Congresso Andav vai debater o papel do agro na COP30

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) será realizada em novembro em Belém, no Pará e, por ser um evento que coloca o país em destaque no cenário internacional, tem sido motivo de muitas discussões. O tema terá um painel exclusivo no primeiro dia do Congresso Andav (Associação Nacional dos Distribuidores de Insumo Agrícolas e Veterinários), que acontece de 5 a 7 de agosto no Transamérica Expo Center, em São Paulo.

Com mediação da advogada Samanta Pineda, especialista em Direito Socioambiental, sócia do escritório Pineda e Krahn, o painel “COP30 no Brasil” contará com Eduardo Bastos, diretor executivo do Instituto de Estudos do Agronegócio da Abag, e Silvia Massruhá, presidente da Embrapa. 

O setor do agronegócio se organiza desde o início do ano para uma ampla e ativa participação na COP30. Uma das principais ações em curso é a estruturação de uma inédita “AgriZone”, ou “zona do agro”, uma alusão às tradicionais blue zone (área das autoridades) e green zone (área das entidades) que costumam existir em todas as COPs. “Graças à presença do dr. Roberto Rodrigues e à sensibilidade do embaixador André Aranha Corrêa do Lago, que é o presidente designado da COP30, nós teremos um espaço designado para mostrar o quanto o agro faz parte dessa discussão de mudança climática, que é algo pouco representativo nas outras conferências e aqui no Brasil nós vamos ter”, comemora Pineda. O terceiro ponto que ela abordará durante sua mediação é a impossibilidade de acordo de financiamento climático, cujo valor estimado de US$ 1,3 trilhão não tem a concordância entre países desenvolvidos, além da transição energética justa e as medidas de adaptação a eventos extremos.

Foto: Divulgação / Andav

Outro momento esperado na 14ª edição do Congresso Andav será o Painel Distribuidor: Acesso Mercado, mediado pelo gerente de Relações Institucionais da Adubos Real, Alberto Yoshida, com a participação de Benhur Vione, diretor de Insumos da 3tentos, Mario Augusto, CEO Agroshop e Ricardo Bonacin, CEO Núcleo Agrícola. “O nosso painel destaca o papel estratégico da Distribuição, que oferece mais do que insumos ao campo, mas entrega confiança, previsibilidade e resultado. É isso que sustenta relações de longo prazo. O que iremos debater aqui é a importância da gestão profissional, da organização e da governança. Nosso segmento, ano após ano, demonstra que é capaz de crescer com consistência e responsabilidade”, antecipa Yoshida.

O mediador também pretende reforçar o protagonismo do distribuidor no dia a dia do campo. “O distribuidor está ao lado do produtor, enfrentando os desafios que impactam diretamente o nosso agro. E é neste painel que vamos discutir esses temas e trazer uma visão detalhada dos bastidores das empresas que hoje são referência em seus modelos de negócio e práticas de gestão”, completa Yoshida.

A programação inclui ainda o Painel “Inovação e Tecnologia” mediado pela jornalista e apresentadora da CBN Brasil, Cássia Godoy, com a participação de Alexandre Dal Forno, diretor de Desenvolvimento de Mercado IoT & 5G TIM, Frederico Logemann, Head de Estratégia de Inovação da SLC Agrícola, e Gustavo Spadotti, chefe-geral Embrapa Territorial. 

Em tempos de restrição ao crédito e alta taxa de juros, o Painel Crédito na Distribuição, com mediação do consultor André Pessoa, vai abordar temas como revolução digital, soluções financeiras e estratégias para ampliar o acesso ao crédito no agro. Participam deste debate o diretor de Agronegócios do Banco Santander, Carlos Aguiar Neto, o sócio-fundador Unibarter (Grupo Uniagro), Filipe Paiva, e o sócio-fundador Ecoagro, Moacir Teixeira.

O Congresso Andav é considerado o principal encontro do segmento de distribuição de insumos agropecuários no Brasil e reúne executivos, distribuidores, fornecedores e especialistas para debater tendências, desafios e oportunidades para o setor. Com quatro pavilhões e mais de 24 mil metros quadrados de exposição, o Congresso Andav 2025 terá a participação de 250 marcas expositoras e expectativa de 14 mil participantes.

