Conflito Israel-Irã: fechamento do Estreito de Ormuz prejudicaria exportações de carne brasileira ao Oriente Médio, alerta especialista

Enquanto o Conselho de Segurança Nacional iraniano não bate o martelo sobre o fechamento do Estreito de Ormuz, os riscos e impactos dessa decisão sobre a segurança jurídica e à economia brasileiros já estão sendo discutidos. Desde que o Parlamento do Irã aprovou neste domingo (22/6), uma resolução autorizando o bloqueio da região, especialistas têm mapeado o que, na prática, pode acontecer com o Brasil.  

Frederico Favacho, sócio do Santos Neto Advogados e especialista em contratos internacionais de agronegócio, entende que é preciso atenção especial, principalmente nas exportações de carne. “O Brasil tem exportações significativas para países do Oriente Médio, como Arábia Saudita e Emirados Árabes, que podem ser afetadas pela instabilidade no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de petróleo e gás natural liquefeito”, afirma.

Foto: Alexander Bobrov / Pexels.com

No setor de Óleo e Gás, o fato de a rota marítima ser responsável por 20% do transporte global do petróleo, leva à avaliação de que a Ásia será a principal prejudicada, mas com respingos locais. “Apesar de não ser um grande exportador de petróleo bruto diretamente através do Estreito, o Brasil pode sofrer impactos indiretos devido à volatilidade do mercado e possíveis interrupções no fornecimento de outras commodities”, explica Favacho.  

Estreito de Ormuz

O Estreito de Ormuz liga o Golfo Pérsico ao mar de Omã e, dali, ao oceano Índico. Por esta via, transitam diariamente cerca de 17 milhões de barris de petróleo, além de gás natural liquefeito do Catar. A região também é caminho para exportação de mercadorias, mas, no contexto econômico, o termo se refere mais especificamente a produtos básicos ou matérias-primas, como café, soja, petróleo, minério de ferro, entre outras.

Conflito Israel-Irã: como a tensão no Oriente Médio ameaça o preço do petróleo e pressiona o agronegócio global

A recente troca de ataques entre Israel e Irã elevou a tensão no Oriente Médio a um novo patamar, gerando ondas de incerteza que se propagam por toda a economia mundial. O epicentro desses tremores econômicos está no mercado de petróleo. O Irã, um dos maiores produtores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), com uma produção diária que supera os 3 milhões de barris, ocupa uma posição estratégica que pode desestabilizar toda a cadeia de suprimentos.

A principal preocupação dos analistas é o risco de uma interrupção no fluxo de petróleo através do Estreito de Ormuz, uma passagem marítima crítica por onde transita cerca de um quinto do consumo mundial de petróleo. Qualquer bloqueio ou conflito militar nesta área pode levar a uma disparada imediata nos preços. Em resposta à escalada, o preço do petróleo tipo Brent já demonstra forte volatilidade, com projeções de analistas indicando que o barril pode facilmente superar a barreira dos US$ 100, podendo alcançar até US$ 150 em um cenário de conflito prolongado e de maior abrangência.

O efeito dominó no agronegócio

Para o agronegócio mundial, a alta do petróleo não é uma ameaça distante, mas um fator que impacta diretamente a planilha de custos do produtor. A influência se dá por, principalmente, três vias:

Combustíveis e Logística: O diesel é o motor do campo. Ele alimenta tratores, colheitadeiras e os caminhões que escoam a safra do interior para os portos e centros de consumo. A alta do petróleo encarece o diesel, elevando os custos de produção e de transporte. Em países de dimensões continentais como o Brasil, onde a matriz logística é predominantemente rodoviária, o impacto é ainda mais severo, reduzindo as margens de lucro do produtor e encarecendo o frete.

Fertilizantes: A produção de fertilizantes nitrogenados, como a ureia, é um processo de alto consumo energético, utilizando o gás natural – cujo preço é frequentemente atrelado ao do petróleo – como principal matéria-prima. Além disso, o próprio Irã é um importante exportador desses insumos. A combinação de custos de produção mais altos e o risco de sanções ou interrupções no fornecimento da região pressiona os preços dos fertilizantes para cima, tornando o plantio da próxima safra mais caro.

Competitividade de Biocombustíveis: A alta do petróleo torna os biocombustíveis, como o etanol derivado da cana-de-açúcar e do milho, mais competitivos. Isso pode desviar parte da produção dessas culturas para a geração de energia em detrimento da produção de alimentos ou ração, influenciando os preços globais dessas commodities.

    Impacto na mesa do consumidor

    O aumento dos custos de produção no campo inevitavelmente chega às prateleiras dos supermercados. Com insumos e logística mais caros, o preço de commodities agrícolas essenciais como soja, milho e trigo tende a subir. Essa alta eleva os custos da indústria de alimentos e da produção de carnes e laticínios, gerando uma pressão inflacionária que é sentida pelos consumidores em todo o mundo.

