O Agro Conecta: o agronegócio como elo entre campo, cidade e inovação

por Jayme Vasconcellos*

A atividade agropecuária brasileira passou, nas últimas décadas, por um processo contínuo de transformação estrutural. A incorporação de ciência, tecnologia e gestão profissional alterou profundamente a forma de produzir e de se relacionar com o mercado e com a sociedade. O campo deixou de ser um espaço isolado para se tornar parte ativa de uma rede que envolve centros de pesquisa, cooperativas, indústrias, serviços e consumidores urbanos.

Segundo a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, a trajetória do agro brasileiro está diretamente associada à capacidade de integração entre ciência e produção. “A agropecuária nacional se desenvolveu com base em pesquisa aplicada e na proximidade com o produtor. A inovação no campo é resultado dessa interação permanente”, afirmou em apresentações institucionais da empresa.

Essa dinâmica se reflete no cotidiano das propriedades. Em Rio Verde (GO), o produtor rural José Antônio Ferreira, cooperado há mais de 20 anos, descreve uma rotina produtiva orientada por informação técnica. “Hoje, cada decisão passa por recomendação agronômica, dados de clima e histórico da área. A produção ficou mais técnica, e isso mudou a forma de trabalhar”, relata.

O exemplo ilustra um movimento mais amplo: o agronegócio como um ambiente de tomada de decisão baseada em conhecimento compartilhado.

Cooperativas como eixo de integração regional

Nesse processo, o cooperativismo desempenha um papel central. Cooperativas agroindustriais atuam como estruturas de conexão entre o produtor e os diferentes elos da cadeia produtiva, oferecendo acesso a assistência técnica, inovação, crédito, logística e mercado.

Para o diretor-executivo da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Alberto França, o modelo cooperativista é um dos fatores que explicam a capacidade de organização do agro brasileiro. “As cooperativas reduzem distâncias. Elas aproximam o produtor da tecnologia, da gestão e das exigências do mercado, ao mesmo tempo em que fortalecem o desenvolvimento regional”, afirmou em eventos do setor.

Essa atuação tem impactos diretos nas cidades. A presença de cooperativas impulsiona agroindústrias, serviços especializados, comércio e geração de empregos, criando uma relação de interdependência entre campo e meio urbano. O desenvolvimento regional passa a ser resultado de um sistema integrado, e não de ações isoladas.

Pesquisa aplicada como base da produtividade

A conexão entre pesquisa e prática é um dos pilares do desempenho agropecuário brasileiro. Instituições como a Embrapa e universidades públicas e privadas atuam na geração de conhecimento adaptado às condições tropicais, com resultados diretos sobre produtividade, sustentabilidade e segurança alimentar.

O pesquisador da Embrapa Evaristo de Miranda destaca que a ciência agropecuária brasileira se construiu a partir do território. “A pesquisa no Brasil sempre esteve ligada à realidade do produtor e às características ambientais do país. Esse diálogo é o que garante resultados consistentes”, afirmou em análises públicas sobre o setor.

A transferência de tecnologia ocorre por meio de assistência técnica, programas de capacitação e espaços de demonstração. Esses mecanismos permitem que a inovação seja testada, validada e incorporada gradualmente às rotinas produtivas, reduzindo riscos e ampliando ganhos de eficiência.

Tecnoshow COMIGO como espaço de articulação

Durante a Tecnoshow COMIGO, em Rio Verde, produtores circulam entre parcelas demonstrativas, estandes de empresas e áreas de apresentação técnica. Em um mesmo percurso, é possível observar resultados de pesquisa aplicada, discutir manejo com especialistas e avaliar soluções tecnológicas voltadas à realidade local. Esse ambiente resume a lógica do evento: encurtar a distância entre quem desenvolve conhecimento e quem toma decisões no campo.

Segundo Antônio Chavaglia, presidente do Conselho de Administração da COMIGO, a proposta do evento sempre foi criar um espaço de conexão. “A Tecnoshow foi pensada para aproximar o produtor da inovação e do conhecimento técnico, permitindo que ele veja, questione e avalie as tecnologias apresentadas”, afirmou em edições recentes.