Serviço:

Congresso Andav 2025

Data: 5 a 7 de agosto de 2025

Horários da Plenária: 05 e 06/08 das 10h às 16h45 | 07/08 das 10h às 16h

Horários de Exposição:

05 e 06/08 das 09h às 21h | 07/08 das 09h às 18h

Local: Transamerica Expo Center (Av. Dr. Mário Villas Boas Rodrigues, 387 – Sto. Amaro – São Paulo – SP – Entrada pelo Pavilhão G)

Mais informações: https://eventosandav.com.br/

Entenda como o açúcar e o etanol serão afetados pela tarifa de 50% sobre as exportações do Brasil aos EUA

No último dia 09 de julho, por meio de uma carta endereçada ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump informou sua decisão de impor tarifa adicional àquelas já vigentes no percentual de 50%, aplicada a todo e qualquer produto brasileiro exportado para os Estados Unidos. A medida entrará em vigor em 1º de agosto. Ao justificar a medida, Trump afirmou que a relação comercial dos EUA com o Brasil é “injusta”. “Nosso relacionamento, infelizmente, tem estado longe de ser recíproco”, escreveu.

Essa tarifa adicional incidirá sobre todas as exportações de açúcar e etanol do Brasil aos Estados Unidos. Não é conhecido ainda se o governo brasileiro adotará alguma medida em resposta, mas Trump já avisou em sua missiva que qualquer retaliação será compensada por tarifas adicionais equivalentes.

No caso do açúcar, exportado pelo Brasil aos EUA através do regime de cota tarifaria, a tarifa de 50% impõe uma restrição que incidirá diretamente sobre os produtores / exportadores de açúcar da região Norte-Nordeste. Segundo a Lei nº 9.362/96, que visa conceder incentivos regionais, a região Norte-Nordeste é priorizada no acesso a mercados preferenciais para produtos derivados da cana-de-açúcar, e desta forma recebe anualmente uma cota de aproximadamente 146,6 mil toneladas de açúcar em bruto que é exportada aos EUA com alíquota zero. Acima deste volume, o imposto pode chegar a 80%. Esse é um volume extremamente baixo e que não corresponde à participação do Brasil na produção e exportação mundial, respectivamente de 44 milhões de toneladas e 34,5 milhões de toneladas, na safra 24/25.

Até mesmo para a região Norte-Nordeste esse volume é extremamente baixo, tendo em vista a produção e a exportação regional, estimada pela Datagro em 3,8 milhões de toneladas e 2,6 milhões de toneladas em 24/25.

O governo brasileiro tem respondido reiteradamente às iniciativas do governo norte-americano pleiteando a isenção da tarifa aplicada pelo Brasil às importações de etanol de países fora do Mercosul (tarifa extra-cota) de 18%, que estaria disposto a discutir uma redução ou isenção se houver uma redução recíproca da tarifa de importação sobre o açúcar nos EUA, que pode chegar a 80% sobre o valor exportado.

De qualquer maneira, a tarifa adicional de 50% anunciada por Trump, implica um custo adicional anual para as exportações de açúcar realizadas através da cota tarifaria norte-americana, de cerca de 27,9 milhões de dólares (150 mil t x US$ 371/t x 50%).

Para as exportações de etanol do Brasil aos EUA, considerando que em 2024 o Brasil exportou 309,72 milhões de litros, ao preço médio de US$ 0,587 por litro, a tarifa adicional de 50% representa um custo adicional anual estimado de 90,9 milhões de dólares (309,72 milhões de litros x US$ 0,587/l x 50%).

Até 31 de agosto de 2017, a alíquota do imposto de importação aplicada pelo Brasil foi de 20%. Entre 01 de setembro de 2017 e 31 de agosto de 2019, o imposto foi alterado para zero para um volume limitado a 150 milhões de litros por trimestre. Para volumes importados acima deste limite, o imposto permaneceu em 20%. O regime de isenção limitado a volumes trimestrais foi encerrado em 1 de setembro de 2019.

Entre 23 de março de 2022 e 31 de janeiro de 2023, o imposto de importação foi zerado para qualquer volume importado pelo Brasil a partir de países fora do Mercosul. Nesse período, o valor das importações de etanol dos EUA pelo Brasil foi de 82,98 milhões de dólares, para um volume de 117,42 milhões de litros (média mensal de 11,7 milhões de litros e 8,3 milhões de dólares).

Entre 1 de fevereiro de 2023 e 31 de dezembro de 2023, o imposto de importação passou a ser de 16%, e a partir de 01 de janeiro de 2024 passou a ser de 18%. Entre fevereiro de 2023 e junho de 2025, foram importados um total 205,14 milhões de litros vindos dos EUA, por um valor de 97,82 milhões de dólares (média mensal de 7,07 milhões de litros e 3,37 milhões de dólares).

Enquanto os setores de açúcar e etanol tendem a ser relativamente pouco afetados, a medida de Trump deve impactar de forma mais intensa as exportações brasileiras de aço, alumínio e carnes.

