Entre recorde de produção e atraso nas compras, produtor rural corre contra o tempo na safra 2026/27

O agronegócio brasileiro fecha a safra 2025/26 com números recordes, mas entra no planejamento do ciclo 2026/27 sob um cenário de custos mais voláteis, crédito delimitado, câmbio pressionado e exigências internacionais mais rígidas. Segundo o mais recente levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o país deve colher cerca de 360 milhões de toneladas de grãos na safra que se encerra, puxado por uma produção recorde de soja, próxima de 180 milhões de toneladas, e por uma safra de milho que soma 141,7 milhões de toneladas somadas as três safras. O café também caminha para um novo recorde em 2026/27, com estimativas de diferentes consultorias variando entre 66 milhões e mais de 75 milhões de sacas.

Apesar do otimismo com a produção, o custo dos insumos segue no centro das atenções. O mercado internacional de fertilizantes voltou a ficar tenso neste ano, pressionado pela instabilidade geopolítica no Oriente Médio e por gargalos logísticos que encareceram fretes e o gás natural, matéria-prima essencial para os nitrogenados. Ainda que o Índice de Poder de Compra de Fertilizantes tenha recuado em junho, refletindo a queda nas commodities agrícolas e nos preços médios de insumos, o produtor segue mais cauteloso nas negociações para 2026/27. Dados do setor apontam que pouco mais da metade do volume de fertilizantes necessário para a próxima safra havia sido contratada até o momento, patamar abaixo do histórico para a época, o que acende o alerta para uma possível concentração de compras no gargalo logístico próximo ao plantio.

Segundo Marcos Dallagnese, diretor Comercial da Orbia, plataforma digital integrada do agronegócio, cada cultura vive um momento distinto de mercado, o que exige estratégias diferentes de compra e gestão de insumos ao longo da safra. “A soja segue em ritmo de recuperação de preços de olho na demanda e safra americana, mas isso também exige do produtor atenção redobrada ao câmbio e ao timing entre a venda do grão e a compra de insumos. Já o milho vive uma transformação estrutural, com a expansão acelerada das usinas de etanol ampliando a disputa pelo grão e tornando o planejamento logístico ainda mais estratégico. O café, por sua vez, segue em um bom momento de preços e volatilidade, mesmo diante da expectativa de safra recorde, o que exige acompanhamento constante do mercado por parte do produtor”, afirma.

De fato, o etanol de milho deve consumir cerca de 37,7 milhões de toneladas do cereal na safra 2026/27, avanço de 36% sobre o ciclo anterior, elevando a participação do biocombustível para cerca de 34% da demanda doméstica por milho, segundo levantamento do Itaú BBA. O movimento amplia a disputa pelo grão entre indústria de biocombustíveis, exportação e proteína animal, e tende a aumentar a sensibilidade dos preços domésticos em momentos de menor oferta.

Já no café, apesar da previsão de colheita recorde para 2026/27, o mercado físico segue pressionado: praças produtoras de Minas Gerais, como Guaxupé e Varginha, acumularam valorização importantes em julho, reflexo de estoques certificados apertados e do ritmo ainda lento de comercialização antecipada da nova safra, hoje bem abaixo da média histórica para a época.

Foto: Ebahir / Pexels.com

Ainda de acordo com Dallagnese, o produtor rural brasileiro vem adotando um perfil cada vez mais estratégico na tomada de decisão, deixando de comprar apenas com base em oportunidade pontual para analisar timing, condições comerciais, crédito e previsibilidade operacional. “Hoje, o produtor precisa olhar para a compra de insumos como parte da gestão financeira da propriedade. Não basta apenas garantir produto, é preciso buscar eficiência, previsibilidade com parceiros confiáveis e ferramentas que ajudem na tomada de decisão ao longo da safra”, explica.

Nesse movimento, as plataformas digitais vêm ganhando espaço dentro do agro brasileiro. A Orbia, que nasceu como um programa de fidelidade e hoje reúne soluções completas para a cadeia agrícola, conecta produtores rurais a uma ampla rede de revendas, distribuidores e cooperativas em todo o país, permitindo cotação, compra e pagamento online de insumos agrícolas.

“A digitalização trouxe mais agilidade e transparência para o mercado. Na Orbia, o produtor consegue comparar ofertas, acompanhar condições comerciais e acessar diferentes fornecedores em um só lugar, o que contribui diretamente para um planejamento mais eficiente das compras”, destaca Dallagnese.

Além das questões operacionais, o mercado agrícola também passa por uma transformação ligada às exigências globais de rastreabilidade, sustentabilidade e conformidade regulatória. Um dos temas que mais deve pautar 2026 e 2027 é o Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR), que passa a valer de forma gradual a partir de dezembro de 2026 para grandes e médios produtores, e a partir de junho de 2027 para pequenos produtores. 

Entre as commodities mais expostas à nova regra está justamente o café, uma vez que mais da metade da safra brasileira segue para a União Europeia, mas a soja também figura entre os produtos citados como relevantes pela regulação, reforçando a necessidade de sistemas robustos de rastreabilidade e comprovação de origem ao longo de toda a cadeia produtiva.

“O agro brasileiro continua extremamente forte e competitivo, mas o cenário atual exige cada vez mais profissionalização. Quem conseguir unir planejamento, tecnologia e gestão, terá mais capacidade de enfrentar um ambiente de margens apertadas e maior pressão do mercado global”, finaliza Dallagnese.

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