Tarifaço: aeronaves, óleo, café e carne estão fora da taxação imposta pelos EUA

com informações da Agência Brasil

Itens de aviação civil, petróleo, carne bovina e café, que juntos responderam por um terço da pauta de exportações do Brasil para os Estados Unidos, no primeiro semestre deste ano, não estão sujeitos ao tarifaço imposto pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) aos produtos brasileiros.

O USTR impôs uma sobretaxa de 25% sobre vários produtos do Brasil. Também estão isentos da cobrança extra produtos como celulose, minério de ferro, ferro-gusa, laranja e suco de laranja.

Por outro lado, alguns setores não conseguiram se livrar da taxação, como ferro e aço, vestuário, calçados, açúcar, etanol, produtos farmacêuticos, maquinário agrícola, máquinas elétricas não voltadas ao setor de aviação, além de outros produtos manufaturados.

As isenções foram estabelecidas pelos Estados Unidos para aqueles produtos brasileiros que não são produzidos internamente por lá em quantidade suficiente ou a preços razoáveis, evitando assim escassez de determinados produtos no mercado consumidor e perturbações na economia daquele país.

Tarifaço

As tarifas de 25% já estão em vigor depois de uma investigação do USTR, que justificou suas taxas dizendo que certas práticas adotadas pelo Brasil eram descabidas e oneravam ou restringiam o comércio de agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores estadunidenses.

Já o governo brasileiro repudiou as novas tarifas, disse que não reconhece a legitimidade da investigação do USTR e acrescentou que não há justificativa para essas medidas.

O Brasil informou ainda que “iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC [Organização Mundial do Comércio]”.

Setor cafeeiro isento

Entidades representativas do setor cafeeiro, entre elas, a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) e o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), celebraram o fato do café brasileiro ter ficado de fora desta tarifação. Elas destacam o trabalho feito em defesa do setor desde do primeiro tarifaço, em 2025, e mais recentemente nas audiências públicas do USTR.

Em comunicado elas  manifestaram que o “trabalho conjunto com a National Coffee Association (NCA), tendo fundamental apoio dos importadores dos EUA, resultou em duas vitórias ao café brasileiro: i) a manutenção dos cafés previamente sugeridos na lista de exceção no âmbito da investigação da Seção 301 do USTR; e ii) a ampliação da lista, que incluiu o café solúvel não aromatizado entre os produtos isentos ao tarifaço”.

“Entendemos que essa decisão protege as exportações brasileiras de café – na ordem de US$ 2,0 bilhões a US$ 2,5 bilhões por ano aos EUA, maior consumidor e importador mundial – e reforça a força do Brasil como maior produtor e exportador global, estabelecido como parceiro insubstituível aos norte-americanos”, destacam ainda as entidades, na nota.

Abic, Abics e Cecafé ponderam, entretanto, o fato de existir ainda uma segunda “investigação do USTR na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, a qual pode trazer uma nova possibilidade de tarifas ao café brasileiro, da ordem de 12,5%”.

Diante disso, elas concluem que seguirão “em permanente trabalho de representação da sustentabilidade, da qualidade e da competitividade dos cafés do Brasil em todo o mundo, de maneira que os interesses de todos os atores da cadeia produtiva sejam defendidos e contemplados”.

Foto: Lyncoln Miller / Pexels.com

Exportações brasileiras para o Golfo crescem 1,25% em junho e sinalizam retomada frente a conflito

As exportações brasileiras para o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), integrado por Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã, avançam 1,25% em junho sobre o mesmo mês de 2025, para US$ 758,14 milhões, segundo a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.

Na avaliação da entidade, o avanço sinaliza uma possível reversão das perdas derivadas do conflito militar na região, que desde fevereiro limita o acesso de embarcações aos portos do Golfo pelo Estreito de Ormuz, afetando o comércio de produtos brasileiros, principalmente os do agronegócio e minerais.

Apesar do avanço de junho, no primeiro semestre, as vendas para o CCG acumulam queda de 4,01% sobre o mesmo período do ano passado, totalizando de US$ 4,17 bilhões. Para Mohamad Mourad, secretário-geral da Câmara Árabe, ainda é cedo para saber se a alta de junho vai persistir e viabilizar a recuperação dessas perdas. O dirigente, no entanto, faz um prognóstico favorável ao Brasil para os próximos meses.