Ao reunir diferentes elos da cadeia produtiva, a feira contribui para encurtar a distância entre quem desenvolve soluções e quem as aplica no campo, fortalecendo a integração entre pesquisa, mercado e produção.

Foto: Divulgação / COMIGO

Tecnologia e profissionalização do campo

A digitalização ampliou ainda mais essas conexões. Ferramentas de agricultura de precisão, sistemas de monitoramento e plataformas de gestão tornaram-se parte do cotidiano produtivo, aproximando o campo de padrões tecnológicos presentes em outros setores da economia.

Para Fernando Silva, gerente de inovação da Syngenta Brasil, a tecnologia tem papel estratégico na integração da cadeia. “Dados e conectividade permitem decisões mais eficientes e alinhadas às demandas de produtividade e sustentabilidade. Isso aproxima produtores, empresas e consumidores”, afirmou em debates institucionais.

Esse avanço tecnológico também impacta o perfil profissional do setor, atraindo mão de obra qualificada e reforçando a circulação de conhecimento entre áreas rurais e urbanas.

A engenheira agrônoma Mariana Lopes, formada em Goiânia e atuando na assistência técnica em propriedades do sudoeste goiano, descreve uma rotina que conecta o urbano ao rural. “A gente leva a pesquisa para o campo e traz o campo para a discussão técnica. O produtor participa das decisões e o conhecimento circula”, afirma. Para ela, o agro deixou de ser um espaço distante da cidade e passou a incorporar profissionais, métodos e tecnologias típicos de outros setores da economia.

Produção, consumo e responsabilidade

A relação entre produção e consumo tornou-se mais direta. A sociedade urbana passou a demandar informações sobre origem, qualidade e impacto ambiental dos alimentos, exigindo maior transparência da cadeia produtiva.

Para Christian Kapp, diretor de sustentabilidade da UPL Brasil, essa aproximação redefine o papel do produtor. “O diálogo com a sociedade é fundamental. Produzir bem inclui adotar práticas responsáveis e comunicar isso de forma clara”, afirmou em fóruns sobre sustentabilidade.

Programas de boas práticas agrícolas, rastreabilidade e gestão ambiental funcionam como instrumentos de conexão entre o campo e o consumidor, reforçando a confiança e a legitimidade do setor.

Desenvolvimento econômico e social

As conexões promovidas pelo agronegócio têm reflexos diretos no desenvolvimento regional. Cadeias agroindustriais estruturadas impulsionam economias locais, ampliam a arrecadação municipal e sustentam redes de serviços que vão da educação técnica à saúde. Ao integrar produção, processamento e comercialização, o setor contribui para a estabilidade econômica de regiões inteiras, especialmente em municípios onde o agro é a principal base produtiva.

Embora desafios persistam, o setor demonstra capacidade de adaptação e articulação. O agro brasileiro se organiza como um sistema que integra interesses econômicos, ambientais e sociais.

O agro como elo estruturante

“O Agro Conecta” não é apenas um conceito, mas a descrição de um sistema em operação. Um sistema que transforma conhecimento científico em prática produtiva, articula interesses econômicos e sociais e reduz distâncias históricas entre o campo e a cidade. Iniciativas como a Tecnoshow COMIGO, o fortalecimento do cooperativismo e a atuação integrada da pesquisa evidenciam essa capacidade de articulação.

Ao operar como elo entre pessoas, tecnologias e propósitos, o agronegócio brasileiro reafirma sua relevância para além dos números da produção. Ele se consolida como uma estrutura de conexão que sustenta oportunidades, promove desenvolvimento regional e responde, de forma concreta, às demandas de uma sociedade cada vez mais interdependente.

*Jornalista, radialista e técnico em Agronegócio. Especialista em Liderança e Desenvolvimento de Equipes, é editor-chefe do Agricultura e Negócios e autor de livros sobre liderança e criatividade.