    Enquanto a diplomacia busca conter a escalada militar, a economia global prende a respiração. Para o agronegócio, o conflito no Oriente Médio é um lembrete de sua vulnerabilidade às crises geopolíticas e da complexa interconexão entre um barril de petróleo e o preço do pão. A duração e a intensidade desta crise determinarão a profundidade de seu impacto nos custos de produção e na segurança alimentar global.

    Tropas das Forças de Defesa de Israel em posto de patrulha nas Colinas de Golã (Foto: Jayme Vasconcellos / JV Fotografia)

    Cinco aprendizados do modelo japonês de gestão que podem transformar os negócios no Brasil

    Em tempos de alta competitividade e instabilidade econômica, muitos executivos buscam inspiração em modelos internacionais de sucesso para enfrentar os desafios do mercado brasileiro. Um dos mais consistentes é o modelo japonês de gestão, reconhecido globalmente por sua eficiência, disciplina e capacidade de adaptação.

    Empresas como a YANMAR, fabricante de máquinas e soluções compactas para diversos setores da indústria brasileira, que há mais de um século aplica esses princípios no Japão, vêm transpondo esses aprendizados para o Brasil — com resultados que vão além do desempenho financeiro e impactam diretamente a cultura corporativa, a experiência do cliente e a inovação.

    Para compartilhar aprendizados que podem inspirar outras organizações, a empresa lista abaixo cinco pilares do modelo japonês de gestão que estão contribuindo para a performance e resiliência de seus negócios no Brasil:

    1. Foco no cliente: mais do que atender, é compreender

      Na cultura japonesa, a satisfação do cliente não é tratada como um diferencial, mas como uma obrigação natural de qualquer empresa. Isso se reflete em práticas minuciosas de escuta ativa e customização de soluções. No Brasil, a YANMAR adaptou esse princípio investindo fortemente na aproximação com revendas e consumidores finais, por meio de programas internos estruturados para ouvir as necessidades do campo, da indústria, da construção e do mar, seus setores de atuação.

      “Nosso objetivo é identificar com precisão o que o cliente realmente precisa — muitas vezes, antes mesmo de ele perceber a demanda. Essa abordagem nos permite entregar valor real e construir relações mais sólidas e duradouras”, afirma Wagner Santaniello, gerente de Inovação e Marketing da YANMAR South America.

      Essa escuta ativa, segundo ele, é o ponto de partida para toda a cadeia de melhorias e inovações. “A fidelização nasce da atenção constante, da solução rápida de problemas e do compromisso genuíno com o sucesso do cliente”, complementa.

      2. Kaizen: melhoria contínua como cultura de base

        No Japão, o conceito de Kaizen — melhoria constante e incremental — não se limita a grandes reformulações. Pelo contrário: valoriza ajustes diários, que, ao longo do tempo, geram transformações robustas. A prática está enraizada no grupo YANMAR e, no Brasil, é fortalecida com a implementação do YPS (YANMAR Production System), inspirado nos sistemas japoneses de produção enxuta.

        “O Kaizen exige disciplina, envolvimento coletivo e olhar crítico para todos os processos, inclusive os que já estão funcionando. Na YANMAR, incorporamos essas análises contínuas nas rotinas da fábrica e no relacionamento com os clientes”, explica o porta-voz. “A escuta da equipe, por exemplo, é um instrumento valioso para identificar gargalos e testar novas soluções”.

        3. Soluções compactas: menos espaço, mais eficiência

          A filosofia japonesa de soluções compactas nasceu da escassez de espaço no arquipélago e se traduziu em equipamentos menores, versáteis e altamente eficientes. No Brasil, essa mentalidade tem se mostrado estratégica especialmente em áreas rurais pequenas, obras urbanas com espaço limitado, embarcações de pequeno porte e sistemas descentralizados de geração de energia.

          “As máquinas compactas oferecem não apenas economia de espaço, mas também mobilidade, baixo custo operacional e mais facilidade de manutenção. Isso amplia o acesso à tecnologia para pequenos e médios negócios, muitas vezes marginalizados pelas soluções tradicionais”, afirma Santaniello.

          O executivo ainda destaca a versatilidade cruzada como diferencial: “Temos miniescavadeiras atuando no campo, pequenos tratores na indústria e geradores em locais remotos. O foco está na necessidade do cliente, e não na rigidez do uso original do equipamento.”

          Além disso, soluções mais enxutas tendem a consumir menos energia, reduzindo impactos ambientais e operacionais — ponto cada vez mais valorizado em um Brasil pressionado por questões climáticas e de infraestrutura.

          4. Pós-venda e relacionamento: lealdade construída no detalhe

            A cultura japonesa considera que o relacionamento com o cliente só começa de fato após a venda. Esse pensamento se reflete em práticas detalhistas de suporte técnico e acompanhamento contínuo. No Brasil, a empresa estruturou sua área de pós-venda com atendimento dividido por linhas de produto e uma ampla rede de concessionárias.

            “Nosso time de pós-venda atua com agilidade, escutando o campo e promovendo visitas técnicas com o projeto Magokoro, que significa ‘sinceridade’ em japonês. É uma forma de agradecer ao cliente e entender, in loco, como podemos melhorar ainda mais”, explica.