Importância dos EUA para o agronegócio brasileiro

Ao travar uma guerra de tarifas, Donald Trump tem justificado que a relação comercial com o Brasil tem sido injusta, “longe de ser recíproco”. Contudo, os números não corroboram o pretexto adotado pelo presidente norte-americano nesta discussão. Desde 2009 o Brasil tem registrado déficits comerciais (exportação menos importação) consecutivos com os EUA, o que reforça a intepretação de que as atitudes de Trump estejam mais alinhadas a objetivos políticos do que comerciais.

Por outro lado, os EUA são o terceiro maior destino das exportações do agronegócio do Brasil. Em 2024, o Brasil exportou US$ 164,30 bilhões em produtos agropecuários, sendo a China o principal destino, ao absorver 30,2% desse total, seguida pela União Europeia (14,1%) e pelos EUA (7,4%).

O Brasil embarcou 9,39 milhões de toneladas em produtos agropecuários para os EUA em 2024, aumento de 8,1% em um ano. Em valor, as exportações para o mercado norte-americano cresceram 23,0% para um recorde de US$ 12,08 bilhões, com produtos florestais (30,8%), café (17,2%) carnes (11,7%) e sucos (9,9%) entre os principais itens embarcados pelo Brasil para os EUA. O segmento de açúcar e etanol (6,6%) figurou em quinto lugar no ranking de produtos agropecuários brasileiros exportados para os EUA.

Todos estes setores foram pegos de surpresa com o anúncio da nova taxação sobre os produtos brasileiros. Os impactos relativos à nova tarifa de 50% ainda serão analisados pela indústria, que tendem a ser cumulativos.

Logo após a publicação da carta de Trump nas redes sociais, o presidente Lula se manifestou oficialmente, defendendo as instituições brasileiras, que foram alvo de críticas do presidente norte-americano, a exemplo da Justiça. Lula adotou até o momento uma postura cautelosa ao não prometer revidar de imediato com um aumento recíproco de tarifas sobre os produtos norte-americanos que entram no mercado brasileiro. Resta aguardar por um ambiente de diálogo e de negociação para abrandar a tensão comercial entre os dois países.

Tarifa dos EUA pode gerar perdas anuais de até US$ 17 bilhões nas exportações brasileiras e reduzir investimentos estrangeiros, alerta especialista

O anúncio da tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos, feito pelo presidente Donald Trump, tem efeitos imediatos no comércio exterior brasileiro. A medida, que passa a valer em 1º de agosto, é vista por analistas como uma ‘tarifa política’ e inverte a lógica das sanções tradicionais dos EUA. Segundo o especialista em comércio exterior Rogério Marin, CEO da Tek Trade e presidente do Sindicato das Empresas de Comércio Exterior de Santa Catarina, o prejuízo anual para as exportações do Brasil pode variar entre US$ 12 bilhões e US$ 17 bilhões (R$ 70 bilhões a R$ 100 bilhões), o que representa entre 3,6% e 5% das exportações totais do país. Esta estimativa, segundo a métrica adotada pela CNI, pode representar uma perda de 432 mil a 612 mil empregos. Em termos de PIB, Marin estima um impacto negativo entre 0,6 e 0,8% ao ano no PIB total brasileiro.

“Não estamos diante de uma tarifa econômica, mas sim de uma ‘tarifa política’, já que os números da cadeia de comércio entre os dois países contradizem os argumentos apresentados pelo presidente Donald Trump de que o Brasil estaria se utilizando de ‘práticas comerciais injustas’. O impacto deve ser sentido principalmente nas exportações da indústria de transformação, que representa mais de 78,3% das vendas brasileiras aos americanos”, explica Marin. 

Em 2024, os EUA absorveram 12% das exportações brasileiras, totalizando US$ 40,3 bilhões, segundo a Amcham Brasil e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Conforme o especialista, a nova tarifa encarecerá produtos brasileiros em até US$ 20,15 bilhões por ano, reduzindo sua competitividade frente a fornecedores do México e Canadá, por exemplo, e pode provocar uma queda de até 42% nas exportações do Brasil para os EUA. Entre os setores mais afetados estão petróleo, aço, aeronaves, café e carne bovina. Só o aço e o alumínio devem registrar uma queda superior 11,2%, o equivalente a US$ 1,5 bilhão nas exportações, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Apesar da forte repercussão nas exportações, Marin chama atenção para um risco ainda maior: o Investimento Estrangeiro Direto (IED). Os EUA respondem por mais de 25% do IED no Brasil, com um estoque de US$ 300 bilhões. “O elefante na sala é o IED. Sem ele, a modernização da infraestrutura que dá suporte a expansão da economia brasileira fica comprometida. Isso representa um risco econômico maior do que as exportações ou a balança comercial, caso o governo americano demonstre desinteresse em investir no Brasil. Setores como tecnologia, automotivo e energia, que empregam diretamente milhares de trabalhadores, seriam os mais afetados, com impactos no PIB e no mercado de trabalho. A solução precisa ser diplomática”, alerta.

