Especial COP30 – Produzir sem desmatar: o modelo da agricultura tropical sustentável na Amazônia e Cerrado

por Jayme Vasconcellos*

A COP30 em Belém colocará o holofote do mundo sobre a Amazônia e o Cerrado, exigindo que o Brasil consolide o discurso de que é possível ser uma potência agrícola global sem expandir a fronteira agrícola. A chave para este desafio está na aplicação de tecnologia e ciência para aumentar a produtividade em áreas já consolidadas.

O Brasil é um exemplo de sucesso em agricultura tropical, um modelo que será levado à COP30 como uma “vitrine da agricultura sustentável e do combate à fome”. Os números comprovam a capacidade de preservação: cerca de 66% do território nacional é mantido com vegetação nativa, seja em áreas de conservação ou dentro das propriedades rurais, por meio das reservas legais e Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Esse avanço em produtividade, que permite “produzir mais sem expandir a fronteira agrícola”, reduz a pressão sobre os biomas. A ciência, tecnologia e inovação, pilares defendidos pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) para a COP30, são centrais. O país busca reforçar seu compromisso com a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e com a restauração de pastagens degradadas, mostrando ao mundo que a segurança alimentar e a proteção florestal caminham juntas.

Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil

O desafio reside em disseminar e financiar essas tecnologias de baixa emissão. O Plano ABC+, por exemplo, que incentiva práticas como o tratamento de dejetos animais e o sistema de plantio direto, precisa de mecanismos de crédito simplificados para alcançar o pequeno e médio produtor. A inovação não pode ficar restrita às grandes fazendas; a inclusão produtiva é o componente social essencial para que a estratégia de desmatamento zero seja efetiva e justa. É necessário provar que a produção sustentável é financeiramente mais vantajosa do que a expansão predatória.

A realização da Conferência na Amazônia, portanto, serve como um poderoso lembrete de que o Brasil precisa ir além da narrativa e mostrar resultados. A agricultura tropical sustentável não é apenas uma política de governo, mas um projeto de Estado que, segundo autoridades, tem o potencial de “garantir a paz universal” ao resolver a equação de alimentar uma população crescente dentro dos limites do planeta. O foco agora é em como utilizar a pressão e o capital da COP30 para acelerar a restauração de áreas degradadas, transformando passivos ambientais em ativos produtivos.

*Jornalista, radialista e técnico em Agronegócio. Especialista em Liderança e Desenvolvimento de Equipes, é editor-chefe do Agricultura e Negócios e autor de livros sobre liderança e criatividade.

COP30: pesquisa aponta que determinação política é chave para conter desmatamento

Com metodologia de consultas múltiplas e pesquisa iterativa, foram entrevistados 36 pesquisadores e profissionais com experiência em conservação florestal no Brasil e na Indonésia. Os dois países foram escolhidos foram escolhidos porque reduziram as taxas de desmatamento em períodos recentes: Brasil em 84% entre 2004 e 2012 e Indonésia em 78% entre 2016 e 2021.

O estudo, que compara dois contextos distintos e identifica semelhanças, diferenças e combinações ideais de fatores de proteção florestal, mostra que vontade política, pressionada pela sociedade civil e por acordos internacionais, é o fator decisivo para proteger as florestas.

O levantamento buscou identificar toda a gama de fatores que mantêm as florestas em pé, a relativa importância de cada um e como eles mudaram ao longo do tempo. Nesse contexto, as comunidades tradicionais e indígenas foram reconhecidas como peças-chave na conservação, mas ainda carecendo de condições básicas de qualidade de vida.

Leia aqui a publicação na revista Conservation Letters.

Foto: Christopher Borges / Pexels.com

COP30

As constatações do estudo chegam às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP30, que será realizada em Belém (PA) em 2025. Os pesquisadores acreditam que esse trabalho serve como alerta para diplomatas, políticos e líderes globais.

Ele deixa a mensagem de que a conservação das florestas tropicais é possível, mas depende, fundamentalmente, de uma decisão política sustentada, que por sua vez é alimentada pela vigilância constante da sociedade e pela cooperação internacional.