Conectividade no campo: CNH e Starlink fecham acordo para integrar sistemas digitais

A CNH assinou um acordo com a Starlink, subsidiária da SpaceX, para levar conectividade via satélite de ponta aos agricultores. Essa colaboração proporcionará aos clientes das marcas da CNH — Case IH, New Holland e STEYR — uma conectividade robusta, acessível e de alta velocidade, ampliando ainda mais os benefícios de uma frota totalmente conectada, mesmo nas áreas rurais mais remotas do mundo. “Estamos entusiasmados em oferecer aos nossos clientes acesso à conectividade via satélite líder do setor, permitindo que eles maximizem o potencial do nosso portfólio completo de tecnologias de precisão, mesmo nos ambientes rurais mais desafiadores”, disse Stefano Pampalone, diretor Comercial de Agricultura da CNH.

Como a Starlink potencializa a entrega da tecnologia de precisão da CNH

A rede de satélites da Starlink oferece internet confiável e com baixa latência. Isso permite que máquinas inteligentes se comuniquem e coordenem de forma eficiente, aumentando a produtividade e o rendimento. Ela se integra à plataforma digital FieldOps™, oferecendo aos clientes visibilidade das máquinas e acesso a dados de qualquer lugar, a qualquer momento. Também proporciona maior capacidade de transmissão de dados, mantendo os dispositivos de gestão agrícola sempre conectados, independentemente da localização.

A pulverização com base em mapas de prescrição é outro caso de uso em que a tecnologia de transmissão da Starlink beneficiará as operações agrícolas. A falta de conectividade em mercados como o Brasil, por exemplo, pode tornar a logística agrícola desafiadora. A plataforma FieldXplorer da CNH utiliza IA para transformar imagens de drones em um mapa de campo que distingue entre ervas daninhas e culturas. Com a Starlink, esses dados poderão ser exportados quase instantaneamente para criar um mapa de prescrição de pulverização para a máquina. Isso permite que os agricultores apliquem produtos de proteção de cultivos mais cedo, controlando as ervas daninhas com antecedência, o que, em última análise, ajuda a melhorar a produtividade das lavouras.

Foto: Tofros.com / Pexels.com

Congresso Abramilho reúne especialistas para debater os desafios do setor

Com foco em sustentabilidade, inovação e cenários macroeconômicos, o 3º Congresso Abramilho reuniu, em Brasília, lideranças do agro, pesquisadores, políticos e produtores rurais. Os caminhos e desafios do milho brasileiro diante das transformações globais pautaram o evento, promovido pela Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho).

Durante a abertura do congresso, o presidente em exercício Geraldo Alckmin apresentou uma novidade para o setor. “A principal conquista é a abertura do mercado chinês ao DDG* brasileiro, o farelo produzido durante a fabricação do etanol de milho, um mercado que cresce em progressão geométrica e contribui para a mitigação dos riscos climáticos”, afirmou.

Alckmin, que também é ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), ressaltou o empenho em acelerar o andamento da implantação da Ferrogrão e confirmou que há espaço para ampliar recursos e acesso ao seguro rural. “Isso porque o seguro rural é uma ferramenta fundamental para a gestão das mudanças climáticas, que são uma realidade”, explicou o presidente em exercício.

Déficit de armazenagem

Pensar no futuro da produção de alimentos no Brasil passa, obrigatoriamente, pelo aperfeiçoamento de infraestruturas, como logística e armazenagem. O alerta foi feito tanto pela superintendente da Organização das Cooperativas Brasileiras (Sistema OCB), Tânia Zanella, quanto pelo vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), José Mario Schreiner.

“Existem mais de 1.200 cooperativas agrícolas no Brasil que englobam mais de 1,2 milhão de cooperados. O sistema cooperativista pode ser uma grande ferramenta de inclusão para pequenos produtores, reduzindo custos para o acesso a mercados e à infraestrutura, que é o nosso maior gargalo hoje em dia”, afirmou Tânia Zanella – que também atua como presidente do Instituto Pensar Agro (IPA).

O ritmo de crescimento do mercado de etanol foi citado pelo representante da CNA como mais uma razão para que a armazenagem de grãos seja intensificada no Brasil. “Ainda enfrentamos um déficit de armazéns que não acompanha o desenvolvimento do setor. Devido a esse déficit, o produtor rural precisa ter outras ferramentas para evoluir, como o seguro rural e um Plano Safra mais robusto e acessível”, listou José Mario Schreiner.

