A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) promoveu o evento “Benchmark Agro – Custos Agropecuários 2025”, encerrando o Circuito de Resultados do Projeto Campo Futuro. O encontro reuniu especialistas nacionais e internacionais para discutir a competitividade e os desafios da próxima safra de soja e milho no Brasil, Argentina e Estados Unidos.
O painel “Conexão Global: Custos de Grãos e Competitividade no Mercado” apresentou um panorama detalhado de custos e produtividade.
Brasil: produtividade alta, margem em queda
Segundo o pesquisador Mauro Osaki (Cepea), a safra 2024/2025 de soja foi “espetacular” em produtividade, alcançando média de 61,7 sacas por hectare nas principais regiões monitoradas. No entanto, a margem bruta do grão recuou 63% em comparação com as últimas três safras, apesar de ter chegado a US$ 92 por tonelada. Osaki alertou para o Rio Grande do Sul, que enfrentou queda de produtividade e aumento do custo para US$ 127/t.
Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios
Para o milho de segunda safra, a produtividade ficou acima de 7 ton/ha em Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, com um custo médio variando entre US$ 140 a 146 por tonelada.
Desafios na Argentina e EUA
Christian Bengtsson, da Bedrock Farmland Wealth, destacou que o agronegócio argentino enfrenta grandes desafios nos custos, principalmente devido às altas taxas de exportação: a soja paga 36% e o milho, 9,5%. Ele observou que, apesar disso, os produtores argentinos se mantêm em atividade graças a custos operacionais mais baixos, impulsionados pela fertilidade do solo e pela rotação de culturas, o que reduz a dependência de fertilizantes.
Nos Estados Unidos, Kelvin Leibold (Agribenchmark) focou nos custos de produção em Iowa. O pesquisador apontou que mais de 60% das terras são arrendadas, e os custos de insumos, especialmente sementes OGM, estão em ascensão. Leibold ressaltou a necessidade de inovar para superar o aumento constante nos custos dos insumos de soja, que afetam o preço final do produto no mercado.
O presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, destacou a importância do Projeto Campo Futuro na geração de inteligência e previsibilidade de custos para os produtores rurais. A declaração ocorreu na abertura do evento “Benchmark Agro – Custos Agropecuários 2025”, que marcou o encerramento do ciclo da iniciativa.
O evento reuniu especialistas e lideranças do setor para debater a competitividade, desafios estratégicos e tendências globais do agro, como a colheita de grãos, biocombustíveis e gestão de custos.
Em um balanço do Campo Futuro em 2025, João Martins informou que o projeto alcançou mais de 1.500 produtores, realizando 147 levantamentos de custos de produção em 134 municípios, abrangendo 40 atividades agropecuárias em 21 Estados. “Números que mostram nosso esforço para entender as realidades regionais e apontar caminhos para maior eficiência técnica e financeira”, afirmou.
Safra, custos e pecuária
Ao analisar o cenário produtivo, João Martins apresentou perspectivas mistas: enquanto a safra de grãos 2024/2025 registrou uma produtividade recorde de 350,2 milhões de toneladas, favorecida por melhores condições climáticas, as primeiras estimativas para a safra 2025/2026 sinalizam um cenário de alerta para a soja, com uma redução projetada de 15% na margem bruta, principalmente devido ao aumento no preço dos insumos e a projeções climáticas menos favoráveis.
Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios
Em contrapartida, o mercado pecuário apresenta um panorama mais positivo, onde o aumento no abate de fêmeas, associado à forte demanda aquecida, tem sido suficiente para sustentar os preços da arroba do boi gordo, favorecendo, assim, os resultados econômicos dessa atividade.
O presidente da CNA enfatizou que o Sistema CNA/Senar concentra seus esforços em levar conhecimento, capacitação e gestão ao produtor, visando transformar produtividade em rentabilidade. Segundo ele, a evolução contínua do Campo Futuro, com análises detalhadas de custos e perspectivas de mercado, é uma ferramenta estratégica para o planejamento. “No mundo dinâmico e competitivo do agronegócio, prever cenários e tendências é crucial para garantir a sustentabilidade e a rentabilidade no longo prazo”, concluiu Martins, reafirmando o compromisso da CNA com um setor mais preparado, inovador e resiliente.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) divulgou o documento “Agropecuária Brasileira na COP30” com o posicionamento do setor para a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas que acontece, de 10 a 21 de novembro, em Belém (PA).
O documento reflete os anseios do setor agropecuário e foi discutido em uma série de encontros e reuniões dos integrantes da Comissão Nacional de Meio Ambiente da CNA com produtores rurais, Federações estaduais, entidades do agro, pesquisadores, entre outros atores.
As propostas e as contribuições dos produtores rurais brasileiros vão servir como subsídio aos negociadores brasileiros, às autoridades envolvidas nas negociações, aos produtores rurais, além de embasar os debates durante a COP 30.
Reconhecimento
No documento, a CNA afirma que os produtores rurais brasileiros devem ser reconhecidos como agentes fundamentais no fornecimento e na implementação de soluções climáticas para o alcance das metas brasileiras e potencialmente para as metas globais; que as particularidades da agricultura tropical precisam ser levadas em consideração e que ganhem escala como solução imediata aos desafios do clima; e que os meios para implementar medidas de mitigação e adaptação sejam suficientes para exercer todo o potencial do setor.