“O Brasil não perdeu espaço nos maiores mercados árabes. O setor exportador encontrou rotas para fazer seus produtos chegarem ao Golfo, usando portos do Mar Vermelho, junto com modais rodoviário e aéreo. Os custos desse rearranjo estão sendo absorvidos por exportadores, importadores e consumidores finais. E a demanda ainda é similar à de tempos de paz”, diz Mourad.

O secretário-geral lembra ainda que, no segundo semestre, as vendas costumam adquirir tração com a formação de estoques de alimentos para o Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos. Em 2027, o feriado religioso flutuante começa em fevereiro e deve gerar um aumento nos embarques nos meses de setembro, outubro e novembro, historicamente visível nas estatísticas.

Além disso, Mourad pontua que as vendas brasileiras para os 22 países da Liga Árabe, incluindo os do CCG, acumulam alta de 3,73% no primeiro semestre, para US$ 9,56 bilhões. Segundo o dirigente, as receitas brasileiras junto aos principais parceiros na região subiram, inclusive, em países diretamente afetados pelo bloqueio de Ormuz.

As vendas para os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, subiram 6,01% no semestre, para US$ 1,72 bilhão. Para a Arábia Saudita, a alta foi de 11%, para US$ 1,51 bilhão. Subiram também em outros grandes mercados, como o Egito, onde a alta foi de 31,73%, para US$ 1,68 bilhão, e a Argélia, que comprou 12,49% mais do Brasil, US$ 1,32 bilhão.

CCAB / Divulgação
Fonte: CCAB com base em dados do ComexStat

Agronegócio

As exportações do agronegócio, que respondem por três quartos das vendas do Brasil para a Liga Árabe, também avançaram 5% no semestre, para US$ 7,03 bilhões. Entre os países do Golfo, o setor registrou queda de 1,06% no período, mas o resultado, avalia Mourad, ainda foi expressivo: US$ 2,58 bilhões.

A pauta do agro foi liderada pelo açúcar, que recuou no semestre 7,45%, para US$ 1,79 bilhão. Depois vem a carne de frango, com queda de 9,99%, para US$ 1,57 bilhão; milho, com alta de 49,51%, para US$ 794,90 milhões; carne bovina, que avançou 7,33%, para US$ 792,27 milhões; e a soja, com elevação de 14,19%, para US$ 758,49 milhões.

Mourad destaca que os recuos em produtos importantes foram contrabalançados por avanços em outras categorias, tornando o resultado geral compatível com as oscilações históricas do comércio, o que faz o dirigente ver a possibilidade de recuperação nas vendas até o fim do ano.

“O Brasil segue liderando o fornecimento de alimentos para os países árabes, inclusive para os do Golfo. Se continuarmos assim, podemos ter, inclusive, avanço nas receitas sobre o ano passado”, prevê.

Porto de Jeddah, na Arábia Saudita, vira alternativa de acesso ao Golfo (Foto: CCAB / Divulgação)

Brasil diz que não há justificativas para tarifas impostas pelos EUA

com informações da Agência Brasil

O governo brasileiro divulgou nota repudiando a decisão dos Estados Unidos (EUA) de impor tarifas de 25% sobre produtos vindos do Brasil. A medida estadunidense passa a valer a partir do próximo dia 22, com base em investigações feitas por Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR).

A nota, assinada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, destaca que o Brasil não reconhece a legitimidade dessas investigações, que não teriam amparo nas regras multilaterais de comércio. E acrescenta que não há justificativa para medidas unilaterais dos Estados Unidos contra o Brasil.

A nota diz ainda que a Lei de Reciprocidade brasileira será acionada “imediatamente”, além de instrumentos para solução de conflitos no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). “O Brasil iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC”, diz o texto.

Alegações

A investigação iniciada há um ano pelo USTR concluiu que certas práticas brasileiras são descabidas e oneram ou restringem o comércio de agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores estadunidenses.

Entre as medidas citadas pelo USTR estão “práticas de comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas preferenciais injustas; interferência anticorrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal”.

FIESP

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), divulgou comunicado no qual “lamenta com profunda preocupação a aplicação de uma sobretaxa às exportações de produtos brasileiros ao mercado norte-americano”.