De acordo com Paulo Bertolini, presidente da Abramilho, o potencial para ampliar a produção do milho não é o desafio, mas sim aumentar o volume disponível para armazenamento. “Crescemos em torno de 10 milhões de toneladas por ano na produção de milho. Não demora muito seremos o País do milho, superando outros grãos, com o sorgo vindo junto. Com isso, precisamos mudar a lógica de armazenagem. O ideal seria seguirmos o modelo norte-americano, onde é possível armazenar mais de uma safra inteira dentro das fazendas”, afirmou.

Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios

Desempenho na economia

O Brasil é hoje o terceiro maior produtor de milho do mundo, com uma produção estimada em 122,7 milhões de toneladas na safra 2024/2025, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da China, o país também ocupa o topo do ranking de exportações: foram 34 milhões de toneladas exportadas na última safra, para mais de 140 países.

Além de ser essencial para a segurança alimentar global, o milho é um dos pilares da produção de ração animal, da indústria alimentícia e da matriz energética brasileira, sendo matéria-prima para a produção de biocombustíveis como o etanol.

Sorgo

Os próximos anos serão marcados pelo avanço da produção de sorgo no Brasil, apostou o pesquisador da Esalq/USP, Mauro Ozaki. Dois aspectos endossam essa projeção: o aproveitamento do grão por biorrefinarias de etanol de milho e o uso do sorgo como matéria-prima para a produção de farelo para ração animal. “O mercado para o sorgo tem se ampliado e isso tende a aumentar, porque o grão está começando a ser usado como opção na composição de ração animal. Além disso, devido ao custo de produção menor, o sorgo também está sendo testado por indústrias de etanol de milho”, afirmou o pesquisador.

Investimentos estrangeiros

A capacidade de produção de alimentos e energia sustentável posiciona o Brasil como uma opção segura para os investidores internacionais. Essa previsibilidade econômica e um cenário político estável protegeriam a nação das incertezas da economia mundial. De acordo com Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, as últimas medidas tarifárias do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, significaram um retrocesso nas relações comerciais do país com o mundo. “Como resultado, temos uma depreciação no dólar, e, consequentemente, a valorização do real”, disse Megale.

Mas, se a última guerra tarifária, em 2018, desencadeou um super ciclo para as commodities, os efeitos para o Brasil agora tendem a ser mais amenos. “Poderemos esperar uma leve tendência de queda nos preços, mas temos um cenário mais estável, pois a China já é um grande parceiro comercial nosso”, analisou Leonardo Alencar, head de agro da XP.

Apesar desse posicionamento do Brasil, a tendência é de que a instabilidade no cenário internacional continue, antecipou o diretor do Departamento de Política Comercial do Itamaraty, embaixador Fernando Pimentel. “Precisamos nos preparar para um mundo mais rude e difícil, e isso significa termos ferramentas como a política de reciprocidade comercial”, ponderou Pimentel.

*DDG de milho, ou Distillers Dried Grains, é um subproduto da produção de etanol a partir do milho, rico em nutrientes como proteínas, fibras e gorduras. É um co-produto da indústria de biocombustíveis, mais especificamente do processo de produção de etanol. Os DDGs são utilizados na alimentação animal, especialmente de ruminantes, como bovinos de corte e leite.

Reportagem: Jayme Vasconcellos (com informações da Abramilho) | Produção: Joyce Pires

Na safrinha, é hora de proteger o solo: estratégia essencial para a produtividade

Com a colheita da soja concluída, o momento é propício para planejar a cobertura do solo, uma prática essencial para garantir a sustentabilidade do sistema produtivo. Segundo Gessí Ceccon, analista e engenheiro agrônomo da Embrapa Agropecuária Oeste (Dourados, MS), a cobertura do solo não apenas protege contra a erosão, mas também melhora as condições físicas do solo, favorecendo a produtividade futura. “A soja no verão tem um alto valor econômico, e por isso é a cultura predominante. No entanto, após sua colheita, precisamos focar em melhorar as condições do solo”, explica Ceccon.

O milho desponta como a principal espécie para sustentar o sistema de plantio direto, pois possui um sistema radicular agressivo que auxilia na descompactação do solo. “O milho, apesar do foco na produtividade de grãos, tem um papel fundamental na melhoria estrutural do solo. Suas raízes crescem profundamente, aproveitando a umidade residual e criando poros para infiltração da água”, destaca o engenheiro.

