Mercado global do pescado movimenta US$ 184 bilhões e abre oportunidades para o Brasil

O consumo mundial de pescado alcançou 21,3 quilos por pessoa ao ano, de acordo com o relatório The State of World Fisheries and Aquaculture 2026 (SOFIA), da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), enquanto no Brasil o indicador está em 12,6 quilos (Anuário Seafood Brasil) e segue em crescimento. Com a ampliação da produção e as exportações ganhando novas perspectivas, o país ganha maior relevância no mercado internacional de pescado. Esse cenário foi apresentado por Ricardo Torres, head de portfólio da Seafood Show Latin America. A feira, que está em sua quinta edição e é considerada a maior plataforma de negócios do pescado da América Latina, acontece até hoje (22/10), em São Paulo (SP).

O relatório da FAO aponta que a produção mundial de animais aquáticos e algas atingiu 235 milhões de toneladas. Desse total, 195 milhões de toneladas corresponderam a animais aquáticos. Pela primeira vez, a aquicultura superou 100 milhões de toneladas de animais aquáticos produzidos, enquanto a pesca extrativa permaneceu relativamente estável, limitada pela disponibilidade dos estoques e pelas condições ambientais. A FAO também estima que o comércio internacional de produtos de animais aquáticos movimentou US$ 184 bilhões.

“O mercado de pescado é global e interconectado. A produção, o consumo e o comércio dependem de relações entre países, fornecedores e compradores, e o Brasil tem condições de ampliar sua participação nesse cenário. A aquicultura vem contribuindo para dar mais estabilidade à oferta, enquanto o crescimento da demanda abre espaço para novos produtos, investimentos e negócios”, afirma Ricardo Torres.

No Brasil, segundo o Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026, da Peixe BR, a produção de piscicultura alcançou 1,011 milhão de toneladas em 2025, alta de 4,41% em relação ao ano anterior e um marco para a atividade. A tilápia liderou o resultado, com 707.495 toneladas, aproximadamente 70% da produção nacional de peixes cultivados. O levantamento também contempla espécies nativas, como tambaqui e pirarucu, e outras espécies de cultivo.

O crescimento da produção, porém, não elimina a necessidade de importações, ou seja, a disponibilidade de pescado no mercado brasileiro resulta da combinação entre pesca extrativa, aquicultura e produtos importados. “O Brasil está se consolidando como um produtor relevante, mas também é um grande mercado consumidor. Para crescer, as empresas precisam olhar para os dois lados: desenvolver a produção nacional e, ao mesmo tempo, estabelecer relações comerciais capazes de garantir variedade, regularidade e competitividade na oferta”, destacou Torres.

Em relação ao comércio exterior, o Chile é um dos principais países fornecedores para o Brasil, especialmente do salmão, ao lado de Vietnã, Argentina e Equador. Nas exportações, os Estados Unidos permanecem como um mercado importante para produtos como filés frescos de tilápia, lagosta e peixes capturados na costa brasileira, a exemplo do pargo. A China, por sua vez, compra produtos como pescada-amarela, lagosta e bexiga natatória, com participação relevante de fornecedores do Pará.

Torres comentou sobre as tarifas impostas pelos Estados Unidos no ano passado, que afetaram as exportações de pescado, com a receita recuando 39% e queda de 41% no volume exportado no primeiro trimestre deste ano. A posterior isenção de determinados produtos, entre eles filés frescos e tilápia inteira, contribuiu para recuperar a competitividade de parte das exportações brasileiras. Com isso, a Abipesca projeta uma retomada das exportações do setor, com expectativa de alcançar cerca de US$ 600 milhões.

Varejo e food service ampliam oportunidades

Dados do Ranking ABRAS 2025, da Associação Brasileira de Supermercados, mostram que o faturamento da seção de peixaria dos supermercados respondentes passou de R$ 4,44 bilhões, em 2020, para R$ 12,33 bilhões, em 2024 — crescimento de 178%. No mesmo período, o faturamento total do setor supermercadista avançou 48,3%, evidenciando o desempenho expressivo da categoria.

O food service, por sua vez, concentra uma parcela importante do consumo de pescado e apresenta oportunidades relacionadas à diversificação de cardápios e à eficiência operacional. O Raio-X do Pescado no Food Service do Brasil 2026–2027, realizado pela Seafood Brasil em parceria com a American Seafoods, identificou que 43% das operações consultadas registram perdas superiores a 12% do pescado adquirido. “A expansão do consumo depende também de resolver questões práticas do mercado. No varejo, há espaço para ampliar a oferta e diversificar os formatos de produtos. No food service, rendimento, padronização e controle de perdas são fundamentais para a rentabilidade. Aproximar fornecedores e compradores é uma forma de acelerar essas conexões e transformar oportunidades em negócios”, avalia Torres.

Seafood Show Latin America conecta empresas e compradores

É nesse ambiente de expansão, concorrência internacional e transformação dos canais de venda que acontece a Seafood Show Latin America 2026. O evento reúne indústrias nacionais e internacionais de pescado, frigoríficos, distribuidores, importadores, exportadores, atacadistas, varejistas, operadores de food service e fornecedores de máquinas, tecnologias, insumos e serviços especializados.

A feira, organizada pela Francal em parceria com a Seafood Brasil, apresenta uma área de exposição 43% maior que a edição anerior, com 120 marcas expositoras nacionais e internacionais, dispostas em quatro setores para facilitar a jornada dos visitantes e aproximar empresas de públicos estratégicos para seus negócios.

A qualificação das conexões comerciais é um dos focos desta edição. O Seafood Buyers Program trouxe à feira 140 compradores do varejo e do food service, incluindo representantes de redes regionais. A feira também tem a participação de compradores internacionais por meio do Exporta Mais Brasil, iniciativa vinculada à ApexBrasil. “A Seafood Show Latin America acompanha o amadurecimento do mercado e busca aproximar quem produz de quem compra, no Brasil e no exterior. Queremos facilitar o acesso a fornecedores, apresentar soluções e estimular relações comerciais que possam gerar resultados concretos para as empresas”, afirma Torres.

A programação inclui ainda o seminário “O futuro do bacalhau no Brasil”, organizado pelo Conselho Norueguês da Pesca e pela iniciativa Seafood from Norway, além de atrações dedicadas à inovação, à gastronomia, à qualificação profissional e ao relacionamento entre empresas. Entre os destaques estão o Seafood Innovation Show, que reconhece produtos e soluções inovadoras; o Seafood Service Show, com demonstrações culinárias e técnicas de preparo; o concurso Melhores Peixeir@s do Brasil; o Campeonato Brasileiro de Sushi; o Seafood Talk Show; e o Seafood Celebration Show.

Foto: WTF / Divulgação

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