            A coleta sistemática de feedback — por meio de pesquisas e relatórios — retroalimenta os setores de engenharia e qualidade, resultando em produtos mais alinhados às necessidades reais. “Esse cuidado cria confiança. E confiança, num mercado volátil, vale mais do que qualquer desconto”, completa.

            5. Visão de longo prazo: estratégia que atravessa crises

              Enquanto muitas empresas ainda operam com foco em trimestres e lucros imediatos, o modelo japonês valoriza o planejamento estratégico com horizonte de anos. No Brasil, isso tem se traduzido em investimentos sustentáveis e relações comerciais de longo prazo.

              “Temos revendas e fornecedores que estão conosco há mais de 30 anos. Essa longevidade não é fruto de acaso, mas de uma política de confiança mútua e previsibilidade nos negócios”, relata o executivo. “A cultura japonesa nos ensina que, para crescer de forma sólida, é preciso resistir à tentação dos atalhos e construir sobre alicerces bem definidos”.

              Ao manter investimentos em infraestrutura, capacitação e inovação mesmo durante períodos de retração, empresas que seguem essa lógica se tornam mais resilientes a ciclos econômicos adversos.

              Mais do que um modelo de gestão, a filosofia empresarial japonesa representa uma visão de mundo. No Brasil, sua aplicação cuidadosa e adaptada ao contexto local pode ajudar empresas a criar operações mais eficientes, relacionamentos mais humanos e estratégias mais duradouras. E embora os resultados possam levar tempo para aparecer, a recompensa é perene: uma marca confiável, uma equipe engajada e um legado empresarial sólido.

              Foto: Willian Justen de Vasconcellos / Pexels.com

              DATAGRO eleva estimativa da produção brasileira de soja e milho 2024/25

              O mais recente levantamento da DATAGRO Grãos projeta a produção brasileira de soja na safra 2024/25 em 172,0 mi de t, um avanço de 0,4% em relação à estimativa anterior, de 171,2 mi de t, e de 11% sobre a difícil colheita de 2023/24, marcada por severas perdas em várias regiões do país. A recuperação é atribuída tanto ao aumento de área plantada — que atinge 48,0 mi de ha, 4% acima dos 46,2 mi de ha do ciclo anterior — quanto à melhora de 7% no rendimento médio, que chega a 3.585 kg/ha. 

              Apesar do início tardio da semeadura, dado o atraso das chuvas de primavera-verão no Centro-Oeste, a colheita da safra 2024/25 pôde ser completada dentro da janela normal, beneficiada por condições climáticas amplamente favoráveis durante o desenvolvimento das lavouras. Perdas ficaram concentradas no sul do Mato Grosso do Sul, oeste do Paraná e, especialmente, no Rio Grande do Sul, estado que já passa pela quarta quebra de safra consecutiva.  

              Com o ajuste nas projeções, a expectativa é de superávit: a produção deve superar o consumo interno em 576 mil t — o primeiro saldo positivo após cinco anos consecutivos de déficit, ainda que modesto em comparação àqueles registrados em 2019/20 (+1,1 mi de t), 2017/18 (+1,2 mi de t) e 2016/17 (+2,7 mi de t). Para este ciclo, a DATAGRO estima que sejam esmagadas internamente 57,5 mi de t, 3% a mais que no ano anterior, e que sejam exportadas 111,0 mi de t, 11% acima da temporada passada. O balanço positivo ao longo do ano deverá limitar valorizações muito expressivas dos preços do grão brasileiro, mesmo perante os recordes de demanda. 

              Milho

              O novo levantamento DATAGRO também elevou sua expectativa de produção de milho no Brasil, com colheita projetada em 132,7 mi de t em 2024/25. O volume representa um aumento de 0,7% em relação às 131,7 mi de t estimadas no mês anterior e um avanço de 8,7% sobre à colheita 2023/24, que somou 122,1 mi de t.  

              A safra de verão está avaliada em 25,2 mi de t, 2% acima das 24,7 mi de t de 2023/24, mesmo diante de uma redução de 7% da área plantada, consequência de preços baixos predominantes ao longo de 2024 e custos de produção irregulares. O crescimento da produção é atribuído à expressiva recuperação da produtividade, a qual alcançou 6.608 kg/ha, recuperação de 9% frente aos 6.038 kg/ha do ciclo anterior. 

              Foto: Tom Fisk / Pexels.com

              O milho de inverno 2025, responsável por 81% da produção nacional, está projetado em 107,5 mi de t — próximo ao recorde histórico de 108,6 mi de t em 2022/23 e significativamente superior às 87,5 mi de t colhidas em 2023/24, quando as principais regiões produtoras sofreram com estiagem severa. Neste mês, a DATAGRO ajustou a estimativa de produtividade de 5.914 para 5.957 kg/ha, o maior rendimento já registrado para as lavouras de inverno no Brasil e superando em 7% o resultado de 2023/24. A área está estimada em 18,0 mi de ha, 4% acima do último ciclo e praticamente estável em relação ao levantamento anterior. O incremento de área deste ano foi resultado direto da valorização dos preços do cereal no último trimestre de 2024.  

