Manejo Integrado do Fogo: estratégia de preservação ambiental pode beneficiar a agricultura

Em um cenário onde as mudanças climáticas intensificam eventos extremos, o Manejo Integrado do Fogo (MIF) surge como uma estratégia crucial, não apenas para prevenir grandes incêndios florestais, mas também para promover a conservação da biodiversidade e, surpreendentemente, beneficiar a própria agricultura. Essa abordagem multifacetada busca uma convivência mais harmônica e cientificamente embasada com o fogo, reconhecendo seu papel ecológico em determinados biomas e utilizando-o como ferramenta de gestão.

Ao contrário da política de supressão total do fogo, que por décadas dominou o pensamento conservacionista e muitas vezes resultou no acúmulo excessivo de material combustível, o MIF propõe uma visão mais holística. “O Manejo Integrado do Fogo é uma abordagem que considera os aspectos ecológicos, sociais e econômicos relacionados ao fogo. Não se trata de proibir o fogo, mas de gerenciá-lo de forma inteligente”, explica Isabel Schmidt, professora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB).

No cerne do MIF estão técnicas como a queima prescrita. Trata-se do uso controlado do fogo por profissionais treinados, em condições meteorológicas específicas e em áreas delimitadas, para reduzir a quantidade de material vegetal seco no solo. Essa prática, ao diminuir o “combustível” disponível, reduz drasticamente o risco de incêndios de grandes proporções e alta intensidade, que são os verdadeiramente devastadores para a fauna e a flora. “Com a queima prescrita, conseguimos criar mosaicos de vegetação em diferentes estágios de sucessão, o que aumenta a resiliência da paisagem ao fogo e favorece uma diversidade maior de espécies”, complementa a docente.

Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios

“O fogo pode ser uma importante ferramenta de manejo nos chamados ecossistemas inflamáveis, ou seja, aqueles que evoluíram na presença do fogo, nos quais as queimadas exercem um importante papel nos seus funcionamentos. Queimadas prescritas podem ser utilizadas, por exemplo, para controlar a quantidade de material combustível (o material que vai queimar e sustentar o fogo), evitando-se assim a propagação de grandes incêndios”, reforça a professora Alessandra Tomaselli Fidelis, do Instituto de Biociências de Rio Claro da Unesp e vice-presidente da International Association for Vegetations Science.

Outra ferramenta fundamental são os aceiros, que são faixas de terreno onde a vegetação foi completamente removida ou significativamente reduzida. Eles funcionam como barreiras físicas, impedindo ou dificultando a propagação do fogo entre diferentes áreas. A construção e manutenção de aceiros estratégicos são vitais tanto em unidades de conservação quanto em propriedades rurais, protegendo ecossistemas sensíveis e infraestruturas.

Benefícios além da prevenção

A aplicação do MIF vai além da simples prevenção de desastres. Em muitos biomas brasileiros, como o Cerrado, o fogo é um elemento natural e importante para a manutenção de seus ecossistemas. “Muitas espécies do Cerrado dependem do fogo para completar seus ciclos de vida, seja para a floração, para a quebra da dormência de sementes ou para a renovação de pastagens nativas”, afirma o engenheiro agrônomo Patrick Rossan. A ausência completa do fogo pode levar à perda de biodiversidade característica dessas regiões e à homogeneização da paisagem.

Foto: Jayme Vasconcellos / Agricultura e Negócios

Para a agricultura, o Manejo Integrado do Fogo também apresenta vantagens significativas. A queima prescrita, quando aplicada de forma técnica e responsável em áreas agrícolas, pode auxiliar no controle de plantas invasoras e pragas, na ciclagem de nutrientes no solo e na renovação de pastagens, melhorando sua qualidade para o gado. Além disso, ao reduzir o risco de incêndios descontrolados que poderiam atingir lavouras e instalações, o MIF contribui para a segurança e a sustentabilidade da produção rural.

“A adoção de práticas de MIF pelo setor agrícola, em diálogo com os órgãos ambientais, é um caminho promissor para diminuir os conflitos históricos relacionados ao uso do fogo e para construir uma paisagem produtiva mais resiliente e integrada ao meio ambiente”, pondera Jayme Vasconcellos, técnico em agronegócio. A chave, segundo ele, está no planejamento, no conhecimento técnico e na cooperação entre todos os envolvidos.

Dessa forma, o MIF consolida-se como uma estratégia que alia ciência, conhecimento tradicional e gestão territorial para proteger o patrimônio natural, ao mesmo tempo em que oferece alternativas para uma produção agrícola mais segura e sustentável, afastando a antiga visão de que fogo é sempre sinônimo de destruição.

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