O avanço dos assistentes virtuais e das ferramentas de inteligência artificial generativa acendeu um alerta nas salas de reunião do mundo corporativo: será que o papel dos líderes corre o risco de ser automatizado nos próximos anos?
Para a dra. Eve Poole OBE, professora associada da Hult International Business School e pesquisadora de liderança, a resposta é um sonoro não. Por mais avançados que os algoritmos se tornem na análise de dados e no raciocínio lógico, existe um ecossistema complexo de habilidades que a tecnologia simplesmente não consegue programar.
Trata-se do que a pesquisadora batizou de “código imperfeito humano”, um conjunto de características genuinamente nossas que forma a espinha dorsal de uma liderança inspiradora. “Nunca enfrentamos um concorrente como a inteligência artificial. Jamais tivemos algo capaz de executar tantas tarefas que considerávamos exclusivas. Precisamos parar de competir em lógica com as máquinas e focar no que nos torna profundamente humanos”, destaca a dra. Poole.
O que é o “código imperfeito humano”?
Muitas vezes visto pelo mundo corporativo tradicional como uma fragilidade, esse “código” é, na verdade, um mecanismo evolutivo de sobrevivência desenvolvido ao longo de milhares de anos. Na prática, liderar significa tomar decisões em cenários incertos para proteger e direcionar um grupo — algo que algoritmos determinísticos não fazem de forma autônoma.
Segundo a especialista, o código imperfeito é composto por cinco pilares:
Emoção: Cria conexão genuína e senso de comunidade, dando propósito real às escolhas corporativas.
Intuição: O famoso “feeling” que guia decisões rápidas quando não há dados suficientes na mesa.
Convivência com a incerteza: A capacidade mental de sustentar paradoxos e evitar conclusões precipitadas em momentos de crise.
Consciência moral: O filtro ético que evolui com a experiência e baliza o que é certo ou errado além dos números.
Construção de significado (storytelling): A habilidade de traduzir metas frias em histórias que engajam e motivam equipes no dia a dia.
A armadilha da comunicação pasteurizada por máquinas
O reflexo desse fenômeno já é visível no cotidiano das empresas. Quando gestores recorrem excessivamente à IA para redigir e-mails, alinhar expectativas ou estruturar feedbacks, correm o risco de “limpar” do texto o elemento mais valioso: a conexão emocional.
Processos fundamentais de gestão, como mentoria, construção de cultura organizacional e definição de visão de futuro, dependem do fator humano. Sem a empatia e a vulnerabilidade, declarações de missão viram frases genéricas e reuniões perdem a capacidade de inspirar.

O futuro do trabalho pertence aos líderes autênticos
O grande desafio para os executivos de hoje não é aprender a programar, mas sim aprender a confiar em seus próprios instintos. Em um mercado saturado de respostas automatizadas e relatórios padronizados, o diferencial competitivo estará nos profissionais capazes de equilibrar dados analíticos com inteligência emocional.
À medida que as rotinas operacionais passam a ser absorvidas pelos robôs, os colaboradores buscarão algo que máquina nenhuma pode fornecer: humanidade, abrigo ético e norte estratégico.
Como resume a pesquisadora, “o código imperfeito ensina o que significa ser humano. E enquanto liderar for, essencialmente, guiar outras pessoas, ele continuará sendo tudo o que você precisa”.