Outro ponto essencial é a consorciação do milho com a braquiária, estratégia que a Embrapa vem pesquisando há 20 anos. As raízes de milho produzem poros maiores e as raízes de braquiária poros menores, ambos importantes para a infiltração e armazenamento de água no solo. Apesar de algumas dificuldades técnicas no manejo da população de plantas e no uso de herbicidas no consórcio, a técnica tem se mostrado eficaz. “A braquiária começa a se destacar quando o milho atinge a fase de maturidade, proporcionando uma cobertura uniforme e protegendo o solo contra a erosão e a perda de umidade”, pontua Ceccon.

A cobertura do solo com a braquiária também auxilia na fixação da palha, evitando que ventos fortes a desloquem, mantendo assim a proteção da superfície do solo. Após o período adequado para o plantio do milho, entra em cena a cobertura com plantas como a braquiária consorciada com leguminosas, sendo a mais indicada a crotalária ochroleuca. “A crotalária, diferente do milho e da braquiária, tem raiz pivotante que cresce profundamente, contribuindo para um perfil de solo mais estruturado”, explica Ceccon.

O manejo adequado também passa pelo momento correto de intervenção. Segundo Ceccon, um manejo na braquiária em junho é essencial para reiniciar a produção de massa e garantir qualidade na cobertura do solo. “Plantar braquiária solteira é coisa do passado. Sempre que possível, devemos associá-la a uma leguminosa para melhorar a qualidade da cobertura”, enfatiza. A adoção dessas estratégias permite que a soja seja semeada mais próxima da dessecação, garantindo melhor condição física do solo e maior eficiência produtiva da soja. “Cada detalhe faz diferença na produtividade e na sustentabilidade do sistema produtivo”, conclui Ceccon.

Foto: Jan Kroon / Pexels.com

Fungo da Antártica pode levar a novo biopesticida natural

Cientistas brasileiros e americanos descobriram que um fungo isolado de sedimentos marinhos profundos do Oceano Austral, na Antártica, produz substâncias bioativas com potencial para serem utilizados no desenvolvimento de biopesticidas naturais (bioinsumos). A pesquisa, conduzida por instituições como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Embrapa Meio Ambiente (SP) e o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA – United States Department of Agriculture), identificou substâncias antifúngicas e fitotóxicas que podem se tornar alternativas sustentáveis aos agroquímicos sintéticos.

O fungo estudado, Penicillium palitans, foi coletado a mais de 400 metros de profundidade e submetido a análises laboratoriais que revelaram duas substâncias principais: penienona e palitantina. A penienona demonstrou forte atividade antifúngica e fitotóxica, inibindo completamente a germinação de sementes de grama-bentgrass, mesmo em baixas concentrações. O composto também foi eficaz contra o Colletotrichum fragariae, um fungo patogênico que causa antracnose em diversas culturas agrícolas. Já a palitantina apresentou efeito fitotóxico moderado.

Segundo a pesquisadora Débora Barreto, da UFMG, a Antártica abriga uma biodiversidade microbiana pouco explorada, com organismos adaptados a condições extremas (extremófilos), como temperaturas congelantes e alta salinidade. Essas características tornam o continente um local promissor para a busca de novos compostos com aplicações biotecnológicas.

O desafio das expedições polares

A coleta de amostras na Antártica, no entanto, representa um desafio logístico significativo. As expedições exigem um ano de preparação e treinamentos específicos. O deslocamento até o local pode levar cerca de 10 dias, e a coleta dos sedimentos marinhos profundos demanda até 24 horas ininterruptas de trabalho.

O estudo apresenta alternativas aos pesticidas sintéticos, cujo uso excessivo tem levado ao aumento da resistência de pragas e a impactos ambientais negativos. Segundo Luiz Rosa, professor do Departamento de Microbiologia da UFMG e coordenador da pesquisa, fungos extremófilos como o P. palitans podem se tornar fontes valiosas de novas moléculas para formulações sustentáveis na agricultura.

Impacto ambiental e desafios para aplicação comercial

Segundo a pesquisadora Sonia Queiroz, da Embrapa, a descoberta de novas moléculas bioativas de origem natural, além de reduzir a dependência de agroquímicos sintéticos, pode contribuir para o conceito de Saúde Única. No entanto, transformar essas substâncias em produtos comerciais ainda exige testes adicionais para avaliação de segurança, estabilidade e eficácia em condições reais de campo.

Os cientistas destacam que a transformação desses compostos em produtos comerciais exige testes adicionais para avaliar sua segurança, estabilidade e eficiência em campo. “Nosso próximo passo será ampliar os estudos toxicológicos e ecotoxicológicos e explorar a viabilidade da produção em larga escala, com possível colaboração entre instituições de pesquisa e empresas do setor agrícola”, explica Rosa.

