Três dias e um alerta silencioso: o que conecta agricultura, florestas e água — e por que isso deveria te preocupar agora

por Jayme Vasconcellos*

Entre 20 e 22 de março**, três datas globais se sucedem com uma lógica que vai além do simbolismo: agricultura, florestas e água. Não é apenas uma sequência no calendário, mas um encadeamento que reflete a interdependência entre produção de alimentos, equilíbrio ambiental e disponibilidade hídrica. Tratá-los de forma isolada compromete a compreensão do todo. Integrá-los é condição para qualquer estratégia que pretenda ser consistente.

A agricultura segue como um dos pilares da segurança alimentar e da estabilidade econômica. Segundo a FAO, a produção de alimentos precisará crescer significativamente nas próximas décadas para atender à demanda global. Mas a questão central deixou de ser apenas “produzir mais”. O ponto de inflexão está em produzir melhor, com menor variabilidade de resultado frente a um ambiente climático mais instável.

Nesse contexto, as florestas deixam de ser vistas apenas como reservas ambientais e passam a ser compreendidas como infraestrutura ecológica. Elas regulam o ciclo hidrológico, estabilizam o clima regional e influenciam diretamente a produtividade agrícola. O cientista climático Carlos Nobre tem sido enfático ao afirmar que a degradação da Amazônia compromete os chamados “rios voadores”, afetando regimes de chuva em áreas agrícolas estratégicas do Brasil. Não é uma externalidade distante. É impacto direto na previsibilidade da produção.

Foto: Jeffry Surianto / Pexels.com

A água, por sua vez, é o elemento que conecta tudo isso de maneira operacional. Sem disponibilidade hídrica estável, não há agricultura resiliente. Sem cobertura florestal adequada, não há regulação eficiente da água. A diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, destacou em relatórios recentes que a pressão sobre os recursos hídricos tende a aumentar não apenas pelo crescimento populacional, mas também por padrões ineficientes de uso e gestão.

O desafio, portanto, não é apenas técnico, mas sistêmico. A fragmentação entre políticas agrícolas, ambientais e hídricas gera inconsistência de decisão. Enquanto um setor busca maximizar produção no curto prazo, outro tenta mitigar danos no longo prazo. O resultado é um sistema que opera com ruído, aumentando risco e reduzindo previsibilidade.

Especialistas como Johannes Cullmann, ligado à World Meteorological Organization, defendem que a gestão da água precisa migrar de uma lógica reativa para uma abordagem preventiva e integrada. Isso implica monitoramento em tempo real, governança multinível e uso consistente de dados para tomada de decisão.

No campo prático, isso se traduz em algumas direções claras. Integração entre uso do solo e gestão hídrica. Adoção de práticas agrícolas regenerativas. Proteção e recuperação de áreas florestais estratégicas. E, sobretudo, construção de mecanismos de governança que reduzam a variabilidade do sistema como um todo.

Essas três datas, quando lidas em conjunto, funcionam menos como celebração e mais como alerta. A agricultura depende das florestas. As florestas sustentam a água. E a água determina, no limite, a viabilidade de tudo o que vem antes.

Ignorar essa interdependência não é apenas um erro ambiental. É um risco operacional.

*Jornalista, radialista e técnico em Agronegócio. Especialista em Liderança e Desenvolvimento de Equipes, é editor-chefe do Agricultura e Negócios e autor de livros sobre liderança e criatividade.

**20/03 – Dia Mundial da Agricultura | 21/03 – Dia Mundial das Florestas | 22/03 – Dia Mundial da Água

Eventos climáticos extremos sob efeito do El Niño reposicionam o seguro no Brasil

A confirmação do retorno do fenômeno El Niño em 2026 acende um alerta para o aumento da ocorrência de eventos climáticos extremos no Brasil. De acordo com análises meteorológicas divulgadas recentemente, o aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial pode começar a se consolidar já a partir do primeiro semestre, com potencial de intensificar chuvas irregulares, tempestades severas, ondas de calor e períodos de seca em diferentes regiões do país ao longo do ciclo.

O fenômeno, que historicamente altera padrões atmosféricos e influencia diretamente o regime de precipitação na América do Sul, tende a provocar impactos semelhantes aos registrados em ciclos anteriores marcados por extremos meteorológicos e prejuízos expressivos. A combinação entre maior variabilidade climática e alta exposição urbana amplia o risco de alagamentos, deslizamentos, danos estruturais e interrupções operacionais.

Para o setor de seguros, o cenário projeta uma mudança estrutural na percepção de risco. Gustavo Zanon, CEO da Seguralta, afirma que o debate deixou de ser episódico. “Quando um fenômeno climático passa a ter recorrência e previsibilidade estatística, ele deixa de ser tratado como eventualidade. Isso exige planejamento financeiro estruturado, tanto por parte das famílias quanto das empresas”.

Segundo o executivo, o impacto econômico de eventos extremos costuma ultrapassar o dano físico imediato. “O prejuízo não está apenas na estrutura afetada. Está na paralisação da atividade, na perda de receita, na dificuldade de recomposição do fluxo de caixa. Em pequenos e médios negócios, alguns dias de interrupção podem comprometer a sustentabilidade da operação”.

A projeção de intensificação de eventos extremos ao longo de 2026 também reposiciona o seguro dentro da agenda de gestão de risco corporativo. A revisão periódica de coberturas, a adequação das apólices ao perfil regional de exposição e a análise técnica de vulnerabilidades passam a integrar o planejamento estratégico. “Seguro não deve ser contratado após o susto. Ele precisa fazer parte da arquitetura de proteção patrimonial antes da crise”, afirma Zanon.

