Sistema de Agricultura Tradicional da Serra do Espinhaço é reconhecido como Patrimônio Agrícola Mundial

O Sistema de Agricultura Tradicional da Serra do Espinhaço, também conhecido como ´apanhadores de flores sempre-vivas´, localizado em Minas Gerais, na porção meridional da Serra do Espinhaço, recebeu o reconhecimento internacional concedido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), denominado Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial (SIPAM). Este certificado visa reconhecer os patrimônios agrícolas desenvolvidos por povos e comunidades tradicionais em diversas partes do mundo. As comunidades apanhadoras de flores sempre-vivas passam a ser o primeiro SIPAM no Brasil, o quarto da América Latina e o 59º patrimônio agrícola em todo o mundo. 

“Estes sistemas de patrimônio agrícola são caracterizados pela combinação de quatro elementos: biodiversidade, ecossistemas resilientes, conhecimento tradicional e uma valiosa herança cultural, ou seja, uma identidade. Depois de ter conhecido o trabalho destas apanhadoras de flores sempre-vivas há um quinto elemento que incluo como muito importante: a dignidade das mulheres rurais”, destacou o Representante da FAO no Brasil, Rafael Zavala.

O Sistema Agrícola da Serra do Espinhaço é praticado por seis comunidades, formadas por camponesas e quilombolas, localizadas nos municípios de Diamantina, Buenópolis e Presidente Kubitscheck. Estas famílias preservam há séculos naquela região a identidade cultural e prática sociocultural de manejo e coleta das flores sempre-vivas.

A Ministra da Agricultura, Tereza Cristina Dias, destacou que essas comunidades tradicionais da Serra do Espinhaço são guardiãs da biodiversidade, uma vez que 80% das flores sempre vivas do país são colhidas na Serra. “Manter esta tradição é essencial.”

De geração em geração, estas comunidades, que são também agrícolas e pastoris, além de extrativistas, transmitem e preservam seus conhecimentos no manejo destas plantas, cumprindo um importante papel de guardiãs da natureza, ao mesmo tempo em que garantem a autonomia alimentar por meio da produção agrícola de alimentos e a criação de animais. É um conjunto de práticas de convivência harmônica com o ambiente mediante a preservação das tradições típicas da identidade cultural dessas comunidades.

As famílias produzem grande parte dos alimentos que consomem, o que lhes garante segurança alimentar e nutricional. Contudo, a comercialização das flores sempre-vivas é a principal fonte geradora de renda. As mulheres, que representam cerca de 60% das que exercem a atividade agrícola nestas comunidades, desempenham um papel chave no uso, conservação ou circulação de sementes, bem como na transmissão de conhecimentos e na manutenção da cultura alimentar.

A apanhadora de flores sempre-vivas, Maria de Fátima Alves, membro da comissão em defesa dos direitos das comunidades extrativistas, destacou a importância da preservação da tradição e do conhecimento gerado por estas comunidades que, hoje, ganham o reconhecimento da FAO. “Temos um papel fundamental na manutenção da vida quando conservamos centenas de espécies nativas e da biodiversidade. Temos muito orgulho de ser o primeiro SIPAM do Brasil e imensa felicidade em sermos os pioneiros neste processo. Esta conquista é de todos os povos tradicionais do Brasil”, disse Maria de Fátima.  

sempreviva
Foto: Divulgação / Seapa / MG

As comunidades que tiveram seus sistemas agrícolas reconhecidos pela FAO –  Lavras, Pé-de-Serra, Macacos e as Comunidades Quilombolas de Raiz, Mata dos Crioulos e Vargem do Inhaí – chegam a manejar cerca de 480 espécies de plantas já catalogadas, incluindo as alimentares e as medicinais, cujos conhecimentos e práticas únicas permitem a preservação dos recursos genéticos e melhoram a agrobiodiversidade.