A entidade reafirmou também o “seu compromisso com a diplomacia empresarial e seguirá trabalhando de forma construtiva junto a parceiros nos EUA para que as tarifas sejam revertidas ou parcialmente mitigadas na ampliação da lista de isenções”.

FIEMG

Quem também se manifestou sobre a taxação norte-americana sobre a economia brasileira foi a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Em nota, a Fiemg reforçou a “importância do diálogo e da cooperação entre os países, especialmente em um momento em que se exige serenidade e responsabilidade nas relações comerciais internacionais”.

A entidade da indústria mineira declarou ainda que os Estados Unidos são um parceiro estratégico para o país, “em especial para a indústria manufatureira nacional”.

CNI

Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), também criticou a aplicação de taxas contra o Brasil, determinada pelo governo dos EUA. “Os efeitos do aumento de tarifas dos Estados Unidos estão sendo cada vez mais sentidos pela indústria brasileira: 20 dos 27 estados reduziram suas exportações ao mercado norte-americano no primeiro trimestre”, afirmou Alban.

“Diante do anúncio de hoje, o cenário tende a piorar, corroendo ainda mais a competitividade da indústria brasileira. Não podemos poupar esforços para reverter essa lógica e retomar a relação que o Brasil e Estados Unidos construíram”, acrescentou.

Fora da lista

Ficaram de fora produtos como café, suco de laranja, carne bovina, aeronaves, entre outros. A lista de produtos isentos chega a mais de 2 mil itens. Eles não são sobretaxados por terem muita importância dentro do mercado norte-americano e por não serem produzidos em larga escala pela indústria do país.

Foto: AFROTC DET605 / Pexels.com

EUA sanciona empresas brasileiras por suposta ligação com o PCC: entenda as consequências

Há um mês, os Estados Unidos decidiram classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Muito além do combate ao crime organizado, o anúncio já gera consequências para empresas brasileiras que mantêm operações financeiras, comerciais ou logísticas com algum grau de exposição ao mercado internacional.

Na última quarta-feira (01/07), o departamento do Tesouro dos EUA sancionou três empresas: Victory Trading, Wave Construçõs Inteligentes Ltda e Pixwave Soluções de Pagamentos.

Para além de uma eventual discussão acerca da soberania brasileira, que aparentemente estaria muito distante da realidade e do dia a dia das empresas, a questão pode ter efeitos diretos e imediatos para quem faz negócios, notadamente (mas não somente) para quem opera internacionalmente.

Compliance ganha novo peso

De acordo com Marcelo Godke, sócio do Godke Advogados e especialista em Direito Internacional Empresarial, a mudança cria uma nova camada de risco regulatório para companhias que possuam conexão direta ou indireta com os Estados Unidos. “O ponto central é simples: relações que antes eram avaliadas principalmente sob a ótica de prevenção à lavagem de dinheiro, corrupção, sanções ou compliance regulatório podem agora também ser examinadas sob a perspectiva de apoio material a organização terrorista, sanções econômicas e responsabilidade civil nos Estados Unidos”, explica.

Empresas que realizam pagamentos por meio de cadeias complexas de fornecedores, utilizam intermediários comerciais, operam com recursos em dólar ou mantêm relacionamento com investidores e instituições financeiras estrangeiras devem reforçar seus mecanismos de controle e diligência. “Isso aumenta o grau de diligência esperado das empresas, especialmente quando houver exposição aos Estados Unidos, uso de bancos correspondentes americanos, investidores estrangeiros, operações em dólar, subsidiárias no exterior, exportações, importações ou relacionamento com instituições financeiras sujeitas à jurisdição norte-americana”, afirma Godke.

Diante desse cenário, o especialista recomenda que as organizações revisem programas de compliance, fortaleçam processos de due diligence e ampliem o monitoramento de fornecedores, parceiros e fluxos financeiros. Quem não deseja estar conectado às organizações designadas como terroristas, deve redobrar seus cuidados e estar muito bem documentado neste sentido. “O tema deve ser tratado com seriedade, mas sem pânico. O objetivo não é paralisar negócios legítimos no Brasil, e sim ajustar controles internos a uma nova realidade regulatória e geopolítica. Empresas que atuarem preventivamente estarão em melhor posição para continuar operando com segurança, preservar relações comerciais e evitar problemas jurídicos desnecessários”, conclui.