              Mesmo com a forte produtividade, a expectativa é que a demanda supere a produção brasileira em 2,3 mi de t, com o quinto déficit consecutivo de cereal no país, ainda que menos severo que no ano anterior, 4,8 mi de t.   

              Doenças agrícolas podem crescer até 46% nas próximas décadas, segundo estudo da Embrapa

              Com o avanço das mudanças no clima, o campo se depara com um novo tipo de ameaça: o crescimento expressivo das doenças agrícolas. De acordo com estudo recente da Embrapa, a expectativa é que, até o fim do século, a incidência de enfermidades em cultivos como soja, milho, café e cana aumente até 46%. O motivo está na combinação entre temperaturas mais altas e a frequência de eventos extremos, como longas estiagens e chuvas intensas.

              Esse cenário afeta diretamente a dinâmica de pragas, fungos e vírus, alterando os ciclos naturais e favorecendo surtos em períodos antes considerados de menor risco. Doenças como a ferrugem asiática da soja, por exemplo, encontram nas novas condições climáticas um ambiente ainda mais propício para se espalhar rapidamente. O impacto é duplo: econômico e social, já que a agricultura representa parcela significativa da geração de riqueza e empregos no Brasil.

              Arte criada por IA

              Diante dessa realidade, produtores e especialistas têm buscado alternativas ao modelo tradicional de controle, cada vez mais pressionado pela resistência das pragas e pelos danos ambientais. Uma dessas alternativas está no uso de compostos naturais, como os óleos essenciais. Esses produtos têm se mostrado eficientes como aliados às estratégias de manejos mais sustentáveis, pois potencializam a eficiência e pulverização dos defensivos tradicionais, aumentando o poder de efetividade e proteção da lavoura.

              Uma das empresas brasileiras que desenvolvem soluções agrícolas com base em extratos vegetais é a Hydroplan-EB. Um dos seus produtos, o Valko, tem ação inibidora ao desenvolvimento de microorganismos patogênicos e vem sendo utilizado no manejo de doenças como a ferrugem asiática. Formulado a partir de compostos naturais à base de extrato de alho, promove uma ação repelente e expurgante que auxilia os defensivos agrícolas, possibilitando um manejo mais eficiente e sem agredir o meio ambiente. Representando uma alternativa viável e sustentável dentro das boas práticas agrícolas.

              Com a natureza em constante transformação, o agronegócio precisa encontrar o equilíbrio entre desempenho e resiliência. A aposta em tecnologias menos agressivas ao ecossistema, somada à vigilância climática e à inovação contínua, será fundamental para garantir colheitas mais seguras e um futuro sustentável.

              Novo mapa nacional mostra onde há maior potencial para agricultura no Brasil

              Está disponível a versão atualizada do mapa de aptidão agrícola das terras do Brasil, na escala um para 500 mil (1:500.000), que indica em nível regional o potencial das terras para uso com lavouras, em três níveis de manejo, ou para usos menos intensivos, com pastagem plantada, silvicultura ou pastagem natural. Os estudos que resultaram na classificação da aptidão agrícola em todas as regiões brasileiras foram desenvolvidos por pesquisadores da Embrapa Solos (RJ) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com aporte financeiro do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

              O mapa está disponível gratuitamente na plataforma da Infraestrutura de Dados Espaciais da Embrapa (GeoInfo) e no Portal de Dados da Plataforma Tecnológica do PronaSolos. O ativo cartográfico deve subsidiar o direcionamento de políticas públicas relacionadas ao uso da terra e tomada de decisão, em escala regional, para conservação e sustentabilidade da atividade agrícola. A atual versão ainda deve passar por mais uma etapa de revisão e aprimoramento para complementação e melhor adequação das informações disponibilizadas.

              Potencial de uso para lavouras em diferentes tipos de manejo

              Pela metodologia adotada, as terras foram avaliadas quanto às possibilidades de aproveitamento agropecuário tendo em vista suas qualidades naturais e a viabilidade de melhoramento das condições agrícolas por meio do emprego de insumos e aplicação de diversas práticas de manejo, em distintos níveis tecnológicos.

              Para as diferentes classes de solo, foram avaliadas as possíveis interações entre os atributos mais relacionados aos cinco fatores limitantes ao uso agrícola das terras: deficiência de fertilidade, deficiência de água, deficiência de oxigênio (ou excesso de água), suscetibilidade à erosão e impedimentos à mecanização. No caso da avaliação da aptidão para silvicultura foi considerado, adicionalmente, o fator limitante “impedimentos ao enraizamento”.

              Para cada um desses fatores, explicam os pesquisadores, foram atribuídos graus de limitação – nulo, ligeiro, moderado, forte, muito forte, extremamente forte e intermediários –, que expressam o grau de desvio das terras em relação a uma situação ideal. Levando em consideração as diferentes condições socioeconômicas ao alcance do agricultor, foram considerados na avaliação três níveis de manejo (A, B e C), que representam distintos níveis tecnológicos: o primeiro deles (o nível A) contemplando apenas o emprego de técnicas simples e rudimentares; o nível B, para o qual estão previstos recursos tecnológicos intermediários, adequado a produtores de média capacidade de investimento; e o nível C, correspondente à agricultura moderna altamente tecnificada, com aplicação intensiva de capital e tecnologia.

