O comércio entre Brasil e países árabes segue crescendo em 2026, apesar do conflito no Oriente Médio, que limita o trânsito de embarcações no Estreito de Ormuz e o acesso a mercados importantes do bloco de 22 países. De acordo com dados compilados pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, as exportações do Brasil para a Liga Árabe avançaram 3,71% entre janeiro e julho, totalizando US$ 11,26 bilhões, ao passo que as vendas árabes ao Brasil também cresceram, 12,22% no período, para US$ 6,13 bilhões. As comparações são com o mesmo período de 2025.
“No início do ano, fomos todos surpreendidos por conflitos na região do Golfo cujos impactos foram sentidos nos quatro cantos do mundo” disse o presidente da entidade, William Adib Dib Júnior, no Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, realizado pela Câmara Árabe nesta terça (25/08), na capital paulista.
“Ao longo dos meses subsequentes, a resiliência do agronegócio brasileiro, das cadeias de fertilizantes árabes e dos sistemas logísticos internacionais permitiram minimizar os efeitos desta situação”, afirmou, referindo-se ao esforço de reorganização dos modais logísticos na região para contornar restrições.
Dib Júnior reconhece na relação bilateral resiliência e vitalidade, mas ainda acredita que há potencial a ser desenvolvido. Ele cita o fornecimento de alimentos, que hoje já é 75% da pauta de exportações. Segundo ele, o Brasil se destaca no envio de commodities alimentares, mas participa pouco do envio de industrializados, mesmo sendo competitivo.
O dirigente também vê potencial para avançar a cooperação no campo da energia limpa e da descarbonização. Defende também que empresas brasileiras considerem internacionalizar operações nos países árabes, que oferecem vantagens fiscais e logísticas em zonas francas, além de acordos de livre comércio com Europa e Ásia.
“Brasil e países árabes mantêm sinergias evidentes para a integração dos ecossistemas produtivos, de inovação e também no turismo”, afirmou o dirigente. “Além disso, possuem mercados de consumo muito dinâmicos”, finalizou.
Valor compartilhado
O secretário-geral da Liga Árabe, Nabil Fahmy, acredita haver nas relações entre países árabes e Brasil atributos para gerar “valor compartilhado” e capacidade de enfrentar as oscilações da economia global. A geração desse valor, no entanto, depende, na visão do diplomata, da diversificação do comércio, da inclusão de pequenas e médias empresas, da integração entre empreendedores e startups, além do incentivo a investimentos mútuos.
Em fala no Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, Fahmy destacou que as trocas comerciais atingiram US$ 31,3 bilhões em 2025, com múltiplos interesses econômicos e capacidade de se manter e crescer. Segundo o secretário-geral, existem condições para que a relação bilateral avance para uma nova fase, marcada por investimentos conjuntos, transferência de tecnologia e interligação das cadeias de valor nas duas regiões. “O desafio atual é [criar um sistema] econômico internacional mais inclusivo e sensível aos interesses dos países em desenvolvimento”, afirmou Fahmy.
O diplomata afirmou ainda que o avanço da parceria depende de uma atuação conjunta dos setores público e privado. Segundo ele, o capital privado atualmente supera o público, exigindo a costura de parcerias que conciliem interesses de organizações e os nacionais.
Itamaraty pede previsibilidade
O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, titular do Ministério de Relações Exteriores, sugeriu que Brasil e países árabes estabeleçam um “pacto de previsibilidade” para garantir o acesso recíproco a alimentos e fertilizantes. O pacto, segundo Vieira, seria uma forma de proteger as regiões contra o que chamou de “escalada nas rivalidades geopolíticas”, referindo-se, principalmente, aos conflitos no Oriente Médio, que elevaram o custo do transporte de alimentos brasileiros e de fertilizantes árabes comercializados entre as regiões.
“O mundo árabe, gigante na produção desses insumos [fertilizantes], e o Brasil, potência global do agronegócio, devem associar-se em torno de um pacto de previsibilidade”, afirmou o chanceler em vídeo exibido no Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, evento da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, realizado na capital paulista.
“A segurança alimentar é uma via de mão dupla que requer estabilidade na cadeia de suprimentos da base produtiva, como demonstram as dificuldades atuais para o acesso de países agrícolas, como o Brasil, a fertilizantes”, prosseguiu Vieira. “Ao garantirmos o fornecimento mútuo de insumos e alimentos, protegemos nossas economias contra os choques de oferta e blindamos a segurança alimentar de nossas populações.”
O chanceler sugeriu ainda que Brasil e países árabes busquem a mesma previsibilidade em suas estratégias de transição energética. Entre as sinergias das duas regiões nesta área, citou o fato de o Brasil oferecer matriz energética com 90% de energia renovável e uma das maiores reservas de minerais críticos do mundo. Os árabes, por sua vez, contariam com escala de capital e projetos energéticos em novos vetores já em estruturação.
“Há um claro potencial de sinergia no campo da transição energética, com a atração de investimentos para a indústria brasileira e a transformação do nosso parque produtivo em novo polo de minerais críticos, essenciais para a eletrônica global e para a transformação ecológica”, disse Vieira, reforçando o papel de protagonismo que o setor privado deveria assumir no esforço.
O Fórum Econômico Brasil-Países Árabes tem o patrocínio de FAMBRAS Halal e International Halal Academy, Vale, DP World, CDIAL Halal, First Abu Dhabi Bank, MBRF, Qatar Airways e MZAH Investment.
