Varejo brasileiro sobe 4,2% no segundo trimestre de 2026

O comércio varejista brasileiro registrou uma alta de 4,2% no segundo trimestre de 2026 em comparação ao mesmo período do ano anterior. O resultado, impulsionado por uma reação expressiva no mês de junho, foi divulgado pelo Índice do Varejo Stone (IVS). Após dois meses consecutivos de retração, as vendas de junho avançaram 1,1% frente a maio e expressivos 5,7% no confronto anual, sinalizando que o mercado de trabalho aquecido e o nível de renda começam a blindar o setor contra os impactos do crédito caro.

A recuperação observada em junho interrompe uma sequência incômoda de quedas que vinha acendendo o alerta no setor. Segundo o levantamento, a melhora nas condições de emprego e a resiliência da renda das famílias foram os grandes pilares para este fechamento de trimestre positivo.

Contudo, o cenário macroeconômico ainda exige cautela. O endividamento persistente das famílias e as taxas de juros elevadas continuam a funcionar como um freio para uma arrancada mais vigorosa do consumo de bens duráveis.

Diante desse cenário de crédito restrito e necessidade de máxima eficiência, muitas empresas do setor têm recorrido à inteligência de dados para reter clientes e otimizar vendas. Ferramentas de tecnologia focadas em hiperpersonalização, como a Customer Data Platform, têm se tornado essenciais para que os varejistas consigam unificar as informações de seus consumidores, prevendo comportamentos de compra e melhorando a conversão mesmo em períodos de maior cautela no consumo.

Os números apurados em junho indicam um resgate importante do ritmo de vendas do comércio após a perda de tração nos dois meses anteriores. Esse movimento de ajuste permitiu que o varejo finalizasse o período entre abril e junho com um desempenho consolidado acima do patamar registrado no mesmo intervalo do ano anterior.

A expectativa é que o início de um ciclo de corte de juros traga um alívio gradual ao comércio, embora os reflexos práticos na economia real costumem demorar alguns meses para serem sentidos pelo consumidor final.

O crescimento de junho foi disseminado, com cinco dos oito segmentos pesquisados registrando taxas positivas na comparação com o mês anterior:

Material de Construção: +2,1%

Outros Artigos de Uso Pessoal e Doméstico: +2,0%

Móveis e Eletrodomésticos: +1,3%

Supermercados, Alimentos, Bebidas e Fumo: +1,0%

Artigos Farmacêuticos: +0,6%

Em contrapartida, o setor de Livros, Jornais, Revistas e Papelaria amargou a maior queda mensal, despencando 6,7%, seguido por recuos em Combustíveis (-1,8%) e no setor de Tecidos, Vestuário e Calçados (-1,1%).

O cenário na comparação anual (Junho 2026 vs. Junho 2025)

Quando o retrovisor aponta para o mesmo mês do ano anterior, o cenário é de otimismo generalizado: todos os segmentos avaliados registraram expansão. O destaque ficou com o setor de Combustíveis e Lubrificantes (+7,6%) e o canal de Supermercados e Alimentos (+7,4%), seguidos de perto por Material de Construção (+6,8%), Livros, Jornais, Revistas e Papelaria (+6,3%) e Móveis e Eletrodomésticos (+5,9%). Completando a lista, o setor de Outros Artigos de Uso Pessoal e Doméstico subiu 5,1%, Artigos Farmacêuticos cresceram 3,2% e Tecidos, Vestuário e Calçados avançaram 2,6%.

Um dos dados mais robustos do levantamento indica que todas as 27 unidades da federação registraram crescimento nas vendas em junho na comparação anual. No entanto, a intensidade dessa retomada varia drasticamente conforme a região geográfica.

O desempenho regional destacou-se pela força das economias nortistas, que dominaram o topo do ranking de crescimento anual. Roraima figurou como o principal expoente do varejo no período, registrando uma expressiva alta de 13,2%, seguido de perto pelo Pará, que alcançou 10,3%. O vigor da região Norte manteve-se consistente com as marcas de Rondônia (10,0%) e Amapá (9,9%), enquanto Sergipe, representando o Nordeste, completou o grupo de maior ascensão com um avanço de 9,6% nas vendas. O crescimento na região Norte ainda foi reforçado pelos desempenhos do Acre (+8,4%) e do Amazonas (+7,2%).