Com a crescente demanda por soluções sustentáveis, a bioprospecção de organismos extremófilos pode abrir caminho para novos avanços na biotecnologia aplicada à agricultura global. Os resultados desse estudo abrem novas perspectivas para busca de outros fungos antárticos para potencial uso na agricultura e a identificação de outras substâncias bioativas. Os cientistas ainda ressaltam a importância da conservação desses ecossistemas para o avanço da biotecnologia.

O estudo faz parte do Programa Antártico Brasileiro (Proantar) e conta com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além de apoio logístico da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Secirm) da Marinha do Brasil.

Foto: ArcticDesire.com Polarreisen / Pexels.com

Cacau dispara 189%: ovos de Páscoa já estão mais caros nos mercados

O preço do cacau disparou 189% nos últimos 12 meses, segundo estimativas da Associação Brasileira da Indústria de Alimentação (Abia). Esse aumento significativo na matéria-prima deve impactar o preço dos chocolates, incluindo os tradicionais ovos de Páscoa.

Embora nem todo o aumento do custo do cacau seja necessariamente repassado ao consumidor, a tendência é de que os preços dos chocolates sofram reajustes. João Dornellas, presidente executivo da Abia, aponta que a indústria pode buscar alternativas, como a utilização de outros ingredientes nos recheios dos ovos de Páscoa, para amenizar o impacto no bolso do consumidor.

Aumento já observado

O preço dos chocolates já apresentou um aumento de 11,9% nos últimos 12 meses, encerrados em dezembro de 2024, de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

A alta do cacau, diferentemente de outros alimentos que sofrem aumentos devido a fatores diversos, é resultado de uma crise de oferta da matéria-prima, consequência de problemas climáticos e sanitários que afetaram a produção na África, principal região produtora do mundo.

O Brasil, apesar de também ser produtor, ocupa a sétima posição no ranking global, o que torna o mercado nacional vulnerável às oscilações do mercado internacional.

Possíveis alternativas Diante desse cenário, a indústria de chocolates busca alternativas para minimizar o impacto do aumento do cacau nos preços dos produtos. A utilização de outros ingredientes e a otimização dos processos de produção são algumas das estratégias que podem ser adotadas.

Foto: George Dolgikh / Pexels.com

Pesquisa mostra como reduzir os efeitos da estiagem na soja

Neste verão, a cultura da soja tem enfrentado déficit hídrico em diversas regiões do Brasil, com perdas já confirmadas no Rio Grande do Sul, segundo maior produtor de soja no País. A irregularidade das chuvas é comum em anos de La Niña, mas algumas estratégias de manejo podem reduzir os impactos da estiagem na soja. O déficit hídrico tem sido a principal causa de quebras nas safras brasileiras de soja e demais cultivos de verão, com maior impacto no sul do Brasil. Somente no Rio Grande do Sul, a FARSUL estima que 34,4 milhões de toneladas de grãos de soja deixaram de ser colhidos nos últimos cinco anos.

Segundo o Informativo Conjuntural da Emater/RS, as regiões mais afetadas pela seca no momento estão no Centro-Oeste do Rio Grande do Sul, onde as lavouras de soja semeadas no início do período recomendado estão com plantas de reduzido porte, desfolha acentuada e perdas produtivas irreversíveis. As lavouras implantadas em dezembro estão em plena floração e início da formação das vagens, com emissão de folhas e ramos limitada. A produtividade tende a ser insatisfatória, já que muitas plantas possuem porte reduzido (de 20 a 30 cm) e estão em plena fase reprodutiva (55% das lavouras está em fase de enchimento de grãos).

Nesta safra, o Rio Grande do Sul enfrenta o terceiro ano de estiagem no verão. Na safra 2021/22, os rendimentos da soja caíram para 1.400 kg/ha, e em 2022/23 a quebra foi de 30% na safra (Emater/RS), com média de rendimentos em 1.980 kg/ha (dados da CONAB). “Mesmo na safra 2023/24, quando o RS registrou uma boa quantidade de chuvas, os resultados em muitas lavouras gaúchas ficaram abaixo dos 3 mil kg/ha”, avalia o agrometeorologista Gilberto Cunha, da Embrapa Trigo, reconhecendo que nesta safra a tendência é de perdas relacionadas à estiagem se repetirem no Estado.