Os reflexos no mercado interno também devem ser sentidos. Produtos como o café, principal item exportado para os EUA no segmento de alimentos, podem ter redução de preço no mercado brasileiro, pela dificuldade de destinação a outros países.

 

Plano Safra 2025/2026: R$ 516,2 bilhões serão destinados ao agronegócio

O Governo Federal lançou o Plano Safra 2025/2026, com R$ 516,2 bilhões para o financiamento da agricultura e da pecuária empresarial no país. O crédito vai apoiar grandes produtores rurais e cooperativas com R$ 447 bilhões, e produtores enquadrados no Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) com R$ 69,1 bilhões.

O valor é R$ 8 bilhões maior em relação à safra anterior e contempla operações de custeio, comercialização e investimento. As condições variam de acordo com o perfil do beneficiário e o programa acessado.

O crédito de custeio também poderá ser destinado à produção de sementes e mudas de essências florestais, nativas ou exóticas, e ao reflorestamento, com o objetivo de valorizar iniciativas voltadas à preservação ambiental. Ainda nesse contexto, será permitido o financiamento de culturas de cobertura, que ajudam a preservar o solo entre uma safra e outra.

Do total disponibilizado, R$ 414,7 bilhões serão para custeio e comercialização e R$ 101,5 bilhões para investimentos. As taxas de juros para custeio e comercialização serão de 10% ao ano para os produtores do Pronamp e de 14% ao ano para os demais produtores. Já para investimentos, as taxas de juros variam entre 8,5% ao ano e 13,5% ao ano, de acordo com o programa.

O governo prorrogou para o período de 1º de julho de 2025 a 30 de junho de 2026 a aplicação do desconto de 0,5 ponto percentual na taxa de juros das operações de crédito rural de custeio. A medida vale para produtores enquadrados no Pronamp e para os demais produtores que investirem em atividades sustentáveis, respeitados os limites definidos em cada instituição financeira para o ano agrícola.

Foto: Vladimir Srajber / Pexels.com

Sustentabilidade

Também a partir deste ano, o crédito rural de custeio agrícola passa a exigir as recomendações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), ferramenta que identifica áreas e épocas de plantio com menor risco de perdas devido a eventos climáticos adversos.

Anteriormente, a exigência era restrita a operações de até R$ 200 mil contratadas por pequenos agricultores do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) com enquadramento no seguro rural do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro). Agora, ela se estende a financiamentos acima desse valor e a contratos em que o Proagro não é exigido.

“O objetivo é evitar a liberação de crédito fora dos períodos indicados ou em áreas com restrições, e contribuir para maior segurança e sustentabilidade na produção”, explicou o governo. A exceção é para os casos em que não houver zoneamento disponível para o município ou para a cultura agrícola financiada.

O subprograma RenovAgro Ambiental, voltado a práticas agropecuárias ambientalmente sustentáveis, passa a contemplar ainda ações de prevenção e combate a incêndios no imóvel rural, além de recuperação de áreas protegidas. Entre as novidades, está a possibilidade de uso dos recursos para a aquisição de caminhões-pipa ou carretas-pipa e, entre os itens financiáveis, mudas de espécies nativas para a reposição e recomposição de áreas de preservação permanente e reservas legais.

Outras ações

Uma das novas possibilidades do Plano Safra é a ampliação do limite de renda para enquadramento no Pronamp, que passou de R$ 3 milhões para R$ 3,5 milhões por ano, permitindo que mais produtores tenham acesso às condições diferenciadas oferecidas pelo programa.

Outra mudança na edição deste ano do plano é a autorização para o financiamento de rações, suplementos e medicamentos adquiridos até 180 dias antes da formalização do crédito, o que flexibiliza o acesso aos insumos.

Já os programas voltados à modernização e inovação tecnológica no campo ─ ModerAgro e InovAgro ─ foram unificados para simplificar o acesso ao crédito. Com isso, segundo o governo, houve aumento do limite disponível para investimentos em granjas, possibilitando que essas estruturas se mantenham sempre atualizadas em relação à sanidade animal.

O programa de armazenagem (PCA) também foi ampliado. O limite de capacidade por projeto passou de 6 mil para 12 mil toneladas, com o objetivo de melhorar a infraestrutura de estocagem e escoamento da produção rural.