Foto: Du039bVu039e Gu039bRCIu039b / Pexels.com

Governo dos EUA propõe nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros

com informações da Agência Brasil

O governo dos Estados Unidos (EUA) anunciou que poderá taxar importações brasileiras com uma nova tarifa punitiva de 25%. A alegação é de que algumas práticas do Brasil são desleais. 

Dentre as práticas citadas, estão o comércio digital e o desmatamento ilegal. Alguns itens como carne bovina, café, terras raras, outros metais e peças de aeronaves estão excluídos da nova tarifa – que poderá entrar em vigor em 15 de julho.

A justificativa para aplicar a medida é uma investigação, aberta em julho de 2025, pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) que concluiu que políticas e práticas brasileiras são “irrazoáveis” e “oneram ou restringem” o comércio norte-americano.

relatório final da investigação prevê a imposição de “tarifas ou outras restrições à importação de produtos brasileiros. Tendo por base essa possibilidade, o representante de comércio dos EUA propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre todos os bens do Brasil”.

Foto: Chengxiang LIAO / Pexels.com

A punição com a taxação extra, no entanto, prevê algumas exceções para produtos que poderiam causar “disrupções” em toda a economia caso fossem submetidos a tarifas adicionais; além de “determinados produtos que não podem ser cultivados ou produzidos em quantidades suficientes nos Estados Unidos, nem obtidos de outras fontes”.

Dentre as exceções estão frutas e nozes, petróleo bruto e derivados, compostos farmacêuticos, produtos químicos orgânicos e fertilizantes. Também estão isentas a carne bovina, o café, terras raras, certos metais e minérios, além de aeronaves e peças de aeronaves brasileiras.

Seção 301 da Lei de Comércio

decisão do USTR foi anunciada na noite desta segunda-feira (1º) e tem por base termos da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, de 1974.

A investigação avaliou práticas nas áreas de comércio digital e serviços de pagamentos eletrônicos, como o Pix; concessão de tarifas preferenciais; proteção de propriedade intelectual; combate à corrupção; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal.

O USTR afirma que, nesses pontos, há prejuízo para empresas e exportações dos EUA. Como consequência, o governo americano abriu consulta pública sobre possíveis medidas corretivas.

O processo inclui envio de comentários até 1º de julho e audiência pública em 6 de julho, enquanto seguem as negociações com o governo brasileiro. O prazo legal para a eventual adoção da nova tarifa é 15 de julho de 2026.

Investigação ouviu mais de 30 testemunhas e quase 300 manifestações

Segundo o embaixador estadunidense Jamier Greer, a investigação começou a pedido do presidente Donald Trump que alegou preocupações antigas e generalizadas dos EUA com certas políticas e práticas comerciais do Brasil.

“Ao longo do último ano, o presidente Trump e eu tivemos várias reuniões construtivas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o seu gabinete, que se intensificaram nas últimas semanas”, afirmou Greer.

“Contudo, continuamos a ter divergências substanciais na resolução das questões identificadas nesta investigação. Aguardo com expectativa a continuação do diálogo com o governo brasileiro, antes do prazo legal de 15 de julho de 2026 para a tomada de medidas corretivas”, acrescentou.

Conflito derruba exportações para Golfo, mas trimestre segue positivo

O conflito no Oriente Médio já impacta as exportações brasileiras para os países árabes do Golfo, importantes mercados para produtos do agronegócio e minerais. As vendas para Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Bahrein e Omã — que formam o bloco econômico conhecido como Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) — caíram 31,47% em março na comparação anual, para US$ 537,11 milhões, segundo dados da Inteligência de Mercado da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.

Apesar do recuo no mês, o desempenho no trimestre ainda é positivo. De janeiro a março, as exportações para o CCG cresceram 8,14%, somando US$ 2,41 bilhões. Considerando todos os 22 países acompanhados pela entidade, incluindo as nações árabes do Levante e as africanas, a alta foi de 3,90%, para US$ 5,13 bilhões.

Segundo a Câmara Árabe, o fechamento do Estreito de Ormuz, que restringiu o acesso a portos estratégicos do Golfo, interrompeu uma trajetória de alta nas vendas brasileiras. O impacto ainda não compromete o resultado agregado, mas pode se intensificar ao longo do ano, dependendo da evolução do conflito.