“A partir do início de janeiro até agora, as chuvas têm sido irregulares e muitas vezes localizadas, podendo ser percebidas diferenças nos padrões das plantas de lavouras próximas na mesma região”, lembra Cunha. Segundo ele, o produtor precisa se adaptar a este novo cenário de variabilidade climática, onde a irregularidade na distribuição de chuvas parece se consolidar cada vez mais. “O produtor precisa adotar estratégias de manejo de cultivos mais resilientes e não abrir mão da adesão de algum instrumento de seguridade rural”.

No Mato Grosso do Sul, as últimas duas safras foram desafiadoras para os produtores rurais devido às condições climáticas que impactaram significativamente no potencial produtivo (Famasul). Nesta safra, segundo o Informativo Siga/MS, o estresse hídrico afeta 46% da área total com soja, sendo que as lavouras mais atingidas são aquelas implantadas entre setembro e meados de outubro. Entre dezembro e janeiro, houve uma redução drástica nas precipitações, especialmente em janeiro, um mês crucial para a cultura da soja no estado, pois geralmente concentra o período de enchimento de grãos.

Foto: Tom Fisk / Pexels.com

Também nos estados do Paraná e em Santa Catarina, o risco de prejuízos localizados ainda não está descartado na safra de verão. Conforme o último relatório do Deral/PR, 68% da soja ainda está em fase de maturação, mas onde a colheita já começou os rendimentos estão bem variados devido às chuvas irregulares durante o ciclo da cultura, sendo que as lavouras plantadas mais cedo sofreram mais com os efeitos da estiagem. Em Santa Catarina também há grande variação na situação das lavouras onde a colheita está começando (11% da área), em função das chuvas irregulares e as temperaturas elevadas, com algumas lavouras produzindo abaixo do esperado, enquanto outras superam as expectativas. Conforme o boletim da Epagri/SC, a safra apresenta variações a aponta sinais de redução na produção em relação à estimativa inicial.

Estratégias para minimizar perdas

O pesquisador Alvadi Balbinot, da Embrapa Trigo, destaca algumas estratégias de manejo que podem minimizar os impactos da estiagem na soja.

Solo: Construção de perfil do solo com adequada fertilidade química, física e biológica, observando os fundamentos do Sistema Plantio Direto. O perfil do solo sem restrições físicas e/ou químicas significativas permite o crescimento vigoroso do sistema radicular da soja, acessando água em profundidade. As raízes de soja podem crescer até 2 m de profundidade, ampliando a lâmina de água do solo utilizada pela cultura, comparativamente às raízes confinadas somente na camada superficial.

Alguns indicadores podem ser utilizados para caracterizar um solo que permite elevado crescimento de raízes de soja, tais como: ausência de alumínio tóxico e alto teor de cálcio até 40 cm de profundidade; elevada saturação por bases; utilização de sistemas diversificados, com espécies de elevado crescimento radicular, como por exemplo, braquiárias, milheto, capim sudão, aveias e triticale, que permitem a formação de bioporos estáveis, fundamentais para a infiltração de água, trocas gasosas e formação de canais preferenciais para o crescimento das raízes de soja; reduzida mobilização do solo; e semeadura da soja em solo com alta percentagem de cobertura com palha.

Cultivares: No mercado há cultivares de soja com melhor resposta em ambiente com deficiência hídrica. Mesmo que algumas cultivares não apresentem os maiores rendimentos em ambientes de alto potencial produtivo, podem se mostrar superiores em condição de seca, conferindo estabilidade produtiva. Em geral, as cultivares mais tolerantes à seca apresentam raízes vigorosas e com elevada sanidade.

População de plantas: Utilizar população de plantas na faixa indicada pelos obtentores das cultivares. A utilização de populações abaixo do indicado reduz a capacidade da cultura fechar as entrelinhas, principalmente em condições de deficiência hídrica na fase vegetativa, reduzindo a capacidade de utilização de luz e nutrientes, além de aumentar as perdas de água do solo diretamente para a atmosfera (evaporação). Por outro lado, o excesso de plantas pode provocar formação de índice de área foliar além do ideal, aumentando a utilização de água para manter a transpiração, o que pode comprometer a produtividade da lavoura, sobretudo quando o déficit hídrico ocorre na fase reprodutiva da cultura.

Irrigação: Para produtores que dispõem de reservatórios de água e condições para implantar o sistema de irrigação, é fundamental dimensionar o volume de água a ser reservada para utilização nos momentos de carência de chuva. O Rio Grande do Sul, por exemplo, tem elevado potencial de resposta produtiva da soja frente à irrigação, uma vez que, em muitas situações, o fator limitante é somente a água, com boas condições de solo, radiação e temperatura. Observar as boas práticas de irrigação é importante para redução de custos e aumento da eficiência do uso da água.