Para Fernando Schwanke, Secretário de Agricultura Familiar e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA): “Hoje, o Brasil entra para o grupo de países que contribuem para a preservação da agrobiodiversidade do planeta”, comemorou. Segundo o Secretário, existe mais de 40 sistemas tradicionais no país, que cuidam da agrobiodiversidade brasileira. “Uma agrobiodiversidade que se expressa em recursos genéticos, que permite o desenvolvimento de espécies resilientes e mais adaptadas aos biomas brasileiros e que são fundamentais para a segurança alimentar”.

No período de abril a outubro, as apanhadoras e suas famílias sobem a Serra para a coleta das principais flores sempre-vivas, permanecendo por lá durante semanas. A coleta também representa o momento de encontro entre as comunidades, promovendo a socialização.

“Que esse reconhecimento também sirva para dignificar o trabalho destas comunidades e melhorar as condições de vida destas famílias. Por isso, é preciso que continuem trabalhando para tornar esse modelo sustentável, ao longo do tempo, transmitido de geração em geração sua biodiversidade, cultura e identidade”, finalizou Zavala.

Comunidades guardiãs

Estas comunidades são guardiãs da biodiversidade, tanto de sementes agrícolas como de conhecimentos tradicionais associados às espécies silvestres, conhecidas como sempre-vivas. Além disso, cultivam outras plantas espontâneas importantes na dieta e na medicina tradicional quilombola. Os conhecimentos continuam sendo transmitidos entre gerações, as sementes são trocadas e o seu compartilhamento é conduzido pelas comunidades, contribuindo assim a conservação das sementes.

O manejo é baseado no conhecimento tradicional, estritamente relacionado aos ciclos naturais das espécies e à intensidade de coleta, a fim de garantir a renovação e manutenção de cada espécie.

O secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento em exercício do Governo de Minas Gerais, José Ricardo Ramos Roseno, destacou os esforços em prol das comunidades ligadas ao processo de colheita das sempre-vivas. “O Governo de Minas reafirma o seu compromisso com o Plano de Ação para a Conservação Dinâmica, com particular atenção para a demanda de regularização fundiária das comunidades tradicionais, que está a cargo da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento”, ressaltou.

O Plano de Ação consiste em uma série de ações estratégicas que demandam esforços governamentais, não governamentais e, também, de pesquisa e desenvolvimento, de forma sinérgica, para fortalecer organização social das comunidades apanhadoras de flores sempre-vivas e garantir longevidade ao sistema, ou seja, de seu modo de vida tradicional.

SIPAM/GIAHS

Criado em 2002 pela FAO, o SIPAM (Globally Important Agricultural Heritage System – GIAHS, sigla em inglês) combina biodiversidade agrícola, ecossistemas resilientes e um patrimônio cultural valioso. São sistemas agrícolas ancestrais que constituem a base para inovações e tecnologias agrícolas contemporâneas e futuras. Sua diversidade cultural, ecológica e agrícola ainda é evidente em muitas partes do mundo, mantida como sistemas únicos de agricultura.

Na América Latina, além do Sistema de Agricultura Tradicional da Serra do Espinhaço, integram este seleto grupo do SIPAM na região: o corredor Cuzco-Puno, no Peru; o arquipélago de Chiloé, no Chile; e o sistema de Chinampa, no México.

O Ministério da Agricultura, por meio da Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo, coordenou o encaminhamento do dossiê da candidatura e do Plano de Conservação Dinâmica do Sistema, em conjunto com o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e a FAO, para que o Sistema de Agricultura Tradicional da Serra do Espinhaço concorresse ao título de Patrimônio Agrícola Mundial.

Para que o Sistema de Agricultura Tradicional da Serra do Espinhaço recebesse o reconhecimento, ainda em 2018, as comunidades se organizaram e, com o apoio da Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (CODECEX), prepararam o dossiê de candidatura com o apoio de universidades parceiras. Além disso, elaboraram o Plano de Conservação Dinâmica do Sistema Agrícola, em parceria com importantes secretarias do Governo do Estado de Minas Gerais, além das prefeituras de Diamantina, Presidente Kubitschek e Buenópolis.

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