mercado de câmbio. Momentos de tensão política na América Latina tendem a afastar investidores estrangeiros, o que frequentemente resulta na valorização do dólar frente ao real. Como boa parte dos defensivos agrícolas e sementes é precificada na moeda americana, o produtor brasileiro se vê diante de um duplo desafio: o encarecimento logístico e a alta dos insumos importados. Nesse contexto, a crise na Venezuela atua como um catalisador de riscos econômicos, exigindo que o agronegócio brasileiro adote estratégias de gestão cada vez mais rigorosas para mitigar a volatilidade externa e garantir a segurança alimentar e a rentabilidade do setor.
O dilema da Petrobras: entre o mercado global e o custo interno
No cenário brasileiro, a grande questão é como a Petrobras reagirá a essa pressão externa. Mesmo com o fim da Política de Paridade Internacional (PPI) estrita, o preço do petróleo tipo Brent continua sendo um componente inevitável no cálculo dos custos da companhia. Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), destaca que a Petrobras vive um equilíbrio delicado quando o cenário geopolítico se agrava. Segundo ele, embora a estatal busque amortecer a volatilidade internacional para evitar repasses imediatos ao consumidor, a realidade é que o Brasil ainda importa cerca de 20% a 25% do diesel que consome.
“Se o preço do barril dispara devido à crise na Venezuela ou no Oriente Médio, e a Petrobras segura os preços por muito tempo para evitar a inflação, cria-se uma defasagem perigosa que prejudica a capacidade de investimento da própria empresa e afasta os importadores privados, o que pode até gerar riscos de desabastecimento em períodos de safra”, explica Pires.
Dessa forma, o impacto para o produtor rural acaba sendo uma via de mão dupla. De um lado, há o risco de aumentos escalonados no preço do diesel na bomba; do outro, há a incerteza sobre a estabilidade da oferta, caso a janela de importação seja fechada por uma disparidade muito grande entre o preço interno e o praticado lá fora. Para o agronegócio, essa “conta” da Petrobras é o que define se o custo logístico da colheita será suportável ou se consumirá a rentabilidade do ano.
O resumo da ópera é: 2025 foi o ano do volume e da receita bruta; 2026 será o ano da eficiência e da gestão de margem. O dinheiro ficou mais caro e o mercado internacional, mais incerto.
Breve análise de 2025: a “supersafra” com alerta ligado
2025 entra para a história como um ano de pujança produtiva, mas que escondeu fragilidades financeiras no balanço dos produtores.
A força do PIB e exportações: O agronegócio foi a âncora econômica do Brasil, com um crescimento do PIB setorial projetado próximo a 9% e exportações batendo recordes (superando US$ 80 bilhões já no primeiro semestre). Soja, milho, algodão e café foram os grandes motores.
O paradoxo do lucro: Apesar da receita bruta altíssima (VBP recorde), a rentabilidade real caiu. O custo de produção (insumos, diesel, maquinário) continuou alto e os preços das commodities se estabilizaram ou caíram.
A inadimplência: O dado mais preocupante de 2025 foi o aumento dos pedidos de recuperação judicial e a inadimplência no crédito rural, que atingiu níveis recordes (acima de 11% em algumas carteiras). O produtor colheu muito, mas o dinheiro que sobrou no bolso foi pouco para pagar as contas acumuladas.
Tendências para 2026: o ano da eficiência
Se 2025 foi sobre “produzir mais”, 2026 será sobre “gastar melhor”. A projeção é de um crescimento de PIB bem mais modesto (cerca de 1%), sinalizando uma desaceleração.
1. Economia e crédito: “cinto apertado”
Crédito restrito: Com a inadimplência de 2025, os bancos estarão mais seletivos e os juros continuarão salgados. O produtor terá que usar mais capital próprio (“cash burn”) para financiar a safra.
Gestão profissional: Não haverá espaço para amadorismo. A tendência é que a gestão financeira “antes da porteira” (hedge, seguro, compra antecipada de insumos) seja mais determinante para o lucro do que a própria produtividade no campo.
2. Produção: o ciclo da pecuária e grãos
Boi gordo em alta: O ciclo pecuário virou. Após o abate excessivo de fêmeas em 2024/25, haverá menos bezerros e menos bois disponíveis em 2026. Isso deve pressionar a arroba para cima, recuperando a margem do pecuarista, mas encarecendo a carne para o consumidor.
Soja vs. Milho: A soja deve continuar crescendo em área (+3%), mas o milho (especialmente a segunda safra) e o arroz devem perder espaço devido aos custos e riscos climáticos.
3. Tecnologia: de “diferencial” para “obrigação”
IA preditiva: a Inteligência Artificial sai do campo da “curiosidade” para a gestão de risco. Ferramentas que preveem o melhor momento de venda ou compra de insumos serão essenciais para proteger as margens estreitas.
Conectividade e nuvem: A gestão baseada em dados (data-driven) exigirá que a fazenda esteja conectada. A tendência é a “cloudificação” total dos sistemas de gestão das fazendas.
4. Geopolítica e Clima
Fator Trump e China: Com o cenário político nos EUA, existe o temor de guerras comerciais. Se os EUA sobretaxarem a China, o Brasil pode ganhar mercado na soja, mas perder competitividade se houver tarifas generalizadas ou protecionismo americano.