ZARC: A semeadura da soja deve ser orientada pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático, que é um instrumento de política agrícola e gestão de riscos na agricultura. O ZARC é elaborado com o objetivo de minimizar os riscos relacionados aos fenômenos climáticos adversos e permite a cada município identificar a melhor época de plantio das culturas, nos diferentes tipos de solo e ciclos de cultivares. Seguir o ZARC é uma estratégia para reduzir perdas em condições adversas que se repetem ao longo dos anos.

Agronegócio e Carnaval: uma conexão que vai além da festa

A relação entre agronegócio e carnaval, à primeira vista, pode parecer distante, mas uma análise mais profunda revela laços históricos, culturais e econômicos que unem esses dois pilares da identidade brasileira.

As origens do carnaval remontam a celebrações antigas, como as festas dionisíacas e saturnais, que celebravam a fertilidade da terra e os ciclos agrícolas. Essa conexão com o campo se manifesta na cultura popular, com músicas, danças e fantasias que ecoam tradições rurais e celebrações de colheitas.

No plano econômico, o carnaval impulsiona diversos setores do agronegócio. A demanda por alimentos e bebidas explode durante a festa, beneficiando – por exemplo – produtores de cerveja, refrigerantes, carnes, frutas e outros produtos. O turismo, outro motor do carnaval, gera renda para atividades ligadas ao agronegócio, como o abastecimento de restaurantes e hotéis.

A influência do agronegócio no carnaval também se manifesta nos desfiles das escolas de samba. Cada vez mais, os enredos abordam temas como a importância da agricultura familiar, a sustentabilidade e a produção de alimentos, demonstrando a relevância do setor para a cultura e a sociedade.

Empresas do agronegócio também marcam presença nas festividades, patrocinando eventos e buscando fortalecer sua marca junto ao público. Além disso, produtos do setor, como frutas, legumes e bebidas, são consumidos em larga escala durante a festa, seja nas ruas, camarotes ou eventos privados.

Essa relação entre agronegócio e carnaval é multifacetada, se fortalece a cada ano e demonstra a importância do setor para a economia, a cultura e a identidade brasileira, revelando que a folia e o campo podem caminhar juntos.

Foto: Luis Fernandes / Pexels.com

Calor extremo desafia o agronegócio

O aumento das temperaturas tem sido um dos maiores desafios para o agronegócio brasileiro. O calor excessivo registrado nos primeiros meses de 2025 tem preocupado pesquisadores e produtores, que enfrentam dificuldades com a irregularidade das chuvas e o aumento da temperatura média. Especialistas da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Agronômico (IAC) alertam que esse cenário deve se intensificar nos próximos anos, exigindo dos agricultores investimentos em tecnologia para garantir a produtividade e a sustentabilidade no campo.

Segundo dados do posto meteorológico da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), a temperatura média registrada nos 11 primeiros dias de fevereiro foi de 25,5°C, acima da média histórica de 24,8°C. Além disso, as mínimas e máximas também superaram os padrões esperados, chegando a 35-37°C em algumas regiões. Essa variação impacta diretamente o desenvolvimento de diversas culturas prejudicando a qualidade da safra e reduzindo o potencial produtivo.

Impactos no agronegócio

O setor cafeeiro é um dos mais afetados pelas temperaturas elevadas. O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) aponta que a combinação de chuvas abaixo do esperado e calor intenso tem prejudicado a formação dos grãos. A safra de 2025/26 já foi impactada pela seca de 2024, e os cafeicultores temem uma nova perda significativa caso as temperaturas sigam elevadas nos próximos meses.

A situação não é diferente para outras culturas, como hortaliças e grãos, que demandam alta disponibilidade hídrica e um equilíbrio entre temperatura e umidade. A previsão de ondas de calor cada vez mais intensas reforça a necessidade de estratégias eficientes para mitigar os impactos climáticos.

Tecnologia e inovação para a adaptação climática

Diante desse cenário desafiador, a tecnologia tem desempenhado um papel importante na adaptação do setor agrícola. O uso de soluções que otimizam o manejo da água e a saúde do solo pode fazer a diferença entre perdas severas e uma produção mais eficiente.

Os produtos da linha HB10 da Hydroplan-EB são um exemplo de inovação voltada para a melhoria da eficiência hídrica no campo. Desenvolvidos para diferentes sistemas de irrigação, ajudam a maximizar a absorção da água pelas plantas, reduzindo desperdícios e aumentando a retenção no solo.