Além disso, o novo ciclo do Plano Safra traz medidas para facilitar a renegociação de dívidas, oferecendo aos produtores que enfrentaram dificuldades em safras anteriores mais flexibilidade para reorganizar passivos e retomar o fluxo produtivo.

Agricultura familiar

Complementando os valores para o setor rural, o governo também anunciou o Plano Safra da Agricultura Familiar, com R$ 89 bilhões em recursos e taxas de juros menores para o financiamento de pequenos produtores na produção de alimentos, aquisição de máquinas e práticas sustentáveis, como bionsumos, sociobiodiversidade e transição agroecológica.

Conflito Israel-Irã: fechamento do Estreito de Ormuz prejudicaria exportações de carne brasileira ao Oriente Médio, alerta especialista

Enquanto o Conselho de Segurança Nacional iraniano não bate o martelo sobre o fechamento do Estreito de Ormuz, os riscos e impactos dessa decisão sobre a segurança jurídica e à economia brasileiros já estão sendo discutidos. Desde que o Parlamento do Irã aprovou neste domingo (22/6), uma resolução autorizando o bloqueio da região, especialistas têm mapeado o que, na prática, pode acontecer com o Brasil.  

Frederico Favacho, sócio do Santos Neto Advogados e especialista em contratos internacionais de agronegócio, entende que é preciso atenção especial, principalmente nas exportações de carne. “O Brasil tem exportações significativas para países do Oriente Médio, como Arábia Saudita e Emirados Árabes, que podem ser afetadas pela instabilidade no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de petróleo e gás natural liquefeito”, afirma.

Foto: Alexander Bobrov / Pexels.com

No setor de Óleo e Gás, o fato de a rota marítima ser responsável por 20% do transporte global do petróleo, leva à avaliação de que a Ásia será a principal prejudicada, mas com respingos locais. “Apesar de não ser um grande exportador de petróleo bruto diretamente através do Estreito, o Brasil pode sofrer impactos indiretos devido à volatilidade do mercado e possíveis interrupções no fornecimento de outras commodities”, explica Favacho.  

Estreito de Ormuz

O Estreito de Ormuz liga o Golfo Pérsico ao mar de Omã e, dali, ao oceano Índico. Por esta via, transitam diariamente cerca de 17 milhões de barris de petróleo, além de gás natural liquefeito do Catar. A região também é caminho para exportação de mercadorias, mas, no contexto econômico, o termo se refere mais especificamente a produtos básicos ou matérias-primas, como café, soja, petróleo, minério de ferro, entre outras.

Conflito Israel-Irã: como a tensão no Oriente Médio ameaça o preço do petróleo e pressiona o agronegócio global

A recente troca de ataques entre Israel e Irã elevou a tensão no Oriente Médio a um novo patamar, gerando ondas de incerteza que se propagam por toda a economia mundial. O epicentro desses tremores econômicos está no mercado de petróleo. O Irã, um dos maiores produtores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), com uma produção diária que supera os 3 milhões de barris, ocupa uma posição estratégica que pode desestabilizar toda a cadeia de suprimentos.

A principal preocupação dos analistas é o risco de uma interrupção no fluxo de petróleo através do Estreito de Ormuz, uma passagem marítima crítica por onde transita cerca de um quinto do consumo mundial de petróleo. Qualquer bloqueio ou conflito militar nesta área pode levar a uma disparada imediata nos preços. Em resposta à escalada, o preço do petróleo tipo Brent já demonstra forte volatilidade, com projeções de analistas indicando que o barril pode facilmente superar a barreira dos US$ 100, podendo alcançar até US$ 150 em um cenário de conflito prolongado e de maior abrangência.

O efeito dominó no agronegócio

Para o agronegócio mundial, a alta do petróleo não é uma ameaça distante, mas um fator que impacta diretamente a planilha de custos do produtor. A influência se dá por, principalmente, três vias:

Combustíveis e Logística: O diesel é o motor do campo. Ele alimenta tratores, colheitadeiras e os caminhões que escoam a safra do interior para os portos e centros de consumo. A alta do petróleo encarece o diesel, elevando os custos de produção e de transporte. Em países de dimensões continentais como o Brasil, onde a matriz logística é predominantemente rodoviária, o impacto é ainda mais severo, reduzindo as margens de lucro do produtor e encarecendo o frete.

Fertilizantes: A produção de fertilizantes nitrogenados, como a ureia, é um processo de alto consumo energético, utilizando o gás natural – cujo preço é frequentemente atrelado ao do petróleo – como principal matéria-prima. Além disso, o próprio Irã é um importante exportador desses insumos. A combinação de custos de produção mais altos e o risco de sanções ou interrupções no fornecimento da região pressiona os preços dos fertilizantes para cima, tornando o plantio da próxima safra mais caro.