              Foto: Sebastião Araújo

              De acordo com o pesquisador da Embrapa Amaury de Carvalho Filho, essa diferenciação permite identificar o potencial de uso das terras tanto para pequenos produtores rurais, com baixo grau de instrução e descapitalizados, como para agricultores de nível médio e também para a agricultura em escala empresarial. “Assim, por exemplo, uma determinada área com condições topográficas ou de solo desfavoráveis ao emprego de máquinas e implementos agrícolas pode não ser apropriada para a implantação de lavouras altamente tecnificadas, que requerem grande escala de produção, mas em contrapartida pode apresentar boas condições para o uso com agricultura familiar, em nível tecnológico mais baixo, possibilitando boa rentabilidade com modesto emprego de capital”, explica.

              A classificação da aptidão agrícola prioriza as possibilidades de usos mais nobres da terra, como é o caso das lavouras, seguida de usos menos intensivos.

              Para cada condição de manejo especificada no procedimento metodológico adotado – níveis A, B e C – foram identificadas as classes de aptidão agrícola “boa”, “regular” ou “restrita” para o uso com lavouras dos solos que ocorrem nas distintas unidades cartografadas no mapa. Por outro lado, caso o solo apresente condições inadequadas para exploração com culturas agrícolas, foram avaliadas as possibilidades de usos menos intensivos, referentes a pastagem plantada, pastagem nativa e silvicultura. “A avaliação para exploração florestal, ou silvicultura, no nível mais avançado (nível C) foi incorporada como uma inovação à metodologia utilizada. É um diferencial em relação aos trabalhos anteriores”, acrescenta Carvalho Filho.

              O pesquisador reforça que um ponto importante da metodologia é a apresentação em formato digital da classificação da aptidão de maneira conjunta, indicando, ao mesmo tempo, o potencial das terras para uso com lavouras nos três níveis de manejo ou para usos menos intensivos, com pastagem plantada, silvicultura, em nível tecnológico médio ou alto, ou pastagem nativa.

              “Resumindo, esse mapa de aptidão agrícola das terras do Brasil apresenta a classificação para diferentes tipos de uso e níveis tecnológicos de exploração. Assim, para cada unidade espacial delimitada no mapa, e para os seus respectivos solos, são indicadas as classes de aptidão ‘boa’, ‘regular’ ou ‘restrita’ para lavouras nos três níveis de manejo, para pastagem plantada, para silvicultura ou para pastagem nativa, expressando o máximo potencial de uso agrícola de suas terras em nível regional”, detalha o pesquisador.

              Outra indicação é a falta de viabilidade do aproveitamento agrícola de determinadas áreas (classe inapta), caso não apresentem condições mínimas de sustentabilidade econômico-ambiental, devendo ser destinadas à preservação da natureza ou a algum outro tipo de uso não agrícola.

              AgroBrasília 2025: recorde de R$ 5,1 bilhões em negócios gerados e 188 mil visitantes

              com informações da AgroBrasília, Serpro e Agência Brasília

              A Feira AgroBrasília, realizada pela Cooperativa Agropecuária da Região do Distrito Federal (Coopa-DF), encerrou sua edição 2025 no último sábado (24/05) e bateu recorde de público, com 188 mil visitantes registrados no total dos cinco dias de evento. Já o número de negócios realizados foi de R$ 5,1 bilhões. Na edição anterior, o valor foi de R$ 5 bilhões.

              Ao todo, foram 564 expositores e mais de 25 startups presentes no Ambiente de Inovação e Tecnologia – AiTec. A próxima edição já está confirmada e deve ocorrer em maio de 2026.

              Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios

              Comunidade Internacional na AgroBrasília

              No dia da abertura do evento (20/05), foi recebida uma comitiva de 40 ministros da Agricultura de países africanos, liderados pela senadora Thulisile Dladla, vice-primeira-ministra de Essuatíni (anteriormente conhecido como Suazilândia).

              O Dia Internacional da AgroBrasília 2025 contabilizou mais de 20 diplomatas de 25 embaixadas presentes. E, durante a semana, foram recebidas a delegação chinesa e também a comitiva da 3ª Cimeira Internacional das Cooperativas de Língua Portuguesa (CICLP), composta por uma delegação de 30 cooperativas portuguesas.

              Rota do Queijo Artesanal do DF

              Como parte da programação, o Governo do Distrito Federal (GDF) promoveu uma visita guiada com produtores de leite e queijo que integram a Rota do Queijo Artesanal do DF. Focada em práticas sustentáveis e eficientes na pecuária leiteira, a ação foi conduzida pela Emater-DF com o objetivo de apresentar as principais características de uma propriedade leiteira ambientalmente responsável.

              Segundo o governador Ibaneis Rocha, a AgroBrasília tem se consolidado como vitrine para a produção agrícola do DF. “Diversas cadeias produtivas vêm se destacando ao longo dos anos”, apontou. “Temos a cadeia do vinho, que já alcança reconhecimento internacional, e agora estamos incentivando com força a cadeia do queijo, além de várias frutas que estão sendo introduzidas com sucesso na região”. 