La Niña / clima: O clima continua errático. A instabilidade nas chuvas exigirá mais investimento em seguros rurais (que estão caros) e tecnologias de resistência à seca (bioinsumos).
A partir de 2026, todos os produtores rurais do Brasil, pessoa física ou jurídica, passarão a ter CNPJ obrigatório para o exercício de suas atividades. A medida faz parte das mudanças previstas na Reforma Tributária e uniformiza uma exigência que, até então, era realidade principalmente em estados como São Paulo. A alteração vai além de uma formalidade cadastral e terá impactos diretos na emissão de notas fiscais e no enquadramento do produtor rural frente aos novos tributos, que entram em fase de testes em 2026 e passam a valer de forma definitiva a partir de 2027.
A advogada Viviane Morales, diretora administrativa da Lastro, explica que a obrigatoriedade do CNPJ para o produtor rural será nacional. “Quem ainda utilizava apenas o CPF precisará se adaptar, e essa adaptação deve ser feita com planejamento, porque o CNPJ será a base de toda a vida fiscal do produtor nos próximos anos”, alerta.
Com a reforma tributária, o produtor rural continuará obrigado a emitir nota fiscal, mas passará por um período de transição em 2026, quando muitos ainda estarão emitindo documentos com CPF até a migração definitiva para o CNPJ. Sendo assim, a recomendação é antecipar esse movimento para evitar inconsistências cadastrais. Além disso, a Receita Federal adotará o chamado CNPJ alfanumérico, que combina letras e números. A mudança técnica será necessária diante do aumento expressivo no número de registros, especialmente entre produtores que nunca tiveram CNPJ. Para produtores rurais do estado de São Paulo, a exigência não é novidade. No entanto, aqueles que possuem propriedades em outros estados precisam redobrar a atenção, como explica o advogado Gustavo Venâncio, diretor comercial e de marketing da Lastro. “Produtores paulistas com fazendas fora do estado precisarão estruturar esses CNPJs como filiais, mantendo a mesma composição societária. Um erro nesse processo pode gerar problemas fiscais”, pontua o advogado.
Por isso, é fundamental que o produtor rural organize desde já sua documentação; avalie a estrutura correta do CNPJ, principalmente em casos de propriedades em mais de um estado; evite abrir cadastros sem orientação técnica e entenda como o novo CNPJ impactará sua tributação a partir de 2027. “O produtor rural precisa enxergar o CNPJ não como uma obrigação isolada, mas como uma peça-chave para sua segurança tributária nos próximos anos. Fazer isso da forma correta agora é o que vai garantir tranquilidade no futuro”, conclui Venâncio.
É fundamental ainda reforçar que o ano de 2026 será um período de teste da Reforma Tributária e, segundo Viviane Morales é importante que o produtor rural entenda que é também um ano decisivo para organização interna e adaptação às mudanças. “Quem entrar nesse processo sem planejamento corre o risco de enfrentar problemas fiscais no futuro. Informação e orientação especializada serão fundamentais”, reforça a especialista.
O ano de 2025 entra para a história recente da avicultura brasileira como um dos anos mais desafiadores. O setor enfrentou pressão sanitária global, instabilidade geopolítica, custos de produção elevados e restrições comerciais temporárias em mercados-chave. Mesmo assim, a cadeia mostrou capacidade de adaptação, coordenação institucional e resiliência produtiva.
A ação conjunta do Governo Federal, por meio do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e de entidades estaduais foi decisiva para conter danos e recuperar a confiança externa. Missões técnicas, diplomacia sanitária ativa e transparência nos controles sustentaram a reabertura gradual de importantes destinos ao longo do segundo semestre, reposicionando o Brasil como fornecedor confiável de proteína animal.
Os sinais de retomada já aparecem nos números do comércio exterior. Dados preliminares indicam que as exportações de carne de frango em dezembro devem superar 500 mil toneladas, o que levará o acumulado do ano a mais de 5 milhões de toneladas. Esse avanço ocorre em paralelo a uma gestão mais cautelosa da oferta: o alojamento de 559 milhões de pintos em novembro ficou abaixo das projeções iniciais, próximas de 600 milhões. O ajuste ajudou a equilibrar oferta e demanda e a dar previsibilidade ao mercado.
Para 2026, o cenário é positivo. A agenda econômica global tende a impulsionar o consumo de proteínas, com a retomada de mercados emergentes e regiões em recuperação. Nesse contexto, o Brasil – e, em especial, o Paraná, líder nacional – está bem-posicionado para atender ao mercado interno e aos principais compradores internacionais.
Investimentos contínuos para promover o bem-estar animal, biosseguridade e sustentabilidade reforçam essa perspectiva. A modernização de sistemas produtivos, o fortalecimento de protocolos sanitários e a adoção de práticas alinhadas às exigências ESG elevam o padrão da produção e ampliam a competitividade. Mais do que reagir, a avicultura brasileira se prepara para liderar, oferecendo proteína de alta qualidade, segura e produzida de forma responsável.
Depois de um ano de provas e aprendizados, o setor está ainda mais robusto e inicia 2026 com fundamentos sólidos, confiança renovada e expectativa de crescimento sustentável, reafirmando seu papel estratégico na segurança alimentar global.
*Presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Avícolas do Estado do Paraná (Sindiavipar).