“As vendas para o CCG, que concentra os maiores mercados árabes e responde por 47% das exportações para o bloco de países, vinham em alta em janeiro e fevereiro na comparação com 2025, segundo melhor ano da série histórica”, afirma o secretário-geral da Câmara Árabe-Brasileira, Mohamad Mourad. “O recuo de março decorre do conflito e, por ora, não afeta o acumulado, mas ainda pode trazer impactos”.

No agronegócio, que responde por cerca de 75% das vendas, as exportações para o CCG recuaram 25,38% em março, mas acumulam alta de 6,8% no trimestre, de US$ 1,44 bilhão, graças a ganhos em produtos importantes, contrabalançados por perdas em outros itens. Principal item da pauta agropecuária, o frango recuou 13,80% no mês, para US$ 185,50 milhões, mas só 2,32% no acumulado, para US$ 619,12 milhões.

O açúcar, segundo principal produto, recuou 43,37% em março, para US$ 54,07 milhões, mas avançou 26,41% no ano, para US$ 363,11 milhões. A carne bovina destoou, com alta de 23,87% no mês mais intenso do conflito, para US$ 47,75 milhões, além de avanço de 65,29% no trimestre, para US$ 194,56 milhões.

O milho praticamente deixou de ser embarcado ao CCG em março, com queda de 99,96%, para US$ 0,03 milhão, embora o recuo no acumulado ainda seja limitado a 5,8%, no total de US$ 61,22 milhões. Já o café registrou alta de 34,24% no mês de março, para US$ 9,97 milhões, e de 64,3% no trimestre, para US$ 49,58 milhões.

Outro ponto de atenção é o recuo nas importações brasileiras de fertilizantes provenientes do CCG, que caíram 51,35% no primeiro trimestre. A região responde por cerca de 10% do fertilizante adquirido pelo agronegócio brasileiro no exterior.

“Esse é um ponto que preocupa tanto o nosso agro quanto os países árabes, que dependem da capacidade do Brasil de disponibilizar alimentos excedentes”, pontua Mourad. “É preciso buscar formas de minimizar esses impactos”, finaliza.

Guerras e tensões geopolíticas pressionam dólar e elevam custos industriais no Brasil

Conflitos internacionais e tensões geopolíticas têm ampliado a volatilidade econômica global e pressionado custos industriais em diversos países. Relatórios recentes do Fundo Monetário Internacional indicam que choques geopolíticos costumam provocar oscilações relevantes no câmbio e no preço de commodities estratégicas, como petróleo e gás natural. No Brasil, esses movimentos tendem a pressionar o dólar e encarecer importações, afetando diretamente empresas que dependem de insumos e componentes vindos do exterior.

Fábio Nascimento, contador e CEO do Grupo FN, afirma que o reflexo dessas tensões já aparece na gestão financeira de empresas brasileiras. Segundo ele, a volatilidade cambial tem impacto direto na estrutura de custos da indústria e exige planejamento mais rigoroso por parte das companhias. “Quando surgem conflitos internacionais relevantes, o primeiro reflexo costuma aparecer no câmbio e no preço das commodities. Isso encarece desde combustíveis até componentes importados, pressionando custos de produção e margens das empresas”, afirma.

Na prática, o impacto costuma atingir principalmente setores que dependem de componentes eletrônicos, equipamentos industriais e matérias-primas vindas do exterior. Com o dólar mais valorizado, empresas passam a pagar mais por itens essenciais à produção, o que pode reduzir competitividade ou exigir reajustes de preços.

Esse movimento é sentido também em polos industriais relevantes do país. Regiões como São José dos Campos, no interior de São Paulo, concentram empresas ligadas aos setores aeroespacial, tecnológico e manufatureiro, muitas delas dependentes de cadeias globais de suprimento. Nesses casos, oscilações cambiais e interrupções logísticas podem impactar diretamente o custo e o prazo de produção.

Nascimento explica que empresas que dependem de importações ou exportações precisam acompanhar com mais atenção o cenário internacional. “Instabilidade geopolítica não afeta apenas governos. Ela altera rotas comerciais, encarece transporte e pode atrasar entregas de insumos estratégicos. Empresas precisam considerar esse fator no planejamento financeiro e operacional”, diz.