Competitividade de Biocombustíveis: A alta do petróleo torna os biocombustíveis, como o etanol derivado da cana-de-açúcar e do milho, mais competitivos. Isso pode desviar parte da produção dessas culturas para a geração de energia em detrimento da produção de alimentos ou ração, influenciando os preços globais dessas commodities.

    Impacto na mesa do consumidor

    O aumento dos custos de produção no campo inevitavelmente chega às prateleiras dos supermercados. Com insumos e logística mais caros, o preço de commodities agrícolas essenciais como soja, milho e trigo tende a subir. Essa alta eleva os custos da indústria de alimentos e da produção de carnes e laticínios, gerando uma pressão inflacionária que é sentida pelos consumidores em todo o mundo.

    Enquanto a diplomacia busca conter a escalada militar, a economia global prende a respiração. Para o agronegócio, o conflito no Oriente Médio é um lembrete de sua vulnerabilidade às crises geopolíticas e da complexa interconexão entre um barril de petróleo e o preço do pão. A duração e a intensidade desta crise determinarão a profundidade de seu impacto nos custos de produção e na segurança alimentar global.

    Tropas das Forças de Defesa de Israel em posto de patrulha nas Colinas de Golã (Foto: Jayme Vasconcellos / JV Fotografia)

    Cinco aprendizados do modelo japonês de gestão que podem transformar os negócios no Brasil

    Em tempos de alta competitividade e instabilidade econômica, muitos executivos buscam inspiração em modelos internacionais de sucesso para enfrentar os desafios do mercado brasileiro. Um dos mais consistentes é o modelo japonês de gestão, reconhecido globalmente por sua eficiência, disciplina e capacidade de adaptação.

    Empresas como a YANMAR, fabricante de máquinas e soluções compactas para diversos setores da indústria brasileira, que há mais de um século aplica esses princípios no Japão, vêm transpondo esses aprendizados para o Brasil — com resultados que vão além do desempenho financeiro e impactam diretamente a cultura corporativa, a experiência do cliente e a inovação.

    Para compartilhar aprendizados que podem inspirar outras organizações, a empresa lista abaixo cinco pilares do modelo japonês de gestão que estão contribuindo para a performance e resiliência de seus negócios no Brasil:

    1. Foco no cliente: mais do que atender, é compreender

      Na cultura japonesa, a satisfação do cliente não é tratada como um diferencial, mas como uma obrigação natural de qualquer empresa. Isso se reflete em práticas minuciosas de escuta ativa e customização de soluções. No Brasil, a YANMAR adaptou esse princípio investindo fortemente na aproximação com revendas e consumidores finais, por meio de programas internos estruturados para ouvir as necessidades do campo, da indústria, da construção e do mar, seus setores de atuação.

      “Nosso objetivo é identificar com precisão o que o cliente realmente precisa — muitas vezes, antes mesmo de ele perceber a demanda. Essa abordagem nos permite entregar valor real e construir relações mais sólidas e duradouras”, afirma Wagner Santaniello, gerente de Inovação e Marketing da YANMAR South America.

      Essa escuta ativa, segundo ele, é o ponto de partida para toda a cadeia de melhorias e inovações. “A fidelização nasce da atenção constante, da solução rápida de problemas e do compromisso genuíno com o sucesso do cliente”, complementa.

      2. Kaizen: melhoria contínua como cultura de base

        No Japão, o conceito de Kaizen — melhoria constante e incremental — não se limita a grandes reformulações. Pelo contrário: valoriza ajustes diários, que, ao longo do tempo, geram transformações robustas. A prática está enraizada no grupo YANMAR e, no Brasil, é fortalecida com a implementação do YPS (YANMAR Production System), inspirado nos sistemas japoneses de produção enxuta.

        “O Kaizen exige disciplina, envolvimento coletivo e olhar crítico para todos os processos, inclusive os que já estão funcionando. Na YANMAR, incorporamos essas análises contínuas nas rotinas da fábrica e no relacionamento com os clientes”, explica o porta-voz. “A escuta da equipe, por exemplo, é um instrumento valioso para identificar gargalos e testar novas soluções”.

        3. Soluções compactas: menos espaço, mais eficiência

          A filosofia japonesa de soluções compactas nasceu da escassez de espaço no arquipélago e se traduziu em equipamentos menores, versáteis e altamente eficientes. No Brasil, essa mentalidade tem se mostrado estratégica especialmente em áreas rurais pequenas, obras urbanas com espaço limitado, embarcações de pequeno porte e sistemas descentralizados de geração de energia.