Nos estados que concentram o maior PIB do país, os números mostraram solidez: Minas Gerais cresceu 6,4%, seguido por São Paulo (+5,4%), Rio de Janeiro (+4,8%) e Paraná (+4,3%).

Na ponta oposta, o menor ritmo de expansão foi registrado no Distrito Federal, que beirou a estabilidade com apenas 0,1% de alta. Piauí (+1,4%), Rio Grande do Sul (+2,3%) e Rio Grande do Norte (+3%) também caminharam abaixo da média nacional de crescimento.

De acordo com a análise do índice, esse mapeamento revela como as desigualdades estruturais brasileiras influenciam o consumo direto nas pontas. A velocidade com que cada unidade federativa retoma o ritmo de vendas permanece intimamente ligada a fatores locais, como as taxas de emprego locais, o acesso a linhas de financiamento regionais e a capacidade financeira das famílias em cada estado.

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Reconfiguração das cadeias de suprimento globais coloca Brasil em posição estratégica, aponta relatório da ABIN

por Jayme Vasconcellos*

A edição 2026 de Desafios de Inteligência, publicação da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), destaca que a reconfiguração das cadeias de suprimento globais tornou-se um dos temas mais decisivos para a segurança econômica do Brasil. O documento aponta fatores que transformaram profundamente a logística mundial — como a ascensão da China, a pandemia de Covid-19, o reposicionamento estratégico dos Estados Unidos e o uso crescente de instrumentos de “guerra econômica” entre grandes potências. Nesse cenário, o País enfrenta um “equilíbrio difícil”: precisa manter relações pragmáticas com todos os polos de poder enquanto protege setores críticos e amplia sua competitividade.

O movimento de ruptura das cadeias globais ganhou força após a pandemia, quando empresas e governos passaram a priorizar resiliência, diversificação e previsibilidade. A diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala, tem reiterado que “a diversificação da produção e o fortalecimento das cadeias regionais são essenciais para reduzir vulnerabilidades e evitar choques futuros”. Já a secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, afirmou – ainda em 2022 – que a estratégia norte-americana de friendshoring busca “construir redes de fornecimento entre países que compartilham valores e padrões confiáveis”. Ambas as avaliações ajudam a contextualizar por que o Brasil se encontra em um ponto privilegiado — mas também desafiador — da nova geopolítica econômica.

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Para o Brasil, essa reconfiguração global abre oportunidades em áreas como agronegócio, energia, minerais estratégicos e manufaturas intensivas em recursos naturais. No entanto, o relatório da ABIN destaca que aproveitá-las depende de avanços internos: redução do custo logístico, ampliação da infraestrutura, segurança regulatória e vigilância constante sobre potenciais pressões externas, especialmente em cadeias de suprimentos sensíveis como semicondutores, fertilizantes, tecnologia e produtos farmacêuticos. O País também precisa reforçar capacidades de inteligência para monitorar riscos de coerção econômica e antecipar movimentos de potências rivais.

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Especialistas em geoeconomia reforçam que o Brasil pode se beneficiar se adotar uma postura assertiva. A economista e pesquisadora Dani Rodrik, de Harvard, observa que as próximas décadas serão marcadas por “uma geopolítica das cadeias de valor”, na qual países com recursos naturais, energia limpa e estabilidade institucional terão vantagem. Já o analista de comércio internacional Kevin Gallagher, da Universidade de Boston, destaca que economias emergentes bem-posicionadas “podem se tornar fornecedores chave para novas cadeias regionais, desde que combinem política industrial inteligente e integração estratégica”.

O relatório da ABIN conclui que a inteligência estatal terá papel decisivo na construção de um posicionamento internacional coerente, ajudando o Brasil a navegar entre EUA, China e demais polos econômicos sem comprometer autonomia ou dependência excessiva. Se bem conduzido, esse processo pode transformar o atual “equilíbrio difícil” em uma vantagem estratégica duradoura, ampliando a inserção global do país e fortalecendo sua segurança econômica.

*Jornalista, radialista e técnico em Agronegócio. Especialista em Liderança e Desenvolvimento de Equipes, é editor-chefe do Agricultura e Negócios e autor de livros sobre liderança e criatividade.