A atual instabilidade política e social na Venezuela ultrapassa as questões diplomáticas e atinge um ponto sensível da economia global: o mercado de energia. Detentora das maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela ocupa uma posição estratégica que, em momentos de incerteza, gera ondas de volatilidade nos preços internacionais do barril tipo Brent. Para o agronegócio brasileiro, esse cenário não é apenas uma notícia de política externa, mas um fator determinante para o custo de produção da safra 2026. A interrupção ou o endurecimento de sanções contra o país vizinho pode restringir a oferta global, pressionando os preços dos combustíveis e, por consequência, inflacionando toda a cadeia produtiva de alimentos.
Segundo Francisco Monaldi, diretor do Programa de Energia da América Latina no Baker Institute e especialista no setor venezuelano, a produção do país depende criticamente de licenças de operação e estabilidade institucional. Ele alerta que, caso o cenário político leve a um novo isolamento econômico de Caracas por parte das potências ocidentais, o mercado verá uma redução na oferta projetada, o que tende a encarecer o petróleo em um momento de demanda global já bastante apertada. “Se o cenário político levar a um endurecimento das sanções americanas, teremos menos oferta global, o que pressiona os preços para cima em um momento de demanda já apertada”, afirma. Esse aumento atinge o Brasil de forma direta, uma vez que o diesel é o principal combustível utilizado no transporte de grãos e na operação de maquinários agrícolas, elevando o custo do frete e o preço final dos insumos que chegam às fazendas.
Além do impacto direto nos combustíveis, a crise venezuelana afeta indiretamente o mercado de fertilizantes, um dos pilares do agronegócio nacional. A produção de fertilizantes nitrogenados, como a ureia, é altamente dependente do gás natural, cujos preços costumam acompanhar a tendência de alta do petróleo. Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), reforça que a geopolítica voltou a ser o principal motor de incerteza nos mercados de commodities. Com a energia mais cara, o custo de importação de fertilizantes para culturas como milho e soja sobe, reduzindo a margem de lucro do produtor e gerando uma pressão inflacionária que acaba sendo sentida pelo consumidor no supermercado.
A incerteza regional também provoca reflexos no mercado de câmbio. Momentos de tensão política na América Latina tendem a afastar investidores estrangeiros, o que frequentemente resulta na valorização do dólar frente ao real. Como boa parte dos defensivos agrícolas e sementes é precificada na moeda americana, o produtor brasileiro se vê diante de um duplo desafio: o encarecimento logístico e a alta dos insumos importados. Nesse contexto, a crise na Venezuela atua como um catalisador de riscos econômicos, exigindo que o agronegócio brasileiro adote estratégias de gestão cada vez mais rigorosas para mitigar a volatilidade externa e garantir a segurança alimentar e a rentabilidade do setor.

O dilema da Petrobras: entre o mercado global e o custo interno
No cenário brasileiro, a grande questão é como a Petrobras reagirá a essa pressão externa. Mesmo com o fim da Política de Paridade Internacional (PPI) estrita, o preço do petróleo tipo Brent continua sendo um componente inevitável no cálculo dos custos da companhia. Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), destaca que a Petrobras vive um equilíbrio delicado quando o cenário geopolítico se agrava. Segundo ele, embora a estatal busque amortecer a volatilidade internacional para evitar repasses imediatos ao consumidor, a realidade é que o Brasil ainda importa cerca de 20% a 25% do diesel que consome.
“Se o preço do barril dispara devido à crise na Venezuela ou no Oriente Médio, e a Petrobras segura os preços por muito tempo para evitar a inflação, cria-se uma defasagem perigosa que prejudica a capacidade de investimento da própria empresa e afasta os importadores privados, o que pode até gerar riscos de desabastecimento em períodos de safra”, explica Pires.
Dessa forma, o impacto para o produtor rural acaba sendo uma via de mão dupla. De um lado, há o risco de aumentos escalonados no preço do diesel na bomba; do outro, há a incerteza sobre a estabilidade da oferta, caso a janela de importação seja fechada por uma disparidade muito grande entre o preço interno e o praticado lá fora. Para o agronegócio, essa “conta” da Petrobras é o que define se o custo logístico da colheita será suportável ou se consumirá a rentabilidade do ano.