          “As máquinas compactas oferecem não apenas economia de espaço, mas também mobilidade, baixo custo operacional e mais facilidade de manutenção. Isso amplia o acesso à tecnologia para pequenos e médios negócios, muitas vezes marginalizados pelas soluções tradicionais”, afirma Santaniello.

          O executivo ainda destaca a versatilidade cruzada como diferencial: “Temos miniescavadeiras atuando no campo, pequenos tratores na indústria e geradores em locais remotos. O foco está na necessidade do cliente, e não na rigidez do uso original do equipamento.”

          Além disso, soluções mais enxutas tendem a consumir menos energia, reduzindo impactos ambientais e operacionais — ponto cada vez mais valorizado em um Brasil pressionado por questões climáticas e de infraestrutura.

          4. Pós-venda e relacionamento: lealdade construída no detalhe

            A cultura japonesa considera que o relacionamento com o cliente só começa de fato após a venda. Esse pensamento se reflete em práticas detalhistas de suporte técnico e acompanhamento contínuo. No Brasil, a empresa estruturou sua área de pós-venda com atendimento dividido por linhas de produto e uma ampla rede de concessionárias.

            “Nosso time de pós-venda atua com agilidade, escutando o campo e promovendo visitas técnicas com o projeto Magokoro, que significa ‘sinceridade’ em japonês. É uma forma de agradecer ao cliente e entender, in loco, como podemos melhorar ainda mais”, explica.

            A coleta sistemática de feedback — por meio de pesquisas e relatórios — retroalimenta os setores de engenharia e qualidade, resultando em produtos mais alinhados às necessidades reais. “Esse cuidado cria confiança. E confiança, num mercado volátil, vale mais do que qualquer desconto”, completa.

            5. Visão de longo prazo: estratégia que atravessa crises

              Enquanto muitas empresas ainda operam com foco em trimestres e lucros imediatos, o modelo japonês valoriza o planejamento estratégico com horizonte de anos. No Brasil, isso tem se traduzido em investimentos sustentáveis e relações comerciais de longo prazo.

              “Temos revendas e fornecedores que estão conosco há mais de 30 anos. Essa longevidade não é fruto de acaso, mas de uma política de confiança mútua e previsibilidade nos negócios”, relata o executivo. “A cultura japonesa nos ensina que, para crescer de forma sólida, é preciso resistir à tentação dos atalhos e construir sobre alicerces bem definidos”.

              Ao manter investimentos em infraestrutura, capacitação e inovação mesmo durante períodos de retração, empresas que seguem essa lógica se tornam mais resilientes a ciclos econômicos adversos.

              Mais do que um modelo de gestão, a filosofia empresarial japonesa representa uma visão de mundo. No Brasil, sua aplicação cuidadosa e adaptada ao contexto local pode ajudar empresas a criar operações mais eficientes, relacionamentos mais humanos e estratégias mais duradouras. E embora os resultados possam levar tempo para aparecer, a recompensa é perene: uma marca confiável, uma equipe engajada e um legado empresarial sólido.

              Foto: Willian Justen de Vasconcellos / Pexels.com

              DATAGRO eleva estimativa da produção brasileira de soja e milho 2024/25

              O mais recente levantamento da DATAGRO Grãos projeta a produção brasileira de soja na safra 2024/25 em 172,0 mi de t, um avanço de 0,4% em relação à estimativa anterior, de 171,2 mi de t, e de 11% sobre a difícil colheita de 2023/24, marcada por severas perdas em várias regiões do país. A recuperação é atribuída tanto ao aumento de área plantada — que atinge 48,0 mi de ha, 4% acima dos 46,2 mi de ha do ciclo anterior — quanto à melhora de 7% no rendimento médio, que chega a 3.585 kg/ha. 

              Apesar do início tardio da semeadura, dado o atraso das chuvas de primavera-verão no Centro-Oeste, a colheita da safra 2024/25 pôde ser completada dentro da janela normal, beneficiada por condições climáticas amplamente favoráveis durante o desenvolvimento das lavouras. Perdas ficaram concentradas no sul do Mato Grosso do Sul, oeste do Paraná e, especialmente, no Rio Grande do Sul, estado que já passa pela quarta quebra de safra consecutiva.  