              O presidente da Emater-DF, Cleison Duval, ressaltou que a produção de queijos no Distrito Federal está em plena expansão e disse que a empresa garante assistência técnica completa aos produtores rurais, acompanhando todas as etapas do processo produtivo. “No espaço da bovinocultura, mostramos a alimentação adequada que os animais devem receber, com as melhores variedades de capim e as práticas corretas de manejo alimentar —  para búfalas, cabras ou vacas. Acompanhamos a produção do leite desde o início, inclusive, do melhoramento genético das raças, até o incentivo à fabricação de queijos”.

              Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios

              Ambiente de Inovação e Tecnologia

              Uma novidade deste ano foi o Ambiente de Inovação e Tecnologia (Aitec), uma área de 1,2 mil metros quadrados que contou com arena dedicadas a drones, palco para uma programação de painéis e debates, e stands com sistemas voltados para a chamada agricultura 4.0. O Serpro foi um dos destaques do espaço e lançou o Raiz Tech, um sistema especialmente dedicado à cadeia produtiva do agronegócio. “O Raiz Tech vai trazer dados de diversas bases do governo para os diversos atores do ambiente de negócios do agro, como instituições financeiras, cooperativas e o mercado de insumos e equipamentos agrícolas”, explicou Bruno Vilela, superintendente da área do Serpro que cuida de Negócios Estratégicos.

              Raiz Tech: mitigação de risco

              Segundo Vilela, a API oferecida pelo Serpro traz, como primeiro serviço, a identificação e classificação de pastagens degradadas. “Podemos, por exemplo, mostrar para as instituições financiadoras qual o nível de degradação de determinadas pastagens. Assim, o mercado pode fazer uma mitigação de risco, avaliando se vale ou não a pena a oferta de crédito”, exemplificou. O representante do Serpro também divulgou vários sistemas de consulta que serão posteriormente incluídos no Raiz Tech, além de outras soluções que a empresa pública já oferece para o agro brasileiro.

              Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios

              Manejo Integrado do Fogo: estratégia de preservação ambiental pode beneficiar a agricultura

              Em um cenário onde as mudanças climáticas intensificam eventos extremos, o Manejo Integrado do Fogo (MIF) surge como uma estratégia crucial, não apenas para prevenir grandes incêndios florestais, mas também para promover a conservação da biodiversidade e, surpreendentemente, beneficiar a própria agricultura. Essa abordagem multifacetada busca uma convivência mais harmônica e cientificamente embasada com o fogo, reconhecendo seu papel ecológico em determinados biomas e utilizando-o como ferramenta de gestão.

              Ao contrário da política de supressão total do fogo, que por décadas dominou o pensamento conservacionista e muitas vezes resultou no acúmulo excessivo de material combustível, o MIF propõe uma visão mais holística. “O Manejo Integrado do Fogo é uma abordagem que considera os aspectos ecológicos, sociais e econômicos relacionados ao fogo. Não se trata de proibir o fogo, mas de gerenciá-lo de forma inteligente”, explica Isabel Schmidt, professora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB).

              No cerne do MIF estão técnicas como a queima prescrita. Trata-se do uso controlado do fogo por profissionais treinados, em condições meteorológicas específicas e em áreas delimitadas, para reduzir a quantidade de material vegetal seco no solo. Essa prática, ao diminuir o “combustível” disponível, reduz drasticamente o risco de incêndios de grandes proporções e alta intensidade, que são os verdadeiramente devastadores para a fauna e a flora. “Com a queima prescrita, conseguimos criar mosaicos de vegetação em diferentes estágios de sucessão, o que aumenta a resiliência da paisagem ao fogo e favorece uma diversidade maior de espécies”, complementa a docente.

              Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios

              “O fogo pode ser uma importante ferramenta de manejo nos chamados ecossistemas inflamáveis, ou seja, aqueles que evoluíram na presença do fogo, nos quais as queimadas exercem um importante papel nos seus funcionamentos. Queimadas prescritas podem ser utilizadas, por exemplo, para controlar a quantidade de material combustível (o material que vai queimar e sustentar o fogo), evitando-se assim a propagação de grandes incêndios”, reforça a professora Alessandra Tomaselli Fidelis, do Instituto de Biociências de Rio Claro da Unesp e vice-presidente da International Association for Vegetations Science.

              Outra ferramenta fundamental são os aceiros, que são faixas de terreno onde a vegetação foi completamente removida ou significativamente reduzida. Eles funcionam como barreiras físicas, impedindo ou dificultando a propagação do fogo entre diferentes áreas. A construção e manutenção de aceiros estratégicos são vitais tanto em unidades de conservação quanto em propriedades rurais, protegendo ecossistemas sensíveis e infraestruturas.