Em um contexto de maior instabilidade climática, especialistas apontam que a discussão sobre adaptação e resiliência tende a ganhar centralidade na agenda econômica nacional. O retorno do El Niño reforça a percepção de que eventos extremos não são mais exceção estatística, mas componente recorrente do cenário de risco que impacta infraestrutura, cadeias produtivas e estabilidade financeira.

Foto: Adobe Stock

COP30: tecnologia ganha papel estratégico na luta global contra a crise climática

Venturus, centro de ciência e tecnologia brasileiro, participou do painel “Tecnologias Emergentes para o Clima” durante a COP30, em Belém. O debate reuniu especialistas de instituições internacionais como o Geneva Science and Diplomacy Anticipator, a Université de Sherbrooke e o Open Quantum Institute para discutir os impactos sociais, éticos e ambientais das novas fronteiras tecnológicas.

“Os países que possuem florestas tropicais estão apostando na sua proteção como forma de gerar benefícios. No entanto, é importante entender que quem realmente conseguirá viabilizar essa proteção são as nações com maior poder econômico. Isso mostra que preservar é uma responsabilidade global, que exige ação conjunta. A crise climática não é algo do futuro, ela já está acontecendo, e precisamos agir agora”, destacou Daniel Haro, Head de Tecnologias Emergentes no Venturus.

O painel abordou temas como o uso da inteligência artificial, da computação quântica e das biotecnologias no enfrentamento da crise climática, questionando como esses avanços podem ser aplicados de forma ética e equitativa. Para Haro, o desafio não está apenas em desenvolver tecnologias de ponta, mas em assegurar que elas contribuam de maneira concreta para a sustentabilidade. 

O representante do Venturus também ressaltou o papel do setor tecnológico como agente ativo na construção de soluções integradas. “A nossa ação vai além da preservação. Quando unimos agricultura, tecnologia, transporte, eficiência e políticas públicas mais sustentáveis, damos passos concretos em direção a uma solução real para a crise climática”, completou.

COP30: “Emergência climática é uma crise de desigualdade”, diz Lula na abertura da conferência da ONU sobre clima

com informações da Agência Brasil

O presidente Lula defendeu nesta segunda-feira (10/11) que a governança global precisa contribuir a favor de uma transição justa para economias de baixo carbono que evite um colapso climático planetário. A declaração foi dada na abertura da 30ª Conferência das Partes (COP30) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), realizada em Belém. O evento prossegue até o próximo dia 21.

“Uma transição justa precisa contribuir para reduzir as assimetrias entre o Norte e o Sul Global, forjadas sobre séculos de emissões. A emergência climática é uma crise de desigualdade. Ela expõe e exacerba o que já é inaceitável. Ela aprofunda a lógica perversa que define quem é digno de viver e quem deve morrer. Mudar pela escolha nos dá a chance de um futuro que não é ditado pela tragédia. O desalento não pode extinguir as esperanças da juventude. Devemos a nossos filhos e netos a oportunidade de viver em uma Terra onde seja possível sonhar”, destacou o presidente.

Em seu discurso, o presidente citou o pensador indígena Davi Kopenawa para pedir clareza aos negociadores. “O xamã yanomami Davi Kopenawa diz que o pensamento na cidade é obscuro e esfumaçado, obstruído pelo ronco dos carros e pelo ruído das máquinas. Espero que a serenidade da floresta inspire em todos nós a clareza de pensamento necessária para ver o que precisa ser feito”.

Realizada pela primeira vez na Amazônia – bioma com a maior biodiversidade do planeta e um regulador do clima global -, a COP30 tem o desafio de recolocar o tema das mudanças climáticas no centro das prioridades internacionais.

Foto: Bruno Peres / Agência Brasil

Lula enfatizou que o aquecimento global pode empurrar milhões de pessoas para a fome e a pobreza, fazendo retroceder décadas de avanço, e lembrou do impacto desproporcional que mudança do clima causa sobre mulheres, afrodescendentes, migrantes e grupos vulneráveis, o que deve ser levado em conta nas políticas de adaptação. O presidente reafirmou o papel dos territórios indígenas e de comunidades tradicionais nos esforços de mitigação do aumento das temperaturas, pela preservação das florestas e, consequentemente, a regulação do carbono na atmosfera. “No Brasil, mais de 13% do território são áreas demarcadas para os povos indígenas. Talvez ainda seja pouco”.

Acelerar a ação climática

Lula pediu que os líderes acelerem as ações necessárias para conter o aumento da temperatura do planeta, voltou a defender um mapa do caminho para superar a dependência dos combustíveis fósseis – que causam 75% do aquecimento global -, e sugeriu a criação de um conselho mundial sobre o tema.

“Avançar requer uma governança global mais robusta, capaz de assegurar que palavras se traduzam em ações. A proposta de criação de um Conselho do Clima, vinculado à Assembleia Geral da ONU, é uma forma de dar a esse desafio a estatura política que ele merece”, pontuou.

Ao citar o chamado à ação por parte do Brasil na COP30, Lula destacou a necessidade de formulação e implementação de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) mais ambiciosas, garantia de financiamento, transferência de tecnologia e capacitação aos países em desenvolvimento, além de priorizar políticas de adaptação aos efeitos da mudança do clima.

“A mudança do clima já não é uma ameaça do futuro. É uma tragédia do presente. O furacão Melissa que fustigou o Caribe e o tornado que atingiu o estado do Paraná, no Sul do Brasil, deixaram vítimas fatais e um rastro de destruição. Das secas e incêndios na África e na Europa às enchentes na América do Sul e no Sudeste Asiático, o aumento da temperatura global espalha dor e sofrimento, especialmente entre as populações mais vulneráveis”, observou.