“Essas soluções são fundamentais para reduzir o consumo de água e evitar perdas na lavoura. Conseguimos melhorar a absorção de nutrientes e aumentar a eficiência hídrica, proporcionando mais segurança aos produtores em períodos de estiagem e calor extremo” ressaltou Loremberg de Moraes, diretor da Hydroplan-EB.

A combinação de tecnologia e boas práticas agrícolas pode não apenas mitigar os efeitos do calor extremo, mas também construir um setor mais sustentável e preparado para os desafios do futuro. A adaptação já não é mais uma opção, e sim uma necessidade para garantir a produção de alimentos de qualidade em um cenário climático cada vez mais imprevisível.

Altas temperaturas exigem adaptação dos agricultores e novas estratégias para minimizar perdas na produção (Foto: Divulgação)

Inovação e gestão pública: encontro de prefeitos discute novas ferramentas para as cidades

por Jayme Vasconcellos*

O Encontro de Novos Prefeitos e Prefeitas reuniu, em Brasília, gestores e equipes técnicas dos mais de cinco mil municípios do país. O objetivo do evento foi fortalecer o pacto federativo e impulsionar a governança municipal, fazendo com que as políticas públicas sejam potencializadas e acessadas pelos governantes em prol da população.

O Governo Federal, por meio de seus ministérios, agências de fomento e bancos de desenvolvimento, apresentou projetos e linhas de financiamento para as delegações.

“Estamos conseguindo fazer ótimos contatos com o Governo Federal, principalmente em áreas que os municípios não dominam muito, como no caso das parcerias público-privadas, para que a gente consiga aplicar esse tipo de política pública em nossos municípios”, afirmou Cleinils da Silva, prefeito de Gravatal (SC).

Eixos temáticos

As atividades foram divididas em seis eixos temáticos: Boa Governança, Sistemas Informatizados e Serviços; Programa e Ações do Governo Federal; Governança Climática; Assistência Técnica – Transferências Governamentais; Lideranças Femininas; Pacto Federativo Brasileiro. “Queremos, com o apoio dos municípios, identificar onde é necessário investir. Nossa prioridade é a população e suas demandas”, disse Alexandre Padilha, ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República.

Para Salma Bahia, vice-prefeita de Senador Canedo (GO), a participação no encontro reforça o compromisso da cidade com a modernização da gestão municipal. “Esse evento nos proporciona acesso a conhecimentos fundamentais para a administração pública. Além disso, é uma oportunidade única para trocar experiências com outros gestores e conhecer as iniciativas do governo federal que podem beneficiar diretamente nossa cidade”, destacou.

Ministério da Agricultura

O Ministério da Agricultura e Pecuária apresentou aos prefeitos equipamentos como tratores, retroescavadeiras, escavadeiras hidráulicas, pás carregadeiras e caminhões, que podem ser disponibilizados para as prefeituras.

Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios

Especialistas esclareceram dúvidas e forneceram orientações sobre as melhores práticas de utilização do maquinário, especialmente no que se refere às políticas de mecanização agrícola e à recuperação de estradas vicinais, fundamentais para o desenvolvimento sustentável e a modernização do setor agropecuário no país.

É o caso do município de Baliza, em Goiás. O prefeito Neguinho da Areia, do PDT, falou das demandas para atender o segundo maior assentamento rural do país em termos de território e das dificuldades de infraestrutura, como recuperação do asfalto em estradas da cidade. “No nosso município as estradas são muito ruins. Estamos preocupados. Estamos indo atrás dos recursos”, afirmou Areia.

*Jornalista, radialista, técnico em agronegócio e editor-chefe do Agricultura e Negócios.

Show Rural Coopavel 2025: Embrapa e Coopavel lançam inoculante para a cultura do milho

com informações da Embrapa Soja

A Embrapa Soja e a Cooperativa Coopavel estão lançando, no Show Rural Coopavel – que acontece até o próximo dia 14 em Cascavel (PR) – um  novo inoculante para a cultura do milho com as estirpes da bactéria promotora de crescimento de plantas Azospirillum brasilense CNPSo 2083 (Ab-V5) e CNPSo 2084 (Ab-V6). A formulação apresentou eficiência agronômica superior nos testes de avaliação a campo com aumento no potencial produtivo das plantas e redução no uso de adubação nitrogenada de cobertura. O inoculante Azoscoop® é o primeiro produto da biofábrica Biocoop, da Coopavel, e fruto de parceria entre a Cooperativa e a Embrapa.