              Benefícios além da prevenção

              A aplicação do MIF vai além da simples prevenção de desastres. Em muitos biomas brasileiros, como o Cerrado, o fogo é um elemento natural e importante para a manutenção de seus ecossistemas. “Muitas espécies do Cerrado dependem do fogo para completar seus ciclos de vida, seja para a floração, para a quebra da dormência de sementes ou para a renovação de pastagens nativas”, afirma o engenheiro agrônomo Patrick Rossan. A ausência completa do fogo pode levar à perda de biodiversidade característica dessas regiões e à homogeneização da paisagem.

              Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios

              Para a agricultura, o Manejo Integrado do Fogo também apresenta vantagens significativas. A queima prescrita, quando aplicada de forma técnica e responsável em áreas agrícolas, pode auxiliar no controle de plantas invasoras e pragas, na ciclagem de nutrientes no solo e na renovação de pastagens, melhorando sua qualidade para o gado. Além disso, ao reduzir o risco de incêndios descontrolados que poderiam atingir lavouras e instalações, o MIF contribui para a segurança e a sustentabilidade da produção rural.

              “A adoção de práticas de MIF pelo setor agrícola, em diálogo com os órgãos ambientais, é um caminho promissor para diminuir os conflitos históricos relacionados ao uso do fogo e para construir uma paisagem produtiva mais resiliente e integrada ao meio ambiente”, pondera Jayme Vasconcellos, técnico em agronegócio. A chave, segundo ele, está no planejamento, no conhecimento técnico e na cooperação entre todos os envolvidos.

              Dessa forma, o MIF consolida-se como uma estratégia que alia ciência, conhecimento tradicional e gestão territorial para proteger o patrimônio natural, ao mesmo tempo em que oferece alternativas para uma produção agrícola mais segura e sustentável, afastando a antiga visão de que fogo é sempre sinônimo de destruição.

              IA no agro: tecnologia já é realidade no setor e CEOs devem ampliar o uso no próximo ano

              A Inteligência Artificial (IA) tem se consolidado como uma aliada estratégica para o agronegócio, trazendo inovações que transformam a maneira como o setor lida com os desafios diários e as incertezas climáticas. De acordo com um levantamento da Statista, plataforma global de dados e inteligência de negócios, o mercado de IA no segmento deve movimentar cerca de US$ 4,7 bilhões por ano até 2028.

              Já no Brasil, segundo a pesquisa ‘A Reinvenção do Agronegócio Brasileiro’, realizada pela PwC Brasil e divulgada em abril deste ano, 78% dos CEOs do setor planejam investir na integração de IA com plataformas tecnológicas nos próximos 12 meses, um índice superior à média nacional de outros setores, que é de 69%.

              “Esse dado demonstra que o agronegócio brasileiro está mais atento às novas tecnologias, especialmente em um cenário marcado pelas mudanças climáticas e pela necessidade de adaptação constante. A IA oferece soluções que permitem aos produtores fazer frente aos desafios impostos por esses extremos climáticos e, ao mesmo tempo, aumentar a resiliência e a sustentabilidade da produção”, explica Henrique Galvani, CEO da Arara Seed, primeira plataforma de crowdfunding em startups do agronegócio.

              IA como alavanca de produtividade e sustentabilidade no campo

              Segundo o especialista, a aplicação de IA vai muito além da automação de processos: ela representa uma nova era de inteligência no uso dos recursos. Isso inclui redução de insumos químicos, economia de água, minimização de perdas na colheita e melhorias significativas na logística e armazenagem.

              “Hoje já existem diversas soluções disponíveis e acessíveis, como o monitoramento por drones com análise preditiva, a recomendação automatizada de fertilizantes com base na análise de solo, e a previsão ideal de colheita com base em dados climáticos e fenológicos. Com IA, é possível desenvolver uma gestão muito mais precisa dos recursos naturais, com controle em tempo real do clima, da irrigação e do crescimento das plantas”, complementa Galvani.

              Além disso, a IA tem sido cada vez mais utilizada em plataformas de climate intelligence, com modelos que ajudam produtores e cooperativas a anteciparem riscos climáticos e tomarem decisões baseadas em dados. Outro campo em expansão é o uso da IA generativa para modelar cenários de produção e precificação de commodities, apoiar o planejamento logístico e acelerar o desenvolvimento de novas sementes e bioinsumos.

              O futuro do agro será data-driven

              Com a projeção de crescimento acelerado do mercado de IA e a crescente adesão dos líderes do setor, o agronegócio brasileiro demonstra que entende que a inovação tecnológica não é mais uma opção, mas um diferencial competitivo essencial. “A Inteligência Artificial não é mais uma tendência distante. Ela já é uma realidade transformadora que está moldando o futuro do agro e preparando o setor para os desafios de um mundo em constante mudança”, conclui Galvani.

              Foto: jcomp / Freepik

              Portos no limite: gargalos logísticos ameaçam a competitividade do agro brasileiro

              O esgotamento da infraestrutura portuária brasileira tem se tornado um entrave cada vez mais crítico para o setor do agronegócio, afetando diretamente cadeias produtivas como a do café. Segundo Mario Veraldo, CEO da empresa de logística MTM Logix, os problemas não são mais pontuais, e tornaram-se estruturais. “Os portos operam hoje no limite. Equipamentos obsoletos, falta de manutenção e investimentos abaixo do necessário criam um cenário insustentável”, alerta o especialista.