Segundo ele, muitas companhias já começaram a revisar estratégias para reduzir exposição a riscos internacionais. “Negócios que dependem de cadeias globais de suprimento precisam estruturar mecanismos de proteção. Planejamento cambial, revisão de contratos e diversificação de fornecedores passam a ser decisões estratégicas”, afirma.

O especialista aponta cinco estratégias que empresas usam para reduzir riscos em meio a tensões geopolíticas. Entre as principais estratégias estão:

Diversificação de fornecedores internacionais: Empresas têm buscado ampliar a rede de fornecedores em diferentes países para reduzir dependência de regiões afetadas por conflitos ou restrições comerciais

Planejamento cambial e gestão financeira mais estruturada: Companhias passaram a monitorar mais de perto a exposição ao dólar e utilizar instrumentos financeiros para reduzir impactos de oscilações cambiais

Formação de estoques estratégicos: Algumas empresas têm ampliado estoques de componentes considerados críticos para evitar paralisações produtivas em momentos de instabilidade logística

Revisão da cadeia de suprimentos: Negócios passaram a avaliar alternativas de produção local ou fornecedores mais próximos para reduzir dependência de rotas internacionais

Apoio de consultorias especializadas: Empresas têm recorrido a especialistas em estratégia empresarial e comércio exterior para estruturar operações mais resilientes

Fotos: Pixabay / Pexels.com

Segundo Nascimento, empresas que se antecipam a esse tipo de risco conseguem atravessar períodos de instabilidade com maior previsibilidade financeira. “Crises internacionais podem surgir rapidamente. Companhias que trabalham com análise de risco e planejamento estruturado tendem a reagir melhor a oscilações no câmbio e no custo de insumos”, afirma.

Para ele, a tendência é que tensões geopolíticas continuem influenciando a economia global nos próximos anos. “A globalização ampliou a integração entre mercados. Isso significa que conflitos ou tensões em determinadas regiões podem afetar cadeias produtivas em diferentes países, inclusive no Brasil”, diz.

Canton Fair ganha força entre empresários brasileiros e vira rota prática para reduzir custos e ampliar margens

A Canton Fair, maior feira multissetorial do mundo realizada em Guangzhou, na China, ocorre duas vezes ao ano e já tem calendário definido para 2026. A edição de primavera será dividida em três fases, com a primeira entre 15 e 19 de abril, focada em eletrônicos, maquinários e ferramentas; a segunda entre 23 e 27 de abril, voltada a bens de consumo, decoração e brindes; e a terceira entre 1º e 5 de maio, concentrada em têxteis, moda, saúde e alimentos. 

Realizada no maior complexo de exposições da China, a feira reúne mais de 30 mil expositores e compradores de mais de 200 países. Dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) indicam que a Ásia lidera as exportações globais de manufaturados, consolidando a China como eixo estratégico de fornecimento para empresas de diferentes portes.

Rodrigo Lopes, CEO Global do Grupo RPX e especialista em importação empresarial, afirma que o evento deixou de ser apenas uma vitrine e passou a exigir preparação técnica por parte dos empresários. “A Canton Fair não é um lugar para improviso. Quem não chega com estratégia definida perde tempo e oportunidade. A feira é grande demais para ser explorada sem planejamento”, diz.

A divisão por fases, segundo ele, é um dos primeiros pontos que precisam ser considerados. Cada etapa atende a segmentos específicos, o que impacta diretamente nos resultados da viagem. “O empresário precisa entender exatamente em qual fase o produto dele está. Ir na fase errada significa não encontrar os fornecedores certos”, afirma.

A preparação começa antes mesmo do embarque. Definir categorias de interesse, estudar fornecedores e alinhar objetivos comerciais são etapas essenciais para transformar a visita em negociação concreta. “Quem chega já sabendo o que quer comprar, qual volume pretende negociar e qual posicionamento busca para o produto consegue avançar muito mais rápido”, explica.

Além da organização prévia, a forma como o empresário aproveita a feira determina o retorno da viagem. A recomendação é estruturar uma agenda diária, priorizar estandes estratégicos e registrar informações detalhadas de cada fornecedor. “Quem trata a feira como passeio volta com cartão de visita. Quem trata como operação volta com negociação encaminhada”, afirma.