O lançamento marca a inauguração da fábrica de inoculantes da Coopavel – Biocoop e é um marco para o sistema cooperativista brasileiro, uma vez que esta é a primeira indústria de produtos biológicos em uma cooperativa no Brasil. “Marcamos um avanço na busca por uma agricultura mais sustentável. Nossa iniciativa aproveita recursos naturais para a nutrição de plantas e o controle eficiente de pragas e doenças, fortalecendo a produção sustentável da cooperativa que vai além de grãos e impacta também proteínas animais, como frangos e suínos”, afirma Rogério Rizzardi, coordenador do Show Rural Coopavel.

A principal vantagem desse bioinsumo é aumentar o potencial produtivo do milho e, ao mesmo tempo, oferecer a possibilidade de diminuição no uso de nitrogênio químico em cobertura, explicam os pesquisadores Mariangela Hungria e Marco Antonio Nogueira, da Embrapa Soja. “O registro de um inoculante com formulação aprimorada e resultados robustos a campo permitem a expansão do uso desse bioinsumo, provendo benefícios à agricultura brasileira, com aumento do rendimento associado ao menor uso de fertilizantes químicos nitrogenados”, avaliam.

Foto: Lebna Landgraf / Embrapa Soja

De acordo com os pesquisadores, o inoculante com a nova formulação, denominado Azoscoop®, foi avaliado em sete ensaios de campo com a cultura do milho, por quatro safras, em quatro regiões do Paraná. Na comparação com o tratamento que recebeu 100% de N e não foi inoculado, a inoculação permitiu a redução de 25% do N, mantendo o mesmo rendimento de grãos. E, na comparação dos tratamentos que receberam 75% de N, a inoculação com Azoscoop® resultou em incremento de 12,4% no rendimento de grãos. “Esses resultados comprovam os benefícios do inoculante desenvolvido e confirmam sua eficiência no campo”, afirmam.

Segundo os pesquisadores, os inoculantes contendo bactérias promotoras de crescimento de plantas (BPCP) têm sido cada vez mais utilizados para aumentar a eficiência de uso de fertilizantes químicos. As estirpes de Azospirillum brasilense CNPSo 2083 (Ab-V5) e CNPSo 2084 (Ab-V6) são utilizadas como inoculantes comerciais desde 2009/2010 e representam atualmente um mercado de mais de 20 milhões de doses anuais.

Nogueira explica que os principais benefícios das estirpes CNPSo 2083 (Ab-V5) e CNPSo 2084 (Ab-V6) têm sido atribuídos à capacidade de sintetizar fitormônios (especialmente compostos indólicos), em adição à capacidade, ainda que modesta, de fixação biológica do nitrogênio. “Os fitormônios promovem uma melhora significativa no crescimento e na arquitetura das raízes, aumentando a capacidade de absorção de água e nutrientes e assim aumentam a eficiência de uso do N-fertilizante pelas plantas”, indica.

A pesquisadora alerta para a necessidade do aumento da eficiência de uso de fertilizantes químicos para a produção de grãos e aponta o nitrogênio (N) como o nutriente com grande prioridade, já que é requerido em maior quantidade pelas plantas. “Os inoculantes, com as bactérias promotoras de crescimento de plantas, substituem total ou parcialmente fertilizantes químicos, reduzem os impactos ambientais e aumentam o rendimento das culturas”, explica.

Na visão da Coopavel, um dos diferenciais do projeto é a parceria com a Embrapa, referência mundial em pesquisas e inovação para o campo. “A parceria com a Embrapa garante maior segurança e eficiência ao produto que chega ao mercado, como alternativa viável para reduzir o uso de químicos sem comprometer a produtividade”, afirma Rizzardi. “O emprego de biológicos tende a crescer, devido à sua eficácia e menor custo, beneficiando produtores e atendendo à demanda da sociedade por alimentos mais saudáveis e práticas agrícolas que respeitem o meio ambiente”, completa.

A previsão da Coopavel é iniciar a comercialização do Azoscoop® ainda em fevereiro, atendendo ao plantio de milho safrinha que ocorre em toda sua área de ação. “E este é apenas o primeiro passo da Biocoop pois, ainda em 2025, serão lançados novos produtos que visam auxiliar o produtor rural no controle de importantes pragas e doenças que atingem as culturas desenvolvidas em nossa região”, ressalta Leandro Rudolf Belter, gerente de Biodefensivos da Biocoop.