              De acordo com Veraldo, o Brasil investiu apenas 2,2% do PIB em infraestrutura em 2024, quando seria necessário quase o dobro (4,3%) para suprir a demanda projetada para as próximas três décadas. Essa defasagem ocorre justamente em um momento de forte expansão das exportações do agronegócio, que alcançaram US$ 164,4 bilhões no último ano — quase metade (48,9%) das exportações totais do país.

              Custo logístico crescente e atrasos nas exportações

              Em março de 2025, o Brasil deixou de embarcar 637.767 sacas de café, equivalentes a cerca de 1.932 contêineres, devido aos gargalos logísticos, o que gerou um prejuízo de R$ 8,901 milhões, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Desde junho de 2024, houve um prejuízo de R$ 66,576 milhões com custos extras em função da estrutura defasada nos principais portos de escoamento de café do Brasil. O não embarque desse volume de café também fez com que o país deixasse de receber R$ 1,510 bilhão, como receita cambial em suas transações comerciais no mês de março deste ano. 

              Conforme o Boletim Detention Zero (DTZ), elaborado pela startup ElloX Digital, 55% dos navios, ou 179 de um total de 325 embarcações, tiveram atrasos ou alteração de escalas nos principais portos do Brasil em março de 2025. O tempo médio de espera de um contêiner nos portos pode ultrapassar 40 horas e, em alguns casos, chega a dez dias, especialmente em Santos. Veraldo explica que a capacidade instalada atual, de 234 milhões de toneladas, não dará conta da demanda projetada para 2028, que é estimada em 238,9 milhões de toneladas.

              “É preciso ampliar e modernizar os portos urgentemente, desburocratizar processos e investir em tecnologia e alternativas logísticas, como os portos do Arco Norte, que vêm se consolidando como uma rota estratégica para o escoamento da produção agrícola brasileira”, defende o CEO.

              Impactos no setor cafeeiro

              Na outra ponta da cadeia, os reflexos chegam diretamente ao produtor. Rodrigo Reis, gerente de logística da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer), relata que os gargalos afetam desde o planejamento operacional até a receita dos cooperados. “Os custos operacionais extras poderiam ser usados na valorização do café. Ao invés disso, são canalizados para contornar falhas estruturais”, afirma.

              Segundo Reis, a Expocacer adota uma gestão preventiva, com planejamento logístico antecipado e escolha criteriosa de armadores. Ainda assim, enfrenta problemas recorrentes como indisponibilidade de contêineres, alteração de deadlines dos navios e altos custos com pedágios em rodovias de pista simples.

              “A falta de previsibilidade afeta toda a cadeia. Quando o navio atrasa ou antecipa, precisamos reposicionar contêineres, pagar taxas de detention e arcar com prazos estourados. Isso gera um efeito cascata de ineficiência e custo”, explica Reis.

              Para mitigar os prejuízos, a cooperativa intensificou sua atuação institucional. A Expocacer é ativa nos Comitês Logísticos do Cecafé e acompanha as diretrizes da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), buscando representatividade junto aos órgãos reguladores. Internamente, criou um setor dedicado à auditoria das cobranças portuárias, o que tem permitido a reversão de tarifas indevidas e a redução do impacto financeiro sobre os produtores.

              “O Brasil precisa repensar sua logística com urgência. Não adianta promover comercialmente o nosso café no exterior se não conseguimos embarcá-lo com previsibilidade e custo competitivo. Seguimos operando com uma infraestrutura que parou no tempo. Enquanto isso, o volume exportado cresce ano após ano. Essa conta não fecha”, conclui Reis.

              Foto: Divulgação / PR Consulting

              Soluções

              De acordo com a MTM Logix, o cenário exige ação coordenada entre governo, setor privado e produtores. Sem isso, o Brasil corre o risco de ver sua competitividade escorrer pelos vãos de uma logística que já não acompanha seu próprio potencial.

              “A digitalização e a automação despontam como ferramentas estratégicas para transformar a logística portuária brasileira, hoje marcada por ineficiências e altos custos. A adoção de tecnologias inteligentes permite acelerar processos, reduzir erros operacionais e melhorar a gestão das informações ao longo de toda a cadeia logística. Sistemas automatizados agilizam desde a liberação de cargas até o gerenciamento de estoques, diminuindo o tempo de espera e aumentando a produtividade nos terminais”, afirma Veraldo.

              Além disso, a integração digital entre transportadoras, armadores, operadores portuários e órgãos reguladores viabiliza uma comunicação mais fluida e decisões mais assertivas.

              “Para que essa modernização ocorra em escala, no entanto, é indispensável o engajamento do poder público. Políticas voltadas à ampliação dos investimentos em infraestrutura, incentivo à iniciativa privada, desburocratização regulatória, integração entre modais de transporte e qualificação da mão de obra são medidas urgentes para destravar o sistema e preparar os portos brasileiros para os desafios logísticos do futuro”, finaliza o CEO.