Ministério da Agricultura fecha acordo com Turquia para rota alternativa ao estreito de Ormuz

O Brasil garantiu a continuidade de uma rota alternativa via Turquia para o envio de exportações agropecuárias, diante das restrições no Estreito de Ormuz. A solução foi negociada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Com isso, a estrutura portuária turca segue como opção importante para cargas brasileiras com destino ao Oriente Médio e à Ásia Central, permitindo que as mercadorias sigam viagem sem a necessidade de passar pelo Golfo Pérsico.

Essa rota já era utilizada por exportadores brasileiros. No entanto, a Turquia passou a exigir novas regras sanitárias para produtos sujeitos ao controle veterinário oficial, como os de origem animal. Para evitar prejuízos ao fluxo das exportações, foi negociado o Certificado Veterinário Sanitário para Produtos Sujeitos a Controles Veterinários em Trânsito Direto pela República da Turquia ou para Armazenamento Temporário com Destino à Expedição para outro País/Navio.

Na prática, o documento permite que mercadorias brasileiras, especialmente produtos de origem animal, atravessem o território turco ou fiquem armazenadas temporariamente no país antes de seguirem para o destino final.

A medida confere mais segurança e previsibilidade aos exportadores brasileiros em um momento de instabilidade nas rotas internacionais e reforça a atuação do Mapa para manter o comércio agropecuário brasileiro em funcionamento.

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Mesmo com safra recorde, crise sistêmica desafia o agro brasileiro

O agronegócio brasileiro vive um paradoxo. Enquanto o país caminha para colher mais de 350 milhões de toneladas de grãos e mantém o crescimento do PIB do setor, aumenta o número de produtores rurais endividados e em dificuldade financeira. De acordo com dados do Serasa, em 2025, foram registrados 1.990 pedidos de recuperação judicial no campo, um aumento de 56,4% em relação aos 1.272 registrados em 2024.

A contradição se acentua diante dos números da produção. Projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam que a safra de soja 2025/2026 deve superar 178 milhões de toneladas, puxada principalmente por estados do Centro-Oeste como Goiás e Mato Grosso do Sul. Por outro lado, a rentabilidade caiu: a saca da soja, que chegou a cerca de R$ 200 em 2022, gira hoje em torno de R$ 100, reduzindo drasticamente as margens.

A advogada especialista em Direito Agrário e do Agronegócio, Márcia de Alcântara, do escritório Celso Cândido de Souza Advogados, explica que esse cenário revela uma crise que vai além da gestão individual e atinge toda a estrutura do agro. “A análise macroeconômica não reflete o que acontece no campo. O produtor está produzindo mais, mas não necessariamente lucrando. Em muitos casos, ele está operando no limite ou até no prejuízo”, afirma.

Segundo Márcia, um dos motores dessa crise  é o próprio modelo de produção. “Com margens apertadas e dívidas acumuladas, o produtor amplia a área plantada para tentar compensar perdas. Só que isso aumenta o risco e pode aprofundar o endividamento”, explica. Contratos como CPRs, operações de barter e compromissos com tradings também pressionam a manutenção da produção, mesmo em cenários desfavoráveis.

O peso das dívidas vem aumentando. O endividamento rural já ultrapassa R$ 1,3 trilhão no Brasil, com cerca de 30% desse total ligado a bancos e cooperativas de crédito. Em alguns casos, as taxas podem chegar a 25% ao ano. “O custo do dinheiro virou um dos principais problemas do agro. Muitas vezes, o financiamento da safra já nasce comprometido”, diz.

O clima também agrava o cenário. Enquanto o Sul enfrenta quebras de safra com estiagens e enchentes, estados do Centro-Oeste, como Goiás, lidam com chuvas irregulares que comprometem o desenvolvimento das lavouras e elevam os custos com irrigação. “O clima deixou de ser uma variável previsível e passou a ser um fator constante de insegurança”, aponta.

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Além disso, os custos de produção seguem pressionando. Fertilizantes nitrogenados tiveram alta em 2025 e o mercado de defensivos movimentou cerca de US$ 11 bilhões em 2024. O diesel, essencial para máquinas e transporte, também encarece a operação, especialmente em regiões distantes dos portos.

Para a advogada, a crise atinge principalmente pequenos e médios produtores, que têm menos acesso a ferramentas de proteção financeira. “A crise do agro hoje é estrutural e multifatorial. Nesse contexto, a assessoria jurídica tem se tornado estratégica para renegociar dívidas, revisar contratos e evitar a perda de patrimônio. Enquanto não houver um enfrentamento mais amplo desses desequilíbrios, o país vai continuar convivendo com essa contradição: recordes de produção de um lado e produtores financeiramente fragilizados do outro”, conclui.