              Com o ajuste nas projeções, a expectativa é de superávit: a produção deve superar o consumo interno em 576 mil t — o primeiro saldo positivo após cinco anos consecutivos de déficit, ainda que modesto em comparação àqueles registrados em 2019/20 (+1,1 mi de t), 2017/18 (+1,2 mi de t) e 2016/17 (+2,7 mi de t). Para este ciclo, a DATAGRO estima que sejam esmagadas internamente 57,5 mi de t, 3% a mais que no ano anterior, e que sejam exportadas 111,0 mi de t, 11% acima da temporada passada. O balanço positivo ao longo do ano deverá limitar valorizações muito expressivas dos preços do grão brasileiro, mesmo perante os recordes de demanda. 

              Milho

              O novo levantamento DATAGRO também elevou sua expectativa de produção de milho no Brasil, com colheita projetada em 132,7 mi de t em 2024/25. O volume representa um aumento de 0,7% em relação às 131,7 mi de t estimadas no mês anterior e um avanço de 8,7% sobre à colheita 2023/24, que somou 122,1 mi de t.  

              A safra de verão está avaliada em 25,2 mi de t, 2% acima das 24,7 mi de t de 2023/24, mesmo diante de uma redução de 7% da área plantada, consequência de preços baixos predominantes ao longo de 2024 e custos de produção irregulares. O crescimento da produção é atribuído à expressiva recuperação da produtividade, a qual alcançou 6.608 kg/ha, recuperação de 9% frente aos 6.038 kg/ha do ciclo anterior. 

              Foto: Tom Fisk / Pexels.com

              O milho de inverno 2025, responsável por 81% da produção nacional, está projetado em 107,5 mi de t — próximo ao recorde histórico de 108,6 mi de t em 2022/23 e significativamente superior às 87,5 mi de t colhidas em 2023/24, quando as principais regiões produtoras sofreram com estiagem severa. Neste mês, a DATAGRO ajustou a estimativa de produtividade de 5.914 para 5.957 kg/ha, o maior rendimento já registrado para as lavouras de inverno no Brasil e superando em 7% o resultado de 2023/24. A área está estimada em 18,0 mi de ha, 4% acima do último ciclo e praticamente estável em relação ao levantamento anterior. O incremento de área deste ano foi resultado direto da valorização dos preços do cereal no último trimestre de 2024.  

              Mesmo com a forte produtividade, a expectativa é que a demanda supere a produção brasileira em 2,3 mi de t, com o quinto déficit consecutivo de cereal no país, ainda que menos severo que no ano anterior, 4,8 mi de t.   

              Doenças agrícolas podem crescer até 46% nas próximas décadas, segundo estudo da Embrapa

              Com o avanço das mudanças no clima, o campo se depara com um novo tipo de ameaça: o crescimento expressivo das doenças agrícolas. De acordo com estudo recente da Embrapa, a expectativa é que, até o fim do século, a incidência de enfermidades em cultivos como soja, milho, café e cana aumente até 46%. O motivo está na combinação entre temperaturas mais altas e a frequência de eventos extremos, como longas estiagens e chuvas intensas.

              Esse cenário afeta diretamente a dinâmica de pragas, fungos e vírus, alterando os ciclos naturais e favorecendo surtos em períodos antes considerados de menor risco. Doenças como a ferrugem asiática da soja, por exemplo, encontram nas novas condições climáticas um ambiente ainda mais propício para se espalhar rapidamente. O impacto é duplo: econômico e social, já que a agricultura representa parcela significativa da geração de riqueza e empregos no Brasil.

              Arte criada por IA

              Diante dessa realidade, produtores e especialistas têm buscado alternativas ao modelo tradicional de controle, cada vez mais pressionado pela resistência das pragas e pelos danos ambientais. Uma dessas alternativas está no uso de compostos naturais, como os óleos essenciais. Esses produtos têm se mostrado eficientes como aliados às estratégias de manejos mais sustentáveis, pois potencializam a eficiência e pulverização dos defensivos tradicionais, aumentando o poder de efetividade e proteção da lavoura.

              Uma das empresas brasileiras que desenvolvem soluções agrícolas com base em extratos vegetais é a Hydroplan-EB. Um dos seus produtos, o Valko, tem ação inibidora ao desenvolvimento de microorganismos patogênicos e vem sendo utilizado no manejo de doenças como a ferrugem asiática. Formulado a partir de compostos naturais à base de extrato de alho, promove uma ação repelente e expurgante que auxilia os defensivos agrícolas, possibilitando um manejo mais eficiente e sem agredir o meio ambiente. Representando uma alternativa viável e sustentável dentro das boas práticas agrícolas.

              Com a natureza em constante transformação, o agronegócio precisa encontrar o equilíbrio entre desempenho e resiliência. A aposta em tecnologias menos agressivas ao ecossistema, somada à vigilância climática e à inovação contínua, será fundamental para garantir colheitas mais seguras e um futuro sustentável.