A CNA também reforça o protagonismo do setor, além das soluções climáticas, na garantia da segurança alimentar e energética.
No posicionamento, a Confederação lista uma série de posições a serem adotadas nas negociações que evidenciam o papel da agricultura tropical frente aos desafios do clima e impulsionam a adoção de práticas sustentáveis no campo: financiamento acessível, aplicável e transversal aos instrumentos do acordo; inclusão da agricultura no centro das decisões; promoção da agropecuária dentro das metas globais; reconhecimento o setor em ações de adaptação e seguindo as realidades de cada país; atividade representativa em mitigação; mercado de carbono global integrado e alinhado com o setor e com o país e que sejam implementados através de uma transição. Alguns dos pontos do documento estão abaixo (de forma resumida):
Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios
Financiamento – O financiamento tem sido o principal gargalo para a implementação da ação climática em nível global. Em 2023, uma “Nova Meta Coletiva Quantificada de Financiamento Climático (NCQG)” foi estabelecida: US$ 300 bilhões por ano até 2035 com países desenvolvidos sendo os principais contribuintes; e US$ 1.3 trilhão anual até 2035 envolvendo todos os países e atores não governamentais. A CNA considera fundamental que o financiamento climático chegue diretamente aos produtores rurais, facilitando a implementação de tecnologias de baixo carbono e contribuindo para dar escala às ações de mitigação e adaptação. Nesse sentido, a CNA propõe a criação de mecanismos financeiros adequados, com condições diferenciadas de crédito, seguro climático e redução dos custos de endividamento.
Agricultura – Na COP há um grupo de negociação específico destinado à discussão sobre agricultura e segurança alimentar chamado de “Trabalho Conjunto de Sharm el Sheikh para Agricultura e Segurança Alimentar” (SSJWA, na sigla em inglês). O objetivo desse grupo é identificar de que forma as mudanças do clima afetam a agropecuária e a produção de alimentos e como o setor contribui para mitigação e adaptação, por exemplo. O SSJWA estabeleceu um portal online que funciona como uma vitrine de ações climáticas do setor e serve tanto como ferramenta de comparação entre países como também uma possibilidade para viabilizar o financiamento das ações. A CNA considera fundamental que os produtores rurais sejam colocados no centro das decisões sobre agricultura, tendo suas demandas atendidas em relação aos gargalos para aumento da ambição climáticas e sendo reconhecidos como agentes provedores de soluções ambientais ao alcance das metas de redução de emissão de gases de feito estufa. Além disso, deve-se estimular o uso do portal, permitindo que os custos para implementação dos projetos sejam reduzidos.
Legado da COP 30 na Amazônia – O último capítulo do documento da CNA trata do legado da COP 30 na Amazônia. Segundo a entidade, se por um lado o evento promete “colocar no centro das discussões globais a proteção aos recursos naturais, por outro deve também reconhecer o valor da presença humana na região. A Amazônia é a casa de 30 milhões de brasileiros, espalhados em mais de 750 municípios, que coexistem com a natureza”. E na região, mais de um milhão de produtores rurais sustentam a segurança alimentar da população local cultivando arroz, feijão, hortaliças, leite, frutas, mandioca, carne, café, ovos, entre outros. É necessário reconhecer, diz o documento, que agricultura e segurança alimentar são pilares inseparáveis da agenda climática — na Amazônia como em qualquer lugar do planeta. “A COP 30 deve ser muito mais do que um evento sobre a conservação da natureza, mas um teste decisivo para a agenda climática global e sua capacidade de reconhecer as necessidades e aspirações de desenvolvimento de quem vive na floresta”, diz o documento.
O posicionamento da CNA traz nove recomendações para a Amazônia:
1 – Reconhecer o direito à produção agropecuária sustentável na Amazônia como parte inseparável da agenda climática, combatendo a estigmatização dos agricultores locais
2 – Acelerar a regularização fundiária e ambiental como condição básica para promover a segurança jurídica, garantir acesso a crédito e estimular investimentos produtivos
3 – Reforçar a segurança alimentar regional, incentivando a produção local de alimentos
4 – Combater o desmatamento ilegal por meio de incentivos econômicos eficientes, garantindo a sustentabilidade produtiva da região
5 – Criar linhas de crédito rural e financiamento climático específicas para produtores amazônicos, com juros diferenciados e prazos adequados, apoiando sistemas integrados de produção, recuperação de pastagens e reflorestamento produtivo
6 – Transformar a bioeconomia alimentar em vetor de renda e inovação, baseada em ciência, tecnologia, domesticação e agregação de valor
7 – Afirmar a soberania nacional sobre o território e apoiar o combate à violência e ao crime organizado, reconhecendo que não há floresta protegida ou ação climática efetiva sem ordem e segurança no território
8 – Investir em integração logística e energia limpa na região, reduzindo custos de transporte, aumentando a conectividade e criando condições para atrair investimentos sustentáveis
9 – Valorizar a contribuição do agricultor amazônico na transição climática global, reconhecendo que produção de alimentos, conservação florestal e segurança alimentar devem caminhar de mãos dadas