Durante a feira, a abordagem também influencia o resultado. A recomendação é priorizar fornecedores com estrutura produtiva consistente, histórico de exportação e capacidade de personalização. Esse processo permite não apenas reduzir custos, mas também desenvolver produtos exclusivos e ajustar características conforme o público brasileiro. “Não é só preço. É capacidade de entrega, qualidade e consistência. O barato sem validação técnica pode sair caro depois”, alerta.

A participação no evento tem impacto direto na competitividade das empresas. Ao eliminar intermediários, os negócios conseguem melhorar margens, reduzir o preço final ao consumidor ou ampliar a rentabilidade. Isso cria vantagem em mercados cada vez mais pressionados por custo e diferenciação. “Quem compra direto do fabricante consegue trabalhar melhor preço, mas principalmente ganhar controle sobre o produto. Isso muda o posicionamento da empresa no mercado”, diz.

Esse movimento também amplia a possibilidade de criação de marcas próprias, estratégia que vem sendo adotada por empresas de varejo, e-commerce, distribuição e até prestadores de serviço que buscam novas fontes de receita. “A feira permite sair da revenda e entrar na construção de marca. Isso aumenta a margem e cria valor no longo prazo”, afirma.

Na prática, diferentes perfis de negócios conseguem aproveitar a Canton Fair. Desde pequenos e médios empresários que buscam iniciar na importação até empresas estruturadas que querem escalar operações, diversificar portfólio ou desenvolver linhas exclusivas. “Não é um evento só para grandes empresas. O que define o resultado não é o tamanho do negócio, é o nível de preparo”, explica.

Outro diferencial está na leitura de mercado. A feira funciona como um ambiente de inteligência competitiva, onde é possível identificar tendências, comparar produtos e entender padrões internacionais de qualidade e inovação. “O empresário que observa bem consegue antecipar movimentos e tomar decisões mais estratégicas no Brasil”, afirma.

Foto: HYL / Pexels.com

A etapa pós-feira é considerada uma das mais críticas. A validação de fornecedores, análise de amostras, negociação de contratos e estruturação logística determinam o sucesso da operação. “O erro de muitos empresários é achar que o trabalho termina na feira. Na verdade, ele começa ali”, diz.

O avanço da presença brasileira no evento também tem impulsionado a busca por suporte especializado, principalmente para quem participa pela primeira vez. Ir acompanhado de uma assessoria ou guia técnico pode acelerar decisões e evitar erros comuns, como negociar com fornecedores inadequados ou não entender exigências regulatórias. “Com orientação, o empresário ganha tempo, evita riscos e consegue focar no que realmente importa, que é fechar bons negócios”, afirma.

Esse tipo de suporte inclui curadoria de fornecedores, tradução, acompanhamento nas negociações e direcionamento estratégico dentro da feira, o que aumenta significativamente a eficiência da visita. “A feira é muito grande. Sem direcionamento, o empresário se perde. Com estratégia e apoio, ele transforma dias de evento em resultado concreto”, diz.

A edição de outono segue lógica semelhante, com fases distribuídas entre 15 de outubro e 4 de novembro, mantendo a divisão por segmentos e reforçando a importância do planejamento antecipado.

Para empresários que buscam utilizar a Canton Fair como estratégia de crescimento, a preparação, a escolha correta da fase e a capacidade de execução após o evento são fatores que determinam o retorno. “Quem entende como usar a feira constrói vantagem competitiva. Não é só sobre comprar melhor, é sobre estruturar um negócio mais eficiente e com mais margem”, conclui.

Ministério da Agricultura fecha acordo com Turquia para rota alternativa ao estreito de Ormuz

O Brasil garantiu a continuidade de uma rota alternativa via Turquia para o envio de exportações agropecuárias, diante das restrições no Estreito de Ormuz. A solução foi negociada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Com isso, a estrutura portuária turca segue como opção importante para cargas brasileiras com destino ao Oriente Médio e à Ásia Central, permitindo que as mercadorias sigam viagem sem a necessidade de passar pelo Golfo Pérsico.

Essa rota já era utilizada por exportadores brasileiros. No entanto, a Turquia passou a exigir novas regras sanitárias para produtos sujeitos ao controle veterinário oficial, como os de origem animal. Para evitar prejuízos ao fluxo das exportações, foi negociado o Certificado Veterinário Sanitário para Produtos Sujeitos a Controles Veterinários em Trânsito Direto pela República da Turquia ou para Armazenamento Temporário com Destino à Expedição para outro País/Navio.

Na prática, o documento permite que mercadorias brasileiras, especialmente produtos de origem animal, atravessem o território turco ou fiquem armazenadas temporariamente no país antes de seguirem para o destino final.

A medida confere mais segurança e previsibilidade aos exportadores brasileiros em um momento de instabilidade nas rotas internacionais e reforça a atuação do Mapa para manter o comércio agropecuário brasileiro em funcionamento.

Foto: Heibby Cris Marvel / Pexels.com

Pela primeira vez, importações de tilápia superam exportações brasileiras

O avanço das importações de tilápia acendeu um sinal de alerta em um dos segmentos mais dinâmicos do agronegócio brasileiro. Em fevereiro de 2026, o Brasil importou mais de 1,3 mil toneladas de filé do Vietnã, volume equivalente a cerca de 4,1 mil toneladas de peixe vivo, em um movimento que, pela primeira vez, superou as exportações nacionais e já representa 6,5% da produção mensal. 

O dado chama atenção em um setor que, até então, vinha sustentando crescimento consistente e acima da média das demais proteínas animais. “A tilápia brasileira é a proteína que mais cresceu no país nos últimos 11 anos, com expansão superior a 10% ao ano, acima de suínos, aves, bovinos, leite e ovos. Esse resultado é mérito de toda a cadeia produtiva”, ressalta o presidente da PEIXE BR, Francisco Medeiros. 

O avanço do produto importado, no entanto, muda a dinâmica do mercado. O filé vietnamita chega ao Brasil com preços entre R$ 25 e R$ 29 por quilo, patamar considerado agressivo pelo setor, por se aproximar do custo da matéria-prima nas indústrias nacionais. “Esse é praticamente o preço do peixe quando chega ao frigorífico no Brasil. Isso cria uma distorção importante na concorrência”, diz Medeiros. 

Competitividade pressionada fora da porteira 

Apesar dos ganhos expressivos dentro da porteira, com alta produtividade, tecnologia e eficiência, a cadeia brasileira perde competitividade ao longo da cadeia. Custos tributários elevados, encargos trabalhistas e exigências ambientais mais complexas são apontados como os principais gargalos. Ao mesmo tempo, o produto importado chega com vantagens competitivas, como isenção de ICMS em alguns estados. “Temos uma produção altamente eficiente, talvez a mais competitiva do mundo dentro da porteira. Mas, fora dela, a carga tributária e a burocracia comprometem esse desempenho”, discorre o presidente. 

Para o setor, o ponto central não é restringir importações, mas garantir condições equilibradas de competição. “Defendemos isonomia tributária, sanitária, trabalhista e ambiental. Só assim teremos uma concorrência justa”, reforça. 

Foto: Terrance Barksdale / Pexels.com

Risco sanitário entra no radar 

Além da pressão sobre preços, a origem do produto também preocupa. O Vietnã registra enfermidades ainda inexistentes no Brasil, como o vírus TiLV, considerado altamente letal para a tilápia. Para contornar esse cenário, a PEIXE BR solicitou ao MAPA o envio de missão técnica ao país asiático para realização da Análise de Risco de Importação (ARI), procedimento previsto na legislação brasileira. “Existem doenças no Vietnã que não estão presentes aqui e que têm alta taxa de mortalidade. Precisamos dessa análise com urgência”, diz Medeiros. 

Mercado em transição 

O aumento das importações ocorre em um momento estratégico para o setor, com recuperação de preços no mercado interno impulsionada pela Quaresma. Ainda assim, o crescimento da oferta externa pode neutralizar esse movimento e pressionar a rentabilidade da cadeia. “As exportações ajudam a equilibrar o mercado interno. Com o avanço das importações, esse efeito é reduzido, o que pode gerar impacto negativo para o setor”, ressalta Medeiros. 

Atualmente, o Brasil ocupa a quarta posição entre os maiores produtores globais de tilápia e mantém potencial de expansão. No entanto, a continuidade desse crescimento depende de ajustes no ambiente regulatório e na competitividade fora da porteira. “Construímos uma cadeia sólida nos últimos 20 anos, uma das mais promissoras do agro brasileiro. Não somos contra a importação, mas precisamos de condições iguais para competir”, conclui Medeiros.